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Breve Análise do Projeto de Lei de Conversão n 7, de 1999 ( Medida Provisória n.º 1885/99)

É imprescindível que a modificação de uma legislação como o Código Florestal seja avaliada considerando, entre outros aspectos os impactos sobre os ecossistemas brasileiros, principalmente porque existem inúmeros processos ecológicos essenciais cuja manutenção depende fundamentalmente da proteção restritiva conferida pelas Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais definidas pela referido instrumento . A maioria das demandas geradas no âmbito da sociedade civil junto aos órgãos públicos, no sentido de garantir a conservação ambiental, estão associadas ao uso deste diploma legal. O texto original da referida lei conta com profundas bases conceituais Conservacionistas pois o mesmo referenda a manutenção de inúmeros processos funcionais básicos dos biomas brasileiros, promovendo a proteção da biodiversidade biológica (flora e fauna), a manutenção de corredores ecológicos, a proteção dos solos contra perda de nutrientes e erosão, a proteção de encostas contra instabilidade e desmoronamentos, a proteção e manutenção da qualidade dos recursos hídricos, e a manutenção da ciclagem de nutrientes e produtividade nos ecossistemas. Alterar a lei 4771/65, sem o necessário debate prévio significa retirar sumariamente o regime de proteção que vigora sobre todos os aspectos supra mencionados. Tal estratégia equivocada e antidemocrática, já foi exaustivamente utilizada através da edição de inúmeras medidas provisórias, sendo a ultima a MP1885 /99, o que Lei desde 1965. representa uma flagrante inconstitucionalidade, uma vez que a matéria já havia sido estabelecida na forma da

A cobertura vegetal como suporte para as cadeias tróficas e inúmeras interações entre organismos , bem como sua íntima ligação com o solo e o meio físico constitui a base dos ecossistemas. Quando esta ligação é rompida , a microbacia hidrográfica, que é a unidade de gestão básica definida pela Política Nacional de Recursos Hídricos através da Lei 9433/97, é submetida a uma cadeia de processos de degradação, com inúmeras implicações socioambientais.

º 1885/99). se as mudanças retrógradas propostas no Projeto de Lei de Conversão n 7. tais como o Decreto 750/93 (que protege o Domínio da Mata Atlântica). A Legislação que protege a flora e a fauna ameaçada de extinção. contidas nas Unidades de Conservação. bem como centenas de diplomas legais que compõe a legislação ambiental brasileira. estão subestimadas e tendo sua conservação prejudicada. que têm grande importância. com relação ao seu papel de grande guardião de 1/3 da biodiversidade do planeta contando apenas com as reservas de biodiversidade. insignificante. resgatado de Henke-Oliveira (1996): “. As propriedades particulares. são áreas permeáveis (sinônimo de áreas livres) públicas ou não. com cobertura vegetal . comparado a outros países menores no mesmo Deve ser ressaltado que a Política Nacional do Meio Ambiente (Lei 6. que na proposta do PL. serão profundamente enfraquecidas e prejudicadas com alterações irresponsáveis no Código Florestal Brasileiro. Áreas Tombadas.. A Importância das áreas Urbanas A proposta de alteração do Código Florestal inicia alterando a proteção legal das áreas verdes urbanas. .se praticamente nulos. considerando as dimensões continentais do pais. inúmeras diretrizes de uso e ocupação do solo em diferentes esferas de competência (Áreas de Proteção Ambiental.2 Compromissos Legais Nacionais O Brasil não pode ter a pretensão de querer honrar seus compromissos com a sociedade brasileira e a comunidade internacional.938/81). sendo cada vez mais objeto de estudos especializados. de 1999 ( Medida Provisória n. Planos Diretores) sofrem um profundo abalo. tornando .. a Lei da Política Nacional dos Recursos Hídricos. que se relacionam à proteção de ecossistemas. entre outras. Áreas Verdes Urbanas Podemos evidenciar o conceito de “áreas verdes” utilizado como referencial . que inclusive. exercem uma importante função sócioambiental consolidada pela Constituição Brasileira. Estas áreas remanescentes nas manchas urbanas em todo o país cumprem funções relevantes e já contam com Conceituação própria. possui um percentual continente.

