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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA

DALMob DEPARTAMENTO DE ESTUDOS LS704/04

MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL Equipe da DALMob

Trabalho elaborado pela Equipe da DALMob

Os textos de Leitura Selecionada , de caráter doutrinário, teórico ou conjuntural, destinados à distribuição interna, às vezes discordantes entre si, visam a trazer novos subsídios aos estudos que aqui se realizam e expressam opiniões dos respectivos autores, não, necessariamente, as da ESG.

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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA LS704/04 DEPARTAMENTO DE ESTUDOS DIVISÃO DE ASSUNTOS DE LOGÍSTICA E MOBILIZAÇÃO

MOBILIZAÇÃO

INDUSTRIAL

Rio de Janeiro 2004

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Presidente da República LUIS INÁCIO LULA DA SILVA Ministro de Estado da Defesa Dr. JOSÉ VIEGAS FILHO Comandante e Diretor de Estudos da Escola Superior de Guerra Major-Brigadeiro-do-Ar ANTONIO LUIZ RODRIGUES DIAS Subcomandante e Chefe do Departamento de Estudos General-de-Brigada EDUARDO RAMALHO DOS SANTOS

Divisão de Assuntos de Logística e Mobilização (DALMob) Chefe: CMG Ref NEY MARINO MONTEIRO

Autorizada a reprodução e divulgação deste documento, desde que seja citada a Escola Superior de Guerra.

Escola Superior de Guerra Divisão de Biblioteca, Intercâmbio de Difusão Av. João Luís Alves, s/nº CEP: 22291-090 - Urca - Rio de Janeiro, RJ - Brasil Telefone (21) 3223-9899 Telex: (21) 30107 - ESSG FAX: (21)

LS - Leitura Selecionada

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SUMÁRIO 1 - INTRODUÇÃO............................................................... 2 - PANORAMA DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL............... 2.1. Aspectos Históricos........................................................... 2.2. Aspectos Legais................................................................ 2.3. Aspectos da Mobilização Industrial................................... 3 - A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL NO BRASIL............ 3.1. Considerações Iniciais...................................................... 3.2. Planejamento da Mobilização Industrial........................... 3.3. Passos iniciais.................................................................. 3.4. Etapas do Planejamento da Mobilização Industrial.......... 3.5. Esforço Industrial na Guerra............................................ 3.6. Esforço Industrial de Material de Defesa.......................... 4 - A INDÚSTRIA BRASILEIRA E A MOBILIZAÇÃO NACIONAL....................................................................... 4.1. Panorama Geral................................................................... 4.2. A capacidade Industrial Brasileira no fornecimento de itens de interesse militar................................................................... 4.3. Dificuldades encontradas no Planejamento........................... 4.4. Planejamento sugerido para a MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL 4.5. Perspectivas para uma Mobilização Industrial no Brasil........ 5 - A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL NOS EUA..................... 5.1. Considerações Iniciais........................................................... 5.2. A Mobilização Industrial dos EUA para a Segunda Guerra Mundial .............................................................................. 5.2.1. Problemas Econômicos da Mobilização Industrial.............. 5.2.2. Problemas Militares da Mobilização Industrial................... 5.2.3. Problemas Técnicos da Mobilização Industrial: o Aumento Progressivo da Produção e dos Estoques........................... 6 - ALGUMAS CONCLUSÕES................................................. BIBLIOGRAFIA................................................................... 8 9 9 9 10 10 10 12 13 15 17 18

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APRESENTAÇÃO

A presente Leitura Selecionada foi elaborada com a finalidade de servir de subsídio para os estagiários e participantes dos cursos e ciclos de estudos da ESG, no perfeito entendimento da Mobilização Industrial. Está baseada, particularmente, na literatura mencionada na bibliografia, já que a experiência brasileira é bastante reduzida no assunto. Alerta-se, ainda, que as idéias e informações aqui expostas não têm caráter doutrinário, motivo pelo qual foram reunidas sob a forma de LS. Na realidade, a intenção é de apresentar conceitos e opiniões de diversos autores, de modo a despertar interesse e discussões a respeito desse tema. Pretendeu-se, portanto, ouvir outros dados e elementos informativos que, num futuro próximo, contribuam para elaborar outros conceitos mais claros e precisos, aprimorar o corpo doutrinário e finalmente, construir sólido acervo doutrinário a respeito. Desde já, a ESG e o autor agradecem todas as colaborações.

