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REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP

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A REDEMOCRATIZAÇÃO DO ENSINO – AVANÇOS, RETROCESSOS E QUALIDADE DA EDUCAÇÃO POPULAR. JANIAL, Márcia Aparecida Pinheiro1 DI GIORGI, Cristiano Amaral Garboggini2

Resumo: O presente artigo tem como objetivo discutir e analisar alguns aspectos da construção da escola pública brasileira na década de 80 e a qualidade da educação popular, seus avanços e retrocessos. Partindo do princípio de que uma educação pública de qualidade deve necessariamente agregar princípios da quantidade e da qualidade da educação, ou seja, deve atender a todos. Nossa escola foi construída com base em interesses que ora se pautavam por aspectos extremamente políticos, ora por aspectos econômicos, e ainda, ora titubeando entre um e outro, mas sempre com interesses outros, que não foram a valorização e a qualidade da educação oferecida a classe popular. A democratização do ensino no país custou a acontecer, e aconteceu de forma não planejada, atendeu-se a quantidade, porém ainda estamos longe de atender a qualidade da educação que a classe popular merece e anseia, diante dos desafios da sociedade contemporânea. O que nos vale dizer, é que essa deveria ser uma obrigação social do Estado, oferecer uma educação de qualidade à totalidade da população, com o objetivo de instaurar-se uma sociedade mais justa, democrática e igualitária, essa é a perspectiva da educação democrática. Uma qualidade que, sem sombra de dúvida, tem que agregar três dimensões: os insumos, os processos e os resultados, para que se tenha um planejamento real e concreto dos rumos da educação no país. E uma qualidade que tem que ser construída no interior das escolas públicas, com seus principais agentes, professores, alunos, gestores e comunidade. Palavras-Chave: Escola – Pública – Popular - Democrática. Abstract: The present article has as objective to argue and analyze some aspects of the construction of the Brazilian public school in the 80 decade and popular education quality, its advances and retrocessions. The public education of quality must necessarily add principles of the amount and the quality of the education must take care of to all. Our school was constructed on the basis of interests that however were the base of aspects politicians extremely, however for economic aspects, and still, however going between one and another one, but always with other interests that had not been the valuation and the quality of the education offered to popular classroom. The democratization of education in the country cost to happen, and happened in a not planned form, took care of amount to it, however still we are far from taking care of the quality of the education that the popular classroom deserves and yearns for, ahead of the challenges of contemporary society. It´s possible to say that this would have to be a

SABER ACADÊMICO - n º 10 - Dez. 2010/ ISSN 1980-5950

a política da educação e a orientação do ensino mostram de forma clara o seu caráter histórico”. so that if it has a real planning and concrete of the routes of the education in the country. pupils. without the shadow of a doubt. p. Para tanto analisaremos a seguir aspectos que consideramos importantes para o estudo da escola. 1). Key-Words: School – Public – Popular . que vão estabelecendo e ditando os rumos que a educação do país vai tomando no decorrer da história.n º 10 . to offer an education of quality to the totality of the population. The quality must to be constructed in the interior of the public schools. p. sem a pretensão de periodização completa e detalhada de todos os seus aspectos histórico-sociais. 19). That´s the perspective of the democratic education. Sabemos que. Como nos apontam Vieira e Farias (2007.Democratic. “a expansão quantitativa de vagas e de alunos matriculados representou realmente uma conquista importante para a maioria da população brasileira”. p. econômicos. SABER ACADÊMICO . the processes and the results. processos políticos.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 4 social obligation of the State. como afirmam Leite e Di Giorgi (2008. partiremos então de quais princípios? Demarcaremos nosso texto a partir de um levantamento histórico. democratic and equal. 16). sociais e culturais. partindo da década de 80. “na educação as coisas se misturam de tal forma que nem sempre é possível estabelecer fronteiras precisas”. nossa análise estará pautada na premissa de que. como salienta Paiva (1985. “toda educação provém de uma situação social determinada e as metas educacionais. with its main agents: teachers. Nesse sentido. managers and community. mas com objetivo de tentar esclarecer pontos que consideramos importantes para a construção de uma escola pública. construída com muitos embates. A quality that. Para tanto.Dez. Não se pode falar em qualidade na educação popular e democrática se esta não for para todos. 2010/ ISSN 1980-5950 . Mas esta tarefa não é simples. with the objective to restore a society more joust. popular e democrática no Brasil. ___________________________________________________________________________ INTRODUÇÃO Não se pode discutir educação sem nos remetermos aos processos estruturantes da nossa sociedade. has to add three dimensions: the investments.