nos quais muitas vezes são divulgados índices de metros quadrados de áreas verdes por habitante. representando também elementos estéticamente marcantes na paisagem (função estética). trilhas. inclusive florestas e bosques da comunidade. independentemente da acessibilidade a grupos humanos ou da existência de estruturas culturais como edificações. como forma de melhorar o clima. e proporcionar habitats para plantas e animais “ . dentro da perspectiva do desenvolvimento sustentável. de forma resumida. temperatura e outros parâmetros associados ao bem-estar humano (funções de lazer). define. e grupos de cidadãos locais no planejamento e criação de espaços e cinturões verdes. estimados através de critérios variados. denominada “Cuidando do Planeta Terra: Uma estratégia de vida para o futuro”. na Tabela 1 A conservação e manutenção de áreas verdes nas cidades têm sido apontada como uma diretriz mais do que consolidada em centenas de documentos técnicos relacionados ao planejamento urbano. A importância de considerar as áreas verdes têm se revelado inclusive nos estudos de planos diretores urbanos. “ As funções associadas às áreas verdes na cidade e suas implicações ecológicas. iluminação elétrica. elaborados por técnicos e pesquisadores de instituições nacionais e internacionais. verde e eficiente”. dentre suas ações prioritárias: “Tornar a cidade limpa. com significado ecológico em termos de estabilidade geomorfológica e amenização da poluição e que suporte uma fauna urbana. além de ser uma diretriz do PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente). planejadores. principalmente aves. que em sua parte II. 1991). recomendando aos administradores municipais: “Cooperar com os políticos. sociais e estéticas são expostas ainda. arruamento ou equipamentos afins. Como exemplo da crescente preocupação mundial com áreas verdes nas cidades podemos citar a publicação conjunta (PNUMA/IUCN/WWF. insetos e fauna do solo (funções ecológicas). empresariado. as funções ecológicas sociais e estéticas poderão redundar entre sí ou em benefícios financeiros (funções econômicas). como indicadores de qualidade de vida e qualidade ambiental.3 predominantemente arbórea ou arbustiva (excluindo-se as árvores no leito das vias públicas) que apresentem funções potenciais capazes de proporcionar um microclima distinto no meio urbano em relação à luminosidade. prover alimentos. apoiada por entidades não governamentais expressivas no contexto conservacionista mundial.

Prevenção de deslizamentos. 1999). absorção. causada pelas grandes áreas edificadas Valorização visual e ornamental do espaço urbano Caracterização de espaços: elemento de interação atividades humanas/ ambiente . voçorocas. ravinamento e perda de solos Preservação dos recursos hídricos para abastecimento e recreação Biofiltração Movimentos de massas de ar Fluxo de organismos tro e entre fragmentos rurais e o meio urbano Atenuação sonora Estética Conforto térmico e difusão de gases tóxicos e material particulado do ar Aumento da riquesa da flora e fauna Realce na biofilia Conforto acústico Melhoria da Qualidade ambiental Quebra da monotonia da paisagem.4 Tabela 1 – Funções das áreas verdes urbanas e suas implicações (Fontes: HENKEOLIVEIRA. 1996. LOMBARDO. e reflexão de radiação luminosa Fotossíntese. Funções Interceptação. da água e de escoamento superficial.1990 apud GUZZO. Produção Primária Líquida Fluxo de Energia Implicações Ecológicas Manutenção do equilíbrio dos ciclos biogeoquímicos Manutenção de altas taxas de evapotranspiração Manutenção do micro clima Manutenção da fauna Eliminação de materiais tóxicos particulados e gasosos e sua incorporação nos ciclos biogeoquímicos Economia de nutrientes e solos Contenção dos processos erosivo Favorecimento do processo sucessional Redução do escoamento superficial Infiltração de água pluvial ( maior permeabilidade) Prevenção de inundações Recarga de aquífero Diminuição na amplitude das hidrógrafas Manutenção do clima Manutenção da diversidade genética Aspectos etológicos da fauna Implicações Sociais Conforto térmico Conforto lúmnico Conforto sonoro Manutenção da biomassa com possibilidade de integração da comunidade local Melhoria na qualidade do ar.

