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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA ONTEM E HOJE, SEMPRE ESTUDANDO O BRASIL

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS

LS 828/02 DAInt

O PENSAMENTO GEOPOLÍTICO BRASILEIRO

Os textos de Leitura Selecionada, de caráter doutrinário, teórico ou conjuntural, destinados à distribuição interna, às vezes discordantes entre si, visam a trazer novos subsídios aos estudos que aqui se realizam e expressam opiniões dos respectivos autores, não necessariamente as da ESG.

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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA DEPARTAMENTO DE ESTUDOS DIVISÃO DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

LS 828/02

O PENSAMENTO GEOPOLÍTICO BRASILEIRO

Profª Therezinha de Castro

Rio de Janeiro 2002

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Presidente da República FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Ministro de Estado do Ministério da Defesa GERALDO MAGELA DA CRUZ QUINTÃO Comandante e Diretor de Estudos da Escola Superior de Guerra Vice-Almirante ADILSON VIEIRA DE SÁ Subcomandante e Chefe do Departamento de Estudos Brigadeiro-Engenheiro FRANCISCO MOACIR FARIAS MESQUITA

Divisão de Assuntos Internacionais (DAInt) Chefe: Cel Av JORGE CALVÁRIO DOS SANTOS

Escola Superior de Guerra Divisão de Biblioteca, Intercâmbio de Difusão Av. João Luís Alves, s/nº CEP: 22291-090 - Urca - Rio de Janeiro, RJ - Brasil Telefone: (021) 545-1737 PABX: (021) 545-1706 FAX: 545-1717

SUMÁRIO

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1 - INTRODUÇÃO ..............................................................................................7 2. PIONEIROS .....................................................................................................8 2.l - Everardo Backheuser (1879-1951) ..............................................8 2.2 - Mário Travassos (1891-1973) ......................................................9 2.3 - Lysias Augusto Rodrigues (1896-1957) ......................................10 3 - SEGUIDORES................................................................................................11 4 - CONTINUADORES.......................................................................................12 5 - CONCLUSÃO ................................................................................................18

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PENSAMENTO GEOPOLÍTICO BRASILEIRO

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1 - INTRODUÇÃO
Até a Segunda Guerra Mundial se impôs apaixonante polêmica quanto ao valor da Geopolítica. Assim, enquanto notadamente nos Estados Unidos, França e Inglaterra negavam-lhe o caráter científico, na Alemanha sustentava-se o contrário. As críticas mais violentas se dirigem, ainda hoje, contra a variedade de suas leis. Justificando seus defensores que, coexistindo numerosos Estados sobre a superfície da Terra, de paisagens tão variadas, terão que se impor às tantas diretrizes que traçam as várias diretrizes geopolíticas, mesmo que dentro do próprio continente e até nas diferentes épocas. A Geopolítica demonstra assim, ser dinâmica, diferindo da Geografia Política que é estática. Findo o segundo conflito mundial, desenhando-se na conjuntura internacional uma nova bipolaridade, começam a surgir alguns pioneiros da Geopolítica em vários países. Chegava-se à conclusão que a Geopolítica, como ciência do Estado, tinha a finalidade de dar aos estadistas, e em decorrência aos cidadãos, uma ampla visão geográfica, histórica e política dos problemas do presente e do futuro, tanto no próprio país como nos demais. Impunha-se, pois, a Geopolítica, como a ciência que preparava um Estado no cumprimento de seu destino vendo os fatos com visão mais ampla do futuro. Daí a diretriz geral da Geopolítica como ciência que indica fatos, aponta problemas, fornecendo elementos para ação política não só prática como consistente.

2. PIONEIROS
O Brasil foi, depois da Alemanha, o primeiro país a aceitar a Geopolítica na acepção transmitida por Rudolf Kjellen.

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De início, considerada como "doutrina perigosa", "imperialista" ou "condenável", diante da corajosa investida dos pioneiros do pensamento geopolítico, foi, no Brasil, sendo adotada por personalidades cujas atividades se ligavam à segurança nacional. Estudiosos vários que seguiriam os passos dos três primeiros - um civil e dois militares.

