INDIANA JONES E A DANÇA DOS GIGANTES ROB MACGREGOR

O jovem Indiana Jones conseguiu o seu primeiro emprego no Departamento de Arqueologia da Universidade de Londres. A sua mais brilhante, e também a mais bonita, Deirdre Campbell,que diz ter descoberto um pergaminho dourado, prova da existência de Merlim, feiticeiro lendário. Indy fica intrigado com esta tese... e também com Deirdre. Intrigado também está o membro do parlamento Adrian Powell,que procura ressuscitar a antiga Ordem dos Druidas, cujos segredos o poderão conduzir à conquista do mundo. Mas para isso precisa do pergaminho. E está disposto a matar para o conduzir.

Nestas Coleções: Indiana Jones e o Templo Perdido Indiana Jones e a última Cruzada Indiana Jones e os Perigos em Delfos

Apanhou uma picareta do chão e colocou o cabo na boca. Com precaução, subiu para o fundo da escada improvisada. O seu peso fê-la esticar quase até ao solo, mas não rompeu. Ergueu o pé, escalando para o nível a seguir, e depois para o terceiro. Mas o pé escorregou-lhe da corda, e apanhou-a com o joelho. A corda que segurava com a mão esticou-se. Subitamente, uma das estacas saltou da parede e Indy foi cair por cima de Deirdre, derrubando-a para o chão.

ROB MACGREGOR INDIANA JONES E A DANÇA DOS GIGANTES

PUBLICAÇÕES EUROPA-AMÉRICA

Título original: Indiana Jones and the Dance of the Giants Tradução de Maria João Bento Tradução portuguesa (R) de P. E. A. Editor: Francisco Lyon de Castro Publicações Europa-América L.da Apartado 8 - 2726 MEM MARTINS CODEX PORTUGAL Edição nº: 100288/5634 Execução técnica: Gráfica Europam, Lda, Mira-Sintra - Mem Martins Depósito Legal nº: 56194/92

Se desejas honrar o sepulcro destes homens com uma obra que permaneça para todos os tempos, busca a Dança dos Gigantes... GEOFFREY DE MONMOUTH, "Histórias dos Reis de Inglaterra". Para trás de Merlin, num passado nebuloso, podemos descortinar a hierarquia dos druidas, e, para trás desta ,existem cultos xamãs do Paleolítico Superior, expandindo-se vinte e trinta milênios nas trevas. Isto não constitui o princípio, embora, em verdade, pareça não existir nem princípio nem fim, antes um mistério. NICOLAU TOLSTOI, “Em Busca de Merlin”

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Índice Capítulo I: O pacote-surpresa .................. 8 Capítulo II: Representação na aula ..........14 Capítulo III: Companheiros de quarto .......20 Capítulo IV: Entre as prateleiras ...............29 Capítulo V: A torre de Londres .................38 Capítulo VI: O erro de Deirdre ..................46 Capítulo VII: Escorpiões em Londres .......54 Capítulo VIII: Esplumoir ............................58 Capítulo IX: O Cruc ...................................64 Capítulo X: As boas-vindas em Whitorn ...75 Capítulo XI: A caverna de Merlin ..............82 Capítulo XII: Ar impróprio .........................88

Capítulo XIII: Visitantes ............................95 Capítulo XIV: Aracne ..............................101 Capítulo XV: Depois do escurecer .........109 Capítulo XVI: Revelações ......................117 Capítulo XVII: A caverna da morte ........125 Capítulo XVIII: As enseadas ..................137 Capítulo XIX: O eclipse em Stonehenge 146 Capítulo XX: O Convento .......................154 Capítulo XXI: Paredes de vime ..............164 Capítulo XXII: Milford recorda-se ...........170 Capítulo XXIII: A festança ......................176 Capítulo XXIV: Axis mundi .....................183 Capítulo XXV: A seta de Apolo ..............192

CAPÍTULO I O PACOTE-SURPRESA Verão de 1925 Para onde olhasse, só avistava figuras envoltas em trajes negros e encapelados, as cabeças cobertas com capuzes.Entoavam, vezes sem conta, um cântico monótono e ritmado. Era infindável, de enlouquecer. Espreitou por entre a neblina acinzentada, tentando situar-se. Ou amanhecia ou anoitecia; não sabia bem, e tal facto perturbava-o. Percebia que se encontrava no interior do que lhe parecia ser um templo. Era circular e destelhado, com pilares em pedra, imensos, arqueando na direcção do céu cimeiro. Ele não pertencia ali; aquele não era o seu lugar. A sua cabeça salientava-se acima de todas as outras, e era o único que não usava túnica. Olhou para baixo e viu que não tinha nada vestido. Apercebeu-se, então, que estava em cima de uma rocha plana e que essa era a razão por que era mais alto do que as outras pessoas. O que estaria ele a fazer ali? Como chegara àquele lugar? Olhavam agora para ele. Todas as cabeças se encontravam voltadas para si. O sussurro aumentou de intensidade;martelava contra ele. Por que estariam a avançar para ele? Por que não se moveriam os seus pés? Por que sentia o corpo como se fosse de chumbo? Um homem avançava na frente de todos os outros. Apontou para ele. - Jones, sabemos que está a chegar. Sabemos que está a chegar. Era isso - o cântico. Agora corriam para ele, um mar de negridão, as vestes esvoaçando nos tornozelos. Olhou freneticamente em redor, em busca de uma saída. Os seus

mas não pareciam deslocar-se para lado nenhum. Depressa.Indy pegou na caixa plana e rectangular. . de cabelo grisalho. Estava envolta em papel branco. atitude que o pai descrevera como tola e pérfida. espreitou. Chocalhou ao ser agitada. Eles deviam tê-lo drogado. com um envelope colado onde se lia Indy Jones. enquanto a mulher negra oscilava e cantava no palco. os pés estremecendo. Voltou o pacote na mão.Jack Shannon estava ao corrente do relacionamento que tinha com o seu pai. . vestindo a farda de revisor.Tem a certeza de que é para mim? . despertou. Pestanejou. e alguém batia a porta do compartimento. mas. O comboio. Era obra de Shannon. Um rosto sorridente incidiu sobre ele. a voz . Estavam quase em cima dele. Endireitou-se no assento e passou as mãos pela fronte ensopada de transpiração. anuiu e retirou-se. que sorriu timidamente. Mexe-te. Jones? Lamento incomodá-lo. Mas continuava a ouvir o cântico incessante.Agradeceu ao revisor. um grito balançado na extremidade da língua.Mr. cheirava vagamente a chocolate. . . Olhou pela janela para a paisagem ainda em tons de cinzento e pensou na última noite que passara em Paris.Não tem importância. e boa sorte para o teu novo trabalho.Quem é? O bater parou. Indy esfregou o rosto. O seu franzir de sobrolho suavizou-se então. . quem eram eles? Girou a cabeça. Parecia uma caixa de bombons. -É provável que só exista um de nós a bordo. Pestanejou e voltou a ler. os pés emitiam ruídos por baixo dele.braços elevavam-se. Quem poderia lhe enviar chocolates? interrogou-se ao retirar um cartão do envelope. o som do cântico. Uma nuvem de fumo azulado pairava no ar do clube nocturno. Henry Jones Senhor. Como é que diabo sabia o seu pai que ele estaria neste comboio? E desde quando é que ele lhe enviava caixas de bombons? Já não falavam há mais de dois anos. orientando-se. Mexe-te. As carruagens rolando sobre os carris. 8 Explodiu ar dos seus pulmões. Abanou a cabeça e pousou o cartão sobre a caixa. Conteve a respiração e olhou em redor. tinha de ser.Estava à sua espera na última paragem. Os pilares inclinaram-se na sua direcção. Subitamente. desde que Indy o informara que trocara os seus estudos de Lingüística por Arqueologia. O céu enviesou-se. Claro. A porta abriu-se e um inglês magro. e um sorriso aflorou-lhe nos lábios. . pelo menos para alguém com o fraco sentido de humor de Shannon. O que se passa? O revisor mostrou um pacote. os braços contraídos. O pacote não passava de uma brincadeira. Aproximou do nariz. A mensagem vinha dactilografada: Desejo-te uma viagem agradável.

passara dois anos na Bretanha. Por vezes. Gostaria de voltar a Londres. Riu-se para si mesmo. Chocolates franceses vindos de Paris. . . Não necessitava de ponderar mais sobre o significado do seu sonho. Estivera a ler este livro antes de adormecer. Tinha a certeza de que os druidas trajavam de branco. . 10 . por que vestes negras? interrogou-se. a qual dizia: Felix qui potuit rerum cognoscere causas. anuiu e sorriu ao abrir caminho por entre as mesas. O cenário mudou. quem disse que os sonhos tinham de fazer sentido? O comboio retomou a marcha. Estava prestes a tirar a tampa e a provar um chocolate quando o comboio começou a reduzir velocidade. Nesse instante. praticamente. Indy afastou estas recordações e observou o que o rodeava. olho à minha volta e não avisto. . nenhum parisiense. Só algum tempo depois compreendeu o que estava a ver e a sentir. onde examinara algumas das ruínas megalíticas existentes na região.Boa jogada.Sabes que a tua visita será sempre bem-vinda. Jack. Por fim.A tua actuação foi excelente. Desembrulhou o pacote. -disse Indy. O livro intitulava-se Coro Gaur. Depois de partir de Paris no princípio da semana. estaria na Victoria Station dentro de meia hora.Obrigado. Só turistas. atravessara o canal de barco e apanhara o comboio. .Sou capaz de aceitar o teu convite. sentou-se na cadeira de uma mesa posicionada num dos cantos mais afastados do palco. Shannon mirou-o. Apertou mãos. A tua e a de Louise. . . . Fechou a capa.abriu de seguida a tampa e levou a mão ao interior para retirar um chocolate. Indy colocou o chapéu. A paisagem rural fora substituída por fábricas de tijolos e chaminés fumegantes. Os freqüentadores habituais só aparecem lá mais para o fim do espectáculo. No momento em que as últimas notas da canção foram lentamente abafadas pelos aplausos do público. ao chegar a uma estação. Depois. Contudo. o músico alto desceu do palco.Não te censuro por partires. . Está a ficar demasiado doentio. Bateu os dedos sobre o pacote.Afortunado ? aquele que pode ter acesso ao significado intrínseco das coisas proferiu. Tem corrido tudo muito bem nos últimos seis meses. Habitualmente Denominado Stonehenge. Mas. um livro deslizou do banco. Shannon. O Grande Centro dos Antigos Druidas. A capa abrira-se numa epígrafe na primeira página do volume do século dezoito. Se é que aparecem. um acompanhamento perfeito para os sons nobres do cornetim tocado nas sombras atrás dela.profunda e sonora. esta manhã.Vou sentir falta disto. Inclinou-se e apanhou-o.Inclinou-se para a frente e acendeu um cigarro na vela acesa sobre a mesa. Todas as noites novas caras.

Pisou aranhas e esmagou chocolates. acabadas de ser chocadas... sentiu uma deslizando no interior das calças e outra dentro do colarinho. ao fazê-lo. mas isto não se tratava de uma partida.Os seus dentes rangeram e estremeceu.Shannon? .Algo negro e peludo rastejava pelos seus dedos. abanou a mão e observou a caixa. Mas Shannon estava ao corrente desse facto. Soltou um grito abafado. deitou a mão à caixa vazia e ao papel de embrulho. sentou-se. Indy compreendeu-o. Indy reuniu. . Dezenas de pequenas aranhas. Pegou na caixa e examinou-a. Não era possível. Além disso. Depois.. Se pretendia pregar uma partida.como era habitual nas cartas que o pai lhe enviava quando eram colegas de quarto em Chicago? Ouviu bater à porta. servindo-se de um jornal enrolado.Gostaria de ver o seu bilhete. analisou o banco e voltou a sentar-se. os seus ombros contraíram-se. O revisor devolveu o bilhete a Indy e retorceu para fora do compartimento. Observou de novo o cartão. Sacudiu-se e pôs-se de pé.Ah. Mais tranqüilo. Os chocolates e as aranhas caíram sobre ele. A questão é que a caixa de chocolates não fora invadida por aranhas. .Importa-se que mude de compartimento durante o resto da viagem? Este tem aranhas. por que razão não o endereçou a Henry Jones Jr.disse.Por aqui.Sim? O revisor abriu-a. não podia ser.. com precaução. fora endereçado a Indy Jones. . Havia alguns chocolates. os seus livros e o revisor levou-lhe a bagagem. na esperança de que contivessem qualquer pista quanto à origem do suposto presente. rapidamente. Abateu-as.. Por fim. emaranhavam-se na sua perna. por favor. sacudiu o pescoço. Quase deu um salto para fora das roupas. ah. libertando os braços. . Inspeccionou depois a perna para se assegurar de que não restava nenhuma.Aranhas? . . Indy levou cuidadosamente a mão à algibeira do casaco e entregou o bilhete ao revisor. Dar-se-ia ele a todo aquele trabalho por uma partida a que nem sequer iria assistir? Talvez . perfeitamente. em voz alta. mas sentiu imediatamente um formigueiro na barriga da perna e puxou as calças para cima. Alguém as colocara lá dentro. tentando não pensar como estivera perto de dar uma dentada numa coisa daquelas. mas. lançando a caixa no ar. Agitou a perna até a aranha cair no chão e esmagou-a sob o sapato. sir. pernas e corpo das criaturas rastejantes. Talvez fosse efectivamente do seu pai. Não. . e não era feito de chocolate. Deu um pulo. No último instante. Apontou para uma aranha que subia pela armação da janela.Os olhos do revisor percorreram o compartimento. . Riu-se nervoso quando um chocolate saltou para o chão. mas as restantes divisões continham aranhas do tamanho de nozes. . . e o pai nunca o tratava assim.

Quando já se encontrava de novo instalado, perguntou ao revisor como poderia descobrir de onde viera o pacote que recebera. - É fácil. Certifique-se apenas do número que está no canto do papel de embrulho. Indy alisou o papel. - Doze. - É isso. Colocam sempre um número na encomenda para que a estação possa notificar o remetente de que a encomenda foi entregue, se esse serviço for solicitado. - Então, onde fica o doze? O revisor sorriu. - É fácil. Foi enviado de Londres.

12 Indy olhou por cima do ombro ao atravessar o portão da universidade e vislumbrou um homem alto e de cabelo escuro,que se deslocava atrás dele. Há três manhãs que este homem o vinha a seguir. Olhou de novo para trás, mas o indivíduo desaparecera num grupo de estudantes. Talvez se tratasse apenas de alguém que fazia o mesmo caminho. Embora já tivessem decorrido seis semanas desde o seu primeiro dia de aulas, não conseguia esquecer o incidente com as aranhas. Queria pensar que se tratara apenas de um erro,que a caixa de bombons não se destinara a ele. Mas sabia que isso não era verdade. Só não sabia porquê. Encontrava-se na expectativa de que algo iria suceder, de algum a indicação quanto ao significado da caixa, mas nada. Apesar de todos os esforços, não conseguiu localizar a origem do pacote. Shannon jurara que não tinha conhecimento de nada, e Indy acreditava nele. A pessoa que o remetera tomara todas as precauções para não deixar rastos. Mas estava demasiado ocupado para perder muito tempo com esta questão. Chegava todos os dias às oito à universidade, lia os seus apontamentos no gabinete, e dava uma aula de duas horas às nove e outra à uma. Embora as suas aulas terminassem às três, era então que o seu trabalho se iniciava. Regressava ao gabinete ou à biblioteca, onde pegava nos resumos das aulas, abria os livros, e começava a preparação da próxima aula. Bocejou ao entrar em Petrie Hall. Grande parte da matéria que leccionava era nova para ele, pelo que, para além de professor, era também aluno. Na melhor das hipóteses, estava uma semana adiantado em relação aos seus alunos e, nalguns dias, ainda menos. Na maioria das vezes, sentia-se satisfeito por poder ter acesso aos resumos, pois forneciam-lhe uma discriminação geral dos tópicos a serem discutidos no decorrer da semana. Mas, outras ocasiões, esses mesmos resumos restringiam-no. Antevia já processos de melhorar as aulas, se as voltasse a dar, mas não havia garantia de tal coisa. 14

CAPÍTULO II REPRESENTAÇÃO NA AULA

Só dentro de duas semanas, quando o período de Verão terminasse, poderia saber se estaria ali a leccionar no Outono.Ter conseguido este emprego tão pouco tempo depois do seu doutoramento constituiu uma verdadeira surpresa. Com efeito, não lhe teria desagradado a ideia de permanecer em Paris e procurar uma posição numa das universidades da cidade,mantendo, em simultâneo, o trabalho em part-time no laboratório de arqueologia em Sorbonne. Mas, Marcus Brody, um velho amigo da família e conservador de um museu de Nova Iorque, abrira-Lhe as portas para este emprego. Brody, um nativo londrino, enviara-lhe um telegrama, informando de que um dos seus contactos na Universidade de Londres lhe comunicara sobre uma vaga de professor de Arqueologia num curso de Verão, lugar esse que se poderia tornar efectivo no Outono. Não pensara ter muitas hipóteses, mas mesmo assim concorrera, sobretudo, para mostrar a Brody que apreciara a ajuda. Embora a colocação fosse para um curso introdutório,baseava-se, essencialmente, nos monumentos megalíticos ingleses, matéria que estudara apenas superficialmente nos seus estudos. Uma semana mais tarde, pediram-Lhe que se deslocasse a Londres para uma entrevista, e, alguns dias depois, recebeu uma carta informando-o de que fora contratado. Embora a entrevista tivesse corrido bem, estava convencido de que Brody tinha mais influência nos círculos profissionais do que ele imaginara. Quando entrou na sala de aulas, dirigiu-se ao quadro e escreveu duas palavras em letras grandes: CAMINHADA CAMPESTRE. Subiu depois para o estrado e pousou o bloco de apontamentos. Alinhadas às paredes da sala estavam estantes de madeira, contendo exposições bem ordenadas de pedaços de cerâmica, fragmentos de ossos, e alguns crânios. Numa mesa junto do estrado, encontravam-se empilhados livros de consulta e manuais e, atrás desta, o quadro e uma parede repleta de fotografias de escavações, as quais documentavam descobertas ou pormenorizavam procedimentos técnicos. Cumprimentou os alunos, reparando na loura que dava estalos com a pastilha, os jovens rapazes sérios com fatos de lã e gravatas, e as raparigas de camisolas com rabos-cavalo e fitas nos cabelos. Os seus olhos demoraram-se, por momentos, na ruiva bonita, sentada no centro da fila dianteira. Era a que mais lhe interessava de todos os alunos, mas também, aquela com quem lidava com maior cautela. Falava com freqüência, com demasiada freqüência, interrompendo com uma pergunta ou comentário, ou respondendo a perguntas que ele fizera à turma como se ela fosse a única pessoa presente. Mas essa não era a única razão por que agia com prudência em relação a ela. Chamava-se Deirdre Campbell, e era filha da Dra. Joanna Campbell, chefe do departamento e sua patroa.

15 Abriu o bloco de apontamentos na lição que preparara há dois dias. - A arqueologia é uma profissão em que se podem fazer agradáveis passeios no campo -, começou - e trabalhar ao mesmo tempo.Existe até um nome para isso. Chama-se caminhada campestre. Indy olhou para as filas de cabeças baixas de alunos tomando notas. Contudo, Deirdre fitava-o. Explicou que a caminhada campestre pressupunha procurar desvios na paisagem. Ligeiras sinuosidades poderiam indicar os restos de uma vala antiga ou a localização de uma aldeia medieval. Uma alteração na cor do solo ou da densidade da vegetação constituía outro indicador. Se o limite de um campo mudava sem nenhuma razão aparente ou as margens de um curso de água seguiam uma peculiar linha direita, poderia significar a presença de um antigo muro. Olhou para cima e viu uma mão erguer-se. Ela não demorou a começar. - Sim, Miss Campbell? - E no caso de Stonehenge? Falava com sotaque escocês, pronunciando StoonheengeH. Indy olhou para ela sem entender. - Não compreendo. - Bom, a caminhada campestre não resultou nesse caso. As pessoas caminharam por Stonehenge e pela área circundante e não detectaram qualquer alteração na paisagem, porque era demasiado evidente. Graças a Deus que sabia ao que ela fazia referência. Não tinha nada nos seus resumos sobre a utilização de fotografia aérea, mas estivera já a preparar algum material para uma próxima aula sobre Stonehenge e lera sobre as fotos tiradas às ruínas. - Bem observado, - disse, e passou rapidamente a explicar. -Quase no final da guerra, foi construído um aeroporto militar a curta distância das ruínas. Fotografias tiradas por um esquadrão da Royal Air Force, no Verão de 1921, revelaram alguns pormenores surpreendentes. Descobriu-se que, numa determinada área a partir do monumento, os cereais cresciam em cores mais escuras do que os restantes cereais vizinhos. No entanto, essa diferenciação era impossível de ser feita a nível do solo. -Alguém sabe o que pode ter ocasionado tal facto? -inquiriu. Claro que Deirdre sabia. - Isso revela que o terreno foi escavado nessas zonas mais escuras, e que as raízes das plantas conseguiram penetrar na camada mais espessa de greda que fica logo abaixo do solo superior. - Efectivamente - disse Indy. - Em Setembro de vinte e três, Crawford e Passamore começaram a estudar essas áreas mais escuras, servindo-se das fotografias como única orientação. 16

Bom. e ouvi dizer que os acontecimentos ingleses não são noticiados com muito rigor nos vossos jornais. as autoridades queriam derrubar Stonehenge.É compreensível . é o arqueólogo responsável pelas escavações que estão a ser feitas em Stonehenge. mas desta vez apenas ao nível do ombro. A rapariga deve ter sentido o desagrado dele. Mas podemos agradecer à Royal Air Force por ter alargado o nosso conhecimento sobre Stonehenge. do coronel William Hawley. pois só voltou a falar umas duas vezes até ao final da aula. . O tom que colocou na pergunta indicava que já sabia a resposta. . e que têm sido publicados no Antiquaries Journal desde 1920. . mas ela começava a implicar com o seu sistema nervoso. .Descobriram a entrada exacta para a ruína e uma estrada direita que se estendia praticamente até Salisbury. Estou certo que estas irão ser utilizadas nos anos vindouros. Sabia que a maioria dos professores adoraria ter nas suas aulas uma dezena de alunos brilhantes como Deirdre. e esta devia ser uma delas. . . Miss Campbell.Está há pouco tempo em Inglaterra. alguém sabe o que ele encontrou por baixo da conhecida pedra da matança? Alguns segundos depois. O que raio estava ela a fazer? A pô-lo em teste em nome da mãe? Desta vez. Tinha de a pôr no seu devido lugar..Lamento.E o que me diz sobre a controvérsia com as autoridades militares? perguntou ela. Falaremos do que ele descobriu até agora e sobre as suas implicações.Já conversamos sobre menires e dólmens. Parecia que era ela quem estava a dar a aula. vão ler todos os artigos intitulados Escavações em Stonehenge. .retorquiu Deirdre num tom de voz altivo. Sentia-se embaraçado e irritado com Deirdre. as pedras poderiam constituir perigo para aviões a baixo vôo. sentiu-se descalço. É possível que Stonehenge seja o primeiro local arqueológico a tirar partido das fotografias aéreas. oito milhas a norte. Quando esta chegou ao fim. Indy informou que na lição seguinte falariam sobre Stonehenge. Quase no final da guerra. Deirdre levantou a mão. Foi uma autêntica batalha. Como trabalho de casa. Indy reparou que diversas cabeças anuiam em acordo. .Diga. na opinião deles.Tossiu. e rapidamente. como sabem. Indy aguardou mais uns instantes para ver se outras mãos se erguiam. Embora levasse bastante tempo a preparar as lições. terei de me documentar. Mas aqui a questão foi bastante controversa. e agora poderão adicionar trilitos ao vosso vocabulário. Indy avistou de novo a mão de Deirdre.Nem por sombras. . sabia que havia falhas no seu conhecimento.Está a brincar. porque. mas tal não aconteceu. . Hawley. A propósito. Não sei a que se refere.

Miss Campbell. sou. Não ela.Mau começo. Tinha uma pele pálida e olhos cor de violeta.Mas quem está a dar o curso é o senhor. ou era. Jones sabia que se a irritasse. . mas inteligente.Foi para isso que me pediu para ficar depois da aula. Havia algo de contraditório no seu aspecto. . com um leve sorriso nos lábios. Enquanto os alunos iam saindo. . .e seguramente que a sua mãe tem mais conhecimentos sobre arqueologia britânica do que eu. William Cunnington..Também eu.Quero perguntar-lhe se você. .. Miss Campbell? Terminamos. Usava apenas um leve toque de maquilhagem. séria futilidade! .Sim. . Nasceu na Escócia.. com pouco mais de metro e meio. Era frágil. Ela fitou-o directamente nos olhos. desafiando-o. . Não é o nome de família que me vai dar currículo.. E não se esqueçam. e tal representaria o fim das suas hipóteses de voltar a ser contratado no Outono.Sim? Indy baixou os olhos para o estrado.Miss Campbell é escocesa. há cento e vinte anos..começou. Era uma mulher pequena. Roubou-me a piada.17 . Deveria ser ela a estar nervosa. permaneceu no estrado como se fosse continuar a aula apenas para uma turma de um elemento. fragmentos de cerâmica e armações de veados. mas sofisticada. Se você se importaria. Os seus longos cabelos ruivos caíam-lhe em caracóis sobre os ombros. o meu pai é. e são bastante. Depois de todos terem abandonado a sala. você parece conhecer a matéria. mas penso que o artigo a que se está a referir é uma garrafa de Porto lá deixada por um outro arqueólogo. . não ?? . por hoje. mas tinha de dizer alguma coisa. inocente. esse facto poderia chegar aos ouvidos da mãe. pesada leveza. com excepção de Deirdre.Muito bem. Por alguma razão. Estava nervoso. mas sucedia o contrário. . para aqueles que esperaram. para discutirmos os nossos antepassados? Indy tossiu. Indy reuniu os apontamentos e meditou no que iria dizer. Todos se riram. . Quero dizer. por que está a fazer este curso? Quero dizer.quando olhava para ela recordava-se de uma frase que o seu pai costumava citar quando a mãe se sentia agitada com algo que ele considerava trivial: Oh. amanhã é a data-limite para a aprovação do tema para o teste do período. Ela aproximou-se do estrado com as mãos unidas na frente por cima de um livro de notas. Não se importa de falar comigo depois da aula.Encontrou utensílios de pedra.

. Não sou inglês.Na minha opinião. . .Está sempre a brincar comigo por sua causa.Intimidado não. 19 CAPÍTULO III . Lembre-se que eu também não sou.Claro que têm. Indy encolheu os ombros.O que quer dizer? .. Indy enfrentou o olhar dela. Se quer saber.Porquê? . .Sorriu desajeitada. professor? . .Esta é a primeira vez que estou a ensinar. Indy não achou graça. . Pessoa estranha. . . . .Miss Campbell. . estou a gostar das suas aulas. Têm toda a liberdade para dizerem o que quiserem.18 . . . Penso que está a fazer um excelente trabalho. Sorriu para si mesmo. .É melhor ir-me embora. o rosto enrubescendo.Oh.Não precisa de se desculpar perante mim por não ser inglês. muito obrigado. gostaria que desse aos outros alunos a possibilidade de intervir.Posso fazer uma observação. Decidiu que gostava dela. ..E a sua mãe é a minha chefe. Indy viu-a partir. . a minha mãe. quem está intimidado é o senhor.Não necessita tornar esse facto numa acusação.Indy olhou para baixo.Sim? Não há motivo para isso. e já falei nisso a Joanna. Os olhos dela pestanejaram rapidamente. Mas isso também já sabia desde o primeiro dia de aulas. como se os seus apontamentos lhe pudessem indicar o que dizer.Pode tratar-me por Deirdre. Nunca efectuei pesquisas arqueológicas neste país.Penso que você os intimida. apenas um pouco irritado.Deirdre.Com certeza. .

como é que arranjaste este emprego? . Ainda a semana passada comi cá. indianos. posso procurar um quarto em qualquer lugar. aproveitando a oferta que Indy fizera. italianos. há dois dias.Ali está. logo te informo. Jack Shannon enfiou as mãos nas algibeiras e olhou em redor. e muito mais.quando vi a porta do clube aberta de par em par.Vamos. com o avançar da noite as ofertas em algumas das ruas visavam satisfazer outros desejos fortes. Indy. devido à agenda sobrecarregada de Indy. .Não tem grande aspecto . com mercados e lojas oferecendo tudo o que Marco Polo encontrara na sua longínqua viagem. . tinham passado pouco tempo juntos. e Paris e o Jungle? . o jantar é por minha conta. seguidos de suíços. se me atrapalhares. Embora a variedade de cozinha estrangeira barata constituísse a principal atracção. As ruas eram autênticas miscelâneas vociferantes. -disse Indy. De qualquer forma. quase. Shannon chegara. inesperadamente. Se quiseres. Conta-me. e pronto.disse Shannon ao atravessarem a estrada. Bem.COMPANHEIROS DE QUARTO . e outros. dois fulanos do conjunto da casa estavam já sentados ao meu lado. Espero que não consideres uma imposição. estou a dar a outra pessoa a possibilidade de . 20 .exclamou Indy.Não te preocupes com isso. Esta noite seria a primeira vez que conversariam por mais do que uns escassos minutos. Fiz ao proprietário um belo discurso ao estilo de Chicago e soprei algumas notas. . Trata-se de uma celebração. Estou esfomeado.E depois? A comida é tão boa quanto em Paris. parando numa rua no coração de Soho. chineses. Shannon sorriu e afagou a pera** ruiva. . Um empregado conduziu-os a uma mesa.Hoje.Vinha a caminhar pela Oxford Street com o meu trompete.Não te preocupes. em Soho. Por mim. Passo lá pouco tempo. Disseram-me para começar esta noite. Pensei para comigo que não perdia nada e entrei. e Indy pediu uma garrafa de vinho.Ainda bem que o encaras sob esse prisma. . e descansa que. Antes que pudesse recuperar o fôlego.O que queres que te diga? Apetece-me variar. bigode imperial. . O facto de Indy ter encontrado um restaurante francês que lhe lembrava os pequenos bares de Paris não era de admirar. .Óptimo. do outro lado da rua . Milhares de Huguenotes vindos de França instalaram-se nas vizinhanças nos finais do século dezassete. Mas. ** Nota do Revisor: porção da barba que se deixa crescer na extremidade inferior do queixo.Pelo menos. como em qualquer lugar.Sei que fica por aqui. Mas. O conjunto está a sair-se bem sem mim. antes de deixar Paris. .

pensei. envolvidos em escavações arqueológicas desde a Guatemala ao Egipto. estás a falar como seria bom viver nas boas velhas colônias. o centro das coisas.Tens a certeza de que queres trabalhar aqui? Shannon encolheu os ombros. -Também pensei que era uma piada.Nunca mais soubeste nada do paspalho que te enviou a caixa de aranhas? 21 . "Como conheço bem este desencanto em Shannon". que se tratava de uma brincadeira. Eu teria enlouquecido se isso se tivesse passado comigo. activamente. O mesmo sucedera em Chicago e na maior parte do tempo em Paris. Nada. Dissonância. realmente.Jack. Shannon fez uma careta e abanou a cabeça. não estaria agora aqui. Mas. até abrir a caixa.Não. . Penso que poderei melhorar o meu modo de tocar.Indy falou com confiança das hipóteses que tinha de permanecer em Londres durante mais um ano. . O vinho chegou e fizeram um brinde ao futuro. Estava tudo a ficar demasiado fácil para mim no Jungle.Quando recebi a tua carta. Não tarda nada. podia viajar para qualquer lado. no início.Como sabes que eram viúvas negras? -Por fotografias que já vi em enciclopédias.dali. Eram aranhas viúvas negras e. . . .Para mim. . Terminaram os hors d'oeuvres e a comida chegava quando Shannon levantou um assunto que Indy vinha a tentar apagar da mente. Shannon lançou-se às suas ervilhas. e a Londres. Como se diz em francês? Indy riu-se. se uma delas me tivesse mordido.tocar trompete. Ritmo sincopado.É. Necessito de variar. . com uma expressão aborrecida. O homem de Louise é de Nova Orleans. Indy levou à boca uma garfada da sua enguia grelhada. provavelmente.Aranhas. Era como se a cultura do jazz exigisse uma certa perspectiva mordaz da vida.Por algum tempo.Conheço bem essa palavra. Começava a gostar da cidade e. Mas o responsável teve um péssimo sentido de humor. Londres é cosmopolita. Tem garra. que formavam um monte alto junto da carne assada. o sotaque perfeitamente deslocado. estou apenas a emitir uma opinião. Já tocou com o King Oliver e é muito vivido. Os ingleses encontravam-se. quem diabo poderia ter feito uma coisa dessas? -Não faço ideia. . Shannon bebericou o vinho e mirou Indy. pensou Indy. . . estes ingleses estão a fazer-te uma lavagem ao cérebro. .

Maquinara contra ele. . A carne está crua. suponho. .Recebi hoje uma carta de Leeland Milford. uma vez quando Shannon regressara à mesa com café e mais tarde quando fora buscar o trompete. Indy teve de o apresentar de novo. e não é doido. .Como está a enguia? . e um amigo do pai de Indy. Apesar da perfídia de Belecamus. mas o molho é bom.inquiriu Shannon. cortando o assunto. para trabalhar com ela como assistente. a qual estava agora em Nova Iorque. Milford esquecera-se. utilizando numa conspiração contra o rei da Grécia. . Dorian Belecamus fora a sua primeira professora de arqueologia na Sorbonne. diria que era obra dela. Mas. que terminou na sua morte violenta. E o teu jantar? Ainda não fizeste nenhum comentário. Mas Indy fizera uma descoberta significativa em Delfos.Não sei. Agora. é uma mulher. 22 .quem era Shannon . durante o jantar. Grécia. o que quase custou a vida a Indy.Se Belecamus ainda andasse por aqui. Um pouco. . não teria sabor. a experiência convencera-o de que a arqueologia era a carreira que desejava. estás a implicar comigo. pois. Encontrara e recuperara uma antiga relíquia sagrada. Se dispusesse de tempo. esse velho doido? Como está ele? . em Londres. e convencera-o a acompanhá-la a Delfos. .Jack.Aceitável. .Bom.afirmou Shannon.Tens alguma coisa em mente. Shannon riu-se.Não é nada. . tentaria descobrir.Bem. . mas não anda. ..Boa.Shannon conheceu-o quando ele e Indy eram colegas de quarto e Milford se deslocou à cidade para fazer uma palestra. É apenas um pouco excêntrico.Meu Deus. uma autoridade de renome em Inglaterra medieval. por duas vezes. . Shannon ficara com a noção de que o professor era um homem estranho.Pergunto a mim mesmo onde. Deixa-me adivinhar.O que raio se passa contigo? Não tens cá estado toda a noite. De ambas as ocasiões. Shannon anuiu pensativamente. conhecida como a Omfalos. Se estivesse demasiado cozinhada. certo? Indy bebeu um pouco do copo de água.replicou Indy. . alguém poderia arranjar viúvas negras. Dera-lhe a conhecer não só a pesquisa em campo mas também a traição. é assim que a carne deve ser apresentada. e de ter escapado por pouco ao mesmo destino. brevemente. . Milford era um professor aposentado. em exposição no museu de arqueologia de Marcus Brody. . desde quando és perito em boa cozinha? Shannon pousou o garfo.Sim. Paris. .

Deirdre foi a primeira a vê-lo. e um laço na frente. vendo duas mulheres serem conduzidas para uma mesa de canto. .Tenta dizer isso ao meu pai.A ambas. nada de novo. a fonte da sua força. Para além de ser esquecido. Milford tinha também o hábito perturbador de mudar para inglês arcaico durante as conversas. Vou até lá cumprimentá-las.Que sorte a tua . O seu olhar foi arrastado para a jovem.Conhece-las? . Era Joanna Campbell e Deirdre. Indy não respondeu.O que podes fazer? Tens de seguir a tua vida. tais como as da filha. que ele tomou por instantes. recebi a carta mesmo a tempo. . Mesmo do outro lado da sala.Importas-te que não te faça companhia? Indy riu-se.disse Shannon. e não foi assim que escreveu a carta. .Professor Jones. Na opinião dele. É a minha chefe e a filha. não língua de trapos. . Vou esperá-lo à estação e depois vamos almoçar.. algo oculto que lhe fazia sobressair a beleza.Já calculava. O vestido era justo em redor das ancas e caía-lhe até aos tornozelos com uma franja branca no fundo.e o seu cabelo ruivo descia-lhe em caracóis sobre os ombros. As feições. . mesmo quando o assunto nada tinha a ver com a sua especialidade. eram finamente cinzeladas. Foi com verdadeiro esforço que desviou o olhar. uma capa e um lenço de seda vermelho que lhe caía até às coxas.É inglês arcaico. . . Que surpresa. Por outras palavras. Trajava um vestido azul-marinho com um grande colarinho branco à marinheiro. . Prepara-te para nos irmos embora. O seu cabelo negro estava raiado de linhas prateadas. enquanto ela lhe apertava rapidamente a mão. Milford chega amanhã e quer encontrar-se comigo. De qualquer forma. Campbell estendeu uma mão elegante. . 23 Shannon seguiu-lhe o olhar para o outro lado do restaurante. .Espero-te lá fora. estava deslumbrante. A Dra. Olhava na direcção da entrada do restaurante. ou não conseguiste ainda decifrar a língua de trapos dele? .Será melhor praticares o teu inglês arcaico para o professor emérito. esta noite com um leve toque de mistério num vestido negro. Apresentava o ar distinto de sempre. Um chapéu a condizer com uma aba voltada para baixo cobria-lhe a cabeça. . e tudo o que me ensinou. estou a desperdiçar a minha vida.Estendeu a mão.O que tinha ele para dizer. .Diz que o meu pai continua aborrecido por eu ter seguido arqueologia. Havia nela uma mística que Indy não conseguia definir.

sabia que a pessoa que segurava na pedra ficava submetida a um tipo qualquer de transformação a nível mental e sensorial. na forma britânica. Campbell. não observando nada em particular. . . Campbell. sente-se bem? . ou qualquer coisa assim. Deve-me ter escapado qualquer coisa. De tal forma que já não permitem que seja tocada.Nem por isso . Estava a tentar recordar de que forma me afectara e. Era como se houvesse uma atracção magnética que lhe arrastava os olhos.disse a Dra.A propósito . . . . . para ser honesto.Voltou-se para Deirdre. . logo de seguida. Campbell -considerando as circunstâncias. . . Campbell. A professora sorriu e mirou a filha e depois Indy. Quando nos tornamos fluentes. . em relação à Omfalos. . Perguntou-se quanto teria Deirdre contado à mãe sobre a aula. no momento da experiência e.Penso que é um pouco como a diferença entre as línguas. Indy olhou em redor da sala.Professor Jones. e os pensamentos para Deirdre. e se ela teria mencionado a repreensão que lhe dera por dominar o debate nas aulas.ouvi rumores de que coisas peculiares têm acontecido às pessoas que tiveram nas mãos a Omfalos. -Tanto quanto sei. .As pessoas têm uma imaginação fértil. vira o seu futuro como se estivesse a viver numa cadência rápida. Interrogou-se sobre o que ela estaria a pensar. Aconteceu-Lhe alguma coisa no gênero quando a encontrou em Delfos? 24 Indy sorriu e encolheu os ombros.E o senhor é fluente. Seguramente que não iria discutir isso com Joanna Campbell.É uma resposta justa para uma pergunta injusta.perguntou Deirdre. inclinando-se para ele.Peço desculpa.Perguntei a sua opinião sobre a arqueologia britânica quando comparada com a grega.Enquanto faziam conversa sobre o restaurante e as redondezas. Despertou dos seus devaneios.replicou a Dra. pelo menos injusta por ter partido de mim . No seu caso. houve naquela altura . além do mais. Pela sua própria experiência.Posso compreender. . não me lembro de nada significativo.respondeu Indy e tentou pensar em algo para dizer para que pudesse partir dignamente.Então?-perguntou a Dra. e sobe-lhes à cabeça. e no que lhe iria dizer de seguida. e a de outros. . tal como diz. nunca mais quisera pegar na Omfalos. Pensam que estão a tocar no Oráculo de Delfos. é fácil entrosar as duas. como sabe. Indy esforçou-se por se mostrar interessado no que a Dra.replicou a Dra. Apesar do encanto de tudo aquilo. . Coisas como aquela não deveriam acontecer e. e algumas das coisas que vira já tinham ocorrido.Estou em processo de desenvolvimento. .Lamento. sentiu-se como que perdendo a sanidade. Campbell dizia.

Desceram a larga avenida. Jones. .Foi exactamente isso que lhe perguntei. . .Inclinou de novo a cabeça para as duas mulheres.Não sei concretamente a que se refere. . A qualquer hora do dia. Campbell e depois para Deirdre. . estalava os dedos. Jack.Professor Jones . Prazer em vê-lo.Vemo-nos amanhã -disse Deirdre e reluziu um brilhante sorriso.Pense bem. as ruas de Soho mostravam-se repletas de pessoas.Bem bonita. . . . e parecia que as línguas variavam de rua para rua.Quem te parece? A ruiva. Ela fitou-o por instantes. amigo. Diz que é necessário para o seu currículo. Faz parte dos seus antecedentes.Oh. 25 Atravessaram a Greek Street pouco depois. se não mais.Não sei. passando por um ajuntamento de pessoas na esquina onde alguém falava italiano.Levantou-se e inclinou a cabeça para a Dra. . .Vemos? Oh. Na verdade. a mais inteligente de todos. o meu amigo está à minha espera. como se estivesse a ouvir uma música dentro da cabeça. retorceu.em Delfos uma tentativa para derrubar o rei da Grécia.disse a Dra. e dirigiu-se para a porta. .Muito obrigado. Estou certa de que sabe. Não é verdade? . Age como se soubesse tanto quanto eu. Shannon. Deirdre.Quem? . parece que entrou em competição comigo nas aulas. Conhece a relação que existe entre os gregos e os antepassados desta ilha? Indy sorriu. Campbell. É mais do que isso.Talvez saiba. É uma das minhas alunas. Indy olhou em redor. pouco à vontade. Bom. .Estava a brincar. Tenho de me despedir.Lamento. . mais uma coisa. estava noutro mundo. Vamos embora daqui. Dra. . e Indy ficou verdadeiramente surpreendido por não ouvir ninguém falar grego.O que queres dizer? . Em cada passo que dava. se sabe assim tanto.Houve alguns momentos perturbados. Mas. Shannon bateu-lhe no ombro com o punho. . Mas pergunto a mim mesmo se não me estará a espionar. Obviamente. por que assiste às aulas? . nas aulas. Shannon aguardava no exterior. . entretanto. Campbell antes que ele tivesse oportunidade de se afastar -. e um dos arqueólogos gregos estava de certa forma envolvido.Pensei que ias jantar outra vez. .

Estou à prova. arquitecto do rei Jaime I e Carlos I. para ela e depois desviou a cara.Shannon desviou-se de um homem de sobretudo e chapéu de coco que fazia gestos furtivos para uma mulher encostada à parede.Indy Jones . .Sabes o que devias fazer? . Ela pode abonar a teu favor. é provável que não tenha namorado. Mas. ponderou por momentos na pergunta que a Dra.Provavelmente.não pensar em Deirdre.A espionar? Em nome de quem? . Em vez disso.dissera ela. intencionalmente.. Não sabia se ela se referia aos celtas. Mais uma falha no seu conhecimento. Campbell lhe fizera ao sair.disse Shannon. Conhecê-la melhor. Este olhou. Nos dias que antecederam a entrevista.Isso não é verdade. a rapariga não passa de uma boa aluna. . a não ser que estou disposto a pôr em risco o emprego. Ali perto.O quê? . . Era melhor descobrir. Existem muitos Jones e nenhum parente meu pensaria que Stonehenge fora construído pelos romanos. Por estranho que pareça. e não fazia idéia de que forma estavam relacionados com os gregos. . Interrogou-se se a Dra. Campbell seria o professor que Marcus Brody conhecia. 26 Shannon não pareceu convencido. não me parece.Oh. Indy tentou. outra prostituta do Soho gesticulou para Indy. pelo amor de Deus. e sorrira. e um inquirira se estava de alguma forma relacionado com Inigo. Só em Setembro saberei se ficarei a trabalhar a tempo inteiro. cada um imerso nos seus pensamentos. . Os outros dois professores tinham-se rido. Caminharam em silêncio. se ela janta fora com a mãe. E pára de mencionar o nome dela como se tivesses a acenar uma bandeira vermelha na minha frente.Da mãe dela. isso seria a pior coisa que podia fazer. momentaneamente. o que informara Marcus sobre a vaga. não confias em nenhum a mulher que encontres. passara horas imerso no estudo de textos sobre as velhas ruínas da Inglaterra.Convidá-la para sair. e lembrou-se de ter lido sobre Inigo Jones. . qual seria a finalidade da pergunta? Testá-lo? Talvez fosse algo importante que ele deveria saber. Esta usava um vestido de folhos e os olhos estavam pintados de tal forma que lhe pareciam cobrir metade do rosto. mas conteve-se a tempo. Com o diabo. o facto decisivo na entrevista fora o seu nome.Penso que te estás a deixar levar pela imaginação. . . ou a povos mais antigos. Desde que tiveste aquele problema com Dorian Belecamus. Inigo quem? quase perguntara. . claro.Jack. ignorando o ataque de raiva de Indy. Sair com uma aluna não é forma de provar nada.

que quase não aguentaram o ritmo. Avistou um homem no passeio que se dirigia a ele. a experiência tomara o cariz de aventura. Esta era a primeira noite em que saía desde que chegara a Londres.Claro que isto se passou há trezentos anos.Viste aquele tipo? . 27 Indy escutou o som do tilintar de copos e o ruído de vozes.Não deve passar de uma coincidência .disse. para Shannon. fora um empreendimento sério que o mudou para sempre e. abrindo a porta. Uma noite de jazz era exactamente o que ele necessitava.Vi-o na rua do restaurante enquanto estava à tua espera e tenho a certeza que já o vi pela Russell Square junto do apartamento. e tanto se alterou sobre o que conhecemos sobre os antigos. Mas não acreditava que fosse. o cabelo negro impecavelmente penteado para trás. Era alto e magro. Abdicara de um emprego seguro como contabilista numa companhia de camionagem em crescimento por uma vida incerta como músico de jazz.O que tem? .alterou o seu futuro. . 28 CAPÍTULO IV ENTRE AS PRATELEIRAS . Ao descerem as escadas que conduziam ao clube nocturno situado na cave.pensou. encolhendo os ombros. . Para Indy. O cheiro a cerveja e fumo veio ao encontro deles quando estacaram na escada. Por fim. ao recordar-se da altura em que ele e Shannon frequentavam o último ano na Universidade de Chicago. Indy observou o homem que desaparecia de vista. . chegaram ao clube. Campbell e determinara a sua decisão. com olhos estreitos.perguntou Shannon. Indy sentiu que alguém o observava e olhou por cima do ombro. . mesmo. Era o homem que ele pensara estar a segui-lo até a universidade. O indivíduo passou pelo clube e prosseguiu o seu caminho sem olhar para trás. Estiveram tão envolvidos na descoberta do submundo do jazz que desplotou subitamente em Chicago. Como ele mudara. e rondando a idade de Indy. deve ter agradado à Dra.O comentário.

29 . praticamente metade esperara pelo dia final para o fazer. O tempo de que dispunha era justo. . . Sentia-se esvaziado.Escreverei sobre os primeiros investigadores.Sente-se. .chamou. Indy deixou-se cair de novo na cadeira. . Indy massajou as têmporas enquanto aguardava por outro aluno. . Puxou o fecho da pasta.Não se esqueça de se certificar que os dois que escolher trabalharam. A presença dela parecia alegrar a sala. Escolha um século.Hurra.lamentou-se. Levantou o olhar para o miúdo delgado em pé na sua frente. Contudo. Embora hoje não tivesse aulas.Continua a ser pouco restritivo. . fazia parte das suas funções aprovar com antecedência o tema que constituiria o trabalho final do período de cada aluno. -Gostaria de pensar sobre isso. . Tem de ser mais específico. efectivamente.Tenho de os escolher agora? . . estava satisfeito por ser Deirdre a retê-lo ali. .O seguinte . no mesmo século.inquiriu Indy. .Ergueu-se e saiu do gabinete.Stonehenge. Quando ninguém apareceu. Sentia-se desapontado por não ter conseguido sair.e não terminara ainda. Era óbvio que o rapaz não tinha qualquer nome em mente. . À horas de ver chegar o comboio de Leeland Milford. . estava de serviço no gabinete. .Sente-se. Não pode limitar-se a escrever sobre Stonehenge. e preparava-se para sair quando Deirdre Campbell surgiu na entrada.É esse o meu tema.Espero não chegar demasiado tarde para conversar consigo sobre o meu trabalho. De acordo com as normas do curso.Entendi. . Seleccione agora dois pesquisadores desse século e compare e diferencie as deduções a que eles chegaram. inclinando-se para a frente e esticando o pescoço ao olhar para a porta exterior. Ostentou um sorriso. reclinou-se na cadeira. Embora tivesse vindo a encorajar os alunos durante as últimas trás semanas para se reunirem com ele o mais breve possível. em voz baixa. Ou talvez fosse a sua . .Muito bem. era como se a sua pele pálida ou os caracóis brilhantes e ruivos irradiassem uma luz própria.O que tem? .Dezassete. e há quase duas horas que os escutava.Certo. Mirou o relógio de parede. Indy amaldiçoou-se por se ter deitado tão tarde.disse. ergueu-se. . . . e fale sobre os seus planos.Durante toda a manhã. um atrás do outro. Indy sorriu e esfregou a nuca.Fitou Indy.

significa comedida. que se contentavam em fazer o mínimo possível para passar no curso. .Não me parece que tenhamos falado sobre isso nas aulas. .Não se preocupe por me tentar impressionar . e sentia-se arrependido de lhe ter pedido para se controlar.comandou uma voz dentro de si. e ela concordou consigo. .Sim. Deirdre baixou os olhos para as mãos. Gostaria de saber qual seria o sabor dos lábios dela.É uma expressão escocesa. .Tenho provas! .Esse mesmo. Indy apreciava o seu entusiasmo. .Muito obrigada. as pessoas do Norte. Ela fitou também e os seus olhos ficaram presos.Contei à minha mãe o que o senhor me disse ontem no final da aula. Deirdre era uma mudança refrescante. Depois de ter escutado diversos alunos como o último. .respondeu Indy.Merlin não passa de uma lenda. Indy mirou-a por cima dos óculos de aros finos. O que a faz interessar-se por essa gruta? .Ergueu o olhar e sorriu.Merlin. Uma surpresa.Não. Acho que me tenho exibido um pouco. rapaz. Deirdre. . . Indy repetiu o nome. . .Sim.A sua confissão proferida em tom suave era tão desarmante que Indy não conseguiu desviar os olhos dela. .Deixe-me adivinhar. -Talvez eu fale tanto porque alguns ingleses encaram os escoceses como se nós. Deirdre era como uma flor abrindo as pétalas e pedindo desculpa pela sua beleza.Por outro lado. como quase o de toda a gente.O seu trabalho vai ser sobre Stonehenge. . fôssemos ignorantes. . . Estamos num curso de arqueologia.Tossiu e assumiu um tom neutro. . Ela pediu-me que fosse um pouco mais apagada. 30 Indy sentiu vontade de lhe pegar na mão e levantá-la da cadeira.Apagada? . . .Estou impressionado.Foi uma surpresa encontrá-lo ontem a noite.Compreendo.qual seria a sensação de a ter nos braços. e sentou-se na cadeira em frente da secretária. .respondeu.inteligência. . não de mitologia.Não parecia estar a brincar. na Escócia. Indy sorriu.talvez só pretendesse impressioná-lo. Sobre a gruta Ninian. .Foi aí que Merlin foi sepultado.A sério? . . Calma. Queres manter este emprego ou não.afirmou ela. o conselheiro do rei Artur? . .

ocorreu-lhe um pensamento desagradável. Milford.Maldito comboio.teria desaprovado imediatamente a ideia. Era mais um tema para um doutoramento e. Sorriu ao ver os lábios de Milford moverem-se. Quando alcançou a plataforma. . Podia ser franco e cordial num momento. Indy sabia que podia ser imprevisível. . Se ainda ninguém provara a existência de Merlin. .era provável que Joanna Campbell não concordasse com a filha. Ela ergueu-se. .Se o que me diz é verdade.Tem? Que tipo de provas? Ela sorriu. . Deirdre. Continuou a andar. Penso que o achará interessante. chegou a horas. mesmo assim. Quando se aproximou. bastante ambicioso. visivelmente pouco propício para a estação. onde o barco de Leeland Milford atracara. Depois Milford passou por ele.. Fosse o que fosse. Milford. Será surpreendente. distintamente. 31 O comboio vindo de Portsmouth. É um trampolim para uma carreira. graciosamente. .provavelmente. e tinha um bigode alvo.Indy correu atrás dele. Embora não conhecesse bem Milford. aprova a idéia? Indy sorriu. . Que maravilha. Viu então Milford. obterá mais reconhecimento do que a maioria dos arqueólogos em todas as suas carreiras. .So whylome wont. com excepção de pequenos amontoados brancos por cima de cada orelha. Indy ouviu-o.Dr.Terá de ler o meu trabalho. o oposto noutro. Indy. Avistou um jovem casal com duas crianças. da cadeira. mas Indy não. Se conseguir provar que Merlin existiu realmente. Chegava mais rápido de bicicleta. será mais do que interessante. Ao deixar o gabinete e ao correr para o metropolitano. Talvez não fosse tão inteligente quanto ele considerara. Cresceu nele a sensação súbita e nauseante que se poderia encontrar no meio de uma disputa mãe-filha. Com outro aluno qualquer. o que poderia ela saber que fosse suficiente para alterar as opiniões? Estava com curiosidade em saber. Trajava um sobretudo longo e escuro. caminhando pela plataforma.Vou meter imediatamente mãos ao trabalho. Indy viu-a deixar o gabinete. Sou eu. um homem de kilt e um grupo de raparigas com o uniforme do colégio. Não se enquadrava nem um pouco no âmbito de um trabalho para um curso de iniciação. a maioria dos passageiros tinha já desembarcado. afirmar: . . Deirdre devia ter contado à mãe sobre esta suposta prova da existência de Merlin. A cabeça era calva. libertando qualquer exclamação pelo atraso de Indy. Os olhos eram de um azul-pálido e aquosos.Dr. com uma mala de couro em cada mão.Nesse caso. Exactamente o que ele necessitava.O que propões é mais do que um trabalho de final de período.

