TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.

º 07592/06 Objeto: Prestação de Contas de Gestor de Convênio Relator: Auditor Renato Sérgio Santiago Melo Redator: Conselheiro Fernando Rodrigues Catão Responsável: Valdemar de Sousa Ramalho Interessados: Sonia Maria Germano de Figueiredo e outros EMENTA: PODER EXECUTIVO ESTADUAL – ADMINISTRAÇÃO DIRETA – CONVÊNIO – AJUSTE FIRMADO COM ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA MUNICIPAL – CONSTRUÇÃO DE SISTEMA DE ABASTECIMENTO D’ÁGUA – PRESTAÇÃO DE CONTAS – APRECIAÇÃO DA MATÉRIA PARA FINS DE JULGAMENTO – ATRIBUIÇÃO DEFINIDA NO ART. 71, INCISO II, DA CONSTITUIÇÃO DO ESTADO DA PARAÍBA, E NO ART. 1º, INCISO I, DA LEI COMPLEMENTAR ESTADUAL N.º 18/1993 – Recursos eminentemente estaduais – Inserção no termo de ajuste de cláusula estabelecendo apenas a consulta prévia de preços – Diretiva consignada no regulamento da unidade administrativa – Instrumento regulatório aprovado através de decreto estadual – Ausência do devido procedimento de licitação – Descumprimento ao disposto no art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal – Normas materialmente inconstitucionais – Carência de termo aditivo ao contrato para as alterações efetuadas nas planilhas de custos – Desrespeito ao estabelecido no art. 65, inciso I, alínea “a”, da Lei Nacional n.º 8.666/1993 – Eivas que não comprometem integralmente a regularidade das contas. Afastamento incidental da aplicabilidade do decreto e do regulamento. Regularidade com ressalvas. Expedição de comunicado a autoridades. Determinação. Encaminhamento de cópia da decisão para outro feito. Recomendações. Representação. ACÓRDÃO APL – TC – 151/2013 Vistos, relatados e discutidos os autos da prestação de contas do Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, gestor do Convênio n.º 106/2006, celebrado em 20 de outubro de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, localizada no Município de Bonito de Santa Fé/PB, objetivando a construção de um sistema de abastecimento d’água completo na comunidade SÍTIO BARTOLOMEU, acordam os Conselheiros integrantes do TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA, em sessão plenária realizada nesta data, com a ausência justificada do Conselheiro Arnóbio Alves Viana, vencida a proposta de decisão do relator e o voto do Conselheiro Antônio Nominando Diniz Filho no tocante à imputação de débito e à imposição de penalidade, na conformidade dos votos dos Conselheiros Fernando Rodrigues Catão, Umberto Silveira Porto, Arthur Paredes Cunha Lima e André Carlo Torres Pontes, em: 1) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, com fundamento na Súmula n.º 347 do Supremo Tribunal Federal – STF, AFASTAR INCIDENTALMENTE A

