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Estudos sobre o ritual de Mimuna - Um exercício etnográfico Wagner Lins

Resumo Este artigo pretende realizar um exercício etnográfico através de um estudo comparativo do ritual de Mimuna. O ritual de mimuna é realizado principalmente pelos judeus marroquinos e significa a celebração do fim da páscoa judaica o Pessach . Para muitos essa celebração tem suas origens em rituais pagãos, para outros é uma celebração tipicamente judaica, mas que representa setores do judaísmo, e não o judaísmo como um todo. Através da comparação dos dados etnográficos coletados nos festejos de mimuna nas comunidades marroquinas de Israel e dentre os descendentes de judeus marroquinos radicados na Amazônia, poderemos vislumbrar muitas discussões. Dentre elas a heterogeneidade do judaísmo, ou a aproximação do método antropológico dos estudos judaicos, ou ainda a observação do dinamismo e da mutabilidade dos fenômenos culturais e religiosos.

Palvras-chave: Mimuna, Judeus Marroquinos, exercício etnográfico, trocas culturais.

Abstract This article intends to accomplish an ethnographical exercise through a comparative study of the ritual of mimuna. The mimuna ritual is accomplished mainly by the Moroccan Jews and it means the celebration of the end of Jewish Easter, Passover. For many that celebration origins in pagan rituals, for others it is typically a Jewish celebration, but that represents sections of the Judaism, and not the Judaism as a whole. Through the comparison of the ethnographical data collected in the mimuna feasts in the Moroccan communities of Israel and among the descendants of Moroccan Jews rooted in the Amazonian, we can shimmer a lot of discussions, in subjects as the heterogeneity of the Judaism, or the approach of the anthropological method of the

Wagner Lins, Antropólogo, Doutorando do programa de Língua Hebraica Cultura e Literatura Judaicas – USP.

Jewish studies, or still the observation of the dynamism and of the changeability of the cultural and religious phenomena.

key-words: Mimuna, Moroccan Jews, ethnographical exercise, cultural changes.

Apresentação
Este artigo tentará aproveitar uma única oportunidade para propósitos vários. De uma perspectiva mais ampla, esta pesquisa em processo chama atenção para a diversidade interna existente no judaísmo, e que o judaísmo não pode ser visto como algo uniforme em nem um de seus aspectos. Sejam estes religiosos, étnicos, e porque não dizer genéticos. Dentre essa diversidade pinçamos o ritual de mimuna como objeto central deste artigo, já que este ritual ainda hoje permanece desconhecido de muitas comunidades judaicas, mas que também, se torna uma festa cada vez mais recorrente no Estado de Israel. Estudar o ritual de mimuna além de chamar atenção para a diversidade judaica, nos permite vislumbrar outros aspectos do judaísmo. Como por exemplo, o judaísmo marroquino-sefaradita que se conserva na região amazônica há quase dois séculos. E nos permite desenvolver também um outro olhar diferenciado da sociedade brasileira, e da sociedade amazônica mais especificamente. Mas além de tudo isso, o estudo da mimuna permite uma abordagem do judaísmo por meio de uma perspectiva antropológica. Principalmente a partir da coleta de dados através do método etnográfico e da observação participante, pontos chave da Antropologia. Todos os dados coletados sobre o ritual de mimuna em Belém do Pará, em Israel, através de jornais, revistas, internet, observação da preparação e dos rituais

propriamente ditos, juntamente com depoimentos de diversos interlocutores, constituíram uma etnografia vasta e plural que servirá de corpo para este trabalho. E este artigo será construído em cima da comparação de dados etnográficos coletados em diversas incursões aos festejos de mimuna nos últimos três anos. Após esta ligeira explanação do propósito do texto, esclareceremos como este será construído. Iniciaremos por explicar o que é a comemoração de mimuna, e seus diversos significados, as várias explicações para seu mito de origem, e outras controvérsias que envolvem este ritual. A seguir faremos um apanhado sobre como se constituiu a festa de mimuna na comunidade de Belém, assim como, aspectos da introdução do ritual de mimuna em Israel. E antes das conclusões finais faremos uma comparação entre as comunidades de Belém e de Israel de um vasto repertorio simbólico utilizado no ritual de mimuna.

Sobre Maimonedes ver Enciclopedia Judaica. e renovando votos de boa fortuna. pai do grande rabino. na mesa da sala. or festive day commemorating the anniversary of the death of a sainted Rabbi. principalmente à base de trigo. Grande parte dos interlocutores. Maimonedes1 da Espanha medieval. palavra derivada do Hebraico. Na ultima noite da páscoa judaica os lares de muitas famílias judaicas. assim como das comunidades judaico-marroquinas e/ou sefaraditas de Israel por mim entrevistados partilham da mesma explicação para o ritual que marca o encerramento da páscoa judaica.Mimuna. sob domínio muçulmano. também são colocados inúmeros objetos com valores simbólicos para atrair fartura. Mas veremos que muito pode ser dito. codificador rabinicao. Em linhas gerais essa é uma rápida descrição do ritual de mimuna.Nasceu em Córdoba na Espanha. provando petiscos. religioso. possíveis origens. tanto da comunidade judaica de Belém. ramos verdes. Ver também “Rambam” 2 “The mimuna would thus be seen as a kind of hilulah . . filosofo.” . e foram servidas ceias com doces e alimentos fermentados. Hilulah . É costume dentre os marroquinos celebrar hilula em louvor de importantes rabinos. principalmente as de origem marroquina se enfeitam com flores. Na mesa da família além dos pratos servidos. cereais e leite são servido para uma turba de convidados que peregrinam de casa em casa. 1 Moshe Ben Maimon. além de uma fartura de alimentos e doces. fertilidade. Umas das explicações mais recorrentes para o ritual de mimuna é que a palavra deriva do nome do Rabino Maimon.” (Tradução livre minha) Deshen and Shakeid (1974:74 -75) citado por Goldberg (1978: 77) descreve a cerimônia de mimuna como o equivalente ao ritual de Hilula do Rabino Maimon. Halel Louvor.“A mimuna poderia ser vista como um tipo de hilulah. celebrando assim a memória do grande rabino e também o final da páscoa e da interdição dos alimentos levedados e a base de trigos e cereais2. e discutido com base nos estudos desse ritual. médico. e bênçãos para o lar. e faleceu no Egito. ou dia comemorativo do aniversario de morte de um rabino santificado. coletando doces. No final da páscoa foi que a noticia do falecimento do rabino Maimon alcançou as comunidades judaicas da África do Norte.