Indy soubera há muito que significava assim dizem. mas sem qualquer sinal de entusiasmo. a minha verdadeira fome. meu jovem. virando-se depois para Milford. . no seu inglês arcaico.O que faz por aqui? . mas Milford utilizava-a. . Indy. Avançar afirmou. Indy anuiu. um franzir de sobrolho começando a desenhar-se na sua fronte. da Terra recém-descoberta? . lentamente. A descrição da biblioteca trouxe de novo à mente de Indy o comentário que Joanna Campbell fizera no restaurante. se assim o diz. é de conhecimento. amigo. por Deus . Indy ofereceu-se para lhe levar uma das malas. .É uma boa biblioteca.Estou bem assim.Para a Biblioteca do British Museum. . Só se deve levar para o mar ou terra aquilo que se pode carregar. Milford? A sua carta não era explícita quanto a isso.Tudo o que foi publicado na Grã-Bretanha desde 1757 se encontra lá.Praticamente tudo o que se possa querer saber sobre a história da Grã-Bretanha pode aí ser encontrado.De onde é. . sir.Recebeu? . . conhece alguma relação entre a Grécia antiga e os primeiros povos das ilhas Britânicas? Milford ficou em silêncio por momentos.proclamou Milford.disse Indy. O motorista voltou-se e olhou para Indy e Milford. . Que surpresa.O que vai fazer em Londres.A melhor biblioteca do seu gênero em todo o mundo. frequentemente.Tenho diversos assuntos a tratar.Siga caminho.Isso foi antes do meu tempo. em conversação e nunca explicava o seu significado. Além do mais. bom homem. . . . Ou so whylome wont .Não me esquecerei disso. . 32 .Milford estacou e virou-se.Dr. Quando chegaram à rua.So whylome wont era uma frase em inglês arcaico que Milford usava. . . Milford. Dr.Já comi.Tem a certeza de que não quer comer qualquer coisa primeiro antes de ir para o museu? . . . . Indy acenou para um táxi e entraram no carro. . Indy sorriu. Milford parecia perplexo.Recebi a sua carta.Ah. . A melhor colectânea de obras escritas da Idade Média.Lembra-se.Bom. . escreveu pedindo que me encontrasse consigo na estação. como sempre. . Vários milhões de volumes e milhares de manuscritos e papiros antigos. mas Milford recusou.Inclinou-se para a frente e tocou no ombro do motorista.Apertou a mão de Indy.

É engraçado as coisas que nos vêm à lembrança. Hecateu escrevera sobre os gregos antigos e sobre a sua relação .replicou Indy sombriamente. Indy pagou o táxi quando Milford se afastou. . . Procure nas escritas de Hecateu. Conhecemos as escritas de Hecateu porque tem sido citado por outros. com passagens semelhantes a raios que partiam do centro. recordo-me com efeito de um colega meu falar sobre esse tema.Creio que sim.O que quer dizer? Milford olhou por cima do ombro. . Onde vai ficar.Ele foi sempre um pouco duro para consigo. correndo depois atrás do velho professor que subia já as escadas do edifício.Oh.Era isso o que o meu pai sempre dizia.inquiriu Indy ao seguir Milford para uma sala em forma de bacia. pense.Deve ser sempre a própria pessoa a encontrar as suas respostas e não pedir a outrém que lhas encontre . entretanto? . meu caro rapaz. e do submundo. Milford lançara apenas um nome. . Indy franziu o sobrolho e ficou a olhar para Milford.Quem? Indy riu-se.Apesar do que ele parecia querer dizer. Indy abanou a cabeça e afastou-se. suavemente. se quer realmente saber. oh. vou procurar. talvez há uns vinte anos. levou um dedo aos lábios e depois virou-se. . antes do seu tempo significava antes da Idade Média. . .Okay. . Provavelmente. . Fitou Indy.O que lhe disse ele? . .Pegou de novo nas malas enquanto Indy lhe abria as portas.Coçou a cabeça calva com o dedo indicador.Contudo. . Milford estacou no cimo das escadas e pousou as malas. Desta forma. . habitualmente. a fim de iniciar a pesquisa no vasto armazém do conhecimento.. O que sabia ele sobre Hecateu? Conhecia o nome dos seus estudos.disse. Uma lição sobre como utilizar um catálogo de biblioteca. o período em que era especialista. poderá encontrar a resposta dentro destas portas. Indy sabia que. O que Lhe falou ele sobre a relação entre os gregos e os bretões antigos? O motorista do táxi parou em frente da biblioteca. E talvez não o mais adequado.Mas tenha presente de que nada do que ele escreveu sobreviveu aos tempos. conectada com a feitiçaria. . .Pense. . para Milford. . .disse o homem mais idoso ao subir os degraus. Milford franziu o sobrolho. o qual avançava para o átrio. Indy forçou um sorriso. . mas não tão engraçadas as coisas de que nos esquecemos. associando a Hécate.Pode dar-me algum indício? 33 . uma deusa da terra. ele é mais o tema do que o autor.O seu colega. da lua.Posso darLhe o indício de que necessita.

O mito de Apolo. sendo ironicamente remetido para um livro intitulado Biblioteca Histórica. Este listava todas as existências na biblioteca. A sua aparição coincidia também com um ciclo de dezanove anos.com um povo misterioso conhecido por Hiperboreais. mas podia ser qualquer uma das ilhas escandinavas. 34 Felizmente. Hecateu falava. um segundo bibliotecário localizou-lhe o livro antigo. Tratava-se de um país mais extenso do que a Sicília. O catálogo geral ficava localizado na base da sala em forma de bacia. Só não estabelecera a ligação entre a ilha Hiperboreal e as ilhas Britânicas. A história explicava também que certos gregos visitaram a ilha Hiperboreal e que deixaram votivos com inscrições gregas. de seguida. igualmente. Apolo era conhecido como um interpolador no Olimpo grego. um historiador grego que viveu grande parte da sua vida em Roma e que fora contemporâneo de César e de Augusto. Circuito da Terra. Por essa razão. Dirigiu-se a um balcão de referência próximo e foi encaminhado para outra sala. . situado em frente de Gaul.particularmente quando associado a Delfos. e alertou de que o livro era velho e valioso e de que teria de o manusear com extrema precaução. Ao ler as escritas de Hecateu. Leu. foi imediatamente remetido para o número de volume e páginas apropriadas. que existia. um vasto templo em forma circular. da boa vontade entre os hiperboreais e os gregos. Decidiu que Hiperboreais deveria ser o nome antigo dos habitantes das ilhas Britânicas. O homem franziu o sobrolho a Indy. A ilha Hiperboreal era supostamente o local de nascimento de Leto. Mas fazia sentido. Mas era tudo o que conseguia recordarse sobre o assunto. parafraseado do seu livro já inexistente. pensou Indy. os hiperboreais adoravam Apolo. que já . e o seu templo circular era-lhe consagrado. E havia mais. termo oriundo da mitologia grega que referenciava um povo nortenho. Alguns eruditos acreditavam tratar-se de uma referência ao povo da Atlântida. Faz parte dos seus antecedentes. num grandioso festival no qual dançava entre os seus adoradores e tocava harpa.Apolo visitava o templo em cada dezanove anos. Agora. O templo assemelhava-se a Stonehenge. a filha de gigantes. A Biblioteca Histórica levou trinta anos a ser escrita por Diodoro e era composta por quarenta volumes. Indy apercebeu-se de que a sua descrição da ilha Hiperboreal era muito mais específica do que imaginara. e mudou de opinião. recordou as palavras de Joanna Campbell: "Estou certa de que sabe. cada um com cerca de quinhentas páginas. e era com posto por uma dezena de volumes. Apolo era a ligação. Segundo rezava a história. Ao fechar o livro. que foi mãe de Apolo. Aí. na ilha. e dizia-se que passava parte de cada ano para além do vento norte". era efectivamente isso. no qual as estrelas regressavam aos seus pontos de origem no céu. da autoria de Diodoro de Sicília. Mas acabou por encontrar o nome na categoria de assunto. e porque Indy procurara as referências a Hecateu. Parecia ser a GrãBretanha.

o Olhos Estreitos correu para ele. .Dr. Deveria ir para casa e dormir um pouco.Raios. pôs-se de pé e voltou para a ponta do corredor. Assim que Indy o localizou.. acreditava.ponderara na pergunta dela. a cabeça para a direita e ali estava ele. Olhos Estreitos encontrava-se. comprimido contra a parede. Rolaram diversas vezes até que embateram numa mesa. Perdera-o. esticando os braços. Indy tinha a visão de todo o compartimento. certificando-se de que ele não danificava o livro. O Olhos Estreitos estava. 35 Subitamente. rolando sobre o chão.. a escassos três metros da porta. Tentou agir como se não soubesse que estava a ser observado. . Da entrada da sala. na porta quando Indy o agarrou pela camisa e o lançou ao chão. eu. A meio caminho do corredor. Quando a contornou. o Olhos Estreitos decidiu que já chegava. O homem aí sentado deu um salto na cadeira. e Indy perseguiu-o através do labirinto de prateleiras. Agora. espreitando por entre as estantes até alcançar um outro corredor. . Olhou para ambos os lados e virou à direita. praticamente. Parou e olhou em volta. a tentar escapar-Lhe. Preparava-se para se levantar da mesa quando detectou um par de olhos observando através de uma prateleira. Virou. efectivamente. eu não posso falar agora. Indy interrogava-se onde o homem poderia ter ido quando escutou um ruído. todos os presentes na sala observavam a perseguição silenciosa. repentinamente. ou se teria qualquer razão específica em mente. Avistou-o então. Campbell não estaria apenas a testar o seu conhecimento.Qual o motivo para esta explosão de selvajaria? Tenho-me feito acompanhar pela loucura e por um louco? Indy libertou a camisa do Olhos Estreitos ao escutar a voz familiar. Libertou-se do aperto de Indy. viu um homem alto lançar-se por um corredor e passar entre outra fila de estantes. interrogou-se se a Dra. Assemelhavam-se aos do homem que. Esfregou o rosto. Os olhos permaneciam no mesmo local. Havia algo de familiar naqueles olhos.Olhos Estreitos rastejou sob a secretária de Milford em direcção a um outro corredor. mas não descortinou o Olhos Estreitos em lado algum. empurrando-o para um dos corredores. . . no momento em que este saía pela porta para o átrio. Indy atravessou a sala e localizou-o quando o indivíduo se infiltrou na enorme sala de leitura em forma de bacia. como um corredor ao som da pistola de partida. Talvez fosse um bibliotecário. Folheou de novo o livro. Milford. andava a segui-lo. alguém tentando conter um ataque de tosse. Caíram derrubados no pavimento.saltou da cadeira e lançou-se para a extremidade da estante de livros. Onde se meteu ele? Avançou devagar.

gritou Milford no seu inglês arcaico. Mas este ganhara avanço e estava quase na porta. Olhos Estreitos afastou-se e desapareceu. escute. esquivando-se a mesas e bibliotecários. Salvo pelo Dr.Exactamente.replicou esta e acertou no olho de Indy com a extremidade de borracha de um lápis. Milford colocou-se. Foi então que escutou a voz de Olhos Estreitos pela primeira vez. E tudo por causa de Deirdre e de um namorado ciumento. na cabeça com um jornal dobrado.Pare de lhe bater. Indy cortou a saída ao Olhos Estreitos. . . Indy colocou-se de joelhos e rastejou atrás dele. quem raio é você? Por que anda a perseguir-me? O homem rosnou para ele. pedindo ajuda.afirmou a velha senhora. e Olhos Estreitos caiu derrubado de cara no chão. Indy colocou-se de pé. Jones recebeu um golpe na cabeça com um livro. Meu Deus. Indy ergueu a cabeça e. . pessoas gritavam. . a que dera ele origem? A sua única intenção fora capturar o homem nas estantes da outra sala e exigir que lhe dissesse por que razão o vigiava. meu filho . viu o homem na entrada. . rastejando debaixo de mesas em direcção a um terceiro corredor. instantaneamente. e Olhos Estreitos conseguiu libertar-se. Ele está comigo. e apressou-se a seguir Olhos Estreitos. subitamente. mas perdera o indivíduo de vista. impedindo-o de se levantar.Está deitado em cima da minha mesa. Detectou-o. . e ergueu o livro de novo. Indy gritou de dor e cobriu o rosto. homem traiçoeiro.Esse rosto imundo no solo. . Alteraram o foco. Depois. Milford. fitando algo para trás de Indy.. Alguém lhe deu um pontapé de lado. Indy colocou-se em cima da figura prostrada. Indy tencionava desistir da perseguição quando surgiu uma perna.Jones.Desculpe . Atirou-se de barriga para cima duma mesa e prendeu o Olhos estreitos pelo cinto. os seus olhos muito juntos e negros eram autênticas pedras de carvão. ao seu lado. .Óptimo. . . Bateu-lhe. Mantenha-se longe dela . .disse Indy e pulou a secretária. Espancado por uma velhota.A senhora não está a compreender.disse uma velha senhora. pensou Indy. com o olho são.Pode crer que não . Nesse instante. . agarrando-o pelo colarinho. Mantenha-se afastado de Deirdre Campbell. Eu trato disto. Que maravilha. ergueu um punho cerrado. depois. por duas vezes. Indy voltou-se e deparou com a mulher que o atingira com o jornal.Estou a avisá-lo. 36 Indy perseguiu-o e acabou por detectar a sua oportunidade. pelo que o homem correu para a estrutura central.Muito bem.

mas retribuía-lhe apenas o favor. então nós teremos de descer ao milésimo mais próximo. para lhe provocar ciúmes. para nos inteirarmos de quais eram os seus conceitos de precisão. um dia depois.37 CAPÍTULO V A TORRE DE LONDRES Na aula. nos cadernos. aos dois. quando examinamos os seus trabalhos. Talvez a tivesse tratado de forma rude.Se quisermos entender qual a precisão que os antigos procuravam atingir. Ela estava a usá-lo.o conhecido egiptólogo. que também estudou alguns dos novecentos círculos de pedra existentes nas ilhas Britânicas. furiosamente. Era como se o vestido constituísse uma metáfora para as mentiras que ela encobria. Indy parou para beber um gole de água. Indy não queria fazer parte dos esquemas dela. e colocara um a pala negra sobre a vista. Alguns olhavam em frente com atenção. . Deirdre recostava-se na cadeira. Na fila da frente.Foram proferidas por Sir Flinders Petrie. . Deirdre deve ter comentado algo ao namorado.prosseguiu Indy. .Devo dizer-vos que estas palavras não são da minha autoria . O olho não ferido percorreu os rostos. . ou o que quer que fosse que o Olhos Estreitos era. os quais estavam recolhidos por baixo da secretária. para atingir os seus fins manipuladores. lendo os apontamentos. . Indy pediu-lhe que se sentasse.disse Indy. Comunicara a turma que sofrera um acidente e que o médico recomendara que usasse a pala durante alguns dias.Se eles tiverem descido ao centésimo mais próximo de uma polegada. outros escrevinhavam. 38 . na expectativa das suas próximas palavras. os nossos erros têm de ser tão diminutos que se tornem insignificantes perante os erros deles. Trajava hoje um vestido comprido que lhe chegava aos tornozelos. provavelmente. Antes da aula. perguntara o que acontecera e. cruzando e descruzando os dedos. Tinha o caderno fechado e os lábios cerrados. Tinha o olho esquerdo inchado e fechado devido ao golpe que recebera na biblioteca. numa voz azeda.

o qual foi publicado numa escala de um por duzentos. no interior do círculo.que inclui o Círculo Sarsen e as cinco arcadas verticais. ..Alguns de vocês que têm em mãos um trabalho sobre Stonehenge.Se eu interromper de cada vez que você ou qualquer outro erguer a mão.Vejamos o trabalho de um investigador do século dezoito. se permanecêssemos no centro de Stonehenge ao amanhecer no solstício de Verão. Mas ele pensava também que Stonehenge fora construído por druidas. Mesmo assim demasiado cedo para os druidas. a teoria mais generalizada em relação a Stonehenge. as perguntas ficarão para o fim . Na pesquisa que efectuou em 1877. A história da arqueologia é constituída por informações errôneas misturadas com hipóteses românticas e calculadas. como se pensassem que chegara a altura de fazer ver a Deirdre que devia deixar de o interromper. essa é. foi terminada por volta de 1550 a. não conseguirei terminar hoje a matéria. Com efeito.Stonehenge: Planos. Essa. explicou.Afundou-se no seu lugar. . Mesmo na fase mais tardia. Descrições e Teorias. . John Smith. . Até aqui tudo bem. o segredo mais bem guardado em relação à arqueologia é que estamos quase sempre errados. ou triliões. e passaria agora a referir algumas das teorias bizarras apresentadas nos últimos cem anos. poderão já ter deparado com referências ao livro de Petrie. e em lado algum isso 39 corresponde mais à verdade do que na exploração de Stonehenge.incluindo Stonehenge. durante cerca de dois séculos. . e a cultura céltica só começou a ter expressão cerca de dois mil anos depois da primeira fase de Stonehenge ter sido construída.afirmou rapidamente. tomou medidas extremamente precisas ao monumento e elaborou um plano exacto. Indy olhou rapidamente para ela e depois baixou os olhos para os apontamentos.Na verdade. ..Como estava a dizer. Deirdre ergueu a mão pela primeira vez.verificaríamos que o sol se ergue directamente por cima da pedra de ponta localizada fora do anel interior de pedras.Peço desculpa. os antiquários como antes se chamava aos arqueólogos .Miss Campbell.Professor Jones? .o monumento da antiguidade mais famoso neste país. provavelmente. Desejou que as suas palavras estivessem a produzir o efeito desejado: que ele era alguém que falava com conhecimento de causa. por volta de 1900 a.acreditavam que.Contudo. C. durante alguns séculos os antiquários acreditaram que Stonehenge fora construído por druidas. . Indy explicou que Petrie continuava a ser um dos mais respeitáveis investigadores de Stonehenge porque sempre evitara a especulação barata. Retrocedam um século e verão que praticamente tudo o que acreditávamos ser verdade está ultrapassado. era a cilada de Stonehenge. . Mas tal facto não é de surpreender. Os druidas eram celtas. .C. Indy reparou que alguns alunos se riram à socapa. Foi o primeiro a notar que.

Por fim. Tem constituído um tema de aceso debate desde o século XVI. Diga. estava apenas a repetir uma afirmação de um dos seus professores de francês. aterrorizado e surpreendido por Indy se ter envolvido numa luta com um estranho. não fiz muitas perguntas.Professor Jones? Levantou o olhar.São místicos mal informados. mas estão enganados.O que sabemos de Stonehenge é que este monumento pode ser classificado. Deirdre estava na sua frente. . preparando-se para sair. Depois do incidente na biblioteca. É o seu comportamento fora da aula. Deirdre abanou a cabeça. e o médico. e um templo associado a sacrifícios humanos. . como o empreendimento mais espectacular que sobreviveu à Antiguidade. Alguns afirmaram que fora edificado por druidas. Prometera encontrar-se com Milford na Torre de Londres dentro de uma hora. o velho professor sugerira que se encontrassem na Torre para continuarem a conversa. Apesar dos esforços de Indy para tranqüilizar o amigo.Estou com pressa. e tem sido interpretado como uma câmara de sepultura. que aí fazia serviço. Reuniu os livros e apontamentos. .Não se esqueçam de que têm de entregar os trabalhos até segunda-feira. . 40 . . Quando a aula chegou ao fim. . Os seus olhos violeta buscavam uma explicação. um monumento comemorativo. e já estava irritado antes de a aula começar.disse.Indy suspirou.Na verdade.Não tem nada a ver com as suas perguntas. Milford ficara.Por que razão está aborrecido comigo? Hoje.Posso fazer uma pergunta ou devo esperar? .Em que posso ajudá-la? . Indy pegou no relógio de bolso e enfiou-o na algibeira. outros ainda por vikings. . acompanhara o velho professor ao clube onde aquele estava hospedado. e tinha a certeza de que se relacionavam com a disputa entre pai e fiLho. simultaneamente. rispidamente. outros por romanos. . tal como a Grande Pirâmide do Egipto. . examinara-lhe o olho ferido. .Acabou de fazer.E aqueles druidas que se reúnem de vez em quando em Stonehenge como se fossem donos do lugar? Indy riu-se.Milford estava convencido que Indy sofria de problemas emocionais. um egiptólogo que trabalhara com Flinders Petrie. Um aluno ergueu a mão. . Proclamam o local como deles. e logo para mais numa biblioteca.

Foram mais tarde circundadas por uma muralha com mais seis torres". Sir Thomas More. A Torre de Londres datava do século XI. "A Torre Branca". explicava o homem. sinceramente. ontem. Com o decorrer dos séculos. e. disse-me para me manter longe de si. Torres erguiam-se em espiral na direcção dos céus. e a lista de prisioneiros proeminentes era impressionante". e uma ponte levadiça oferecia passagem para o interior. duque de Orleães.Atrasado. à medida que Indy se aproximava do edifício. foram acrescentadas novas torres até ao número de treze. rei João. -Voltou-se. Não avistou Milford por perto. escalassem as muralhas. que. e a princesa Isabel. abruptamente. o Conquistador. De entre aqueles executados ou assassinados na torre contavam-se: Henrique VI. claro. Lamento. de França. as rainhas de Henrique VIII.Não sei do que está a falar. e já não os inimigos. bandeiras flutuavam ao vento. . continuou o guia.Pergunte ao seu namorado. Mas não tenho namorado. realçando os nomes da realeza: o rei David II da Escócia.. professor Jones. A rapariga foi apanhada de surpresa. . . depois da batalha de Hastings e.Lamento. rei Jaime I da Escócia. foi o primeiro prisioneiro encarcerado nas suas muralhas. como de costume. Muitos mais se seguiram. . "fora edificada não só para proteger a cidade de ataques mas também para vigiar o tráfego marítimo no Tamisa e para lembrar aos cidadãos o poder de Guilherme. pelo que Indy pôs-se a escutar as palavras de um guia que se dirigia a um grupo de turistas. que mais tarde se tornou na rainha Isabel I. quando foi construída por Guilherme. e o duque de Monmouth. A notoriedade da torre cresceu em paralelo com as suas dimensões.o Bom. o duque de York.O que quero dizer é isto: tenho sido seguido por um tipo qualquer. "A construção iniciou-se em 1078 e terminou em 1100 com Rannulf Flambard.O que quer dizer? . bispo de Durham. Mostrou um ar inocente e frágil. A sua segurança desapareceu. sentiu como se estivesse a voltar atrás no tempo. . e saiu com rapidez da sala. ironicamente. . Indy saiu da estação de metrô de Tower Hill cinco minutos depois da hora marcada para o encontro com Milford.Sim. o Conquistador".Indy consultou o relógio. Um antigo fosso tinha agora por objectivo evitar que os turistas. Thomas Cromwell. depois de nos termos envolvido numa pequena querela. Eduardo V e o seu irmão. 41 Anne Boleyn e Catherine Howard. Que motivo poderia ele ter para me pedir tal coisa? Não faço a mínima idéia e você? .

Mas estou bem.afirmou Milford ao surgir por trás de Indy. onde Henrique VI foi assassinado. Milford vestia o seu sobretudo preto. . Não tardarei a ficar bom. mais coerente. Realidade e fantasia não se distinguem claramente. É disso que eu gosto. . Milford.Parece estar a reagir bem a este estado mental. onde ainda são guardadas as Jóias da Coroa". .Boa tarde. "Encontra-se registado". "Território traiçoeiro. "Eduardo V e o duque de York foram aí assassinados.Como está hoje o seu olho? .Hum.inquiriu o professor. .História concreta. Havia menos falhas de memória e menos trocas para o inglês . . entre outros. reunidos à volta do guia por baixo de uma das torres. mudando de assunto ao alcançarem a parte mais afastada do fosso e um grupo de turistas. iniciada por Henrique III. concebida por Ricardo I por volta de 1190 e concluída no século XIII.Embora com uma temperatura moderada e um dia relativamente solarento. . em conseqüência.Tal como Samuel Johnson afirmou há dois séculos atrás: Tudo o que se sabe efectivamente sobre o antigo estado da Grã-Bretanha pode ser contido em poucas páginas.afagando o bigode ao dirigirse a Indy. Nas trincheiras que correm a norte da Torre Beauchamp localiza-se o Caminho da Princesa Isabel. Indy -disse Milford quando o grupo seguiu caminho. . Sabemos que essas pessoas viveram e morreram.É um local de história concreta.Milford parecia hoje descontraído e calmo e. . . espero bem que sim. onde feitos obscuros foram engendrados. .A ideia foi do seu médico.Escute o que ele diz . . a história concreta torna-se suave e sentimental. e para o lado mais amplo.Fez uma breve pausa observando Indy. onde os prisioneiros não tiveram a sorte da princesa Isabel I. seguiremos para a Torre Wakefield.Parece que está mascarado à pirata.Venho sempre aqui quando me encontro em Londres . ao atravessarem o fosso em direcção a uma das torres. Depois. Indy anuiu. . 42 Mas se regressarmos atrás outros cinco séculos ou isso antes da construção desta torre. . onde a realeza encontrou um trágico destino. tornou-se mais tarde rainha Isabel I. Indy sabia que seria uma perda de tempo discutir a sua estabilidade mental. anuindo na direcção do guia. . .As coisas descontrolaram-se um pouco na biblioteca.O que queria exactamente dizer com história concreta? -perguntou Indy. . . . Sua Alteza constitui uma das histórias de sucesso da Torre. História concreta. Lenda e história misturam-se livremente.Embora tivesse estado aqui cativa durante vários meses.Esta é a Torre do Sino. Ninguém argumenta contra esses factos.afirmou Milford.Muito certo.Gosto dessa disposição . . Dr.disse Milford.Vejamos agora a Torre Sangrenta..

. com Marcus e. como há para a Torre de Londres. Não teriam nada para fazer senão caçar tesouros. aqueles que não preenchiam os requisitos da verdadeira educaçao escolar.Encontrei-me. .Depois os arqueólogos não teriam pré-história para criar. . . Também tem alguma coisa contra a arqueologia? Milford estacou e ergueu o olhar para a Torre Branca. Indy. ele queria que eu lhe dissesse qualquer coisa. . . Milford.Um pouco.inquiriu Indy.interrompeu Indy.Milford gesticulou para a entrada da torre. A arqueologia já não está no século XX. mas. os verdadeiros estudiosos sentiam que o seu tempo era mais bem aproveitado. Dr.Encolheu os ombros e abriu a porta.Indy tivera de ler as Histórias dos Reis Britânicos quando ainda criança. .História Regum Britanniae.. quando tinha a sua idade. Milford riu-se. .Conhece esta? . . recentemente? .Está a par da sua literatura da Idade Média. Era a fonte principal de muitas das lendas arturianas e.Se desejas honrar o sepulcro destes homens com uma obra que permaneça para todos os tempos. No segundo andar.Hei-de lembrar-me. . Milford pousou a espada. .Talvez não seja fácil para mim mudar.Milford percorreu a mão sobre a lâmina de uma espada. . Milford examinou a colecção de armas e armaduras que datavam dos primeiros anos da Idade Média. Os seus olhos azuis aquosos fixaram-se nos de Indy. . o pai insistira para que ele as lesse e compreendesse.É uma pena não existirem catálogos de história para locais como Stonehenge. Indy.disse Milford. 43 . Milford apontou a espada a Indy. . a estrutura original no centro do complexo de torres. buscai a.Agora parece o meu pai a falar. Talvez esteja certo. .Muito bem . desejando provocar Milford para que este exprimisse os seus pensamentos sobre o mito arturiano.Há uma que afirma que Merlin construiu Stonehenge. O nosso amigo Marcus Brody concordaria. Eram esses que eram relegados para sujarem as mãos e corações em empreendimentos meramente aventureiros. . Subiram uma escada para o interior da estrutura normanda de quatro andares.É pena não terem aqui a Excalibur .Esteve com Marcus. apesar da linguagem arcaica. . A tarefa de partir em busca de novas escritas era deixada aos estudiosos de segunda categoria.Tossiu e declamou: . .Geoffrey de Monmouth . . .As lendas enganam. analisando as escritas antigas que já possuímos nas nossas bibliotecas. .So whylome wont. . sabe. . o que acredito não aborreceria nada muitos deles. o bigode retorcido.arcaico. com efeito.disse Indy.As coisas mudaram. Milford parou mesmo na entrada para a torre.

exibindo os esqueletos dos primeiros presidentes da América. . continuava a ser o homem encantador e bem-humorado de sempre. Marcus? Brody não respondera. lentamente.Pensa que é possível provar que Merlin era uma pessoa histórica? . que passara com o pai.Se isso alguma vez acontecer. Murmurara depois qualquer coisa sobre as suas dúvidas de que o público americano aceitasse tal exibição. por intermédio de palavras. e a voz de Indy ecoou. há diversos anos atrás. Quando o velho professor estava descontraído. terei. Mas não conseguiram apresentar argumentos convincentes. Milford e Marcus Brody. .Edmund Spenser. e a sua mudança de Chicago para Nova Iorque. do século XVI. . Milford inclinarase para a frente na sua cadeira.Se viveu. e o mar para a terra secar. A época deles terminara. . . . as escadas de pedra. Desceram. nas férias de Natal do colégio. estranhamente. de começar a acreditar em dragões. Milford sorriu. E a noite mais negra em dia tornar". A terra para o mar. os cristãos chamavam a Merlin o filho do Diabo. Milford girou a cabeça e olhou para o cimo da torre.Indy. Os pagãos eram uma força em extinção.Acredita que Merlin viveu realmente. e perguntou numa voz casual onde poderiam esses esqueletos estar ocultos. adorava o deus do Sol e não o filho de Deus e. Sentia-se satisfeito por ter concordado encontrar-se com Milford. Sairam da Torre Branca. podia convocar o céu. Recordou-se de uma noite. . Dr. é óbvio. Comemoravam a nomeação de Brody como director do museu. terei de rever as minhas idéias sobre a arqueologia. Milford? . Milford sugerira que Brody deveria inaugurar o seu posto. igualmente. Indy riu-se. bem como sobre Merlin.Talvez os arqueólogos possam encontrar a prova.Não creio. os estudiosos passaram vidas inteiras a tentar provar isso. Nesse caso.É claro que seria diferente se se tratasse de chefes índios. Brody lançou um olhar desconfiado a Milford. O sol e a lua.acrescentara o pai de Indy. Acrescentou em tom baixo que sabia onde se encontravam alguns deles e que não estavam em sepulturas. Receio que nunca passará de especulação.Lenda ou realidade. colocara uma mão por cima da boca e murmurara: . Indy abanou a cabeça. e fazê-los obedecer-lhe." Pois ele. quando visitou Nova Iorque. Meditava ainda nas palavras de Milford. . na GrãBretanha do século vi isso não era aceitável.Certo. pois não sabia se ele falava a sério ou não. .

e fazia nele o que bem entendia. é o primeiro que vejo. E. e de antigas ruínas.Viu-a. e gostaria de saber porquê. Trazia um vestido longo e os cabelos caíam-lhe sobre os ombros. se sentia mais como uma visita do que como membro da família. Tudo era preto ou vermelho. a mulher infiltrou-se nas sombras e pareceu. Considerava a casa de família como sendo da mãe.afirmou Milford em tom baixo. muito embora sempre lá tivesse vivido. Mas não havia lugar para elas fora do seu quarto. interrompido nos seus pensamentos ao avistar uma jovem que os seguia com o olhar lá de cima. feitas de mogno. . coberto de cetim ou altamente polido. leques de papel demasiado grandes. Deirdre seguira-o. Reconhecera o vestido e a mulher.Dizem que há aqui fantasmas . Misterioso e proibitivo. Não tinha dúvidas de quem se tratava.. Havia para Deirdre algo de misterioso no Oriente. biombos. grande parte do qual foi adquirido pelo avô de Deirdre. cadeiras de costas altas. 44 45 CAPÍTULO VI O ERRO DE DEIRDRE Deirdre subiu os degraus familiares da rua. Mesas baixas. ainda que com aquarelas vivas. A distância. Indy anuiu. . Quando se aproximaram. podia ser tomada pela princesa. Mas a presença da mãe era tão dominadora que. Talvez existissem fantasmas na torre. literalmente. do Caminho da princesa Isabel. em concordância. .Sim. repentinamente. . mas aquela não era. havia uma faceta nela tão enigmática quanto a mobília. A casa estava repleta de mobiliário oriental. por vezes. jarras compridas. Indy? . Deirdre detestava aquelas coisas. que fora embaixador inglês na China. O quarto de Deirdre era o seu único santuário.deslizar pela porta aberta da torre. As paredes estavam cobertas com pinturas de tranquilas paisagens inglesas. embora amasse a mãe. abriu o portão de ferro e percorreu o caminho que dava acesso à casa da mãe em Notting Hill.Contudo. Todos os presidentes tiveram lá os seus esqueletos. Indy foi. vi.Nos armários da Casa Branca. mas Joanna passara os primeiros doze anos da sua vida na China e a mobília constituía o seu passado. uma figura espectral. regressando para visitar o seu local de cativeiro.

. Controlava a sua vida. para além destes triviais problemas caseiros.Quando lhe pedira para se encontrar com ele de novo. acima de tudo. . Tiveste um mau dia. o que se passa? . conta-me. . dizia Joanna.O que se passa? .disse. .Não posso dizer que esteja surpreendida. pelos seus conhecimentos. quando envolvia algo de pessoal.Dirigiu-se ao andar superior.Rolou para baixo e enfiou a cabeça na almofada.A voz de Joanna ficou tensa. Mas. . só utilizava a frase em tom carinhoso. Mãe Joanna. a vontade própria.Nada. . ele disse-me que alguém o avisara para se manter afastado de mim. parecera-lhe estranho e chamava-a Mãe Joanna. para ser sua amiga para além de mãe. . 46 . . Estava a sugar-lhe a força."Eram demasiado modernas". Adrian estava entre eles. . Era mais velho e mundano do que ela.Oh.Deirdre.inquiriu Joanna. sentiu-se honrada. Entrou no quarto e atirou-se para cima da cama. Joanna hesitou antes de responder. Agora. vinda de uma viagem. Deirdre.O que aconteceu? Por favor. . . Não se enquadrariam com a decoração oriental. Era Adrian. . Um dia haveria de ter o seu próprio apartamento. havia algo mais que lhe provocava má disposição.No final da aula de hoje. mas não te queria aborrecer. querida? Deirdre não respondeu. . deixaria. No início.Mandou vigiar-me e o patife começou agora a seguir o professor Jones .O que fez ele? . e encontrou Joanna recebendo diversos convidados para jantar. As molas estalaram quando Joanna se sentou à beira da cama.Quem me dera nunca o ter conhecido. Não conheces Adrian como eu.Claro que sou.chamou Joanna da sua sala de trabalho. geria-a. és tu? .Nem sequer me foste cumprimentar.Não me quer deixar em paz. e sentiu-se atraída pela sua doçura. . pelas pessoas que conhecia. e arranjaria as coisas a seu gosto. querida. .O que fez ele? .repetiu Joanna. . porque o professor Jones tem uma pala sobre o olho. Ia contar-te.Como sabes? . A porta abriu-se. . a mãe encorajara-a a tratá-la pelo primeiro nome. Nenhuma delas gostava de conversar sobre Adrian. Não sabia o que fazer com ele. Conhecera Adrian por mero acaso quando regressou à Escócia. e se decidisse deixar o casaco no sofá ou na sala de jantar por uma hora ou um dia. Penso que devem ter lutado. .Desde que o pai morrera quando ela tinha quinze anos. Ouviu bater à porta.É Adrian.Deirdre.

provavelmente.Mas sabes que só saímos três vezes e que nada sucedeu entre nós dois. .Nem quer falar comigo. . Raramente criticava Deirdre e esta única palavra era típica como resposta. .Bom. é melhor deitar mãos à obra. . .Não te preocupes com Adrian.Bem. . . evitado muitos desagravos. .Joanna tentara desencorajá-la a encontrar-se com Adrian quando soube que ele a convidara para almoçar. Deirdre admirava a paciência de Joanna.Obrigada por me ouvires.O que mais disse o professor Jones? . teria. . Joanna.disse Joanna. Reparou. Se fosse examinada com atenção. Sabe que não o quero ver. pensou. Mas era teimosa.Ah.Interesse. .Para o professor Jones? . depois. que Joanna vestia um dos seus robes orientais de seda e que os seus cabelos lhe caíam soltos sobre os ombros. Deirdre levantou-se e alisou as pregas do vestido comprido..Nunca podia supor que ele era assim.Pronto. Tenho um trabalho para entregar na segunda-feira. por cima da espuma. Ficaram ambas em silêncio durante tanto tempo que Deirdre levantou a cabeça para ver se a mãe deixara o quarto. Não serve de nada. Fora dado à pintura o nome "A Caverna de Merlin". Fitava uma das pinturas de Deirdre. e era a predilecta de Joanna. admito. Esquece apenas que alguma vez o conheceste. Tinha de descobrir as coisas por si mesma. 47 . . e Deirdre queria saber como esse mundo era. Deirde abraçou-a. Muito interesse.Com a idade.Sim. .disse Joanna.Não me surpreende .Ele oferecia-lhe ingresso num mundo de riqueza e poder que ultrapassava tudo o que ela pudesse imaginar. e posso dizer-te que segui a tua sugestão. estavas certa em relação a ele desde o início. Mãe Joanna. pela primeira vez. um sorriso. .. devia dizer. Se tivesse procedido de acordo com os conselhos da mãe. uma paisagem marítima que pintara aos quinze anos. avistava-se a entrada oval e negra de uma gruta. tornar-te-ás mais sensível à capacidade de discernir entre pessoas sinceras e honradas e aquelas que só pensam nelas próprias. Deirdre encolheu os ombros.respondeu Joanna. "Nada de especial". A água lançava-se contra uma rocha na base de um penhasco e. permitindo-se. . qual foi a reacção dele? . Por que não me deixa em paz? .Três vezes foram demais . nunca lhe cobrara por isso. .inquiriu Joanna com curiosidade. detectar-se-ia que a espuma formava o rosto de um homem de barbas.

- Vou tentar. Joanna preparou-se para sair, mas estacou. - Se precisares de ajuda para o trabalho, diz-me. Deirdre lançou a mãe um olhar céptico. - Não parece coisa tua. - Joanna nunca dera respostas nem a auxiliara na preparação de trabalhos. Aconselhava-a, mas obrigava-a sempre a cumprir as obrigações por si mesma. Joanna sorriu, tomou a mão de Deirdre e afagou-a. - Talvez queira que impressiones o professor Jones. 48

Deirdre olhou tristemente para ela. - Acho que já o impressionei, graças a Adrian. Joanna apertou-lhe a mão. - Não te preocupes. Vai correr tudo bem. Pela primeira vez desde o início do curso, Deirdre não se sentou no centro da primeira fila. Escolheu um assento trás filas mais atrás, numa das pontas. Era a sua forma de mostrar a Jones que respeitava o pedido que Lhe fizera para se manter longe dele. Mas desejava, igualmente, que ele sentisse como estava magoada, e a injustiça das suas acusações. Um homem na fila da frente virou-se e sorriu. - Por que estás aí hoje sentada, escocesa? Com medo do professor? - Cala-te e vira-te para a frente. - Caramba, como estamos azedos para os colegas - disse e voltou-se. Seguramente que não fizera amigos nesta aula, mas pouco se importava. Ou melhor, não se importava até o professor Jones se ter voltado contra ela. - Não lhe dês ouvidos - disse a rapariga sentada ao seu lado, e sorriu. - Obrigada, não darei. - Pelo menos, nem todos a odiavam. Nesse instante, Jones entrou na sala e cumprimentou os alunos. Continuava com a pala no olho, e o outro parou por uma fracção de segundo no lugar vazio na fila da frente, pesquisando de seguida a sala até a encontrar. Desviou o olhar de imediato, mas não com a rapidez suficiente. Óptimo. Ele reparou. Deirdre sentiu um vazio ao vê-lo iniciar a lição. Achava tudo nele interessante; desde os modos desprendidos, a mente aberta, o entusiasmo ao bom aspecto e suaves olhos cinzentos. Estava irritada consigo mesma por se exibir nas aulas. Por que não se contivera e deixou que os seus conhecimentos sobre o tema fossem lentamente assimilados por Jones, em vez de os impor a ele? Deveria ter pensado que um jovem professor ensinando pela primeira vez ficaria mais aborrecido do que satisfeito com um aluno que revelava um conhecimento superior. Antes de permitir que Deirdre se juntasse a ela nas escavações durante o Verão, Joanna exigira que a filha estudasse os mesmos textos de apoio que os seus

alunos finalistas. Deirdre quisera provar o seu valor aos alunos mais velhos e, com a ajuda de Joanna, os seus conhecimentos não ficavam muito atrás dos alunos da mãe. Aceitara fazer o curso de Jones quer para agradar a Joanna, que o recomendara, quer para aumentar o seu currículo. - Vou fazer uma variação ao assunto que planeei para hoje, - começou Jones a falar de um tema relacionado com a arqueologia e que inspira alguns arqueólogos e irrita outros.- Começava sempre devagar, como que aquecendo. O seu 49

entusiasmo ia crescendo, gradualmente, até que atingia um tal fervor que Deirdre não conseguia evitar de participar com uma pergunta ou comentário. Por estranho que pareça, ninguém na sala reagia como ela. Agiam como se estivessem a assistir a uma dissertação de psicologia do Dr. Mahoney, ouvindo-o arrastar-se sobre estudos de determinados casos e análises freudianas. Era como se a turma fosse apenas constituída pelos dois, Indy e Deirdre. Pelo menos fora assim, até Adrian interferir. - Estou a referir-me a mitologia e lenda, dois termos relacionados e por vezes interligáveis para a pseudo-história. Na pior das hipóteses, mitos e lendas não passam de especulações e mentiras, produtos da ignorância do povo e da superstição. É por essa razão que muitos arqueólogos nem querem ouvir falar nestas coisas, mesmo quando estão ligadas ao seu próprio trabalho. O seu olho percorreu a turma, mas evitou-a. Deirdre interrogou-se se ele a teria visto na Torre de Londres. Seguira-o na esperança de encontrar o patife que Adrian contratara para a seguir. Queria entregar-lhe uma mensagem para Adrian: chamaria a polícia se alguém voltasse a segui-la ou a Jones. Mas não localizara o patife em lado algum. - Embora os mitos nunca devam ser cegamente aceitos como explicação para acontecimentos ocorridos no passado, torna-se não apenas lógico que os arqueólogos estudem aqueles que se relacionam com a determinada cultura que estão a investigar mas também relevante e necessário. Praticamente, todos os mitos contêm uma essência de verdade, um significado oculto,ou uma pista que possa ser seguida pelo arqueólogo. Um aluno ergueu a mão. - Não encontro este tema no programa, professor Jones. - Não está, com efeito. Fui eu que o incluí. - Vamos fazer um teste sobre isso? - perguntou outro. Jones virou o rosto para um dos lados da sala, como que distraído por um ruído no corredor. Deirdre percebia que ele estava aborrecido com perguntas tão banais, e teve pena por ele. Calculou que Jones nem levara em consideração o que eles perguntaram.

- Do vosso teste final fará parte uma pergunta de desenvolvimento opcional disse. - Agora, se me permitirem que prossiga, gostaria de vos contar uma história. Já bastante antiga. Deirdre recostou-se na cadeira e ouviu Jones contar uma lenda antiga sobre um povo que vivia para "além do vento norte". Conhecia bem a história, mas sentia curiosidade em saber o desenvolvimento que ele lhe daria.

50 - A descrição de Hecateu sobre a ilha refere-se quase, seguramente, às ilhas Britânicas - afirmou ao concluir a narração. - Embora subsista a dúvida se uma mulher de nome Leto alguma vez nasceu na ilha ou se mais tarde gerou um deus imortal, a história indica, efectivamente, que os gregos da Antiguidade e os distantes antecessores dos celtas se conheciam. O que podemos então concluir sobre estes lendários hiperboreais? Deirdre viu-o olhar com expectativa na sua direcção. Tinha uma boa resposta para a pergunta, mas manteve as mãos sobre a mesa. Por fim, Jones apontou para um homem na fila de três. - Os hiperboreais poderão ter viajado para sul e possivelmente visitado Delfos, onde Apolo reinava - disse o aluno. - Mais tarde, levaram consigo histórias do deus, que passaram de geração em geração. - Okay - disse Jones. - Mas lembre-se que o mito é de origem grega. Como poderiam os gregos saber que Apolo visitava a ilha dos hiperboreais de dezanove em dezanove anos? Outro aluno ergueu a mão. - Talvez um dia os gregos tivessem aparecido nas costas da Grã-Bretanha e descoberto que um deus do Sol era aqui adorado, tal como na terra deles. Assim, inventaram a história de que era Apolo, e de que visitava a ilha e que a mãe dele nascera aí. Jones anuiu. - É possível. Mas os gregos, apesar de todas as suas glórias na arquitectura e escultura, matemática e astronomia, não eram grande coisa em geografia. Não ficaram conhecidos como grandes viajantes, como os fenícios. Mas é possível que alguns gregos, a nível individual, tenham partido por sua conta e risco e viajado por rotas comerciais estabelecidas por outros povos. O olhar de Jones pousou de novo em Deirdre. Esta percebeu que ele lhe solicitava que participasse da discussão. Ela opôs-se. - Vamos agora debruçarmo-nos um pouco sobre a lenda de Stonehenge. Deirdre escutou Jones relatar a lenda que lhe era ainda mais familiar do que a história sobre os hiperboreais. A acção decorria por volta do ano 460, depois das legiões romanas terem abandonado a Grã-Bretanha. Era um período de grande instabilidade quando os saxões, chefiados por Hengist,atacaram, repetidamente, os bretões, governados por Vortigern. Por fim, foi efectuada uma conferência de paz entre os rivais, tendo sido pedido aos que iam assistir que fossem desarmados. Mas Hengist disse aos seus

na edição de Julho de 1923.Consultou os apontamentos. . Ainda com o auxílio de Merlin.E Merlin respondeu: "Se desejas honrar o sepulcro destes homens com uma obra que permaneça para todos os tempos. Thomas avança com provas convincentes de que as pedras-lipes as que foram utilizadas na primeira construção . e em lado algum há pedras de maior virtude. .. Pouco depois. pode erguer. que desafiou as grandes pedras. 51 e Hengist foi afastado do poder. Deirdre sentia-se cativada. uma montanha na Irlanda. pelo que convocou o mago Merlin para o auxiliar . Tornavase óbvio que estava a preparar a turma para algo. .Sem dúvida. tal como se encontram agora dispostas. e permaneçam aqui para todo o sempre. Jones fez uma pausa e olhou na direcção do aluno que fizera a última pergunta.Desculpe.Mas de que forma está esta lenda relacionada com a arqueologia? Quero dizer.homens para esconderem adagas nas roupas e a conferência de paz transformouse numa chacina. . . que vivia afastado no exílio em Brittany. trata-se de fantasia. Estas que se reúnam então aqui em círculo. Ambrósio decidiu prestar homenagem aos assassínios em massa.. quem sabe. durante a qual centenas de nobres bretões foram assassinados. A estrutura é muito anterior ao século quinto. .Herbert Thomas e intitula-se A Origem das Pedras de Stonehenge. . o local mais frequentemente atribuído como sendo a sua origem. existe aí uma estrutura de pedras que ninguém.prosseguiu Jones. os blocos de pedra foram erigidos na mesma forma que tinham em Killaraus. Pois. poderá aperceber-se da ligação entre o mito e a ciência. Ambrósio reuniu um exército que navegou para a Irlanda sob o comando de Uther de Pendragon com Merlin ao seu lado. só o conseguindo depois de Merlin efectuar uma determinada magia. e os cientistas consideram que a origem das pedras é próxima do local. erigindo um monumento no local do massacre. Mas deixe-me terminar e. buscai a Dança dos Gigantes.Permitam-me que faça agora referência a um artigo que apareceu não há muito tempo no Antiquaries Journal. A partir daí. sucedeu ao Vortigern assassinado como rei de Inglaterra. Pelo contrário. professor Jones . o eminente geólogo oferece provas convincentes de que estas vieram das montanhas Prescelly.Claro que você tem razão. a cento e trinta e cinco milhas de Stonehenge.interrompeu um aluno. destes tempos. os soldados não revelaram qualquer dificuldade em transportar as pedras para os navios e regressaram a Inglaterra. . Derrotaram um exército irlandês.Queria que o monumento durasse para sempre. que fica em Killaraus. O artigo é de autoria do Dr. mas que se viu incapaz de deslocar os enormes blocos. mais precisamente. no Sul de Gales. não fazia ideia onde ele queria chegar. Aurélio Ambrósio.não podiam ter origem na àrea para lá do planalto de Salisbury." Porque as pedras são grandes. todos sabemos que Stonehenge foi construído muito antes da época de que está a falar.