ao longo do tempo. o dever do Estado em prover creche e pré-escola ás crianças e o ensino fundamental obrigatório e gratuito para todos. consubstanciando-se com a promulgação da oitava Constituição da República Federativa do Brasil. Pelo contrário. significou simultaneamente conservação e mudança. segundo Neves (1994). o que. 2010/ ISSN 1980-5950 . a Constituição de 1988 representou o cume de um quadro de transição que se instalou em nosso país e se tornou a “Constituição Cidadã”. A Constituição veio redefinir o papel do Estado em relação à sociedade brasileira como um todo. Mas o que se deve ressaltar é que essa Constituição. de desnutrição e de desemprego urbano. originando a miséria com o agravamento dos índices de pobreza. Na verdade. nas relações de poder e nas relações sociais globais. 101). a Constituição representou. de falta de escolarização. modificando-se através de Emendas Constitucionais. Comparada às outras Constituições. em 1988..Dez. Isso prova que o desenvolvimento econômico do nosso país não possibilitou melhoria de qualidade de vida para toda sua população. mais uma vez. Historicamente sabemos que os embates acontecidos no decorrer de nossa história acabaram tornando-se acordos. o que. de acordo com Neves (1994. 15) [. p. uma conciliação das forças combatentes.] traz como elemento marcante a presença do povo e a valorização da cidadania e da soberania popular. Em face dessa realidade. Consagra-se como direito público subjetivo e estabelece o princípio da gestão democrática do ensino público.n º 10 . Sendo assim. a Constituição teve como objetivo colocar-se diante das profundas mudanças ocorridas na economia.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 5 A ESCOLA PÚBLICA CONTEMPORÂNEA – NOVOS RUMOS PARA A EDUCAÇÃO A década de 80 foi marcada pela deterioração social da grande maioria da população brasileira. como afirma Leite e Di Giorgi (2008. Esse período é também considerado de transição de um período de regime ditatorial para outro de normalidade democrática. preservando aspectos determinantes dessas forças sociais. de analfabetismo funcional. apresenta o mais longo capítulo sobre educação.. foi um desenvolvimento excludente e perverso. fez com que o Estado redefinisse alguns papéis e incorporasse a algumas instituições sociais segmentos historicamente SABER ACADÊMICO . e foi. p.

controle do fluxo de alunos. mediando a redistribuição dos gastos SABER ACADÊMICO . como redução e controle de investimentos. Como destacam Carreira e Pinto (2007. de certa forma.. alunos aprovados no vestibular. otimização de desempenho. estimulando a competição entre escolas. a famílias como ‘consumidoras’ ou “clientes”. a ter marcadamente um viés economicista e um caráter utilitarista. a autora destaca os direitos trabalhistas e previdenciários..n º 10 .REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 6 marginalizados. para avançar com a centralidade na educação primária. etc. fizeram-se presentes nessa Constituição com um título exclusivo para a ordem social. tem início nesse período. o Estado assumiu o papel de “agente normativo regulador da atividade econômica”. gestão organizacional e racional. p. e os cálculos são feitos com base no custo versus retorno econômico. tendo como referência os postulados da Teoria do Capital Humano disseminados pelos técnicos do banco Mundial. nesse período de 1980 a 1990. a remuneração de professores e professoras por resultados. o que persiste até os dias atuais. à infância e a assistência aos desamparados. caracterizar uma mudança nas relações sociais estabelecidas. em separado da ordem econômica. sendo impregnada por características do mercado econômico. 21). alargando assim os instrumentos da democracia clássica. Entram em cena os grandes sistemas de avaliação. Essa política do Banco Mundial induz o encolhimento do Estado brasileiro e a transferência dos serviços sociais. 2010/ ISSN 1980-5950 . O produto agora é o principal (notas em exames padronizados. Ou seja. Os movimentos populares intensificaram-se e lutaram contra os problemas sociais e de interesse da maioria da população e. propõe quatro medidas: uso mais eficiente dos recursos disponíveis. dentre eles os educacionais. maior capacidade de recursos locais e garantia de igualdade de insumos educativos. fluxo escolar). para o setor privado.] a transposição da lógica de mercado para a área social. a saúde. de acordo com Neves (1994). canalização para a educação primária de recursos atualmente destinados a outros níveis. a proteção à maternidade. [. ao mesmo tempo em que eram consideravelmente ampliadas suas funções sociais. Nessa concepção. sem contudo. Como funções sociais do Estado. baseados em testes padronizados que não consideram o contexto das escolas. os direitos sociais perdem força (grifos do autor). a educação. o lazer. Este. a segurança.Dez. A educação passou.