E ainda observamos interlocutores que sem problema associavam as duas explicações.”(Goldberg. 77. tanto a do rabino Maimon.1978) são enumerados vários dados etnográficos não só de Goldberg. Veremos agora que outros significados. Sendo a mimuna a festa da fé. daqueles que crêem na redenção do povo de Israel.1978) (tradução livre minha) .Mas as especulações sobre a origem da mimuna e seus significados está longe de se encerrar nessa breve explicação. no começo do ano novo (estação da primavera) para prevenir que ele não prejudique as colheitas e não aborreça as pessoas ". que significa fé. at the beginning of the new year (springtime). in order to prevent him form harming the crops and from troubling the people. Einhorn sugestiona que o banquete é uma tentativa para satisfazer Maimun. descreve a mimuna como sendo um festival para aplacar a ira de um demônio de nome Maimun : “An example of the form is the article by Einhorn (1972). a figure appearing in the Jewish demonology as the king of the shedin (demons). no qual as evidencias de marshalls reivindicam que a mimuna é o banquete de Maimun. uma figura que aparece na demonologia judaica. No artigo “The Mimuna and the Minority of Moroccan Jews” (Goldberg . Há grupos que buscam uma explicação de natureza talmúdica. e explicações mais polemicas são atribuídos ao ritual de mimuna através das analises de historiadores e antropólogos. crença. como o rei do shedin (demônios). who marshalls evidence claiming that the mimuna is the feast of Maimun. como também a correlação com a palavra hebraica emunah. mas também de outros estudiosos que registraram sobre o ritual de mimuna no Marrocos. (Goldberg. no dia da celebração da mimuna em Israel. Einhorn citado por Goldberg. 77. dizendo que a etimologia da palavra mimuna reside na palavra hebraica emunah. Einhorn suggests the feast in attempt to appease Maimun.1978 )3 Já Bin-Nun em artigo publicado no jornal Há’Eretz deste ano de 2007. fez as seguintes referencias no que diz respeito à mimuna ligada a criaturas demoníacas: 3 "Um exemplo desta forma é o artigo de Einhorn (1972).

dois viajantes. a hand book of a magic composed in Spain. muito similar aos rituais realizados nos túmulos dos marabutos marroquinos. Rabino Chaim Yosef David Azulai (o Hida) e Barra de Elkana Yeruhan.was considered a vulnerable time.“In the 15th century. Já os marroquinos veneram o tumulo de seus marabutos.para aquele " Isru-chag " dia depois de Páscoa . na idéia que o tesouro do desprovido economicamente é a devoção aos ensinamentos do Al Corão. " Clviculae Salomonis ". e simplicidade dos pobres em oposição ao prestigio das classes mais abastadas. Hence the need to appease the demons of chance. menciona um demônio. Conseqüentemente a necessidade para satisfazer os demônios . king or god called the “black Mimoun from the Occident."(Tradução livre minha) . “Clviculae Salomonis”. e era habitual ter banquete para repelir mauolhado. do hebraico. foram encontradas referências escritas a um demônio nomeado Mimoun. Para os judeus estes santos. Rabbi Chaim Yosef David Azulai (the Hida) and Elkana Bar Yeruhan.especificamente Marrocos. composto provavelmente antes do século XV.” The Occident is North Africa – specifically Morocco. Dentre os diversos costumes do islã popular no Marrocos está o culto e peregrinação aos túmulos de santos e entidades mágicas. Mimoun e seu par feminino aparecem em numerosos manuscritos do 16º século (…) Em 1772. que são denominados tzdikim. and it was customary to have feast in order to ward off Evil Eye. escreveram: . Goldberg afirma que em várias localidades do Marrocos existem túmulos de marabutos atribuídos à “lala mimuna” um ser mágico caracterizado no islã popular como uma velha de tez escura que representa a devoção. chamado de " Mimoun O Negro do Ocidente ". neste dia particular. Mimoun e Mimona. na maioria das vezes eram rabinos. write that “Isru-chag” – day after Passover. mentions a demon. inclusive dentre os judeus. entidades mágicas acionadas para as mais diversas dificuldades dos fiéis. probably before 15th century. Mimoun and his female partner appear in numerous manuscripts from the 16th century onward (…) In 1772. we find written references to a demon named Mimoun. on this particular day. O Ocidente é Norte a África .foi considerado um tempo vulnerável.4 O mito da mimuna também aparece no Marrocos ligado ao islã popular e às crendices berberes. Sendo o culto do tumulo dos rabinos. o marido de um demônio fêmea denominado Mimouna. justo/santo. husband to a she-devil named Mimouna . Mimoun and Mimona. um livro de magia de um mago espanhol. 4 " No século XV. tidos como lugares sagrados. two travelers. um ser que apavora as crianças para que estas se apliquem nos estudos das preces islâmicas.

sendo a mimuna um 5 Os versos citados por Goldberg são os seguintes: “ Arfa.Mas mimuna também é representada na cultura marroquina de forma feminina com sendo a “senhora da fortuna”. foi citado por Goldberg. cantado em várias canções populares entre árabes e judeus./ (GOLDBERG. imolam um carneiro e oferecem em banquete para seus familiares e necessitados. quando aqueles adultos que não peregrinaram para a cidade de Meca. arfa lala mimuna (senhora da fortuna) / Oh senhora desta tenda me dê um ovo/ Um ovo que eu pintarei com meu lápis/ Meu lápis está como o Taleb (esacriba)/ O Taleb e seus companheiros se encontrarão no paraíso. logo o ser mágico feminino que representa a bonança. e não a “senhora da devoção” como foi descrito anteriormente.. e que descreveu um grupo de crianças mulçumanas que peregrinavam esmolando dinheiro ou mantimentos para o festival de Id’ l-kibir.. A palavra mimuna em árabe quer dizer sorte. P. fortuna. lalla mimuna (propitious lady)/ O mistress of the tent. Nos dias que antecediam o sacrifício do carneiro as crianças peregrinavam de casa em casa pedindo dinheiro e cantando os versos que traduzidos diziam: “.arfa. Um exemplo destas quadrinhas alusivas à “senhora da fortuna”. arfa.. 1978. 82)5 Bin-Nun (2007) registrou outros versos cantados que também caracterizam a mimuna como sendo a senhora da fortuna. give me an egg/ An egg that I may paint my writing tablet / My writing tablet is with the taleb(scribe)/ The taleb and this companions will find each other in paradise… . de se integrar cada vez mais à cultura local. que realizava pesquisas no Marrocos nos anos de 1911 e 1923. Todos estes indícios levam Goldberg afirmar que o festival de mimuna foi uma forma encontrada por um grupo minoritário. “ Lala mimuna/ mbarka masuda” que significam : “ senhora da fortuna / afortunada e abençoada”. amenizando assim as diferenças de convívio. no caso os judeus.. mas coletado por Wstermarck’s.