. Talvez o seu silêncio fosse tão patético quanto o seu anterior comportamento.Dobrou-se e equilibrou os trabalhos num joelho. . a nova informação parece confirmar. 53 CAPÍTULO VII ESCORPIÕES EM LONDRES Com uma pilha de trabalhos enfiados debaixo dum braço. Prometeu que os devolveria no final da semana.Raios. Indy levou a mão à algibeira do casaco para tirar as chaves do seu apartamento em Russell Square. Miss Campbell. . .52 Jones afastou-se do estrado e colocou-se na frente da turma. .Estou ansiosa por saber a sua opinião . Jones falou. altura em que seria realizado o exame final.Obrigado. mas nada de chaves. mas não proferiu qualquer palavra por momentos. Contudo. Deirdre sorriu. Como vêem. a lenda de Geoffrey de Monmouth de que os construtores de Stonehenge transportaram as pedras por uma longa distância e que atravessaram água. . os alunos fizeram fila junto da secretária de Jones e entregaram os seus trabalhos. pois a roda. . Apontou de novo e mais uma vez As chaves caíram-lhe da mão e estatelaram-se no chão de madeira. o mito continha apenas uma centelha de verdade.Então. não era usada há quatro mil anos. Deirdre não estava apenas impressionada com a importância da história mas também satisfeita por Jones ter feito referência a Merlin.respondeu e deixou rapidamente a sala. Mas só conseguira analisar pouco mais de metade e agora teriam de estar concluídos amanhã para o exame final. tanto quanto sabemos. e torna-se ainda mais surpreendente quando tomamos em consideração a verdadeira idade de Stonehenge. parcialmente. Quando a aula terminou. Estou ansioso por o ler. Quando Deirdre entregou o seu. Apontou as chaves à fechadura e falhou. já teria terminado de classificar os trabalhos. sentindo poeira e lixo. Apalpou o chão. Ele não tardaria a descobrir muito mais sobre o velho mago. onde estão vocês? Se tivesse sido um pouco mais exigente para consigo no início da semana.É óbvio que Gales fica bastante longe da Irlanda.

mas não conseguiu ver o que a estava a provocar. . Shannon estava acordado e disse que estava em casa à noite.Não te mexas! .disse uma voz. . como se fossem ramos secos. deitado entre folhas de papel. A cauda estava erguida contra a tua cara como se fosse picar. de seguida.Indy entrou de costas no apartamento. Virou o olho são para o lado. quando estendeu a mão para a fechadura. Depois. Mas. Torceu o nariz.Raios te partam. Ajustou a pilha o melhor que conseguiu. mas os trabalhos bojaram no meio. retirou qualquer coisa do ombro de Indy. naquela manhã. . Quando despertou. A dor foi forte. mas breve. Fora esmagado em cima da página de cobertura de um dos trabalhos. . Um arrepio . Shannon . Procurou a chave que queria. Indy sentiu de novo a sensação de cócegas na face.Indy levantou a cabeça..Jack. Caiu no chão.. . resvalou para o solo. e ergueu-se. quando Indy chegava. Na sua frente avistou um par de polainas. Dois passos rápidos. Os trabalhos voaram-lhe das mãos. com um movimento repentino do pulso. .O que era? . -O que diabo estás tu.Ouviste bem. Agarrou nas chaves com a ponta dos dedos.gritou. Alguma coisa lhe estava a fazer cócegas. A voz de Shannon. pega aqui nalguns trabalhos. Um pé esmagou-se contra o chão. o seu primeiro pensamento foi que devia estar atrasado para a aula.Espreitou em redor da pilha de trabalhos na luz fraca do átrio e localizou as chaves atrás dos calcanhares. a maçaneta rodou de dentro e a porta abriu-se alguns centímetros. Shannon partira para o trabalho.Não te mexas . . No momento em que se voltava. Ergueu levemente a cabeça e levantou o olhar no preciso momento em que Shannon se agachou. Shannon dormia quando Indy saía de manhã e. O braço de Shannon estava erguido e parecia que ia esbofetear Indy com as costas da mão. as suas pernas receberam um pontapé. Atravessou a sala coberta de papéis e deu um pontapé ao que restava do bicho. Indy pôs-se de pé e observou a carcaça do animal junto do pé de Shannon. Algo pesado embateu-lhe na nuca. ameaçando espalhar-se no átrio. Mas. . e Indy ouviu algo a estalar. fazendo-o desequilibrar-se.Um escorpião. 54 Apercebeu-se então que se encontrava no solo. tentando levantar-se. não te importas? – Indy mal voltara a ver Shannon desde que o amigo arranjou trabalho no clube.Jack? . Premiu o queixo contra os trabalhos e estendeu a mão por entre as pernas.O quê? .disse Shannon mais uma vez.

Olha para esta confusão. antes de fechares a porta. Shannon percorreu a sala. . deitando-me a adivinhar. .. Foi então que o avistou. Depois. Voltou-se e. pesquisando os cantos. empurrou para a frente até cair no interior do aparelho sanitário. . Deu-me um golpe na nuca antes que o pudesse ver. Indy tocou no pescoço. Na verdade.O que aconteceu? . .inquiriu Shannon. Dirigiu-se à casa de banho.Shannon mirou de cima a baixo como se esperasse encontrar outros escorpiões em cima dele. Eu vou dar uma vista de olhos por aqui.Estava aqui alguém. .Jack. Vendo que não havia sinais de escorpiões. .Estás bem? .Não havia grande coisa para levar. . deixas cair os trabalhos e desmaias. . Não há sinal de roubo. .Meu Deus.Não exactamente. . impulsionando a criatura para o esgoto. não sei como. Olhou para Shannon. . deitou-se e fechou os olhos. atrás da mobília.Indy olhou para os trabalhos dispersos pelo chão. tropeças.Indy caminhou sobre os papéis.Foi tudo o que conseguiu proferir. Onde há dois.murmurou e rolou para fora da cama. . . Puxou o autoclismo.Bem me parecia. Indy pegou numa toalha e. . . -Deixem-se ficar aí .Não entendo.percorreu-lhe as costas como se um dedo gelado lhe tivesse descido sobre a espinha.O que te parece tudo isto? . Puxou do relógio de bolso e apercebeu-se que tinham decorrido vinte minutos desde que chegara ao apartamento. .Não sei.Sim. diria que existe alguma relação entre as viúvas negras e os escorpiões.À primeira vista. .Não sei.. ergueu a almofada. acho que estou. não estou a dar pela falta de nada. Tudo parece estar em ordem. Na berma da sanita estava empoleirado outro escorpião.Ah. . . era capaz de apostar dinheiro. abanou a cabeça e estremeceu quando uma dor súbita Lhe irradiou do pescoço para o ombro direito. Estava prestes a adormecer quando sentiu algo deslocando-se sob a orelha. lentamente. pode haver mais. Chegas a casa e. .Vejamos. Mas.Vai estender-te um pouco.conteve um grito. entre os livros. um escorpião trepa para o teu ombro. 55 . molhou uma toalha e colocou-a no pescoço. cautelosamente. Indy foi para o quarto e puxou os lençóis cuidadosamente para trás. Vem cá.

Indy olhou para a secretária.Shannon esmagou o escorpião com um livro. não podemos.Deixa por minha conta. . Não fico nem mais um minuto aqui e vou chamar a polícia. Havia uma faceta nele de que raramente falavam. estivesse onde estivesse. Passaram a meia hora seguinte percorrendo o apartamento.Indy espreitou pela janela. O irmão de Shannon e. . e Indy sabia que era muito possível que Shannon fosse pedir auxílio a esses contactos. . . .Por que fizeste isso? . foi a gota de água.Shannon entrou no quarto.Não. apontando para a caixa.Não. Vou descobrir o que se passa. vamos revistar a casa. . É melhor veres na tua cama.Shannon desapareceu e regressou alguns segundos depois com uma caixa e uma vassoura.Vamos primeiro tratar desses bichos. Indy conhecia Shannon. . Shannon levou a caixa para a cozinha onde abriu uma janela que dava para um muro de tijolos.disse Indy ao carregar um monte de papéis para a sua secretária. . Shannon descobriu mais dois escorpiões aninhados num dos sapatos de Indy.Quatro. Largou os papéis. Talvez fosse bom nos estabelecermos num negócio de exterminação de escorpiões -riu-se Shannon. Antes de tudo. -Tenho contactos.disse. A família mantinha-se ligada a ele através de contactos na Europa. e embora Shannon tenha declinado essa vida. .Acho que não nos escapou nenhum lugar . . Levantou a tampa com um a mão e atirou os escorpiões pela janela.Não podemos simplesmente ignorar isto como se nunca tivesse ocorrido. Se alguém me vir no clube.É engraçado.Não tenho autorização de residência.Estamos a ficar bons nisto.Agora. Varreu os escorpiões para a caixa que Indy segurava e fechou a tampa. . Jack. os restantes membros masculinos da sua família estavam envolvidos na Mafia irlandesa em Chicago. . Hei de deslindar o caso. Temos aqui a prova .Digo que és um turista.Disseste alguma coisa? . Shannon desviou o olhar. parecia que nunca conseguiria escapar completamente a ela. . ou talvez não.E como pensas fazer isso?-perguntou Indy. tu também podes arranjar problemas por me estares a encobrir. Foram atirados para junto dos outros dentro da caixa.desde o cimo das estantes e das saliências no topo das armações das janelas aos cantos e por baixo da mobília. . mas os escorpiões tinham desaparecido no beco escuro dois pisos abaixo. debaixo da almofada. . Ia para os pousar quando avistou outro escorpião pondo a cabeça de fora de um orifício na secretária. provavelmente. Seria expulso. . . 56 .Parece ser um problema corrente por cá.

está ligado ao namorado da filha da tua chefe. O dela seria diferente.Não quero ser responsável por mais sarilhos. Vamos apenas descobrir quem é o nosso perito em criaturas venenosas. Anotou um B menos no final da observação. O meu antecessor deixou uma cama portátil no armário. . assim termino de analisar os trabalhos. meditando. e o objectivo era aprender as bases. cerca de três vezes mais extenso do que qualquer um dos outros. concretamente. Diz-me o meu sexto sentido. qual o problema dele em relação a ti. Shannon ficou em silêncio. Mas ir concretamente tentar provar que Merlin vivera parecia tão fora do âmbito do curso que agora tinha dúvidas quanto ao que Deirdre lhe dissera quando reuniram. e bocejou ao escrever uma observação na página de cobertura daquele que terminara de ver.. Mas.Tem calma. Nenhum indício de especulação.Porque as aranhas na caixa de chocolates foram enviadas ainda antes de eu conhecer Deirdre. Segurou o trabalho nas mãos. nem nada que se pareça. nenhum delinear duma conclusão controversa. Esfregou a nuca.Continuo a pensar que existe uma relação. . e estabelecer. O facto de ela ir especular era aceitável.disse Indy pouco seguro. Indy. por que não vais para um hotel? Jones pegou no monte de papéis. Tinha os pés pousados sobre a secretária. Era composto por vinte e cinco páginas.Por que não? .Bem visto. Na sua maioria. O trabalho. . . Indy sentou-se no chão e empilhou todos os trabalhos. . CAPÍTULO VIII ESPLUMOIR Eram quase duas da manhã. Na minha opinião. e Indy passara as últimas três horas classificando os trabalhos.Bom. o que poderia ele esperar? Este era um curso introdutório. sentindo-lhe o peso. . . sabes uma coisa? . eram meras repetições do que já fora dito. Não falei em quebrar dedos ou braços. Não pode ser.deixando-o para o fim. como praticamente todos que acabara de analisar. . colocando-o depois no monte.Por Deus. nenhuma contestação de autoridades a menos que tal tenha acontecido por parte de uma autoridade mais recente.Não.O quê? . vou passar a noite no meu gabinete.Não sei . Mas. não continha um único pensamento original.Não. não criar algo de novo. pelo menos sabia isso. . Adiou intencionalmente a leitura do trabalho de Deirdre.

Podia ouvir os seus velhos professores atacando-a por todos os lados. sugerindo que havia também provas de que a lenda de Merlin poderia ter derivado de um bardo galês chamado Myrddin Embreis. A partir desse momento. Tudo o que Deirdre escrevera fora baseado em escritas datadas de séculos posteriores. Tal facto levanta uma questão: O que era o esplumoir.". Talvez Merlin sempre soubesse que Vivien planeava iludí-lo. o mágico retirou-se. Contudo. passou para a lenda da morte de Merlin. Merlin vivera nos finais do século sexto na zona baixa da Escócia. mas gritava do seu túmulo. e reclinou-se na cadeira. 58 vivendo num enclave pagão. e Indy conhecia bem as histórias. Fora um druida. da vida e as suas últimas palavras foram as seguintes: "Vou agora retirar-me para o meu esplumoir e não mais serei visto. e fez uma anotação. e um enganador. Deirdre passou a um esboço biográfico. porque fizera referência a duas origens distintas do mito. Deirdre estava bem avançada em relação aos outros alunos. uma virgem. dizia ela. para que ele nunca pudesse escapar. Ela jurou ser a sua esposa. sem elucidar qual seria a suposta evidência. Era óbvio que o que ela escrevera não iria longe como tema base de uma tese para doutoramento. e que se apaixonou. Era um mágico com enorme sabedoria. na época em que o Cristianismo se implantava fortemente na Grã-Bretanha e o paganismo entrava em declínio. voluntariamente. numa outra versão da história emitida num texto antigo denominado Didot-Perceval. Primeiro que tudo. que conhecia bem os processos dos homens e mulheres. em breve seria possível provar que Merlin era mais do que um mito. e depois especulara sobre o significado das variações. Embora Merlin fosse mais bem conhecido como o consultor de Artur e de outros dois reis ingleses antes dele. por intermédio de palavras. embora fosse virtualmente impossível separar a vida de Merlin do mito. O trabalho começava por afirmar que. afirmando que a história era relevante para os fins a que se propunha. Leu aquela parte rapidamente. e onde se localizava? Indy fez uma pausa na leitura. e o seu lamento era ouvido com freqüência na floresta. limitou-se a concretizar os desejos dela. desde o início que Vivien planeava defender-se a si mesma. um profeta. que vivera um século antes. Em seguida. especulava Deirdre. Merlin nunca mais foi visto.O título era sugestivo: Merlin e o Esplumoir: Indícios Sugerindo que o Lendário Mago era uma Personagem Histórica. No entanto. De coração partido e desapontado. a história do que acontecera ao grande conjurador nos últimos anos constituía um dos aspectos mais misteriosos da lenda. Merlin sentia-se tão atraído pela jovem mulher que lhe concedeu o desejo. mas apenas se ele lhe ensinasse o segredo de como poderia capturar alguém permanentemente. Conta-se que conheceu Vivien. Utilizou o feitiço de imediato para aprisionar Merlin numa gruta. Em seguida. depositara . Quer se tratasse de uma figura mítica ou histórica.

Como deve saber. De igual modo.demasiada fé ao assumir o mito como uma experiência real de vida que fora apenas mal interpretada. significava transformar-se a si próprio. mas ainda mais desconcertante é a natureza do que está escrito no pergaminho. a palavra referia-se ao processo de mudança de um pássaro. A carta foi encontrada nos arquivos da Igreja Priory em Whithorn. que foi fundada na aldeia de Whithorn. a primeira igreja cristã na Escócia. e estava endereçada ao Papa Alexandre VI. prosseguia ela. Trata-se de um pergaminho dourado que dizia conter as palavras do lendário feiticeiro conhecido como Merlin. esse local. mas que. e duvidou da derivação. viam invariavelmente nele um símbolo da transformação da vida para a morte. circundou mutare. "Aqui vamos nós". Os estudiosos que se debruçaram sobre o significado de esplumoir. Mas o esplumoir pode efectivamente ser um local físico. fui nomeado para explorar as ruínas de Candida Casa. e encontra-se aqui traduzida do original em latim. Indy pegou no lápis vermelho. Tal facto é já por si perturbador. A carta datava de 7 de Abril de 1496. as suas raízes pareciam ser plumae (penas) e mutare (mudar). mas não podia deixar passar sem um comentário. por que razão gritava do túmulo? Voltou a página. Se Merlin decidiu despedir-se do mundo por sua própria vontade. pensou Indy. Esta afirmação é suportada por uma nova prova sob a forma de uma carta escrita por um monge do século XV.aparentemente. envio-Lhe este pergaminho à sua atenção. fechara também os olhos a uma importante parte do mito. pelo Santo Ninian nos últimos anos do século quarto do nosso Senhor. "Vejamos o que ela arranjou". próximo de Whithorn que não só tem o nome do fundador de Candida Casa como é também chamada pelo foklore local por a Caverna de Merlin. um local para onde Merlin se retirou para elaborar a crônica da sua vida com uma pena de escrever. Escrevo-lhe sobre um assunto de premente preocupação. é uma gruta situada próxima de Whithorn.retirar as penas. e diz-se que o homem que muitos afirmam ser o filho do diabo aí habitou . Literalmente. Fiz aí. Contudo. 59 Fornecia de seguida uma explicação pormenorizada sobre a origem e significado da palavra esplumoir. Em vez de transcrever as palavras profanas. Há nove meses atrás. recentemente. na Escócia ocidental. na esperança de que as provas não fossem meramente outro mito. considerando onde foi encontrado. e fez um ponto de interrogação na margem. Encontrou também uma outra explicação para o significado da palavra e escreveu: "Pode ter origem num verbo latino: explumae . O seu conhecimento sobre raízes de palavras era mais do que superficial. Com efeito. existe uma caverna. o esplumoir." A diferença era mínima. No meu ponto de vista. Deirdre dizia que a palavra era de origem misteriosa. encarada simbólicamente. uma descoberta de natureza muito invulgar.

Provavelmente. É você. a natureza sagrada da gruta. ou ambos. Tudo era possível quando uma aluna do nível dela elaborava um trabalho deste tipo num curso de iniciação. Bateram à porta. ou talvez algumas cascavéis destinadas ao seu gabinete. Passos. . Era a primeira vez que via a Dra. Padre James Thomas Mathers Indy continuou a ler. como uma porta rangendo. Comprido e prateado. Quem quer que fosse deve ter avistado a luz por baixo da sua porta. entrando no gabinete e observando rapidamente em redor. Parecia mais uma feiticeira do que uma arqueóloga. "Faz qualquer coisa". disse ela. desejando não ter utilizado aquele tom de voz.perguntou com voz grossa.Está a trabalhar até tarde. . Deirdre reiterou as suas conclusões. Trago este assunto ao seu conhecimento porque acredito que isto não só apoia a veracidade quanto ao suposto autor do pergaminho mas também porque pode haver razão para exorcizar a gruta da presença do homem-demônio que muitos afirmam continua a habitá-la em espírito. Olhou para cima. esticando o pescoço. e a visão teve um efeito estranho nele. disse a si mesmo. e queria saber mais. mas não mencionou quem encontrara a carta. Peço desculpa. Raios. enegrecendo.nos últimos anos da sua existência. os gabinetes do departamento de arqueologia encontravam-se às escuras e trancados.Quem é? . mas talvez ela não fosse responsável. Apressou-se a abrir a porta. Quando ali chegou. o cabelo caía-lhe por cima dos ombros e da capa preta. O seu humilde servo. assim. a carta podia ser um logro. professor Jones? Indy deu um salto. Esperou.Vi a luz -. Campbell com o cabelo solto. . Mas pouco mais havia. Desejava agora ter reagido mais cedo e desligado as luzes. Ponderava na nota que iria dar quando escutou um ruído. 60 61 .Entre. a carta não passava de uma fraude. Mas talvez a leitura recente dos trabalhos estivesse a afectar-lhe os pensamentos. talvez Deirdre tivesse inventado. não sabia quem era. Talvez a mãe a tivesse incentivado a fazê-lo para ver se ele o engolia sem mais provas. Tanto quanto sabia.Joanna Campbell. . . quando fora encontrada. Estava fascinado com a carta. Imaginou o Olhos Estreitos no corredor com um balde de escorpiões ou viúvas negras. O ruído dos passos aumentou de intensidade e depois parou. ou se fora autenticada. Estava ali alguém. os olhos parando por momentos na cama portátil. Não sabia se lhe haveria de dar um Muito Bom ou um Mau.

Não há problema.Olhou por cima do ombro para ele.Bom. .Indy fez um gesto com a mão na direcção dela. Deirdre contara-lhe tudo. mas houve ocasiões em que senti ser importante expandirme em relação a certos temas. Aguardou que ela começasse. . sobretudo um professor com tão pouca experiência prática em arqueologia inglesa.Bastante.Disseram-me que você nem sempre segue o programa que lhe forneci. . .Olhou de novo para a cama portátil e pareceu divertida. seguramente um grande melhoramento em relação ao seu antecessor. Na verdade.É pouco habitual nesta universidade um professor iniciado fazer derivações ao programa. se quiser.Disparate. tenho dificuldade em dormir à noite. mas não o proferiu. Indy bateu com a ponta dos dedos sobre o trabalho de Deirdre e interrogou-se se a Dra. Aqui estava: precisamente o que ele receara.Ou prefere ir para o seu gabinete? Joanna voltou-se e sorriu. Penso que consigo adiantar muito mais quando não está cá ninguém. é um professor envolvente. pouco à vontade.Não. . Indy sentou-se. Sente-se. Isto é. . .Todos pensávamos que ele era muito dedicado porque passava bastante tempo no gabinete.Aceito esse ponto de vista e.Compreendo. . Esta cadeira está óptima. . A verdade é que ele guardava uma garrafa de uísque numa das gavetas e lia romances de revistas até adormecer.Pensou que el a iria responder com uma observação por ter esperado até ao último minuto.Por vezes.Pode ficar com a minha cadeira. como se examinasse os livros numa prateleira.A altura e local parecem-se tão adequados quanto quaisquer outros. . . Ela anuiu. tanto quanto sei. .De que poderia ela querer falar? . De forma alguma lhe ocultaria o que ocorria nas aulas. .Eu sei.Estou a classificar os trabalhos do período. . e venho para aqui para tratar de pormenores administrativos. tenho tentado. . Talvez o tivesse pensado. . Penso que isto se adequa tanto a um professor iniciado quanto a um já experimentado. . . mas não se sentou. . .Espero não a incomodar por estar aqui. não incomoda. mas por vezes é importante avançar com as nossas próprias ideias. .Está a gostar de cá estar? .. Joanna Campbell avançou no gabinete e voltou-lhe as costas. se estiver de acordo.Colocou as mãos sobre as costas direitas da cadeira de madeira posicionada em frente da secretária dele. Campbell iria dizer algo sobre ele. . está na altura de conversarmos.

Pegou no trabalho de Deirdre. Está a fazer um trabalho louvável. e. .Já tinha ouvido falar sobre esses hábitos de leitura dele.Claro que tem. . . Pareceu-me muito interessado na minha colaboração. Na verdade. sem sombra de dúvidas. Ele ficaria com a fama de quaisquer novas idéias ou achados que você fizesse. o território dele. Campbell estava a fazer-lhe confidências e Indy sentiu-se mais tranqüilo.Estava precisamente a ler o trabalho da sua filha sobre. Jones. .Devo dizer-lhe que sinto alguma apreensão quando um elemento do meu pessoal de ensino. como é o seu caso. Indy sentiu-se.. .É um local interessante e agradável para se passear. .É compreensível. . com efeito. .Ainda bem. e depois de novo para a Dra. na trincheira do forte de Herefordshire Beacon. dado que não tinha garantias de que estaria aqui no Outono.Bom.A Dra.Não queria parecer presunçoso.Tenho. aliviado. eu procurava apenas uma abertura.. Ia ficar na Inglaterra e não haveria aranhas nem escorpiões em Londres que o pudessem impedir.Sim. Eu própria vou estar à frente de uma escavação em Whithorn. . . . claro que quero. mas. Ainda por cima. Campbell queria falar em trabalho de pesquisa em campo. . ... mas você não gostaria de trabalhar com Stottlemire.e. 63 .Indy olhou para baixo para o trabalho de Deirdre.Whithorn? . mal haja uma oportunidade. . na Escócia.Sim.Óptimo.Tem alguma sugestão. a quem falta experiência local das ilhas Britânicas. . -acrescentou Indy rapidamente .62 . Espero que se junte a nós.gostaria de participar em pesquisas concretas. subitamente.Não se preocupe.. mas trata-se de um curso de iniciação. Campbell. escavações que tivesse iniciado? . mas apenas por instantes. se o quiser. está a ministrar um curso que foca os nossos monumentos da Antiguidade. O forte de Beacon é. Tem tudo a ver com isso.Estou ao corrente. Mas deveria ter-me feito a pergunta há já algumas semanas.. . Deirdre também irá como minha assistente. a Dra. -Isto tem alguma coisa a ver com os seus planos de escavação? . oportunamente. Nesse caso. Isto é. O seu lugar está seguro. Indy encolheu os ombros. ainda há pouco tempo conversei com o professor Stottlemire sobre as escavações que vão ser efectuadas. a questão que temos pendente é a pesquisa concreta em campo. Ela acenou uma mão. Certamente.

CAPÍTULO IX O "CRUC"

Uma voz inglesa distinta, seguramente da classe elevada, falava através das ondas aéreas. - Torna-se imperativo que os membros activos do Parlamento se unam para combater esta ameaça conhecida por Commonwealth. Se este plano algum a vez se concretizasse, representaria o primeiro passo para a dissolução do Império Britânico, e isso nunca poderemos permitir que aconteça nas nossas vidas. "- Obrigado, Mr. Powell" - disse outra voz de rádio. -"Antes de avançarmos, gostaria de lhe perguntar..." - Jack, não te importas de desligar essa maldita coisa? -pediu Indy. Ouviu Shannon desligar o rádio na sala. - Precisas de ajuda? - perguntou Shannon. As roupas de Indy encontravam-se espalhadas em cima da cama enquanto este enchia a mochila. - Não, acho que consigo arranjar a minha própria mochila. - Eh, talvez fosse melhor voltares a pôr a pala no olho -afirmou Shannon. - Para quê? - Confere-te um ar mais feroz. Condiz com a tua disposição carrancuda. - Desculpa, mas há três noites que não durmo bem. Fartei-me de acordar, pensando que havia um maldito escorpião subindo-me pelo pescoço. - O apartamento está limpo. Posso garantir. - Eu sei. Mas, mesmo assim... Shannon encostou-se ao toucador, pousando sobre ele um braço longo e magro. - Quando regressas? - As aulas do período do Outono começam dentro de três semanas. Devo estar de volta pelo menos dois dias antes. - Se souber alguma coisa do homem-insecto, envio-te uma 64 carta. Não te esqueças de ir ao correio. Indy enfiou um par de meias na mochila. - Quero apagar totalmente tudo isso da minha mente. Talvez andassem atrás de qualquer outra pessoa e se tenham enganado no apartamento. - É possível. Contudo, tenho as minhas dúvidas. Continuo a pensar que as aranhas e os escorpiões estão de alguma forma relacionados.

Indy não respondeu. Dobrou umas calças de caqui e uma camisola na mochila e fechou-a. - Falaste nos escorpiões à tua namorada? - Não, não falei, e ela não é minha namorada. É minha aluna. - É verdade. - Shannon afastou-se do toucador e deu uma palmada no ombro de Indy. - Aposto que a música será diferente quando regressares da Escócia. - Jack, a mãe dela também vai. - Nesse caso, é melhor tomares cuidado com as duas. - Pára com isso, faz favor. - Desculpa. Estava apenas a brincar. Mas gostas da rapariga, não gostas? Indy encolheu os ombros. - Claro que gosto. Mas não me venhas falar em Dorian Belecamus, porque Deirdre não é nada parecida. São totalmente diferentes. E vou conversar com ela sobre o namorado, ou antigo namorado, seja o que for. Só não tive apenas oportunidade para isso. - Certo, totalmente diferentes - troçou Shannon. - Ela é bonita, inteligente, um pouco misteriosa. Nada que se assemelhe a Belecamus. Shannon tinha razão. Mas a atitude de Deirdre era inteiramente oposta. - Pode não me ter contado a história da sua vida, mas não é traiçoeira. Há nela uma certa frescura, uma inocência. Sei que posso confiar nela. - O amor é cego, Indy. Indy dobrou uma camisola interior. - Shannon, sabes que mais? És a pessoa mais desconfiada que jamais conheci. - Tenho de ser. Mas também não ganho a vida numa torre de marfim. Indy atirou com a camisola interior para cima da cama, e virou-se para o companheiro de quarto. - Tens algum problema com o meu modo de vida? É isso? Shannon ergueu as mãos. - Não. Não tenho problema nenhum. É a tua atitude. És ingênuo. Precisas de conhecer melhor a vida. - Na tua opinião, um pouco da tua experiência não me faria mal, não é?

65 Shannon sorriu. - É o que penso. - Posso dizer-te uma coisa. Posso não ser grande coisa a julgar as mulheres, mas Deirdre é boa rapariga. Tenho a certeza. - Podes ficar surpreendido por me ouvires dizer isto, mas concordo contigo. Ela é tão ingênua quanto tu. "Como se ele a conhecesse", pensou Indy, mas não tencionava discutir. Olhou para o relógio de parede. - Pronto, vou despedir-me de Milford. Tens a certeza que não queres vir? Shannon riu-se. - Absoluta. Ele não se iria recordar de mim.

- Para ser sincero, ficarias surpreendido. Tenho a impressão que se lembraria. Parece que só se esquece das coisas recentes. Tem um a memória extraordinária para acontecimentos passados. - Acredito em ti. - Shannon seguiu até à porta. - Nesse caso, estarás de volta às quatro, certo? - Foi o que eu disse. Quatro horas. - Abriu a porta e voltou-se. - Desde quando te preocupas tanto com as minhas entradas e saídas? Shannon levantou as mãos. - Eh, só me quero despedir antes de ir para o clube. Só isso. - Fica combinado, se não te encontrar aqui, vou até lá tomar uma bebida. - Limita-te a estar aqui às quatro, está bem?

Indy caminhou pela espessa carpete da entrada até à recepção do Clube Empire, onde Milford se encontrava hospedado. Nas paredes, pendiam retratos de homens emoldurados em armações douradas, diversos deles com monóculos, e o mobiliário era constituído por pesadas peças de mogno. Na recepção, estava um homem magro e angular. Tinha um bigode que mais parecia ter sido desenhado a lápis. Quando Indy lhe perguntou onde ficava o quarto de Milford, passou a ponta dos dedos pelo bigode e, numa voz tão abafada quanto o ambiente, disse: - Dr. Milford. Ele aguarda-o? - Sim, está à minha espera. A expressão do recepcionista tornou-se afectada. - Lamento, senhor, mas ele saiu. Parece que falou qualquer coisa em ir ao Madame Saud. - Disse mesmo? - afirmou Indy, imitando o tom do homem. - Nesse caso, acho que vou indo. Indy virou-se e dirigiu-se à estação de metrô mais próxima. Dez minutos depois, encontrou Milford no museu de cera,de pé e imóvel junto de Henrique VIII e as suas seis esposas.Segurava nas lapelas do sobretudo e ele próprio parecia uma figura de cera colocada no século errado.

66

- Autêntica, não é? - disse Indy. Milford voltou lentamente a cabeça. Os seus olhos azuis aquosos fitaram Indy, e o bigode espesso contraiu-se. - Sim, mas deixe mostrar-lhe outra coisa. Indy abanou a cabeça ao seguir o homem idoso para uma outra sala. Não surpreendia minimamente o facto de ele estar ali. "Mas também não era bom sinal", pensou. Tinha a esperança de o encontrar hoje em boas condições. Na sexta feira de manhã, o dia do exame final, Milford estava à espera de Indy no seu gabinete. O professor agira de forma incoerente, insistindo que tinha algo de

disse Milford com uma gargalhada. . evitaram que eles vissem os seus corpos sem cabeça.Sim. .Estes sim. é surpreendente as coisas que fazemos uns aos outros. Apressou-se a marcar uma data para almoçarem no clube. .Ah.. não foi melhor. 67 Campos ensopados em sangue.disse Milford após um curto silêncio..disse Milford. Por fim.Porquê? . -Felizmente.Observe aqui Robespierre e Marat . Quando já se encontravam sentados.Contudo. Milhares e milhares sacrificaram-se pelo país na Grande Guerra. Indy tossiu.aproximando-se das figuras de cera dos dirigentes da Revolução Francesa. Mas talvez não passasse da reacção dos nervos.inquiriu Indy. Indy nem se incomodou em perguntar a Milford se já se lembrava do que tinha para lhe contar. como poderia saber qual seria a visão do seu corpo? . . com o chá e . a sua aparência é especialmente autêntica. . . Aposto que não tiveram que lhes pedir para se sentarem quietos.Isso é verdade? Milford encolheu os ombros. é de acreditar que sim.. mas sabe. Dado que existia ainda sangue e oxigênio no cérebro. . Se me pergunta. persuadiu Milford a tomar o chá da tarde com ele num pequeno restaurante próximo do museu. mas. mas pondere bem no nosso século. creio que não .importante para dizer a Indy.Deu realmente jeito. Aldeias francesas apinhadas de corpos.. o carrasco agarrar na cabeça decepada imediatamente depois da guilhotina a ter cortado e virá-la para o corpo.O que quer dizer? Se alguém perdeu a cabeça. Aparentemente. . na esperança de que Milford se recordasse daquilo que considerava tão importante. Perambularam pelo museu durante quase uma hora.Não. .. até que chegou a hora de Indy ir para a aula.Indy não conseguiu terminar. A conversa abalara-lhe tanto os nervos que se esqueceu dos trabalhos já classificados no gabinete e tivera que lá voltar para os entregar. sentia-se que havia ainda consciência durante uns trinta segundos. . pelo que Lhes falta um certo ar de horror nas suas expressões. Perderam alguns minutos numa questão supérflua. só de pensar. . quando não conseguiu lembrar-se do que era.Porque as suas cabeças foram usadas como moldes pela Madame Saud imediatamente a seguir de serem decapitados.Gostamos de pensar no passado como um período de comportamento bárbaro. . hoje não seria o melhor dia para testar a memória curta do velho homem. antigamente era prática usual.Pelos olhos esbugalhados e bocas abertas de que há descrição. . insistiu que já lhe deveria ter contado.

Sabe. Merlin. mas.. . Já lhe falei nisso? Indy tentou não perder a calma. mas ficou irritado. Indy voltou-se para ver se ele fitava alguma coisa em particular. Sabe o que é um dólmen? .Falamos os dois sobre isso no outro dia. Espere um pouco. . Pestanejou e olhou para o seu chá. Milford reparou que Indy parara de falar. parecendo aborrecido. 68 Indy deu uma dentada no biscoito e bebericou o chá.Huh? . Podia-se passar toda uma carreira tentando chegar a uma conclusão em relação a essas palavras. . Tudo o que mencionou é que tinha alguma coisa para me dizer. não era? Indy repetiu o que acabara de dizer. . e pediu-lhe para explicar. . não vamos voltar a esse tema.. .murmurou.Bom. mas posso dar-lhe outro exemplo sobre o seu amigo. Milford coçou o queixo. Acrescentou que a gruta podia ter sido o esplumoir de Merlin. Milford. tenho a impressão de que.Comigo. Milford coçou a orelha.Uma daquelas palavras em que houve uma má interpretação entre o francês e o inglês quando traduziram histórias de uma língua para a outra. estive a conversar com alguém sobre esse mesmo tema. Estava a contar-me qualquer coisa sobre a Escócia. sabe alguma coisa sobre o esplumoir de Merlin? Milford repetiu a palavra. Observou a expressão de Milford ao mencionar a palavra esplumoir. como local de meditação e. escavações em busca de Merlin? -Não é propriamente por Merlin. tinha qualquer coisa para lhe dizer. Explicou que ia efectuar escavações no ermitério de São Ninian. . sim.Sim. se já não lhe disse. .Raios. é claro. Essa é uma daquelas palavras . mas o velho professor afagava lentamente o bigode branco e franzia o sobrolho ao olhar pela janela. e tocou no bigode. seguindo arqueologia em vez de lingüística.Fez um aceno com a mão. Indy falou dos seus planos para ir à Escócia. . tenho a certeza de que me hei-de lembrar. . Mas estava interessado no que Milford tinha para dizer.segundo o mito.É uma autêntica loucura. Era precisamente esse tipo de carreira que Indy queria evitar. na Torre de Londres. .Sim. Mostrou fortes dúvidas que se pudesse provar que Merlin alguma vez tenha vivido.os biscoitos na sua frente.Não sei o suficiente sobre esse esplumoir.Dr. uma caverna que fora utilizada pelos antigos cristãos.Vejam só. . onde Merlin passara os últimos anos. .O que quer dizer? .A propósito. . mas parecia que estava apenas absorto. Indy. ainda recentemente.

Por que haveria um mágico experimentado como Merlin permitir que uma jovem o enganasse se era demasiado sábio para isso.Seguramente. naqueles tempos. se escrevia com penas. . por assim dizer. 69 . penas. De qualquer forma. Atente na raiz da palavra. Depois.que é uma palavra antiga inglesa para dólmen. Milford mirava Indy. e se Merlin fosse uma pessoa histórica.É como disse. O galês plufawr. trata-se de um erro.Por que diz isso? .Sim. . se me permite que regresse ao típico de se perder a cabeça. O último ponto de vista emitido por Milford era mais ou menos o mesmo apontado por Deirdre no seu trabalho.Quer então dizer que Merlin está sepultado num dólmen e não numa gruta afirmou Indy. e não tinha ainda terminado. "Interessante". Indy ficou surpreendido com o tom de absoluta certeza com que Milford proferiu estas palavras.Não compreendo.Por exemplo. claro que sim.Exactamente. Indy pousou a chávena. .aquele ergueu um grande grito sobre a sua cabeça".Um erro na tradução encontrada nos textos franceses. Quer. Indy anuiu. Ou so whylome wont . . É óbvio que tem de ser um dólmen que foi erguido por cima da sua cabeça. . mas foi traduzida como cri. pensou Indy. .Indy bebeu um pouco de chá. Geoffrey de Monmouth pegou no cri francês e traduziu-o para grito. o significado é totalmente diferente.Com efeito.já sou arqueólogo há alguns meses. escreveu Geoffrey de Monmouth. Não conheço bem esta palavra. a história de ele estar encurralado numa gruta não fazia sentido.Sério? . . Na minha opinião. . "quando Eldol cortou a cabeça a Hengist. Mas lembro-me efectivamente que este esplumoir seria o modo como ele tinha de exprimir que ia morrer. .Bom. em que ele gritava do seu túmulo. ele estaria sepultado num. . Trata-se de um molde de terra ou pedra construído por cima de um túmulo. mais tarde repetido pelos ingleses. Era esse o costume quando um chefe de tribo saxão era sepultado. . Encontrava-se em pleno controlo das suas faculdades naquele momento. A Grã-Bretanha está cheia deles. . vem do latim pluma. mudar de penas.Milford mexia o chá. A palavra original era cruc. Há anos que discuto este ponto com o seu pai. .Estou certo que conhece a história Le Cri de Merlin. Lembre-se que.E quanto às suas últimas palavras? Ele disse que ia se retirar para o seu esplumoir.

. Apesar dos seus esquecimentos. nunca sabendo como Milford ia agir. Afinal. Todos se queriam despedir e desejar-lhe o melhor para as suas escavações.Jack. Nenhuma resposta. Acho que não me importo.Não. os seus alunos. azuis e verdes.O que é isto? . via-se obrigado a sair à noite. Por breves instantes. ao fechar a porta. Passavam alguns minutos das quatro quando Indy regressou ao apartamento na Russel Square. já cá estão todos. Escutou um ruído. mesmo quando a elevava.Deirdre espreitava o desenho. Subitamente. não percebeu quem eram.o que tinha determinado fazer num dado momento. mas.Surpresa! Olhou à sua volta. enfaticamente. Milford parecia capaz de cuidar de si mesmo. .Professor Jones! . 70 . e fitas de papel materializaram-se vindas do nada. Talvez porque tinha de estar sempre alerta. Avançou do meio da enchente que o rodeava. Indy riu-se. Shannon devia ter saído.. Desejou não ter feito a promessa. perplexo. Não estava assim quando saiu. Espero que não se importe. Mas quem sabia o que encontraria quando regressasse? Deu alguns passos cautelosos em direcção à porta e levou a mão à maçaneta.Era Deirdre. Não precisava nem queria.chamou. Claro. . Mais sarilhos não. esvoaçavam balões vermelhos. Parecia uma tosse contida. por baixo das palavras. a fim de procurar uma mensagem deixada por Shannon. Nunca a fechava.disse.falando incoerentemente.provavelmente. estás cá? .Não tive nada a ver com aquilo . . . Olhou para a secretária. Voltou a cabeça. embora tivesse de partir cedo pela manhã. se passaria para o inglês medieval. Este tinha escrito por cima Feliz Escavação e.. Um dos alunos segurava um bolo. dizer que ele se retirou da vida activa e foi para um local isolado para pegar na pena. A porta do quarto estava fechada. Ponderou sair para a rua e chamar a polícia. No tecto.pelo menos por muito tempo . depois de ter acompanhado Milford ao seu quarto. Agora. pressionando o ombro contra o braço dele. mas talvez se sentisse com mais vontade de sair depois de descansar. ambos com pás e de mãos dadas. no clube. Pareciam conhecidos. e nunca se esquecia . para escrever. Sentia-se exausto e decidiu que se iria deitar alguns minutos. ou se se zangaria com ele. esta abriu-se por entre gritos e vivas e viu-se rodeado de pessoas. um desenho dum homem e duma mulher. Indy apreciava o som da sua voz escocesa. . Fazer companhia a Milford cansava-o.

se não. . .disse a rapariga que segurava o bolo. . . Indy olhou em volta e viu Deirdre de costas. encostado à parede.Imaginar que me iriam fazer isto. . apercebendo-se do pouco que sabia em relação a ela.acrescentou Indy.Eu própria não tinha a certeza. comparei as idéias do arquitecto Inigo Jones com as do professor Indy Jones.afirmou. . não. Indy sorriu. -Parecia que falavam de algo mais do que da festa. as sobrancelhas erguendo-se.Também eu. Gostei muito.Devo ser eu a cortá-lo .Oh. Bateram à porta e Indy voltou-se para ver Shannon abri-la. Joanna Campbell entrou. .Estou ansioso por partir para a Escócia.No meu trabalho sobre Stonehenge.Oh.E conseguiu passar . .Você é dessa região da Escócia? . .Imaginar o quê? .Por isso insististe tanto para que estivesse de volta às quatro. 71 Ela mirou-o. ele também participou . .Eu? . .Jack. .alguém gritou. Tinha os braços cruzados e um sorriso maroto na cara. e dirigiu-se para a cozinha.Shannon bateu com as mãos no peito. . O rosto de Indy enrubesceu. .Desde o início . afastada dos outros. . estás de alguma forma envolvido nisto? . Aproximou-se e tocou-lhe levemente nas costas.Joanna! O que fazes aqui? .exclamou Deirdre e atravessou a sala. e evitou olhar para Deirdre. . O jovem que ia fazer o trabalho do período sobre pontos de vista no século XVII em relação a Stonehenge avançou com uma faca.Indy ficou surpreendido. seguida por uma fila de alunos.acrescentou outra voz.disse Indy. . Localizou depois Shannon do outro lado da sala.Vamos parti-lo na mesa . . . .perguntou ela. Limitei-me a abrir a porta. Circulavam copos de bebidas leves e vinho. Era óbvio que todos acreditavam que alguma coisa se passava entre eles ou. Cresci na aldeia.Não sabia. que se deveria passar. . .Obrigado. Vai ser bom regressar a casa.inquiriu Indy. .Os presentes riram-se e diversos alunos emitiram algumas piadas.Corte o bolo . Nunca poderia imaginar.Eu sabia .Sou de Whithorn.disse alguém.

Deixa-me acabar.Lançou uma mirada à filha. eu já deverei lá estar. . Trocaram meia dúzia de palavras e a Dra. Deirdre poderá ajudá-lo nisso. Joanna.Espero que não fique aborrecido com esta invasão é sua privacidade. . incluindo aqueles com quem já trabalhei.Na verdade. . nada. prometeste. . . Campbell virou-se e sorriu para Indy. .Inclinou-se para a frente e falou em tom de confidência. também deves ouvir isto. 72 . .protestou Deirdre. Conheces bem a zona.Deirdre transparecia um certo sarcasmo.Receio que tenha havido uma alteração nos meus planos. . Creio que não há necessidade de mudar os nossos planos.Óptimo.Estou a ouvir. mas não podia pensar numa alteração de planos mais interessante. Não necessita ser formal. dando oportunidade à mãe e filha para falarem a sós. . Nunca me lembro de ter ouvido comentários tão entusiásticos como os que foram tecidos em relação a si.Oh. Deirdre. Quero que partam os dois para Whithorn sem mim. obrigada. pensou Indy ao segui-la. . mas os seus alunos foram insistentes.Penso que nos conseguiremos arranjar até a sua chegada.replicou ela.Não. Não vou ficar. muito obrigado. Pode ser assim? Indy sentiu um certo alívio. . .Oh.Pode tratar-me por Joanna. Terão de contratar dois aldeãos. . . .Eu sei que conseguirão . Joanna emitiu um sorriso mas a sua expressão tornou-se imediatamente séria. . pois assim não tinha que explicar o desenho. De qualquer forma. O cumprimento dela deixou-o perplexo."Surpresa atrás de surpresa".Deirdre parecia desesperada. Tudo estava a desenrolar-se com uma certa rapidez. . Deirdre.Sentiu-se aliviado por estar já partido às fatias. . Dra. mas também alguma curiosidade.Voltou-se para Indy. e eu seguirei assim que puder.. ou gostaria de outra coisa? Também temos bolo. . quando estiverem a postos para começar.. Este aproximou-se e Joanna tocou-lhe no antebraço. Deixe-me arranjar-lhe um copo de vinho.Mas. . com os olhares aborrecidos que às vezes detecto nas aulas. isso não é verdade . . Campbell. não fui oficialmente convidada e penso que embaracei Deirdre. e o professor Jones é um arqueólogo perfeitamente qualificado.O equipamento está pronto a seguir viagem.Preparei instruções escritas que vos servirão de directrizes. Ela conhece toda a gente. Parou por breves instantes. Preciso de ficar em Londres mais alguns dias.Vim até cá por uma razão particular. Nunca o poderia ter imaginado. É provavelmente o professor mais querido que jamais integrou o meu pessoal. A mãe dela ergueu uma mão.Mas o que vamos fazer? . .

o objectivo da escavação é encontrar o pergaminho dourado mencionado na carta do monge. Nem o pergaminho.Exactamente. é que. que ocorreu cinco anos mais tarde. Tanto quanto entendi. . uma vez que a carta fora encontrada em Whithorn. não vejo de que forma concluiu da carta que o pergaminho está enterrado na gruta. depois de ler a carta . 73 Um sorriso leve aflorou-lhe nos lábios. .prosseguiu Joanna .Não foi preciso muito para me despertar interesse. O que descobri realmente foi que o padre Mathers permaneceu em Whithorn até a sua morte. . que. .Sabe. Joanna fitou-o. Quero dizer. . Algo que me diz que a escavação vai produzir resultados. Muito forte. . . Ela abanou a cabeça. . A minha teoria e que.Já me interrogara sobre isso. dado que o pergaminho nunca apareceu. bloqueando o barulho.Mesmo assim. Mas sugeri realmente o tema a Deirdre. Ele descobriu que nunca foi recebido qualquer pergaminho ou carta. e abriu-a. Teria de existir registos.Aprecio o seu entusiasmo..Tenho um forte pressentimento em relação a isto..Tenho uma dúvida que gostaria de esclarecer.Indy acompanhou-a à porta. . A propósito. por acaso. tem uma excelente relação com o Vaticano.Ainda bem que referiu isso. Jones. Joanna sorriu. estou agora um pouco confuso em relação ao trabalho de Deirdre. . Tinha a esperança de que o trabalho o aliciasse ajuntarse a nós. .Não é muito provável.Espero que esteja certa. . 74 . e não há.Quem o escreveu? Claro que não. Saíram e Indy fechou a porta. Tenho estado tão ocupada que não tivemos tempo para conversar sobre os antecedentes disso.Sim. Mas não se esqueça que espero igualmente de si que se comporte de forma profissional enquanto estiver acompanhado pela minha filha. .Bom. . e que não foi efectuado nenhum pedido para exorcizar a Caverna de Ninian.. é claro. foi você.Talvez o ouro tenha sido fundido. . é claro. Não sei explicar. penso que estamos a jogar um pouco com a sorte.Oh. Estou ansioso por começar. Nunca foi enviada.contactei um amigo meu. deve encontrar-se na caverna. . Indy. Existia um procedimento aprovado que teria de ser seguido..

mas mais diversa.descrevia pequenos fragmentos de pedra esculpidos à mão e pedaços de cruzes cristãs desenterradosjunto da gruta. "Uma terra de fadas". Era difícil para ele compará-la com o deserto do sudoeste americano onde ele crescera. Encontraram-se com o presidente da câmara da aldeia. encontraram dois carpinteiros que trabalharam com Joanna na última escavação que esta efectuou na gruta. pensou Indy ao seguir a cavalo em direcção à aldeia. 75 Desmontou no estábulo e caminhou para a singular pensão onde estavam hospedados. Aqui. ele deitou imediatamente mãos ao trabalho. Aquele quarto era especial. Nos dias que se seguiram ao convite de Joanna para participar na escavação. e. Não havia referências no relatório ao esplumoir de Merlin nem ao pergaminho dourado. mas. o que prevalecia era um a sensação de imensidade. Enquanto Deirdre regressara à aldeia para reunir certos apetrechos de que iriam necessitar. um território em que extensões de colinas eram interceptadas por empolgantes lagos e vales estreitos. Mais tarde. mas ela . e Indy informara-o dos seus planos. lera o máximo possível sobre Candida Casa e a Caverna de Ninian. tirando medidas á caverna e estabelecendo planos para a grelha que iriam construir. um amigo de longa data de Joanna. e tratou de tudo o necessário para que eles começassem a trabalhar no dia seguinte. de comboio. Era como se a natureza tivesse perfeita consciência do pouco espaço disponível. na luz esmorecida do começo da noite. uns seis metros mais adiante abriase numa larga caverna. A entrada para a Caverna de Ninian tinha apenas alguns centímetros. onde ficava o seu quarto. Era um edifício de pedra de três andares. dimensionado à escala. Joanna Campbell era descrita como a arqueóloga responsável pela escavação. nessa manhã. porque era o único com banheira no quarto. Só a meio da tarde conseguiram partir para a gruta. Indy ofereceu-o a Deirdre.CAPÍTULO X AS BOAS-VINDAS EM WHITHORN A costa sudoeste da Escócia era selvagem e arborizada. a escala era menor. Atravessou a enorme sala de jantar e subiu as escadas para o segundo andar. Aí. e Indy suspeitou que o trabalho fora efectuado antes de ela saber sobre a carta ou antes de ela decidir que o pergaminho se encontrava na gruta. do século dezoito. Tinham chegado tarde. na noite passada. Um relatório. pelo que tudo tinha de ser compacto. dissera a dona da pensão. iniciado as preparações para a escavação. efectuado em 1914 pela Comissão Real para Monumentos Antigos da Escócia. que fora remodelado para permitir a instalação da electricidade e canalizações modernas.

