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Revista Vértices No.

12 (2012)

Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

DAVID REUBENI E O MESSIANISMO JUDAICO PORTUGUÊS NA PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XVI DAVID REUBENI AND THE JEWISH-PORTUGUESE MESSIANISM IN FIRST HALF OF 16th CENTURY

Sezinando Luiz Menezes1 Saulo Henrique Justiniano Silva2

RESUMO O presente trabalho busca compreender o fenômeno messiânico judaico português na primeira metade do século XVI, bem como o desenvolvimento deste a partir da aparição de David Reubeni em Portugal, este que se apresentara como embaixador de um reino judeu na Arábia, fez com que muitos cristãos-novos acreditassem nele como sendo o Messias consolador, dando origem a uma onda de fervor messiânico no reino que será contido após a instauração do Tribunal do Santo Ofício. PALAVRAS-CHAVE Messianismo Judaico, Cristãos-Novos portugueses, David Reubeni.

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Doutor em História Econômica pela USP, Docente e Pesquisador do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá (DHI/UEM) e do Programa de Pósgraduação em História (PPH/UEM). l.menezes@uol.com.br
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Especialista em História das Religiões pela UEM, Mestrando do Programa de Pósgraduação em História da Universidade Estadual de Maringá (PPH/UEM). Professor de História da rede particular de ensino. saulojusti@gmail.com

David Reubeni. geram uma crise de valores. que até então se conhecia. as contestações frente às corrupções e a venalidade que atingiam os setores e domínios eclesiásticos católicos (MOTA. As descobertas ultramarinas. as well as the development of this from the appearance of David Reubeni in Portugal. os avanços turco-otomanos rumo ao ocidente. KEYWORDS Jewish Messianism. As tentativas de explicar o agora inexplicável mundo que se descortinava diante dos olhos suscitou entre os europeus destes tempos uma capacidade inigualável de criação de utopias que. outrora tão caros aos europeus: ideias de que a terra era plana e de que após a expulsão dos mouros da península ibérica a Europa estaria livre da ameaça do “infiel” islâmico. buscavam compreender aquele momento impar. who introduced himself as an ambassador of a Jewish kingdom in Arabia. causing many new-Christians to believe in him as the Messiah comforter. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo ABSTRACT This paper seeks to understand the Messianic Jewish Portuguese phenomenon in the first half of the sixteenth century. 2008). fizeram com que o mundo. Tais ideias. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. . se mostrasse um longo e tenebroso abismo desconhecido. além de a Igreja Católica ser a única detentora da verdadeira fé cristã. A modernidade. entre outras coisas. colocadas em cheque. giving rise to a wave of messianic fervor that will be contained in the kingdom after the establishment of the Court of the Holy Office. foi um momento de profundas mudanças na ideia de mundo que até então fora disseminada durante a Idade Média. O historiador Sezinando Menezes lembra-nos de autores que demonstravam a possibilidade de conhecimento empírico da realidade material. mais do que um período na vasta delimitação historiográfica. Portuguese New-Christians.Revista Vértices No. somados à reforma protestante.