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06

APLICABILIDADE do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do
Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006. 2) Por maioria, também vencida a proposta de decisão do relator e o voto do Conselheiro Antônio Nominando Diniz Filho, na conformidade dos votos dos Conselheiros Fernando Rodrigues Catão, Umberto Silveira Porto, Arthur Paredes Cunha Lima e André Carlo Torres Pontes, JULGAR REGULAR COM RESSALVAS as referidas contas. 3) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, OFICIAR ao Excelentíssimo Governador do Estado da Paraíba, Dr. Ricardo Vieira Coutinho, bem como ao atual Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, informando as referidas autoridades acerca da inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano. 4) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, DETERMINAR ao gestor do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, que se abstenha de afastar o dever constitucional e legal de licitar por meio da inserção de cláusulas nos termos dos convênios celebrados, notadamente quando os recursos envolvidos forem provenientes do tesouro estadual, sob pena de responsabilidade futura. 5) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, ENCAMINHAR cópia desta decisão à Diretoria de Auditoria e Fiscalização – DIAFI para subsidiar a análise das contas do gestor do Projeto Cooperar, relativas ao exercício financeiro de 2013, notadamente no tocante ao estabelecido nos itens “3” e “4” supra. 6) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, ENVIAR recomendações no sentido de que os convenentes, nos futuros ajustes, não repitam a irregularidade apontada nos relatórios dos técnicos desta Corte de Contas e observem, sempre, os preceitos constitucionais, legais e regulamentares pertinentes. 7) Por unanimidade, na conformidade da proposta de decisão do relator, com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal, REMETER cópia das peças técnicas, fls. 74/76, 244/248, 304/306, 320/327 e 348/351, do parecer do Ministério Público Especial, fls. 353/360, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba, destacando, na representação, a inconstitucionalidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006 e do Regulamento do Projeto Cooperar, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006, com vistas à adoção das medidas pertinentes. Presente ao julgamento o Ministério Público junto ao Tribunal de Contas Publique-se, registre-se e intime-se. TCE – Plenário Ministro João Agripino

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 João Pessoa, 20 de março de 2013