para que fosse realizado o picnic de mimuna no dia seguinte à festa. foram registrados em diversos países da África do Norte. (tradução livre minha). prosperidade. Following this line appears in Moslem festivities and for possible resemblance between these and the Jewish celebrations. para judaizar o festival. assim como no pedido de aluguel ou de cessão de uma propriedade rural de algum proprietário árabe.i. to judaize the holyday.e. ou rituais semelhantes.e. 82). a símbolos e amuletos para atrair saúde.. de preferência com uma fonte de água. Desta forma o ultimo dia da páscoa judaica. Bin-Nun atribui ao ritual de mimuna uma origem ainda mais remota e distante do judaísmo. compartilhadas por árabes e judeus. Sendo o retorno marcado pela interação com os vizinhos árabes. Conforme afirma Goldberg (1978. “I suggest in a provisionary manner that the various explanations perhaps served to camouflage the obvious link between the Jewish celebration and the Moslem cultural environment – i. e festivais similares. os ramos de trigo e cevada que eram usados para adornar as casas. denominado e hebraico “Isru-chag” passou a ser celebrado de acordo com os modelos árabes. Seguindo esta linha as festividades muçulmanas aparecem em possíveis semelhanças com as celebrações judaicas. e está diretamente relacionada ao ritual de adoração de Ba’al Há’Gad. A mimuna. associando não só o ritual da mimuna às entidades da fortuna. . Afirmando inclusive que os profetas de 6 Eu sugiro de uma maneira visonária que as várias explicações serviram camuflar a ligação óbvia entre a celebração judaica e o ambiente cultural muçulmano talvez . a mimuna com seus símbolos de fertilidade levava à conexão aos produtos da terra cultivada pelos árabes. Já que a maioria dos judeus tinha função de artesões e mercadores. tanto dentre os árabes como os judeus.6” Porém Bin-Nun (2007) foi mais além. entidade babilônica o “senhor da boa fortuna”. no que se refere ao compartilhamento simbólico e cultural dentre as duas culturas.ritual de normalização.. por conta das festividades de Pessach. em vários sentidos. ou seja. marcava a volta de um distanciamento da população judaica em relação à população local.

difere dos banquetes servidos no cotidiano. as they did many other superstitions of the day. as Passover ends. “After dark. Primeiramente por não se sentarem ao redor da mesma como na maioria das celebrações judaicas. fortuna. Ba'al -Gad. com fim de Pessach. Qual a origem deste costume? Talvez esteja conectado à prática de pôr mesa para Gad ". e fez alusiva relação da mimuna com a mesa de Gad. The verse in Hebrew is “Ve’atem-ha orkhim le’gad shulkham. 2007) A mesa tornou-se para Bin-Nun o principal elemento de analise para relacionar o ritual de mimuna com os rituais em homenagem ao deus Gad da Babilônia. o deus de fortuna boa. como eles fizeram com muitas outras superstições". Já no século dezoito o viajante italiano judeu Samuel Romanelli descreveu o ritual de mimuna para o seu periódico. Who set a table for Luck/ And fill a mixing bowl for Destiny…”Isaiah 65: 11). afirmando que. fartura. Guests eat their fill and bestow blessing on their host. The prophets of Israel denounced this custom. que muitas vezes são tomados de empréstimos das culturas locais. a table is set out backed goods and people visit one other. What is the origin of the custom? Perhaps it is connected to the practice of setting table for Gad.”( BIN-NUN 2007)7 Bin-Num demonstra também que ele não foi o primeiro a fazer a associação do ritual de mimuna com a mesa oferecida ao deus Gad da Babilônia.Israel já advertiam seus fiéis do perigo que ameaçava o monoteísmo judaico ao incorrerem em práticas pagãs. Os convidados comem e abençoam o anfitrião. Uma mesa é posta para satisfazer-lo. como oferecer um banquete para a fortuna. Os profetas de Israel denunciaram este costume. ou nas outras comemorações. 7 " O profeta Isaiah já mencionava: " Mas para você que abandonam o Deus / Que ignoram minhas montanhas santas/ Que puseram uma mesa para Sorte / E enchem uma tigela para Destino… " Isaiah 65: 11). a mesa servida pelos judeus do Marrocos nas noites de mimuna . e ainda para espantar o mau-olhado. (tradução livre minha) . uma mesa é posta e as pessoas visitam um ao outro. E ainda pelo fato da mesa congregar uma sorte de objetos carregados de simbologia e relação com a fertilidade. o verso em hebreu é " Ve'atem-ha orkhim le'gad shulkham ". the god of good fortune. Este " Gad " é nenhum diferente de deidade babilônica. Ba’al –Gad. (tradução livre minha) 8 " Quando cai a noite.” This “Gad” is none other than Babylonian deity.”8(BIN-NUN. “The prophet Isaiah already mentions one: “But for you who forsake the Lord/ Who ignore my holy mountains. A table is set to appease him.

trigo. de forma comparativa. e as adaptações sofridas por estes rituais. através das etnografias. alguns dos principais elementos que adornam a mesa de mimuna. leite. como esse ritual é realizado. mais especificamente na cidade de Belém do Pará. Examinaremos então cada ritual e suas especificidades. Em Israel. ou intercambio de símbolos que existe entre o judaísmo e as culturas locais aonde este se encontra inserido. ovos. afirmam que os símbolos que adornam a mesa têm seu significado próprio dentro do judaísmo. aonde tive oportunidade de comparecer a um festejo de mimuna publico e outro domiciliar. mas é impossível negar os “empréstimos culturais”. mel. É bem verdade que não conseguiremos resolver este impasse que gira em torno da origem do festival de mimuna. principalmente o conteúdo simbólico das mesas. e não são resultados de empréstimos das culturas vizinhas. Mas também pesquisei os rituais de mimuna realizado pelos descendentes de judeus marroquinos que se radicaram na região norte do Brasil. e preservado em dois lugares diferentes. Seguindo este argumento.No entanto para muitas pessoas que contestam estas especulações a respeito da origem da mimuna. e ramos verdes. afinal o objetivo deste é artigo é um exercício etnográfico. . estão realmente presentes na simbologia de outras festividades judaicas. ou influencias de rituais pagãos. Veremos agora.

a celebração da mimuna diferencia as comunidades judaicas não só de Belém. Em Belém as comemorações de mimuna tem um papel de destaque dentre as celebrações judaicas. Acredito que no caso de Belém a mimuna funciona duplamente como um sinal diacrítico. A mudança do tempo de amargura. primeiro observei uma mimuna domiciliar. do restante das comunidades do Brasil. No restante das comunidades judaicas do Brasil. da abstinência de alimentos levedados. Diferindo assim de Belém aonde a festa de mimuna é um acontecimento domiciliar. Depois examinaremos os modelos observados em Israel em 2005. . principalmente nos grandes centros urbanos. Rio e São Paulo. Em Belém segui o mesmo procedimento empregado em Israel. e em seguida parti para examinar a mimuna coletiva. Essa passagem não foi encerrada com a celebração da Havdalah.Mimuna – um exercício etnográfico Reflexões sobre a celebração de mimuna em Belém do Pará – Abril 2007 Iniciarei a comparação dos modelos de mimuna estudados pelos exemplos colhidos em Belém ainda este ano (2007) no encerramento das festividades de Pessach. Ao cair da tarde já me encontrava na residência da família Bitran para esperar a passagem do dia santo para o dia normal. como ocorre em algumas residências ou mesmo na sinagoga. mas ao mesmo tempo movimenta a coletividade como um todo. Em primeiro lugar sinalizando que se trata de uma comunidade de marroquinos-sefaraditas. mas da região amazônica como um todo. e em segundo lugar. a festividade de mimuna só faz sentido para pequenos núcleos familiares de judeus marroquinos ou sefaraditas.