tínhamos os protestantes Thomas Munstzer e os anabatistas na Alemanha. p. o uso da força era inevitável. na leitura de Thomas Morus. Fiori difundiu a ideia de que a história estava dividida em três idades: a primeira do Pai. dóceis criaturas dos textos sagrados. 206). Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo como o caso de Francis Bacon com Nova Atlântida de 1627. para tanto. que se baseavam nas profecias do abade calabrês Joaquim de Fiori do século XII. que. Neste período. 206) O autor ainda lembra-nos que “há unanimidade entre os historiadores em considerar que se produziu na Europa. “os cordeiros. 1996. Dentre aqueles que acreditavam que o juízo final estava próximo. também se desenvolveram teorias messiânicas e milenaristas que liam aquele momento como o predecessor da volta de Jesus Cristo.Revista Vértices No. Jean Delumeau. a partir do século XIV. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. a segunda do Filho e a última do Espírito Santo. do juízo final ou da chegada do Messias judeu. p. em devoradores de homens” (2011. Neste período tínhamos também aqueles que pregavam o possível retorno de Cristo e consequentemente o dia do juízo de forma pacifica como os Joaquimitas. em História do Medo no Ocidente. nos orienta que “os últimos anos do século XV e os primeiros anos do XVI indicam um dos momentos da história em que o Apocalipse apoderou-se mais fortemente da imaginação dos homens”. um reforço e uma difusão mais ampla do temor dos tempos derradeiros” (DELUMEAU. que tinham transformado. ao mesmo tempo em que surgiam utopias que buscavam racionalidade nas relações que se estabeleciam entre o homem e a realidade agora existentes. a cristandade assumiria tal evolução que não necessitaria de instituições que regessem a vida do fiel. 163). A idade do Espírito seria uma era de plenitude e paz que duraria mil anos e . buscavam através da força chegar o mais rápido possível ao grande julgamento. sendo esta também chamada de reinado do espírito. (1996. p. em suas concepções. ou até mesmo a possibilidade de compreensão da situação das enclosures na Inglaterra do XVI. semelhante aos ingleses diggers.

D. 1996 apud VAINFAS. de envenenar os poços e rios e ter parte com o demônio. apesar de ter “expulsado” os judeus de seu território. pois sabia da importância que o capital judaico tinha para a empresa ultramarina lusitana.Revista Vértices No. citado por Jean Delumeau em Mil anos de Felicidade. não tinha vontade política para isso. e viu neste ato uma manobra. o Venturoso. Os judeus europeus passaram por diversas ondas persecutórias. 27). 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. uma história do paraíso.Manuel I. que visava uma possível união ibérica sob o domínio português ao se . parafraseando Jean Delumeau em seu livro Jerusalém Colonial. D. quando estes são acusados de causadores das epidemias. era adepto das crenças Joaquimitas. rei de Portugal. que “prenunciavam as transformações decorrentes da transição do feudalismo para o capitalismo. 37). mais especificamente. Feita uma breve análise do momento em que a Europa vivia. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo antecederia a volta de Cristo. Segundo o historiador Luis Felipe Thomas. A historiadora Jacqueline Hermann lembra-nos que cada região tinha suas especificidades no desenvolvimento de seus movimentos messiânicos como no caso Inglês. A expulsão dos judeus do reino de Espanha em 1492 e o batismo forçado em Portugal em 1497 coroaram um processo de perseguição que se estendia aos israelitas desde a idade média. rei de Portugal entre 1495 e 1521. Manuel I. o que fortaleceu o feudalismo” (1998. o caso judaico/cristão-novo português. ressalta que “os teólogos Cristãos do período destacado elegeram os judeus como um dos mais perigosos inimigos da Cristandade” (DELUMEAU. ou até mesmo o alemão que expressava as reações à segunda servidão. Ronaldo Vainfas. além de recair sobre os mesmos a tradicional atribuição da crucificação de Cristo. 2010. acentuadas durante o período da peste negra em meados do século XIV. p. p. buscar-se-á neste excerto compreender o desenvolvimento do caso português.