Como diabo iam eles trabalhar juntos na caverna? Por fim. as distâncias. retorceu e encostou-se à parede do corredor mal iluminado.Esqueci-me de trazer os sapatos. O jantar dessa noite era da responsabilidade da aldeia. e muitos dos velhos amigos de Deirdre estariam presentes. com algumas madeixas caindo-lhe sobre os ombros. Ouviu de imediato um bater na parede vindo do quarto adjacente. Tinha de aproveitar bem o tempo em que estava com ela. Sorriu. 76 . esta noite . mas não abriu mais a porta. Que bom. romper o abismo que se abrira. razão por que mantivera.É você. Viu-a olhar para os seus pés ao chegarem às escadas. parte dele tinha esperanças de que ela a reabrisse e o convidasse a entrar. sentia-se perseguido pelas palavras de despedida de Joanna. Calçara as botas. Indy endireitou a gravata no espelho.perguntou Deirdre e depois abriu a porta alguns centímetros. propositadamente. queria tornar claro a Deirdre que o seu procedimento no comboio não tivera nada a ver com os seus verdadeiros sentimentos para com ela.Você também não está nada mal. muito escocês. "Os sapatos onde encontrou escorpiões". aproximou-se da parede e repetiu o mesmo padrão de sons. -Saio já. . Agora. mas sabia que Joanna retiraria a oferta se ele atravessasse uma dada fronteira invisível em relação à filha. Estou quase pronta. Ela vestia uma saia de xadrez e uma blusa branca aos folhos. pensou. Jones desejou que ele e Deirdre jantassem a sós naquela noite. Quando tal não aconteceu. Ninguém vai reparar e.Não se preocupe. o qual usava em quase todas as aulas. não em Londres. O seu lugar na universidade estava agora virtualmente seguro. Não sabia exactamente como lhe iria explicar isso. que era de canto e maior. deixou o quarto e bateu na porta ao lado. Espreitou. o único calçado que trouxera. . . Embora estivesse ansioso por passar algum tempo sozinho com ela. e o cabelo estava apanhado. Ao lavar e trocar de roupa. e estava na hora de ele fazer o mesmo. pouco se importam. se repararem. Indy? .Eu? .disse Indy quando chegaram às escadas.preferira o quarto do lado.. As coisas corriam mesmo bem. Agora. a porta abriu-se e caminharam pelo corredor. Fechou a porta e acendeu a luz. mas ia fazê-lo. O clima existente entre os dois não fora o melhor e desejava conversar com ela. quem estava a ser reservado era ela. professor Jones. Está em Whithorn. Indy não se moveu por alguns segundos.Riu-se. e o casaco azul de lã que vestia agora com um a camisa branca e gravata azul. contudo. . . e aquele som fê-lo desejar ainda mais . Ia ser efectuado em honra deles no bar local. um em tweed.Indy possuía dois casacos de fato. .Está com um aspecto. A porta fechou-se-Lhe na cara.. Deirdre preparava-se sem dúvida para o jantar.

sem a sua mãe. estou habituada a viajar sozinha e a passar longos períodos de tempo afastada de Joanna.Disse? Porquê. o presidente da câmara. acertaram .Acho que me tenho revelado um pouco distante desde que partimos de Londres. .A vida de um arqueólogo.Pensava que não estava sozinha. Indy tossiu.Deirdre. 77 . se põe as coisas nesses termos.Quanto a si.Quero dizer.. Depois. . o bar da cidade seria um local pouco adequado para um jantar em honra de alguém. . Como poderia ele ter calma em redor dela? No pub. Indy deu o seu melhor para conduzir a conversa para a relação que existia entre os dois.Fico satisfeito por saber isso.Ali está ela . ergueu-se e fez-Lhes sinal para que se unissem a ele numa grande mesa no centro do pub. mas vive muito ocupada e em constantes viagens. . o cheiro a comida e alegre conversação saudou-os. . os pubs eram mais voltados para a família do que os americanos.A sua mãe disse-me para me acautelar consigo. . . . .Na verdade. mas quanto a mim não sei. . sobretudo de uma jovem.Já alguma vez viajou sozinha? .Compreende a minha situação. . ou para a que não existia.Ali está a moça. Continuaram a andar. para ser sincera.E olhem para o homem dela. são até capazes de aprovar acrescentou Deirdre.Encolheu os ombros. um homem de bochechas rosadas e entradas no cabelo.Afastou o olhar. Mas. assistindo a conferências e reuniões.Não reparei.Tenha calma. Na terra dele. observando-os.Não admira que você tenha agido como se eu lhe fosse morder. penso que ela acredita que eu sou. . claro. O local estava repleto de aldeãos. .Bom. Vestia um kilt que incluía uma bolsa de couro à cintura. Enquanto caminhavam pela rua. fazendo escavações. .começou. .Acha? . Penso que nos podemos dar muito bem. sou perigosa? . Uma mulher do outro lado da sala alvitrou: . Sentada junto do presidente da câmara estava uma mulher matronal que ele . . e um breve olhar em volta indicou-lhe que representavam pelo menos três gerações de habitantes de Whithorn.Não.derrubar a barreira que os separava. . Ter calma.murmurou Indy -. pensou. Todos ficaram em silêncio.perguntou Indy. não compreende? . É uma boa mãe.. aqui. Deirdre riu-se. .disse a voz de um homem.

. que sabiam que os dois eram namorados. -As raparigas estavam todas excitadas. os olhares e sorrisos dos outros sugeriam que eles pensavam de maneira diferente. que fazia parte dos convidados. estava tão nervosa com a aproximação do dia que não conseguiu comer. ou talvez a sua próxima chegada. . Acenou uma mão.Aos doze anos. é pena a sua mãe não poder estar aqui . depois de terem actuado num casamento. convidara o grupo a actuar naquela cidade.Ela estará cá dentro de dias. Mas. Apesar das explicações de Deirdre sobre quem Indy era.Oh. As sobrancelhas do padre ergueram-se quando olhou para eles. Pobre Deirdre. Indy deu consigo comendo um prato de órgãos de carneiro. Interrogouse sobre o que o sacerdote saberia sobre o pergaminho dourado. servido no interior do revestimento do estômago do mesmo animal. é claro que tudo correu muito bem. . . Eram todas mais ou menos da idade dela e vestiam trajes semelhantes. e o padre Philip Byrne. considerando que as cartas do monge tinham vindo dos arquivos da sua igreja. fomos apenas um dos muitos grupos que actuaram perante o rei. . souberam que iriam actuar para o rei Jorge. Tossiu. Marlis. . como se tentasse decidir se estariam a cometer adultério. Aproximou-se um empregado que serviu Indy e Deirdre de uma marca local de Scotch.Todas elas fizeram parte do grupo original. escutou o final da história. ela organizou um grupo de dança constituído por raparigas da paróquia e. um sacerdote idoso de cabelos alvos que usava uma batina preta. professor Jones? . Pensei que ela fosse desmaiar no palco. As espessas sobrancelhas brancas do sacerdote vincaram-se.apresentou como sua esposa. . Igualmente à mesa encontravam-se diversas jovens que Deirdre apresentou como velhas amigas. 78 .Ah. colocando uma mão à frente da boca. no lhe parece.Apetecia-lhe abanar a boca.Um bom lote. e alguém ouviu o rei dizer que ficara bastante impressionado com as garotas. Byrne fez sinal com a cabeça na direcção das outras mulheres sentadas à mesa. Quando o jantar foi finalmente servido. padre. erguendo o copo.Óptimo. . Indy deu um trago demasiado grande e sentiu-o queimar durante todo o percurso até ao estômago. Indy imaginou-o puxando Joanna à parte e dizendo-lhe que esta teria de fazer alguma coisa em relação ao libido do jovem arqueólogo. só depois.disse o padre Byrne para Deirdre.disse o presidente da câmara. quando Byrne se lançou numa história sobre o passado de Deirdre. e a Indy pareceulhe detectar uma expressão de preocupação no rosto dele. Deirdre. e pode ter a certeza que o irá visitar. um coreógrafo de dança vindo de Edimburgo. como se a ausência de Joanna. Estava prestes a fazer a pergunta. que estivera a conversar com uma das raparigas. o afectasse de algum modo.

muito bom. um dia destes voltaremos a falar nisso. e viu cabeças aproximando-se e bocas tapadas.Que tal lhe parece? . . acontece que é também o padrão de xadrez do clã Campbell .explicou o presidente da câmara. à contribuição delas em prol da comunidade. após algumas garfadas.Como já disse. 79 . Certo? A expressão de Byrne alterou-se. Indy aceitou o kilt . vamos trabalhar no interior da gruta. Riu-se também. . Encontrei a carta nos arquivos. professor Jones? . . o presidente da câmara levantou-se. Nesse instante.afirmou com firmeza. apontando para o prato de Indy.Este kilt professor Jones. as feições assumindo uma expressão severa de um homem que passou toda uma vida suportando o peso da sua posição de guardião da vida religiosa dos seus fiéis. por que não? Byrne parecia perturbado com o tema da conversa e apressou-se a mudar de assunto. .É a Caverna de São Ninian .Não sei se está. É tanto a caverna de Merlin quanto de Ninian. decidiu que afinal não era assim tão mau.. Expressou um cumprimento típico a Deirdre e à mãe. Mas a Dra. Apresentou depois Indy a todos os presentes e ofereceu-Lhe um kilt. talvez me possa contar mais sobre isso. comeu.Oh. .Bom. Indy ouviu risos sufocados vindos das mesas próximas. .Não lhe agradava mentir a um padre. não sabendo bem do quê. salvando-os do silêncio desagradável. nesse caso. Tem lógica ter sido escondido naquele lugar. -disse Indy. Com os diabos.Sabe por que razão o padre Mathers nunca chegou a enviar a carta ao Vaticano? . Andamos à procura de um pergaminho dourado. mas sentia que não seria correcto afirmar que a ideia de servir miúdos de carneiro dentro de um estômago não o cativava mesmo nada.inquiriu Byrne. Campbell parece convencida que o encontramos lá. . aquele a que era feita referência na carta do monge que foi encontrada.Bom.. O presidente da câmara levantou o presente no ar e rodou-o lentamente. Contudo.Não há muito para dizer. Indy comeu mais um pouco e reflectiu sobre a renitência de Byrne.Aqueles que lhe chamam Caverna de Merlin são pessoas que nem interessa conhecer.perguntou Byrne. é uma oferenda do povo de Whithorn. .Quais são os seus planos para a escavação.Sim.Um dia destes voltaremos a falar nisso. . . um sorriso largo no rosto. eu sei. já comera pior e. . Por que acha que o pergaminho está na caverna? .. .Oh. . e como a falta delas era sentida. Byrne encolheu os ombros.

Talvez devido ao Scotch que bebera.Agora.O que quer dizer "costumavam fazer"? .Muito obrigado.acrescentou. Indy reconheceu dois deles como os irmãos Carl e Richard.No início. Quando regressou à sala. Depois de se mudar.Agora estamos vestidos como gêmeos . professor Jones. . diversas jovens com saias de xadrez juntaram-se à banda e iniciaram uma dança tradicional escocesa. todos levantaram a cabeça. . e deu-lhe o braço. rapaz. Os presentes soltaram vivas. que contrataram para trabalhar na gruta. Observou Deirdre. Para sua surpresa.disse Deirdre.mais me agrada. como que experimentando o nome. Deirdre ergueu-se da cadeira.levantar um joelho e dançar ao som inebriante das gaitas de fole. .É bastante bonito . .afirmou um homem de barbas. Nunca teria imaginado -disse ao sentarem-se. na mesa próxima.disse Deirdre. Nesse momento. Sentia-se tão inchado quanto um garoto com a sua primeira namorada. . . . Indy tocou nas costas da mão de Deirdre.Obrigada por participar nisto . Os seus olhos encontraram-se e Indy sentiu que o fosso que existira entre eles fora ultrapassado.Indy . Abanou a cabeça em descrença.Não tenha vergonha .Não acredito que estou a fazer isto. 80 Deirdre juntou-se mais a ele e murmurou-lhe ao ouvido. .Está a brincar.Venha daí.Era isto o que vocês costumavam fazer? . . . Sorria. Subitamente. descobrindo as coxas peludas.Todos se riram de novo e olhou para Deirdre.Não se importa de o experimentar? Indy sorriu.Fico satisfeito por saber isso. e viu que esta o encorajava.murmurou ele. . Não sei bem o que está implícito com o padrão. mas o rosto estava vermelho de embaraço. Indy não conseguia tirar os olhos dela. Fez sinal para as dançarinas. aos sons contagiantes da música.disse o presidente da câmara. Indy olhou para Deirdre. acompanho-o à sala das traseiras e poderá trocar aí de roupa. parece um verdadeiro homem. Levantou-se e Indy avistou o kilt dele. . não estava bem seguro se seria ao meu estilo mas. Uniram-se às moças mais novas.E trate-me apenas por Indy. Levantou o kilt. . mas faço uma idéia.à beleza de Deirdre. Tudo junto. Encolheu os ombros e seguiu o homem. o pub encheu-se de som quando uma banda de tocadores de gaitas de fole marcharam pela porta dentro. . . quanto mais olho para ele. . está bem? .É isso o que gostamos de vestir ..Deu praticamente um salto da cadeira e gesticulou para as amigas. mirou-se no espelho. aproximou-se dele. de mãos nas ancas.

e colocar-lhe uma taça com cubos de açúcar amarelo na frente.Pegou num cubo.Bom dia. Observou a antiquada mulher de meia-idade.Já cá estive em baixo a tomar o meu chá. Era como a restante refeição. e um par de luvas projectava-se nas traseiras das calças. o primeiro dia de escavação. mal passados por cima e queimados por baixo. Vestia umas calças castanhas e uma camisa larga de xadrez. mas uma coisa que aprendera nas suas viagens é que tinha de se ajustar à comida local e aos costumes e não tentar mudá-los para as suas necessidades particulares. às sete da manhã. Alguns minutos depois. que completou depois com leite. . servir-lhe meia chávena de chá. a dona da pensão. o que. parece que está pronta para sair por aí fora e encontrar ouro . . . . Deirdre desceu as escadas. Toma o pequeno-almoço? Ela abanou a cabeça. Gostaria mais de tomar café ao pequeno-almoço. 82 . . e anuiu. hoje. Indy afastou a cadeira da mesa. . Ou os aceitava ou iniciava uma discussão sobre como cozinhar.Chá. mas sabia que não havia essa opção.Obrigado. Tornava tudo mais fácil e. . Indy. mas voltou a colocá-lo na taça quando a mulher se afastou. com um sorriso. O cabelo ruivo estava preso numa trança e coberto com um lenço.81 CAPÍTULO XI A CAVERNA DE MERLIN . não era com leite nem açúcar. professor Jones? Indy olhou para Lily. queria que tudo corresse sobre rodas.Bom. que usava sempre um chambre e rolos de cabelo.Bom dia.Acredita realmente que o pergaminho dourado está na caverna? Sabe que o monge o encontrou nas ruínas do velho mosteiro. pão torrado de um lado e ovos estrelados.disse. era uma idéia pior do que comer a comida tal como era apresentada. Quando realmente bebia chá.

. . De volta ao quarto. Afagava o focinho de um dos cavalos e falava suave mente com ele.brincou ele.Para mim. . um autêntico deslumbre para a vista. . Em todas as mulheres que conhecera em Paris nos últimos dois anos faltava pelo menos um desses atributos.Estou ansiosa por encontrar algo insólito. literalmente. . Não o viu. a gruta é o lugar mais lógico. Prendeu-o ao cinto. Deirdre aguardava na estrada em frente da casa. Se não servisse para mais nada. misturado com a sua preocupação com o que aconteceria se os seus desejos fossem realizados. . Encontro-me consigo na entrada dentro de dez minutos. Tudo nela era certo.Cresci num deserto onde era algo insólito . 83 Passaram por agregados de faias imensas e por campos de malmequeres e urze.Parece que vai chover .Mas Joanna tem razão. . Os seus olhos eram suaves lagos de violeta que enfraqueciam os joelhos de Indy. Talvez fosse patético levá-lo consigo. Ao montar o cavalo. faz parte do dia-a-dia. caramba. Ela anuiu. e tinham inclusive interesses semelhantes. Talvez fosse o seu interesse crescente por Deirdre. e Indy observou-a por momentos da entrada. o pressionavam. Era compreensível. mas a sua mãe parece confiante que o encontraremos na gruta. Indy montou rapidamente o seu e seguiu atrás dela. Também. podia tê-lo ocultado em qualquer lugar. Passou as mãos sobre ele. a boca de Deirdre desenhou-se naquele sorriso fácil que parecia fazer tanto parte dela quanto o sotaque escocês.Com estas palavras. Talvez fosse o contraste com os céus limpos do dia anterior e o sol radioso que lhe transmitia uma sensação de inquietude. Deirdre ergueu os olhos.A chuva aqui não é um acontecimento. Era atraente e inteligente. uma superstição que concedia a si próprio. . Preparava-se para sair quando se lembrou de algo.Lá estarei. mas prometera a si mesmo há dois anos na Grécia que o traria sempre consigo nas escavações. Podia desprezar o facto de ela ainda não ter explicado claramente a situação com o antigo namorado. ao menos seria um amuleto. O percurso de três milhas de estrada . Estava uma manhã cinzenta e ventosa e as nuvens eram tão espessas que. A expressão de Deirdre tornou-se pensativa.respondeu ele. Abriu a mochila e tirou um chicote enrolado. .Vale a pena procurar. segurando as rédeas de dois cavalos. Indy saiu para a estrada e os seus olhos foram arrastados para o céu. bateu no lombo do animal com os pés e partiu a galope. Indy vestiu o casaco de cabedal e colocou o chapéu. como que reparando no céu carregado pela primeira vez. . Se o pergaminho está em Whithorn. e espero que seja em breve. os olhos grudados naquela figura pequena.

Era conhecido como o caminho do peregrino. Sabe. pensou Indy. Até ali. Indy não considerou a possibilidade de roubo.Fico satisfeito por saber . .afirmou Indy. Não abrandaram até alcançarem a Ilha de Whithorn.E instalamos os archotes. Levou a mão ao chapéu quando o vento quase o arrancou da sua cabeça.Na verdade. Mas os escritores que passaram a escrito as lendas de Artur e Merlin não estavam de forma alguma de acordo que a gruta constituisse o local da morte de Merlin.Afastou-se da berma do rochedo. No entanto.Trabalhamos numa meia dúzia de escavações com a dra. o único contraste com a água negra e infatigável e o céu solene. enquanto ele e o irmão levantavam diversos dois-por-quatros para cima de um carrinho de transporte. . Indy não tivera sorte em contratar uma pessoa para esta última tarefa. . Quando alcançaram a entrada da caverna. Subiram a trilha ventosa que conduzia à gruta. . em Whithorn. localizada bem alto no rochedo escarpado. Indy parou e olhou para o mar. – Pelo menos para o monge que aqui esteve. que visitara a gruta depois da morte de Merlin. Os dois homens chegaram antes deles com uma carroça carregada de equipamentos e materiais. Indy lera num manuscrito francês que a estrada era também conhecida como uma Krota real percorrida pelo rei Artur. Campbell vos treinou bem.Óptimo. incluindo os primeiros reis escoceses. ocupados a descarregar madeira. 84 .Obrigada. no interior da gruta as alterações não são significativas. . . . .Você monta bem . A temperatura permanece por volta dos dezoito graus durante todo o ano. Ondas de crista espumosa corriam pela superfície. que não era propriamente uma ilha mas uma península. Seguiram por uma trilha até chegarem à base de um rochedo escarpado. à vossa espera . visitavam a gruta depois de prestarem culto na capela de São Ninian. e nenhum deles lhe chamava o esplumoir. . . Dado que a gruta ficava distante e era raramente visitada.disse-lhe ele.O equipamento já está na caverna.Campbell por toda a Escócia. ao caminharem para junto dos dois carpinteiros.disse Richard.desde a aldeia à caverna era histórico por direito próprio. Carl e Richard.É suportável. . Joanna insistira não só para que tivessem fechaduras nos armários como para que contratassem alguém para guardar as ruínas durante a noite.Ainda bem que estamos no Verão . Parece que a dra.disse.Nem quero imaginar como isto é no Inverno. nós fazemos parte da Liga Escocesa de Arqueologia Amadora. Um dia destes mostro-lhe os meus troféus eqüestres. Tinham de construir uma bancada e armários para armazenar apetrechos. Desmontaram e prenderam os cavalos a um ramo de árvore. "Outra surpresa". porque os cristãos. . Observou uma gaivota vagueando pelo céu. transportada pelo vento.

ou qualquer coisa intencionalmente oculta.se encontravam depositados.Muito pouco. pensou Indy. um local provável para encontrar um pergaminho de ouro.acrescentou Deirdre. 85 .A sua mãe fez algum trabalho no interior da caverna nas primeiras escavações que aqui fez? .. a pele dela era de um laranja estranho. .E para Merlin .Fez algumas perfurações de amostragem. Não sabia o que fazer com ela. Era a isso que Byrne se referira com o comentário sobre aqueles que lhe chamavam a caverna de Merlin. O padre preocupava-se com os pagãos. nem quer falar no assunto.cerâmica partida.Sabe.Mas talvez a temperatura não fosse importante para ele. .Dizem que aconteceram aqui coisas estranhas. Fiquei com a sensação de que ele não estava muito radiante aqui com o nosso trabalho. . Tanto quanto sei. pedaços de ferramentas .À luz dos archotes. preocupa-se muito com os druidas. seria realmente uma pena. não sei. muitos dos habitantes desta terra nem sequer aqui entram . sobretudo lugares com vestígios da presença do homem primitivo.disse Deirdre. por aquilo que disse ao jantar. Neste caso. . . contudo. Na opinião dela.E para Merlin . .ele queria saber se a carta deveria ser levada a sério. . Joanna acredita que ele é mesmo capaz de ter destruído a carta. Indy sabia que os exteriores de cavernas eram os locais predilectos dos arqueólogos. . era onde os restos de cruzes de pedra tinham sido achados. Deirdre riu-se. . caíram-Lhe manchas sombrias sobre o rosto.Oh. Não era. em certos sentidos.Eles não são de Whithorn.Se é verdade. Contudo. Quando voltou a cabeça de lado e o brilho desapareceu. o que seria uma pena.O que diz ele sobre isso agora? .E Carl e Richard? Não parecem preocupados com isso. Era onde os resíduos da vida quotidiana .concordou Indy com um riso.Por que razão lhe mostrou Byrne a carta? Tudo o que está relacionado com Merlin não parece ser do agrado dele. Só cá vivem há alguns anos.É uma pessoa estranha. . Entraram na gruta. . .Também Joanna se interrogou sobre isso. . Porquê.ossos de animais. mas isso foi antes do padre Byrne lhe mostrar a carta. não creio que estivesse à espera que a minha mãe começasse a procurar o pergaminho. "Era então isso". e que isso Lhes trará má sorte. .

que tinha um tecto com cerca de cinco metros e uma extensão de nove metros no seu ponto mais largo. pelo menos até ontem à noite no pub. o peito. Deirdre introduziu a língua na boca dele.Está na altura para um intervalo. . os polegares acariciando com leveza o inchaço dos pequenos seios. Por cima da sua cabeça. . Está bem? . . Vamos trabalhar. A gruta ficou invadida de poeira. o consentimento era mútuo. de súbito. Então. há quinze minutos.Indy levantou-se. Ouviu Deirdre tossir algures por perto. A caverna era como um autêntico casulo. os seus lábios roçaram os dela. . Uniram-se fortemente e. Enclausurava-os do resto do mundo. Puxou-a para si. autocriados pela fúria e fome repentinas da paixão.perguntou ela com dificuldade. ardia uma tocha num suporte na parede. Dali. talvez as pessoas percam os receios em relação a este local. . com arqueologia ou com Merlin. iluminando o chão da gruta. um abalo lançou-os ao chão e um som semelhante ao rebentar de mil trovões ensurdeceu-os. tenho desejado que isto acontecesse.estreitando-se para dois metros na entrada. Sentiram-lhe os ombros largos. a maçã do rosto e queixo de Indy. apreciando o trabalho que tinham executado. Parecia estonteante à luz do archote. o mundo explodiu. Deirdre ergueu a cabeça. como fazendo parte deles. o ruído e vibração fortes sob os seus pés pareceu-lhes natural. Não sabia se o mesmo se passava consigo. os lábios entreabertos. Abanou a cabeça. Os dedos dela traçaram a sobrancelha. e todas as considerações sobre propriedade caíram por terra.O que aconteceu? . a entrada não passava de uma indistinta abertura de luz. a terra estremeceu. Não eram necessárias palavras. e o cabelo caiu solto. Por instantes. Por recomendação de Joanna. Os dedos de Indy mergulharam nos cabelos dela e percorreram-lhe as costas. Então. uma explosão. Parecia sugar-lhe o ar dos pulmões. efectivamente. Indy estendeu a mão e puxou para trás uma madeixa que pendia sobre o rosto dela. . Ele percorreu levemente as mãos pelas partes laterais do corpo dela. posicionadas no canto mais profundo da caverna.E Richard e Carl? Ele sorriu.Indy.Não sei. As luvas de Indy foram lançadas para o chão da caverna enquanto Deirdre tirava o lenço. sentindo as coxas pressionadas contra as dele. iriam concentrar-se na câmara dos fundos.Bom. . aproximando-se a rastejar.Deirdre aproximou-se dele. Passaram o resto da manhã posicionando marcadores e esticando cordas entre os marcadores para criar uma grelha que lhes serviria de base para definir as áreas de escavação.Pronto.murmurou Indy.. Deirdre afastou-se. uma derrocada.Saíram para almoçar. Moveu-se. As mãos dele rodearam-lhe a cintura esbelta. Um tremor de terra.O seu coração martela . . se encontrarmos o pergaminho. não acha? . . A tarde iniciara-se já quando prenderam corda em redor das últimas cavilhas. Indy pareceu detectar algo no olho dela que não tinha nada a ver com a gruta. moveu-se. Indy inclinou-se para a frente.

Afirmou estas palavras com tal convicção que Indy se sentiu a acreditar. . Está a entrar gás. tinha as pontas dos dedos em sangue. Perdera as luvas e.senão não conseguiremos ver nada. apagando a chama.pediu Deirdre . . . Espetou o archote e de seguida bateu no solo com a picareta. a resposta cheirou-lhe. O que se está a passar? Lentamente. Indy ajudou-a a pôr-se de pé.passados quinze minutos. Mas continuou a escavar. .Pegou em Deirdre pelo braço e seguiram para o fundo da caverna. com o rosto sujo de terra. . e cobriram as cabeças para se protegerem da chuva de destroços. . Foram arremessados ao solo.Deixe uma acesa .Tinha a testa arenosa e húmida de transpiração. .Os aldeãos virão em nosso auxílio.A este ritmo. Tropeçou numa das picaretas. .Mantenha-se baixa e respire pausadamente.É por isso que estamos com dores de cabeça. . . Deirdre. Indy cheirou o ar. .Agarrou na tocha mais próxima e enterrou-a nos destroços. . Deirdre preparava-se para levantar outra pedra quando se sentou e esfregou a cabeça de lado. afastando pedra após pedra. .Parecia frenética. mas a dor de cabeça diminuiu um pouco ao avançarem para o recesso da caverna.Deve estar a entrar ar por algum lado. Deirdre tossiu.A quê? . Indy ergueu a cabeça. CAPÍTULO XII AR IMPRÓPRIO A poeira acumulava-se na garganta de Indy à medida que este abria caminho por entre os destroços. agarrando nas rochas e atirando-as para o lado. . . . Dói-me a cabeça.Mordeu-me a língua. Não nos deixarão ficar aqui.Talvez fosse melhor apagar o archote. levaremos dias . .Cheira-me a qualquer coisa. parou e voltou-a na mão..disse Indy. Alguém dinamitou a entrada. Fez o mesmo à outra. Começo a preocupar-me com o ar. trabalhava ao seu lado. .Fumos.Bem pensado. Uma dor insistente e latejante nas têmporas reduzia-lhe as forças. . Tinham dado mais três ou quatro passos quando uma outra onda de choque sacudiu a gruta. . Deirdre franziu o sobrolho e olhou em redor.Mal consigo respirar.Desculpe. Vamos sair daqui.Sinto-me tonta.Pólvora.

alargando-o. . Retirou uma mão-cheia de terra do orifício. Pregou estacas de meio em meio metro na parede e.Não. Levantou-se e pediu a Deirdre que segurasse no archote. Interrogou-se por onde andariam Richard e Carl. era que a chaminé estava cerca de dois metros afastada da parede. que sabia erguer-se cerca de quatro metros acima da sua cabeça. Se escavarmos dois buracos. tudo o que conseguiram ver foi uma superfície irregular sem qualquer abertura. A chaminé estava coberta. só dentro de dias.Trepamos. Apercebeu-se então que havia um recorte quase directamente por cima. O problema. Escavou um segundo buraco para Deirdre e depois deitou-se de barriga para baixo e enfiou o rosto no seu orifício. escalou rapidamente a parede. Talvez conseguisse enfiar-se pela abertura e fazer qualquer coisa a partir daí. .Por ali não dá. . . . Isto era uma fornalha.Eu sei. A abertura na base tinha cerca de um metro. Estreitava-se rapidamente e fechava. A terra voou em todas as direcções quando martelou o chão. Indy. Tinha de agir com rapidez.O que está a fazer? .Uma chaminé? . . mas é altura de encontrarmos uma saída. Por isso. poderemos sobreviver por mais tempo respirando o ar abaixo do nível do solo. Deirdre fez o mesmo. conseguia avistar melhor a chaminé.88 . . . esta não é altura para arqueologia.Exacto. Possivelmente. . vamos ver se não morremos. Indy olhou para o tecto da caverna.Que maneira estúpida de morrer.inquiriu Deirdre. E se eles já tivessem regressado e deparado com a pessoa responsável pela explosão? Ninguém os viria procurar tão depressa. . como poderemos chegar lá acima? Indy pegou num malho e nalgumas estacas que tinham sobrado. e Indy podia compreendê-la. .O que é? . mas que espessura teria? Deirdre seguiu-lhe o olhar.Deirdre parecia agora ainda mais agitada. Uma fornalha no fundo de uma caverna significava a existência de uma chaminé. Mesmo que fosse mais leve do que o ar. Agora.Indy. No início.Cinza.Mas. sabia que não lhes restaria muito tempo até serem atingidos pelos efeitos do gás. Ela olhou na direcção da entrada da caverna. contudo.Eu poderia ter-lhe dito isso. Voltou a descer. . Esfregou os dedos e aproximou a mão do archote. . segurando na tocha com uma mão.Talvez o gás seja mais leve do que o ar.

O seu peso fê-la esticar quase até ao solo. Procedeu de igual forma com as outras em ambas as paredes. Sentiu um fio de sangue escorrendo por cima do estômago. Ancorou o archote num dos suportes de parede. apresse-se. .Indy. Subitamente. Mas o pé escorregou-lhe da corda e apanhou-a com o joelho. subiu para o fundo da escada improvisada.Eu sei. . subindo as estacas ao avançar. Deirdre tossiu. uma das estacas saltou da parede e Indy foi cair por cima de Deirdre.É demasiado perigoso. envolveu-a e voltou a cruzar. A cabeça de Indy doía-lhe outra vez. então. rapidamente. colocando-se de seguida por baixo da chaminé. Tirou a picareta da boca.Talvez pudéssemos desenterrar a madeira que os carpinteiros trouxeram para a gruta e construir uma escada. . na parede mais ou menos ao mesmo nível. Agarrou. desta vez. pegou nas restantes estacas e deslocou-se para a parede oposta onde pregara as outras. Tenho uma idéia melhor. Com precaução. Indy abanou a cabeça. Está a ficar mais forte. Indy levou o seu tempo. Ergueu o pé. Apanhou uma picareta do chão e colocou o cabo na boca. . 90 . Seríamos afectados pelo gás antes de alcançarmos o primeiro dois-por-quatro. Uma das pontas rasgara-Lhe a camisa. . mas não rompeu. . em vez de a cortar. Atou uma extremidade na estaca mais baixa e depois atravessou para a parede oposta.sugeriu Deirdre.Estou. escalando para o nível a seguir.Desta vez. Detectou a estaca que se libertara e. passou para a estaca seguinte.Por favor. Esqueci-me da picareta. não se ponha mesmo por baixo de mim. escalando cuidadosamente a teia de corda até a sua cabeça se encontrar ao nível da chaminé. Apesar da insistência dela. .89 . até criar uma teia que chegava ao tecto. arranhando-lhe o peito.derrubando-a para o chão. A corda que segurava com a mão esticou-se. pregou-a até ao fundo na parede.Eu posso atirá-la . Continuou a seguir para trás e para a frente. Havia corda suficiente pelo que. Espetou-as. . E você? . numa nova bobina de corda e começou a desenrolá-la.Está bem? .perguntou. Rolou para o lado.respondeu e voltou à tarefa interrompida.Raios. Cheira-me de novo a gás.Não há problema . e depois para o terceiro. temos de nos apressar. .

As estacas poderiam soltarse. a poeira criou-lhe lágrimas nos olhos. pensou.Indy imaginou-se a esticar-se para apanhar a picareta e toda a teia a desmoronar-se. Desenrolou de novo o chicote. içou a outra perna. Começava a sentir-se desesperado quando um monte de terra se libertou duma ranhura entre duas das pedras e um raio de luz se filtrou através de um orifício.Se as meter ao lado das ancas. Depois de uma dezena de golpes. mantenha-a ao pé de si por agora. Os dedos tocaram na parede e depois o pé. e soltouo. enchia os espaços entre as pedras. 91 . voltou-se. e conseguiu comprimir as omoplatas contra um dos lados da chaminé.Indy. Porquê? . Depois poderá tratar das pedras com os pés. Com um movimento rápido.Não. Depois de puxar a picareta para cima. Conteve a respiração ao levantar lentamente a perna direita.É capaz de resultar . Pedaços de terra caíam-lhe sobre o peito e rosto. ainda preso ao cinto. Se a corda rebentasse agora. Pensou em diversas razões por que não resultaria. Quando parou para recuperar o fôlego.Consegue prender mais algumas estacas aí dentro da chaminé? . . . Seria proeza difícil martelar as estacas na mesma parede contra a qual estava encostado. tenho uma idéia . deixando o chicote desenrolar-se. Ou então Deirdre a enterrá-la nas suas costas. .O que é? . sabia que a queda seria de seis metros e aterraria de costas. . estava cheio de terra mas pouco progredira.disse. e estendeu-a para o lado oposto. parou.Acho que sim.disse-lhe Deirdre. voltou a prender o chicote ao cinto e começou a fragmentar uma das pedras. dar-lhe-ão um apoio. esta poderia cair mesmo em cima dele e derrubá-lo. Enquanto esperava.Ate a picareta na extremidade . tocou no chicote. Deslocou os ombros até as costas estarem direitas contra a parede. Mesmo que soltasse uma das pedras. Mas os progressos até agora obtidos também eram nulos. Não ia ser fácil. O ângulo poderia ser demasiado pequeno para lhe conceder a acção de alavanca de que necessitava. Levaria demasiado tempo. Foi subindo. Terra. A luz conferiu-lhe esperança e retomou com determinação o ataque às pedras. e Deirdre atou duas estacas e o malho na ponta. acumulada ao longo dos anos. levou a mão ao topo da chaminé e sentiu trás pedras do tamanho de bolas de basquetebol cobrindo o orifício. A posição só lhe concedia um espaço de manobra de dois metros com a mão. As pedras continuavam firmes no lugar. Aliviado e agora mais confiante. . Tinha outro plano.concedeu.

não a de Deirdre. cegando-o.Mantinha-se teimosamente no lugar. A luz jorrou na caverna. Não a conseguia ver. mantendo-se preso às duas estacas. Uma das pedras deslocava-se. Agora não conseguia ver nada.gritou desta vez. de braços estendidos. Avistou-a então estendida no solo. Deu uma série de golpes sucessivos contra a pedra. . .Estou aqui.Deirdre? Nenhuma resposta. confuso. . Empurrou-a com os pés e sentiu-a rolar do orifício. sentia-se tonto. Aterrou violentamente de lado.Deirdre! . . os olhos aquosos. após demasiados golpes. Parecia que tinha um martelo na cabeça. Testou a firmeza delas segurando nas estacas e deixando as pernas cair. Virou-a para cima e inclinou-se junto da boca dela. Estremeceu. 92 . Quando se sentiu seguro de que resistiram. Deixou cair as pernas e olhou para baixo. Tinha a boca seca e arenosa. Os joelhos comprimiamse contra o seu peito. consegue ouvir-me? Baixou-se. O cheiro a gás era agora mais forte. Choveu terra por cima dele. Atacou uma das pedras. caiu mais terra por cima dele.Carl.Onde? Tirou a picareta do cinto e bateu-a nas pedras. Era a voz de um homem. Mas. e soltou-se. e o pé direito ficou preso numa das cordas mais baixas. os carpinteiros. . Puxou-se para cima. Agora estava a postos.Não conseguia ver o que fazia. Olhou para cima. respirou fundo. . praguejou e depois rastejou em direcção a Deirdre. Já não conseguia ver a teia de corda. ambas estavam em posição. martelandoa repetidamente com os calcanhares e solas das botas. e bateu nos dedos diversas vezes. caminhou para a parede oposta até se encontrar enrolado numa bola com os pés para cima.Deirdre. por fim.Professor Jones? Onde está? Indy olhou em redor.gritou de novo. Ficou suspenso por momentos a cerca de dois metros do solo. E a pedra nem cedeu um pouco. Ela não resistiria muito mais tempo. encontro-me Aqui. . conteve a respiração e estendeu os braços de novo.Estou mesmo aqui . A respiração era fraca. Subitamente. o ar fresco penetrava através do buraco. Estava abafada e não conseguia distinguir de onde provinha. Por cima dele. Baixou as pernas e olhou para baixo. . Escutou-a de novo. Parou para recuperar o fôlego. Meu Deus.

Uma não atingiu por pouco o seu lado esquerdo e a outra raspou-lhe apenas o cotovelo direito. Tentou sentar-se e ajudá-los. . Puxou de uma navalha e cortou rapidamente três das cordas. mas os pés escorregaram. Contudo.nem ele. Sentia um colchão. Mal respira. simultaneamente. ou sequer onde se encontrava. Segurou-a por diversos segundos mas.É melhor levá-la já ao médico .Quem é? . lençóis. . Um dos homens que segurava na outra pedra deixou-a e deitou as mãos a esta. Estava prestes a cair de costas quando um dos homens agarrou no chicote. bebeu grandes quantidades do melhor ar que jamais saboreara. Momentos depois era içado através do orifício para o ar puro. A última coisa de que teve consciência foi de ver Deirdre deitada a alguns centímetros dele e os dois homens inclinados sobre ela. Embora estivesse a conter a respiração. um cobertor de lã. Encontrava-se a meio caminho entre o solo da caverna e a chaminé quando escutou algo a estalar. uniu-as e atou uma das extremidades sob os braços de Deirdre e segurou a outra ponta entre os dentes. Pensou deslocá-la directamente para baixo do orifício. Tentou servir-se do que restava da teia. . naquele instante. ou há quanto tempo ali estava. uma almofada baixa. não teve tempo para pensar na sorte que tivera. Exausto. mas mudou de opinião. Não sabia como chegara ali. 93 CAPÍTULO XIII VISITANTES Deirdre abriu os olhos. Richard. Desenrolou o chicote. Fitou com dificuldade a chaminé. Os rostos dos dois carpinteiros surgiram por cima dele e puxaram o chicote até que um deles pegou no pulso de Indy. cheirava o gás.Puxem-na depressa. mas caiu para trás para cima de um canteiro de urze. Olhou para cima mesmo a tempo de ver um a das pedras soltar-se. não sabendo bem o que a despertara. Bateram. oscilando perigosamente por cima da sua cabeça. ambas as pedras deslizaram. . Os seus olhos ajustavam-se à luz e avistou mãos retirando outra pedra. Tirou as cordas da boca.Não sei se escapará.disse um deles. Libertou lentamente o ar dos pulmões e içou-se. caindo. Gás. moveu o pulso e envolveu por diversas vezes a ponta em redor de uma das estacas da chaminé. A estaca a que o chicote se encontrava preso começou a soltar-se da parede.

Eu não. uma pintura de um castelo. e afastou-se da cama. Deirdre conseguia ver através dele . . Estava. começou a desaparecer.O que fazes aqui? . 94 Aproximou-se mais. aquela voz suave e melosa.Deixa-me em paz! . mantendo as ondas no lugar. mas a voz traía-a.O quê? Ele riu-se então.Encontrava-se agora junto da cama. Estremecia. um riso completo e gutural. . e outra de um Jesus benevolente. subitamente. Uma luz branca penetrou no quarto e surgiu uma figura no centro dela. O riso dele pareceu permanecer no ar enquanto ela se sentou. . Viu a mala junto da cama.Ah.Indy? . esfregando os olhos. apoiada nos cotovelos. sim. a pele. era-lhe familiar. A presença dele gelava o quarto e Deirdre esfregou as mãos nos braços.já estarias morta.Quis ter a certeza de que te encontravas bem. Não era a de Indy. Ergueu-se. não é? Ele riu-se. sentia-se atordoada e fraca. . Deirdre. . . Tinha a certeza que ele reparara. beliscando-se no braço para ter a certeza de que estava efectivamente acordada. . acentuando a cova no queixo. Sim. Aracne sabe demasiado. Podia cheirá-lo.o contorno da porta. o coração em chamas no peito.Arranjas sempre alguém para levar a cabo os teus trabalhos sujos. mas sabia que era Adrian. um retrato de uma família que lhe parecia vagamente familiar. querida. . . . e de novo o brilho do seu sorriso. mas tal não aconteceu.Eu sei que foste tu o culpado. a parede. Contudo. Viu as paredes cor de pêssego. recentemente. . . Agarganta e pulmões ardiam-lhe.Já te disse que não quero nada contigo.Puxou os lençóis para si. . Ostentava um sorriso largo..Eu. mas continuava sem saber onde se encontrava. Ele sacudiu um grão invisível de poeira da lapela do fato elegante. Deixa-me em paz. Podia avistar a brilhantina no cabelo dele.Tentou mostrar-se em perfeito controlo de si mesma. Aquele aftershave caro que usava. Um terror frio invadiu-a e sentou-se na cama quando a porta se abriu. nos jornais. Não era neste quarto que estava hospedada.gritou ela.Quem? Aquela voz. . Ele riu-se de novo e. Deirdre. desejando que ele fosse embora. Devias saber que se eu quisesse matar-te.Mas isso já não é possível. . A sua aparência estava exactamente igual à que ela vira. até o sorriso dele transmitia um certo odor. Não conseguia ver com clareza. Provocava-lhe náuseas. O cabelo ondulado mostrava-se perfeito como sempre.Ouvi o que aconteceu. o sorriso.

e reconheceu a vista. que tirou da maleta.disse Deirdre quando Marlis se preparava para fechar a porta. A quantidade de gás que ingeriste não foi suficientemente forte para te matar.A queimadura dos pulmões desaparecerá gradualmente. Todos ficamos tão aliviados quando o médico disse que ias ficar bem. Deirdre agradeceu-lhe..Estávamos tão preocupados contigo.Por que tenho dormido tanto? . verdadeiramente. . Deve estar a chegar. que vivia na aldeia desde que Deirdre era criança. Era um homem tranqüilo. A família do presidente da câmara comprara a casa depois de Deirdre e os pais terem mudado para Londres. . ou teria sido Adrian? Estava.Estavas a precisar de repouso. . Dei-te um sedativo quando vi que estavas livre de perigo.O rosto bolachudo e pálido de Marlis espreitou através da porta. As paredes foram pintadas. Deirdre.Praticamente h? dois dias. Tomou algumas notas num pequeno bloco de apontamentos preto. encontrava-se na entrada. Deirdre esforçou um sorriso. 95 Dormitou outra vez.Mandamos um telegrama para Londres. Joanna.Há quanto tempo estou aqui? . .Deirdre.Espreitou por entre a abertura nas cortinas e avistou ao longe colinas de tom azulado. Depende. . e voltou a instalar-se na cama quando a porta se fechou. A porta abriu-se. de meia-idade.Deve ter sido um pesadelo. Não te lembras? Já estiveste acordada umas duas vezes. e acordou com a chegada do médico. Queria ver-te assim que despertasses de novo. a história poderia ter sido diferente. . Se tivesses estado mais próxima da fonte ou se lá tivesses permanecido por mais tempo. Tiveste muita sorte. Recordava-se vagamente de conversar com alguém: o médico. a minha mãe. Soube de imediato que se tratava dos Machars. e os quadros não eram dela. . Estava no seu velho quarto. Qualquer coisa relacionada com Adrian. à medida que o veneno for sendo eliminado do teu sistema. Claro. Trata-se de uma condição temporária.Ouvi-te gritar. . Lembro-me muito pouco do que aconteceu. . .Oh. mas era o quarto da casa onde crescera..Não é de surpreender. pensou.Espere . .Adrian. uns dois a sete dias.Penso que estou a ter problemas de memória. . Auscultou-lhe o coração e examinou-Lhe os olhos e garganta.Quanto tempo levará? O médico bateu com a caneta no bloco. Marlis. a esposa matronal do presidente da câmara. Há de desaparecer quando o efeito da droga passar. . e receitoulhe mais descanso. . confusa. estás bem? . .

Até agora não há provas disso. . . Parecia agora um sonho que fora interrompido por um despertador.replicou Indy.As roupas de Indy estavam cheias de terra e o rosto sujo. . Quando o médico saiu.Deirdre. . tem aqui outra visita. Parecia que não trocara de roupa desde a derrocada.inquiriu ela.Claro que havia gás. quando retirarmos todos os destroços alguma coisa há de provar que foi uma explosão. girou lentamente as pernas para a berma da cama e tirou uma escova da mala.Para mim está óptimo.Tenho ajudado Richard e Carl a remover as pedras da entrada. .Quem é? .Claro que foi uma explosão. quis vir de imediato. . . . Deirdre sentou-se para a frente. . simultaneamente.Já lá voltou. . Quando ouviu baterem à porta.Mas. .. .Também estou contente por o ver.Eles viram quem foi o responsável? .Sentou-se no canto da cama. não é verdade? . mas que só poderia ficar por alguns minutos e que ela não podia excitar-se. Ambos sabemos isso.. sorriu-lhe e contou-lhe que tinha uma visita. Peça-lhe que me dê alguns minutos. Ela preparava-se para dizer que queria falar com a pessoa encarregada da investigação do acidente quando bateram à porta.O professor Jones. .Nem sabe como tenho andado preocupado. Indy.disse ele ao entrar no quarto. Pensou que ele deveria estar a pensar o mesmo. A intensidade do olhar dele fê-la recordar-se dos últimos momentos que tiveram juntos antes da derrocada. . . e o gás? . .Obrigada por me ter tirado dali. . Sempre que vinha saber de si estava a dormir. com suspeita.Obrigada.Se não tivessem aparecido. . O que se depreende até agora foi que o tecto desabou. . Indy abanou a cabeça. .Mas. Revelava um ar. Contaram-me o que você fez.perguntou Deirdre. nenhum de nós teria escapado.Como estou contente por a ver de olhos abertos . preocupado e feliz.Quando se preparava para partir.Olhou para a sua roupa. tinha já escovado o cabelo e lavado os dentes. O que está a dizer? . tenho a certeza. doutor. Lembrou-se então que Marlis e o médico lhe tinham dito como Indy a salvara. Indy levantou uma mão para a acalmar. A sujidade acumulada na testa e faces de Indy fazia-o parecer-se com um rapazito. Estou feliz só por estar aqui.Com alguma sorte. . Encontravase sentada na cama quando Indy bateu. .Quando Marlis me disse que estava acordada.Deve também agradecer a Carl e Richard .Agora não há sinais dele. A sensação que tinha era que nunca usara o corpo. .Entre. . Indy.

por que a fariam explodir? .perguntou Deirdre. .Talvez fosse alguém tentando amedrontar-nos.Há pessoas que podem considerar aquilo que estamos a fazer como uma ofensa . . Levantou-se da cama. .Marlis disse que ias ficar bem. Joanna. .Sempre houve rumores sobre a existência deles por estas partes .Não compreendo.De que forma podem as nossas escavações naquela caverna colidir com os interesses de alguém? Joanna olhou pela janela em direcção às colinas.E tu? O que vais fazer? . e daremos o nosso melhor durante umas duas semanas.Talvez estejam mais preocupados connosco.Vou ficar também. . sentou-se na cama. após uma pausa. .Depois de abraçar Deirdre. Que alívio. Será mais seguro.Afinal.respondeu Joanna. . .perguntou Deirdre.Os fanáticos vêem ameaças onde os outros não vêem . . o que aconteceu realmente? Quero saber tudo. se estão assim tão preocupados com a caverna. .Mas. Passou uma mão pelo cabelo. mas nunca pensei que esse procedimento fosse importante nestas paragens.Os velhos métodos não estão completamente esquecidos na Escócia. Voltou-se para Indy. Não sei. . Atirou os braços em redor da filha.O que vamos fazer? . – Deveria ter-lhe pedido para não fazer comentários sobre o pergaminho. .O que poderia levar as pessoas a considerar-nos uma ameaça? .Marlis abriu a porta antes de Deirdre ter possibilidade de dizer alguma coisa. pensou Deirdre. omitindo apenas o que estavam a fazer quando a explosão os lançou ao solo.inquiriu Indy.perguntou Indy.O professor Jones e eu retomaremos as escavações assim que os destroços forem retirados. e na minha opinião. obscuramente. Vou contratar guardas armados para vigiarem a gruta. . .Contudo.Referes-te àqueles estúpidos druidas? . "Típico".Vim logo que soube. Solicitarei a presença de alguns alunos meus. Joanna estava sempre a tentar protegê-la. . só nos visitam de tempos a tempos. . acrescentou: . Sentou-se na cadeira junto da cama e explicou.Há aqui druidas? . Em pôr-nos daqui para fora disse Joanna. . Tenho tentado manter essa questão o mais despercebida possível nos círculos acadêmicos até dispormos de mais dados. Indy levantara-se quando Joanna entrou no quarto.Deirdre franziu o sobrolho para a mãe. 96 97 Depois.Acho que deves regressar a Londres. . . . .disse.afirmou Joanna sem grande relevo. o melhor que conseguiu. A esposa do presidente da câmara afastou-se para o lado e Joanna entrou a correr no quarto.

quando Deirdre se encontrava de novo sozinha. estás acordada? Ela esfregou as têmporas. Não se tratava de um cenário de sonho onde nada fazia sentido. Lembrou-se então que ele não tinha saído. não andes por aí sozinha.Vês. Ouviu baterem e ficou petrificada. Caminhou para a porta e depois voltou-se. por que não dissera nada a Joanna? Pousou a colher na tijela. Depois. afirmou e pegou no tabuleiro para o retirar. E por que razão estaria mais segura em Londres? Deirdre olhou para Indy em busca de apoio. Joanna comprimiu os lábios.disse Indy. Era um sonho. e já terminei a sopa.Não. parecera tão real. veio-lhe à memória fragmentos da conversa que tivera em sonho com Adrian. Cresci aqui. Este é o meu verdadeiro lar.O padre Byrne veio ver-te. Adrian entrara por aquela porta. . limitara-se a desaparecer. ficara de pé junto da cama e conversara com ela. mas. Fora exactamente ali. Adrian não estava ali. . . mas penso que Deirdre estaria em maior segurança connosco do que partindo sozinha.disse Byrne ao entrar no quarto. Não.Se não se importam. Não foram os druidas quem dinamitou a caverna. . O assunto é entre mim e ti.Sei que o assunto não me diz respeito. sabes? . Não acontecera. Deirdre. Não sabes aquilo que teremos de enfrentar. como que para evitar intrometer-se entre as duas.. .Eu digo-lhe que não se deve demorar. por favor.Penso que tenho uma idéia. e quero que vás a um especialista em Londres. . Ele mencionara um nome. Não estás em condições de trabalhar.Não metas o professor Jones nisto. . Os seus ombros abateram-se levemente ao expirar. Fitou a porta. Sentia-se intrigada.Não. a porta abriu-se ligeiramente e apareceu a cabeça de Marlis. Mas. traga-o. Aracne. Queres que lhe diga que estás demasiado cansada para o receberes? Deirdre pensou por alguns instantes. Enquanto comia. Tinha de ser um sonho. Joanna.Deirdre. Obrigada. . Podes ficar. Joanna.Espero não te vir incomodar.Voltou a deitar-se na cama. Não queria saber quem era. . Algum tempo depois. . . mas este desviou o rosto.E tu. e Marlis ajudou-a com os cobertores. .Não farei nada disso. Fora Adrian. vou-me lavar . que estás cansada -. Marlis trouxe-Lhe um tabuleiro e uma enorme tijela de sopa. . por favor. Contudo. . 98 . Marlis.Sim. . .Boa noite .Deirdre.Está bem. desejando que quem quer que ali estivesse se fosse embora. Por isso não dissera nada. obrigada por ter vindo.