Algumas famílias seguem mantendo o costume trazido pelos ancestrais marroquinos. e o do centro com mel. Para muitas famílias de Belém ainda é costume adentrar o trigo para casa. uma tradição do avô. lasanhas.Benchimol refere-se da seguinte maneira a este termo em Haquitia. comia um folha de alface embebida em mel. bolos e pastéis. Mas na verdade o ritual de mimuna não iniciou com a ingestão de folhas de alface doces. Cada pessoa que chegava. só então que iniciava a refeição. tradição costume . dialeto falado pelo judeus da costa do Marrocos.32-33) . “ Exatamente um reprodução da velha rivalidade dos tempos do exílio em Marrocos. de inserir o trigo em casa após o almoço. No centro da mesa.”( BENCHIMOL. logo após o almoço. no momento existe uma polemica instaurada na comunidade a respeito do horário da permissão da entrada do trigo nas casa. antes de se servir. uma fruteira com muitas frutas regionais. usos e costumes (aada em hakitia e min-hag em hebraico) continauva a ser seguidos na scomunidades fundadas. dois com mingau de matzá. ou periódicos judaicos de cunho religioso. já tenha advertido que este não é o tempo adequado para o retorno dos elementos restritos.simbolizando os quarentas anos de penúria do povo de Israel no deserto em busca da terra prometida. ou se quer provou. antes de ingerir a folha de alface com mel. que fazia um mingau leitoso com o restante de matzá – pão ázimo – que sobrara de Pessach. logo depois tomava um pequeno gole do mingau de matzá . cujas tradições. os familiares afirmavam que os alimentos foram preparados. ao lado uma pequena tigela com folhas de alface. cinco ovos e vagens verdes. Sendo que. e com a preparação de algumas iguarias para a ceia noturna. P. mas que ninguém ingeriu trigo. na cabeceira da mesa uma bandeja retangular contendo três cálices. com a entrada do trigo e seus derivados na cozinha da família. e sim logo depois do almoço. 1998. macarrão. e uma tigela maior contendo farinha de trigo. mesmo que o rabino. A mesa do apartamento simples da família Bitran estava repleta de alimentos à base de trigo. 9 Aada. foi rompida pela família ingerindo folhas de alface com mel. Myrian Bitran foi quem explicou que o mingau de matzá era uma “aada”9 ou seja.

Ali foi o inicio do que chamo de mimuna coletiva. Shlomo Sabar. recorrentes em todo mediterrâneo. Independente da razão pela qual o peixe é colocado na mesa. mais que nunca no Marrocos. além do mingau de matza . diferindo substancialmente da mimuna publica observada em Israel. geralmente a casa fica aberta aos convidados. sempre alerta contra o mau-olhado. tem o olho sempre aberto. outro símbolo muito presente na mesa de mimuna. e não é costume dos membros da família sair em peregrinação pela casa de parentes e amigos. por isto que anteriormente me referi a celebração de mimuna na família Bitran como sendo domiciliar. uma grande maioria afirma que o peixe é sinal de fartura no lar. é que o peixe é um amuleto para mau-olhado. mas a explicação que recebi na universidade de Jerusalém do professor de Folclore Judaico. o curioso observado na residência dos Bitran é que ocorreu uma representação da própria representação. o peixe que representa a fartura. ou o olho que nunca se fecha. Ao deixar a casa da família Bitran me dirigi para o apartamento da família Barcessat. foi uma grande lata de sardinha que simbolizava o peixe. nesta mesa de mimuna foi representado pela ilustração de peixe desenhada na tampa da lata de sardinha. tal qual os amuletos em forma de olho. No mínimo uma representação um tanto curiosa em uma região com abundancia de pescado. Ou seja. Para a família Bitran o festejo de mimuna é um dos mais importantes e mais esperados. não tendo um caráter mais coletivo como a segunda parte da etnografia.O elemento que me chamou mais atenção na composição desta mesa. embora o componente domiciliar esteja intrínseco a esta celebração em Belém. . As explicações para a presença do peixe na mesa de mimuna são variadas. que ocorre realmente no âmbito externo dos lares. para o sentido simbólico do peixe no imaginário dos paises árabes. pois o peixe nunca dorme.

porém a antecedência favoreceu para que eu colocasse em ordem as anotações a respeito da residência anterior. os doces encomendados chegaram depois das seis da tarde. que já estavam murchos estavam dispersos sobre a toalha branca. quando já era permitida a entrada do trigo na casa. também surgiam os símbolos relativos ao festejo. um vidro de mel de cana. da família Benarrosh. sendo merecedor de nossa atenção. . Para minha surpresa o peixe mais uma vez foi representado pela lata de sardinha. e uma tigela contendo farinha de trigo seis ovos. Enquanto mais alimentos eram colocados à mesa os primeiros convidados começavam a chegar. do mesmo tamanho que eu havia observado na primeira casa visitada. sobrinhos de D. Enquanto permanecia na sala de jantar os familiares se arrumavam. chegaram cumprimentando todos da seguinte forma – “há mimuna shalom”. Aos poucos a mesa ia sendo composta.Clara. em meio às ordens aos empregados. também foi colocada uma manteigueira. um luxuoso apartamento no centro de Belém. Também foi acrescida a mesa uma pequena bacia de inox contendo uma massa fermentada que cresceria durante toda a ceia. os itens de mimuna eram colocados pouco a pouco em meio aos doces.Antecipei-me na chegada à residência da família Barcessat. Ramos de capim-santo. e os empregados sob as ordens de Clara Barcessat iam dando os últimos retoques para a recepção dos convidados. Ao mesmo tempo em que uma profusão de comida era colocada sobre a mesa. da mesma marca. vagens verdes. E em seguida alguns dos netos da família Israel. Este cumprimento corresponde à primeira estrofe de uma quadrinha que é cantada nas festas de mimuna em Belém. uma bandeja com pães que Isaac Barcessat trouxe quando veio da rua.

que Bin-Nun (2007) traduziu como. de outras saudações mimuna como “Terbakhu utsaádu” . paz em hebraico. como fortuna. Aba ba tebah. Aos poucos a sala foi ficando completamente lotada de jovens. e que todos moravam perto e peregrinavam de casa em casa. Que traduzido significa “A fortuna e a Paz” se traduzirmos literalmente mimuna do árabe marroquino. que vertido para português seria “papai está na tebah”. Aproveitei a ocasião então para fazer algumas perguntas a respeito das festas de mimuna no passado em Belém. . mas não entrou em maiores detalhes. foi convertida também na saudação das noites de mimuna em Belém. em uma extensa matéria sobre o festival de mimuna . maneira como os jovens tem festejado a mimuna em Belém nos últimos anos. Partindo dali para um circuito de lares que se dispuseram a receber aproximadamente uma centena de pessoas. shalom. Tebah é como os marroquinos denominam o púlpito central da sinagoga. “que você tenha sucesso e boa sorte!” Ou ainda a saudação Tetailu vê tsaádu – Passeiem e comam! Que serviu de manchete para no jornal israelense. diferindo assim. teria seu inicio na residência da família Barcessat.A quadrinha diz: “Há’ mimuna Shalom/ Aba ba tebah”. Yedihot Há’haronot (2005). ou tebah seria mais uma vez tem relação com a mesa de mimuna? O certo é que essa quadrinha. Dona Clara incumbiu seu marido Isaac me fazer companhia enquanto organizava mais detalhes da comemoração. não sei ao certo qual a utilização mais correta para o termo tebah. já que a carreata que peregrinaria por varias casas. Isaac Barcessat me contou da peregrinação de mimuna na sua juventude na casa de várias famílias judaicas que residiam em torno da Praça da Bandeira.