2.l - Everardo Backheuser (1879-1951)
Pioneiro da Geopolítica no Brasil, escreveu trabalhos, publicou artigos adotando o termo criado por Kjellen, em 1899, e recebido favoravelmente por Haushofer em 1916. Assim, em 1924, quando Haushofer publicava seu primeiro livro Geopolítica do Oceano Pacífico -, o brasileiro Backheuser divulgava a nova ciência, tão mal vista no país, em jornais e num livro que intitulou Estrutura Política do Brasil(1926). E colaborava com artigos com a Revista Zeitschrift für Geopolitik de Heidelberg, na Alemanha. Entre vários artigos destacam: Alguns Conceitos Geográficos e Geopolíticos, Leis Geopolíticas da Evolução dos Estados, A Política e Geopolítica segundo Kjellen e Aspectos Geopolíticos do Mar. Professor universitário, engenheiro por formação, após dedicar-se a pesquisas sobre Geologia, publicava numa nova tendência, em 1933 Problemas do Brasil: Estrutura Geopolítica. Em 1944, publicava Função Geopolítica do Engenheiro. Neste último trabalho, lançava a idéia de que conviria às Escolas de Engenharia anexar a Geopolítica à já existente cadeira de Economia Política, pois os engenheiros eram executantes de boa parte dos projetos governamentais e, por vezes, seus delineadores. Ia mais além, quando perguntado se uma vez generalizado no Brasil o ensino da Geopolítica em Faculdades, em qual delas deveria existir, respondeu: "onde for feita a formação de estadistas, ou seja, nas Faculdades de Ciências Políticas; e não ficaria mal colocada nas de Engenharia, Direito, nos cursos de Geografia e História das Faculdades de Filosofia, bem como nas Escolas Técnicas de Estado-Maior". Em 1948, a Pontifícia Universidade Católica, criando seu Instituto de Direito Comparado, introduzia nele a Cadeira de Geopolítica, confiando a cátedra a Everardo Backheuser. O programa sumário desse seu curso seria

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transformado num livro que a Biblioteca do Exército publicava (volumes 178179, sem data) sob o título Curso de Geopolítica Geral e do Brasil. Era o primeiro livro didático de Geopolítica lançado no Brasil que seguia, na introdução, os conceitos de Kjellen, fazendo um histórico da nova ciência que associava a teoria geral do Estado. Desse mesmo Estado que, na primeira parte intitulada Morfologia destacava a influência, em suas diretrizes políticas, a forma e extensão do território. A segunda parte, Fisiopolítica mostrava a influência nas diretrizes políticas do Estado, resultantes daquilo que se convencionava chamar de domínio ou seja, conteúdo do território. Finalizando, a terceira parte cingia-se ao estudo da influência nas diretrizes políticas do Estado resultantes da situação geográfica. Foi grande sua preocupação com a localização da nova capital federal e com outra divisão territorial do Brasil. É autor de um dos mais claros e sintéticos conceitos da Ciência: Geopolítica é a política feita em decorrência das condições geográficas. À Backheuser ficou o Brasil devendo os primeiros estudos sistemáticos da Geopolítica, bem como sua divulgação inicial em cursos que ministrou no Instituto Rio Branco (1944-45) para implantá-lo na Universidade Católica (1948).

2.2 - Mário Travassos (1891-1973)
Sua obra ressalta importantes aspectos da Geopolítica brasileira, começando em 1931 com um trabalho intitulado Aspectos Geográficos SulAmericanos. Embora não tenha empregado o termo Geopolítica, Pandiá Calógeras, no prefácio que escreveu em Petrópolis, o classifica como tal, aconselhando: "leiam-no os estudiosos, os que têm responsabilidades de governo". A obra divide-se em três capítulos. O 1º - "Aspectos Capitais" aborda dois antagonismos em presença, Atlântico versus Pacífico e Prata versus Amazonas. Enfoca a "Política das Comunicações Platina", destacando a projeção internacional da rede ferroviária argentina numa repercussão direta sobre o Pacífico e indireta sobre a Bacia Amazônica. Dedica — "Capacidade de Reação da Amazônia" — ao contexto do Planalto Boliviano, suas comunicações naturais com a nossa Região Norte e as "aberturas andinas"; concluindo então que se redobravam em valor a capacidade carreadora dessa mesma Amazônia.