Mas realmente já não sei o que fazer. provavelmente. mas.Bem. o ter sido seguida. . rompeu a chorar. . Indy é. . como o conhecera. o mais depressa possível.O que sentes em relação ao professor Jones? . . Tal como uma criança num confessionário. A voz dele era suave. No entanto.Bem.Mas.Eu sei. . não queres perder o homem que amas. Desejou ter a fé dele. .Mas Joanna está tão empenhada na escavação. de braços cruzados. contou-lhe o sonho. Precisavas de deitar isso para fora. Tenho a certeza de que Joanna se preocupa com a tua segurança. não podes ter a absoluta certeza de que foi Adrian o responsável pela derrocada e.. Deirdre começou por dizer que se sentia melhor. Por fim.replicou Byrne. . Byrne ergueu uma mão. foi bom contares-me. padre.Muito bem. moça.Na minha opinião. contou ao sacerdote tudo sobre Adrian. pensou Deirdre. era possível que esse Adrian te deixasse em paz. repentinamente. .Não. aquela a postura que assumia quando escutava confissões.. era isso o que eu queria ouvir. é porque parece que se te mantivesses afastada dele. . E o que sente o professor Jones por ti? . mas era..Não.Seria doido se não sentisse . o facto de ter ignorado os conselhos da mãe. eu amo-o. eu. Agora. Tinha os olhos vermelhos. por outro lado. descansa. . . Verás. Não quererá ir embora. alisou os lençóis com as mãos. e sorriu. o que vou fazer? Byrne reclinou-se na cadeira. moça.Penso que sente de igual forma.E Indy? Acha que Lhe devo contar sobre Adrian? . talvez um atributo da idade. Ele merece uma explicação. e não propriamente uma reacção emocional à história dela. Aqui estás em segurança.O padre sentou-se na cadeira mais próxima da cama e perguntou-lhe como se sentia. . e tomará a decisão mais acertada.. . não vou permitir que ele me faça isso. 99 Quando terminou.. Deirdre achou estranho conversar com ele daquela maneira.Lamento. As coisas hão de correr bem.A razão por que pergunto.Isso não quer dizer que tu e o professor Jones tenham de ficar. coxeando.Mas não te preocupes. . o melhor que tens a fazer é deixares Whithorn com o professor Jones e a tua mãe. padre. Byrne enterrou o rosto nas mãos e baixou a cabeça. Viu o velho padre sair do quarto. . Ele levantou o rosto das mãos e pestanejou. Enquanto ela falava..

Tinha de estar ali algo que fornecesse uma pista para o que acontecera e. e sentiu uma coisa sólida.Indy . Joanna continuava convencida de que as culpas deviam ser atribuídas a uns quaisquer protectores pagãos de Merlin. O tecto junto da entrada da gruta cedera. Correu para onde o carpinteiro trabalhava. mas rapidamente decidiram que seria má ideia. Mas. Indy não sabia o que pensar. Atirou depois uma mão-cheia de terra para o chão com desprezo. junto da berma interior da área danificada pela . Não havia sinal dos explosivos nem da fonte do gás. . Indy deu um pontapé no chão. depois de terem conseguido desbloquear a entrada. A câmara estava cheia de destroços e entrava pouco ar fresco por cima. Outra rocha. E havia também a questão do antigo namorado de Deirdre. druidas que queriam evitar que os arqueólogos escavassem a gruta. Reparou num monte de entulho a que não prestara atenção num dos lados da caverna. Dois dias tinham decorrido desde a explosão. Colocou-se de joelhos e esgravatou a terra em redor com as mãos enluvadas. 101 . vigiando por turnos durante a noite.chamou Carl. algo que ajudasse a identificar os malfeitores. e a caverna encontrava-se repleta de rochas e entulho. Voltou-se e viu as mãos enluvadas de Carl esgravatarem no solo.100 CAPÍTULO XIV ARACNE Indy ia abrindo caminho por entre os destroços. Ele e Joanna discutiram a possibilidade de trabalhar naquela câmara. tentava descobrir qualquer outra coisa que estivesse ainda enterrada. Joanna partira há uma hora. por seu lado. virando pedras. com alguma sorte. Richard e Carl eram dedicados a Joanna e montaram acampamento no local. Sentia-se ansiosa por recomeçar a escavação no dia seguinte. retirando à pazada montes de terra e rochas que lançava para um carrinho de mão. os dois carpinteiros ocupavam-se a reunir o que restava da madeira e a localizar ferramentas subterradas.Fantástico. bloqueando a passagem para a câmara do fundo. no fundo da sua mente. havia recordações de aranhas e escorpiões. Indy. Afastou lixo e calhaus com a bota. Talvez estivesse a atacar de novo. e Deirdre estava em condições de sejuntar a eles. Naquele momento. servindo-se do orifício no tecto como entrada.

.Estás a ver isto. só os soldados que aí estão destacados. abriu a torneira da banheira e despiu a roupa. Indy regressou a aldeia e. Estranhou o facto de ela não retribuir o bater. com orifícios nos olhos. agarrou pelos ombros e enfiou-o de novo na banheira. Indy ajoelhou-se e escavou cautelosamente em redor do cilindro. impeliu-lhe a cabeça para trás e viu de relance uma cicatriz na garganta dele . A imagem do rosto . Indy debateu-se para se libertar. Indy olhou para eles e deu um salto. Carl pegou no cilindro. escutou ruídos vindos do quarto de Deirdre. . veio do velho paiol do exército. .Quem tem acesso a ele? . mas o homem era mais forte. . Pousaram-no sobre uma pilha de rochas. O que estava ela a fazer? A mudar a mobília? Recostou-se na banheira e bateu duas vezes na parede. Os dedos dele pressionavam a maçã de Adão de Indy. cheirou. .Para mim. Não se aperceberam.Tanto quanto sei. Carl olhou para cima quando o irmão se aproximou. subitamente. Mas decidiu tomar banho primeiro.Como sabe. professor. Ao enfiar-se na banheira. Talvez agora possamos ver alguma acção.É como aquelas que foram usadas na guerra. Fica a umas duas milhas da aldeia. mas o homem mais próximo avançou. seguiu directamente para o quarto de Deirdre. aberta.depois. narizes e bocas. . o que resta dela. Indy inclinou-se e examinou-a de perto. quando chegou à pensão. Carl.Na vossa opinião.explosão. Encontrou. Já no seu quarto. que a explosão tinha potência suficiente para subterrar também a vasilha.É isto mesmo. e torceu o nariz. Avistou um cilindro verde parcialmente enterrado.afirmou Richard. Usavam capuzes negros de malha. a água cobriu-lhe a cabeça.Você e Deirdre podem agradecer a sorte ainda estarem vivos .Deve ter sido colocada aqui. .Vamos levá-la ao chefe da polícia. a porta do seu quarto abriu-se com violência e dois homens entraram de roldão. 102 empurrando-o cada vez mais para a água. De seguida. Richard? Uma vasilha de cloro gasoso ou. Estou certo que ficará interessado nisto. e depois detonada a carga para bloquear a entrada. pelo menos. A água transbordou pelos lados. contudo. mas não teve muito tempo para pensar no que isso poderia significar. de onde poderá ter vindo? Carl olhou para o irmão e depois para Indy. Indy posicionou o calcanhar da mão sob o queixo do indivíduo. os dois homens ergueram-no e retiraram-no do buraco. Estava ansioso por lhe contar o que tinham descoberto. Indy inclinou-se. . pois. Carl? . .

revestido com capuz pairava acima dele como um abutre gigante cujos braços lhe extraíam gradualmente a vida. o que raio se passa aqui? Indy viu que era Jack Shannon mas. Indy levantou-se do chão. O homem empurrou Indy de novo contra a parede e depois deixou-o. Jack? . . Os seus pés tocaram no peito do homem e Indy empurrou com todas as forças que lhe restavam. O ar borbulhava dos seus lábios. onde Shannon se punha de pé. 103 Shannon voltou-se da porta. gemendo suavemente. Indy endireitou-se com dificuldade. lançou novo pontapé. Os dedos do homem continuavam a forçar. O seu coração estava nos espasmos da morte. Viu-se em criança. antes que o pudesse alertar.disse e desapareceu. Indy escorregou para a banheira e aí permaneceu até recuperar o fôlego. Indy estendeu a mão. Agora tinha a certeza que a voltaria a ver. Campbell . . tirou o roupão de um cabide e vestiu-o e quase não chegava a tempo ao lavatório antes de vomitar. a porta foi forçada e aberta e uma voz gritou: .Vou chamar a dra. O homem caiu para trás. enfiou o punho no ventre de Shannon e deu-lhe um pontapé de lado. Desesperado. o outro encapuçado atacou-o por trás. pensou com pesar. atingiram o homem no queixo. Naquele momento. Começava a desfalecer. Apoiando-se aos lados da banheira. . de seguida assistindo ao funeral dela junto do pai. que espreitava do corredor. O seu grito de socorro foi inútil e abafado. Ela aguardava-o. chocando contra a parede.Eh.Estás bem. Alguém na porta. Mas estava tão fraco que não conseguiu resistir. Lutou. Ouviu o bater de novo. O seu coração.Pergunta-me para a semana. Shannon conversava com Lily. As mãos dele foram retiradas e Indy explodiu para fora da água. sentado no regaço da mãe. derrubando para trás. Içou os pés para o ar. que tinha ainda o quadro enfiado na cabeça. mas em vão. a forçar.Vamos embora daqui ! -gritou para o companheiro. indo cair em cima do assaltante. Rastejou atordoado para junto do armário. A pressão sobre a garganta diminuiu um pouco e aproveitou esse facto. e tinha já uma perna fora da banheira quando o encapuçado se lançou a ele outra vez. interrogando-se sobre o que era a morte. uma mão pressionando a parte lateral do corpo. pegou num quadro de natureza morta pendurado na parede e esmagou-o na cabeça do assaltante. O homem forçava-o de novo para debaixo de água. enchendo os pulmões de ar. elevou-se. Estava prestes a perder a consciência quando ouviu um baque. . Quando se virou.

o que diabo fazes tu aqui? Antes que Shannon pudesse responder.Estou bem . Deu uns passos vacilantes para o interior do quarto e Indy aproximou-se quando ela se atirou nos seus braços. Com o auxílio da dona da pensão. Indy franziu o sobrolho e voltou-se para Lily. pondo a descoberto um monte de roupa. Joanna voltou-se para Lily. . . . o meu colega de quarto . o que aconteceu aqui? Indy contou-lhe o assalto e como a chegada de Shannon lhe salvara a vida. como se a confusão de mobiliário e roupas a desorientasse. Indy levantou uma ponta duma cômoda virada ao contrário. .Desculpem-me por uns instantes . Indy. Só preciso de recuperar um pouco o fôlego.Sim. sentindo-se ainda atordoado.disse Indy.Viu-os? Lily abanou a cabeça. .Indy voltou-se. Recordou-se subitamente do ruído que escutara no quarto de Deirdre. de olhos esbugalhados. . o som de vozes no corredor interrompeu-o. . estava Joanna e Lily. . e Indy deitou Deirdre cuidadosamente sobre ela.inquiriu Joanna com suspeita.murmurou.Indy? Deirdre apareceu na porta e. . atrás dela. . 104 . .Onde vais? Abriu a porta do quarto de Deirdre e constatou que fora submetido ao mesmo tratamento selvagem que o seu. . Saiu do quarto. .Tem a certeza que não viu ninguém? .O quarto estava numa autêntica desordem.A propósito. Shannon foi atrás dele. . com capuzes negros de malha sobre os rostos.Viu-os com certeza.Eram tipos corpulentos.Ouro? . penso.De que raio andavam eles à procura? .Quem é você? .Ouro..Só me veio visitar.Você viu quem fez isto? . .disse Joanna e saiu.Parece que sim.perguntou Joanna. a boca aberta.É um velho amigo meu. Gavetas tiradas da cômoda e arremessadas para o chão. Shannon puxou o colchão de novo para a armação da cama.disse Shannon.Não vi ninguém entrar ou sair. Deirdre mirou em redor. .inquiriu Shannon.Afinal. . Quase o liquidaram . O colchão meio deslocado da cama. Olhou para Shannon. .Andas com más companhias. diria. . .Estou bem. .

propriamente. . quanto mais pensava no assunto. – Possivelmente saíram mesmo agora.Vamos até ao pub tomar uma bebida. .Estava para te enviar uma carta. Indy conseguiu dar uma vista de olhos ao interior antes de ela fechar a porta.E qual seria o conteúdo da carta? Shannon deu-lhe um beliscão. .Ambos são aracnídeos. .O perito em mitologia grega és tu. Eu já estava lá em baixo quando este seu amigo chegou.Aracnídeos? .Pensei que tinhas falado em ouro. Foram para um outro quarto.disse Joanna. .Bom.Não. o que estás tu a fazer aqui? – perguntou Indy ao caminharem pela rua. mas não compreendo como podiam ter saído. . Esse nome não te diz nada.. mas. Andam à procura do pergaminho.Primeiro. Então. .Sim.E os seus nomes também começam por vogais.Fizeram o mesmo com o meu .Esquece. Vamos lá ver em baixo. Têm oito patas. . Parece que tinha razão. alguns minutos mais tarde.Correram para o piso inferior e pesquisaram todo o andar.Falta alguma coisa? . . Volto já. Indy olhou para o cimo das escadas. e não estava quando chegamos cá acima. . Não são ladrões vulgares.Isso só pode significar uma coisa. e conversar – sugeriu Shannon.Penso que nenhum de nós se terá de preocupar com isso.Diz-me então. De que forma? Shannon sorriu. . . saí por alguns minutos e eles podem ter-se esgueirado para dentro da casa. Saiu para o corredor e dirigiu-se ao quarto de Joanna. Indy? . Tudo parecia em ordem e não havia ninguém por perto. e foi transformada numa aranha. Indy – incitou Shannon. . . 105 Indy não teve de pensar muito. A porta estava aberta. .Um pergaminho? . Indy reflectiu por momentos. . Esta estava à entrada quando chegou.Certo. Mas não creio que tenhas viajado até Whithorn para me dares uma lição de biologia.Deixa-me vestir e ver como está Deirdre. . mais certeza tinha de que não a receberias a tempo.disse Shannon.Aracne. ia dizer-te que não há dúvidas que as aranhas e escorpiões estão relacionados. Desafiou A terra para uma disputa de tecelagem. . . .

Alguém a gere por ele. . . significará o fim do império. O lugar estava completamente voltado do avesso e.Um MP? . É a tua vez. ao morder uma batata frita ensopada em vinagre.Isso mesmo. .Penso que já ouvi falar nele. e debate-se contra isso sempre que tem oportunidade.Continua . Jack.Cloro gasoso. primeiro que tudo. 106 O seu trabalho de fundo é opor-se duramente ao plano de Congregação das Nações Britânicas. .Okay. .O que sabes então que eu não sei.Bem. mas conseguiram encontrar uma mesa desocupada num dos cantos.O proprietário chama-se Adrian Powell. não o revelou. . . Os jantares chegaram. alguém bem posicionado e com bons contactos poderia facilmente deitar as mãos a uma vasilha dessas.Penso que sim .Deixa-me adivinhar. estava uma palavra em grandes letras pretas e araneiformes. e ainda agora acabei de chegar disse Shannon ao alcançarem o pub. Interrompeu um a vez para pedir outra rodada de cerveja.Muita coisa. Ergueram os copos e depois Indy prosseguiu.Não tem. Jack? . . . Se estava surpreendido.disse Indy impacientemente. Indy informou rapidamente do que se tinha passado desde a sua chegada.replicou Indy.Aracne? . pelo amor de Deus? . Acreditas que Joanna é a mulher-aranha. . Mas primeiro conta-me o que perdi. . escrita no espelho por cima do toucador. eh? Para mim. ..Isto está a ficar cada vez mais interessante. .Tudo o que sei é que observei por escassos instantes o quarto de Joanna antes de ela me fechar a porta na cara. O estabelecimento estava cheio de pessoas e barulhento. Jack. Shannon provou o peixe frito. um jovem político do Partido Conservador em plena ascensão. Na opinião dele. Pediram cerveja e pratos com peixe e batatas fritas. Acontece que é membro do Parlamento. Não adivinhas quem é o proprietário.Acertaste. Shannon escutou calmamente. parece que os nossos amigos de oito patas têm vindo de uma loja de animais exóticos na periferia de Londres. interrogando-se sobre o que estaria Shannon a pensar. . contando ao amigo sobre a explosão e os acontecimentos posteriores. Como pode ter tempo para gerir uma loja de animais.Então já sabes. Conta-me uma história.

Continua a ser difícil de acreditar. A fotografia era a de um homem com cerca de trinta anos. .Não faço idéia..Aí é que está o enigma. Sabes. e riu-se de novo. por que haveria de lhe dar a loja de animais? . cabelo ondulado e um sorriso de vencedor. foi mordido por uma cobra coral. Shannon riu-se quando Indy lhe devolveu a folha de jornal. Isso não fazia muito sentido a Indy. mas não é tudo. Deirdre. na sua própria loja. O dono era o marido dela.Sabes. .Não é o mesmo tipo da biblioteca. . A menos que fosse apenas para aborrecer Joanna.Mas por que diacho está interessado em me dificultar a vida? .Deixa-me terminar. . . . A propósito.replicou Indy.Talvez tivesse mudado de opinião. Indy abanou a cabeça.Shannon bebeu um grande trago de cerveja e depois pousou a caneca. . Shannon afagou a pêra ruiva. Se não gostava de Powell. 107 Indy pousou a sua cerveja. e seguramente que a mim pouco me interessa o rumo que a Commonwealth possa tomar.Apenas uma libra. .Eu é que o persegui .Qual é o aspecto deste Powell? Shannon levou a mão à algibeira.replicou Shannon.Powell começou a interessar-se bastante pela tua amiga.Acreditas que um membro do Parlamento te andaria a perseguir pela Biblioteca do Museu Britânico? Não seria muito provável. ele comprou a loja a Joanna Campbell.Aborreceu-me muito mais a mim do que a ela.Perseguiste uma pessoa qualquer que ele contratou para te vigiar. antes de morrer. . . retirou uma folha de jornal dobrada e entregou-lha. Eu mal conhecia Deirdre. .Isso continua a não explicar por que razão ele me enviou uma caixa de chocolates com aranhas antes de eu chegar a Londres. .Bem tinha a impressão que havia mais qualquer coisa . . Saíram juntos algumas vezes até que ela rompeu a ligação. .Não sei. Tem de existir uma ligação que ainda não detectamos. . .Devia interessar-te . .Adivinha quanto pagou Powell pela loja. . Indy endireitou-a.Um bom modo de se morrer. . Continua. .O que pensas disso? . Parece que Joanna não queria que a filha se envolvesse com ele. aposto que Powell tem bons contactos militares com acesso a armas químicas. Indy abanou a cabeça.respondeu Indy com dureza.

disse. Sempre tiveste a reputação de destruidor de corações. .A propósito. .Engraçado. .Não sei se foi exactamente o que ela fez. . Não gostaria que a desapontasses. . . .Sim. . Ela é realmente algo especial. Acho que a amo. . . .Pensas mal de tudo. . .Óptimo! .Tenho de falar com ela sobre Powell . Indy ficou com a pele arrepiada. . Pelo menos até que se deu a derrocada. mas podes dizer que o clima melhorou.Só de pensar nisso. . . . . Tive um dia longo.Não acredito que estejas pronto a dar o nó.Decidi que ela é boa rapariga.Aí estou de acordo.Como estão as coisas entre ti e Deirdre? Não pude deixar de reparar como ela se aninhou nos teus braços.Porquê? . disso não tenho dúvidas. É difícil prever o que ela tem em mente. sabes como é. Não consigo imaginar ninguém que pudesse ser melhor para mim. Era isso o que a afligia. estarei a escutar os sinos da igreja? Indy preparava-se para dizer a Shannon que não estava assim tão doido. Mas estou constantemente a pensar nela. Esse é o teu problema. Jack. Levantaram-se para partir.Sim.pediu Shannon. .Não sei definir o que é. Também são aracnídeos. será melhor revistares bem a cama . Jack. vagamente. Indy espetou uma batata com o garfo.Hoje aqui. antes de te deitares. amanhã ali.Por causa de acarinos.Claro. . Shannon sorriu. 108 CAPÍTULO XV DEPOIS DO ESCURECER Doença do amor.Meu Deus. Mas mantém-te alerta com a mãe Campbell.Shannon olhou em redor do pub.Desta vez é diferente.O que queres dizer com isso? . – Acho que esta noite vou cedo para a cama. é possível.Vou ver como está Deirdre. Isso não parece teu. mas não o fez. .Indy coçou a nuca. isso não me surpreende.

Aconchegou-se mais à camisola quando alcançou a esquina. Joanna. por favor?Não consigo comer mais. teve uma idéia.Não se importa de levar isto lá abaixo à Lily. pela terceira vez naquela última hora. mas de nada serviu. Estava tão tranqüila que podia escutar a sua própria respiração. . sem afirmar que estava perdidamente apaixonada por Indy. Abriu-a e sorriu para o guarda. Joanna convencera-se que Deirdre estava doente. decidiu. mas sabia que isso seria impossível. Calculou que fosse esse o modo como as pessoas se sentiam quando estavam apaixonadas. Caminhou com rapidez pelo beco imerso num nevoeiro nocturno. minha senhora. De novo. Havia algo mais de estranho na noite para além do nevoeiro. Era um homem corpulento com cerca de vinte e cinco anos. e depois passou para a rua principal. O nevoeiro era agora mais denso. o filho ou o primo do presidente da câmara. Por que haveria de estar ali encurralada? Não era justo. Assim que ele desapareceu de vista. Deirdre pensara o pior. Deirdre escutara a mãe dizendo ao homem que não permitisse que ela saísse sozinha do quarto. depois de ter comido apenas algumas garfadas. A reacção que tivera fora apenas o alívio por ver que Indy se encontrava bem. levantou-se da cama e. Prosseguiu em frente. bateu levemente na parede que dava para o quarto de Indy. e imaginou Indy deitado junto dela.Desejou poder sair e ir procurá-lo. Tivera apenas uma recaída momentânea. E por onde andariam as pessoas? Ainda era suficientemente cedo para os habitantes da aldeia darem um . só mais um quarteirão. Deirdre pegou numa camisola de cima da cadeira e apressou-se a correr para as escadas das traseiras e a sair pela porta de serviço. Não se lembrava qual deles era. nenhuma resposta. Sentia-se cansada de estar frágil e doente. Além disso. 109 . Deambulou pelo aposento. mas preferiu pensar nisso como uma sensação pessoal e muito especial. Seguramente não era nada que alguma vez tivesse sentido por Adrian ou por qualquer outro. Não. Pegou nele e levou-o para a porta. Lembrava-se que ele ganhava sempre os torneios de arremesso de toros na reunião anual dos clãs. Olhou para o tabuleiro. Só pensar nele a agitava. Mas de nada servia imaginá-lo com ela quando Indy não se encontrava por perto. requisitara um aldeão para lhe guardar a porta. Estendeu o tabuleiro. Não era a sua maneira de ser. Apoiou a cabeça sobre a almofada. fechou os olhos.Deirdre afastou o tabuleiro do jantar para longe da cama. Talvez estivesse a cometer um erro. Quando Lily acorrera a contar-lhe que o professor estava em mau estado. não se sentia realmente mal. preocupada que os encapuçados pudessem regressar. Tentara explicar isso a Joanna. Inquieta. O pub ficava logo no quarteirão a seguir. Não conseguia avistar mais do que uns centímetros à sua frente.Claro. denso como nunca se lembrava de ver a noite.

.. pensou. Tinha a boca seca. mas o cabelo estava colado à nuca humedecida. Deirdre olhou para o lado da cama quando o guarda começava a fechar a porta. Notas de música que lhe soavam familiares.Espere.Sim? . Apercebeu-se então do que se tratava.. e depois pôde ver claramente as suas feições. Vestia um traje negro tal como os outros.. um grupo distante do pub. por favor. Os homens vestiam vestes negras e formavam uma roda. tal como os homens. . . Deslocavam-se na direcção dela. de frente para ela.O professor esteve cá para a ver. pouco a vontade. O homem anuiu. o nevoeiro começou a dissipar-se e sentiuse melhor. Escutou o riso dele. Mas a sensação de alívio foi de curta duração.Riu-se e. Apesar do frio. repentinamente.Está bem. O rosto de Adrian surgiu na sua frente. . eu. Conteve a respiração. A porta abriu-se de roldão. Vindo de algures. minha senhora? Fitou o guarda. a cova no seu queixo. o seu rosto bonito. os seus rostos eram sombras por baixo dos capuzes. a transpiração pingava-Lhe da testa e da nuca. levando uma mão à boca. e uma figura solitária pareceu deslizar entre eles na direcção dela. As notas estavam a ser tocadas ao contrário. mas ao mesmo tempo não. .Deixa-me em paz. . . e sentou-se na cama. reconheceu-o.Isto não passa de um sonho. O que Lhe aconteceu? .. os outros uniramse a ele. Adrian. O que era parecia vagamente uma marcha que ouvira vezes sem conta.Sim. . Embora nenhum deles olhasse na direcção dela. deslocando-se com rapidez. sentiu-se em perigo. O riso era horrível. como se planeassem qualquer coisa. estendendo as mãos para ela. . Simultaneamente. O nevoeiro avançava em turbilhão. De trás para a frente. Deirdre. mas numa autêntica confusão. de costas ainda voltadas para ela.O tabuleiro do meu jantar. Então. numa melodia que em nada se assemelhava a melodia. A sua respiração tornou-se ofegante. Quer que o vá chamar? Está lá em baixo na sala de jantar. Deirdre gritou. o seu cabelo ondulado. separaram-se em dois grupos. e também algumas pessoas. . uma ameaça fria e penetrante que lhe provocava arrepios na espinha. a sonhar de novo? Deirdre deu um passo atrás. escutava-se o som de gaitas de foles. Podia avistar os edifícios.Eu. eles aproximavam-se cada vez mais. viraram-se. quando se aproximou do pub. mas o som de gaitas de foles. 110 . desta vez. . Disse-lhe que estava a dormir. Mas não encontrara ninguém. Apercebeu-se então que não era riso.Minha querida.Abanou a cabeça.Não sei o que se passou. Então.passeio ou fazerem compras na rua principal.

Mas nunca tive um sonho assim. . queria fazê-lo. Vai com calma. Deirdre parou na frente dele. .Não sei o que se está a passar. . . Talvez se tratasse de um sonho. Mas. .Mas estou satisfeito por no teu sonho andares à minha procura. Ela atirou com a escova para o lavatório e as palavras saíram-lhe em torrente. Indy. Os seus olhos colidiram. . . Ele não me deixa em paz. Molhou o rosto. Pensou que a senhora já não ia querer mais. Penso que sim. de seguida. Nem sequer sei. . secou-se e pegou numa escova. e sentou-se sobre a cama enquanto Indy puxava duma cadeira para perto dela. não o entreguei a si primeiro? . Ela anuiu.Tudo isso não passou de um pesadelo. Saí às escondidas para ir a sua procura. . . Deirdre. Fechou os olhos. uma vez que dormia. Deirdre contou-Lhe tudo sobre Adrian Powell. Apenas isso. contou-lhe o sonho que tivera na casa do presidente da câmara e.Afagou-lhe a face. . .Espera um pouco. A sua voz vibrava de medo. começando pelo primeiro encontro que teve com ele.Obrigada.Mas. . Estavas a pensar nos homens que assaltaram os quartos quando adormeceste e a tua imaginação encarregouse do resto. 111 . Indy ergueu ambas as mãos. por que gritaste? Ainda não me disseste. Vi-o. diz você...Não..Está tudo bem. .O que aconteceu? O guarda disse que gritaste. .Deirdre? A cabeça de Indy espreitava pela porta. Tenho quase a certeza que saí. mas estava ainda acordada.Miss Lily levou-o. Indy levantou-a da cama.Desviou o olhar e secou de novo os olhos. mas tive receio que já não quisesses nada comigo.Devia ter-te contado sobre ele. e depois ele entrou no quarto. mas foi apenas um sonho. tomou-a nos braços e juntou-a a si.Ela levou-o.Quem me dera que estivesse. O guarda disse que nunca deixaste o quarto e que ninguém entrou. Deambulando pelo quarto. . ira e frustração.afirmou. Viste quem? Senta-te e começa do princípio. Indy afastou-lhe o cabelo do rosto.Parece loucura . . Deirdre desviou o olhar. descreveu o que acabara de lhe acontecer. O que lhe estava a acontecer? Estaria a perder o juízo? Levantou-se com esforço e dirigiu-se ao lavatório.Não podias estar acordada.

olhando para a lua quase cheia. Desta vez. Indy murmurou que a amava.Espero que tu não sejas um sonho. Deirdre desejou que aquele momento nunca terminasse.Beijou-a. e a aldeia não estava nem calma nem agitada. Indy ficou surpreendido.Está uma noite agradável .disse Indy. n?o est?s a enlouquecer. não há nevoeiro . Passava das oito quando saíram. mas sou real. as noites eram frias em Whithorn. . Ainda não. .Indy? .Penso que me ajudará a superar esta sensação de que o sonho foi real. . – Vamos continuar. .Está bem. pesarosamente. o seu pulso acelerou.Claro. tão diferente antes. pelo que se sentia satisfeita por ter trazido a camisola. Uns dois quarteirões mais adiante.E encontraste. Mas podes acreditar na minha palavra.O guarda.Eu sei.Sim? .Lamento. Passaram por diversas pessoas de aspecto normal ao caminharem pela alameda. -Era tão estranho. . . mas não se sentia preparada. 112 sob a luz esbatida dos candeeiros de rua. . Vamos dar um passeio. mas não para muito longe.. e que não estou a ficar louca.replicou.Vês. e Deirdre pousou a cabeça no peito dele. . A respiração dela tornou-se mais rápida.Por favor? Sabia que ele tinha outras idéias.afirmou Deirdre. Deirdre observou-o e abanou a cabeça.Um passeio? . a boca contra a dela. não houve hesitação. Estou aqui. .Quem me dera ter-te encontrado .Vou dizer-lhe para se ir embora. ele sentiu-se tão bem contra o corpo dela. Ela apertou-lhe a mão. . Está em boas mãos Deirdre deu um passo atrás as mãos nas ancas dele. . . . alcançaram o limiar da aldeia. Embora estivessem em Agosto. Só isso.Foi meramente um sonho. Tudo bem. Indy olhou para trás para a aldeia. . . Quando passaram pelo pub.Tens a certeza de que queres sair? .

E tu? És uma pessoa fora do ritmo? Indy soltou uma gargalhada. Duvido que estivesse agora a falar contigo se ele não tivesse aparecido. mas é necessário inovar. As suas folhas revelavam-se tingidas de prata à luz do luar. . .Não sei. Caminharam em silêncio por alguns momentos.Quando se diz que uma pessoa é fora do ritmo. uma floresta encantada.No que me diz respeito. interrogando-se se estaria a compreender minimamente o que lhe dizia.Agora sei qual a origem da expressão americana. . .Porquê? . não são convencionais. A arqueologia é como o jazz. . não tive oportunidade.Apertou-Lhe de novo a mão.Como o conheceste? . Talvez devido ao seu modo de encarar a vida. Indy riu-se. Mais tarde. se alguma jamais existiu.Assim. . . e grupos de faias ladeavam ambas as bermas da estrada. .Fora da convenção. Onde habitualmente os esperamos. lentamente. ela disse: . o inesperado torna-se no essencial e não na excepção.Está a pensar desistir da escavação. .A aldeia não tardou a ficar para trás deles. . Os timbres são fora do ritmo. fundir o que é conhecido com o que não passa ainda de uma possibilidade. .Parece que o teu amigo Jack apareceu em má altura. .Temos um padrão básico com o qual devemos trabalhar. Pelo menos. ainda bem que veio. chegou na hora H. Nunca pensei nisso nesses termos. arranjamos um apartamento para os dois.Partilhávamos o mesmo dormitório no colégio. Diz que está A tornar-se demasiado perigoso permanecermos aqui. Deirdre teceu um comentário à noite fria e ao cheiro fresco a terra e floresta. . nesse sentido. talvez. . .Nesse caso.Qual expressão? .Tem algo a ver com a música dele. Entendes? 113 Deirdre anuiu. Era o único tipo do dormitório com quem senti que conseguiria viver na mesma casa. Deirdre lançou-lhe um olhar de soslaio. Estudava economia mas tocava também jazz.Olhou para ela. .Penso que sim.Talvez tenha razão. Algum tempo depois.Como encara ele a vida? . o que Lhe moldava a vida. .Falaste com Joanna esta noite? . é assim que o encaro.Não.

.Não posso acreditar. – Tenho a certeza de que foi muito mais excitante do que o meu. como que ponderando no que responder. Mas é típico de Jack. . .Há muito mais. Disse-lhe depois quem era o actual proprietário e quanto Powell pagara por ela.. . embora tivesse tentado evitar qualquer referência ao relacionamento deles. Por que haveria Powell de me querer matar antes de eu te conhecer? . Penso que está na hora de regressarmos. Recordo-me do que Joanna disse naquela noite no restaurante sobre a tua experiência na Grécia. e tal facto fê-la ponderar se o aparecimento dele aqui não seria mais do que uma visita amigável. Deirdre parou no meio da estrada.Conta-me mais coisas.Oh.inquiriu ela.Oh? Que tipo de novidades? Indy estacou.Sabias da chegada do Jack? .Claro. Indy tomou-lhe a mão e recomeçaram a andar. Mencionou uma mulher de nome Dorian e. 114 . qualquer dia falo-te dela. Contou lhe sobre aquele incidente com aranhas numa caixa de chocolates.Tinha novidades para me dar. .Só veio para te ver? .Não te contei porque não sabia se estava relacionado contigo. É. Caminharam de novo em silêncio.Tenho que falar com Joanna . .Não sabemos se foi ele. Esta Omfalos. e o outro com escorpiões no seu quarto. . .Por que não me contaste isto antes? . a loja de animais que o pai dela antes possuíra.Indy informou-a que Shannon descobrira a origem das criaturas..Queres ouvir outra história? . O meu sonho estava correcto. . Ouviu contar como quase perdera a vida e como inadvertidamente descobrira a Omfalos.E está? .Não sei. . Por que haveria Joanna de lhe passar a loja de mão beijada? . .. O cascalho estalava sob os seus pés. . cepticamente. . Deirdre percebeu.Receio bem que sim.Não sejas modesto.disse ela.Parece-me fascinante. Vamos. Na história sobre a Grécia. .Quero saber tudo sobre o teu passado .Não.afirmou Deirdre. Bem. pelo modo como Indy falou. . . não sei. que tinham sido amantes e que ela o desapontara. Deve tratar-se de um erro.Também eu. .Ele tentou matar-nos a ambos aqui. Indy mencionara que Jack Shannon aparecera inesperadamente em Delfos.

. sei como deve ser.Indy. estou com medo. Deirdre escutou um ruído mais a frente. 116 . e o corpo de Indy ficou rígido.Padre Byrne! .Deirdre? Professor Jones? . Talvez fosse apenas um animal esgueirando-se na berma da estrada. corrigiu-se.. Indy voltou-se lentamente e seguiu-lhe o olhar. Deirdre soube de imediato de quem se tratava. 115 Mas.disse Indy. .Espero que não penses que Joanna é responsável por aquilo que aconteceu aqui. . não é. sombriamente.perguntou Byrne. num riso profundo e amigável.As suas sombras desenhadas pelo luar alongavam-se na estrada. quando ele falou. . . Verás . . Nesse instante.Tinha os punhos cerrados e colocou-se na frente dela. .Não. As árvores eram espessas. como poderia. O luar incidiu lateralmente no rosto do indivíduo e reconheceu o velho sacerdote. desta vez mais distinto. . Estacou.Meu Deus. . Deirdre escutou o som de novo. Vim dar um passeio e deparei convosco. Alguém se aproximava. mas que também está a ser vítima.Lamento ter-te envolvido nesta confusão. e o pálido luar emitia sombras na estrada. Adrian Powell? .indagou ela.inquiriu Indy. .murmurou Indy.O meu palpite é que ela sabe mais do que contou a qualquer um de nós.Quem é? .me assustar? Posso ser um padre. .disse Deirdre. A culpa fora dela. Ela abraçou-o enquanto ele lhe afagava o cabelo. Passos. Quem quer que fosse podia avistá-los à luz do luar.Depois.Pensamos que poderia ser outra pessoa.O que é? . . Deirdre conteve a respiração. . pelo menos. Nunca deviam ter deixado a casa. . Uma forma negra surgiu das trevas. numa noite bonita.Queres dizer.Desculpem se os assustei. Deirdre abanou a cabeça. A culpa é minha. . Mas agora era tarde de mais.a visão de uma moça beijando o seu namorado. .Quem está aí? .Vai correr tudo bem. Estavam tão envolvidos um com o outro que pensei seria uma pena interromper. um homem vestido de preto. . Ela detectou um ligeiro movimento junto das árvores.Ainda bem que é o senhor . deslocando-se ao longo das sombras profundas na berma da estrada.Ou.Espero que nós não o tenhamos assustado .Não consigo compreender nada. mas sei o que é um beijo dado nas trevas. . O padre de cabelos brancos riu-se.

não obteve grandes resultados. ouviu vozes que provinham das escadas.Não acredito. diga-lhe. Passou as mãos pelo rosto. . não se preocupe. .Estou a ficar tão esquecido quanto Milford.Os olhos azuis-pálidos de Milford focaram para lá do seu ombro.Oh. Mesmo recordando-lhe que Indy se despedira dele antes de partir. Aguardou. Enquanto esperava. . . . Tinha de encontrar Indy para Lho entregar. Shannon percebeu que a razão pela qual Milford não lhe dera a mensagem fora porque esta se varrera já da sua mente. poderia contar-lhe que Milford passara pelo apartamento no mesmo dia em que o telegrama chegou. Milford aceitou que Indy partira.Isso não foi obra minha. avançou no corredor e espreitou por cima do corrimão. no caso de ele querer que lhe entregasse alguma mensagem.. Quando ninguém respondeu.CAPÍTULO XVI REVELAÇÕES Shannon despertou com um salto. . Simultaneamente. mas depois decidiu tentar o quarto de Deirdre. Foram necessários diversos minutos para convencer o velho professor de que Indy tinha viajado. Por fim. .Sim.. Inclinou-se e começou a enfiá-lo sob a porta. Milford voltara-se e ponderara nas palavras de Shannon. que estão a tentar contrariar os seus e os meus esforços.Era realmente triste. Nove e meia. Nenhuma resposta. mas Shannon só lhe avistava as costas. Eu próprio lhe direi. o qual chegara depois de Shannon já ter decidido ir a Escócia. Pegou no telegrama e dirigiu-se ao quarto de Indy. Shannon seguira Milford até ao corredor da entrada e dissera-lhe que ia viajar para a Escócia para se encontrar com Indy. 117 Joanna falava com um homem.murmurou. . O telegrama! Olhou para o relógio junto da cama. Foi trabalho do bom padre Byrne e dos seus jovens fanáticos. Duas figuras conversavam no fundo das escadas. Dormira praticamente durante duas horas. Levantou-se da cama e abriu o estojo do trompete. Balbuciara qualquer coisa que se assemelhou a uma imprecação em inglês medieval e fora-se embora. Bateu à porta. . Por baixo do forro de veludo estava um telegrama remetido de Nova Iorque para Indy.Se estavas tão interessado em encontrá-lo. por que fizeste explodir a caverna? .Raios . Atirou o telegrama para cima da cama e vestiu-se.

Byrne ergueu uma mão. lamento o que se passou com os vossos quartos.Por favor. o que faria com esse tal pergaminho de ouro se o encontrasse? A pergunta surpreendeu Indy. 118 . Deirdre olhou para Indy. Este encolheu os ombros como que dizendo que outra alternativa tinham? Cerca de um minuto depois. Encostou-se á porta. com pessoas vasculhando os quartos como se tornara ali habitual. . Podia ser importante e. Enfiou o telegrama na algibeira e saiu em silêncio para o corredor.Há de lamentar isto.Atravessou a sala de jantar e saiu para a rua. . Byrne fez sinal com a cabeça na direcção da aldeia.Diga-me então.murmurou.Deixa Deirdre em paz. Joanna subiu praticamente as escadas a correr. .Padre. nunca deveria ter tentado me defraudar. Byrne abrandou um pouco. E conversar. O homem riu-se.. Entreabriu ligeiramente a porta e viu Joanna junto das escadas. não compreendo . Podemos tomar um chá. Nesse momento. mas sim de alarme. Não era um aperto de afecto. Preciso desse pergaminho e vou consegui-lo de uma maneira ou de outra. .Onde diabo irá ela? . podia perdê-lo. Joanna atravessava a sala de jantar e dirigia-se para a porta. mas necessitava de ter a certeza de que ainda não o tinham encontrado. Onde diabo anda Indy? Levantou o telegrama na mão.Conhece Adrian. e Shannon apressou-se a regressar ao quarto.Vamos até ao presbitério. .Acredite no que quiser. . Tinha de encontrar Indy e contar-lhe sobre o padre Byrne. mas havia agora algo mais premente com que se preocupar. INDY . ouviu passos no corredor. A cabeça dele oscilou. .disse Deirdre. . Caminhou alguns passos à frente deles. A propósito.MÁS NOTÍCIAS STOP OMFALOS ROUBADA STOP MARCUS. padre? . . Indy sentiu a pressão da mão de Deirdre no braço. e Shannon reconheceu Adrian Powell. espera até chegarmos para que possamos falar de forma civilizada. fechando a porta no momento em que Joanna virava a esquina. Joanna esbofeteou-o com força. Abriu-o.Se se preocupasse assim tanto com a vida dela.Raios. como que indicando o caminho.perguntou Indy. Indy não ficaria satisfeito quando soubesse esta novidade. . . e desceu as escadas atrás dela.

Campbell vai interromper por agora a escavação. Campbell. foi como se a conversa não tivesse sido interrompida. 119 uma determinação que dizia que nada o impediria de levar a cabo aquilo que considerava a sua missão.Deus por cima. o fogo por baixo . . .. seria uma descoberta arqueológica surpreendente. Indy detectou um brilho nos olhos do velho sacerdote. . . uma nova força sobre o mundo? Indy sorriu.Digamos que acontece. . Preocupava-se que eles pudessem encontrar algo que colocasse uma luz positiva sobre o paganismo. Mas. não estou a ver isso acontecer.Talvez seja melhor. .Não daria à fonte de poder demoníaca do mago uma nova vida. ainda não pensei nisso.Para ser franco. Indy pensou que não era isso o que Byrne queria ouvir. assim.Bom.Padre.Até certo ponto. professor. .Transformaria a lenda em realidade . um crucifixo pendia na parede. o trabalho do demônio tal como ele o via e. .Alguém tem de se preocupar. Se quer saber a minha opinião.comentou Indy.Tal como disse.afirmou Deirdre. Primeiro que tudo. Por breves instantes. essa expressão desapareceu e Byrne sorriu. Por cima desta. Seguiram por um caminho que os conduziu a uma casa de tijolo de dois pisos.E se as provas que encontrasse confirmassem de alguma forma que Merlin possuía. Depois. efectivamente. Penso que a dra. denegrisse o Cristianismo. Mas não é uma questão relevante nesta altura. O facto de ignorarmos o mal não o faz desaparecer. e entraram numa sala de estar onde um fogo ardia fraco numa lareira de pedra.insistiu o padre. Byrne ficou em silêncio e nenhum deles proferiu uma palavra até alcançarem os limites da aldeia. muito honestamente eu não me preocuparia com isso. algo que nunca vira antes. o que significaria para si encontrar o pergaminho? . abriu o portão e deixou-os passar na frente dele. compreendendo finalmente onde o velho sacerdote queria chegar. O soalho de madeira apresentava-se bastante polido e um espesso tapete oval jazia em frente da lareira. Byrne pousou a mão sobre o portão de ferro quando alcançaram o presbitério junto da igreja. uma obsessão. Isso não alteraria por completo a forma como vemos o mundo? . independentemente disso. poderes sobrenaturais? O arqueólogo encolheu os ombros e interrogou-se por que estaria Byrne tão interessado em Merlin e nas escavações. . Ficaria feliz por participar nesse acontecimento. . essa história de Merlin ser o filho do diabo e virgem é pura fantasia. Continuaria a não constituir prova de que o homem Merlin empreendeu tudo o que dizem a seu respeito. . Quando voltou a falar. a decisão caberia à dra.

Byrne parou e observou a lareira, como se a visse pela primeira vez. - Algumas pessoas, por intentos malignos ou pura ignorância, podem alimentar as chamas do inferno, professor. Apareceu uma governanta, e Byrne fez-lhe sinal para que lhes trouxesse chávenas de chá. Indy sentia curiosidade em saber o que o padre sabia sobre Powell, e esperou que ele começasse. Quando se tornou aparente que Byrne estava à espera do chá, Deirdre contou-lhe o que se passara na pensão. O padre escutou com atenção, e depois fez-lhes algumas perguntas sobre o incidente até o chá chegar. - Agora, em relação a Mr. Powell. - Byrne fitava o chá fumegante e mexia. Tinha as espessas sobrancelhas brancas contraídas e afundava-se na cadeira como se carregasse um enorme fardo sobre os ombros. - Depreendo que vocês já se aperceberam que ele não é o homem que a maioria das pessoas acredita que ele é. Penso que se encontra aqui em Whithorn e podem ter a certeza de que ele é o responsável pelos vossos problemas. - Como o conhece? - inquiriu Indy. Byrne reflectiu na pergunta. Levou tanto tempo a responder que quase pareceu a Indy que o padre inventava uma resposta. - Nos últimos dez anos, tenho-me interessado pelos vários grupos de druidas existentes na Grã-Bretanha - começou. - Ouvem-se muitas histórias, e queria chegar a conclusões por mim mesmo. A maioria destes druidas são indivíduos desorientados, pobres almas que sofrerão pelas suas vidas instáveis. Mas são relativamente inofensivos. Bebericou o chá antes de prosseguir. - No entanto, existe um grupo que considero muito diferente dos outros, e extremamente perigoso. Chamam-se a si mesmos hiperboreais. - Hiperboreais? - Indy olhou para Deirdre. Estava tão surpresa quanto ele. - Sim, e Adrian Powell é um deles - disse Byrne. - O líder do grupo. - Padre, o que quer ele? Eu quase morri na caverna e Indy quase se afogou. 120

Byrne não hesitou em responder. - Anda atrás do pergaminho. Tal como vocês. - Então, também sabe da existência do pergaminho. - A voz dela era baixa. Byrne tossiu, e fitou a sua chávena de chá. - Há muitos anos, ainda antes de eu saber sobre os hiperboreais, ele veio ter comigo para me fazer perguntas sobre velhos registros que pudessem estar relacionados com a lenda de Merlin. Freqüentava nessa altura a Universidade e disse que era um trabalho de pesquisa para um curso que estava a tirar. Tentei persuadi-lo a escolher outro tema, mas apenas esse parecia despertar-lhe o interesse. Por fim, pedi-lhe que se fosse embora, mas regressou no dia seguinte e, por alguma razão, mostrei-lhe a carta. Mesmo nessa altura suspeitei que a sua insistência se devia a algo mais do que simples interesse, mas não o consegui dissuadir. A carta concedeu-lhe ainda maior ímpeto para continuar a sua pesquisa.

Indy achou estranho que o sacerdote tivesse cedido à curiosidade de um aluno universitário. Interrogou-se se a história estaria bem contada. - Afinal, o que quer Powell? - Poder. Poder para governar e controlar. Sabem, os hiperboreais são homens, e algumas mulheres, que já são poderosos ou ricos, ou ambas as coisas. São banqueiros, generais, legisladores e nobreza, e todos partilham o objectivo de impedir a formação da Commonwealth britânica. Encaram tal facto como o primeiro passo para a decadência do império britânico. Mas, impedir a Commonwealth será apenas o primeiro passo. O principal objectivo de Powell é expandir o império do seu próprio poder, seja a que preço for. Indy abanou a cabeça, perplexo. - Como pode ele pensar que um pergaminho de ouro o auxiliará nos seus planos? Byrne dobrava e desdobrava os dedos. - O demônio atinge melhor os seus intentos quando os seus processos desafiam o entendimento. O velho sacerdote ergueu-se e caminhou de um lado para o outro na frente deles. - A minha investigação sobre os hiperboreais revelou algo interessante. Eles acreditam que este pergaminho está de alguma forma relacionado com uma pedra antiga e demoníaca, e que aquele que levar a Stonehenge a pedra e o pergaminho será detentor de grande poder. - Como descobriu isso? - inquiriu Indy. Byrne ignorou-o. Deirdre abanou a cabeça, em descrença. 121 - Será que Joanna tem conhecimento destes factos? Indy tinha a sensação de que Joanna sabia muita coisa sobre Powell. Assim que saíssem dali, iria confrontar-se com ela. - Ele acredita que se transformará em Merlin, ou qualquer coisa do gênero? perguntou Deirdre. - Ele não quer ser um Merlin. - irritou-se Byrne. - Quer ser Adrian Powell, primeiro-ministro da Inglaterra, uma Inglaterra com firme controlo sobre o mundo, um poder governado pelo agente do demônio. - Que pedra é essa que referiu? - inquiriu Indy. Nesse instante, Joanna surgiu na porta da cozinha. Deve ter entrado pela porta dos fundos; estivera à escuta. - Sabe bem que pedra é, Indy. É a Omfalos. E Adrian já a tem em seu poder. O rosto de Indy ficou pálido e a sua boca abriu-se. - De que está a falar? A pedra está num museu em Nova Iorque. Joanna avançou para a sala.

- Para ser honesta, Indy, a verdadeira razão que me levou a contratá-lo foi a Omfalos. Tinha esperança que o conseguiria persuadir a convencer Marcus Brody a mudar a pedra para uma localização mais segura. Mas agora é tarde de mais. - Marcus? - Sim. Há um ano que trocamos correspondência. Cheguei a viajar até Nova Iorque para lhe rogar pessoalmente. Disse-lhe que, enquanto a Omfalos estivesse em exposição ao público, estaria em perigo. Quanto mais Indy descobria, mais perguntas se lhe colocavam. - Como sabia que Powell ia roubar a Omfalos? - Porque sei sobre os hiperboreais. Eu própria fui um deles até me aperceber do que Adrian andava a fazer. - Joanna, nunca me contaste nada disto - disse Deirdre. - Então você era um deles - afirmou Indy. - Foi por essa razão que lhe deu a loja de animais do seu marido? Joanna olhou para Deirdre, para Byrne e depois para Indy. - Está bem. Eu conto tudo. - Joanna! - insurgiu-se Byrne. - Não faças nenhuma loucura. - Não, Phillip, está na altura de pôr tudo em pratos limpos. - Deirdre, Adrian é teu meio-irmão. Nasceu ilegítimo e dei-o para adopção cinco anos antes de eu conhecer o teu pai. Durante longos segundos, ninguém falou ou se moveu. Depois, Deirdre murmurou: - Meu meio-irmão? Mas quem... - Estacou no meio da frase, incapaz ou relutante de continuar. 122

Joanna apontou para Byrne. - Phillip é o pai de Adrian. - Não acredito - afirmou Deirdre, erguendo-se da cadeira. - Nunca me disseste nada. Joanna deu uns passos na direcção dela, mas Deirdre afastou-se. Parecia horrorizada. - Não me contaste nada, mesmo sabendo que eu me encontrava com ele. - Tentei manter-vos afastados. Não sabes como desejava poder contar-te. Mas tinha medo do que ele pudesse fazer. Só esperava que me desses ouvidos. - Ele sabe, não sabe? - Os olhos de Deirdre encheram-se de lágrimas. - Sim, claro que sabe. Tornar-se teu amigo foi o melhor processo de chegar até mim. Sabes, ele encontrou-me há alguns anos atrás. Contei-lhe a verdade. Senti pena dele e, quando o teu pai morreu, dei-lhe a loja de animais e apresentei-o aos hiperboreais. - Como pudeste... - Por favor, escuta-me. - Joanna suplicava agora. – Se alguma vez tivesse pensado que te estavas a apaixonar por ele...