Aos poucos a turba de jovens foi deixando a residência da família Barcessat. Outra vez o mesmo alvoroço na portaria do prédio. Na mesa uma tigela com trigo ovos e moedas. ou Capim-santo. ou . Em Israel a hortelã é a erva cheirosa mais recorrente para adornar as mesas de mimuna. como queiram chamar nas diferentes regiões do Brasil. leite. a esposa de José Serruya.Há mimuna shalom. jovens das mais diversas faixas etárias falavam ao mesmo tempo.” Chegamos à segunda parada. Esta erva aromática foi eleita pelas famílias judaicas da capital paraense para adornar as mesas de mimuna. a hortelã esteve presente. Saindo no mesmo alvoroço. Quando cheguei ao apartamento a sala já estava completamente lotada. sendo este erva associada diretamente à cultura marroquina. a casa de José Serruya. “Há mimuna há Shalom. Seguindo então pela Avenida Presidente Vargas. mal pude me acercar da mesa para fotografar. Lise Barcessat Serruya me falou da preocupação com a possível falta na mesa de mimuna do Capim-marinho. em um falatório continuo e inconveniente para o adiantado da hora. bah tebah!”. e como a mesa foi composta. e aos poucos iam subindo no elevador. A mesa estava composta por doces de diversas espécies. mas vou me deter nos símbolos da mimuna . os meninos com aquele chapeuzinho no alto da cabeça bradando a plenos pulmões: “. aba. tocando alto as buzinas e atraindo a atenção dos curiosos. foram entrando nos carros e saindo em carreada tocando as buzinas e cantando o versinho de mimuna. uma bandeja com quatro cálices. azeite. e se aglutinando na portaria do prédio. Das diversas cerimônias marroquinas que presenciei em Israel. Lise.. Capim-cidreira.. que estranhavam todos aqueles jovens apinhado em carros. e foi percebida em todas as mesas das casas visitadas. vinho e mel. me explicou que essa forma de arrumara a mesa de mimuna era uma “aada” que ela trouxe da família da mãe.

1978. mas já não teve a mesma arruaça no transito. (GOLDBERG. 1973.De tarde. Já na descrição de Bin-Nun (2007) o peixe é representado através de um peixe vivo nadando em um aquário colocado no centro da mesa de mimuna. A saída da casa de José Serruya para a casa seguinte. ficando a carreata meio dispersa. 76) . Nós também compramos rosas e flores de laranja para adornar a mesa. mirrors and clocks in the room. Aquela noite é a noite de mimuna ". which we warp around the lamps. nós vamos procurar ramos de cevada verde com os mulçumanos.. Já Goldberg em seu estudo sobre mimuna descreveu mesas adornadas com outro tipo de folhagem. A partir dessa observação pude constatar que. That night is the night of mimuna. ou temperando carnes. Outro item que ficou institucionalizado nas mesas de mimuna de Belém foi a representação do peixe através da lata de sardinhas. e ultima casa de peregrinação. mas que ela dava preferência para o capim da sinagoga. we also buy roses and orange blossoms to adorn the table. Na casa da família Serruya o peixe também foi simbolizado por uma lata de sardinhas como nas casas anteriormente visitadas. já se constituiu uma tradição para algumas senhoras de Belém coletar o capim-marinho nos jardins das sinagogas de Belém para adornar a mesa de mimuna. o zelador avisou com antecedência que não haveria capim-marinho para mimuna. Lise pediu que um de seus empregados fosse até a feira e comprasse um maço bem verde de capim-marinho.. we go to purchase stalks of green barley from the Moslens. os quais nós decoramos ao redor dos abajures.”(GOLDBERG. ou servida em forma de chá extremamente adocicado à moda do magreb. Os jovens chegaram à casa da família Bentes 10 ".. “. espelhos e relógios no quarto.adornando mesas. Sendo a planta imprescindível para a comemoração. mas que esse ano.. P. P.in the afternoon. foi barulhenta para a vizinhança. 76)10 Lise relatou que todos os anos ela trás o capim-marinho para adornar a sua mesa do jardim da sinagoga.

Após expor como são realizadas as comemorações de mimuna em Belém do Pará. . que esperou no corredor para entrar junto cantando em coro os versos de mimuna. quais suas semelhanças e diferenças com os rituais de mimuna conservados no Norte do Brasil. uma manteigueira. veremos a parte da etnografia relacionada às comemorações de mimuna em Israel. e agora os jovens peregrinos devidamente alimentados seguiriam para uma noite dançante no salão de festas da família Benzecry. e como este ritual é desenvolvido em outro contexto. Na mesa da família Bentes folhas de capim-marinho já secas por conta do forte calor do norte. O peixe mais uma vez estava lá representado pela lata de sardinha. e de que forma estes rituais funcionam como um demarcador de uma forma especifica de judaísmo tanto no Brasil como em Israel. ao lado de um cálice de mel.que já tinha recebido outros convidados e recolocava a mesa para receber o grupo.

da comida feita de véspera. A plata elétrica. tudo era grande. haja vista que a família tinha um negócio de jardinagem e campos cultivados no moshav. bem diferente do estigma de classe baixa da maioria dos marroquinos ainda carrega em Israel. Pensei em ligar para Eti. mas sabia que precisava observar os festejos em algum lugar. Um moshav (vila agrícola) localizado entre as cidades de Bersheba e Kiriat Gat que abrigam expressiva população marroquina e de judeus orientais. Os tapetes da sala foram recolhidos e a casa de decoração intensa estava impecavelmente limpa para receber muitos convidados tão logo a noite caísse. Agora o moshav abriga grandes casas e me parece um lugar de classe media alta. A casa era muito grande. as panelas. um contato na cidade de Sederot. por sinal. e para muitas pessoas. mas depois desisti e resolvi aceitar o convite que Kfir Abudaraham me havia feito. assim como o terreno do jardim e quintal. que aquece os alimentos durante o shabat estava ligada mantendo . as mesas. indícios que na casa se cozinhava muito.Reflexões sobre o ritual de mimuna em Israel – Kiriat Gat e Jerusalém – Abril 2005 Uma semana antes do final do Pessach ainda não sabia aonde iria passar a mimuna. No meio da semana liguei para ele e comecei a tomar as primeiras providencias para a viagem. de muitos outros preceitos de respeito ao shabat serem cumpridos. Resolvi então viajar no sábado e chegar algumas horas antes dos festejos começarem ao Moshav Sidi Dawed. Suzane. o fogão. Apesar de sábado. muito bem aparelhada. muito bem cuidados. Entrei pela cozinha. a matriarca da família Abudarahm não descansou um só minuto.