mas como afirmam Leite e Di Giorgi (2008. essa reforma educacional que marcou nossa sociedade contemporânea teve. 15).Dez. que estabelece as Diretrizes de Bases da Educação Nacional (LDB). rever a responsabilidade das unidades federativas na oferta do ensino fundamental. com a Constituição Federal de 1988 e foi se consubstanciando com a LDB 9394/96. a partir dos anos 90. descentralizando sua execução para os estados e os municípios. Dois outros instrumentos foram aprovados em seguida: a Lei n° 9394/96. Nesse sentido o governo. Como destaca Saviani (1997). caso estes não aplicassem na área o percentual mínimo exigido por lei. Esta se deu no campo da legislação. de acordo com as necessidades locais.n º 10 . que modificava artigos do capítulo sobre educação visando: permitir a intervenção da União nos estados. Essa educação tem uma relação estreita com o mercado de trabalho. também de 1996. p. como afirmam Leite e Di Giorgi (2008. detalhar os recursos aplicados pela União na erradicação do analfabetismo. como forma de melhorar a qualidade da educação e a concentração dos recursos no Ensino Fundamental. agiu de acordo com as políticas neoliberais. p. 2010/ ISSN 1980-5950 . SABER ACADÊMICO . começou a traçar os novos rumos da educação brasileira.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 7 públicos. com a definição de algumas medidas: A primeira foi a Emenda Constitucional n° 14 de 1996. Na verdade. que dispunha sobre o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (FUNDEF) Como vemos neste período. desobrigando-se das responsabilidades de efetivação das políticas educacionais e passando a responsabilidade a outras esferas. contudo não o atrela aos investimentos necessários e “apela à iniciativa privada e organizações não-governamentais. sua principal delineação. 1997. 16). p. o governo possuia um discurso em favor da educação. o governo federal trouxe para si a competência em relação à definição de políticas educacionais. como se a responsabilidade do Estado em matéria de educação pudesse ser transferida para uma etérea boa vontade pública” (SAVIANI. O controle do sistema escolar passou a ser exercido por uma política de avaliação para todos os níveis de ensino. Essa reforma anunciou uma preocupação com a universalização da educação básica e. e a Lei n° 93324. definir os responsáveis em relação à oferta do ensino. 230). criar um fundo para a manutenção e desenvolvimento do ensino fundamental e a valorização do magistério.

então. que apresentava como proposta para a educação denominada de “Uma escola do tamanho do Brasil”. que transformaram a educação em mercado e primam pelo lucro a todo custo. principalmente no que diz respeito à falta de investimento estatal. utilizando recursos do próprio Estado e de seus municípios. embasados por nossa legislação educacional3 alguns programas e fundos de financiamento que passaram a organizar a educação escolar. nos dias atuais. Lei no. compra de materiais didáticos. Ao estudar o projeto. Ficou evidente a falta de previsão e/ou detalhamento de onde sairão os recursos financeiros (insumos) necessários para o desenvolvimento do país. observamos também que suas ações foram condizentes com o que a LDB. manutenção de equipamentos. com muita intensidade. entre outros. A distribuição dos recursos realizada pelo número de alunos matriculados anualmente tem como base o censo educacional realizado pelo MEC anualmente. ainda. a principio. no ensino superior. O FUNDEF (Lei nº.424/96) foi implantado em 1º de janeiro de 1998. 9. no governo de Fernando Henrique Cardoso. já havia previsto. com o objetivo de estruturar o financiamento do ensino fundamental. SABER ACADÊMICO . a Emenda Constitucional de nº.Dez. dando a impressão que a educação seria tratada como prioridade em seu governo. 9. Não basta ter a intenção e conhecer os problemas. é preciso tomar atitudes como organizar e prever o dinheiro que será gasto nestas ações e de onde ele sairá. Temos.n º 10 . acarretando uma formação aligeirada dos futuros profissionais brasileiros. percebemos que. sofre a cada dia com o avanço avassalador das instituições particulares. o governo contemplou questões importantes para minimizar as lacunas existentes. no entanto. 2010/ ISSN 1980-5950 . Este caminha levado pela própria sorte. 14.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 8 Essa característica de desobrigação com a área educacional faz-se presente. A utilização de seus recursos respalda-se em um percentual de 60% do fundo para remuneração dos profissionais do magistério e 40% para qualificação dos professores na formação continuada e outros gastos necessários como reforma de prédios. porém. Essa realidade continua a se expandir mesmo depois da eleição de Luis Inácio Lula da Silva. que fez alterações no texto constitucional no que se refere ao capítulo da educação.394/96. e. O acompanhamento e fiscalização são realizados por conselhos formados nas esferas federal. estadual e municipal.