Aliou-se a eles quando me recusei a deixar o sacerdócio por ela.Foi também ele quem descobriu para mim que o Vaticano nunca recebeu o pergaminho de ouro de Whithorn – continuou Joanna. 123 . .Conhecimento antigo e secreto. Não podemos tolerar a vossa ignorância do mal.Por que razão se envolveu com druidas? . e devolver a pedra sagrada a Stonehenge constituía um passo simbólico para esse objectivo.quis saber Indy.Acreditávamos que a Omfalos seria descoberta e acabaria por ser levada a Stonehenge onde pertence e que. suponho . . É tudo o que lhe posso dizer. .Estou ao corrente dos teus soldados. .Por desprezo e vingança . mas não é para escutares confissões. Nesse momento. Só que ao contrário. Vais todas as semanas ao paiol do exército. mostrei-lhe a carta do monge. . como que tentando manter uma certa decência.E contou isso ao padre Byrne. o mundo se tornaria melhor.Fizemos um acordo . abanando a cabeça.disse Joanna. Todos se viraram e a governanta surgiu na porta. Phillip. Essa era a nossa única intenção.Porque afirma que a pedra pertence a Stonehenge? . . a inocente. Powell era o mago malévolo e o sedutor. . . pois não? Recrutaste o teu pequeno exército de fanáticos para combaterem contra os hiperboreais ou contra qualquer outra pessoa que se intrometesse no teu caminho.Adrian não é o único elemento perigoso.Deixa-me terminar . Um homem de nariz arrebitado com luvas negras cobria a boca dela com uma mão e apontava-lhe uma faca à garganta.Não acredito no que ouço . tudo ligado à relação do homem com a terra e o espírito.O que tem isso a ver com a Omfalos? .Por favor."Tal como o rei Artur e a sua meia-irmã Morgan le Fay". . .intrometeu-se Byrne. canções e dança. mas preocupava-se tanto quanto eu em travar Adrian.perguntou Indy. Estavam todos de pé.Os caminhos dos druidas seguem a natureza. . .disse Deirdre. . Foram eles quem dinamitou a caverna e que quase mataram a minha filha. Deirdre deu o braço a Indy.Não me queria ajudar. em recompensa. O intento do druida é que a terra entre em equilíbrio e harmonia com o universo. .Os hiperboreais nunca tiveram intenções demoníacas – disse Joanna. Deirdre. Virou-se para Byrne. que permanecia sentado com o chá.perguntou Indy. a sua curiosidade espicaçada. ouviu-se um forte ruído vindo da cozinha. . a terra e o espírito. Indy avistou a cicatriz no pescoço do homem e percebeu que se tratava do mesmo que . .Ela contou-me alguns segredos druidas e. Byrne derrubou a chávena ao erguer-se. .disse Byrne. . tu ou Adrian. pensou Indy. com excepção de Byrne.Não podemos permitir que ninguém encontre o pergaminho. Envolve lendas. por esse facto. . vamos embora.afirmou Indy.

Se fosse a si. . pai.balbuciou Byrne. Então.Pai. Fornicador. Disso não tenho dúvida. mesmo assim.perguntou Joanna. é a primeira vez que vos vejo juntos. Só idiotas deixariam uma relíquia de tal poder numa vitrina de museu. Mas não é nada comparado com o futuro. Powell riu-se. Pode provocar coisas estranhas. nada mais do que o Olhos Estreitos. Powell. . . – Não escaparás às leis do Senhor. a não ser pelos olhos.Mãe e pai. O que não esperava era que eu achasse os processos deles como uma visão legítima e poderosa e que. e aprendi-a bem. . . padre.Muitos anos se passaram desde que vi a carta do monge. . Sorriu para Deirdre. O indivíduo entrou na sala. Levou-me para os druidas. querida irmã. tomaria cuidado com essa pedra. Olhos apelativos. Tem-me dado tudo o que consegui realizar. 124 CAPÍTULO XVII A CAVERNA DA MORTE Adrian Powell deslocou-se para o centro da sala. de um homem de visão. Sabe. professor. Adrian? . Voltou-se para Byrne e Joanna. seguiu-o. Veja onde me levou.Nunca . e o parceiro.Tem razão. Foi você quem me introduziu ao conhecimento. Adrian Powell passou no meio dos dois homens. e que será usada para os melhores intentos. Aproximou-se do sacerdote. de um líder. sobretudo aquela a que você aderiu. E. Assassino malogrado. aprendi a arte da necromância. de revólver na mão. . Quero vê-la de novo. . professor Jones? Posso assegurar-lhe que se encontra em boas mãos. . .rosnou Byrne. usurpasse a sua própria posição. fala de Deus.Estranhas e maravilhosas. . pensou Indy. . .O demônio fala dentro de ti . mãe. Sabem. não podemos tolerar a ignorância. "Olhos que nos aprisionavam".Perguntava sobre a Omfalos. ainda por cima.quase o afogara.Devia saber.Fico feliz por teres sobrevivido ao veneno do padre louco. Powell parou na frente de Indy. Acalenta-me o coração. Não era figura que impressionasse. Seria um modo terrível de se morrer.O que queres.

. Mata-a .respondeu Indy. O que quer isso dizer.Não. Queimei-a.Optaste pelas artes negras. e isso não tem nada a ver com os propósitos dos hiperboreais .Quer ver a garganta dela rasgada ou vai cooperar? Os olhos da mulher esbugalharam-se enquanto o padre ponderava nas hipóteses.disse o sacerdote. . . Powell examinou a vasilha e depois olhou para o padre. dra. . . Talvez mais. . . diga-nos. Powell baixou a carta.Pai.Para o bem da humanidade.Tirou uns óculos de ler e sentou-se com a carta. Powell aproximou-se dele.ordenou Powell.Eu sabia que a Omfalos seria encontrada e que aquele que a encontrasse seria meu inimigo de morte.Onde ficamos? . Indy desviou o olhar e Powell riu-se de novo. Por fim. . Este anuiu e empurrou a mulher para a frente. Joanna? O que é bom para uns é mau para outros. Vou buscá-la . . Os seus olhos hipnóticos pareciam cativá-lo. Powell riu-se. Pára. . meu pai.A Omfalos deve ser usada para o bem da humanidade. não como um instrumento de poder pessoal. Campbell? 126 .Coisa feia.Estendeu uma vasilha semelhante à que fora encontrada na caverna.Está a mentir. comprimindo ainda mais a faca contra o pescoço dela. Jones? Você é um homem terra a terra racional. Mas olhe o que encontrei no armário.Pode contribuir com alguma idéia. E tem outra.Tinha-a escondida dentro de uma caixa por baixo da cama.Cloro gasoso. por que razão esta carta nunca foi enviada ao Papa? O sacerdote mirou o filho e permaneceu em silêncio. . Voltou-se para os outros. Powell fez sinal ao Olhos Estreitos que seguisse Byrne e deixaram a sala. Indy sentiu o aroma do aftershave dele. . .Já não a tenho. Os dois malandrins. Sempre foi assim. entretanto.disse Joanna. Coisa feia. Sabia que você viria para Inglaterra e que tentaria bloquear o regresso inevitável da Omfalos ao seu verdadeiro lar. Olhos Estreitos regressou e trazia mais do que a carta.125 Powell virou-se para o homem que aprisionava a governanta. .Não concorda. reuniram toda a gente no mesmo local e vigiaram-nos. . . Virou-se para Indy. Stonehenge. .E você um homem muito perturbado .

E agora? Seguira Joanna até ali. Acabou por ficar misturada com os registos e diários da época. o meu palpite é que a escavação será produtiva. Shannon movera-se para uma janela da frente e estava precisamente a vê-la entrar na sala quando escutou uma carrinha a aproximar-se. amigos. Fica agora a saber um pouco sobre o antigo conhecimento celta.Diabos me levem . . membros da família. . . professor . O sentimento não passa daqui. Ou perdeu-se ou o monge decidiu não a enviar.. Foi pena não me ter dado ouvidos.Uma noite no esplumoir de Merlin. meu pai.Para que quer o pergaminho.As suas contribuições serão levadas em linha de conta quando decidirmos o que fazer consigo. Byrne falou. Provavelmente.Não sei.Obrigado.Tal como o padre mataria para conseguir os seus intentos. Como lhe daria prazer esmurrar o bonito rosto do membro do Parlamento.perguntou Deirdre. mãe. .Não existiam bons meios de transporte no século quinze.O que estiveste a fazer lá em casa? . . . Deslocava-se pela propriedade como se a bem conhecesse. É um mundo cruel.disse Shannon ao ver a parada de prisioneiros serem conduzidos da casa do padre para uma carrinha. e vira-a espreitar por uma janela.este só se inicia quando o comando é dado. tentando persuadi-la a unir-se à minha causa.O pergaminho contém a chave para desencadear o poder da Omfalos. .Matarias a tua própria mãe sem pensares duas vezes. Que escavação. esgueirando-se de seguida em redor da casa. Onde estava agora todo o fervor pela justiça do bom padre? Não era melhor do que o filho traiçoeiro. interrogam-se vocês. . . . pensou Indy. Ninguém sairá de lá até encontrarmos as nossas respostas. não é assim. Subitamente.Bom. Adrian? .inquiriu Indy. – Já tem a Omfalos. facto que se confirmou quando puxou de uma chave e abriu a porta. Powell era a pessoa mais detestável que Indy jamais conhecera.A conversar com Joanna. . Vamos todos passar a noite na caverna. Passei alguns dias na tua casa depois de partires e tive a oportunidade de ler o teu trabalho.Quando ela não respondeu. Aliando-se ao inimigo. . a carta esperou largos meses para ser levada. Powell? . Acredita que o pergaminho possa estar enterrado na caverna? Byrne hesitou. A nossa. . Powell acrescentou: . Virou-se para Deirdre e sorriu. Agradeço-lhe a ajuda. 127 Deitara-se ao chão e aguardara que Powell e dois comparsas contornassem a casa e entrassem silenciosamente pela mesma porta que Joanna utilizara.

. e. mais se interrogava o que estaria a fazer ali. Tentou escutar o som de vozes. era diferente. O que quer que estivesse por ali. Em Chicago. Que seria bom para o sangue. Tinham as suas divergências. já estaria a meio do caminho. seria melhor permanecer nas trevas onde pertencia. Incivilizado. Afastou-se da casa e viu em que direcção seguiu. Shannon começou a caminhar atrás da carrinha. Por fim. Caminhou vezes sem conta em grandes cidades a altas horas da noite sem pensar duas vezes. Indy salvara-o de sarilhos em bares de má reputação em diversas ocasiões. Nessa altura. Além do mais. mas não avistou nada que se assemelhasse à entrada de uma gruta. a Omfalos. Lily dissera-lhe que Indy estava na caverna e dera-lhe indicações sobre o caminho. provavelmente. Observava agora a carrinha a arrancar. Ponderou na hipótese de dar meia volta mas pensou que. Pensou de novo no telegrama. Assegurara-lhe que o passeio seria bastante agradável. Shannon alcançou a base do rochedo e encontrou a carrinha vazia. Mas não lhe ocorria nada que pudesse fazer. O local provocava-lhe arrepios. Mas a tarde ia já avançada pelo que decidira que uma cerveja ou duas no pub seria ainda mais agradável. Shannon prosseguiu. estava de alguma forma relacionada com os sarilhos em que Indy se metera. Indy era o único tipo que conhecia disposto a freqüentar os lugares onde hoje se tocava jazz. Pairava no ar a sensação de que qualquer coisa podia acontecer. Naquele momento. Quando chegou a Whithorn. . Sabia que a gruta devia ficar algures por ali. Shannon olhava constantemente para os bosques escuros de ambos os lados da estrada. Mas. espetou o pescoço e viu uma luz trêmula que emanava a uma certa altura da parede do rochedo. quanto mais avançava. Aquela pedra.Oh. aqui. não podia abandonar Indy. 128 Caminhou até onde lhe foi possível pela base do penhasco. mas nada ouviu. inferno. Apostava nisso. Foi então que afastou para o lado um ramo. Cerca de dez minutos depois.Não foi preciso muito tempo para que Shannon se apercebesse que o amigo estava realmente metido em sarilhos. Tinha quase a certeza que se dirigiam para a caverna. passara pelo pub e perguntara onde estavam os arqueólogos hospedados. e que teria de fazer alguma coisa. escutou o ruído de ramos quebrando-se algures na estrada e estacou. Não conseguia ver absolutamente nada. De qualquer forma. "O que raio foi aquilo?" Esperou. mas nunca conheceu ninguém que arriscasse a vida pelos outros como Indy. mas não fazia idéia onde. deixou de avistar a aldeia e encontrava-se em pleno campo. Fazer de herói não era exactamente o que Shannon considerava um bom divertimento.

em condições normais. Shannon teve uma ideia. lugar de esquemas. correndo em bicos de pés. que. Quando nada sucedeu. Estacou ao avistar a entrada da caverna. agachado numa forma furtiva.. respirou fundo e lançou-se a correr. Seria o tipo de trilha que. Quase esperava que um guarda surgisse vindo do nada e lhe apontasse uma arma à cabeça. e ocultou-se por detrás de uma rocha saliente. vacilou. mais uma vez. prisioneiro de um mundo que desprezava. Quando reparou nela. Chegou ao outro lado da entrada para a gruta e escondeu-se por entre os destroços. Embateu numa rocha. tocando o seu trompete. Afastou-se do seu esconderijo. esperando ser detectado a qualquer momento pelos homens de Powell. O coração batia-lhe com força. trepou. ódio. fraudes. deslizou pelo rochedo acima. escapando. . evitando praguejar em voz alta quando algum ramo estalava sob os seus pés. Mas. Powell encontrava-se afastado dos outros. Shannon aguardou. Daria tudo para estar naquele momento num palco de um clube mal iluminado e repleto de fumo.Regressou à carrinha e. muito menos à noite. nem sequer consideraria trepar durante o dia. iniciava-se a uns três metros para lá da entrada. não o viram nem ouviram. parando com freqüência. o luar imprimindo a sua sombra na parede rochosa.Era de esperar. Avistou archotes nas paredes e cerca de uma dezena de pessoas escavando na fraca luz alaranjada. . não passava de uma série de apoios para os pés e saliências naturais. De tempos a tempos. localizou a trilha que conduzia ao rochedo acima. resultante da explosão. relaxando. Despira o casaco e desapertara um pouco a gravata e fumava um cigarro. Shannon aguardou que o homem desaparecesse na caverna. Deparou então com o que lhe pareceu uma trilha que conduzia ao topo do rochedo. o local mais difícil de chegar. Continuava demasiado afastado para conseguir escutar ou ver fosse o que fosse no interior da gruta. disporia de um local abrigado com pelo menos uma vista parcial. alguém empurrava um carrinho cheio de terra e pedras até a berma do rochedo e despejava-o pela encosta. Uma cavidade no tecto da caverna. sob o luar. Se conseguisse trepar para aquela superfície relativamente plana por cima da gruta. poderia observar de lá sem a mínima preocupação. recuperou o equilíbrio e deslizou para trás de um rochedo proeminente. Amontoados de destroços resultantes da explosão encontravam-se juntos do lado mais afastado da entrada da caverna. Apressou-se a seguir pelo caminho. Rastejou. pelo que não teve alternativa. e percebeu que. espreitou para a caverna. E tudo ocorria ao ar livre. vagueando. se conseguisse lá chegar sem ser visto. na verdade. 129 Mas as circunstãncias estavam longe de serem normais. após alguns esforços. Estava completamente desabrigado. Mas ali estava ele. Caminhou passo a passo.

Sim. talvez quanto mais tempo levasse a encontrar o pergaminho. Essa era uma hipótese provável. . Joanna escavava ao longo da parede oposta. Mas. . onde se encontravam amontoadas pilhas de destroços provenientes da explosão. ocupavam-se a fazer buracos.murmurou ela. mais tempo eles vivessem. uma vala. 130 Parara de escavar e colocara-se de joelhos. Talvez nunca tivesse sido ali enterrado. todos estavam de mau humor. e ordenara que os homens presos fossem libertados e pegassem em pás. Continua a escavar.Parece-me que encontrei qualquer coisa. do grupo de Powell. Outros quatro homens. e viu que ninguém a escutara. Este pensamento ocorria-lhe no preciso momento em que ouviu Deirdre chamar por ele.A voz dela era estridente mas baixa. Durante quanto tempo pensaria Powell que eles conseguiriam continuar? A governanta de Byrne estava já enroscada num canto. . Indy olhou Por cima dos ombros. avistava-se um vaso de cerâmica de gargalo estreito. Mesmo nada.Pensas que pode estar no interior? . a cerca de um metro abaixo da superfície. Mandara dois dos seus homens retirarem a terra para fora da caverna com o auxílio de carrinhos de mão. Mostra-te ocupada. pensou Indy. . Era como se estivessem a cavar um poço. Indy iniciou outro buraco. . ou alguém o tivesse achado há muito tempo e derretido o ouro. e existia sempre a possibilidade de nunca o encontrarem. na tentativa de não despertar atenções. uma sepultura. incluindo Powell. Ninguém falava. e mais pedras e terra.O que foi? . Aproximou-se dela. para onde um dos malandrins a empurrara depois de ela ter arremessado repetidamente a pá para o chão e rogado misericórdia. uma sepultura. Quando chegaram à gruta. Powell assumira de imediato o comando.Não sei. enquanto todos os outros cavavam buracos até uma profundidade de metro e meio. encontraram Carl e Richard amarrados e amordaçados. e os progressos seriam consideravelmente retardados junto da entrada. Deirdre trabalhava perto de uma parede a pouca distância de Indy. parcialmente exposto. A boca estava selada com uma rolha e cera e só o gargalo tinha pelo menos uns vinte centímetros de comprimento. Poderia levar cerca de dois dias a baixar todo o nível do solo em cerca de metro e meio. com excepção de pedras e terra. .Nada do que se passava na caverna respeitava minimamente qualquer método arqueólogo. No buraco. Ninguém localizara nada na câmara dos fundos onde escavavam. Três horas tinham pelo menos já decorrido. Posicionou-se ao lado dela.Indy. e Byrne e os outros encontravam-se dispersos entre eles.

. .Espero que se desfaça nas mãos dele . Indy decidiu que se lhe pedissem para decifrar alguma coisa.Vejamos. . . Com o auxílio de um dos seus homens. Tinha o rosto coberto de terra e o cabelo ruivo pendia-lhe solto sobre as faces. . Mas era inexperiente com aquele tipo de material e quebrou-o em três pedaços.Powell parecia curioso e simultaneamente desiludido por não se tratar do pergaminho de ouro. . Indy aproximou-se dela e ajoelhou-se quando esta o tirou para fora. . tem qualquer coisa. alargando o buraco. .Pode ser algo importante. Os óculos estavam de novo no seu devido lugar e observava a escrita. o que temos aqui. Dirigiu-se a um grupo dos seus comparsas. Powell desenrolou lentamente o pergaminho.Vigiem-nos com cautela.disse entre dentes. sacudiu a terra do vaso e virou-o ao contrário. . o que poderá ser isto? . .Indy.O que é? .sussurrou este.respondeu Deirdre.Espero bem que não estejas a mentir. Estalou os dedos e apontou para o buraco.Já disse que não foi nada. . Indy sacou outra pá de terra para o lado e.Deirdre afastou a terra dos lados. .Vem aí alguém . quebrou o gargalo do vaso com a pá.Não digas isso . enganaria Powell intencionalmente. – Powell chamou dois dos seus homens.murmurou Indy.Penso que é um pergaminho.Não o ponhas à vista .É exatamente disso que tenho receio.Sentiste alguma coisa? Indy abanou a cabeça.Ah. 131 . irmãzinha? Powell encontrava-se atrás deles. então estás mesmo a esconder alguma coisa. . Este estalou e despedaçou-se contra a terra dura por baixo. ao ver que alguém caminhava na direcção deles. . . Powell pressionou a arma contra a nuca dela.afirmou Indy.Ora vejam. Powell não levou muito tempo a ponderar no seu próximo passo. .Nada .Dê-lhe isso .alertou Deirdre. . Ajoelhou-se e introduziu cuidadosamente a mão no interior.O que acabaste de desenterrar? . Os seus comparsas desenterraram rapidamente o vaso partido e o pergaminho. Deirdre baixou-se.Esticou o pescoço para ver o mais possível. .replicou Deirdre. bramindo uma arma. Aproximou-se de um dos archotes montados na parede. querida irmã. num movimento rápido. . Indy atirou terra para cima do vaso e retomou o seu próprio buraco no preciso momento em que um dos homens de Powell passou com o carrinho por eles.

Powell encolheu os ombros.O senhor vai ser o meu tradutor. descobrirão a verdade sobre si e os seus recrutas. . querido pai. amarrem-nos. Lutaram. . . num impulso. . Já.O espírito de sobrevivência é forte.gritou Powell. 132 Olhos Estreitos agarrou na arma e esmagou a coronha nas costas de Indy. Ou ela morre. O Olhos Estreitos sorriu para Indy ao colocar-lhe a corda nos tornozelos. Será acusado pelas mortes deles.Talvez não. um desses vulneráveis jovens soldados dará com a língua nos dentes. Está na hora de nos irmos embora. tombou para o lado. Foi quanto bastou para o arqueólogo.Atire a arma ao chão. porque o chefe da polícia irá encontrar a outra vasilha na sua casa.Não te safarás .ameaçou Byrne. Próximos deles estava Joanna e a governanta e.Trata de tudo.rosnou Byrne. mas Olhos Estreitos agarrou nos pulsos de Indy com as mãos. . – Fez sinal com a cabeça para Olhos Estreitos. A única esperança que lhes restava era que a vasilha já estivesse vazia ou defeituosa. Sei que o seu Latim é excelente.. Quando Indy o voltou a ver.De rosto no chão! . Estou certo que. derrubando-o para o solo. . Esfregou a cara de Indy na terra e. .perguntou Byrne enquanto os homens executavam as ordens. compreendeu o que Powell destinara para eles.Okay. .O que vais fazer comigo? .Powell apontava o revólver à cabeça de Deirdre. esmagou os pés contra o peito do homem. um pouco mais afastados. Libertou as mãos.Não se mova. Indy deixou cair a arma. e retrocedeu oscilando a arma de um lado para outro. amarrou-lhe os punhos atrás das costas e depois aos tornozelos.As leis de Deus são mais fortes. Os pulsos aos tornozelos. Mas. Carl e Richard. Toda a gente menos o padre. Powell emitiu um sorriso trocista. submetido a uma certa pressão. . O Olhos Estreitos foi apanhado desprevenido. Powell riu-se. . . Indy cuspiu terra. Jones! . .Levarei isso em consideração. com o auxílio de um dos outros. Vai também ser o meu bode expiatório. Tão forte. mas Indy dispunha de um melhor âmbito de movimento. O vilão pousou a vasilha de cloro gasoso sobre uma rocha plana a menos de trás metros do local onde ele e Deirdre estavam amarrados. Recolheu as pernas e. se efectuarem uma investigação rigorosa. Olhos Estreitos desapareceu de vista. Indy lançou-se à arma que o indivíduo tinha no coldre e conseguiu retirá-la. .Ele nunca acreditará nisso .

Como quiser. Essas cenas eram próprias dos filmes. Tinha de existir um outro orifício. mas sabia que não conseguiria levar o plano avante e sair vivo.Powell baixou-se e apanhou os fragmentos do pergaminho que caíram quando Indy tentara escapar. Não é o único que sabe latim. mas sabia que devia estar perto. e agarrasse em Powell pelo tornozelo quando este caminhasse de um lado para o outro.Não. desceria e libertaria toda a gente. em busca da abertura. Podia ver a luz dos archotes.Leia. Dê-me isso. mas receio que me seja lançado um feitiço pelo que não me atrevo a enviar a carta ou o pergaminho. Quando alcançou o topo do rochedo. esgueirar-se-ia despercebido ao longo da parede. padre. O mensageiro do Vaticano chegou hoje. Esse era o tipo de coisa que lhe agradaria fazer. mas nada mais. Perdoai me pelos meus . observando a caverna lá em baixo. Powell suspirou. avistando então o buraco do outro lado. era real. Encontravam-se a trabalhar numa zona muito afastada da entrada. Byrne tossiu. . Desarmava-o e todos os outros largariam as armas quando vissem o chefe cativo. Passou-os a Byrne. Mas o que se estaria a passar? Inclinouse para a frente o mais que conseguiu e pôs-se à escuta. Agora. Quando tivesse a certeza de que tinham partido. Talvez se lançasse para um dos buracos. . Não conseguia avistar Powell. enquanto Olhos Estreitos terminava os seus preparativos com o gás venenoso. Aqui. .Está bem. Um dos homens devia estar perto dele com um archote. 133 Ponderou na hipótese de voltar rapidamente à aldeia em busca de auxílio. ". Recuou da berma da cavidade e rastejou de gatas pelas trevas. estendera-se ao lado do orifício no tecto da gruta e aguardara. Por fim. porque incidia luz por detrás dele. Shannon imaginou-se entrando pela frente da caverna. Tudo o que ouvia era o som ocasional de uma pá embatendo numa rocha ou o crepitar das rodas dos carrinhos de mão. Shannon encontrava-se estendido no solo.Cinco meses passaram desde que escrevi sobre o pergaminho de ouro. Desejou que Powell e os seus amiguinhos se fossem embora com o que quer que fosse que tinham encontrado. Daquele ângulo podia avistar as pernas de Byrne e viu que este segurava algo na mão. mas recordou-se então de como Indy lhe contara ter escapado ao gás e à explosão. Enquanto todos escutavam Powell. Shannon parou para descansar junto de uma rocha. pelo som da voz. Mas agora terá de morrer com os outros. demasiado real para ele. . Podia ver Indy e Deirdre deitados no chão e as pernas de Joanna. passando directamente por baixo de uns archotes.

134 Por momentos. . . O Senhor julgará a minha culpa ou inocência. Eu ia contar-te. . Sabes. Mas. Shannon levantou a cabeça e olhou para trás. o pergaminho..afirmou Joanna.disse Joanna. é uma pena as coisas não terem corrido de forma diferente. quando o gás chegar.actos. ainda os indivíduos não tinham dado uma meia dúzia de passos quando Indy escutou um grito de terror. mas para a minha irmã no convento de Amesbury. o padre Byrne desaparecera e. . . Ter-se-ia enfiado demasiado no orifício e alguém o tivesse localizado? Ergueu-se.Não lhe dês ouvidos . .Adrian. mas estacou ao ouvir um grito. . Já não tinha de se preocupar com Powell ou com a polícia.Contém a respiração.. não compreendeu o que se tinha passado. com instruções para que seja ocultado no mais secreto dos locais dentro do convento. . querida. Indy levantou a cabeça quando Byrne disparou para a entrada da caverna. . Não irá Para o pontificado. Assim. tropeçou num buraco.E assim os pecadores são castigados .suplicou Deirdre.Vamos.disse Powell quando os dois comparsas regressaram. .Será perfeito. Um dos homens de Powell. poderíamos nos ter tornado grandes amigos e aliados. rápido na perseguição. A sua missão de salvar o mundo das palavras de Merlin terminara.replicou Indy. praguejando em voz alta. Sorriu. com ele.Amesbury. com gritos e correrias. As palavras que Merlin escreveu são deveras surpreendentes. nem todo o amor requer união física. Vejo-me obrigado a enviar o pergaminho de ouro para o lugar mais próximo a que ele verdadeiramente pertence.Querida irmã. aquele que busca o pergaminho de ouro de Merlin deverá procurá-lo lá. Mas Powell ignorou-a e voltou-se para o Olhos Estreitos. mas vejo-me obrigado a proceder desta forma. respira profundamente e tudo terminará depressa .Adrian. a poucos passos de Stonehenge . tristemente. toma consciência do que fazes . e a humanidade tomará conhecimento delas em devido tempo. Desejo-lhe uma boa viagem.disse Powell. Quer de forma intencional ou acidental. mãe.Lamento que tenha de terminar desta forma. Adeus. seja ela certa ou errada.Deirdre. pronto a correr. . Só depois tomou consciência de que o padre se devia ter precipitado pelo penhasco. Verdade que sim. Um outro estatelou-se por cima dele. Içaram-se para fora do buraco e correram na direcção da entrada. Reza por um milagre. não faças isto ." . um som profundo e horrível que enfraqueceu e morreu. para Deirdre. Se não me tivesses desprezado. originou-se um verdadeiro caos. Subitamente.

ao mesmo tempo que dizia qualquer coisa.Tira-nos daqui. Mãe Joanna.Mãe Joanna. No início pensou tratar-se do efeito do gás. . atirou-a para cima do carrinho meio cheio de terra e abafou-a o melhor que conseguiu. Rápido. Alguém que nos salve. os pulmões e bochechas cheias de ar. Puxou da navalha de bolso e cortou a corda que atava os pés e mãos de Indy. sem hesitar mais um segundo.Mãe e filha fizeram as suas despedidas. . do tecto. Não conseguiu evitar de inalar algum. Agarrou na primeira pá que encontrou. Nesse instante. entendeu o que ela dizia. Deixou entrar nos pulmões grandes golfadas de ar fresco e puro. sentiu-o arder no interior do nariz. repetidamente. e Shannon deixou-se cair no chão de mãos e joelhos. Meu Deus. Escutou um ruído quando o gás sibilou para fora da vasilha. e conteve a respiração pela última vez antes de o cloro gasoso contaminar o ar. um deus. Viu de imediato que era tarde demais. Depois. Ouviu os dois guardas tossindo e Deirdre gemendo e choramingando. Com um último impulso. Ajoelhou-se junto de Indy e pousou-lhe uma mão no ombro. avistou Powell e os seus homens partirem. Uma criatura. sabia exactamente o que fazer. Shannon. Shannon virou-se para Joanna. empurrou o carro por cima da berma do penhasco. uma figura caiu do céu. com faces como balões. . pensou nos outros. Joanna estava morta. 135 Ergueu-se com dificuldade e regressou apressadamente à caverna. estariam todos mortos? Tossiu e sufocou devido ao cloro gasoso que permanecia no ar. Tinha de os ajudar.disse uma voz fraca. . Depois. Mas. de algures. estava com dores. Da sua linha de visão do solo. Comprimiu os olhos contra o cloro. Indy libertou-se da corda e aproximou-se para ajudar Deirdre.Vezes sem conta. Apercebeu-se então de quem se tratava. . 136 CAPÍTULO XVIII AS ENSEADAS .Indy! Nenhuma resposta. quando lhe cortou a corda. Indy recusou-se a dizer adeus.Shannon . conduziu o carrinho por entre os buracos e montes de destroços para fora da gruta. Este desapareceu na noite. Pegou na vasilha com a pá. mal podia acreditar.

Talvez ela não quisesse viver. O homem estava demente. Se alguém se interrogava o que estaria o padre a fazer na caverna.É melhor irmos.Dá-me mais um minuto. . antes de morrer. Mas decidiram que.Pergunto a mim mesma se.Como está Richard? . mal o funeral terminasse. mas ela puxou-a. Tal era irrelevante. para além da dra. . cruzou os braços e olhou em frente. 137 Deirdre voltou-se da sepultura. Quando se aproximaram do portão do cemitério. mas algo tinha de ser feito. ninguém perguntou a Indy. que partira na frente deles. e nem ele nem Deirdre estavam em grande forma. Indy sabia que muitas destas pessoas estiveram ali no dia anterior para o funeral do padre Byrne e que poucos. Indy não sabia o que responder. Indy. e era perigoso.murmurou Deirdre. o padre Byrne precipitara-se do rochedo ao tentar escapar.perguntou Deirdre. Isto é. . Campbell. . Ocasiões havia em que os seus pulmões ainda ardiam e as cabeças lhes doíam.Não penses nisso. Indy afastou-se um pouco. Podia estar viva. Não porque receassem o que pudesse suceder se ele encontrasse o pergaminho de ouro e o unisse à Omfalos numa qualquer cerimônia druida em Stonehenge. . .Não consigo deixar de pensar.Os olhos de Deirdre encheram-se de lágrimas quando a urna com o cadáver da mãe foi descido para o solo no cemitério de Whithorn. ela terá visto Jack que nos vinha salvar . Só de pensar que ocupava uma posição de influência no governo britânico e que o seu objectivo era subir ainda mais fazia Indy estremecer. Indy avistou Carl que esperava por eles. Corria o rumor de que foram provocadas por uma explosão de gás utilizado nos trabalhos na caverna. Tinham passado três dias desde o incidente na gruta. . estavam a par das reais circunstâncias das mortes do sacerdote ou de Joanna. seguiriam para Amesbury a fim de se juntarem a Shannon. Joanna Campbell falecera.disse ela. se alguns. tinham de impedir Powell. e Amesbury era o local apropriado. pensou este. .Estou pronta.Desejo-lhe as melhoras por nós . Penso que ele foi o mais atingido. Indy tomou-lhe a mão quando começaaram a afastar-se.Já sabe? A investigação terminou. A cerimônia terminou e os aldeãos começaram a dispersar. . A razão era simples. Mais um dos seus que se reunia aos locais. Não sabia bem o que iriam fazer. . .Ainda de cama. Este anuiu e depois virou-se para Indy.

boa ou má. O compartimento ficou em silêncio. Mas era difícil encontrar as palavras correctas.Mais uma razão para chegarmos a Amesbury o mais depressa possível . . o que se passa? .Indy . Do relatório do chefe de polícia não consta nem uma palavra sobre ele.Não.Obrigado. . Pode vir a precisar. 138 . Sentiu-a retrair-se. Indy colocou-lhe um braço em redor dos ombros e afastou-lhe uma madeixa de cabelos ruivos do rosto. Negação. Sabia que ela sofria ainda com a morte da mãe. quero dizer entre nós.Já consegues avistar a aldeia? Indy abanou a cabeça.Não sabia que havia alguma coisa entre nós. a enseada não era uma terra baixa. Era pesada.O que é? . completamente indistinta do resto da enseada.murmurou. Sabia que Deirdre poderia interpretar mal o que lhe dissesse. tudo não passava de uma paisagem vasta e estéril. . afastar-se dele. Entregou-lhe qualquer coisa embrulhada em papel e atada com um fio.chamou Carl e correu atrás dele.Cá para mim. Queria dizer-lhe que pouco importava o que se passara entre eles. o que decidiram? . mas tinha de haver algo mais. Carl. Já esperava isso. com excepção de que era marginada por dois rios e uma guarnição de colinas.Deirdre. elevando-se a cerca de uma centena de metros acima do nível do mar. Estou preocupada. . Tinham atravessado Salisbury Plain. . Campbell. e parecia ser uma arma. Estamos quase lá. É um caso de o baixo ser alto. leve isto consigo.Começaram a afastar-se. . . Para Indy. Indy anuiu. ou pior. .O chefe da polícia encontrou duas vasilhas de cloro gasoso na casa do padre Byrne.Por favor. Deirdre inclinou-se para a frente.. assumir que ele dizia uma coisa mas que pensava outra.Não te estejas a enervar.Não. . . e afirma que o sacerdote é o responsável pela morte de dra.Uma Webley 455.Acabei de te dizer.Nada sobre Powell? Carl abanou a cabe?a. mais ansiosa ficava. . antes um planalto. Suspeitava que tinha algo a ver com o relacionamento dela com Powell. olhando pela janela enquanto o comboio avançava pela enseada ocidental. . . Apesar do nome. Ela evitou o olhar dele. e assustada. Pelo que nada dissera e a barreira permanecia. .Não consigo evitar. pensou Indy. Quanto mais se aproximavam de Amesbury. é tudo política.

Pestanejou. . Odeio-o.proferiu. a boca. ele sabia.Talvez possamos encontrar Jack.Quem me dera que tivesse tudo realmente acabado. tu e Adrian. e Indy sabia que ela compartilhava da sua paixão.E depois? Irmãos e irmãs beijam-se.Deirdre.O quê? . Podemos não nos conhecer há muito tempo. Esquecer tudo isto. Ele desejava-a. e tu também o sabes. Esquece esse assunto. Ela abanou a cabeça. . . Os seus olhos brilhavam. e. Meu Deus. . .Deirdre. . .Amo-te.. queria fazer amor comigo. Quando falou.Não tem importância. Indy. Mas queria saber o que Shannon descobrira. Indy. e regressarmos a Londres sem voltarmos a pensar em Adrian.Penso que existe.Não te preocupes . sim. Mas também não me contou. .. 139 . .Tem. Mas beijou-me.Não tenho um bom pressentimento em relação ao que se vai passar. É um homem horrível. agora terminou. Como podes dizer isso? Como podes me amar? Sinto-me tão suja. . intoxicando..Não interessa. Acabaste de dizer que não fizeste.Mmmm? . Sabia e.Mas perguntou a si mesmo o que significariam aquelas palavras. Foi o que lhe disse ao deslizar os dedos pelos cabelos dela. mesmo assim.. é isso. e ainda não consigo perdoar-lhe por isso.Verás. claro que não. combatendo as lágrimas.Estou apaixonado por ti. . . o seu perfume invadindo.Mas não fizeste. Seguramente que não fora a última vez que viram Powell. . Por isso Joanna era tão severa em relaçã o a ele. . Deirdre lançou os braços em redor do pescoço dele e deitou o rosto no seu ombro.. As suas línguas bateram-se em duelo. – Indy sabia que isso não era exactamente verdade. Indy riu-se. . o queixo.Não. Esquecer era aquilo que ele mais desejava. mas algo de especial se desenvolveu. . Ele era meu meio-irmão. com maior convicção do que realmente sentia. Ela mordeu o lábio inferior e olhou para ele. Fico enojada só de pensar nisso. a sua voz era abafada. . Indy.Raios. Jones beijou-lhe o pescoço. mas que estava distraída.Daquela forma não. . Deirdre afastou-se ligeiramente. Terminará tudo em breve.Indy? . absorta pelos acontecimentos que os rodeavam.

mas garanto que Jack sabe cuidar de si mesmo.Isso é um pedido? .Traçamos um plano.Vou dizer-te uma coisa..Não encontrarão um quarto . creio que é. e ela parecia igualmente surpreendida. uh.Óptimo . . um garoto de cabelo louro farto e orelhas 140 salientes veio até eles e perguntou-lhes se desejavam uma viagem de charrete para as ruínas. Um homem de idade encontrava-se sentado por detrás de um balcão de madeira num átrio pequeno. .murmurou Indy. contigo. . . Bebia chá. constituindo o único contraste sob o céu cinzento e o planalto castanho uniforme.Só um quarto? .disse Indy.Tocou-lhe no queixo. .Tem algum recado para Henry Jones? . .Pode não ser o melhor espécimen físico. .Quando regressarmos a Londres. Temos um quarto disponível para o fim-de-semana.Está com sorte.Miúdo esperto . . Ao desembarcarem. . . Nem acreditava que tivesse acabado de dizer tal coisa.Foi tudo o que disse. .Sim. Ela riu-se suavemente. . Parecia ter uns onze ou doze anos. . Localizava-se numa concavidade do planalto onde o rio Avon rasgara um desvio na sua rota através do Sul de Inglaterra.Agora não . a mais doce palavra que Indy jamais ouvira. Fora construída no local de antigas ruínas de pedra. vermelho ou preto. Seguiram pela rua principal da aldeia. Nesse momento. A reserva foi cancelada.Sim. chegamos. apenas sim. Espessas suíças ladeavam-lhe as faces como se fossem pele prateada. mas era sobretudo conhecida como a aldeia mais próxima de Stonehenge.gritou o revisor.O sorriso dele cresceu. . Localizaram a primeira estalagem dois quarteirões a seguir à estação.Com.Com quem? .Amesbury . .perguntou Deirdre. mas era alto para a idade. . .gritou o garoto atrás deles.Preocupo-me sempre.Achas que vamos ter dificuldades em encontrá-lo? .Espero que Jack esteja bem. gostaria de me casar. e só olhou para cima quando Indy tossiu. . o comboio abrandou e Indy avistou a aldeia. .respondeu Indy e continuou a andar. erguendo-lhe o rosto. . jovem. Ele iria deixar uma mensagem na primeira estalagem que lhe surgisse quando deixasse a estação. muito suavemente.Sim. . A maioria das casas de paredes brancas estavam decoradas em azul-pálido. deslocando-se pelo corredor entre os compartimentos.Bom.

. O velhote voltou ao balcão. .O que estão a fazer? . . e juntou a última das suas moedas ao monte. trazendo o chá. O nome não me é estranho. .O Jones está aqui hospedado? . eu realmente tinha uma mensagem para um Mr. Na verdade. Cancelou a estada.perguntou Indy. hoje não há nada. 141 . .O meu nome de código . . Por isso tenho um quarto disponível. quem cancelou o quarto por ele foi o Jones. mas não podia ser o senhor. como se Shannon estivesse escondido num deles.Nada. . e depois de novo para as moedas sobre o balcão.murmurou. Um tipo bem-parecido. Powell.Shannon. Reuniu as coisas dele e levou-as. junto da campainha. Deirdre olhou para Indy. introduzindo a mão num cubículo de canto. parece que me lembro agora qualquer coisa sobre ele. . Aquilo lá está cheio de pessoas. Indy acrescentou mais alguns trocados para lhe avivar a memória.O homem franziu o sobrolho e dirigiu-se a uma parede com cubículos.Pensando bem.perguntou Deirdre .Oh. Não havia dúvidas. . . Indy levou a mão à algibeira e pousou algumas moedas sobre o balcão.Bom. em voz baixa.Deu alguma razão para se ir embora? . . O velhote estudou Indy por momentos e depois encolheu os ombros.Foi ele quem deixou a mensagem.perguntou Indy.Tem a certeza? O homem mirou o dinheiro. Jones. . . . .Por que não disse logo? Está no velho convento. Shannon. é claro. H. Mr. Bem vestido. . . . imperturbado.Porque o Jones já a veio levantar.Por que não? .Não me recordo.E de ontem ou de anteontem? . . O homem pousou o chá.inquiriu.Deixe-me ver .disse. .Obrigado.Não. Ficou uma noite e pagou por trás.Conhece este tal Jones? . Tinha uma pequena cova no queixo..Claro.Henry? .Sim? E como era esse Jones? Penso que sou capaz de o conhecer. muito sociável. É meu irmão. .Henry Jones. Shannon está no quarto? O velhote esfregou o queixo e olhou para os cubículos na parede.

.E se fôssemos até lá dar uma vista de olhos? O velho estalajadeiro espreitou com curiosidade para eles.Pessoal supersticioso. se me perguntam. Durante duas noites. Inclinou-se sobre o balcão e levou uma mão à boca. Também cá vêm para o solstício. Indy avistara poucas pessoas que pudesse identificar como estranhos ao local. . Sabem.Porquê? . . A aldeia não parecia particularmente cheia de visitantes.inquiriu Deirdre. . 142 . .perguntou Indy ao assinar o livro de registro. . .Quando começa? . mas isso não o interessava naquele momento. os druidas organizam um grande festival que é assistido por pessoas que vêm de toda a Grã-Bretanha e do continente. é o que eu lhe chamo.replicou Indy. mas têm de saber em que estado está o convento.Não vão precisar primeiro do quarto? Todas as estalagens estão sem vagas. fundações. . pelo que ouvi. por cima dos óculos de aros de metal. . Indy conhecia bem o ritual do solstício de Verão. interrogando-se se o festival teria algo a ver com o plano de Powell em relação ao pergaminho de ouro e à Omfalos. sabem como é.Inclinou-se para a frente.afirmou Deirdre. . Reúnem-se todos os vinte e um de Junho de madrugada.Tudo isto começou num àpice. que alguém queira arranjar o convento.Onde estão agora todos esses druidas? Não vi muitas pessoas na rua. compreendo que assim seja. .Tenho a impressão que me vai pôr a trabalhar e só queria descobrir em que me vou meter.De dezanove em dezanove anos. Agora parece que vai aparecer dinheiro para a restauração.Começou ontem a noite. . Estão a inspeccionar toda a estrutura. .Quero dizer.Tudo política.Quantas pessoas estiveram presentes? . Durou até ao amanhecer.Um festival? .perguntou Indy. aquela a que chamam a pedra de ponta. . .Bem pensado. Pedra do inferno. observando o Sol a erguer-se por cima da grande rocha no exterior.Inclinou-se para a frente e pestanejou. .Não entrou em pormenores . . .Centenas. Dizem que este é especial porque vai coincidir com um eclipse do Sol.Que óptimo .indagou Indy.O velhote franziu o sobrolho para Indy. .Ele não lhe disse? . . Na verdade.Indy virou-se para Deirdre.Por causa do festival. Stonehenge é só deles. . tocou nas moedas e depois fez uma careta. Toda a vida ouvi dizer isso. tudo. Pode ser verdade.Se o meu irmão está envolvido. . eles pensam que aquelas velhas pedras foram ali postas para vigiar as estrelas. Aquilo está fechado há anos. .

conseguirmos tirarlhe a Omfalos.Na última vez que fizeram um destes festivais. . . .Quando vai ser o eclipse? . . .Boa ideia. .E a mensagem que ele deixou? Indy sentou-se numa das camas. mas.Obrigado pela dica. era isso o que esperava tivesse acontecido. Indy abriu a porta e entraram no quarto. Dormiram algumas horas e voltaram logo para lá. foram lá espreitar. Daqui a duas horas. O velhote olhou para o relógio do avô atrás dele. há dezanove anos atrás. testando as molas.quis saber Deirdre. apercebeu-se que Powell andava na sua al?çada e desapareceu antes que lhe deitassem a mão.Estão lá todos outra vez. Olhou com desapontamento para as duas camas individuais e depois pousou as malas no chão.indagou Indy.disse o homem.Nesse caso.Três e vinte e dois. Devemos ter chegado na altura correcta.Talvez fosse melhor irmos antes ao convento. Powell apoderou-se dela quando descobriu que Shannon desaparecera.perguntou ela. Talvez o encontremos no eclipse. Indy pegou nas malas. Se. O velhote entregou a chave a Deirdre e guardou as moedas.O quarto fica no cimo das escadas? esquerda. Um matou-se um ano depois. . Por que n?ão terá mandado alguém para nos deitar as mãos? . dois rapazes da aldeia. Ouvi dizer que vão servir uma refeição antes.E se fôssemos assistir antes de visitarmos o meu irmão no convento? .Por que não? . de alguma forma.perguntou Deirdre ao subirem as escadas. Adrian devia estar ao corrente de que n?s v?ínhamos a caminho.Podíamos. . . .Mas como? Indy levantou-se. . .Vamos ver como as coisas correm. . Indy olhou para Deirdre.Por causa do eclipse. mais ou menos da vossa idade. muito menos à noite com aquele pessoal . . pode ser que tudo se resolva s? por si. Indy pensou no caso. provavelmente. .A mim é que não me apanhavam lá fora. 143 . se toda a gente está nas ruínas. O outro está num asilo em Londres desde há vários anos. e se Powell j? encontrou o pergaminho e o tem com ele? Poder? ser a nossa única hipótese de o agarrar. . mas nunca mais foram os mesmos. Esmagou a cabeçaa numa daquelas pedras. -Pelo menos.Provavelmente..Se bem conheço Jack. . Regressaram.E Jack? . .

. 145 CAPÍTULO XIX O ECLIPSE EM STONEHENGE Stonehenge ficava a duas milhas a oeste da aldeia. n?ão sei. Que eu. com estas nuvens. Deirdre abra?çou-o. e.murmurou ao ouvido dela quando terminaram o beijo. Ela sorriu. esquece isso.Acreditas realmente em mim quando digo que nunca dormi com Adrian? Ele riu-se e apertou-lhe os ombros.Concordo. Procurou um meio de transporte. Indy olhou para o céu. . mas Amesbury não era Londres.disse Deirdre. inteiramente. encostou-se à porta e colocou-lhe as mãos na cintura. .O eclipse também não será relevante. n?o era limpa. encaminhando-a para a cama. .Puxou-lhe o cabelo para tr?s e afagou lhe o rosto. . dos poucos carros estacionados ao longo da rua.De nada serve l? chegar demasiado cedo . nenhum parecia ser um táxi.Deirdre.. Tenho a certeza que será apenas parcial e.. . . muito provavelmente não assistiremos ao eclipse .Claro que sim. A sólida cobertura de nuvens cinzentas mantinha-se inalterável. 144 Indy abriu um olho e mirou a cama a apenas alguns passos. . . beijando-a de seguida.Preparava-se para abrir a porta quando Deirdre lhe tocou no braço. .Pode at? ser perigoso chegarmos muito antes do eclipse.. Indy anuiu.Vou tentar.. . respondes-me com sinceridade acerca de uma coisa? Ele virou-se. Os l?ábios dela entreabriram-se e puxou-o mais para si. mas Indy não fazia idéia se se dirigiam às ruínas ou na direcção oposta. ou qualquer coisa assim. .Se vamos ter de caminhar até lá.Indy.Estava t?ão preocupada que pudesses pensar. . somos capazes de nem nos apercebermos dele.

. os carros vão afastar aqui os cavalos das estradas. Nesse instante. pois não? Não me pareceu .Não.A isso chama-se progresso. pouco importava que chegassem às ruínas ou não. . . .pediu Deirdre ao miúdo quando ele montou e pegou nas rédeas. . Indy ficara com a mesma sensação do velho estalajadeiro. .disse Deirdre ao subir para a charrete. Indy parou e preparava-se para acenar ao condutor quando reparou tratar-se do garoto de cabelo louro. mas podem me chamar Randy.Conduz com cuidado . . . mas tinha quase a certeza de que Powell sairia intocado. já lá estão todos. garoto . .Vamos. a esta altura. .Era mesmo de ti que andávamos à procura .disse Indy. escutaram o som de cascos e voltaram-se para ver um cavalo e uma charrete que se aproximavam a passo lento. . . sem dúvida. .Conduzo isto desde que me lembro . consideraria mesmo a hipótese de esquecer por completo Powell e os druidas e regressar a Londres no próximo comboio.disse Indy quando o rapaz desceu para abrir a porta da charrette. . tal como fizeram nas cidades.Tiveste muito negócio hoje.Vocês não andam de vestes e. respondendo à sua própria pergunta. mais dia menos dia.Estará em condições de se reformar quando chegar aos vinte e um anos. mas não pessoas que agradassem aos aldeãos. Poderiam fazer um relatório sobre o que acontecera a Joanna à Scotland Yard e informá-los que a investigação local fora uma autêntica farsa. Os druidas eram tolerados.acrescentou rapidamente o rapaz. . queria fazer soar a adulto. fechando a porta depois de Indy entrar. Isso é que era bom. Essa seria a forma civilizada de conduzir o assunto.Naquele momento. Se Shannon surgisse naquele preciso instante. Terão apenas de se manter todos num só lado. excepto o meu pai. pensou Indy.Eu sou Deirdre. O garoto olhou para trás para eles. Dizem que.Vocês não são druidas.O meu nome é Randolph. .Não há problema se formos até lá? . Sentia-se ainda em perfeita êxtase depois de ter feito amor com Deirdre.Querem ir para Stonehenge? Ainda lá podem chegar antes do eclipse. Este é Indy.disse numa voz estranha que.Como sabes? 146 . aposto .Mais três anos e já posso ter carro.Não vão ser os únicos turistas presentes.perguntou ela. . O garoto riu-se.Abanou a cabeça como se os druidas fossem sinônimo de aborrecimento. Indy sorriu. . Os druidas vão a pé. Toda a gente me trata assim.

e. homens robustos com espessas barbas que lhes pendiam sobre o peito ao estilo druida tradicional. . E agora? . perdida no tempo. Ao aproximarem-se das ruínas. apercebeu-se que as figuras encapuçadas eram homens e mulheres adultos tornados pequenos pelas rochas maciças. Enquanto a carruagem seguia em frente e deixava a aldeia para trás.Pararam próximo da pedra de ponta. . Pagou a Randy e deixou o chapéu sobre o assento. Ao apear-se da charrete. estava um grupo de espectadores que olhava na direcção do círculo de pedra. Alguns minutos depois. Indy localizou Stonehenge. de alguma forma. virando na direcção do final da trilha. Mas a maioria das pedras maciças e em estado bruto tinha sido removida há muito. vigiavam os espectadores. A charrete circulou para a direita. Com estas palavras. . com os destroços de um naufrágio no deserto. . tal não o surpreendia.inquiriu Deirdre ao caminharem para junto do grupo de pessoas na pedra de ponta. Estacionadas ali perto encontravam-se outras carruagens. avistou uma linha de figuras liliputianas vestidas de vestes brancas movendo-se por debaixo dos pilares de pedra. outros longas trompas. As rochas erguiam-se no Salisbury Plain como um conjunto de torres que Lhe recordavam vagamente um castelo.afirmou.Indy lançou-Lhe um olhar duro.Parece que não quer ficar para o eclipse. Contudo. quando o proprietário do terreno o entregou ao governo nacional em 1918. Diz a todos que estamos cá . reunidos em redor da pedra. Ao chegarem mais perto. mas uma relíquia deslocada.Bem pensado. . pelo que o local pouco possuía da impressionante aparência do lugar para onde se dirigiam. virou a carruagem e partiu. Nenhum deles pareceu prestar a menor atenção à carruagem. e que outros seguravam incensários rodeados por nuvens de fumo. erguendose sobre uma das extremidades. e tinha quase a certeza de que representavam diversas ordens diferentes. Indy analisou o aterro antigo e as reminiscências megalíticas que ladeavam trás lados da aldeia. 147 Podia ver que alguns druidas carregavam ramos de carvalho. O garoto disse que estaria de volta dentro de uma hora. Sabia também que as ordens coexistiam numa aliança tremida e que diversos desentendimentos ameaçavam pôr fim a essa aliança. não o centro do mundo. . Indy estimou que estariam presentes entre duzentos e trezentos druidas. Lembrava-se de que.Vamos pôr-nos à escuta. Shannon não se encontrava entre eles e.Realmente parecia ansioso por se ir embora. pelo menos cinco ordens de druidas tinham requerido autorização para efectuarem ali cerimônias. o círculo de pedras parecia pequeno e isolado. em tom baixo. Indy observou a multidão. uma rocha enorme com o formato de uma gigantesca batata. Dois druidas de vestes.