Conselheiro Fábio Túlio Filgueiras Nogueira
PRESIDENTE

Conselheiro Fernando Rodrigues Catão
REDATOR

Auditor Renato Sérgio Santiago Melo
RELATOR

Presente:
Representante do Ministério Público Especial

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 RELATÓRIO AUDITOR RENATO SÉRGIO SANTIAGO MELO (Relator): Tratam os presentes autos da análise da prestação de contas do Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, gestor do Convênio n.º 106/2006, celebrado em 20 de outubro de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, localizada no Município de Bonito de Santa Fé/PB, objetivando a construção de um sistema de abastecimento d’água completo na comunidade SÍTIO BARTOLOMEU. Os peritos da antiga Divisão de Auditoria das Contas do Governo do Estado IV – DICOG IV, com base nos documentos encartados aos autos, emitiram relatório inicial, fls. 74/76, constatando, sumariamente, que: a) a vigência do convênio, após o primeiro termo aditivo, foi de 20 de outubro de 2006 a 20 de outubro de 2007; b) o montante conveniado foi de R$ 256.743,44, sendo R$ 218.231,92 oriundos do tesouro estadual e R$ 38.511,52 provenientes da contrapartida da associação; c) as liberações dos valores originários do Projeto Cooperar somaram R$ 217.645,21; d) a empresa CONIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONSTRUÇÃO LTDA. foi contratada em 13 de novembro de 2006 pela quantia de R$ 255.881,69; e) a importância aplicada atingiu R$ 217.373,51 (R$ 216.544,15 pagos à construtora e R$ 829,36 despendidos com encargos bancários); e f) a Anotação de Responsabilidade Técnica – ART emitida pelo Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Paraíba – CREA/PB foi encartada ao feito. Em seguida, os técnicos da unidade de instrução apontaram as irregularidades constatadas, quais sejam: a) ausência dos projetos e dos boletins de medições da obra; e b) divergência entre os valores das liberações constantes nos extratos bancários e os obtidos através do Sistema Integrado de Administração Financeira – SIAF. Após a anexação de cópia de parecer do Ministério Público de Contas, fls. 77/91, destacando a necessidade da realização de licitação nos convênios firmados com recursos oriundos de empréstimos internacionais; a elaboração de relatório complementar pelos especialistas da Corte, fls. 93/98, considerando regular a pesquisa de preços para a execução dos serviços; como também a emissão de parecer pelo Ministério Público Especial, fls. 100/105, ratificando o seu posicionamento acerca da obrigatoriedade de implementação de certame licitatório; foram processadas as citações da então Coordenadora Geral do Projeto Cooperar, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, fl. 107, e do Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, fls. 108/109. A Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo mencionou, resumidamente, fls. 111/238, que: a) o projeto e os boletins de medições reclamados pelos inspetores do Tribunal foram encartados aos autos; b) os recursos transferidos de forma extraorçamentária para a associação comunitária foram provenientes do Convênio n.º 022/2007, celebrado entre o Projeto Cooperar e o Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza no Estado da Paraíba – FUNCEP; e c) o presidente da associação realizou pesquisa de preços em atendimento às normas de operações do Acordo de Empréstimo n.º 4.251/BR.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 Já o Sr. Valdemar de Sousa Ramalho alegou, em síntese, fls. 239/241, que a prestação de contas encontrava-se no Projeto Cooperar e foi devidamente homologada, como também que o procedimento efetuado para a contratação da empresa executora dos serviços estava em consonância com as regras de operações do acordo de empréstimo internacional. Encaminhado o feito à DICOP, os seus especialistas, com base nas aludidas peças contestatórias e em diligência in loco realizada no Município de Bonito de Santa Fé/PB no período de 28 de fevereiro a 04 de março de 2011, emitiram relatório, fl. 244/248, enfatizando que as eivas anteriormente detectadas estavam devidamente esclarecidas. Todavia, quanto aos serviços executados, os analistas da unidade de instrução apontaram o excesso na quantia de R$ 5.900,96, sendo R$ 5.795,96 concernentes aos quantitativos de itens de serviços não constatados e R$ 105,00 respeitantes à ausência de instalação da escada de marinheiro no reservatório. Diante da inovação processual, foram realizadas as citações do atual administrador do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, fls. 250/251, e da empresa CONIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONSTRUÇÃO LTDA., na pessoa do seu representante legal, Sr. Francisco das Chagas Leandro, fls. 252/253, como também efetuadas as intimações da ex-Coordenadora Geral do Projeto Cooperar, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, e do Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, fls. 254/255, contudo, este último deixou o prazo transcorrer in albis. A Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo asseverou, em suma, fls. 257/293, que: a) os pareceres de acompanhamento técnico e a ata de reunião da associação demonstravam as alterações no projeto, com o aumento das ligações domiciliares de 48 para 53 e a modificação da capacidade da tubulação de 60 milímetros para 75 milímetros; e b) a responsabilidade pela manutenção e pela operação do sistema de abastecimento d’água, após a entrega da obra, era da associação comunitária, concorde consta no termo de convênio. O Dr. Roberto da Costa Vital enfatizou, sinteticamente, fls. 294/296, que não existiu nenhum excesso nos pagamentos efetuados, pois o parecer emitido pelos técnicos do Projeto Cooperar esclarecia a possível diferença detectada, diante do aumento do número de ligações domiciliares de 48 para 53 e da modificação na espessura e no diâmetro da tubulação da adutora. Já a empresa CONIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONSTRUÇÃO LTDA. justificou, sumariamente, fls. 298/302, que: a) os tubos de 60 milímetros foram substituídos por outros de 75 milímetros; e b) a ata da reunião da comunidade destacava a alteração do número de ligações domiciliares e as alterações na execução da obra, inexistindo qualquer excesso na execução do sistema de abastecimento d’água. Remetido novamente o álbum processual aos peritos da unidade de instrução, estes, após o cotejo das informações apresentadas nas defesas com os dados colhidos na inspeção ocorrida no ano de 2011, elaboraram peça técnica, fls. 304/306, onde aumentaram o