e que geralmente define a tipologia vegetal. A mata ciliar ocorre nas porções de terreno que incluem tanto a ribanceira de um rio ou córrego. estabilização das ribanceiras do rio através da manutenção do emaranhado de raízes. o regime das águas. . interceptando e absorvendo a radiação solar. Temos um grande gradiente em umidade de solo.5 A Importância das Áreas de Preservação Permanente A mata ciliar entre outras desempenha sua função hidrológica através das seguintes formas. a proteção dos abrigos de espécimens raros da fauna indígena. a proteção de sítios que por sua beleza natural merecessem ser conservados. que se interligam entre si independente da classificação como área urbana ou rural. Princípios que nossas autoridades insistem em desconsiderar.934. entre os terrenos mais altos e o ecossistema aquático. aplica os seus dispositivos ás florestas existentes no território nacional. situadas em áreas de preservação permanente segundo o conceito atual. além da proteção de espécimens preciosos. Breve Histórico Já em 1. por motivo de interesse biológico ou estético. mantém a estabilidade térmica dos pequenos cursos d’água. a erosão promovida pelos agentes naturais. como também nas superfícies de inundação. Observamos que o Código Florestal de 1. tampão e filtro. levando ao caos o crescimento urbano. em especial os recursos hídricos. sem discriminar áreas urbanas de áreas rural. de um lago ou reservatório. evitando o assoreamento das bacias hidrográficas. chegando até às margens do corpo d’água. proporciona cobertura e alimentação para peixes e outros componentes da fauna aquática. em função do declive.934 O Código Florestal classifica as florestas e aquelas. bem como as demais formas de vegetação reconhecidas de utilidade às terras que revestem. Apresenta já naquela época preocupação com. são denominadas florestas protetoras. impede ou dificulta o carregamento de sedimentos para o sistema aquático. as condições de salubridade pública. e a conservação e proteção dos recursos naturais renováveis.

que pôr sua vez alterou a redação original desta alínea concebida pela Lei 4. a área como um todo. pois o que se pretende conservar e preservar é uma situação física. com relação a constantes inundações.771/65. ao longo dos anos de existência e aplicação do Código Florestal. A vegetação em áreas de preservação permanente.6 O artigo 2º do Código Florestal. o Código Florestal. é um aumento na extensão das faixas consideradas áreas de preservação permanente de acordo com a largura do rio e a sua cota máxima de inundação.2º . nenhuma legislação .511. foi dada pela Lei n° 7. a redação atual é mantida pela Lei 7. definida no Art. Muitas vezes o dano. são os principais ocupantes das áreas de preservação permanente as margens dos cursos d’agua. pois a lei da natureza não respeitaria tal acordo. pois o que se pretende conservar e preservar é uma situação física. que permita a ocupação e uso destas áreas. . que com raras exceções.. que além da perda do banco genético que implica na redução da biodiversidade. 2º e 3º da lei 4. A redação do atual Art. continuando a seguir o seu curso natural do ciclo das águas.803 de 15 de julho de 1989 . que alterou a redação dada pela lei 7. a redação dos itens desta alínea foi dada pela Lei 7511. podendo atingir aspectos regionais.803 de18/07/89. Não cabendo a nosso ver. não se restringem ao local afetado com a supressão da vegetação. mais especificamente a alínea a. de 07/06/86. de 07 de julho de 1986. pois tais atividades estariam degradando ou impedindo a regeneração da área de preservação permanente A vegetação em áreas de preservação permanente. foi revisto algumas vezes. a área como um todo. E o que observamos nas varias revisões feitas. A destruição de florestas situadas em Áreas de Preservação Permanente provoca impacto ambiental evidente e mensurável. de 15/09/65. Estas alterações ocorreram em função da constatação da ineficiência dos critérios técnicos adotados. aos cofres públicos e mais diretamente as populações pobres. propor a redução da referida faixa. Inoportuno portanto e caminhar na contra mão da evolução da legislação ambiental no país e as técnicas mais recentes. Além do acelerado processo de erosão e assoreamento da rede de drenagem natural. independe do seu porte ou composição. pois estamos lidando com áreas mais suscetíveis a erosão. enchentes com vultuosos prejuízos principalmente nas áreas urbanas.771. independe do seu porte ou composição. A primeira alteração.