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O 2º capítulo, "Signos da Inquietação Política", inicia com os pontos de instabilidade geográfica em torno dos territórios da Bolívia, Colômbia e Uruguai; no contexto de Santa Cruz de la Sierra, destaca o triângulo simbólico do planalto boliviano solicitado no rumo de todos os quadrantes. Concluindo o conjunto com a "Influência Norte-Americana", ao destacar a influência mundial que teriam os Estados Unidos e os rumos da política yankee estrapolando o Caribe para atingir a América do Sul. O 3º capítulo, intitulado, "Projeção Continental do Brasil" seria posteriormente ampliado e transformado num livro publicado em 1938 com o mesmo título, na Coleção Brasiliana da Companhia Editora Nacional. Seu pioneirismo no campo da Geopolítica está no fato de aplicar a nova ciência numa estimativa das componentes do imenso sistema de forças geopolíticas sulamericanas, para concluir que o Brasil, pelo espaço e posição geográfica contém, indiscutivelmente, a resultante política. Abordando o problema dos transportes no Brasil, foi pioneiro da idéia dos corredores de exportação para melhor integração continental, bem como da necessidade de eficiente rede aérea em face da nossa extensão territorial. Foi grande sua influência na divulgação da Geopolítica no meio militar, pois o General Mário Travassos, Diretor de Ensino do Exército em 1950, passaria para a reserva como Marechal, em 1952.

2.3 - Lysias Augusto Rodrigues (1896-1957)
Figura da aviação militar escreveu Geopolítica do Brasil, editado pela Biblioteca do Exército, em 1947. Valendo-se de seu vasto conhecimento do território brasileiro traz a baila a planificação do Estado Nacional com soluções que a Geopolítica ilumina. Dentro do aspecto didático, a obra foi posta ao alcance dos iniciantes por se ater unicamente à Morfologia de Kjellen, ou seja, preferencialmente ao contexto territorial (espaço) bem mais que os de posição (clima). Como não é possível abordar a Geopolítica do Estado como se fosse o único sobre a face da Terra, envolve o Brasil nos âmbitos geopolíticos sulamericano e mundial. Trata então das fases da evolução do espaço brasileiro, os puncti dolentes que nos interessam, das fronteiras terrestres e marítimas para se deter nas áreas onde destaca Belém e Natal como os dois aeroportos "esquina do Mundo". Considera então a posse do espaço aéreo como condição vital,

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concluindo que só através dele "poderá o Brasil fazer todo o seu espaço físico coincidir com o político". Após expor o sentido geográfico do homem brasileiro, propõe a redivisão territorial como problema geopolítico a ser enfrentado. Adepto da transferência da capital, discorre sobre a mudança do nosso centro político, valendo-se do pensamento de Mário Alencar de que "posta no planalto goiano, a capital do Brasil será efetivamente o cérebro e o coração do Brasil". No campo da Geopolítica, escreveu também vários artigos para a Revista do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil entre os quais destacamos "Estrutura Geopolítica da Amazônia Brasileira", "O Triângulo Geopolítico do Nordeste" e "O Polígono Geopolítico do Sul do Brasil", nos quais mostra como constante a sua tendência para uma nova redistribuição territorial. Em 28 de maio de 1949, fundava o Instituto Brasileiro de Geopolítica, que realizou campanhas de interesse nacional dentre as quais a mais importante foi, sem dúvida, a de oposição ao projeto do "Instituto Internacional da Hiléia Amazônica".