apesar de não terem mais acesso às sinagogas. A comunidade cristã-nova portuguesa depois do Decreto de 1497. seguindo rotas para Itália e Flandres. nesta época D. apoiados nas profecias bíblicas. A “expulsão” judaica fora motivada como condição imposta pelos monarcas vizinhos para a consumação da união. Manuel. houve uma manifestação popular contra os cristãos-novos que acabou com a morte de centenas destes em fogueiras improvisadas nas praças de Lisboa (GREEN. 2011. ou a livros da tradição judaica. Segundo Mayer Kayserling. como foram chamados os judeus em Portugal após a conversão forçada.Revista Vértices No. 2009). gozavam de certas liberdades no reinado manuelino. apesar de não sofrer nenhuma perseguição institucionalizada. diferente dos monarcas espanhóis. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. por isso os cristãos-novos. além de conceder aos conversos proteção durante 30 anos. Neste contexto de opressão. Apesar da condenação dos culpados do massacre de 1506. em sua obra História dos Judeus em Portugal. 1972). não cedeu à instauração do tribunal do Santo Ofício em suas terras. KAYSERLING. e assim que soube mandou prender os cristãos envolvidos na chacina e logo os condenou ao enforcamento e à decapitação. que poderia acontecer a qualquer momento. 2010). grande parte dos cristãos-novos depois dos acontecimentos deixou o país. os cristãosnovos. . na capital do país. O rei português. os cristãos-novos eram odiados em Portugal e temiam a eminente instauração do Tribunal do Santo Ofício. trouxeram à tona os ideais escatológicos messiânicos de um redentor que mudaria a sorte do povo de Israel e que sempre estiveram presentes no imaginário judaico da diáspora (WERBLOWSKY. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo casar com a infanta Isabel. Em 1506. não se encontrava na cidade. que. filha dos reis de Espanha (VAINFAS. fora atacada pela população católica que insistia em fazer justiça com suas próprias mãos e combater as heresias. caso Dom Manuel não resistisse às pressões que só tendiam a crescer. perseguição e humilhação.

orientado pelo Capitulo sétimo do livro de Daniel3. ao se aprofundar nos estudos de cabala. em seus escritos de 1497. são quatro reinos que se levantarão da terra (DANIEL 7: 17). baseando. 1998. 4 Porque mil anos são aos teus olhos como o dia de ontem que passou. while a full day of God.nos nas noções propostas por Benzion Netanyahu em seu livro Don Isaac Abravanel: Statesman and Philosopher. Don Isaac Abravanel. Cabe-nos entender o pensamento de Abravanel sobre este fato. p. “contudo isto se refere apenas à parte iluminada do dia.142). como afirma a historiadora portuguesa Maria José Ferro Tavares: Os turcos avançavam rumo ao ocidente. o Islã ameaçava a cristandade. consists of two thousand years (NETANYAHU. compreendendo um dia e uma noite. de certa forma. O cabalista. Abravanel. que. Afonso IV de Portugal. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. se via envolta em corrupção.ousavam invadir Roma e ameaçar o papa. o rei de França e o imperador – Carlos V . Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Existia um cenário que. p. pelos excertos de Rabi Eliezer do século VIII e também pelo Talmud dizia que a subjugação de Israel estava perto do fim. 3 Essas feras enormes. judeu. em número de quatro. escreveu sobre a vinda do Messias consolador.Revista Vértices No. 225)5. parecia estar por anteceder a era messiânica. 5 This referred only to the illuminated part of the day. Lutero e Henrique VIII separavam-se de Roma (1991. por outro lado. concluiu que o sofrimento do povo hebreu duraria o tempo de quatro reinos e tais reinos teriam a duração de um dia para Deus. comprising a day and a night. que quando escreveu seu estudo se encontrava no exílio em terras italianas. p. consiste então em cerca de dois mil anos” (NETANYAHU. e como a vigília da noite (SALMO 90: 04). enquanto o dia todo de Deus.225) . Baseado no Salmo 904 o pensador acredita que um dia de Deus se consolida em mil anos para os mortais. estadista e filósofo da Corte de D. 1998.