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TRANSFORMAÇÃO

INDUSTRIAL

ADAPTAÇÃO
(NOVAS LINHAS DE PRODUÇÃO, ALÉM DAS JÁ EXISTENTES)

AMPLIAÇÃO
(AUMENTO DA CAPACIDADE)

CONVERSÃO
(PRODUÇÃO DE NOVOS MATERIAIS)

Comentário:

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1 - INTRODUÇÃO "Desde o momento em que a esmagadora capacidade industrial dos Estados Unidos teve a oportunidade de se fazer presente em todos os teatros de guerra, passou a não haver, para a Alemanha, qualquer possibilidade de vitória final" (Mal Rommel)

À medida que um Estado se projeta no cenário internacional, desperta ambições e cria novos interesses que podem resultar em áreas de atrito, com possibilidades de gerarem novos antagonismos e, em última análise, maiores razões de insegurança. As Nações que vêm adquirindo, em face de seu desenvolvimento, dimensões cada vez maiores em sua estatura político-estratégica, devem adotar medidas oportunas, eficientes e eficazes, com vistas à adequação da capacidade do seu Poder Nacional para fazer face às novas situações, para atender a uma eventual declaração de estado de guerra ou na resposta à agressão armada estrangeira. Uma situação de guerra determina a redistribuição, pelo Estado, dos recursos disponíveis em tempos de paz, acrescidos dos novos meios, obtidos no Potencial Nacional e/ou com a transferência de outros recursos já existentes no Poder Nacional, tarefas estas, tradicionalmente desempenhadas pelo vigoroso instrumento em que se constitui a MOBILIZAÇÃO NACIONAL, com vistas a complementar a Logística Nacional, para fazer frente àquela situação emergencial. Dentro deste panorama, o destaque maior se prende à Expressão Econômica, responsável pelo fornecimento da maioria dos bens tangíveis necessários, e, na Mobilização desta Expressão, avulta a importância da Mobilização do segmento industrial, conhecida por Mobilização Industrial. Juntamente com a Mobilização de Recursos Humanos, a Mobilização Industrial é básica para a Mobilização Nacional, que pode ser considerada como um verdadeiro “SEGURO DE VIDA DA NAÇÃO!”

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2 - PANORAMA DA MOBILIZAÇÃO NACIONAL 2.1 - Aspectos Históricos Nos 5.500 anos de História conhecida, somente existiram “292 anos de Paz Absoluta”, segundo a Academia Norueguesa de Ciências: a Guerra pode e deve ser considerada, portanto, uma constante na história da humanidade. E com ela, num momento de grandes carências, a Mobilização se caracteriza como uma necessidade continuada, diversificada e específica. Sua importância mais cresce, se for observado o fato que uma MOBILIZAÇÃO NACIONAL, adequadamente planejada, poderá implicar na redução do esforço de guerra, com conseqüências sociais significativas. Assim, as nações sensatas, embora não a queiram, têm de conviver com a hipótese pouco agradável de se ver envolvida numa guerra. 2.2 - Aspectos Legais A Mobilização Nacional, no Brasil, ainda está num estágio embrionário e, pelas mesmas razões, a Mobilização Industrial. Basicamente, porque somente em 1987 foi aprovada a Exposição de Motivos (EM) nº 006, de 14 Set 87, com a Doutrina Básica de Mobilização Nacional (DBMN); logo depois, era igualmente aprovada a EM nº 026, de 16 Mai 89, versando sobre a Política Governamental de Mobilização Nacional (PGMN) e as Diretrizes Governamentais de Mobilização Nacional (DGMN), ambas visando a elaboração do Plano Nacional de Mobilização (PNM). Mas, como as duas EM não dispunham de força legal para obrigar sua execução em toda a Nação, e foram aprovadas por um Governo que já se encerrou, a Nação sentiu a imperiosa necessidade da aprovação de uma Lei de Mobilização Nacional, o que foi proposto por uma EM conjunta, encaminhada pelos Ministérios Militares, pelo EMFA e pela SAE/PR. Esta Lei, quando aprovada, servirá, também, para instituir o Sistema encarregado de planejar a Mobilização Nacional, conhecido como Sistema Nacional de Mobilização (SINAMOB). Uma vez aprovada e promulgada, a Lei de Mobilização será a base legal para a organização do SINAMOB, ao qual