3 - SEGUIDORES
A partir de 1950, os estudos de Geopolítica começavam a ter impulso com vários estudiosos publicando artigos e livros. — A Biblioteca do Exército tomava a dianteira publicando o livro do Ten Cel Jayme Ribeiro da Graça (1951) — A Geografia na Política Externa (Introdução à Geopolítica). O autor destacava que a superfície da Terra era vista sob diferentes aspectos, segundo o grau de interesse do observador, mostrando como situar e interpretar a Geopolítica. Seguindo as tendências de Lysias Rodrigues, com ênfase no Ártico, destacava a Geopolítica do Poder Aéreo. Demonstrava que as leis da Geopolítica eram elaboradas pelos Estados, exemplificando com o domínio das bacias hidrográficas, das costas opostas e o controle das rotas e saídas para o mar. Focaliza os hot spots como pontos de instabilidade geográfica e de conflito estratégico, analisando os potenciais URSS/EEUU, do antigo Commonwealth e destaca o caso do posicionamento geoestratégico da Coréia. Questões, na época, bem atuais no âmbito das relações internacionais.

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Devendo-se destacar que Ribeiro da Graça em 1949 e 1950 ao se iniciar nos estudos da Geopolítica, produziria dois artigos para a Revista Militar Brasileira, ambos dentro do contexto teórico. — Publicaria também a BIBLIEX o livro do Coronel Adalardo Fialho (1952), intitulado Problemas do Brasil. Inicialmente, trata a obra de assuntos geopolíticos e estratégicos com o Brasil na geografia mundial. Destacando que não havia um só Atlântico, dava ênfase zona de estrangulamento Natal/Dakar. E, sem denominar a nossa parte continental de América do Leste, alertava para o fato do meridiano de Nova Iorque passar ao largo de Valparaíso no Chile. Destacava que as posições da América e Europa são idênticas em relação ao Nordeste Brasileiro e que o problema poderia ser expresso por um triângulo equilátero com os vértices em Norfolk-Brest-Pernambuco, tendo cada lado 4 mil milhas. Estuda como empreendimento continental o prolongamento da ferrovia Noroeste do Brasil chegada até Santa Cruz de la Sierra. Sua contribuição à Geopolítica, infelizmente para por aí, pois a outra metade do livro passa a tratar de temas brasileiros ligados à História, Sociologia e Economia. — Foram os dois seguidores, mas não continuadores, como também o Coronel Leopoldo Nery da Fonseca Junior, que, pela Editora Bedeschi, do Rio de Janeiro, publicara, em 1940, o primeiro livro com o título de Geopolítica. Nele, além da Sociologia, História e Relações Internacionais, é quase nula a contribuição para a ciência que dá título ao trabalho.

4 - CONTINUADORES
Para a divulgação dos conhecimentos da nova ciência e conseqüente destaque do pensamento brasileiro, seria grande a contribuição de estudiosos que se ligaram à A Defesa Nacional. — A referida Revista, em junho de 1958, passava a contar com uma Seção de Geopolítica, sob a responsabilidade do Major Octávio Tosta da Silva (1916). Contou esse oficial do Exército com a vantagem de ser licenciado em Geografia e História e haver servido nessa seção do Estado-Maior do Exército.