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 excesso por serviços não executados de R$ 5.900,96 para R$ 8.834,77, sendo R$ 8.729,77 relacionados aos quantitativos de serviços não constatados e R$ 105,00 atinentes à ausência de instalação da escada de marinheiro. Além deste fato, enfatizaram que as alterações constantes na planilha de ajuste final estavam sem respaldo em termo aditivo ao contrato. Depois da anexação de cópia de decisão do Tribunal, que afastou incidentalmente a aplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006 e do Regulamento do Projeto Cooperar, fls. 307/316, os técnicos da Corte concluíram que o procedimento adotado pela associação estava, formalmente, em consonância com os citados dispositivos e que a apreciação da constitucionalidade daquelas normas era uma prerrogativa dos Sinédrios de Contas no exercício de suas atribuições, fls. 318 e 320/327. Efetuadas as intimações do atual e da antiga Coordenadora Geral do Projeto Cooperar, do Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu e da empresa CONIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONSTRUÇÃO LTDA., fls. 328/330, em virtude de mais uma inovação, a Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo solicitou inicialmente a prorrogação de prazo, fl. 331, e, logo em seguida, acostou a sua defesa, fls. 332/342. Os demais interessados não apresentaram quaisquer justificativas. A ex-administradora do Projeto Cooperar, além de repisar os argumentos apresentados em sua contestação anterior, alegou, sumariamente, que: a) os técnicos do Tribunal deixaram de adicionar, nos novos cálculos, diversos serviços na soma de R$ 17.783,25; b) as alterações efetuadas, aumento do número de ligações domiciliares e elevação do diâmetro das tubulações, não modificaram o montante contratado; c) as mencionadas retificações foram aprovados pela associação e pelo Cooperar, conforme ata e parecer; d) o primeiro termo aditivo ao contrato foi anexado aos autos; e) a escada de marinheiro foi instalada quando da entrega da obra; e f) a conservação e a manutenção do sistema de abastecimento d’água era de responsabilidade exclusiva da associação comunitária. Ato contínuo, os inspetores da DICOP emitiram relatório, fls. 348/351, onde mencionaram que o levantamento foi efetuado com base nos dados da inspeção in loco e da planilha de ajuste final, fls. 286/288. E, ao final, sustentaram as eivas descritas na peça técnica de fls. 304/306. O Ministério Público junto ao Tribunal, ao se manifestar conclusivamente acerca da matéria, fls. 353/360, pugnou, resumidamente, pelo (a): a) irregularidade das contas sub examine; b) imputação de débito ao gestor da associação comunitária pelo excesso no montante de R$ 8.834,77; c) aplicação de multas ao Sr. Valdemar de Sousa Ramalho e à Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, o primeiro com base no art. 55 e a segunda com fulcro no art. 56, ambos da Lei Orgânica do Tribunal; e d) envio de recomendação aos convenentes no sentido de guardar estrita observância às normas relativas aos convênios, aos princípios norteadores da Administração Pública, bem como às disposições emanadas desta Corte. A egrégia 1ª Câmara deste Sinédrio de Contas, em sessão realizada no dia 29 de novembro de 2012, através do Acórdão AC1 – TC – 02633/12, fls. 363/365, publicado no Diário Oficial

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 Eletrônico do TCE/PB de 10 de dezembro do mesmo ano, fls. 366/367, diante da possibilidade de declaração de inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865/2006, decidiu avocar o caso para o colendo Tribunal Pleno. Solicitação de pauta, conforme fls. 368/369 dos autos. É o relatório. PROPOSTA DE DECISÃO AUDITOR RENATO SÉRGIO SANTIAGO MELO (Relator): Inicialmente, é importante destacar que os convênios são modos de descentralização administrativa e são firmados para a implementação de objetivos de interesse comum dos participantes, consoante nos ensina o mestre Hely Lopes Meirelles, in Direito Administrativo Brasileiro, 28 ed, São Paulo: Malheiros, 2003, p. 386, in verbis:

Convênios administrativos são acordos firmados por entidades públicas de
qualquer espécie, ou entre estas e organizações particulares, para realização de objetivos de interesse comum dos partícipes.