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caberá planejar, organizar e comandar a execução da Mobilização, e depois, da Desmobilização, ambas em caráter Nacional. Quando implementado o SINAMOB, serão organizados e implantados os cinco Sistemas Setoriais e os Sistemas Ministeriais de Mobilização, como por exemplo o Sistema Setorial de Mobilização Militar e os Sistemas de Mobilização dos Ministérios Militares que, com várias restrições, já funcionam, embora carecendo de orientação do Sistema maior. 2.3 - Aspectos da Mobilização Industrial Em função de sua importância para a Mobilização na Expressão Econômica, o segmento industrial terá sérias influências na Mobilização Nacional. Por esta razão, pode ser afirmado que a Mobilização deste segmento produtivo irá propiciar profundas implicações na Mobilização Nacional, merecendo análise e estudos aprofundados. Na realidade, seria desejável que a Mobilização Industrial (Mob Ind) conseguisse, num prazo considerado "aceitável", gerar aquele acréscimo de meios necessários para completar os recursos julgados imprescindíveis, a fim de apoiar as operações militares planejadas. Mas, isto só aconteceu em poucas ocasiões, e o mundo assistiu à uma infinidade de conflitos, com a tônica de limitação de meios, mais ou menos agravada, em função do desenvolvimento dos países envolvidos e da duração do confronto.

3 - A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL 3.1 - Considerações Iniciais A etapa inicial de um planejamento de Mobilização Nacional pressupõe a existência de planos estratégicos específicos, produzidos em cima de diagnósticos de possíveis situações emergenciais típicas, antigamente conhecidas por Hipóteses de Guerra (HG) e mais modernamente chamadas de Hipóteses de Conflito Armado (HCA) ou ainda, como as Força Singulares estão adotando, Hipóteses de Emprego (HE). Para cada HG/HCA/HE admitida é elaborado um Plano de Guerra específico, englobando, entre muitos outros, um Plano de Operações Militares:

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para completar todos os recursos necessários às operações previstas no Plano de Operações Militares é preparado um pormenorizado Plano de Mobilização Nacional (PNM). Neste último, envolvendo as atividades e providências a serem desencadeadas em todas as Expressões do Poder Nacional, avulta de importância a área psicológica, buscando preparar a população, moral e espiritualmente, para enfrentar aquela situação de emergência excepcional. Mas, a Mobilização da Expressão Econômica, sem qualquer dúvida, por ser ela a fonte da maioria dos recursos tangíveis, requer cuidados e planejamentos especiais. Sintetizando, a Mobilização Econômica aciona os mecanismos de obtenção organizada dos meios necessários a atender uma situação de emergência, decorrente da declaração de estado de guerra ou na resposta à agressão armada estrangeira. Assim, o conceito da Mobilização na Expressão Econômica é o seguinte: "Conjunto de atividades de natureza econômica, planejadas, empreendidas ou orientadas pelo Estado, desde a situação normal, visando à transformação da Economia de Paz em Economia de Guerra, para fazer face a uma situação de emergência, decorrente da declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira". O Objetivo final da Mobilização Econômica é a transformação, sob rigoroso controle governamental, de uma Economia de Paz numa Economia de Guerra, isto é, na transformação da estrutura produtiva dos tempos de paz em outra, diretamente voltada para atender o incremento da demanda, seja em termos de material de defesa, seja na manutenção do fluxo dos artigos de consumo geral. Esta nova condição operacional é conhecida por "Economia de Guerra". É o seguinte o entendimento de Economia de Guerra: "Consiste em uma nova condição operacional a que a Economia de Paz é conduzida pelo Governo, mediante a utilização de instrumentos e medidas apropriados, visando a atender, oportuna e adequadamente, as necessidades da Nação, em tempos de guerra".

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A Economia de Guerra compõe-se da organização dos elementos mobilizados e do funcionamento do mecanismo criado pela Mobilização Nacional, visando a obtenção dos recursos necessários às forças militares em operações de guerra, à indústria nacional mobilizada e à população do país, não diretamente empenhada no conflito. Resumindo, pode-se afirmar que a Economia de Guerra consiste na organização e no funcionamento da estrutura econômica estabelecida pela Mobilização na Expressão Econômica, para fazer frente à declaração do estado de guerra ou à resposta a uma agressão armada estrangeira. Maiores detalhes sobre Economia de Guerra poderão ser encontrados na LS específica sobre este assunto. Dentro da Mobilização Econômica e como sua maior componente, avulta a importância da Mobilização Industrial, que pode ser entendida como um processo de transformação acelerada da produção industrial, visando ao atendimento das necessidades militares e civis, em período de emergência excepcional. A rápida adaptação da indústria para a produção de itens de interesse militar, paralelamente ao atendimento das necessidades civis, constitui o seu grande desafio. Em seu sentido mais amplo, o conceito da Mobilização Industrial pode ser assim sintetizado: "Conjunto de atividades planejadas, empreendidas ou orientadas pelo Estado, no quadro da Mobilização Nacional, desde a situação normal, com o propósito de possibilitar a adequação da capacidade industrial da Nação ao atendimento das necessidades militares e civis, determinadas por uma situação de emergência decorrente da declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira". 3.2 - Planejamento da Mobilização Industrial