n º 10 . Uma das prescrições para a criação do novo fundo é que ele não deverá aumentar os impostos. A previsão de vigência do fundo é de 14 anos (2006 a 2019). de 6 de fevereiro de 2006.2 bilhões anuais ao ensino fundamental. No total. R$ 48 bilhões. 32 e 87 da LDB dispondo sobre a duração de 9 anos para o Ensino Fundamental. R$ 313. cuja vigência foi até dezembro de 2006. O que aumenta — A complementação da União para os estados com menos disponibilidade financeira aumenta com o Fundeb. em 2006. dentre outros. em 2007. O Fundef destinava R$ 35. o Fundeb aplicará na educação básica. entretanto. Segundo dados da SEB-Secretaria de Educação Básica no portal do MEC4: Com o novo fundo.5 bilhões no terceiro e 10% do montante da contribuição dos estados e municípios a partir do quarto ano. Outro programa é a ampliação do ensino fundamental para nove anos. As séries iniciais do ensino fundamental que estavam recebendo R$ 682. com o Fundeb passam a receber R$ 946. ampliando o período de escolaridade obrigatória. Segundo dados da própria lei. houve uma alteração nos artigos 29. p. Para que isto ocorra.494/2007 – Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação.7 milhões. 170). é que os SABER ACADÊMICO . O que não podemos deixar de ressaltar. Assegura o acesso da criança de seis anos à escola. 30. Este substituiu o FUNDEF. É constituído por 20% de uma cesta de impostos e transferências constitucionais de estados. a educação básica atenderá 47 milhões de estudantes de creches. que constitui uma política comprometida com a inclusão e a eqüidade social. 2010/ ISSN 1980-5950 . o FUNDEB.9 bilhões (com base em valores de 2007). municípios e de uma parcela de complementação da União. R$ 4. Lei nº.60 por estudante durante o ano. educação infantil e especial. o aporte do governo federal será de R$ 2 bilhões no primeiro ano. como assim bem o fezeram Vieira e Farias (2007.Dez.29. Com o Fundef. com matrícula obrigatória a partir os 6 anos de idade. podendo estender-se até 2021. O valor mínimo por aluno aumenta com o novo fundo. R$ 62. A partir do quarto ano de vigência do fundo. R$ 3 bilhões no segundo. ensinos fundamental e médio e educação de jovens e adultos.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 9 No governo de Luis Inácio Lula da Silva foi criado um novo fundo de financiamento que alcança toda a Educação Básica. a União investiu. Lei n.274. 11. 11.