Da análise dos autos, constata-se que a Coordenadora do Projeto Cooperar à época, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, repassou para a ASSOCIAÇÃO DOS TRABALHADORES RURAIS DO BARTOLOMEU, localizado no Município de Bonito de Santa Fé/PB, a faculdade de realizar apenas pesquisa de preços com 03 (três) firmas especializadas, consoante CLÁUSULA TERCEIRA, INCISO II, ALÍNEA “B”, do instrumento de Convênio n.º 106/2006, fls. 05/09, verbatim:

CLÁUSULA TERCEIRA: DAS OBRIGAÇÕES DAS PARTES CONVENENTES I. (...) II. Caberá à ASSOCIAÇÃO: a) (omissis) b) Realizar pesquisa de preços escrita e no mínimo 03 (três) firmas do ramo pertinente ao objeto do convênio, cuja condição para sua validade é o julgamento processado por comissão composta de 03 (três) membros associados, sendo um deles o presidente da entidade, além da avaliação do ato por técnico do Cooperar;

Ademais, concorde exposto na CLÁUSULA TERCEIRA, INCISO II, ALÍNEA “C”, do supracitado termo de convênio, verifica-se que o procedimento implementado pelo presidente da

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 associação comunitária rural, fls. 21/38 e 153/238, teve como base o regulamento elaborado pelo Projeto Cooperar em 22 de fevereiro de 2006, que estabeleceu normas para aplicação dos recursos repassados para as entidades comunitárias. O referido regulamento, aprovado pelo Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, determinou em seu art. 2º que as entidades comunitárias deveriam realizar uma pesquisa de preços a, no mínimo, 03 (três) empresas do ramo inerente ao objeto pactuado, verbum pro verbo:

Art. 2º. As entidades comunitárias deverão proceder à pesquisa de preços escrita a, no mínimo, 03 (três) firmas do ramo pertinente ao objeto do Convênio, cuja condição para sua validade é o julgamento processado por comissão composta de (03) membros associados, sendo um deles o Presidente da entidade, além da avaliação do ato por técnico do Projeto Cooperar. Parágrafo único. Da pesquisa de preços, poderão participar apenas firmas que atenderem aos requisitos deste artigo e apresentarem, em envelope lacrado separadamente, proposta e documentação, devendo ser aberto primeiro o envelope contendo a documentação: I – Habilitação jurídica com a comprovação de: a) cédula de identidade; b) registro comercial, no caso de empresa individual; c) ato constitutivo, estatuto ou contrato social em vigor, devidamente registrado, em se tratando de sociedades comerciais; d) inscrição do ato constitutivo, com prova de pleno exercício da diretoria, no caso de sociedades civis; II – Regularidade Fiscal com a comprovação de: a) prova de inscrição no cadastro de contribuintes estadual ou municipal, relativo ao domicílio ou sede da Empresa, pertinente ao seu ramo de atividade e compatível com o objeto contratual; b) prova de regularidade com a Fazenda Federal, Estadual e Municipal do domicílio ou sede da Empresa ou outra equivalente, na forma da lei, em original ou cópia autenticada; c) prova de regularidade relativa à Seguridade Social (CND) e ao Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), demonstrando situação regular através de Certidões dentro do prazo de validade, em original ou cópia devidamente autenticada; III – Qualificação Técnica com a comprovação de:

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a) 02 (dois) atestados de Capacidade Técnica, em original ou cópia autenticada, fornecidos por entidades públicas; b) declaração de que não emprega menor de 16 (dezesseis) anos, salvo na condição de aprendiz (inc. XXXIII do art. 7º da Constituição Federal).

Do exame dos referidos instrumentos normativos (Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006), fica evidente que, mesmo admitindo-se a mencionada unidade administrativa como uma das entidades descritas no art. 119 da Lei Nacional n.º 8.666/1993, situação que não ocorre na realidade, o instrumento regulatório elaborado pelo Projeto Cooperar não seguiu as disposições consignadas no referido dispositivo, verbo ad verbum:

Art. 119. As sociedades de economia mista, empresas e fundações públicas e demais entidades controladas direta ou indiretamente pela União e pelas entidades referidas no artigo anterior editarão regulamentos próprios devidamente publicados, ficando sujeitas às disposições desta lei. Parágrafo único. Os regulamentos a que se refere este artigo, no âmbito da Administração Pública, após aprovados pela autoridade de nível superior a que estiverem vinculados os respectivos órgãos, sociedades e entidades, deverão ser publicados na imprensa oficial. (grifo ausente no original)