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Seus artigos mais importantes constam dessa Seção de Geopolítica de A Defesa Nacional, dentre os quais podemos destacar: "Bolívia, Impressionante Expressão Geopolítica", "O Acordo de Roboré", "O Caso da Ilha Snipe", "O Caso Divortiun Aquarium entre os Rios Zamora e Santiago", "Geopolítica do Prata — Buenos Aires e a Luta contra o Centrifugismo Geopolítico", "Brasil/Paraguai: Salto das Sete Quedas". Aparecia em livro lançado em 1984 pela BIBLIEX intitulado — Teorias Geopolíticas. Afirma a Professora Therezinha de Castro, no prefácio, que esta obra "destaca antes de tudo o Professor, já que da primeira até a última página é notória a preocupação do sistematizar para ensinar". Preocupação do transmitir didaticamente tudo, desde a gestação da Ciência, num processo comparativo entre os principais precursores estrangeiros e brasileiros, até que, num evoluir histórico, conduz o leitor da Geografia à Geopolítica. Para estudar problemas geopolíticos do Brasil e América Latina e sistematização da Ciência, Octávio Tosta convidava para colaborarem o Coronel Golbery do Couto e Silva e o Tenente-Coronel Carlos de Meira Mattos. O pensamento geopolítico brasileiro iria enriquecer-se com os artigos desses dois oficiais do Exército participantes da FEB. — Golbery do Couto e Silva (1911-1987) Inúmeros foram os cargos e missões que exerceu, mas destacamos como profícuo para a Geopolítica sua nomeação, em março de 1952, para adjunto do Departamento de Estudos da ESG na Divisão de Assuntos Internacionais e Divisão Executiva, de onde saiu em 1955, quando publicou pela BIBLIEX seu livro Planejamento Estratégico. A obra é dedicada "aos brilhantes companheiros de estudos e de fecundos debates em três anos inesquecíveis - 1952-53-54". O trabalho divide-se em 4 partes. A 1ª, intitulada, "O Planejamento e a Segurança Nacional", vai da análise do homem como criador de mundos até o imperativo do planejamento governamental como "um imperativo da hora que passa". Na 2ª parte "Planejamento e Fortalecimento do Potencial Nacional", discorre desde o processo da quantificação, passando pelo desdobramento particular do planejamento, para atingi-lo no âmbito nacional de 1º grau. A 3ª parte é dedicada ao "Planejamento de Guerra", ficando a 4ª parte para os "Estudos Estratégicos de Áreas", concluindo que "face à tensão entre Rússia e Estados Unidos, vemos que com pequenos ajustamentos" as referidas áreas estavam cifradas aos dois centros periféricos antagônicos, constituindo-se na prática em "áreas mundiais de fricção".

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Em Geopolítica do Brasil, publicada pela José Olympio Editora, em 1967, já aliava à condição de estrategista como militar, a intuição que o destacava como político atuante da Revolução de 1964. E, já na Introdução analisa o problema vital da segurança nacional, afirmando que — "os escravos não são bons combatentes", pois, "Segurança e Bem Estar e, em plano mais elevado, Segurança e Liberdade são dilemas decisivos com que sempre se defrontou a humanidade". O livro analisa na 1ª parte os aspectos geopolíticos do Brasil, passando na 2ª parte, no conjunto geopolítico e geoestratégico, aos dois pólos da segurança nacional na América Latina, para atingir áreas internacionais de entendimento e áreas de atrito. É, na 3ª e última parte que insere o Brasil na defesa do Ocidente, que, por sua posição estratégica no Atlântico, deve dela se valer para se impor como potência emergente. Observando as fronteiras marítimas e terrestres chega à conclusão da "própria insularidade do Brasil em proporções continentais". — Carlos de Meira Mattos (1913), que começa a divulgar seus trabalhos geopolíticos em 1960, como Golbery, também foi chefe de Divisão de Estudos da ESG, tendo estado à frente da sua Divisão de Assuntos Políticos. Nesse ano, saía um pequeno livro intitulado Projeção Mundial do Brasil (Gráfica Leal, de S. Paulo), que homenageava seu inspirador na Geopolítica — Mário Travassos e concluía: enquanto o capitão de 1931 sonhava com um Brasil continental, Meira Mattos trinta anos depois começava a sonhar com um Brasil potência mundial. Além dos vários artigos que vem produzindo para A Defesa Nacional e Revista da Escola Superior de Guerra, apresenta vasta obra sobre Geopolítica. Em Brasil - Geopolítica e Destino, editado pela José Olympio Editora, em 1975, traz a baila o conceito de potência mundial de Ray Cline, chegando a viabilidade do Brasil. Levando sempre seu pensamento para o âmbito internacional afirma: "Há uma realidade que não podemos ignorar em nossa luta pela modernização e crescimento do país. O desenvolvimento de um país grande como o Brasil transborda em poder. Trata-se de fenômeno inevitável, involuntário mesmo, em alguns casos. Aconteceu com os Estados Unidos, em que pesassem as correntes internas que sempre existiram contrárias ao desempenho das responsabilidades desse poder." A BIBLIEX lançaria o seu A Geopolítica e as Projeções de Poder (1977). Mostra o Poder sob duas fases, a voltada para a sociedade, portanto para dentro, e a voltada para fora, onde se observa a sua constante preocupação de impor o Brasil, em face do Mundo, como expressão efetiva e atuante do Poder Nacional.