225). astrônomo da corte portuguesa. since according to the divergent opinion this ‘day’ would be shortened by two-third of an hour. Para eles. o Babilônico. . Nesta ideia. O Messias poderia chegar a qualquer momento dentro desse espaço de tempo. a alma posta em Adão representa o Messias e o sexto dia. nenhum estudo teve maior repercussão entre o povo oprimido do que aquele apresentado por Abravanel. ano judaico. 1998. Abravanel buscou em outras fontes comprovações para sua tese e as encontrou no capítulo décimo primeiro do Talmude. 1998. e o próprio Abraão Zacuto. Além do famoso Don Isaac Abravanel. faltando apenas o personagem. 6 However. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. aqui.6 sendo assim a data da redenção é encurtada para o ano 5263 do calendário judaico. uma hora equivale a 83 anos. o Messias viria na quarta hora do sexto milênio. 56 anos” (NETANYAHU. namely. através da figura messiânica. ou 1503 da era cristã. No entanto. No entanto “existem divergências sobre o ‘dia’ que poderia ser encurtado em dois terços de uma hora. outros judeus e cristãos-novos na península ibérica escreveram e anunciaram a redenção de seu povo. que escreve o livro Consolações às Tribulações de Israel. 225). o sexto milênio. ou seja. quando se dá a invasão do rei Nabucodonosor a Jerusalém. Segundo seus estudos. Entre eles estão Samuel Usque. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Segundo Abravanel o sofrimento do povo de Israel começou em 3319. o rei mencionado representa o primeiro reino. onde está escrito que a alma de Adão fora colocada em seu corpo na quarta hora do sexto dia da criação. ano judaico. by 56 years (NETANYAHU. tinha-se aí o cenário e o script para o início da era messiânica.Revista Vértices No. por isso a quarta hora do sexto milênio iria do ano 5250 do calendário judaico ou 1490 da era cristã até 5333 do calendário judaico ou 1573 da era cristã. p. De acordo com esta leitura bíblica. p. e acabará em 5319.

que acreditavam que o descobrimento das dez tribos perdidas demonstraria o dia da redenção do povo judeu. miúdo. para que possamos guerrear contra turco Solimão e arrancar de seu poder a Terra Santa (apud KAYSERLING. meu irmão. 1991). 1987. no entanto.103). como era chamado seu lugar de origem. Ajude-nos. cheio de coragem. por isso o monarca lusitano. rei e senhor. o também império expansionista turco. um judeu de estrañas tierras chamado David Reubeni” (TAVARES. 2009. 251). David Reubeni afirmou também que o reino do Habor. e em seu pronunciamento disse-lhe: Eu sou Hebreu e temo o Senhor. João III.Revista Vértices No. 251)7. and also half tribe of Manasseh (ADLER. 1987. 216-217). 7 Thirty thousand of the tribe of Gad and the tribe of Reuben. Tais revelações feitas por Reubeni. reunia as tribos perdidas de Israel. a fim de pedir auxílio. rei dos judeus a Vós me enviou. onde foi acolhido com muitas honras. acerca das tribos perdidas de Israel. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. pois. foi recebido na corte de D. passando pela rota de “Tavira. 216). Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Por volta de 1526 chegou a Portugal. esquelético e. Com uma carta de apresentação do Papa Clemente VII e se declarando embaixador de um longínquo reino judeu na Arábia governado por seu irmão. de arrojo e de comportamento decidido” (KAYSERLING. Como já exposto. e também de meia tribo de Manassés” (ADLER. político e com pretensões de pedir ajuda da cristandade contra um inimigo comum. David Reubeni se apresentava como embaixador. p. Beja e Évora vindo de Roma. fascinaram muitos cristãos-novos peninsulares. p. . Deus do Universo. 1991. p. 2009. p. Este homem descrito como “preto. segundo seus relatos. seu irmão reinava sobre “trinta milhares da tribo de Gad e da tribo de Rúben. A crença na reunião das tribos estava intimamente ligada às descobertas de judeus negros no reino da Etiópia pelos portugueses (TAVARES. p. este que herdara o trono de seu pai em 1521.