Com efeito, como é do conhecimento de todos, a Constituição Federal é superior ao restante do ordenamento jurídico pátrio, não podendo seus dispositivos serem dispensados ou alterados pelo legislador infraconstitucional. Portanto, consoante estabelece o art. 37, inciso XXI, da Lei Maior, as obras, serviços, compras e alienações serão contratadas mediante procedimento de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, exceto os casos especificados na legislação pátria. Vejamos o disciplinado na Lex Legum:

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte: I – (...) XXI – ressalvados os casos especificados na legislação, as obras, serviços, compras e alienações serão contratados mediante processo de licitação pública que assegure igualdade de condições a todos os concorrentes, com cláusulas que estabeleçam obrigação de pagamento, mantidas as condições

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efetivas da proposta, nos termos da lei, o qual somente permitirá as exigências de qualificação técnica e econômica indispensáveis à garantia do cumprimento das obrigações. (grifo inexistente no original)

Também é cediço que a Carta da República estabelece, na repartição das competências legislativas, as matérias próprias de cada um dos entes da federação, sendo as normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, de competência privativa da União, concorde determina o seu art. 22, inciso XXVII, senão vejamos:

Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: I – (...) XXVII – normas gerais de licitação e contratação, em todas as modalidades, para as administrações públicas diretas, autárquicas e fundacionais da União, Estados, Distrito Federal e Municípios, obedecido o disposto no art. 37, XXI, e para as empresas públicas e sociedades de economia mista, nos termos do art. 173, § 1º, III;

Por conseguinte, é importante salientar que as hipóteses infraconstitucionais de dispensa e inexigibilidade de licitação são taxativas e estão disciplinadas no Estatuto das Licitações e dos Contratos Administrativos. Assim sendo, o regulamento elaborado pela antiga gestora do Projeto Cooperar e o Decreto Estadual n.º 26.865/2006 ferem frontalmente o estabelecido no texto constitucional e na citada norma infraconstitucional, haja vista que dispensaram indevidamente a realização de procedimento licitatório. Neste sentido, também merece ênfase o fato de que a apreciação da constitucionalidade de leis e atos normativos não é prerrogativa exclusiva do Poder Judiciário. Conforme entendimento sumulado em 13 de dezembro de 1963 e ratificado em diversas oportunidades pelo Supremo Tribunal Federal – STF (Súmula n.º 347), os Pretórios de Contas podem, no exercício de suas atribuições, apreciar a constitucionalidade das normas exaradas pelo Poder Público. Trata-se, pois, de incidente de constitucionalidade (controle difuso ou aberto), onde os Sinédrios de Contas, no caso concreto, afastam a aplicabilidade de uma lei ou de um ato normativo maculado formal ou materialmente de inconstitucionalidade e utilizam, como vigentes, as demais normas existentes no ordenamento jurídico ao tempo anterior à edição do preceito vergastado. Acerca da matéria, trazemos à baila a doutrina de Valdecir Fernandes Pascoal, que, em sua obra intitulada Direito Financeiro e Controle Externo: teoria, jurisprudência e 370 questões

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 de concursos públicos (atualizado com a lei de responsabilidade fiscal – LRF). 4. ed. rev., ampl. e atual. Rio de Janeiro: Impetus, 2004, p. 155, assim se manifesta, ipsis litteris:

Quando examinamos as regras relacionadas ao controle efetuado pelos Tribunais de Contas, especialmente os artigos 70 e 72, constatamos que a própria Lei Maior conferiu ao Tribunal de Contas a possibilidade de analisar a aplicação de recursos públicos à luz do princípio da legalidade. Princípio da legalidade está posto nos referidos dispositivos constitucionais, como sinônimo de ordenamento jurídico. Assim, tendo-se em conta que todas as normas que compõem o ordenamento jurídico (leis, decretos, resoluções, portarias, etc.) devem estar de acordo com a Lei Maior, com a Constituição Federal, ou seja, considerando o princípio da supremacia do texto constitucional, o Tribunal de Contas, no exercício de suas atribuições, poderá apreciar, in concreto, a constitucionalidade de determinada lei ou ato do Poder Público, deixando de aplicá-los por manifesta afronta à Constituição Federal ou Estadual.