Isto é melhor do que o eclipse . .Vae victis! As duas últimas palavras.. .Envergaram rapidamente as vestes e puxaram os capuzes para as cabeças.Toma.Não há vestes a mais .. a mão a escassos centímetros do chicote que trazia ao cinto.disse a mulher do chapéu enorme. com um encolher de ombros.Somos da Ordem dos Bardos. e saímos com tanta pressa que nos esquecemos de trazer as vestes. Os druidas murmuravam um cântico baixo e repetitivo que soava a um enxame de abelhas zangadas.Chegamos mesmo a tempo . Indy fitou Deirdre.murmurou ela.Adormecemos.Deirdre perdia-se na veste de largas dimensões. .Pronta? . Sabia que as rochas direitas pesavam umas quarenta toneladas e que os blocos de granito alojados . . era f?cil de perceber que estava assustada.Lembrava-se de ter lido o nome e pensado que talvez aceitassem mulheres nas suas congregações uma vez que ovado se relacionava com ovo. Indy ignorou-a. . e a Webley colocada atrás das costas. Fitou o homem bem nos olhos. Um deles franziu o sobrolho para Deirdre e depois mirou Indy.É simplesmente fascinante o modo como estas pessoas se relacionam. isto é tamanho único.disse uma mulher que usava um enorme chapéu e um vestido cor de púrpura até aos tornozelos. . e Ovados. um despiu a veste. chefe da ordem dos hiperboreais. e se não nos for permitida a entrada. . “desgraça para os derrotados”. Têm por acaso algumas a mais? Nenhum pareceu ansioso por ajudar. vocês serão responsáveis por um cisma que poderá afectar todos os druidas. . . Olharam um para o outro e. .roçou com o indicador no peito do homem e acrescentou: . Ele sorriu na esperança de a tranquilizar.A mania que tu tens de te envolveres nas coisas mais estranhas ..O eclipse vai começar em menos de quinze minutos. Pegou nos lados com as mãos e apressaram-se a sair dali. proferidas em Latim.Estamos aqui para honrar Adrian Powell.rosnou o homem. Indy entregou uma das vestes a Deirdre. O outro indivíduo procedeu de igual forma. Os seus olhos estavam muito abertos. Indy avançou.Tenho alternativa? . Dirigiu-se ao par de druidas. 148 . . A procissão desfazia uma curva em redor do interior do círculo e mirou estupefacto a pedra mais próxima. . voltando depois a sua atenção para os pilares de pedra na frente deles.Vocês estão com quem? . incutiram uma certa intranquilidade nos homens. O fim da procissão passava através do eixo principal do círculo de pedra quando a alcançaram.

axis mundi. líderes das diferentes ordens.por cima pesavam. Subitamente. Cabeças encapuçadas voltaram-se para cima. Talvez encontremos Powell. pensou Indy. pelo menos. os seus gritos um estranho peã*** a deuses desconhecidos. O local emanava uma sensação estranha. Ouvia freqüentemente a frase. dez ou doze toneladas. . Corvos crocitaram dos seus ninhos em pilares de pedra. pelo que Indy não ficaria surpreendido se os druidas considerassem. os rostos ocultos pelos capuzes.sussurrou Deirdre. Era simplesmente uma das pedras do círculo que caíra da estrutura. A pedra da chacina. cada um. como que orquestrado em benefício da multidão. . Sentia-se cativado só de pensar que a estrutura datava.Vamos ver mais de perto. Deirdre tomou lhe a mão e ele apertou-a com força. Deixaram o fim da procissão e contornaram a ferradura interior de pedras até se encontrarem entre o grupo maior de 149 druidas em cântico. Mas a história dos rituais druidas e a imaginação dos primitivos investigadores tinham deixado as suas marcas. as suas asas batendo no ar sombrio. Indy tentou entender as palavras.Indy. de há trinta e cinco séculos atrás. Ele abanou a cabeçaa. . efectivamente. Três quartos do Sol tinham escurecido. O entoar do cântico cessou. como se a própria textura do ar se tivesse alterado. mas as nuvens obscureciam o céu e o Sol que desaparecia. Então era isso. Os restantes elementos da procissão chegavam agora e dispersaram de junto da pedra da chacina. subiram para a pedra da chacina.murmurou Deirdre. Indy não ficou admirado por ver Powell. enchendo o espaço em redor da ferradura interior. Virou-se para Deirdre para se certificar de que o rosto dela estava bem enfiado no capuz. Os homens conferenciaram por alguns segundos e depois um deles avançou e ergueu a cabeça. Indy sentiu arrepios nos braços. A luz enfraquecia visivelmente. e que os elementos de vestes brancas se reuniam à volta de uma das pedras que se encontrava deitada. olha! Viu que a frente da procissão circundara já as pedras. . Assim como não foram os druidas a construir Stonehenge.Quem são eles? . Os corvos levantaram vôo bruscamente dos seus poisos.Provavelmente. e puxou o seu para a frente. o crepúsculo caiu sobre as ruínas. Axis mundi est chorea gigantum. . também era muito provável que a pedra da chacina não fosse um local de antigos sacrifícios. Diversas figuras de vestes. sem saber concretamente quem conferia conforto a quem. O centro do mundo à Dança dos Gigantes. Escutou então atentamente um druida de barbas junto dele. a pedra como um lugar de sacrifício ritual. . mas havia outras que não compreendia.Vês Powell nalgum lado? . As nuvens abriram-se e raios diáfanos da cor de um artefacto de ouro baço inundou as ruínas.

Powell dava a entender que Merlin e Apolo viveram na mesma época. uma feroz tempestade de neve que subterrou os nossos guerreiros. esteve exposta num museu e não surpreende que muitas pessoas tenham recentemente afirmado que Nova Iorque. Começou por dar as boas-vindas às várias ordens a Stonehenge. C. e apercebeu-se que Powell era um gênio ao invocar esta história de um fracasso. Preocuparam-se e meditaram na estranha profecia. Não fazia sentido algum. vindo do nada. um centro cósmico. 150 Indy olhou para os druidas reunidos e interrogou-se como podiam eles engolir esta miscelânia de mitos. e era o observatório de Merlin do cosmo.Conhecem a história de como Merlin erigiu este grande templo circular. Pertence aqui. precedia Apolo. o ponto de entrada dos deuses. precisamente o local do museu a que me refiro. Indy escutou. de vitória. fascinado e irritado. na Dança dos Gigantes. . continuou Powell. formou-se. O próprio oráculo profetizava que seria salva pelas virgens brancas. Contou então a sua recuperação há dois anos atrás. e disseram que não poderiam esperar até as virgens brancas aparecerem. . De novo Stonehenge se tornará na Dança dos Gigantes. mas decidiram prosseguir a marcha para Delfos. simultaneamente. como edificador de Stonehenge. a pedra sagrada que pertencia a Stonehenge e que marcava o centro do mundo. assumindo a forma de tempestade de neve. saíram vitoriosas e que o oráculo estava certo. não tardará a substituir Londres como o centro do mundo civilizado.Powell ergueu as mãos acima da cabeça para chamar a atenção de todos. reconheceram que as virgens brancas. canto de guerra. matando muitos e forçando os sobreviventes a retirar. -Durante esses dois anos. tenho a certeza. conhecedores da sabedoria do oráculo. Mas a Omfalos não pertence a um museu. Nesse dia. -Mas o destino virou-se contra os nossos bravos antepassados. de festa. É com . uma expedição de guerreiros celtas e sacerdotes druidas desembarcaram na Grécia e marcharam até Delfos. *** Nota do revisor: Hino em honra de Apolo. Este festival celebra não só o regresso do nosso deus-sol Apolo da sua viagem de dezanove anos à sua terra natal mas também lhe irá mostrar este grande monumento restaurado como o centro sagrado do nosso mundo. Forças magnéticas emanam daqui do interior da terra. não acharam graça. equilibrado por cima pela estrela polar. Possuía primitivamente setenta janelas.A maioria de vocês. fazendo-a seguir de uma lenda de vitória. ou mesmo que Merlin.. Com humildade. O seu objectivo era capturar a Omfalos. a que ele chamou o local mais sagrado dos druidas. conhece os feitos dos nossos antepassados. a Omfalos perdeu-se para a humanidade durante muitos séculos. Mas os sacerdotes. Com a decadência do oráculo de Delfos. No ano 280 a. Sabia o que viria a seguir. Era o ponto de entrada dos deuses para o nosso mundo. É um grande centro. Os guerreiros riram-se perante aquela previsão.

. enfiou a mão num saco de cabedal e ergueu a relíquia em forma de cone por cima da cabeça. será activado o poder da Omfalos. . a Omfalos não possuiria o seu poder até ser lida a mensagem do pergaminho de ouro. Levantou-a por diversos segundos e depois baixou-a. Parecia não lhe provocar qualquer efeito. Inclinou-se. realmente sucedido tal como as recordava? Como poderia uma pedra ocasionar tais coisas? A Omfalos era um artefacto valioso. antes do término deste festival. Deirdre puxou para trás e Indy misturou-se com a multidão. Merlin falará realmente do passado directamente connosco e. O campo de vestes brancas começou a agitar-se e Indy apercebeu-se que Powell parara de falar e que as pessoas se afastavam. com essas palavras.Não. Teriam as fantásticas experiências. As suas pernas tremiam para avançar. as visões. As suas mãos vibravam para estalar o chicote e derrubar Powell pelos tornozelos. Deirdre apertou-lhe a mão. A escuridão regredia do Sol. Era como se Powell falasse numa língua estrangeira. De acordo com o conhecimento secreto da ordem. entre os braços. Por que não. Tal fez Indy interrogar-se no que lhe teria acontecido quando a segurou em Delfos. Mas talvez tudo o resto tivesse sido fruto da sua imaginação. Estava perplexo por Powell segurar na Omfalos como se esta não passasse de uma pedra vulgar. 151 Tocou com os dedos no chicote enquanto a sua irritação crescia.Vamos embora daqui. Tal não fora necessário antes. Lembrou-se então do que Powell dissera na casa de Byrne. e os dedos de Deirdre cerraram-se em redor do seu braço. Powell continuava a falar. sabia que constituía a chave para deslindar Powell e o enigma da Omfalos. ponderou no que presenciava. Não faças isso. como se os dois acontecimentos estivessem interligados. Se o tivesse. A fúria abrandou um pouco. um símbolo de poder. A visão de Powell ostentando a relíquia roubada e falando tão jovialmente fez crescer em Indy uma ira repentina e irracional. mas passou a escutar apenas frases soltas. . Ainda não o encontrara e. Indy pestanejou. tal como a fúria regredira nele. hoje. . Mas Powell não tinha o pergaminho de ouro. Ninguém o escutaria mesmo que tivesse oportunidade de gritar algumas palavras antes de os gorilas de Powell se atirarem a ele. um ponto focal. de alguma forma. a Omfalos regressou finalmente a Stonehenge. Olhou em redor para o mar de vestes e compreendeu que qualquer tentativa para atacar Powell seria infrutífera.Amanhã ao amanhecer. Quando se acalmou. a grande profecia será cumprida. Indy tinha a certeza que Powell não o traria aqui para o eclipse.grande satisfação que vos comunico que.

O cavalo e a charrete.respondeu Deirdre ao mesmo tempo que Indy dizia . Randy disse-lhes uma coisa que fez Indy esquecer tudo sobre os druidas. . aguardava-os junto da pedra de fundo. Indy olhou cautelosamente em redor. Não havia ninguém à vista.Ali está Randy . Na frente deles. 152 Indy esperava ouvir uma exclamação de surpresa vinda do garoto em relação ao que tinham vestido. muitos deles removendo as vestes.Voltou-se para o garoto.disse Randy.Sim. sabendo que se tratava de Shannon em pessoa.Conheces? . .Venham. .inquiriu Indy. . com o garoto sentado no local do condutor. um monte desorganizado de druidas. . afastavam-se das ruínas. .No velho convento.Ele anda à vossa procura . . O seu amigo pediu-me que os levasse por um caminho nas traseiras. Venham comigo. . . Indy sentiu uma sensação de alívio.Ainda bem que me encontraram. mas mesmo assim sentia-se exposto e vulnerável.É o nome dum dos heróis de Jack. Se Shannon não tivesse usado o nome de Keppard. Conhecem um homem chamado Feddie Keppard? . Saltou para baixo e fez-Lhes sinal para o seguirem. 153 CAPÍTULO XX O CONVENTO Randy parou a carruagem num grupo de árvores a uma curta distância do convento.Onde podemos encontrar Kep? . Um trompetista de Chicago . Em vez disso. Disso tinha a certeza. Sorriu a Indy e a Deirdre. Indy falou em tom baixo.disse Deirdre.Não . Levo-vos até lá.Deirdre parecia confusa. não estaria ali. Era como se um certo poder se tivesse apoderado dele quando se encontravam no interior e que não os libertou até saírem.Já fora do anel de pedras gigantes.

e seguiu por um corredor mais curto até alcançarem uma enorme porta de carvalho com um topo redondo. um rosto sulcado e orelhas salientes não muito diferentes das de Randy. Jack . Seria mesmo ao seu estilo. . Indy. Randy assinalou para a direita. Havia velas enfiadas em diversos suportes nas paredes.Esperem aqui . e aqui permaneceu até ao fim dos seus dias. a porta abriu-se e avistou um homem de meia-idade com cabelo semelhante a palha.disse Deirdre quando este abriu a porta.Eu sabia que havia algo de errado nisto tudo. Atravessaram o pequeno bosque e pararam quando o convento surgiu à vista.Não sei se estaremos a agir bem.. . .Não acredito como nos deixamos cair. Uma mesa antiga com duas cadeiras constituía o único mobiliário. O tom solícito do miúdo traiu-o. . Avançaram para o convento e passaram sob uma arcada. este local é lendário. . . Indy olhou para ela e sorriu. com cerca de três metros de largo e o dobro de extensão. Depois. O homem atravessou a sala e abriu outra porta. Randy abriu depois a porta nas traseiras do edifício e fez-lhes sinal para entrarem. mas talvez fosse exactamente isso o que Shannon tinha em mente. Indy caminhou para a porta por onde o homem saíra e tentou o fecho.Este seria o último lugar onde esperaria encontrá-lo. . Parecia uma sala de espera. .disse para si mesmo ao entrarem.Indy olhou em redor.exclamou ela. A porta por onde entraram cerrou-se por detrás de Deirdre.Não acredito que nos tenha feito uma coisa destas. Indy deu um passo em frente.Óptimo local para te esconderes. Indy espreitou para um longo e escuro corredor com um tecto elevado e arqueado. O ferrolho foi colocado no devido local. Randy bateu levemente na porta e assegurou-lhes que não tardariam a ver Shannon. O homem fitou-os e depois fez-Lhes sinal para que entrassem.acrescentou Deirdre. .Sabes. . . Nunca conhecera uma mulher que conseguisse responder tão depressa e tão acertadamente a uma das suas alusões míticas. O som das botas de Indy sobre o chão de laje ecoou no corredor. a mensagem deve ser dele.disse. Mais ninguém usaria o nome de Keppard.Ele trancou-nos aqui . . Indy pressentiu que algo estava errado. Além disso. O aposento era comprido e estreito. puxando pela porta. . Existiam duas pequenas aberturas no alto da parede por onde se filtrava a luz cinzenta do dia. fechando a porta atrás de si.Ele trancou-a. A rainha Guinavere procurou aqui refúgio depois de abandonar a corte do rei Artur. .E Artur encontrou-a aqui e dela se despediu antes da sua última batalha com os saxões .Também eu.Ele conduziu-nos para uma armadilha. 154 Quando chegaram ao fim. . ou talvez usada outrora para armazenagem.

Para o eclipse . . meio riso. Faz tudo o que ele lhe mandar. e.Williams .É o zelador do convento.disse Shannon quando a porta se fechou.perguntou Indy.Aquele filho da mãe.Foi. desejará ter morrido com a sua mãe naquela caverna. muito em breve.Óptimo. Tem o lugar nas mãos. mas posso dizer-lhe que. Há cá mais alguém? .disse Indy e contou a Shannon a excursão deles às ruínas e o discurso de Powell. 155 . meio escárnio.riu-se Olhos Estreitos.Lamento . . . Devia ter-vos dito que fossem para Salisbury.Só os homens de Powell. . quem era aquele com as orelhas? .murmurou Indy. Ergueu uma mão e apontou uma arma à cabeça de Indy. . essa navalha que trazes ao cinto. Indy levou a mão à Webley. – Eles deitaram-me logo as mãos. .Foi um rapaz louro que vos trouxe aqui? – inquiriu Shannon. . minha senhora.Certo. é só dar ao rato um pouco de queijo que este logo se encaminha para a armadilha . . . Queria Tê-lo em posse dele até hoje.O homem das respostas não sou eu. . Indy assim fez. Olhos Estreitos emitiu um som estranho.Subitamente.Se não obtiver o pergaminho até logo à noite. Shannon movia-se de um lado para o outro. .Têm destruído o convento à procura desse pergaminho. enquanto Indy se encostava à parede junto de Deirdre. a porta interior abriu-se e Shannon entrou no aposento. . Mas suspeito que Powell começa a ficar preocupado. . Convenceu o presidente da câmara de que se encontra aqui para ver se o Parlamento deverá prestar auxílio financeiro para a recuperação do convento.Ele pode fazer praticamente tudo o que quiser. Dei-lhe uma mensagem para vos ser entregue um pouco antes de me prenderem. . Era para aí que eu seguia. . . Logo atrás de Shannon surgiram dois homens.perguntou Deirdre.Falando de tipos maus. Deirdre atirou-se para cima de uma das cadeiras e cruzou os braços. já agora. mas trabalha agora para Powell. .respondeu Indy. Parecia perturbado. mas Indy nem tempo teve sequer para o cumprimentar. O Orelhas apanhou o chicote e a navalha e os dois homens saíram. . Olhos Estreitos e Orelhas. e caminhou pelo aposento.Vejam bem.respondeu Shannon. vai . mas Olhos Estreitos estava atento. Não era seguro permanecer aqui. que lhe parecia menor.A nós também .Creio que o garoto não sabe distinguir os tipos maus dos tipos bons . .E usaste Keppard como pseudônimo.Lança a arma e o chicote no chão.O que se passa aqui? .

respondeu ele. um astrônomo grego da antiguidade.O cimento não é muito espesso.Quem sabe. segura aqui a vela.Levantou-se. nome que advém de Méton. . Shannon não respondeu. um falso profeta.Deirdre. correu os dedos sobre ela e esgravatou o cimento em desagregação à volta das arestas. Indy? 156 .É igualmente o tempo que leva ao ano solar e ao ano lunar para se realinharem no calendário . .Talvez se arranjarmos um pouco de luz.Excelente .É quando eles afirmam que Apolo regressa – respondeu Deirdre.O que é? . Cuidadosamente. Indy inseriu a lâmina por entre as pedras. Sabemos demasiado.Mas.E se eles voltarem? . Não levará muito tempo a ver o que há do outro lado. Deirdre encontrou uma caixa de fósforos junto de um dos suportes das velas. . .Não acredito.É precisamente isso . e o festival só se repetirá daqui a dezanove anos.Experimenta a minha. . Agitou-a de um lado para o outro e depois retirou-a. Não me revistaram a rigor.decepcionar muitos druidas.afirmou Deirdre. . .Esta pedra está solta.Porquê esperar dezanove anos? . É uma pena ser uma parede interior . . as coisas não nos pareçam tão más. Foi elibado da morte da minha mãe. os nossos futuros não se revelam muito risonhos. isso pouco nos afectará. . . .Se ele o encontrar ou não. Shannon meteu a mão na bota e retirou uma navalha com uma lâmina com cerca de dez centímetros. Um brilho amarelo inundou o aposento.Diremos que são ratos. . Chama-se um ciclo metoniano.Tens razão. – Por outras palavras. ele é capaz de nos pôr em liberdade quando o festival terminar. Ajoelhou-se. .disse Indy.Que pena não ter a minha navalha. . Shannon inclinou-se à parede e bateu-lhe com o calcanhar como que fazendo um protesto final contra a situação em que se encontravam. leva dezanove anos até que fique lua cheia outra vez na mesma data. se ele encontrar o pergaminho agora. . Gostaria de ver o que há por detrás desta parede.Não é assim. Shannon continuou a mover-se de um lado para o outro. Acendeu uma das velas. deu-lhe novo pontapé e afastou-se.acrescentou Indy.perguntou Indy. Mas Indy não tirou os olhos da pedra. Deirdre acendeu as velas nos suportes. . mas eu sei o que ele fez e nunca o deixaria escapar. Considerá-lo-ão como um líder falhado. . todos saberão que ele é o líder eleito .inquiriu esta. . Baixara-se sobre um joelho e examinava a parede. . Poderia levar-nos para alguma saída.indagou Shannon. Isto se Powell não for impedido. . Em qualquer das hip?teses.

Deirdre baixou-se e espreitou através do buraco negro. puxou o bloco de pedra.disse Deirdre. o bloco caiu sobre um chão de pedra do outro lado da parede. poderemos esgueirar-nos por aqui. Estava quase a conseguir quando arranhou o sovaco. com dificuldade. . O local cheirava a bafio e não via melhor pelo facto de ter os olhos abertos. Sem se levantar do chão. .Deixa-me ver. Indy enfiou as pernas pela abertura e rastejou para a frente até a cintura ter ultrapassado o orifício. . Tocou nas partes doridas na cabeça e sob o braço. Estendeu as mãos por cima da cabeça e conteve a respiração enquanto Shannon o empurrava pelos ombros. Indy olhou para a porta. mas não vejo grande coisa.É uma outra sala. endireitou as costas e bateu na pedra com o pé. Apesar da situação delicada em que se encontravam. A sala era maior do que aquela de onde viera. Entretanto. segurando a vela na sua frente. As paredes estavam vazias. eu consigo . Nem sequer uma porta.Pára de empurrar. Enfiou-se pela abertura com a cabeça para a frente. Alguns minutos depois. mas ninguém a abriu. decidiu empurrá-lo e este moveu-se. teriam de sair vivos do convento. seguida do blusão e do chapéu. Moveu a cabeça e esta embateu na parte inferior da parede. . O cimento raspava-lhe o rosto e o cabelo. .Se conseguir fazer passar o peito e os ombros. Depois Deirdre passou-lhe a vela através da abertura. Calculou que não houvesse ninguém de guarda. mas não tinha uma boa base de apoio. Com um impulso rápido.disse. O único ornamento era uma lareira de pedra na parede oposta.Espera. estou lá. Nada mais. Fechou os olhos e serpenteou o resto do percurso através do buraco até se encontrar sentado na outra sala.Não há grande coisa aqui. Deirdre afastou-se e Indy testou as pedras por cima e por baixo daquela que tinham removido.Uma sala sem portas . Mas se queria gozar uma vida com Deirdre. . quando o tinha quase todo retirado.E se tu não conseguires. Indy ajudou-a a pôr-se de pé. . rodeou-a com um braço e beijou-a. sentia-se satisfeito por estar com ela.Se conseguir retirar mais uma. . Permaneceu firme no lugar e Shannon aproximou-se e agarrou-a. Shannon colocou uma mão na pedra e ambos fizeram força. Assim.Ocupou-se a desfazer o cimento e. com um forte ruído. 157 .informou-o Deirdre. e não tinha qualquer peça de mobiliário. Shannon . atirou-a com o ombro para a outra sala. Vou passar. . Decidiu que a de cima sairia com maior facilidade. Indy despiu o casaco de cabedal e esgravatou o cimento.

Indy estendeu a mão. pó.E. 158 .Fala mais baixo.afirmou Indy.Estou impressionado .disse Indy. Não há portas. A lareira não é verdadeira. .Onde? Indy baixou-se e saiu de dentro da lareira.Por que terão encerrado esta sala? .Olha bem para isto.Não faças nada estúpido .disse Deirdre. Shannon resmungou ao rastejar através da cavidade.disse ela e abraçou-o. mas tinha igualmente consciência de que bloquear o buraco não serviria de muito. . Mas depois pousou-a de novo. .Aqui. .Vamos embora daqui. . matar freiras era-lhes igual. mas. . Ergueu a vela acima da cabeça e esticou o pescoço. Jack . Ajoelhou-se em frente da lareira e examinou minuciosamente o seu chão e paredes. Nem sequer bati com a cabeça. espalhando-o depois pelo soalho o . mas não fuligem. enfiou-se no interior da lareira e levantou-se na chaminé.Estás bem? . .Ele descobriu pó.Pó. como era mais magro que Indy.Recorda-te da idade deste local.Por que haveriam de precisar disso num convento? .inquiriu Shannon. despacha-te. Indy atravessou a sala e levantou uma das pedras. . a parede que atravessamos foi construída para selar esta sala .. .perguntou Deirdre. Vou pôr as pedras no lugar para os empatar.Estou óptima.O que há lá em cima? . onde estás? .O que é? .É por isso que a outra sala tem umas dimensões tão estranhas.Vão vocês à frente. Sem dizer uma palavra. .inquiriu Deirdre.afirmou Shannon.. a menos que ocultasse as pistas deles e criasse uma diversão. .Enfiou-se na lareira. Os saxões não eram propriamente uns guerreiros delicados.Certo.. por favor. . – Indy . . . Sabia que Powell poderia entrar em qualquer altura. . Era um ponto de fuga.Acendeu uma vela a partir da que Indy tinha na mão e deslocou-se ao longo das paredes. .Tens razão. Para eles.acrescentou Shannon e seguiu-a.Precisas de ajuda? .Na minha opinião.Tem cuidado . . . eu trato disso.Não. .perguntou Deirdre. . Rastejou de novo através da cavidade e esmagou o cimento com as botas. .Quem se importa por que existe essa escada – afirmou Shannon. . . Existe uma escada de ferro na chaminé. Calculo que conduza a um alçapão no telhado. fê-lo sem dificuldade. .

pronto a defender-se. Deviam ter-lhe deixado uma vela. estavam Deirdre e Shannon. enquanto eles escapavam através da chaminé. reduzindo a luminosidade da sala. Pegou de seguida na outra e começou por introduzir uma ponta. Enfiou-se para o interior e ergueu-se dentro da chaminé. Conteve a respiração. nessa altura. Por fim. Com rapidez. voltou-a e empurrou-a até esta se encontrar firmemente no lugar. Esgravatou a madeira em redor da fechadura. Ao aproximar-se da luz. pensou. Escutou então murmúrios. Tinha uma vela mas fósforos não. Indy contava que Powell reagisse rapidamente e não parasse para pensar naquilo que via. Escutou então a voz de Powell. Encostou-se à parede e estendeu a navalha. tentando acertar com a localização da lareira. já eles teriam descido para o solo e escapado. encontrando-se escondidos dentro do convento. apertando a navalha. Praguejou em voz baixa e deslocou-se para a esquerda. e começou a trepar. apagou as velas que ainda permaneciam acesas. lá dentro. tacteando a parede ao avançar. Deslocou-se para a porta por onde Shannon entrara e retirou a navalha da algibeira do blusão. Indy fitou-os abismado. ergueu a pedra da parte inferior da parede e encaixou-a. De seguida. . quando Powell não os conseguisse localizar. retirando lasca atrás de lasca. o pé outro. a escassos centímetros da sua mão. Depois.Não disse que a podias já abrir. Era estreita e confinada e. detectaria as pedras soltas mas. A mão encontrou um dos degraus de ferro. Indy ficou paralisado ao ouvir uma chave girar na fechadura. analisaria a situação e compreenderia que. Não dispunha de tempo para fugir. examinando qualquer coisa no chão. A maçaneta girou e a porta abriu-se ligeiramente. Mas a distância era mais curta do que estimara. Viu-se envolto pelas trevas. O buraco na parede da chaminé abria-se para uma outra sala. . se tivessem escapado daquela sala. Espera até que as travessas da comida cheguem. Subitamente. Atravessou a sala às escuras.melhor que conseguiu. Apalpou as algibeiras e depois estalou os dedos.O que raio estão vocês a fazer? . A porta fechou-se de novo e Indy literalmente mergulhou através do buraco. a que conduzia ao exterior. Vinha a calhar. Ele e os seus comparsas revistariam o interior. 159 A idéia era que Powell visse a madeira falhada em redor da fechadura e pensasse que tinham saído por ali de alguma forma. Três passos depois. as mãos tocaram na berma da lareira. Emanava uma luz suave da parede algures por cima da sua cabeça. teriam escolhido a outra porta. apercebeu-se que esta não provinha da parede em si mas do que parecia um orifício. Fora apanhado desprevenido.

Não consigo ler. . Indy rastejou para mais perto e tocou no pergaminho como se não acreditasse no que via.disse Deirdre. sobre um pano de veludo vermelho. Isto não faz sentido. Não é possível. . Deirdre desenrolara-o parcialmente. um processo de descermos do telhado. À luz da vela. conhecer o texto.É um retrato de Merlin sobre a sua vida. vamos saber o que diz .Shannon enfiou-se no buraco e passou para as escadas. e.Está escrito na primeira pessoa.Não. a partir daí. agora faço de batedor. .afirmou Deirdre. . na primeira pessoa . e que o manuscrito estava legível. por outro lado.Diria que se trata de um inglês antigo. Espreitou para trás para eles. e era precisamente devido às suas capacidades de decifrar a língua que o pai o encorajara a seguir a carreira de lingüística.É sobre Merlin .Jack.Quer dizer. Depois de terem sido revelados mais alguns centímetros. estavam filas e filas de texto manuscrito. . – Olha para a data dada por ele como sendo a do seu nascimento.Diria que está em inglês antigo do quinto ou sexto século. . Queria. . .disse Deirdre com voz contida. . . o melhor será subires e veres se encontras o alçapão e. C. tanto quanto Deirdre. e a data lia-se no calendário juliano.Acho que o poderemos desenrolar totalmente sem o perigo de o quebrar ou estalar. .Indy lançou uma gargalhada.Sugiro que nos vamos embora daqui e o leiamos mais tarde .Que nasceu há mais de quatro mil anos. . O que diz? . Ainda Shannon não desaparecera de vista e já eles desenrolavam o pergaminho. . Indy começou a ler enquanto Deirdre espreitava por cima do seu ombro. . Indy não estava bem certo sobre o que deveria fazer.Deu uma palmada leve no pergaminho.O quê? . . envolto neste pano – disse Deirdre.afirmou Shannon. Consegues lê-lo? . mas.Não levem todo o dia com isso.Parece estar em perfeitas condições. não é? Lembrem-me para nunca mais subir uma chaminé acompanhado de dois estudiosos. a voz tremendo de excitação.E conseguia realmente lê-lo. que só começou a ser usado a partir de 46 a.Eu sei . gravado no metal amarelo. estava o pergaminho.murmurou ele. 160 .. Espera aí. .contrapôs Deirdre. . compreendia que Shannon também tinha razão.Estava para ali no chão. .Olha . – Aqui está o pergaminho de ouro. Era uma das perícias que o pai lhe ensinara. .Atravessou a abertura e empurrou Shannon para o lado. . Mirou o pergaminho e viu que estava escrito em inglês medieval. Nós seguimos dentro de alguns minutos.Meu Deus.

. . para quê? . Vivi uma vida na Grécia e. a minha vida alterou-se para todo o sempre. . estava aborrecido com a vida que levava em Whithorn e achou tratar-se de um bom divertimento deixar em repouso num mosteiro as palavras de um tão poderoso mágico pagão. enterrei a pedra sagrada no centro do templo. Erigi o templo e. lá. . todas as coisas eram possíveis. Deirdre abanou a cabeça. Não entendo. Vim até cá por uma razão especial. andando por distantes montanhas para lá das águas. com a pedra. sem dúvida. Sabia. . e a pedra permitia que passasse através do tempo como se atravessasse um mero portão. -De qualquer forma. . Os deuses necessitavam do templo como ponto de entrada no nosso mundo. quando vi como os deuses pulavam de um lado para o outro ao chegarem. Só então descobri os poderes que eu próprio adquirira com a pedra sagrada. .Por outras palavras. 162 .Mas. e a solicitação dos deuses. . imortal. Por favor. isto foi escrito há uns quatrocentos anos e não há quatro mil.Quando moço jovem. Pois esta é uma era em que os poderes dos velhos deuses estão em decadência.161 .Está bem.Provavelmente. .Sorriu e atirou a cabeça. e instruíram-me onde construir o templo. foi o próprio monge Mathers quem o escreveu. as pessoas dizem que Merlin era um trapaceiro.Disseram me que eu devia erigir um grande templo circular usando rochas da montanha onde a pedra em chamas caíra. não passa de outra lenda de Merlin com uma pincelada a ouro.Indy tocou na superfície do pergaminho. . Indy parou de ler para desenrolar o pergaminho mais um pouco. foi enviado um mensageiro a Inglaterra para que trouxesse a pedra sagrada. a meu mando. Eu era um deus. poderes inimagináveis. Provavelmente. Nesse dia. . era estudante de necromancia.Espera. Quando a pedra arrefeceu e nela peguei. Um dia. Por fim. Responderam que.Bom. o suficiente de inglês antigo para o forjar. Vamos embora. chamei-lhe a Dança dos Gigantes. uma flamejante pedra negra caiu no meu caminho.Na minha opinião. traduzindo o texto para o inglês moderno.O seu tom de voz reflectia o seu desapontamento. um aprendiz dos caminhos do oculto. Coloquei-a em Delfos e a ela foi dado o nome de Omfalos.Desloquei-me de novo através das portas do tempo para o futuro distante onde agora existo como Merlin. Falou lentamente. escutei os deuses falando comigo. Mas eu disse que era para mim impossível fazer tal coisa por o local se encontrar a tão larga distância.

Mas depressa percebi que tal não iria suceder. pois a Omfalos estava destinada a dormir. Contudo. a luz enfraquecer ao meio-dia e as estrelas se alinharem para o festival de Apolo. .Algo enigmático. incapaz de falar. . . os nomes deles são parecidos. e Deirdre apressou-se a acrescentar que um mero divertimento não seria uma justificação plausível e suficiente. Servi de conselheiro a três reis e. Passei a vida o melhor que consegui.inquiriu Deirdre. respirarei pela útima vez.Bem.E quem poderia pensar que Merlin e Apolo eram os mesmos? Indy riu-se. e não permanecerei por muito tempo. É tudo o que necessita de saber.Não estás a levar em conta o que aí se diz.Bom. Mas Merlin não é o Apolo com que nos temos de preocupar neste momento. e já não sou imortal.afirmou Deirdre e desenrolou o pergaminho até às últimas linhas. encontram-se muito enfraquecidos com a perda da pedra sagrada. pois a minha visão do futuro permanece inalterada. de novo.Não podes acreditar em tudo o que lês.Crês que Powell acredita ser Apolo? Indy enrolou cuidadosamente o pergaminho. no próprio coração da nova religião. Deirdre. não é? . . é fascinante o facto de ligar Stonehenge e Delfos. tinha confiança de que os meus poderes seriam suficientemente potentes para fazer reviver os antigos costumes. .Continuas a pensar que foi o monge quem o escreveu? Indy ponderou. Indy.As minhas palavras finais são de esperança. Indy olhou para cima. Trata-se da Omfalos. . . Tenho a certeza que ele ficaria feliz por assumir o papel de um deus. quando.O que significa esse final? .Bem. . . .disse Deirdre. CAPÍTULO XXI PAREDES DE VIME . no dia em que a luz enfraquecer ao meio-dia. Aquele que ler estas palavras deve reter em mente o que sabe sobre a Omfalos. sobretudo se é sobre Merlin. . Entregue-me agora ao lugar onde ninguém me procurará. Estou velho e cansado. embora os meus poderes permaneçam amplos. Indy sabia que a explicação soava fraca.Mesmo ao proferir estas palavras. isso explicaria por que razão nunca foi enviado ao Vaticano. .Ouviste? . . A Omfalos regressará à Dança dos Gigantes.Rochas derrubadas é tudo o que resta de Delfos e a Dança dos Gigantes há muito perdeu a sua força.Ainda há mais . Amaldiçoado sou eu. pois permanecerá verdadeiro à sua natureza. por morrer nestes tempos em que os velhos deuses esgotam as suas vidas. Em breve.

.Indy envolveu o pano em redor do pergaminho ao terminar de enrolá-lo.murmurou ela. Deirdre rastejou através da abertura na chaminé. este não é propriamente o local adequado. . . .perguntou-lhe Indy. .Eh. e avistou Shannon agachado a pouca distância. . .Mas não terminou.disse ele.Não digam uma palavra .Tem de existir nalgum lado uma rota de escape – afirmou Deirdre. Shannon estacou. encontraste alguma saída? . . no mesmo degrau. As vozes lá em baixo eram agora mais fortes e um brilho de luz apareceu subitamente na lareira. .murmurou. . permitindo que Indy se colocasse ao seu lado.Tem de haver uma saída.sussurrou para Deirdre. . .E eu que pensava que estava precisamente a começar.Jack. Não vês? Termina aqui. não te importas? Pressionou as mãos no telhado e sentiu as vigas. pensou Indy. . .Tentei seguir pelo outro. Afagou-lhe o pescoço.Vamos embora daqui. .Talvez se acender uma vela. Indy esgueirou-se rapidamente atrás dela. ajustando-se à luz. uma luz súbita explodiu no seu rosto quando Shannon acendeu um fósforo na frente do seu nariz. Devem ter descoberto as pedras soltas.O que foi? . No momento em que ela penetrava na estreita passagem. Alcançou o topo. Depressa. Deslocou-se para o lado. vocês os dois já acabaram com as brincadeiras? . Dividia-se em dois braços e ambos eram becos sem saída. O espaço mal dava para se sentarem.Indy. . .Afirmou Shannon em tom baixo algures à esquerda de Indy. uma lanterna incidiu no interior da chaminé.Olha para aqui. o túnel dividia-se em dois canais e Shannon seguiu por aquele que parecia conduzir ao interior do edifício.Vai à frente . .Não consigo ver nada .. A menos que tenha sido bloqueada. Espero.Depressa.À nossa espera no telhado. cerca de uns dez metros depois. Indy pestanejou rapidamente. mas. e memórias do recente amor que fizeram surgiram-lhe de novo na mente. . O seu braço envolvia a cintura dela e podia escutar-lhe a respiração. seguida imediatamente por Indy.Mordiscou-lhe a face. .Vozes. Era preciso encontrar uma saída.Enfiou o pergaminho na algibeira do blusão e observou Deirdre colocar um pé num degrau de ferro e começar a trepar. Então. .Vejamos . O cabelo dela tocava-lhe na face.Onde está Jack? . Foram rastejando pelas trevas. 164 Indy tateou a parede da chaminé e sentiu uma abertura logo abaixo do tecto. Shannon não desapareceu no ar. Os homens de Powell tinham penetrado na sala e Indy compreendeu que se defrontavam com uma situação séria. .

queixou-se Shannon. . Parou ao avistar um outro túnel que se abria à direita e uma luz fraca que provinha de algures ao longe. . há formigas por todo o lado .Não podemos voltar para trás . Empurrou as mãos e ombros contra o tecto. pulsos e braços e. E mordem.Já cumpri a minha obrigação como batedor.afirmou Deirdre.disse Deirdre num murmúrio. Olhou para trás e viu Deirdre passando freneticamente as mãos pelos braços e pernas. Temos de voltar para trás. Agora. o sol do final da tarde infiltrava-se através de uma janela.Podes ir à frente .disse Shannon. para lá dele. A luz aumentava gradualmente de intensidade. Mas outra coisa moveu-se. e percebeu que estavam todos a ser atacados. palmadas. Continuou a andar. A madeira apodrecida sob os seus pés estalou e depois rompeu o estuque do tecto da sala por baixo. Avistou um quarto com duas camas . Parou então quando reparou que esta vinha de baixo. Desesperadamente. provavelmente. agarrou-se com as mãos aos lados da placa. . . raios! Estamos sobre um maldito ninho de formigas. Por baixo.Parece que estamos no bom caminho. Tratava-se dum nó de madeira e. na esperança de que o alçapão estivesse mesmo por cima dele. Nem se moveu. Indy escutou vozes e percebeu que os homens de Powell trepavam pela chaminé. Formigas. Escutou sons guturais. Jack.Cala-te. .Estou coberta delas. não de cima. dando impulso com as pernas. oscilando sobre os dedos dos pés e das mãos. mas parou e percorreu as mãos pelos braços.Indy..Vamos ver onde este vai dar. A passagem era abafada e cheirava a madeira apodrecida. . mãos. . podia avistar hordas de formigas marchando por todo o lado. As formigas banqueteavam-se nas suas pernas. Era o que faltava.gritou Shannon.Não pares agora. Os pés escorregaram da madeira e mergulhou. dirigiam-se às pernas.Oh. . No último instante. Corriam-lhe pelos dedos. . Indy viu-se inundado de luz. Por cima. Mas a gravidade venceu. Esgueirou-se para a frente de Shannon e penetrou nas trevas. Indy ergueu as mãos e fez força contra o tecto. viu os pés de Shannon e as pernas de Deirdre. Ouço-os lá atrás . deu-lhes uma sapatada. 165 Shannon retorcia-se. Esperou que os outros chegassem.Não posso seguir em frente.disse Deirdre. O peito embateu na placa deteriorada. que diabo! . .Raios. . um grito abafado ao prosseguir em frente. alguma coisa me mordeu . deslizou até a extremidade. Esta dobrou-se com o peso de Indy e ele oscilou. Tinham de escapar dali e não apenas por Powell. cambaleou. Vejo luz. esfregava-se e praguejava. mais um beco sem saída. Indy sentiu qualquer coisa rastejando-lhe pelo pescoço e removeu-a.

sir. depois de deixar a estação. virou-se e analisou o rapaz de cabelos louros por momentos. So whylome wont. .Precisa de transporte. Trajava o seu longo sobretudo preto e trazia consigo uma pasta de cabedal preta com fecho. . Vinha em missão e. não se iria esquecer. . Escutou qualquer coisa bater no chão e percebeu que era o pergaminho de ouro. So whylome wont. de uma criança loura de quatorze anos de idade. O quarto rodopiou. Afinal de contas. pois é Merlin quem procuras. desande. Voltou-se então e viu que se tratava de um rapaz com pouco mais de metro e meio.Espero não ter de entrar em muitas estalagens até encontrar Indy. . . e o seu bigode espesso e branco contraiuse ao observar a estação de Amesbury.Creio que sim. Compreendeu bem as minhas palavras? . confuso com a voz. Escrevera mesmo uma anotação para si mesmo.Chamo-me Randy. Milford parou.Sei quem procuras. . Adrian Powell. . Apeadeiro atrás de apeadeiro.Estava a falar comigo. não fosse tal acontecer. o chão cedeu e caiu por cima dele. meu jovem? .individuais e.Vou dar uma lição a este atrevido .Já não asssistiu ao eclipse. O rapaz retorceu. desta vez. por exemplo.Milford começou a andar a um determinado ritmo. Vá. eu sou ele. Também. reparou que o moço o seguia. pernas e tornozelos. Nem por sombras.Milford caminhou para o passeio. Deu meia volta. sir? Milford estacou e olhou em redor. Ninguém me disse que chegaria no meio da noite. no seu inglês arcaico. . 166 . como. sem mais aviso. Então.Deve estar aqui para o festival. na entrada. .De me deslocar na sua charrete? Porquem me toma.Nem pensar. . apontou um dedo e afirmou.Talvez tenha interpretado mal.murmurou. .Maldito comboio. simulado de bagagieiro. . vamos cair . as formigas mordiamlhe os dedos e braço. O diabinho continuava atrás dele. -Nem por sombras.Indy. mas. Ouviu um estalo quando a tábua pendeu mais um pouco. . . seguramente que não existiriam muitas naquela terreola. Leeland Milford coçou a cabeça calva.gritou Deirdre. Perguntava se precisava de se deslocar na minha charrete? .Sim. É o meio de transporte mais lento depois do caminhar. jovem homem? Este seu servidor sabe perfeitamente que nenhum local nesta minúscula povoação dista mais de cinco minutos a pé. por isso. não procures mais. Merlin era conhecido pelos seus disfarces ocasionais. Posso então carregar-lhe a pasta.

Bom. Vestia uma túnica e estava flanqueado por dois homens. trajando de igual forma. não gosto nem de comboios. Não. encontrava-se numa câmara ampla e vazia com um tecto elevado. Estava numa jaula. nem de eclipses nem de festivais. Contudo. mas nenhuma luz incidia através delas. Deirdre envolveu os braços em redor de si mesma. isto não estava certo. com efeito. Os capuzes cobriam-lhe as cabeças. . não. e este deveria ser outro.Sim. exprimindo no rosto um trejeito de dor. . Não conseguia perceber de onde vinha. em frente do pub. . Estou a sonhar. um blusão de cabedal e um chapéu. Na frente dela. a sala que localizaste quando tu e os teus amigos retiraram as pedras deveria ser muito especial.Obrigado por teres encontrado o pergaminho por mim. numa jaula de vime. havia janelas de vidro pintado. Sentou-se. . Nas paredes.Por que não disse logo? Vamos embora. exactamente aquela onde Guinevere habitou. Estivera sempre ali.. Nunca ouvi tal coisa. Pelo que parece. Recordou-se então do que acontecera e viu que se encontrava rodeada de postes de vime.Como te sentes. .Não me enganas. Mas ele aproximava-se cada vez mais. Então isto já não lhe acontecera? Sim. o homem usa. Oh. Avistou-o então à sua direita. Quando Deirdre despertou. gemeu. observando-a do outro lado da sala. . Mas poderia dizer-me se viu um homem que. Disso pode ter a certeza. esfregou a cabeça e zentiu um alto atrás da orelha direita. não se incomode.Procura um homem que anda de chicote? . Adrian começou a dirigir-se a ela e os outros indivíduos seguiram-no. ergue-se robusto posto de vime e perguntou a si mesma o que seria aquilo. e aqueles olhos negros que a atravessavam. selando aquela sala para todo o sempre.Sim? É o Indy. O corpo estava dorido. e conseguia detectar os pormenores do rosto de Adrian. . A irmã do monge escondeu o pergaminho na chaminé antes da parede ser construída. mas isso fora um sonho. Deirdre? A voz de Adrian parecia estranha. Não és real. jovem Randy. esperando que ele desaparecesse para que ela pudesse despertar.Por todos os santos. 167 .. pensou para consigo mesma. a cova no queixo. distante.. o seu sorriso. Sei onde o pode encontrar. Olhou à sua volta.Sabe? . e podemos ir até lá na minha carruagem. nem o conseguia ver a ele. Duvido que o tivesse encontrado a tempo sem a tua ajuda.

não branca como a que usava agora.Fez sinal para os homens e cada um deles pegou numa das pontas da jaula. Claro que era um sonho. Não te safas desta. Ergueram-na e transportaram-na na direcção de umas portas duplas. . Ela e Indy devem ter adormecido depois de fazerem amor.Receio que tenhas visto o teu professor Jones pela última vez. a seleccionada. Detestaria que perdesses todo o divertimento. Ela não sabia a que ele se referia. Mas depois sentiu as mordidelas nos braços e pernas 168 e.gritou ela. Caíste em cima de uma das camas. rebolaste e bateste com a cabeça no chão.. Eles não foram a Stonehenge.afortunada. . nem queria saber.És realmente afortunada. não é assim? Ele riu-se. Realmente. Tocou na zona dorida na cabeça e esfregou os braços.exigiu saber. ele vestia uma túnica preta. .Onde está Indy? . mas ninguém lhe ligou.Adrian. Ordenou a si mesma que acordasse. infelizmente. estás a sonhar? Não te recordas de cair do tecto? Tiveste sorte. Os pêlos dos braços dela eriçavam-se. Adrian. . nem ao convento. desejando que ele desaparecesse. A voz parecia tão real. . na última vez que vira Adrian em sonho. Serás recordada. Era real e era horrível.Ponham-me no chão! . Deirdre. Cerrou os olhos.Oh. És a escolhida. Powell abriu as portas e a noite engoliu-a. Abriu os olhos e ele continuava ali.Tira-me daqui. . . Costumava ter sonhos em que deambulava por casarões enormes e velhos. Não tem graça.Não voltes a adormecer. . Nada disto acontecera. mas. pára com isto. CAPÍTULO XXII MILFORD RECORDA-SE . Deirdre. Não era um sonho. . .Que diferença faz? Isto é apenas um sonho. e estava a sonhar tudo aquilo.Onde estão Indy e Jack? Adrian parou fora da jaula e correu os dedos ao longo de uma das barras. Ele contornou ajaula como se inspeccionasse um animal. Sonhara apenas que encontraram o pergaminho de ouro e que rastejaram por passagens sob o telhado e depois caído pelo tecto de um quarto. Agarrou-se às barras ao ser conduzida aos tombos através do ar húmido do convento. Adrian estacou junto das portas duplas e voltou-se para ela. Deirdre. Seguramente que não tinham atravessado uma parede e trepado por uma chaminé.