que por ter recebido boa educação ocupava o cargo de escrivão dos ouvidores na Casa de Suplicação. que sabia do perigo que isto traria: se o rei soubesse que um cristãonovo se convertera ao judaísmo através de um ato tão decisivo como aquele. mudou seu nome de batismo para o nome judeu Salomão Molcho e buscou aproximação com o dito embaixador para que este desvendasse e interpretasse seus sonhos. e aos 24 anos já tinha escrito uma poesia sinagogal esmerada entre seus pares (KAYSERLING. O aparecimento de David Reubeni fascinou na capital portuguesa um jovem cristão-novo chamado Diogo Pires. 2009). contudo foi “recebido friamente e quase repelido” (KAYSERLING. a notícia da presença de um príncipe judeu em Lisboa e a honra que este recebera do rei provocou excitação entre os cristãos-novos em Portugal. sem dúvida o acusariam de influenciar o mancebo. Grande estudioso de Cabala. Alguns o consideraram o Messias salvador enviado por Deus. A notícia de que o jovem tinha se circuncidado trouxe grande indignação a Reubeni. Sobre a ação adotada por Salomão Molcho diante da não aceitação de Reubeni. Kayserling narra: Pensando que o príncipe e suposto Messias o ignorasse por não trazer ainda em si o sinal do pacto. 217). de que resultou uma hemorragia que o acamou (2009. não recusou o pedido do suposto embaixador e combinou um plano de como enviar ajuda bélica portuguesa ao reino israelita na Arábia. 217). p. atormentado por visões e sonhos de fundo messiânico. o jovem em questão já tinha conhecimento de hebraico e aramaico.Revista Vértices No. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. 2009. já que a aparição deste estava de acordo com o tempo estipulado nos estudos proféticos de Don Isaac Abravanel. que. O surgimento de Reubeni causou grande fervor místico em Pires. sujeitou-se a essa perigosa e dolorida operação. p. No entanto. . Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo interessado no poder que poderia exercer nestas regiões ainda não exploradas pelo imperialismo português.

1918. 1987. requerer ajuda para conquistar a Terra Santa. p. cujo 8 They believed in me with a perfect faith. as Israel believed in our Master. p. mas eu sou um homem de guerra desde a minha mocidade até agora. incomodado com os comentários a seu respeito e suas possíveis pretensões messiânicas escreveu: Eles acreditavam em mim com uma fé perfeita. 1997. João III (KAYSERLING. Ele seguiu os ordenamentos celestiais e rumou para a atual Turquia. dizia ter recebido sonhos em que Deus o ordenava a abandonar Portugal e seguir em direção ao oriente. eram sinais claros de sua tarefa redentora para parte significativa dos cristãos-novos. p. . 288). como Israel acreditava em nosso Mestre. Seus sermões contagiantes. but I am a man of war from my youth till now. ou o agora Salomão Molcho. p. David Reubeni. suas pretensões por si só já soavam messiânicas.Revista Vértices No. Ter se declarado judeu na corte de um rei anti-semita como D. Moisés. já era prova de que Deus estava de seu lado e. and that I have not come to you with a sign or miracle or mystery. Diogo Pires. Moses. ter sido recebido com honras. 2009) e não ter sofrido por isso. em quem haja paz! E eu disse a eles em muitos lugares que eu sou o filho do rei Salomão. e eu vim para pedir ajuda ao seu rei para ir ao caminho que deve me levar para a terra de Israel (apud Adler. além disso. 288). Dizia-se que o embaixador “a mando de seu irmão reconduziria a nação judia dispersa para a Palestina” (DELUMEAU. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Reubeni se preocupava com sua imagem diante da monarquia portuguesa. Por onde o jovem passou conquistou muitos adeptos. 30). ao contrário. 183) e que “ele estava recrutando um exército de trezentos mil guerreiros para lutar contra os turcos e reconquistar a Terra Santa” (AZEVEDO. e que eu não vim para eles com um sinal ou milagre ou mistério. mas durante sua estada no país surgiram diversas lendas sobre seus objetivos ali.8 Por mais que Reubeni negasse. on whom be peace! And I said to them in every place we came to that I am the son of King Solomon. 1987. and I have come to help your King and to help you and to go in the way he shall lead me to the land of Israel (apud Adler. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. Em seu diário de viagem.