Ao chegar fizemos um breve lanche na copa. em sinal de recato. falando em tom jocoso cantando.. bibiluh. mas ao mesmo tempo observávamos o cumprimento de diversos preceitos judaicos. . trazia um lenço amarrado na cabeça. as paredes da sala de jantar eram adornadas com pratos de todas as partes do mundo com os mais diversos motivos. ao redor de uma grande mesa cercada de cadeiras de espelhos altos.aquecida uma suculenta adafina.Bibiluh. a avó sentou na sala de tv. como a afixação de mezuzot em todas as portas da residência. Embora Suzane não tenha cozinhado para o shabat. a televisão e as luzes da casa estavam ligadas. Ao termino do Sábado Yousef Abudarahm celebrou a passagem do shabat para o dia regular rezando havdalah e distribuindo para cada membro da família um pequeno ramo de hortelã. A avó vítima do gracejo vestia uma bata de tecido leve. Nas orelhas pesadas argolas de ouro. Havendo assim uma alternância entre preceitos judaicos e uma forma de vida secular sem maiores conflitos. ou manutenção de uma cozinha kasher como separação de utensílios de carne e de leite.. Suzane melou a ponta dos dedos no cálice de vinho depois passou os dedos na nuca. cozido tipicamente marroquino. como a maioria das mulheres marroquinas de sua geração. superstição dentre os marroquinos para atrair Parnasah-fortuna. chamando . Após ajudar as netas a dobrar lenços de papel para o jantar. Após retirar a bandeja com os utensílios da havdalah da mesa Yousef passou a bandeja por sobre a cabeça da sogra. no pescoço uma grossa corrente e um pingente em forma de coração com a foto do falecido marido. sempre executado nas noites de Pessach nos lares marroquinos. este outro ambiente da sala também era carregadamente decorado. a base de grão-de-bico e carne. os filhos conduziam os carros da família sem maiores conflitos.fazendo alusão ao ritual de Bibiluh.

Martina. o árabe e o francês são línguas referentes ao passado. das celebrações de mimuna em Casablanca. ela não assistia. e se perdem nas vastas lembranças da avó que como uma habitante de babel mistura todos os idiomas no seu linguajar próprio. chocolates. ao final uma multidão celebrava junto da praça principal da cidade. os netos mais velhos conseguem compreende-la pela convivência. Como estes jovens e crianças já são nascidos em Israel. mas que. conforme descreveu Goldberg e também como me contou Suzane e sua mãe. mas os netos mais novos assim como os bisnetos lhe prestam as devidas reverencias que uma família tradicional dispensa aos seus anciãos. amêndoas. os preparativos tiveram inicio. pois era shabat! Repetindo isso várias vezes seguidas. Não somente eu fiquei sem entender o total contexto do dialogo que a velhinha tentava travar. e que eles devolviam em agradecimentos matzots e tâmaras. nozes amêndoas foram colocadas na mesa. francês e árabe que eu somente captava palavras soltas. ambas confeccionadas com aplicações de cetim vermelho sangue. enquanto a senhora se referia a televisão dizendo que o aparelho estava ligado. A velha senhora tentava me falar do falecido marido. geralmente a volta do trigo para casa em Marrocos era um momento de confraternização e de estreitamento dos laços com os árabes e com a cultura local. uma vela . doces e bebidas lácteas. miçangas e franjas douradas. Elas narraram que os árabes traziam flores e verdes para as casas. em uma mescla de hebraico. Os genros se riam de mim. Depois do final do sábado e do termino da páscoa o trigo foi trazido para dentro de casa novamente.atenção para ilustrações de uma gueixa e uma bailarina flamenca. o trigo e seus derivados ficaram armazenados na garagem da família. porem não mais que isso. Com a chegada da filha mais velha dentre os seis filhos. A televisão bradava sozinha enquanto os primeiros preparativos para a festa eram iniciados. Doces.

abaixo a receita do prato principal do festival de mimuna. tâmaras. trigo água morna. Seguro que essa espécie de panqueca frita na manteiga e depois embebida em mel é um símbolo que conota aos marroquinos na sociedade israelense. óleo. Na casa da família Abudarahm aproximadamente de dez quilos de trigo foram utilizados para as mufletas. . mas nada especificamente marroquino como as esperadas mufletas que depois foram preparadas por Martina. Martina fez a massa em uma enorme bacia. O toque final na mesa de mimuna foi um prato forrado com farina de trigo. trazia alem da foto de uma família toda vestida em roupas de árabe para celebrar a mimuna . e de certo que pode ser considerada um sinal diacrítico da identidade marroquina em Israel. festa de mimuna e mufletas fosse feita automaticamente.foi acesa no centro. É como se a ligação entre marroquinos. cinco ovos. sal. A preparação das mufletas Até pouco tempo eu não havia ouvido falar das mufletas. como a grande maioria dos descendentes de marroquinos radicados na Amazônia também desconhecem essa iguaria. Logo a mesa ficou repleta de uma variedade de iguarias. e vagens verdes. O jornal Yediot há’haronot(2005) por mim coletado Israel que noticiava o festival de mimuna. reforçando através das fantasias a origem marroquina da família. Depois um vaso com espigas de trigo foi colocado em uma extremidade e outro vaso com ramos muito verdes de hortelã foi colocado na outra ponta. trazia também uma foto com uma mãe marroquina segurando uma grande mufleta aberta como se fosse uma massa de pizza.

As mufletas preparadas por Martina logo eram consumidas por uma grande quantidade de convidados que em poucas horas lotou a copa cozinha e o pátio da residência. . Embora Kfir. Uma massa muito fina era aberta e depois frita com manteiga em uma chapa quente. dobrada em forma de cone e depois servida aos convidados. A música mizrahy. Bênçãos com leite e alface para atrair “parnasah” como vi nas fotos que Mirit. 1978. Martina passou quase a metade da festa somente fritando as mufletas. pedindo doces também não aconteceu. Depois mel de abelha era derramado sobre a massa ainda morna. passed a green bean soaked in milk over our foreheads”(GOLDBERG. They bless us. p. As salas e cômodos foram poupados da visitação. tenha narrado que na sua infância era comum que ele e outros amigos peregrinassem por toda a vizinhança e depois retornava para casa com um saco transbordando de doces. uma amiga marroquina da Universidade de Jerusalém havia me mostrado não ocorreram na festa.Depois de a massa descansar Martina derramou óleo de soja na pedra mármore da pia e dividiu a massa em pequenas bolinhas que foram sendo abertas sobre a superfície oleosa da pedra.76) A peregrinação pela vizinhança. que é característica por suas melodias arabizadas foi o ritmo mais tocado da noite. e quem me convidou para a celebração. mas os convidados não chegaram a dançar. o penúltimo filho do casal. O certo é que Goldberg também registrou o habito de abençoar os membros da família na noite de mimuna como uma vagem verde e leite: “We visit the Rabbis and bend over them kissing the head. enquanto a massa era frita permanecia coberta pelas finas camadas já prontas. que literal mente traduzido do hebraico quer dizer Oriental. principalmente os cantores e grupos musicais marroquinos que fazem sucesso em Israel.