Especificamente quanto à execução dos serviços de construção de um sistema de abastecimento d’água completo na comunidade SÍTIO BARTOLOMEU, os especialistas da Corte, com base no projeto, fl. 157, na planilha de ajuste final, fls. 286/288, e nos dados coletados na inspeção in loco, detectaram a ocorrência de pagamentos excessivos no montante de R$ 8.834,77, sendo R$ 8.729,77 relacionados aos quantitativos de serviços medidos e não constatados e R$ 105,00 atinentes à ausência de instalação da escada de marinheiro. Assim, consoante entendimento do Ministério Público junto ao Tribunal, fls. 353/360, a importância acima destacada deve ser imputada ao gestor do convênio, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho. No que tange à ausência de termo aditivo ao contrato, em que pese as justificativas da ex-Coordenadora Geral do Projeto Cooperar, Dra. Sonia Maria Germano de Figueiredo, fl. 334, verifica-se que as alterações nos quantitativos de execução das serventias e nas especificações técnicas de componentes utilizados, apesar de não ter ocorrido acréscimo no custo final, deveriam estar respaldadas em aditivo contratual firmado entre a associação e a empresa CONIL INDÚSTRIA E COMÉRCIO DE CONSTRUÇÃO LTDA., concorde previsto no art. 65, inciso I, alínea “a”, c/c o art. 116, ambos da Lei Nacional n.º 8.666/1993, vejamos:

Art. 65. Os contratos regidos por esta Lei poderão ser alterados, com as devidas justificativas, nos seguintes casos: I – unilateralmente pela Administração: a) quando houver modificação do projeto ou das especificações, para melhor adequação técnica aos seus objetivos;

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Art. 116. Aplicam-se as disposições desta Lei, no que couber, aos convênios, acordos, ajustes e outros instrumentos congêneres celebrados por órgãos e entidades da Administração.

Assim, diante da transgressão a disposição normativa do direito objetivo pátrio, decorrente da conduta do gestor do Convênio n.º 106/2006, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, além do julgamento irregular das contas em apreço e da imputação de débito, resta configurada a necessidade imperiosa de imposição de multa no valor de R$ 2.000,00, prevista no art. 56 da Lei Orgânica do TCE/PB (Lei Complementar Estadual n.º 18, de 13 de julho de 1993), sendo o representante da associação comunitária enquadrado nos seguintes incisos do referido artigo, ad literam:

Art. 56. O Tribunal poderá também aplicar multa de até Cr$ 50.000.000,00 (cinqüenta milhões de cruzeiros) aos responsáveis por: I – (omissis) II – infração grave a norma legal ou regulamentar de natureza contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial; III – ato de gestão ilegítimo ou antieconômico de que resulte injustificado dano ao Erário;

Ante o exposto, proponho que o TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO DA PARAÍBA: 1) Com fundamento na Súmula n.º 347 do Supremo Tribunal Federal – STF, AFASTE INCIDENTALMENTE A APLICABILIDADE do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006. 2) JULGUE IRREGULARES as contas do Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, gestor do Convênio n.º 106/2006, celebrado em 20 de outubro de 2006 entre o Estado da Paraíba, através do Projeto Cooperar, e a Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, localizada no Município de Bonito de Santa Fé/PB, objetivando a construção de um sistema de abastecimento d’água completo na comunidade SÍTIO BARTOLOMEU. 3) IMPUTE ao Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, inscrito no Cadastro de Pessoa Física – CPF sob o n.º 123.380.284-49, débito na quantia de R$ 8.834,77 (oito mil, oitocentos e trinta e quatro reais e setenta e sete centavos), concernente ao pagamento de quantitativos de serviços medidos e não executados.