a qual projetava uma cobertura de 94% até 2003 para a população em idade escolar.3%” (BRASIL. Foi um processo longo e paulatino em busca dessa conquista.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 10 Indicadores sobre a expansão da oferta. como afirma Beisiegel (1980. segundo Beisiegel (2006). p. 2010/ ISSN 1980-5950 . Mas. por toda a exclusão que sofreu no decorrer da história de construção da escola pública em nosso país. o processo de democratização de ensino. inclusive.Dez. por fim. e agora? Os resultados dessa escolarização estão sendo satisfatórios? Está havendo realmente um interesse político no que diz respeito ao financiamento dessa escola ou. não se pode falar da perda da qualidade quando a escolaridade se estendeu aos setores mais amplos da população. por outro lado. “De 1991 a 1998 a taxa de escolarização líquida da população e 7 a 14 anos saltou de 86% para 95. médio e superior) e a expansão do acesso educacional a um maior número de cidadãos provocaram. Este índice é bastante animador considerando. deteriorou-se. Como afirmam Leite e Di Giorgi (2008.n º 10 . uma escola que será capaz de dar. Com isso o Brasil antecipa uma das metas expressas no Plano Decenal de Educação para Todos. como se aquela seletiva e propedêutica do passado é que fosse boa. sinalizam avanços significativos. é crescente o número daqueles que chegam ao final com menos idade. “aceitar essa escola tal como ela existe. a indicação de que “além de ter mais jovens concluindo o ensino fundamental. a SABER ACADÊMICO . valorização de seus profissionais da educação. em condições. portanto de continuar os estudos” ( grifos das autoras). p. p. 2000. de qualidade. atenção e dedicação pelo acesso e permanência dos alunos nessa escola? Esses são alguns desafios da escola contemporânea. 16) O crescimento do número de matriculas de alunos em todos os níveis (no ensino fundamental. Para ele. 5). Esses indicadores vêm agregar dados à nossa afirmação de que a classe popular chegou à escola e esse é um motivo de comemoração. incentivo e ações efetivas para o desenvolvimento da gestão democrática e. como nos aponta Carreira e Pinto (2007). porque isso é o ponto de partida para se pensar. 56). sobretudo. aos insumos necessários para manter e melhorar a qualidade de estrutura e funcionamento dessa escola. Para resolvê-los temos que. Afirma o autor é necessário não emitir uma critica radical e conservadora de que atualmente a escola perdeu a qualidade.

na busca e conquista da qualidade da educação. é impossível pensar em qualidade para poucos. quando muito.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 11 essas populações. valendo-nos dos estudos de Leite e Di Giorgi (2008). Nessa discussão. ou seja. os filhos de trabalhadores. ou seja.n º 10 . A qualidade deve ser pensada no sentido da inclusão e integração de todos na escola. pensados aqui como necessidades reais para se alcançar uma educação de qualidade. no sentido do exercício de direitos e obrigações essenciais à democracia. os processos e os resultados. os processos e os resultados. os autores aproximam-se da concepção de educação civildemocrática desenvolvida por Paul Singer (1996). porque para quem defende a educação popular e democrática. variando conforme as oscilações da arrecadação. que apontam a qualidade da educação básica como o desafio central da educação contemporânea brasileira. CONSIDERAÇÕES FINAIS De que qualidade estamos falando? Queremos situar a discussão da qualidade na perspectiva da educação popular. em termos quantitativos também. Essa qualidade da educação popular. trazendo à baila a discussão de uma “nova qualidade”. algo mais do que a escola que atualmente existe está dando”. portanto a base fundante do conceito de qualidade que desenvolvem e que aqui trazemos como contribuição para o nosso trabalho. trazemos a contribuição dos estudos Carreira e Pinto (2007).Dez. que têm como objetivo quantificar e calcular o custo-aluno necessário para a execução de metas para os diversos níveis de ensino. A lógica vigente no Brasil estabelece que o valor médio gasto por aluno seja. O que se entende por cada um deles? Em se tratando dos insumos. propondo uma nova lógica para o financiamento da educação e das demais políticas sociais no Brasil. num trabalho realizado e pensado para as classes desprivilegiadas. que confere à educação um caráter de “formação cidadã”. pública e democrática deve ser pensada sob três prismas: os insumos. Essa será. SABER ACADÊMICO . o resultado da divisão dos escassos recursos da vinculação constitucional – que muitas vezes não é cumprida – pelo número de estudantes matriculados. 2010/ ISSN 1980-5950 . marcado pela subordinação do investimento social à disponibilidade orçamentária imposta pelo ajuste fiscal. pública e democrática. O Custo Aluno-Qualidade representa uma inversão completa da lógica que pauta o financiamento da educação e das demais políticas sociais no Brasil. que agrega três dimensões os insumos.