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Afirma Luis Viana Filho, no prefácio que faz para o livro, que: "É difícil avaliar-se em que medida as idéias difundidas por Travassos e Backeuser terão influído para a criação, em 1949, pelo General Cordeiro de Farias, da Escola Superior de Guerra, principalmente considerando-se haver ocorrido entre a divulgação daqueles primeiros trabalhos de Geopolítica e sua fundação, a II Guerra Mundial e a participação da Força Expedicionária Brasileira nos campos da Itália. De qualquer modo, o equívoco é que eles estão acentuadamente presentes nas diretrizes iniciais de seus cursos." Cursos que na realidade contaram com a colaboração de febianos, entre os quais Golbery e Meira Mattos, correntes que emergiram da ESG. A redescoberta da Amazônia e conseqüente cobiça internacional levariam Meira Mattos a publicar, em 1980, mais um livro pela José Olympio Editora. Em Uma Geopolítica Pan-Amazônica "propõe para a área uma estratégia baseada nas experiências geopolíticas do passado, com objetivo de planejar os rumos para o presente e para o futuro". Em Geopolítica e Trópicos, da BIBLIEX (1984), através do confronto, da polêmica na História e na síntese, destaca as antigas civilizações e os modernos núcleos humanos em ascensão na Região Tropical para, do internacional chegar ao Brasil. E conclui com a perspectiva do Brasil tropical dentro da tese do historiador Arnold Toynbee — "a geografia condiciona, dificulta, sugere, inspira, estimula, enfim, apresenta seu desafio; caberá ao homem responder a este desafio; ou responde e o supera, ou não responde e é derrotado". É também da BIBLIEX (1990) o livro Geopolítica e Teoria das Fronteiras. Do estudo teórico das fronteiras, o trabalho discorre sobre a morfologia territorial dos Estados e, ao considerar o caso brasileiro, transforma em mensagem mais uma vez a advertência de Toynbee e destaca Jacques Ancel — "são os fatores relacionados com as desarmonias internas, da falta de coesão nacional, que resultam na ruptura geográfica do território". Em sua obra destacamos dois conceitos: "Geopolítica é a arte de aplicar o poder aos espaços geográficos" e "Geografia é destino". — O Major Octávio Tosta (Representante do Ministro da Guerra), o Professor Carlos Delgado de Carvalho (1884-1980) e a Geógrafa Therezinha de Castro (1930-2000) implantaram, em 1956, o Setor de Geopolítica no antigo Conselho Nacional de Geografia, que com a Estatística e a Cartografia compunham o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Setor de grande dinamismo, quando foram Secretários Gerais Waldyr Godolphin e Dioclécio De Paranhos Antunes e esteve a frente do IBGE como Presidente, Jurandyr Pires Ferreira. É desse período a publicação do Atlas de Relações