Um sorriso cruel aflorou nos lábios de Powell. .Jack. pensou Indy. vestindo uma túnica branca. atado do mesmo modo a outra cama. Abriu a porta para sair. tinha de esperar. e tentar de novo. Indy aterrara de pés depois da queda. Agora. e para onde a tinham levado. nada de conversas.disse Indy.Espero que estejam confortáveis. .Se lhe fizer algum mal. . não me parece. Ainda a semana passada.Indy poderia dar-lhe uma pequena lição se desatasse a corda por alguns instantes . cavalheiros. o Parlamento autorizou um decreto permitindo a plantação de uma árvore no ponto central de Stonehenge.. levaram-na consigo e.disse Shannon. Shannon encontrava-se ao seu lado. Indy tentara ajudar Deirdre quando a viu resvalar para fora da cama. . Vou-me embora agora.Ou até o próximo arqueólogo pegar numa pá . Quando Indy se recompôs.Tal nunca acontecerá . mas voltarei mais tarde para tratar de vocês. . mas o zelador não respondera.O que fez a Deirdre? . viu Powell apontando-lhe uma arma.inquiriu Indy. Nem a Powell. Agora. 170 . Tentou iniciar uma conversação. a navalha de Indy num dos lados do cinto.Não se preocupe. . A Omfalos será enterrada no Recinto de Merlin. mas Shannon caíra por cima dele e ambos se esmagaram no solo.Tem alguma experiência com chicotes? Williams ignorou. Powell.Obrigado. . e a delimitação do local com proibição de . Estavam prisioneiros no quarto onde caíram. pelo que Indy decidiu tentar nova táctica.Williams bateu com a coronha do revólver de Indy na palma da mão. Está em boas mãos. não mais a vira. enfio-lhe essa Omfalos pela garganta abaixo.afirmou Powell com confiança.Não. Há muito que se encontravam em silêncio. e o chicote de Indy no outro lado.Indy estava sentado num chão frio de pedra. excepto para lhes dizer que não falassem. . Tinha cada mão atada às pernas duma cama atrás dele. . e ninguém a retirará de lá durante mil anos. mas Powell mantivera-o afastado dela. deixa que eu. Williams ficara de guarda à porta com a Webley de Indy na mão. por terem encontrado o pergaminho de ouro. Tem o seu papel a desempenhar. Indy perguntara-lhe como estava Deirdre. A tranca da porta foi retirada e Powell entrou. Não dissera uma palavra.disse Shannon em tom baixo.. . Faz-me ter consciência de que tudo se desenrola de acordo com o estabelecido.Desculpe . a propósito. . . . Não poderia ter surgido em melhor altura. Quando os comparsas dele acabaram por aparecer.Já vos disse. desde então.

escavações.disse Shannon.Os antigos druidas sim.Talvez receie que você dê um tiro no seu próprio pé.O diabo é que faz! . penso que Powell herdou deles os seus maus hábitos . .. .Talvez ele ainda esteja a treinar . .Alguém há de falar. esforçando-se por se libertar.Temos de fazer alguma coisa . .disse Indy. pessoas. .afirmou Indy. .. .Também esfaqueavam as vítimas . .gritou Indy.Enquanto falava.disse Williams.acrescentou Shannon.Parece que você não conhece grande coisa sobre Powell. tu deves saber alguma coisa sobre druidas – afirmou Shannon. Representavam os três elementos: fogo.É pouco provável. o que tornava o plano difícil de concretizar.Vocês os.Não há água nem árvores em Stonehenge. Sabem tão pouco a meu respeito. mesmo muito pouco provável. enquanto observava Williams. o nosso legado. Williams parecia pouco tranquilo.Você não é um druida. Mas chega de conversa.Os druidas matavam por imolação.Serviam-se das entranhas para adivinhação. . .Parem de falar dessas coisas . Era óbvio que o que eles diziam o perturbava 171 muito mais do que o simples facto de estarem a falar. Na verdade. . Mas ele estava do lado da cama mais afastada de Williams.replicou Shannon. Indy vigiava Williams pelo canto do olho. Ele nem sequer permite que você tenha uma arma . . Os outros aguardam a minha chegada. . Se conseguisse que o guarda se colocasse ao alcance dos seus pés. poderia passar-lhe uma rasteira e pô-lo inconsciente com um pontapé na cabeça.É bom que você ouça o tipo de coisas que os seus amigos se preparam para fazer . .disse Shannon.disse Shannon. Indy decidiu ir mais longe. realmente.Parece que ele planeou uma noite em grande – murmurou Shannon.Dedicavam-se a sacrificar animais e humanos. Mas tudo faz parte da profecia. . É claro que os meus colegas não estão ao corrente da Omfalos nem que o sangue de Deirdre consagrará o solo por cima da pedra sagrada quando a árvore for plantada ao amanhecer. . A porta fechou-se e Williams colocou-se na frente dela. . Podiam levantar as tábuas e passar as cordas por baixo das pernas. Williams meditou em silêncio nas palavras de Indy. ar e água. tal como Powell acabou de dizer? . pois não? Não tem uma túnica vestida nem vai assistir à cerimônia. . enforcamento ou afogamento.Nesse caso. . . . estou aqui como representante do Parlamento. O homem rosnou e desviou o olhar. Os verdadeiros. e o fogo não é permitido respondeu Williams.Indy.disse Indy entre dentes. Williams endireitou a cabeçaa e fitou Shannon friamente. . .Passará o resto da sua vida na cadeia .Eles sacrificam.

. nesse instante. O pai não se podia negar.Feita de vimes. . sacou-lhe a navalha do cinto. antes que o homem pudesse reagir. . . . Tornou as pernas tensas. . Chegara a sua oportunidade. Ergueu a coronha da arma acima da cabeça. . Randy.O que fazes aqui. Óptimo. o que faz aqui? . Randolph? Mandei-te ficares afastado daqui . a última pessoa que Indy esperava ver entrou no quarto. ou os outros matam-nos. . . Milford. eu próprio os liberto . Tem de os libertar.O que diabo se passa aqui? .Estão a obrigar-nos a fazer estas coisas. tanto quanto sei. esta cedeu.Nesse caso.Milford pousou a pasta preta no chão e olhou em volta. . depois obrigaram-no a vigiar o vosso amigo e a mim a controlar a estação de comboios.Não posso. Um pouco mais para a frente. Não podemos fazer nada. Williams ergueu a Webley e dirigiu-se a Indy. Não são criminosos. e pai e filho debateram-se por ela. .Não. Indy rodou. Indy praguejou em voz baixa quando Williams saiu do seu alcance. Randy olhou para Indy e Shannon. Mesmo agora ainda tenho de vigiar a estação em busca de pessoas invulgares sempre que chega um comboio. pai.afirmou Williams com dureza. No primeiro dia.Pare com isso . Indy puxou o braço com toda a força enquanto Milford cortava.ordenou Williams. não. Mas disseram que ele lhes ficava a dever serviços por causa do dinheiro que ele recebeu.Não sou druida. Williams parecia tão surpreso quanto Indy. .Franziu o sobrolho e fitou o pai de Randy. Pôs-se de pé com um salto e sacou o revólver das mãos de Williams. O homem retorceu para a parede. Ordeno-lhe que liberte estes homens.Williams deu alguns passos em frente e golpeou as costelas de Shannon com a coronha da arma. . . . escute. Mas o zelador parou bruscamente e virou-se quando a porta se abriu. .gritou Indy. Subitamente. foram apenas pequenas tarefas. meu pequeno bastardo.Pai. O pai é um excelente carpinteiro. Randy voltou-se para a porta e. O meu pai não é um homem mau. Deram-lhe muito dinheiro para construir uma jaula. Aproximou-se de Indy e começou a cortar a corda.disse Milford e. Indy viu que era o garoto.Randy tentou tirar-lhe a arma. .Isso pouco importa agora. pronto a derrubar Williams com um golpe rápido. . Pelo menos. Muito obrigado. Sou carpinteiro e o zelador deste local. Powell matar-me-ia.O que estás para aí a dizer? Isso não te diz respeito.Passe-me o meu chicote.Que tipo de jaula? .Uma jaula? .Dr. só mais um passo. e obrigaram-no a ficar com o dinheiro. ergueu a perna da cama e libertou o outro braço. Anda.perguntou Indy.O que me vão fazer? .Você é um pau-mandado .

. . Eu não lhes ia fazer mal.Brody? .Baixou-se para a pasta e tentou abrir o fecho.. .Levaram-na para Stonehenge na jaula que eu construi.Que instruções? . Mantém-no sobre olho. . Também não sei de onde é. -Diga-me agora. . .Veio? .disse Shannon.Nós ajudamos . 172 173 O pai desviou o olhar e anuiu. Só queremos um pouco de colaboração e. .Não me bata.perguntou Indy. . . O que raio fiz das chaves? . . . mas não maltratem o meu rapaz . . severamente.Retirou uma chave da algibeira. de qualquer forma. examinoua. já sei de onde o conheço . . .Shannon parecia admirado. Indy fitou o velho professor.Não gostei nada do modo como me bateu com aquela arma. você não estava em casa e.Sim. Milford.Eu não estava em casa.Não.inquiriu Indy.Bem.Sim.disse Indy e depois virou-se para Milford.Não vamos maltratar nenhum de vocês . . . .disse Williams. .Onde está Deirdre? .Agora.Lamento imenso .Como sabia que me encontrava aqui? . o que diabo faz o senhor aqui? ..Williams hesitou.Vim numa missão importante.Óptimo. Jack .Pode contar conosco. .Ergueu-se e começou a procurar nas algibeiras. vim.Levantou-se e continuou a vasculhar os bolsos.Podem fazer o que quiserem de mim. Marcus ficou preocupado e mandou-me um telegrama. foi Marcus quem calculou. Randy levantou a outra cama e Shannon libertou-se.Com efeito.Sim. se as coisas correrem bem para o nosso lado. .Não. não é esta.afirmou Indy. . estava apenas a guardar-nos para que outra pessoa nos matasse mais tarde.Foi você quem tocou trompete na casa de Indy depois do jantar. . . dr.trancado. aproximando-se de Indy.disse Randy. e depois ajoelhou-se e experimentou-a.Não. Abanou a cabeça. mas depois obedeceu a Indy.disse Milford para Shannon. não terá problemas com Powell. . . . . perguntando-me se tinha seguido as instruções dele. Agarrou em Williams pelo colarinho. . pelo que calculou logo que deveria estar por aqui? perguntou Indy em tom de cepticismo. tocou tão alto que os ouvidos me doeram durante dias.

Indy..E depois deu-lhe a si a verdadeira para que me fosse entregue. mandou-me outro telegrama lembrando-me que eu trazia comigo uma coisa para lhe entregar. .Não. Eu já tinha viagem marcada para Londres e ele pensou que ninguém iria suspeitar do que eu trazia.E quais eram as instruções de Marcus? . revelando uma expressão de perplexidade. essa é falsa. Milford. de que está a falar? De que se trata? . mas Marcus falou qualquer coisa sobre um eclipse em Stonehenge e que. não o conseguia localizar a si. . mal teve o duplicado. .Tirou um lenço e desdobrou-o. . Por isso. aqui está a chave.Sim. provavelmente. . Milford abriu a pasta e ergueu uma caixa quadrada simples.Da Omfalos.Era precisamente isso que eu queria saber.Ah.O velho Marcus foi brilhante. não se deverá agarrar na pedra com as mãos. estaria aqui. Por isso. .Ele acertou bem. . .. 175 CAPÍTULO XXIII A FESTANÇA . . 174 .Dr.Estava sempre no fundo da mala. quando a encontrei.Foi roubada por Adrian Powell. . A propósito. – Claro que as coisass se atrapalharam um pouco quando me esqueci dela por completo. por uma razão qualquer. Indy abanou a cabeça. Milford acenou uma mão. O rosto de Milford iluminou-se.. trocou-a pela verdadeira.É verdade. lhe remeti outro telegrama perguntando a que ele se referia. . Marcus teve a ideia de fazer uma réplica depois de a dra. Indy sentia-se desesperado.Aqui tem. mas estava numa caixa debaixo de alguns papéis. o homem que nos aprisionou aqui. Marcus disse-me que. . – Milford coçou a madeixa de cabelo branco de lado na cabeça. já sabia.Bom.Indy parou. Depois. Embrulhei-a para que não me esquecesse onde a guardei. para cúmulo. . Campbell ter sido tão insistente em relação à Omfalos e de o alertar que iria ser roubada. e.

efectivamente.disse Indy. poder provocar tanta confusão.Não precisamos de mais sarilhos.disse Williams.Quer deixá-la comigo? Indy não tinha grande interesse em levá-la consigo. . Não acreditava. . Ficava um pouco em saliência. movendo-se a um determinado ritmo.Muito bem. mas a sugestão de Milford não parecia melhor. obrigado pela sua ajuda. Indy e Shannon deixaram o quarto e seguiram por um labirinto de corredores até alcançarem uma capela. 176 Abriu o blusão e voltou a caixa ao contrário. Vamos embora. . Shannon abriu a porta.Por que razão? . . com o seu rendilhado petrificado na superfície. mas Indy correu o fecho.Pai! Disse que ajudava. Eu próprio me encarregarei de que a Omfalos regresse em segurança para Marcus. no passado longínquo.Eu não . para a porta principal. Se não se importam. . do céu. sentindo o peso acrescentado. Caíra. . fica aqui com o seu filho e com o dr. provavelmente. Milford .Vá ao chefe da polícia e conte-lhe que os druidas planeiam assassinar uma mulher nas ruínas. Jack.Óptimo. Fora um meteorito que.Porque o chefe da polícia está no meio deles.Preciso que me emprestes a charrete por algum tempo . ficara moldado na sua actual forma. vamos a isso. Dirigiram-se directamente. mas viram-se obrigados a parar.afirmou Williams. . Tenho de ir em auxílio de Deirdre.Trancadas . . tão pouco atractiva e descritiva. . Que maravilha. Surpreendia o facto de uma relíquia como aquela. . . Bateu com a mão no bolso inchado. vou-me estender um pouco numa destas camas. Já passa bastante da minha hora de dormir. Ele é um druida. Milford . A Omfalos caiu de nariz para baixo no interior da algibeira. por ter sido esfregado com um abrasivo quando em águas correntes.Vou contigo.exclamou Indy.. Dr. . simultaneamente. Chegaram. mas uma coisa sobre a Omfalos era verdade. Indy abriu a tampa da caixa e observou o artefacto negro e cônico. .Levo-a comigo. no que o pergaminho de ouro afirmava sobre a vida de Merlin.Como quiser. Randolph. usando uma dessas túnicas.disse Indy a Randy. Shannon retorceu.Não posso fazer isso . Indy lançou ao homem um olhar sombrio. .Muito bem.Eu não vou até lá. . grandemente. às portas duplas. .

trouxe até vós. o rapaz deparou com o castelo do rei do Sofrimento e. . Nada pode ficar pior do que já está. aproximando-se da charrete.gritou Randy do outro lado da capela. falara sem parar de coisas de druidas. percebia que Powell falava para a multidão e alguns dos druidas encontravam-se a curta distância dela. O cavalo e a carruagem estavam ali perto. Com ele renasce uma grande esperança e traz de volta o poder da Omfalos à Dança dos Gigantes. . o submundo e o outro mundo. .Sigam-me.Não .Vão precisar da minha ajuda. que ele considerava enfraquecer a força da nação. Deirdre percebeu que era uma parábola ao intento de Powell de acabar com a Commonwealth. Fora isso que Adrian lhe chamara. ao ouvi-lo relatar um mito celta percebia a ligação. Afastaram-se do convento e dirigiram-se para Stonehenge. Escutem agora a extraordinária história de Merlin..disse Randy. . pensou ouvir um batuque constante e o som de gaitas de foles. junto da pedra da chacina. e Deirdre interrogara-se sobre o que teria acontecido ao homem do Parlamento. . . Indy sentou-se ao lado de Randy. Indy encolheu os ombros. como prometi. sobre o deus-sol e Merlin. aqueles que a apoiavam não tinham nem força de vontade nem um coração forte. Talvez tivesse posto qualquer coisa na água que ela bebera. Seguira com ela nas traseiras do caminhão e durante todo o percurso. 177 Descobriu que o vaso tinha a capacidade de devolver a vida aos mortos e de curar e. Agora. Sentia-se pesada.O vaso de ouro não é de todo diferente do pergaminho de ouro. Mas não sentia força de vontade para pedir auxílio. Era a história de um rapaz que caçava numa época em que a maioria das pessoas não possuía força de vontade nem um coração forte. contudo. o desespero foi-se e as pessoas ficaram fortes de novo. Deirdre estava deitada na jaula de vimes.Já estamos metidos em sarilhos. enquanto Shannon e Williams se instalavam no interior. Não sabia o que o esperava mas estava seguro que a noite não ia ser calma nas ruínas. num pátio interior.E agora? . Algures ao longe. Nada parecia importar.afirmou Williams. Pelo caminho. o qual.Vamos.disse. sonolenta e desprendida. . Era um sono mágico. passaram por outra porta e para um corredor que dava acesso a uma saída na parte lateral do edifício. Mas Powell continuava a falar.Eu conheço a saída .Não vais ter problemas com o teu pai? . Atravessaram a capela. avistou um vaso de ouro.Eu conduzo . – Eu também vou . quando o levou do castelo e o mostrou à população. . ou talvez fosse apenas a voz de Adrian. carrancudo.

aprisionando-lhe o olhar. . Por fim. Acreditem nas minhas palavras. colegas das grandes ordens.Esta não é a noite para discursos. abençoou a visão dos druidas de túnicas. Não acredito. Adrian deslocando-se para o centro da ferradura interior. Quando terminou. voltou a atenção para o monumento de pedra. esta é a nossa noite para festejar. tomar o lugar deles na carne. Conseguiu avistar Powell em cima da pedra da chacina e reparou que ele não lia do pergaminho. mas muitos têm revelado dúvidas. Agarrou nas barras de vimes com ambas as mãos e pôs-se de pé. Cerrou os olhos com força. . foi.gritou Powell. Baixou qualquer coisa para o solo. ele sorriu e ela virou-se para a congregação. vosso servo. O que estou aqui a fazer? Tenho de sair daqui. Podia escutar o som de música e avistar figuras sombrias movendo-se a um determinado ritmo. nas redondezas das ruínas. O pensamento pareceu ocorrer na mente de Deirdre vindo de fora dela. Randy parou a carruagem junto do caminhão. e eu. . voem. .Escutem os tambores e as gaitas de foles que se aproximam. .obrigou-se a olhar. . Se o que eu digo não for verdade. O que se passava com ela? Por instantes. Com uma estranha sensação de alívio. Powell falou numa voz ritualista.O que foi aqui escrito em tempos remotos confirma o que sabemos. .Randy apontou para o caminhão. elevem-se com a noite. para grandes aventuras . O bater dos tambores aumentou de intensidade. com efeito. -Vamos agora enterrar a Omfalos e. mas de uma folha de papel. ao amanhecer. Não acreditava no que via. um druida. o som das gaitas de foles assemelhava-se a um vento desvairado e assombroso. Deirdre não conseguiu desviar o olhar. Deirdre olhou por cima do campo de vestes brancas e viu. depois da consagração estar finalizada. Quando se ergueu. e as terríveis chamas dos deuses me destruam. o arquitecto de Stonehenge. e começou a fazê-la reflectir na situação em que se encontrava e sobre o que sucedia a sua volta. teve quase a certeza de que vira na sua frente um rebanho de veados. Aproximara-se do veículo. os grandes poderes da Omfalos revelar-se-ão quando Apolo e Merlin se fundirem num só. e previu este dia em que as portas do poder se voltariam a abrir para a Dança dos Gigantes. que o céu se derrube sobre o meu rosto.Ouviu depois Powell ler o pergaminho. assim que Indy viu que estava abandonado. – A voz dele era hipnótica. Ele é o responsável pela Omfalos. Espero bem que sim. .Libertem-se. mas. Recusava-se a ver. directamente. Ficou sem respiração. Por muito que tentasse. 178 Depois.Foi assim que trouxeram a jaula até aqui. fitou-a. Um dos seus seguidores mais letrados deve ter-lhe feito a tradução.Vamos ver mais de perto. Merlin. Não pode ser.

além disso. quer homens quer mulheres.É melhor permaneceres por aqui.Talvez alguém venha a precisar de transporte. deslocando os braços como se fossem pássaros elevando-se no céu da noite.Oh.. viu de relance um homem usando apenas uma tanga. Randy .Lançou-lhes um olhar magoado e partiu para junto da charrete. gostamos de caminhar .O que fazes aqui? .Muito bem. misturando-se com a sua sombra gigantesca. em tom inocente. . Randy .disse um dos druidas.disse o pai de Randy ao rapaz.Deixa ficar por algum tempo .alertou o primeiro homem. Os três homens atiraram-se para detrás do caminhão e viram duas figuras de vestes aproximarem-se da carruagem. .É melhor ficares aqui.Disse-te para ficares.inquiriu um deles quando viu Randy. Ecoava nos ouvidos de Indy. dançando e tocando harpa.Vem aí alguém. Diversas garrafas de vinho passavam entre a assistência. . Indy fez sinal para avançarem e lançaram-se a correr para o anel exterior de pedras. . .Ainda não terminamos e. êxtase.Vai-te embora. olhou em redor. Também quero ir. transe. .Já cheguei até aqui. Alguns dos druidas.Vim ver se alguém precisa de transporte para regressar . Recordava-se ainda de como um dos seus professores da Sorbonne descrevera o processo numa aula sobre xamãs do Paleolítico Superior: Estimulação sensual. mas ninguém os vira.afirmou Indy. filho . Mas agora não era a altura para avaliar o comportamento druida. Não te aproximes mais . Williams preparava-se para se levantar. Compreendes? . . Pararam por baixo de uma das pedras.Sim.murmurou Indy numa voz que só Shannon e Williams podiam escutar. moviam-se no solo. . . Viu alguém vestido como um touro e outra pessoa com um ornamento de pássaro na cabeça.O teu pai tem razão. está bem. O som dos tambores era forte.Fica exactamente aqui. . Por instantes. Tinham de tirar partido da situação. . . 179 Indy segurou na arma com firmeza. . Quando os guardas desapareceram de vista. sir. . stress emocional e desorientação induzem desassociação. e tornava-se óbvio que estes novos druidas seguiam os mesmos padrões nas suas práticas rituais. Sabia que as práticas dos velhos druidas celtas derivavam de xamanismo antigo.disse o rapaz.replicou o outro homem.Cuidado-disse Shannon em tom baixo. mas Indy puxou-o para baixo. visão. A estes unia-se a música das gaitas de foles e o ar misturava-se de sons. . . .

Apenas a curta distância.Baixou-se para observar os dois homens no solo e Shannon agarrou nele pelo pescoço e atirou-o contra um bloco direito de pedra.Sou o chefe da polícia. surpreendido. . olhando para os homens sem túnica estendidos no solo. Fez sinal a Shannon e Williams para aguardarem e afastou-se do local onde se encontravam ocultos. .Apanhamos estes tipos a espiar-nos. levando simultaneamente a mão á algibeira da veste para retirar a Webley. . Mas foi o polícia quem caiu. enquanto Shannon e Williams o ajudavam. . Importa-se de me emprestar também esta? . O druida franzia agora o sobrolho.Podias ter arranjado alguém mais baixo.O que se passa aqui? . . Shannon e Williams miravam o homem derrubado por Indy. O homem estendeu uma garrafa de vinho.Vigiem-no enquanto arranjo mais duas vestes. Indy agarrou em Williams pelo colarinho. Despiram a veste do grande homem. . contudo. Voltou-se e reconheceu o mesmo druida corpulento e de barbas que estivera de guarda na pedra de ponta antes do eclipse. Indy aceitou-a e bebeu o resto do líquido. um dos druidas vacilava e oscilava na sua direcção. irmão. Estou encarregado da segurança. O chefe da polícia nivelou a pistola na direcção de Shannon.disse arfando. Indy afastou Williams para longe de si. largando o revólver para uma algibeira.Obrigado. Diversos homens de vestes montavam uma fogueira em cima da pedra da chacina e compreendeu que tinha de se apressar.Não há tempo para ser esquisito. . Estão já a preparar a fogueira. Agarrou por baixo dos braços e arrastou-o para junto dos companheiros.Contudo. Indy agarrou no homem pelo capuz e bateu-lhe com a coronha da arma na cabeça.Precisava encontrar Deirdre antes dela se tornar na vítima da festança.Este tipo está a precisar de perder peso . .Indy puxou o capucho e afastou-se das sombras das rochas. Uma arma disparou. Mas o chefe da polícia ficou menos atordoado.O quê? Indy bateu com a garrafa na cabeça do homem e este perdeu a consciência. . . . .disse Williams. e Shannon colocou-a.Indy fitava o corpo imóvel. dei-lhe um tiro. surpresos com a rapidez dos acontecimentos.perguntou Indy. . Caiu-lhe até aos pés. vejo que arranjou outra.Cuidado! Vem aí gente . e Indy retirou-lhe de imediato a túnica e vestiu-a. Vacilou alguns passos e depois puxou de uma pistola. aproximava-se com cautela. Indy olhou para cima mesmo a tempo de avistar outro druida.inquiriu. Este. . foi você quem levou a minha túnica e não ma devolveu. . .Meu Deus. .Eh. O indivíduo caiu. Sentiu uma mão no ombro e ficou paralisado. Shannon saltou para trás.Williams. o que faz aqui? .Você conhece-o? .

Indy! . . Tinha as mãos na boca como se estivesse a tocar o seu trompete. o ferrolho estalou e a porta abriu-se. .. Com relutância. .Nem pensar nisso . e girava ao seu ritmo. Entre eles encontravam-se figuras com túnicas tocando tambores ou trompas. Cerca de uma dezena de druidas rodeavam a pedra.Shh! Observou o ferrolho e sentiu a dureza das barras de vime. Indy bateu o pé. Deirdre começou a rastejar para fora.Comece a dançar e siga-me. . continuando a dan?ar. . ondulando. 180 181 usando asas de penas e um ornamento na cabeça semelhante a uma serpente. Indy avistou Deirdre deitada no fundo da jaula de vimes. . com os capuzes nas cabeças. . pois praticamente toda a gente dava voltas.Ou a veste ou vai-se embora.Dá-me a minha navalha. Os filhos da mãe.Obrigado. O carpinteiro pegou na navalha. afastaram-se das rochas. e Shannon improvisando os seus próprios movimentos.Está bem. tal como Deirdre fizera. e um indivíduo saltitava de um lado para o outro.É por isso que estou vivo.disse Indy para Shannon quando localizou a jaula de vimes. agitou os braços como se nadasse e serpenteou o caminho em redor da maciça pedra. Tome. sorriu e lançou mãos ao trabalho. e Shannon posicionou-se atrás dele. . girando ao som da música. Tinham tanta confiança que ela não sairia dali que ninguém a vigiava.Deirdre . Foi então que os sarilhos começaram. Shannon pisou de imediato a túnica e tropeçou.Parece vinho derramado . e cada vez mais dos presentes entravam em transe. sem a chave. Puxou a veste para cima e pegou numa das pontas com a mão. Apressou-se para a porta da jaula. Olhou uma vez para trás e viu Williams iniciando os seus passos.murmurou Indy. Abriu a boca. Williams vestiu a túnica e os trás. mas conseguiu recuperar o equilíbrio. Então. pestanejando. atrás da pedra da chacina . apontando para o orifício no peito e para a mancha de sangue.afirmou Shannon. Não se mexia.disse Williams. . pensou. . Ela virou a cabeça. Encaminharam-se para a pedra da chacina e viu a fogueira já a arder. endireitou-a. Pensou em Deirdre e a sua determinação intensificou-se. Ainda bem que assim era. rapidamente. Decida-se. tentando neutralizar a sensação doentia que sentia. Voltou-se para Williams. . estremecendo. Williams agachou-se junto dele. pensou Indy. .disse Shannon.Acorda. abanando.Ali.Tirou a veste ao chefe da polícia e passou-a a Williams. Consigo abri-lo. Indy olhou para Williams. Os seus movimentos estranhos não atraíram a atenção de ninguém. drogaram-na. interrogando-se de novo se poderia confiar nele. provavelmente. . Dez segundos mais tarde.

estás bem? . Indy pegou na mão de Deirdre. No último instante. Pode pensar que é um druida. Rolou para o lado e embateu numa pessoa. Uma horda de druidas descendo sobre eles. Rastejou sob pernas. Conseguiu sentar-se e recuperar o fôlego. . . . Mãos sem fim agarraram-no. puxado pelos cabelos. . Pisaram-no e deram-lhe pontapés.O que está a dizer. . Mas tudo em vão.182 CAPÍTULO XXIV AXIS MUNDI . Powell não nos pode matar na frente de toda esta gente. arranhou e socou.gritou Shannon. mas não a disparou. Shannon e Williams compartilhavam com ele o reduzido espaço. Indy voltou-se e viu-o branco.Não te preocupes. mas vive no século vinte como todos nós. rolou. puxavam. torceu-se.Mas olha agora a posição em que nos encontramos. Shannon ergueu a pistola do chefe da polícia.Indy. Ouviu alguém gritar. arrastado pelos braços e pernas. Foi agarrado por mãos.Parece que não fomos bem sucedidos. como se nada tivesse sucedido. Alguém lhe empurrou os pés e uma porta fechou-se. Jones? . foi atirado através de uma abertura e sentiu um mar de braços e pernas a sua volta. Williams largou a navalha e Indy limitou-se a fitar a enorme massa de homens e mulheres de túnica. Por fim.disse Deirdre.A culpa é minha . Puxou Deirdre também para baixo. cordeiros. 183 . Não deixem os cordeiros escapar.Essa opção nem sequer se punha . .Era Shannon. saiu da sua apatia e lançou-se ao chão. . batiam.Vocês deviam ter escapado enquanto tinham oportunidade. Ele mordeu.Indy! . andou aos ziguezagues. Encontrava-se na jaula e Deirdre.Cordeiros. A porta da jaula foi trancada com uma corda e os druidas começaram a dispersar a fim de prosseguir com a festança. . Vão buscar os cordeiros. empurravam.disse Shannon.

. . Powell não é invencível.Então. .Jones. mas voltaremos em breve. meus carneirinhos.disse Williams. .disse Shannon. e nada mais. mas não nos controla. Mesmo agora.Ficaram com a minha arma. nada podemos fazer contra ele disse Deirdre. Indy tentou colocar-se numa situação mais confortável. Ele pensa que é mais poderoso do que efectivamente é.suplicou Shannon. Powell usava apenas uma tanga e uma grinalda feita de folhas de carvalho e ramos. . Powell era ainda mais perigoso do que ele supusera.Agora. .Hipnose colectiva. Powell foi-se embora. pensou. .Indy olhou para cima e mal acreditou no que viu.Powell tocou a harpa de novo.inquiriu Deirdre. esfregando as mãos no rosto. mas não nos amarrou nem amordaçou.É isso o que eles são. Deirdre apertou a mão de Indy.Disse que não nos pode matar na frente de toda esta gente. mas não com o chicote.É bruxaria . Algo me fez deixar cair a navalha antes sequer de me tocarem. feiticeiros.E então? Não avançamos grande coisa .Mas como? . que ma tirassem da mão. . Pode ter criado um efeito temporário qualquer em nós. .Acho que o que ele diz é verdade.Não falemos de formigas . praticamente. . Ou com a Omfalos.Deixei. temos de tirar partido da arrogância dele.Isso explica por que não consegui a arma – afirmou Shannon.Seja sob que forma que encaremos a situação. . . . riemse e falam de como os carneirinhos quase escaparam quando a porta da jaula se abriu. .Ele é doido . . Vocês serão carneiros de sacrifício.Apalpou a parte lateral do corpo.Primeiro que tudo. você não faz ideia dos meus poderes.Okay. tenho que vos deixar.rosnou Shannon. Indy observou os druidas através das barras de vime. . . Eles vêem o que eu quero que eles vejam. . como uma criança divertindo-se. De outra forma. 184 Atirou-nos para uma jaula. . Primeiro que tudo. não seria obrigado a manter-nos nesta jaula. Não conseguirà safar-se. só temos de pensar numa forma de o enganar. Li uma vez que os antigos druidas dominavam essa arte. vamos reflectir um pouco sobre isto. Powell riu-se e tocou a harpa com imperfeição.Tenho as pernas ainda em fogo onde as malditas me mastigaram. Deve ter qualquer capacidade para fazer as pessoas verem o que ele quer que elas vejam. . . .Somos como formigas prestes a sermos esmagadas sob o seu polegar. . Nem todos são corruptos como você. Tinha uma harpa debaixo de um dos braços e o rosto tão maquilhado que mais parecia uma máscara. Do local onde se encontrava podia avistar o brilho da fogueira para lá da pedra da chacina.

. desesperado.Fique satisfeito por ele estar aqui . Indy estendeu as mãos por entre as barras de vime.Sim. Assim correrão mais depressa .Vai-te embora daqui . já chega. reagrupando-se de novo. rapazes. Mas a faca escorregou das mãos de Indy quando este caiu.protestou Shannon. Continuou a cortar a corda e estava prestes a terminar quando Shannon lhe tocou no braço. Ver-nos-ão como carneiros. Rastejou depois para o anel exterior de rochas e infiltrou-se nas trevas. ou ainda acabas aqui dentro. . . Tinha de agir e rapidamente. Puxou da faca e golpeou as mãos que seguravam na jaula. . . Estamos a perder tempo.proferiu um deles. Os homens gritaram. Tudo o que eles escutarão é o balido dos carneiros antes de serem mortos em sacrifício.Não podemos fazer nada contra ele. não somos carneiros.Talvez tivesse sido melhor não se ter envolvido com os maus da fita .Jack. A multidão afastou-se. abrindo caminho.Nunca estive do lado de Powell. Adrian é poderoso.disse Shannon. .Tenho uma faca. . Posso libertar-vos. Todos se voltaram e viram Randy agachado por detrás da jaula. O sangue jorrou das feridas. Desta vez ergueram a jaula para os ombros e começaram a andar.disse.Dispam as túnicas.Esconde a faca. . Abram os olhos – disse Shannon. . Não estava nas minhas mãos. Um deles contou até três e ergueram a jaula em uníssono. . . Psst. não como druidas.Psst. . Indy ocultou-a quando diversos homens se aproximaram. e Indy reconheceu Olhos Estreitos.Ele não precisa de nos amarrar ou de nos vigiar – disse Williams. 185 Indy avistou línguas alaranjadas de chamas lambendo o céu da noite ao aproximarem-se da fogueira.Nem todos nós precisamos de nos disfarçar. Deslocaram-na alguns centímetros mas voltaram a descê-la para o solo.Parece um problema rotineiro na sua vida – comentou Shannon.pediu Williams. . A jaula vacilou.São pesados . Randy anuiu.Pouco importa. . enquanto Indy começava a cortar a corda que mantinha a porta fechada. Contornaram a jaula e agarraram nas barras de vime. .Mas eles ver-nos-ão . Volta agora para a carruagem e espera por nós. . esmagou-se no solo e partiu-se aos pedaços.. . Um deles olhou para cima. Indy acenou com uma mão para o fazer calar.Dê-me a faca. .disse Shannon secamente. Mas os vossos gritos não resultarão com os outros.

lançou-se a correr atrás da carruagem. talvez inseguras do que viam.Baixem-se! . Então. Um após outro. . vão . Enquanto os outros partiam de gatas em direcção ao grupo de rochas mais próximas. envolvendo o pescoço de um dos druidas que tentou parar Deirdre.gritou Indy para os outros e esticou o chicote. Indy deu meia volta. . Os fugitivos correram por entre as figuras fantasmagóricas mas viram-se encurralados. e diversos outros druidas tropeçaram sobre ele. Seis. pronto a colocar os cavalos em movimento. escorregou e rolou. mas Indy avistou a carruagem e correu velozmente. mas o outro homem prendeu-o pelo ombro. . . O homem baixou-se e ergueu as mãos. agarrando os rostos.Conseguiste .gritou Indy ao abrirem-se clareiras no círculo. e a ponta em nó açoitou faces e queixos. mas o outro indivíduo agarrava-o. . Os outros estavam já no interior da charrette e Randy em posição. . . . os druidas mais próximos foramse atirando para o cho. Oscilou-o por cima da cabeça com dureza e rapidez.Deu-lhes algo em que pensar com aquele chicote.Só mais nove metros. narizes e testas. fortemente. dobrando-lhe o braço.Prendam os animais antes que estes escapem – alertou alguém. Túnicas esvoaçaram. . braços estenderam-se. enquanto os outros escapavam do interior da jaula. Estou quase lá. Tentou levantar-se. As pessoas fitaram-nos. um dos homens mergulhou e capturou-o pelo tornozelo. rodeados por todos os lados. De seguida. Indy puxou o chicote e investiu contra um grupo de druidas.gritou ele. que seguia já adiante.alguém gritou.Eles têm garras .Corre .Indy afastou com as mãos e pés o vime partido e rolou para fora da jaula. correu em frente e afastou-se das ruínas.Vão. 186 Indy tentava recuperar o fôlego ao apoiar-se à porta do veículo.riu-se Shannon. meu rapaz .gritou Deirdre quando a carruagem foi ganhando velocidade. A cabeça do homem sacudiu para trás e Indy rolou para longe dele. . Quatro. Indy tropeçou. e a multidão agitou-se. Fez o homem girar e arremessou-o ao solo.Todos conseguimos. e Indy limitou-se a empurrá-lo. Pôs-se de pé com um salto. Shannon agarrou no punho de Indy e puxou-o para cima. Dois druidas perseguiam-no de perto.gritou Williams com vivacidade. . Indy cobria-os. Levou a mão ao cinto e desenrolou o chicote. Segurou no atacante pelo pescoço e socou-o no queixo.Devem ter pensado que eram os carneiros mais ruins que já mais viram na vida . Agarrou em Deirdre pelo braço.

A carruagem estava a dar meia volta. Talvez devido ao facto de possuir uma loja de animais. Subitamente. Indy deslocou-se para o assento e agarrou no ombro de Randy. e os druidas . agora trajando uma túnica. por detrás dele. O garoto inclinava-se para a frente. Agarrou nas rédeas e puxou-as. . . Segurando nas rédeas para se equilibrar. Necessitava de uma posição melhor. Ao caminhar para a carruagem.Apanhei este pequeno patife a tentar fugir. Junto dele estavam pés.Chega-te para lá. A relíquia era a única esperança que lhe restava. atrás dele.Não os consigo controlar. professor? Os cavalos escutaram a minha chamada e obedeceram ao meu comando. Puxou-se para o lado do veículo. Indy deve ter ficado inconsciente por alguns segundos. estendendo as mãos para as rédeas. . que deixara na carruagem quando chegaram. Os cavalos abrandaram subitamente a marcha. apareceu Olhos Estreitos. Aterrara sobre a Omfalos e magoara uma costela. Pernas. O divertimento aguarda-nos. como pode verificar. derrubando Indy da sua posição. Alguma coisa estava errada. mesmo assim.gritou Indy. Jones. Mas sentiu-se aliviado por esta não se ter perdido. . o seu chapéu. O rapaz desviou-se e Indy esticou-se o mais que conseguiu.gritou Randy desvairado. . colocando um pé nas traseiras de cada cavalo. que se tinham libertado do seu aperto.O que estás a fazer? . viu a carruagem virada de lado e escutou pedidos de auxílio. Avistou então os contornos das rochas maciças surgindo ao longe. Randy emergiu das trevas e. . Levantou a cabeça e avistou Powell. . caiu na sua frente. Mas. quando abriu os olhos. Apontava-lhe uma arma e. subiu para cima da cobertura e alcançou a traseira do banco de madeira de Randy. o monumento de pedra sobressaía na noite.Não sou eu . O som das trompas e tambores cessara. não conseguia alcançar as rédeas.Não se esqueça do chapéu. Inclinou-se depois para trás e puxou as rédeas com força. Os cavalos galopavam a toda a força em direcção a Stonehenge. Powell gesticulou com a arma para a carruagem virada. Voou pelo ar e aterrou no solo. Nesse instante. Deu um salto para a frente. Tenho uma afinidade muito especial com os animais. estavam presas nas costas de um dos cavalos.Indy olhou para cima. Mas os cavalos pareciam correr ainda mais depressa. aterrando no costado de um dos cavalos. a sua silhueta recortada pelo brilho alaranjado da fogueira. . 187 - .Reúna agora os restantes cordeirinhos. porque. .Riu-se. a uma tal velocidade que Indy quase se desprendeu da porta da carruagem.Gostou da viagem. Ergueu-se sobre as mãos e joelhos. levantou-se. Só havia uma coisa a fazer. Indy sentiu uma dor de lado e tocou com a mão na algibeira saliente do blusão. Regressava ao mesmo local.

Apresentavam-se agora diferentes. mas. ao comprimir a Omfalos contra o peito . vai finalmente iniciar-se a mais sagrada das nossas cerimônias informou Powell à congregação. você não tem a Omfalos. estava ali. pensou Indy. .perguntou Indy. Olhos Estreitos esmagou a arma nas costas de Indy. Não era possível que uma pessoa pudesse controlar tantas mentes. Fazia parte do seu passado. em Delfos.ordenou olhos Estreitos. . A última vez que a vira fora quando segurara na Omfalos.Ninguém o pode ouvir. agora já em desespero. Vezes e vezes sem conta. Powell foi apanhado desprevenido. . . Baixou o punhal quando Indy parou a pouca distância dele. Está aqui nas minhas mãos. Jones . .Não o deixem fazer isto . gravando um círculo sobre as pedras.exclamou Indy em voz alta.Quem é este homem? De onde apareceu ele? É um de nós? Agora eles viam-no. Axis mundi est chorea gigantum. cânticos e oscilavam de um lado para o outro. Indy abriu a algibeira do blusão.gritou Deirdre. A sua é falsa.entoavam. . A multidão soltou murmúrios. Um druida avançou com um pequeno carvalho e plantou-o num buraco junto de Powell. Powell ergueu o punhal para a garganta de Deirdre.Agora. Viu uma àguia. ignorando a ameaça. Outro druida aproximou-se e entregou a Powell um punhal longo de punho esculpido. a curta distância da fogueira. . Era a sua protectora. . Indy não sabia o que fazer a seguir. voando sobre as ruínas. de novo. enquanto Indy e os outros eram mantidos sob a vigilância de armas num dos lados da ferradura. Agora.Escutem o carneiro balindo antes do sacrifício – afirmou Powell. de os escutar. Indy sentia-se tão fascinado com o que presenciava que não se apercebeu no início que um homem alto de manto e capuz cinzentos se encontrava à sua .Pare. de repente.Powell. Não acreditam que os carneiros falem. Conhecia esta àguia. O círculo de pedras e todo o templo estavam completos. Quando o terreno em redor da árvore foi alisado com uma pá e o druida se afastou. Powell conduziu Deirdre para a formação de pedras em ferradura no centro de Stonehenge. . abram os olhos . não sabendo se as palavras eram faladas ou pensadas. subitamente. A sua àguia. Indy viu as pedras iluminadas com uma luz etérea que parecia emanar do interior delas mesmas. Retirou-a da algibeira e ergueu-a acima da cabeça. A águia completou o seu primeiro círculo e. Powell ergueu uma mão e o cântico esmoreceu e terminou.Ou disparo. Indy calculou que fosse o mesmo local onde a falsa Omfalos estivera enterrada. Mas não havia tempo para se interrogar sobre o que a multidão via. sentiu que já não interessava.É uma mulher. . Onde antes estivera a pedra da chacina erguia-se agora uma rocha inteira. por isso não ouvem nada. e Olhos Estreitos não apertou o gatilho. Alguém no meio daquela multidão tinha de os ver. Mas Indy avançou na direcção de Powell.O que hei-de fazer? . Sentia que assim era.

A energia não é boa nem má. Pergunta aquilo que ainda não sabes. pousado no seu ombro direito. estava um mocho. Mas tu podes impedir Powell. mas nada mais. De súbito.esquerda. Mas as palavras do velho mágico ecoavam na sua mente. dentro de poucos anos.Tu sabes. viu um par de mãos sobre a Omfalos. Gosto desse nome. Indy fitou o homem. Olhos Estreitos dirigiu-se a Powell e perguntou-lhe se se sentia bem.Pergunta. Pareceu surpreendido por Indy lha ter entregue de forma tão fácil. Tinha os olhos muito abertos mas fitava Olhos Estreitos como se não o reconhecesse ou compreendesse o que ele dizia. . Existe apenas. . . olhando para baixo.Onde estou? .Por que se chama a Dança dos Gigantes? 188 189 .Quem é você? .Estão aqui. . . e tudo regressou ao estado anterior. Largou a pedra.Outrora. Powell ergueu-se. O estranho de capuz desaparecera. um nariz longo e o esboço de um sorriso. . deu um passo vacilante e depois ajoelhou-se sobre um joelho. a sua expressão alterou-se. as quais constituem grandes baterias de poder e cura. . . os deuses dançantes carregavam as pedras de energia.Tenta de novo. A sua boca abriu-se. O homem olhava em frente e. . que lhe queria tirar a relíquia.Dando-lhe o que ele quer.O poder pode ser usado para o mal? . Depois. falsa tal como acreditas que é.Digo que um elemento das ordens se tornará primeiro-ministro.Adrian Powell tornar-se-á primeiro-ministro? . renascerei em conhecimento como Gandalf. Sentiu um puxão e.O homem voltou-se ligeiramente e Indy avistou um rosto pálido e enrugado.Setenta janelas abrem-se para o universo e para a mente universal.Já leste a minha história. . Indy não sabia o que perguntar.Pergunto o quê? .Onde estão as pessoas? . e Powell pressionou a Omfalos contra o seu próprio peito. Indy conseguia ver parte de uma longa barba branca. tentando obter uma visão melhor. Tenho muitos nomes e. . O homem falou: .Mas não parece o mesmo local. viu-se numa verdadeira disputa com Powell.Como? . . Parecia atordoado. Mas não percas tempo. tal como a àguia.

disse. Esta desceu e pousou no seu ombro. .Mais do que aquilo que vês. Eu controlo. Indy avistou então Olhos Estreitos por detrás de Powell. . Uma mente de grande força. Mais uma vez.Terminou.Deixa-me . Preparava-se para seguir para junto de Deirdre. Desta vez. O mágico ergueu uma mão como lhe indicando para falar. . e Indy compreendeu que estava protegido. Perdeu a visão. retirou depois e rasgou até a clavícula. Indy sentiu um puxão e viu que Powell lhe tirara a Omfalos de novo das mãos. Powell retrocedeu até ele. mas de igual avidez. repentinamente. Terminou tudo.Que monstro me agarrou? Depois. virou-se para Indy pela última vez. Powell reapareceu na berma do braseiro.Não é assim. com pouco interesse pelos outros. Olhos Estreitos cambaleou para trás. avistou a àguia voando sobre as ruínas. Mas. Indy não hesitou. . o sangue jorrando-lhe do estômago e peito. mal acreditando no que os seus olhos viram.Se não é Powell. . Indy abraçava Deirdre bem junto de si. Caiu derrubado no solo. . e Olhos Estreitos envolveu com os braços e ambos giraram como dois dançarinos. A figura de manto cinzento encontrava-se junto dele nas ruínas que deixaram de ser ruínas. Tudo se derruba à volta dele.Vê agora o que está a acontecer. Afastou-se de Indy. sangrando e vacilando. Com um golpe rápido. Churchill? Depois.gritou Powell.Isso não te diz respeito.. Por instantes. .O que viu Powell quando segurou na Omfalos? . esfaqueou Olhos Estreitos no estômago. . . Olhos Estreitos empurrou Powell para a frente e para a fogueira. Afastou uma mão da Omfalos e retirou da túnica o punhal cerimonial. . Indy . mas com muito pouco de druida. Subitamente. num tom de voz estranho. A pele estava enegrecida e em chamas. Não te preocupes com tal coisa.A paisagem da sua própria mente. Indy sacou a Omfalos a Powell e agarrou-a. incluindo o próprio céu acima dele.Sou invencível. O fogo bramiu. quem é o druida que se tornará primeiro-ministro? 190 .Afagou a cabeça do mocho sobre o seu ombro. A minha força é imensurável. Os dois homens desapareceram nas chamas. mas segurava ainda a Omfalos. com todas as forças que lhe restavam. Estava de pé. elevando a Omfalos acima da cabeça. como que em aprovação.A cerimônia tem de ser completada . Será um líder com pujança.O que se passa? O homem alto riu-se. mas parou a meio do caminho. .

Sim. encontramos ainda outra coisa que sei vais querer saber .A bota? .Contudo. Jack.Não. apenas alguns gramas.Powell devia tê-lo numa algibeira da túnica.. Indy trazia consigo um saco de pano e. . Não quero saber.O que vou fazer com isto? . caiu de novo no inferno. não me refiro à tua bota. não! . encontraste-a .pensou que Powell se ia atirar a eles. . .afirmou Shannon. Mas. a sola da bota ainda fumegava.O quê? Mostrou um pedaço chamuscado de metal amarelo.Olha para isto. pela forma.disse Shannon.Toma. 191 CAPÍTULO XXV A SETA DE APOLO Um fio de fumo elevava-se das cinzas da fogueira.Consegue-se recuperar? . e. com um grito final e cortante de terror.disse. parecia que tivera sucesso na recuperação da Omfalos.Oh. Deirdre não quisera participar nas buscas. .A escrita dsapareceu totalmente . . O que resta dele. – Agora não passa de um pedaço de ouro. contratar uma banda de jazz e pagar-lhes bem.respondeu Indy.perguntou ela. Sofrera já demasiado horror.E ainda é . . Um sono longo e profundo. é teu. tudo o que desejava era dormir. Shannon entregou-lho.. agora.É o pergaminho de ouro. Tenho precisamente uma em mente. .Receio que assim seja . Deirdre observava a luz do amanhecer enquanto Indy e Shannon abriam caminho até ela. Só isso.Não me contes.Pelos vistos. .disse Indy.Podias organizar uma grande cerimônia de casamento. . . . . e uma das extremidades. – Levantou o pé. Queria esquecer. Era um fogo quente. . Foste tu quem o encontrou. . depositou-se na caixa toráxica. Não se aproximaria nem mais um pouco daqueles restos. . . Ela acenou uma mão.

eram cônicas. Pelo menos.E a falsa Omfalos? . Deveriam sentir-se aliviados e excitados. . . Estava insegura. mas algo mudara entre ele e Deirdre. parece que já nada nos prende aqui. Naquele preciso momento.Não. Fitou o que restava do pergaminho de ouro e encolheu os ombros. pensou Indy.inquiriu Shannon. No entanto. . decidiu. necessitava de tempo para pensar. Shannon encolheu os ombros. Vamos. Passaram perto de uma das grandes rochas e Indy parou ao deparar com a sua Webley junto da base. Pegou nela e depois mirou o maciço bloco de pedra. . tal como a Omfalos. desviando de seguida o olhar.Vamos deixá-la . necessitava de dormir. em nada parecida com aquela excitada com a expectativa de regressar a Londres e casar-se.Também eu. Pareciam pessoas diferentes. e ambas essas formas estavam presentes em Stonehenge.perguntou Shannon. . era assim que ela acreditava que as coisas resultariam. Depois do que se passara. pois não? Indy olhou para Shannon. . Stonehenge. estava certo. Retirou o braço de cima do ombro de Deirdre e mirou pela última vez as formações de pedra. O cone e o paralelogramo eram as duas formas de pedras consideradas como mais sagradas pelos antigos gregos.Bem. sabia que mais do que uma pessoa que sobrevivera a uma situação de ameaça de vida sentia um inexplicável enfraquecimento depois de ultrapassado o perigo. Mas Stonehenge foi concebido e erigido antes de os gregos terem alcançado notoriedade. que nunca segurara na Omfalos.Será um bonito gesto simbólico do regresso da Omfalos. e na estranha visão do homem alto com manto cinzento. alterado como o solo durante um terramoto.proferiu Indy. e voltariam a estar juntos. para se libertar do passado. Talvez depois de descansar. para sarar. que formavam uma ferradura no interior das cinco rochas grandes no centro das ruínas. 193 . Reparou que as pedra-lipes. . A sensação acabaria por passar. . era um local onde o mito e a realidade se fundiam. Podemos ir embora? Estou pronta para cair numa cama. sentia-se algo mudada. e a verdade era talvez tão estranha quanto o mito e a realidade. Indy colocou o braço em redor do ombro de Deirdre. tudo se desenrolasse como tinham planeado. creio que não. uma pessoa diferente.Não creio que faria grande diferença qual das duas fosse ali plantada. Pensou no pergaminho de ouro com a história de Merlin. com esperança no futuro.O que estás a fazer? .192 Deirdre riu-se e olhou para Indy. . deslizando as mãos sobre ela.

Indy virou-se e observou o vasto e desolado planalto. Não tive realmente oportunidade para o fazer desde que aqui chegamos. Ele encolheu os ombros.Estou apenas a ver.Apolo deu uma seta ao mago Abaris que viajou por toda a terra sobre ela. . Shannon esfregou o pescoço e sorriu. C. Sabia que Deirdre estava ansiosa por partir.afirmou Shannon. Vamos embora . . Alguns centímetros acima da sua cabeça. no bloco de pedra. Indy preparava-se para se voltar quando avistou qualquer coisa. . .Agora o que estás a fazer? . vocês os dois. FIM 6 de Março de 1998 - REVISÃO de Sonia (Anyanka-le-fay) pelo Troca_de_Ebooks2. Pensou nas histórias sobre Apolo e Merlin e interrogou-se.Penso que lhe podes chamar isso. Indy. Cada pedra tem uma história diferente para contar.perguntou Shannon. havia uma gravação.Muito bem. . por muito grande que seja .O que é isso? . Compreendi a mensagem. . .disse Deirdre. . Era uma adaga com cerca de trinta centímetros que apontava para baixo. .Uma pedra é uma pedra. A carruagem aguardava-os. Randy levara o pai de regresso à aldeia logo ao raiar da manhã e voltara para os buscar. Indy apontou para a adaga. O cabo parecia semelhante a gravações de adagas de Egeus que estudara.Quem sabe? Talvez Apolo o tenha enviado aqui para levar algo que tivesse aqui enterrado há muito.Venham.Tal como a música de jazz é toda igual. Talvez seja a seta de Apolo.perguntou Deirdre. . datadas do século II a..Parece uma seta.Por que haveria de ter feito aqui uma paragem? – perguntou Shannon.Estás a ver isto? Deirdre aproximou-se mais da pedra. . . .

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