A etapa inicial do planejamento para uma Mobilização Industrial pressupõe a aprovação de uma legislação básica e de planos estratégicos, definidos em cima de diagnósticos de situações emergenciais típicas. A utilização de métodos de simulação para diversos cenários de conflitos e da conseqüente mobilização, é uma função típica da área estratégica militar

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A quantificação e a qualificação dos itens contidos nos planos resultantes desse planejamento devem considerar matrizes que contenham especificações, a nível de produto, cotejando-as com as respectivas capacidades de produção interna e possíveis restrições no atendimento ao tipo da demanda prevista. Dessa maneira, na área do planejamento, a nível industrial, os diagnósticos prévios seriam periodicamente revistos, dentro dos chamados setores estratégicos do interesse da Mobilização. Assim, surgiriam os elementos básicos, fundamentais à formulação de planos operacionais, que contemplassem ações de estímulo, adaptação e conversão de unidades fabris, dentro das características da Mobilização exigida pelo tipo de situação emergencial (HCA ou HG ou HE) prevista. O planejador, certamente, estará preocupado com a deficiência da estrutura de planejamento brasileira, que poderia conduzir a um possível comprometimento da resposta eficiente do complexo industrial diretamente envolvido com o atendimento das necessidades suscitadas pela HG/HCA/HE admitida. Outra consideração que precisa ser feita diz respeito ao Surto Industrial, assim conceituado: “Esforço adicional desenvolvido pela Indústria instalada, visando ao aumento de produção, através da máxima utilização da capacidade já existente.” O Surto Industrial pressupõe uma relativa capacidade ociosa da Base Industrial Ativa, seja por estar sendo utilizada em apenas um turno de produção (podendo dobrá-lo), seja pela possibilidade de aumentar a participação de mãode-obra (incrementando a produção), seja ainda, pelo melhor e mais intensivo emprego da planta industrial (incrementando e acelerando a produção), embora com a mesma tecnologia ou ainda com sua modernização. 3.3 - Passos iniciais Alguns passos têm sido dados e outros precisam ser implementados. Neste sentido, julga-se pertinente a adoção das medidas preliminares abaixo descritas: • Elaboração de projetos de legislação básica de Mobilização e outras, para complementar o amparo jurídico á Mobilização, em particular, do

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seu componente industrial, e em geral, de todos os integrantes do esforço da Mob Econ, como por exemplo, a Lei de Requisições de Bens e Serviços; • Definição das prioridades (necessidades) das Forças Armadas, em face do Planejamento de Guerra a ser empregado, se concretizada alguma Hipótese (HG/HCA/HE); • Preparo de assessores especializados, em todos os níveis necessários; • Ajustamento de estoques de insumos estratégicos, considerando os riscos de obsolescência e da deterioração; • Levantamento pormenorizado da capacidade do surto industrial; • Busca da perfeita integração da Base Industrial Mobilizável (BIM) com as indústrias não envolvidas diretamente no esforço de guerra, particularmente, na tentativa de uma terceirização racional; • Incremento da pesquisa e desenvolvimento da tecnologia autóctone, visando à minimização da dependência externa; • Esforço bem orientado, por parte da área militar, para ser conseguida a padronização do material de defesa, na catalogação, através de um sistema referencial único e, o que é mais significativo, a busca denodada de sua nacionalização; e • Por último, outro aspecto, de importância significativa, diz respeito à conscientização da classe dirigente e empresarial, o que redundaria em maior motivação e maiores facilidades para a conversão da estrutura produtiva normal em outra, voltada para o esforço de guerra, quando assim for imprescindível. Por outro lado, qualquer planejamento estará comprometido, antes de mais nada, se a qualidade das informações não corresponder ao grau de conhecimento necessário à tomada de decisões, a nível operacional. Esta dificuldade, já detectada pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI), ensejou o desenvolvimento de um projeto denominado Sistema Integrado de Informações Industriais (SIND) 1 , cujo escopo abrange um Cadastro Nacional de Indústrias, contendo informações básicas de identificação do parque ofertante e as características específicas, a nível da sua produção. Dentro desta concepção, a estruturação deste cadastro se dá com as bases de dados já existentes, complementada com pesquisa de campo em andamento.
1 As Forças Singulares e o Estado-Maior das Forças Armadas de há muito dedicam-se à obtenção e catalogação de dados e informações sobre indústrias civis de material bélico e material de uso ou de interesse militar, tendo em vista a Mobilização Militar.