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Internacionais (1960), que durante mais de dez anos passava com o mesmo título, mas em forma de fascículo, a sair, como encarte, dentro da Revista Brasileira de Geografia, com artigos sempre voltados para a Geopolítica. A reação foi grande por parte de um grupo de geógrafos da Instituição. O mesmo grupo que tentou vetar uma conferência de Backheuser intitulada "Geopolítica e Estatística" sob alegação, escreveu o pioneiro, "de que o IBGE precisava não ser suspeitado de germanofilismo". Venceria este grupo e, no Conselho Nacional de Geografia, a Geopolítica não conseguiria vencer por muito tempo a muralha do preconceito. E, enquanto Delgado de Carvalho cuidava de introduzir nos livros destinados aos Professores a repelida ciência, Therezinha de Castro aposentava-se no IBGE, sendo acolhida pela BIBLIEX, Defesa Nacional e Revista do Clube Militar e finalmente na Escola Superior de Guerra. — Delgado de Carvalho, nos 6 volumes de sua História Geral, editada pela Record (1964), introduziu, desde a Antiguidade até o período contemporâneo, um capítulo intitulado — "O Quadro Geopolítico" complementar do "O Quadro Geográfico", que fizera parte do trabalho anterior (1946), preparado para o INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos). O esforço de Delgado de Carvalho, feito em prol da Geografia, História e finalmente da Geopolítica, levaria Golbery do Couto e Silva a dedicar-lhe seu livro de Geopolítica do Brasil. — Discípula de Delgado de Carvalho, Therezinha de Castro passava a se dedicar à Geopolítica em 1956. Dois anos depois, Golbery e Octávio Tosta conferencistas da ECEME, fizeram para a Instituição um plano de curso e o estudo da Geopolítica estendeu-se também para a EGN e ECEMAR, de onde Therezinha de Castro, a partir dos anos 70, se tornava conferencista. Considerada por Octávio Tosta como "a primeira mulher a se dedicar aos estudos de Geopolítica", foi com Rumo à Antártica (Livraria Freitas Bastos) que defendeu, em 1976, a tese da defrontação, publicada resumidamente pela Revista do Clube Militar nº 146 de 1956. À coletânea de artigos que passou a escrever para A Defesa Nacional, desde 1956, se intercalaram livros entre os quais África: Geohistória, Geopolítica e Relações Internacionais, (Freitas Bastos 1979 e BIBLIEX 1979). A entrada da África no contexto mundial é a essência deste livro que, da Posição e Posicionamento e em seguida a Fisiografia, foram os fatores responsáveis para que esse continente fosse "descoberto" depois da América, a despeito de mais próximo da Europa e visitado primeiro pelos navegadores da Era Moderna. A obra discorre sobre o despertar geopolítico e colonialismo, daí

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para a independência dentro de um tênue pan-africanismo e inexistente nacionalismo sufocado pelo tribalismo. Na conclusão, a autora procura mostrar a África no Brasil e o Brasil na África. É da BIBLIEX Retrato do Brasil - Atlas Texto de Geopolítica (1986), uma inovação se comparada com as diferentes obras já publicadas no país. É que por ser um atlas, a base é a cartografia, com textos que, explicativos, numa seqüência cronológica, mostram, desde Tordesilhas até a data da publicação, o nascer, o implantar e o evoluir geopolítico do Brasil. Caberia ao Colégio Pedro II lançar dois trabalhos de Geopolítica de Therezinha de Castro. O primeiro, Brasil da Amazônia ao Prata (1983), induz os leitores à mesma preocupação de Travassos e Meira Mattos, porém, mais dentro da visão civil. Assim, aborda cobiças e conflitos dentro dos fatores continentalidade e maritimidade em, confronto ante a conquista da foz e a integração das nascentes. O segundo, Geopolítica: Princípios Meios e Fins (1986), segundo o prefácio escrito pelo Diretor do Pedro II, Professor Tito Urbano da Silveira, "foi escrito por uma professora civil e editado por um Colégio civil, vindo juntar-se aos de outros pioneiros incansáveis nesses estudos, Delgado de Carvalho e Everardo Backheuser, o primeiro professor e o segundo aluno ilustre egresso desta Casa". Nessa obra, a denominação Geopolítica Sistemática dada ao Capítulo I é original e contém o já conhecido e notório sobre o pensamento geopolítico através de seus mais destacados pensadores. Como livro didático prossegue, no Capítulo II, com as teorias gerais da Geopolítica, porém, dentro das problemáticas do Poder Mundial no sincronismo do confronto. Para o Capítulo III, que conclui o livro, trata da Geopolítica Regional e enfoca ao que chama de "Ilha Americana", o nosso Continente, e nele o Brasil. Concebeu o Brasil "múltiplo vetor" no continente e, em seu espaço político, dividido em três "ilhas geoeconômicas": subdesenvolvida (Norte e Centro-Oeste); em desenvolvimento (Nordeste) e desenvolvida (Sul e Sudeste). O IBGE e o Colégio Pedro II, duas Instituições Federais as quais pertenceu Therezinha de Castro, lançaram em co-edição (1994), para comemorar os 500 anos da chegada de Cristovão Colombo ao continente, o Nossa América: Geopolítica Comparada, com 2ª edição, em 1995, pela BIBLIEX. Sua originalidade está no fato de ser a primeira obra de Geopolítica do continente, na qual a América é esplanada geral e comparativamente. São páginas de Geopolítica desde o Capítulo I, quando faz as "Considerações Gerais"; daí para a Fisiopolítica (Capítulo II) atinge, "O Despertar Político (Capítulo III), enveredando pela "Formação das Nacionalidades (Capítulo IV),