Em Belém os festejos de mimuna também se encerram nas vésperas. e também certo conhaque caro. Esperei que ele terminasse de rezar e depois de um rápido café ele me explicou como sair do moshav e aonde esperar o ônibus na estrada. como que por complemento às exageradas quantidades de comidas servidas aos convidados. Youssef com orgulho. que compareceram usando kipah e as mulheres lenços coloridos cobrindo os cabelos. Segui então para Jerusalém para observar a outra parte desta festa. Para a família de Youssef os festejos de Mimuna tinham se encerrado ali. no dia seguinte não iriam fazer o pic-nic. e o dia seria de trabalho. mas também compareceram os jovens amigos dos filhos solteiros. Na manha seguinte. Youssef na cozinha terminava sua prece matinal coberto por seu talet e ainda atado a seus tefelins. e depois tive sua confirmação ao observar fotos do pic-nic de . que até pouco tempo atrás pensava não existir. distribuía nas caixas abertas especialmente para ocasião. a maioria dos convidados já haviam saído e a festa estava quase terminada. algumas pessoas mais religiosas. em menos de meia hora a casa foi fechada e a família se recolheu para mais uma semana que se iniciaria. mostrando toda a abundancia do anfitrião. que inebriava o ambiente juntamente ao forte aroma de tabaco.No pátio ficaram vários homens fumando. me levantei nas primeiras horas do dia. tornando o ambiente da festa ainda mais heterogêneo. Quando retornamos a sala. com moda e jeito descontraído. Eu ainda continuaria minha empreitada. charutos e cigarrilhas. vizinhos do moshav. Os convidados eram os mais variados. Tomei conhecimento desta segunda parte do ritual de mimuna a partir das descrições de Goldberg. parte da numerosa família com genros e netos.

mimuna a beira de uma fonte. políticos interessados nesta considerável parcela do eleitorado israelense. Todos os anos atrai muitas pessoas. em Jerusalém em especifico. Vários foram os motivos pelos quais escolhi observar a segunda parte do ritual no Gan Sacker em Jerusalém. Dentre estes motivos. e dentre estas. pois essa comemoração de mimuna é a mais famosa do país. em um livro de fotografias e postais antigos intitulado em uma coletânea denominada “Juifs du Maroc". .

O darbush. uma espécie de recreação onde toda a família congrega um pouco mais descontraída. a troca de status de determinado grupo em relação a outro. mais uma vez desponta como um sinal diacrítico marcante. Policia montada a cavalo. Como os jovens que trabalhavam nas barracas de vendas de bolas e tiro ao alvo. mas com o armamento ao lado pronto para responder a qualquer ataque. Um ponto a ser levado em consideração nos rituais de mimuna observados em Israel é a presença da indumentária árabe. Dei uma volta panorâmica no parque. quando os judeus se vestiam em roupas árabes. gorro vermelho marroquino. procurava a fonte conforme descreveu Goldberg. . os patroleiros sempre alerta com seus rádios e suas macas a posto. mas não encontrei fonte. um destacamento jovem do exercito que brincava descontraído no gramado. nas vias estavam postos os vendedores de quinquilharias. principalmente no que tange as relações de poder. O darbush.A manhã de Mimuna – o Pic-nic Ao adentrar no parque logo me deparei com o esquema de segurança. Goldberg desenvolveu parte de sua analise do festival de mimuna baseado no “Status Reversal” proposto por Victor Turner (1969). que foi ressaltado em quase todas as incursões aos encontros marroquinos que visitei. Pela movimentação dos eventos marroquinos por mim pesquisados anteriormente achei que a manhã de mimuna foi um evento realmente calmo. ou outro sinal de água. O caso da mimuna . Caracterizando assim. confeccionado em material plástico para quem quisesse estar mais caracterizado. pode ser entendido como o status reversal daquele grupo em relação ao grupo majoritário no Marrocos. estava à venda em varias barracas. No gramado várias famílias se organizavam na preparação do churrasco.

1973. (GOLDBERG. sionismo. eram doces saladas 11 " Isto é evidênciado nas fantasias usadas pelos jovens durante a mimuna. enquanto outros judeus argelinos de pela bem morena dançavam em roda tocando uma pequena clarineta e um pequeno drabukc13. E por meio da pratica de um familiar golpear o outro com ramos verdes. Ao invés dos judeus se vestirem de árabes celebrando na mimuna. no caso os mulçumanos. . como se dava na África do Norte. seria ofensivo para estes grupos judaicos serem associados mesmo que em “status reversal” aos árabes. 78) (Tradução livre minha) 12 Weingrod demonstra que embora os judeus orientais não sejam compreendidos na condição de árabe em festividades como a Mimuna. Moshe Levi da Argélia vestia uma túnica branca e pousava para foto ao lado do neto. and Moslem. 13 Drabuck . “ In Morocco. e afirmação de vários sinais diacríticos. 1973 P. vestir-se em Israel com roupas árabes significa identificar-se a grupos judaicos orientais. Em uma aldeia na Tunísia um homem se vestia de mulher no último dia de Páscoa e ia de casa pedindo doces. in that order.“This is in evidence in the costumes worn by youths during the mimuna . À sombra de uma árvore. may also be seen as token of status reversal. mas que as diferenças intra-étnicas muitas vezes se experessaram através da reversão destes setores do judaísmo para os setores contrários. cujo tronco foi ornado com uma bandeira de Israel. but. They imagined that in Israel they would became the French. they are the Moslen!”(Weingro. Isto também pode ser visto como símbolo de "estado de reversão ". a common costume being Moslem garb. In one village in southern Tunisia a man would dress as a woman on the last day of Passover and go from house to house asking for sweets. ou qualquer outra de caráter oriental. e não estar revertido na condição de palestino.” (GOLDBERG. including children striking their parents. P. 1962:315). Embora os modos arabizados destes judeus tenham muitas vezes se confrontado diretamente como diversos setores da sociedade israelense12. em uma troca de papéis. uma variedade de comidas foi disposta em uma grande toalha de mesa. difundidos em Israel. Jews. Mais adiante duas irmãs marroquinas armaram um ornamentado pic-nic em um misto de tradição marroquina. Jews saw three groups – frenchmen.78) 11 Em Israel os trajes árabes de mimuna representam outra reversão. The practice whereby members of a family strike one other with greenery. Tambor de som estridente e agudo que marca as melodias orientais. uma fantasia comum que é traje muçulmano. inclusive crianças que golpeiam seus pais. you see. Os disfarces árabes são na verdade a legitimação dos grupos orientais em reverso aos diversos modelos de judaísmo.