Compromissos Internacionais Os principais documentos internacionais firmados pelo Brasil. o pais tem o maior numero de espécies de plantas e de mamíferos do planeta. as áreas com maior biodiversidade. prioritariamente a RL .Reserva Legal ao titulo de cada propriedade visando uma distribuição homogênea dos recursos naturais e da qualidade ambiental e principalmente manter amostras significativas de todos os ecossistemas com seus endemismos. mantendo a maior variedade de organismos vivos. A Importância da Reserva Legal A importância da Reserva Legal consiste na manutenção da biodiversidade ou seja tem a função de manter amostras significativas de todos os ecossistemas. Além da dificuldade operacional e legal de fiscalizar tais operações de compensar Reserva Legal em outras regiões. . A manutenção da Reserva Legal em áreas contíguas as APPs . que estão sendo desrespeitados com as mudanças propostas no Projeto de Lei n. desde que claramente delimitadas de acordo com as normas vigentes.Reserva Legal. motivo pelo qual a legislação. para que não se tornem irreversíveis. auxiliam na formação de corredores.7 assoreamento e outros processos degradadores do meio. e concentrando em outras uma melhor qualidade de vida. para atender às presentes e futuras gerações. Sendo o Brasil classificado em 1º lugar em riqueza natural. comunidades e ecossistemas. na nossa região vincula a cada propriedade o percentual de no mínimo 20% para áreas já desbravadas e de 50% para as áreas incultas.Áreas de Preservação Permanente com certeza seria a situação ideal. contemplados no texto do Código Florestal de 1965. liderando portanto o Ranking da Megadiversidade. visando a dispersão de espécies e a troca genética. populações e ecossistemas. deve contemplar. A compensação dificilmente proporcionaria ganho ambiental. • Convenção sobre Diversidade Biológica – Conservação da Biodiversidade.º 7 . e vincula a RL . mudanças estas que ferem os princípios básicos da conservação da biodiversidade e equilíbrio ambiental. que devem ser interrompidos o mais rápido possível. cita apenas a recuperação de áreas. pois estaríamos penalizando determinadas áreas. com as suas devidas alterações estabelecidas por Lei. A legislação em vigor não permite a compensação da reserva legal em outro local.

educacional. . • Tratado de Cooperação Amazônica – Promover o desenvolvimento harmonioso e distribuição eqüitativa dos benefícios do desenvolvimento entre as partes. cientifico e recreativo. Em 1994. cientifico. água. solo. lixo. clima. com a participação e assinatura do Brasil como signatário. genético. • Convenção para a Proteção da Flora. da Fauna e Belezas Cênicas Naturais dos Países da América. econômico. biotecnologia. através do Decreto Legislativo nº 2 o Congresso Nacional aprova o texto da Convenção sobre Diversidade Biológica. • CITES – Convenção sobre Comércio Internacional de Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção.Relativa às Áreas Úmidas de Importância Internacional –Proteção das áreas úmidas reconhecendo seu valor econômico.Diretrizes para o desenvolvimento sustentável a longo prazo. cultural. • Convenção de RAMSAR . cultural. desertos. social.Carta de Princípios para um novo estilo de vida na terra • Agenda 21. a partir de temas prioritários. tais como desmatamento. • Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento . recreativo e estético da diversidade biológica e de seus componente Em 1992 o texto da Convenção sobre Diversidade Biológica é aprovado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e desenvolvimento realizada na cidade do Rio de Janeiro.8 Conscientes do valor intrínseco da diversidade biológica e dos valores ecológico.