e o início da Idade Média. não apenas entre os cristãos-novos. Sefarad é traduzida como Ispania ou Spania (VAINFAS. mas também entre setores intelectuais da sociedade. capital da Lídia. inclusive entre seus antigos companheiros de sofrimento. Vaz Bugalho passou também a se corresponder com os principais lideres de perspectivas messiânicas em Portugal. além de aprender os ritos da fé mosaica. Na versão aramaica da Bíblia Hebraica. como mestre Gabriel em Lisboa e Luís Dias em Setúbal. É interessante percebermos que os ideais de uma breve redenção do povo de Israel estavam presentes no cotidiano cristão-novo português. principalmente depois de ver a conversão de um cristão-velho tão importante e a sua adoção da causa messiânica. um cristão-velho chamado Gil Vaz Bugalho se converteu ao judaísmo. 2010. Sefarad era uma colônia de exilados de Jerusalém localizada no deserto de Negueve. chegando ao ponto da conversão ao judaísmo de alguns destes. 9 Segundo o relato bíblico do profeta Abdias. pequena vila da Ásia menor. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo conteúdo principal era a eminente vinda do Messias. passou a estudar Hebraico e. a traduzir o Pentateuco e outros textos bíblicos. . 2003). Pesquisas arqueológicas do século XX identificaram a Sefarad bíblica em Sardes. os cristãos-novos portugueses. A conversão de Gil Vaz Bugalho deixou D. Setúbal. a publicar um resumo de seus sermões em 1529 na cidade de Salônica. A passagem de Reubeni em Portugal despertou fascínio. a pedido de muitos.Revista Vértices No. João III temeroso de que uma onda de fervor religioso entre os cristãos-novos atingisse seu reino. Évora. Lisboa e Trancoso são exemplos disso. o obrigou.C. o Targum. sendo este seu principal mentor espiritual (LIPINER. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. Fato é que: a fama de Pires Molcho crescia principalmente entre os sefarditas9 de parte da Europa. 27). compilada entre o início da diáspora de 70 d. p. como um aluno dedicado. Em Évora. Havia núcleos messiânicos espalhados por todo reino.

Este Homem – David Reubeni – teria conquistado muitos criptojudeus a sua causa. pois temiam por sua segurança.194. dizia: Há três anos havia chegado de longínquo país um judeu profetizando a vinda do Messias. 2009. (AZEVEDO. se voltando à antiga fé de Moises” (KAYSERLING. O acontecimento acima descrito causou queixas da rainha de Espanha e a insistência do inquisidor Selaya para que o monarca português seguisse o exemplo de seu reino. De fato os meliantes foram entregues e pagaram com a vida por tal ousadia. cada vez mais incitados. Lá provocaram algumas desordens e conseguiram arrancar à força uma mulher do tribunal inquisitorial. não se sabia o que os cristãos-novos. 219).Revista Vértices No. descobriu-se em . Tal acontecimento despertou grande fúria entre os membros do clero católico espanhol: Selaya. a libertação da nação judaica e a reconstrução do reino hebreu. p. A carta de Selaya. Sabia-se que a cada dia que passava muitos judeus convertidos ao cristianismo de forma forçada estavam voltando ao judaísmo e aderindo à causa messiânica. seguiram para a cidade espanhola de Badajoz. 2009. baseado em alguns acordos entre Portugal e Espanha. munidos de armas nas mãos.219). ficou extremamente furioso e enviou uma carta a Dom João III. o inquisidor de Badajoz.. 2009. p.) todo o povo judeu deveria ser destruído. De fato. 1918. p. em que. e David Reubeni com seus seguidores queimados impiedosamente. 218). inflamados de fervor messiânico. datada de 30 de março de 1528. apesar dos perigos. Neste momento. p. diversos setores da sociedade portuguesa pediam a instauração da Inquisição. poderiam vir a fazer. O bispo de Coimbra fez revelações surpreendentes ao rei português. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. exigiu a entrega e punição dos envolvidos no incidente (KAYSERLING. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Alguns cristãos-novos espanhóis refugiados na cidade portuguesa de Campo Maior. dizendo “que muitos sábios cristãos-velhos estavam. Tanto ele como seus adeptos eram hereges na verdadeira acepção da palavra (. KAYSERLING..