. p. com bons e SABER ACADÊMICO . a jornada de trabalho e a formação inicial e continuada dos trabalhadores e trabalhadoras em educação.] • a construção de um indicador de qualidade junto à comunidade [. incluindo a avaliação conjunta da escola pelos trabalhadores e pelas trabalhadoras em educação. Entre os fatores mais importantes. INSUMOS RELACIONADOS À GESTÃO DEMOCRÁTICA – São um requisito essencial para que a educação seja viabilizada com qualidade. pelos estudantes. os salários. não imaginamos ou inventamos uma resposta original e ideal de escola que resolva a questão de não satisfazer as necessidades de nosso tempo. alimentação. impulsionada com o que sabemos sobre como atingir com qualidade seus objetivos em experiências pontuais.] INSUMOS RELACIONADOS AO ACESSO E À PERMANÊNCIA – Aqueles que devem ser assegurados aos alunos e às alunas. INSUMOS RELACIONADOS À ESTRUTURA E AO FUNCIONAMENTO – Referem-se à construção e à manutenção dos prédios. transporte. (CARREIRA e PINTO.] • o fomento de práticas participativas de avaliação. 2007. não podendo ser impeditivos para a permanência destes nas escolas. 2007. o que tentamos é algo simples como juntar os traços e as formas do bem saber fazer que de alguma forma já foi experimentado. 13) Nesse sentido. vestuário. 28) em quatro categorias: “os relacionados à estrutura e funcionamento.. p. A educação tem que ser reinventada sem fantasias futurísticas nem olhares saudosistas. legislação aprovada pelo congresso em 2001? O CAQ representa a garantia das condições concretas que efetivem os compromissos e as conquistas previstos na legislação.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 12 O CAQ trilha um outro caminho ao nascer da pergunta: qual é o investimento por aluno(a) que o País precisa fazer para que haja a ampliação do acesso e a melhoria da qualidade da educação de acordo com as metas do PNE (Plano Nacional de Educação). temos que pensar a organização da escola de uma outra maneira. como propõe Sacristán (2007.. destacam-se: • o fomento à participação da comunidade escolar [. Ao contrário. os insumos são definidos por Carreira e Pinto (2007. 29-30) Com relação aos processos. a materiais básicos de conservação e a equipamentos de apoio ao ensino. o plano de carreira.Dez. (CARREIRA e PINTO. e esse é um desafio. como material didático.. p. p. às trabalhadoras e trabalhadores em educação. 2010/ ISSN 1980-5950 . INSUMOS RELACIONADOS AOS TRABALHADORES E ÀS TRABALHADORAS EM EDUCAÇÃO – Abrangem as condições de trabalho. à gestão democrática e aqueles relacionados ao acesso e à permanência na escola”. pelas famílias e pela comunidade [.. 11) Para responder a estes desafios..n º 10 .

ed. A qualidade na/ da escola pública. 11). 2º grau . 3. P. M. Vol. sem se deixar levar pelo caminho sem solidariedade do mercado. 4. 1994. L. Celso Rui.) Gestão democrática da educação: atuais tendências. Educação escolar: políticas. como afirma Sacristám (2007. ed. p. C. A. São Paulo: Difel. OLIVEIRA. LEITE. 1996. GHIRALDELLI JUNIOR. J. A qualidade do ensino na escola pública.. a escola se “reconstruir a partir de suas próprias e melhores tradições”. de. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANHA. LIBÂNEO. F. São Paulo: Cortez. F. apoio das administrações e das famílias. G. Filosofia e história da educação brasileira. (Não publicado). ed. São Paulo: Moderna. In: FAUSTO. 2007. M. SABER ACADÊMICO . 2010/ ISSN 1980-5950 . novos desafios. DI GIORGI. ed. FREITAS. NEVES. 2000. C. 2005 FERREIRA. S. Educação e Sociedade. 1994.n º 10 . (Coleção magistério. História da Educação. História geral da civilização brasileira.. M. Nº. de. A educação na primeira república.. estrutura e organização. J. B. Y. R. W. TOSCHI. C. enquanto local de construção de conhecimentos. ed. 26.REVISTA MULTIDISCIPLINAR DA UNIESP 13 dedicados professores. já que a nosso ver é na escola. 2007. São Paulo: Cortez. 2001. C. S. São Paulo: Global. 92 Campinas Oct. Acreditamos que é no interior da escola que serão traçados os processos de construção da qualidade da educação. NAGLE. (Coleção Docência em formação). PINTO. que poderá ser construída a qualidade dos seus processos educativos. História da Educação. 2. BEISIEGEL. N. U. J.Dez. Brasília: Líber Livro. São Paulo: Cortez. D.Série formação do professor). São Paulo: Cortez. L. 15-78. Custo aluno-qualidade inicial: rumo à educação pública de qualidade no Brasil. São Paulo: Cortez. 2. 1980 CARREIRA. Maria Lúcia de Arruda. 3. p. J. Qualidade Negociada: avaliação e contra-regulação na escola pública. 2001. (Org. ______. Educação e política no Brasil de hoje.

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