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 4) FIXE o prazo de 60 (sessenta) dias para recolhimento voluntário do montante imputado aos cofres públicos estaduais, cabendo à Procuradoria Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele período, zelar pelo adimplemento da decisão, sob pena de responsabilidade e intervenção do Ministério Público Estadual, na hipótese de omissão, tal como previsto no art. 71, § 4º, da Constituição do Estado da Paraíba, e na Súmula n.º 40 do eg. Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba – TJ/PB. 5) APLIQUE MULTA ao Presidente da Associação dos Trabalhadores Rurais do Bartolomeu, Sr. Valdemar de Sousa Ramalho, no valor de R$ 2.000,00 (dois mil reais), com base no que dispõe o art. 56 da Lei Complementar Estadual n.º 18/1993 – LOTCE/PB. 6) ASSINE o lapso temporal de 30 (trinta) dias para recolhimento voluntário da penalidade ao Fundo de Fiscalização Orçamentária e Financeira Municipal, conforme previsto no art. 3º, alínea “a”, da Lei Estadual n.º 7.201, de 20 de dezembro de 2002, com a devida comprovação do seu efetivo cumprimento a esta Corte dentro do prazo estabelecido, cabendo, igualmente, à Procuradoria Geral do Estado da Paraíba, no interstício máximo de 30 (trinta) dias após o término daquele período, velar pelo inteiro cumprimento da deliberação, sob pena de intervenção do Ministério Público Estadual, no caso de inércia, tal como previsto no art. 71, § 4º, da Constituição do Estado da Paraíba, e na Súmula n.º 40 do eg. Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba – TJ/PB. 7) OFICIE ao Excelentíssimo Governador do Estado da Paraíba, Dr. Ricardo Vieira Coutinho, bem como ao atual Coordenador Geral do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, informando as referidas autoridades acerca da inaplicabilidade do Decreto Estadual n.º 26.865, de 23 de fevereiro de 2006, e do Regulamento do Projeto Cooperar, de 22 de fevereiro do mesmo ano. 8) DETERMINE ao gestor do Projeto Cooperar, Dr. Roberto da Costa Vital, que se abstenha de afastar o dever constitucional e legal de licitar por meio da inserção de cláusulas nos termos dos convênios celebrados, notadamente quando os recursos envolvidos forem provenientes do tesouro estadual, sob pena de responsabilidade futura. 9) ENCAMINHE cópia desta decisão à Diretoria de Auditoria e Fiscalização – DIAFI para subsidiar a análise das contas do gestor do Projeto Cooperar, relativas ao exercício financeiro de 2013, notadamente no tocante ao estabelecido nos itens “7” e “8” supra. 10) ENVIE recomendações no sentido de que os convenentes, nos futuros ajustes, não repitam a irregularidade apontada nos relatórios dos técnicos desta Corte de Contas e observem, sempre, os preceitos constitucionais, legais e regulamentares pertinentes. 11) Com fulcro no art. 71, inciso XI, c/c o art. 75, caput, da Constituição Federal, REMETA cópia das peças técnicas, fls. 74/76, 244/248, 304/306, 320/327 e 348/351, do parecer do Ministério Público Especial, fls. 353/360, e desta decisão à augusta Procuradoria Geral de Justiça do Estado da Paraíba, destacando, na representação, a inconstitucionalidade do

TRIBUNAL DE CONTAS DO ESTADO PROCESSO TC N.º 07592/06 Decreto Estadual n.º 26.865/2006 e do Regulamento do Projeto Cooperar, ambos publicados no Diário Oficial do Estado – DOE de 24 de fevereiro de 2006, com vistas à adoção das medidas pertinentes. É a proposta.

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