que se declarou o próprio Messias e mantivera um número considerável de seguidores. citando documentos da época. No entanto. neste contexto. João III de instaurar em Portugal um tribunal Inquisitorial. Elias Lipiner. É bem sabido que havia desejo de D. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Évora um grupo de cristãos velhos que se converteram ao judaísmo. o agora “experiente” monarca podia tomar suas próprias decisões. Dentre as primeiras vítimas do tribunal do Santo Ofício estará Luís Dias de Setúbal. apenas quatro anos depois teremos o primeiro auto de fé em Lisboa (GREEN. Contudo. D. 2011). outrora citado. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. que como sua avó materna. não pôs em funcionamento a Inquisição em terras lusitanas logo no início de seu reinado. Apesar de a Inquisição lusitana ter iniciado suas atividades em outubro de 1536 na cidade lusitana de Évora. em 1529 já haviam passado mais de oito anos do início de seu reinado. Este. que tinha se convertido ao judaísmo neste período (LIPINER. 1993). de alcunha Bandarra de Trancoso. Depois de vários pedidos e muitas respostas negativas. Manuel sobre os problemas econômicos que isso poderia causar ao crescente império. pois fora admoestado pelos ministros de seu pai D. em 23 de maio de 1536. que fora condenado e queimado juntamente com seu líder e mentor espiritual. dentre os tais. No primeiro auto de fé foram condenados os principais nomes do profetismo judaico-messiânico em Portugal. Começou então uma série de pedidos do rei português à Santa Sé para a liberação da instauração do tribunal inquisitorial. nos mostra: . dentre os quais se encontrava o desembargador. nutria ódio pela raça judaica. estará um cristão-velho de nome Gonçalo Anes. dentre os quais se encontrava Gil Vaz Bugalho. João III conseguiu a bula de permissão assinada por Paulo III que regularizava o funcionamento do Tribunal do Santo Ofício no reino de Portugal. Gil Vaz Bugalho.Revista Vértices No. Sobre as acusações feitas a este personagem.

ouvindo tais sugestões. Molcho respondeu como um santo. onde exercitava o ofício de sapateiro. agora façam o que . e que não tinha nenhum envolvimento com os movimentos de profetismo cristão-novo: Um grande leão se erguerá E dará grande bramido. foi julgado e condenado à fogueira em Mântua. por cuja causa foi preso e penitenciado (1993. Seus escritos. Correrá e morderá. um dos principais lideres messiânicos sefardita. como o padre jesuíta Antônio Vieira no século XVII. Grande Rei dos arianos A todos subjugará (BANDARRA apud LIPINER. E fará muitos danos. nem escrever. 1997). Por sua causa. 1993. qual um anjo divino: “Meu coração ficou triste e abatido pelo tempo que perdi. não foi queimado. por sua vez. como visto. p. 314). que atraíram grande leva de cristãos-novos a seguir o sapateiro de Trancoso como um profeta. Bandarra. serão usados como fator de importante legitimação do Sebastianismo décadas depois. apesar de. 3435). Mayer Kayserling narra a bravura de Pires Molcho diante da morte: Colocaram-lhe uma rédea no maxilar e arrastaram-no ao fogo. De fato suas trovas sugerem diversas interpretações. na atual Itália. Embora não soubesse ler. de Trancoso. por isto. superiormente ilustrado com dom de profecia. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo Gonçalo Anes Bandarra. Pires Molcho. p. Quando já em frente às labaredas ardentes. que predizia a vinda do Messias iminente. toda a cidade se encontrava em alvoroço. e David Reubeni foi transferido para a Espanha (DELUMEAU. Seu brado será ouvido A todos assombrará.Revista Vértices No. um dos servos imperiais lhe propôs que comprasse a vida com uma conversão sincera ao cristianismo. em sua defesa este provara que suas trovas foram feitas em louvor a Deus e homenagem ao Rei Dom João III. sendo até mesmo aclamado como profeta pelos cristãos. ter sido preso e sentenciado. se valia de mão alheia para divulgar suas trovas que compunha e que eram respeitadas pelo povo como profecias. Julgou-se. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia.