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para fazer entender a "Evolução Política" (Capítulo V). O Capítulo VI "Geopolítica e Relações Internacionais" é, na realidade, de conclusões comparativas.

5 - CONCLUSÃO
A despeito de ainda bastante restrita aos meios intelectuais brasileiros, a Geopolítica vai conquistando seu espaço para deixar de ser ciência de militares e se transformar na de cidadãos e estadistas. O fato é que o pensamento geopolítico brasileiro já começa a interessar a intelectuais estrangeiros. Um deles, Howard Taylor Pittman, em sua tese de doutoramento (1981) na Faculty of the College of Public and International Affairs of the American University - Washington D. C., destaca três especialistas nossos: Golbery do Couto e Silva, Carlos de Meira Mattos e Therezinha de Castro. Sua tese, em 5 volumes, tem o seguinte título: "Geopolítics in the ABC Countries: a Comparison", estuda especialistas da Argentina, Brasil e Chile. Bem mais extenso em sua lista é Philip Kelly, Professor de Ciência Política na "Emporia State University", em Kansas. Num livro que editou com Jack Child (Lynne Rienner Publishers - Boulder/London-1988), solicitou, sobre variados temas, trabalhos de especialistas brasileiros. Em seguida, produziu Um Inventário de 16 Escritores Sul-Americanos sobre Geopolítica, traduzido para o espanhol por Marcela Bravo e publicado em Geopolítica-Hacia una Doctrina Nacional - Número 52 e 53 Año XX/1994. Afirma textualmente Phillip Kelly — "Para este trabalho escolhi 16 escritores sul-americanos que, no meu entender, são os melhores representantes do pensamento contemporâneo sobre Geopolítica. Esta lista tem origem em minhas próprias pesquisas e nas consultas feitas a vários teóricos da Geopolítica interessados na América do Sul, entre os quais se incluem: Jack Child, Howard Pittman, Klaus Dodds. Também outros critérios ajudaram-me a identificar esses autores destacados: sua associação com periódicos e institutos geopolíticos de primeira linha; sua reputação como colaboradores destacados neste campo; sua menção freqüente em literatura; e a quantidade de trabalhos de sua autoria." Ao enumerar a relação dos selecionados o Brasil foi agraciado com: Golbery do Couto e Silva, Carlos de Meira Mattos e Therezinha de Castro.

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Concluindo-se que cabe à PUC (embora não haja conservado) a introdução da Geopolítica a ser ministrada no meio civil. Em 1958 chegava ao Instituto Rio Branco, no 2º ano do Curso Preparatório à Carreira de Diplomata. Mais recentemente, o Colégio Pedro II, para a Biblioteca de seus Professores, foi a primeira entidade civil a publicar livros sobre a matéria. Atualmente, cabendo o destaque para A Defesa Nacional e BIBLIEX, enquanto as primeiras universidades brasileiras começam a criar cadeiras de Geopolítica, a ESG (Escola Superior de Guerra) tem lhe dado ênfase.

Nov/97 Revisado em abril de 2001

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