alimentos bastante comuns à atual culinária israelense. Freha exibia uma grande mufleta . como vem se tornando recorrente em Israel. seriam todas aquelas pessoas que visitaram os parques praças publicas de Jerusalém de origem marroquina ou oriental. Ao retornar para a Universidade Hebraica pude observar nas praças e parques da cidade algumas famílias que ainda remanesciam em torno de suas toalhas de pic-nic. mas que de certa forma também são peculiares aos marroquinos. e uma coroa ornada de pedras. Restando somente uma dúvida. a festa principalmente na esfera publica ultrapassa os limites da diferença étnica. tampouco nem um político deixou o parlamento às proximidades do parque para tentar se auto-promover no festival de mimuna. como um símbolo marroquino do encerramento do Pessach.14 com cerca de um palmo de tamanho. 14 Hamsá – do árabe. ali pendiam duas bandeiras. como uma bandeira da etnicidade marroquina. Freha a mais velha das irmãs que organizava o pic-nic trajava uma túnica árabe azul turquesa. adornado de diversas formas. muitas pulseiras e um medalhão com uma hamsá. em forma de mão espalmada. Cinco. e a outra era a mufleta sendo demonstrada. Por todo o cenário armado logo se formou um aglomerado de pessoas principalmente em função da chegada dos repórteres das tv locais. e demais judeus da África do Norte. no caso do judaísmo. ostentando a fina massa para que fosse filmada pelas câmeras. Amuleto utilizado por árabes e judeus. uma a de Israel. de uma forma metafórica. geralmente contendo um olho no centro na intenção de espantar mauolhado. . O restante da manhã não contou com acontecimentos mais extraordinários. filmada.marroquinas de pimentão e berinjela. imigrados para Israel. ou o festival de mimuna já está se tornando uma prática popular em função da ênfase dada pelos meios de comunicação? É importante ressaltar que por vários motivos a mimuna vem nos últimos anos se tornando uma festa muito popular em Israel. das esferas inter-etnicas. atada ao trondo da arvore.

Este projeto social foi adaptado em Israel com o nome de mizug galuiot cf. através do modelo americano do “melting-pot”. p. a mimuna aos poucos vai ganhando mais adeptos e deixa de ser uma celebração restrita aos judeus orientais e aos marroquinos mais especificamente. On this view . ou seja. por motivos. and to use they money more rationally”( COHEN. 1972.102) Tais manifestações de etnicidade iam de encontro não só com os setores mais reacionários da sociedade. A popularização do festival de mimuna em Israel é algo muito recente. foi em um passado não tão distante o centro de muitas polemicas. colhido por Cohen se referindo ao festival de mimuna : “The politically most conservative approaches the problem from a cultural angle. da miscigenação dos grupos étnicos para a construção de uma sociedade moderna.Ou seja. Nesse caso o ideal de Melting-Pot foi traduzido ao hebraico como mizug galuiot (miscigenação dos exílios). 61) Aos poucos a mimuna vai deixando o seu lugar demarcado na sociedade israelense. as already mentioned . mas também de encontro com todo um projeto étnico que as autoridades sionistas da época almejavam para o jovem país. até então ser instituído.” (TOPEL. processo que levaria a criação do “israelense” categoria na qual ficaria apagado o repertório cultural dos novos imigrantes. como algo legitimado na sociedade israelense. Meir’s attitude seems to have closely approximated . e porque não dizer tradicional. Vejamos o discurso de um ministro de Israel.to which. que se adaptariam aos padrões emblemáticos do “novo judeu” idealizado pelos sionistas. A intenção era a construção de um “novo judeu” e de um novo país. Alguns setores mais reacionários acusavam tais manifestações culturais de serem um enclave no crescimento dos judeus orientais. e por razoes varias. Mrs.the lot of Orientals cannot be improved unless they change their ‘backwards’ customs: Oriental were advised to spend less on family celebrations. p. nos explica Topel. e aquilo que hoje nos parece um fenômeno normalizado. 2005. durante muito tempo tais manifestações não eram vistas com bons olhos por vários setores da sociedade israelense. aonde o individuo se encontraria livre das coerções sociais decorrentes do pertencimento de sua etnicidade. .

Caso este estudo tenha conseguido ultrapassar a mera descrição de uma festa. No que diz respeito à aplicação do método antropológico junto aos estudos judaicos. como também este artigo mostra que o judaísmo em certos aspectos pode se apresentar tão . ou as sociedades mais isoladas e de estrutura social menos complexa. este artigo assume um papel polemico tal qual o ritual de mimuna nas suas várias formas de se apresentar. se faz necessário ressaltar que é muito interessante abordar questões judaicas a partir do prisma antropológico. Para os que já conheciam o ritual. que este venha ainda levar o entendimento maior da pluralidade existente dentro do judaísmo. em suas diversas nuances. Muitas pessoas ainda hoje ainda atribuem aos antropólogos a função de estudar os povos ditos primitivos. Mostrando aspectos sincréticos e o compartilhamento cultural que o mesmo vem sofrendo no decorrer dos anos e nos vários contextos sociais aonde este se encontra por ventura esteja inserido.Conclusões Finais Espero que o compartilhamento destes dados etnográficos. Acredito que para aqueles que desconheciam totalmente a respeito do ritual. este trabalho possa ser útil para um primeiro entendimento. Restando ao leitor escolher qual das explicações apresentadas sobre mimuna é a mais convincente para si. assim como a comparação vis-à-vis entre o ritual de mimuna em Belém do Pará com o ritual de mimuna em Israel tenha atingido o objetivo proposto no inicio deste trabalho. A antropologia não só já se ocupa de outros setores da sociedade.

. Ethnology. Bibliografia BENCHIMOL. e que ao mesmo tempo em que remete ao antigo. também mudam os símbolos. GOLDBERG. Ed. nos mais diversos lugares. Max. The two Israels. 2007 COHEN. e causar um estranhamento tal qual. 1978 TOPEL. Vol. University of Chicago. Com o passar dos anos. 1962. e o motivo pelo qual fizemos a comparação de dois rituais de mimuna em circunstancias totalmente diferentes foi na intenção de chamar atenção que a tradição é algo que permanece. Erik. 2005. são criadas variadas formas de se comemorar. mas a senhora da fortuna sempre retorna no eterno reinventar dos homens. BIN-NUN. 1972. Jouranl of Sociology. Sendo o ponto principal.haaretz. a cada momento revela uma a uma suas faces. Ygal. Valer. Top Books. WEINGROD. e assim como a cultura.com/hasen/spages . mudam os rituais. Harvey E. Lady Luck. a tradição é uma mutação em si própria. qualquer grupo social diferenciado estudado pelos antropólogos. Ertez Amazônia . Jerusalém & São Paulo: A nova ortodoxia judaica em cena. The Mimuna and the Minority Status of Moroccan Jews. The black panthers and Israeli society. vol 17(1).desconhecido. Marta F. http://www. Ed. Samuel. e ao imutável. XIV n 1. Manaus 1998. A mimuna é um exemplo dos mais figurativos desta mutabilidade cultural.