Apesar de muitos cristãos-novos terem sido julgados e condenados pela Inquisição portuguesa. mesmo porque o tribunal Inquisitorial limitava seu poder de jurisdição aos pertencentes à fé cristã. Segundo Kayserling (2009) e Cecil Roth (1957) o mesmo fora transportado para Llerena onde permaneceu preso por oito anos. Domingo. em 1542. p. existem debates bibliográficos sobre o fim que este personagem messiânico teve. fora julgado e sentenciado a morrer em Badajoz. alfaiate da cidade de Llerena. local este que exerceu grande influência.Revista Vértices No. (TAVARES. Pela falta de provas com relação ao possível reino judaico na Arábia.. cultura e religiosidade ibérica. não só entre os cristãos-novos de perspectiva messiânica. albuçiador para leevar los cristianos nuevos a terra de promysyon. 1991. . A data sugerida pelos dois últimos historiadores se baseia no auto de fé de Afonso Fernandes de Medelim10. p. 144). Entendemos que a discussão sobre a data e o lugar onde o misterioso Reubeni morreu não se compara à importância que sua vida teve. Já Israel Salvator Révah (1958) e Maria José Ferro Tavares (1991) defendem a tese de que Reubeni fora executado na própria cidade espanhola de Llerena no ano de 1538. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. é comumente afirmada pelos historiadores a tese de que Reubeni morreu cristão. como também nos mais diversos setores da sociedade europeia quinhentista. ao abrigo de seu Pai” (2009. e as esperanças 10 El judio Davit qui dezian del çapato estubo em el Reyno de Portogal. 8 de Setembro de 1538.. possivelmente morto no mesmo dia em que o Messias do Habor. a influência destes se manteve ao longo dos séculos. principalmente no pensamento. como dantes. 236). Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo quiserem e volte minha alma. que durou cerca de 300 anos. ou mesmo de sua origem judaica. O Messias não deixou de ser aguardado. El qual dixo u probico quel Mexias prometido em la ley no era venido y qual venya por. Quanto a David Reubeni.

LIPINER. Toby. Jean. 12 (2012) Departamento de Letras Orientais da Faculdade de Filosofia. pp.Revista Vértices No. História dos judeus em Portugal. Elkan Nathan. Rio de Janeiro: Imago. Moisés de Lemos. 1997. New York: Cornell University Press. acesso em 29/05/2012. Lucio. 50ª Ed. Braga: Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (Universidade do Minho). pp. 163-181. São Paulo: Cia das Letras. em Revista Brasileira de História das Religiões. Don Isaac Abravanel. 1993. São Paulo: Perspectiva. O sapateiro de Trancoso e o alfaiate de Setúbal. Inquisição. Lisboa: Livraria Clássica Editora. New York: Dover Publications. 2007. 1983 a 1995. 2ª Ed. DELUMEAU. KAYSERLING. DELUMEAU. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo de consolação do povo de Israel nunca deixaram de existir entre aqueles que se mantiveram fiéis à fé de seus antepassados. Mil anos de felicidade: uma história do paraíso. Bibliografia ADLER. Jacqueline. 1998. Jewish Travellers in the Middle Ages. São Paulo: Cia. o reinado do medo. PINTO. Sezinando Luiz. . AZEVEDO. Jean. XI (2011). MOTA. 2009. GREEN. O Jesuíta e o Sapateiro: De Regno de Christi in Terris Consumatto. 1987. A Evolução do Sebastianismo.uem. 2011 HERMANN. No reino do desejado: a construção do sebastianismo em Portugal (Séculos XV e XVII).1300-1800. Meyer. 1996. Rio de Janeiro: Objetiva. História do medo no ocidente .dhi. Elias. Manuel (Orgs.pdf>. Statesman and Philosopher. disponível em <http://www. NETANYAHU. das Letras. No. 1998. 1918. Maria. MENEZES.). Benzion. São Paulo: Companhia das Letras. Apogeu e Decadência do Império Português: o profetismo bandárrico.br/gtreligiao/pdf10/09. Comunicação e Cidadania – Actas do 5º Congresso da Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação. em MARTINS.

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