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Outro aspecto de importância, é a catalogação dos componentes industriais, em parte bem encaminhado, por estar em implantação o Sistema de Catalogação da OTAN, com a inclusão da inicial “B”, representando a nomenclatura brasileira.

3.4 - Etapas do Planejamento da Mobilização Industrial O planejamento da Mobilização Industrial, considerando as medidas acima citadas e outras que venham a ser adotadas, poderá ser sintetizado nas seguintes etapas: 1) Determinação das necessidades totais; 2) Determinação do que pode ser produzido e das indústrias que podem ser engajadas no esforço de Mobilização Industrial; 3) Comparação das necessidades totais com as possibilidades; e 4) Atribuição de prioridades e escolha de alternativas. Essas etapas da Mobilização Industrial podem ser detalhadas assim: 1) - Determinação das necessidades totais: Levantar as necessidades advindas dos Planos de Operações Militares e computá-las com todas as carências da comunidade nacional; estas necessidades devem ser expressas em consonância com a amplitude e o prazo previstos para a Mobilização (prazo crítico); 2) - Determinação de que pode ser produzido e das indústrias que podem ser engajadas no esforço de Mobilização Industrial: A partir do conhecimento das necessidades, passa-se à seleção das empresas que podem ser engajadas no esforço de Mobilização e do que pode ser produzido. Para isto, torna-se fundamental avaliar a potencialidade industrial, considerando as transformações viáveis e analisar, em cada uma: a) - Planta Industrial (Equipamentos e Instalações Industriais); b) - Mão-de-Obra;

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c) - Insumos; e d) - Capacitação Tecnológica. Ainda para a seleção das indústrias a serem mobilizadas devem ser observados, dentre outros, os seguintes critérios: • produtos desejados e sua afinidade com a linha de produção; • localização da empresa e sua proximidade às fontes de matérias-primas; • idoneidade, capacidade gerencial e capacitação técnica; • qualificação da mão-de-obra e possibilidades de aperfeiçoamento; • custos globais envolvidos; • velocidade da transformação desejada; e • implicações quando se tratar de empresa transnacional. 3) - Comparação das necessidades totais (resultado do 1° estágio) com as possibilidades industriais de produção (resultados do 2° estágio): Considerar as necessidades, para o prazo em que as operações devem ser realizadas e para o mesmo prazo, as possibilidades, considerando também os estoques já existentes. 4) - Atribuição de prioridades e escolha de alternativas: Definidas as necessidades e conhecidas as possibilidades - que geralmente são bem menores do que as necessidades - caberia a análise cuidadosa das missões para a atribuição de prioridades e, conforme o caso, escolher as alternativas viáveis: a) - Incrementar a produção nacional; A solução mais simples, começa pela distribuição adequada da carga de produção entre as diversas indústrias da Base Industrial Mobilizável (BIM); impõe-se, também, o planejamento e a execução de medidas que possam corrigir ou minorar as deficiências identificadas na BIM.

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b) - Racionar os consumos considerados prioritários, e, se necessário, os insumos estratégicos; e c) - Se for uma solução inevitável, a importação. Se a importação for a opção escolhida, é importante considerar tratar-se de uma solução que apresenta riscos significativos, e que merece ser feita com extremo cuidado. Mesmo assim, deve ser prevista a importação de itens não atendidos pela indústria nacional, com dois objetivos distintos: Importação, em tempos de paz, para a formação de estoques estratégicos, sempre considerando a possibilidade dos riscos da obsolescência; e • Importação, em tempos de guerra, para uso imediato. Após este estudo comparativo, realizado com base em cada HG/HCA/HE admitida, poder-se-iam traçar as estratégias convenientes para que o esforço da Mobilização Industrial venha propiciar o incremento de apoio necessário às Forças Armadas. 3.5 - Esforço Industrial na Guerra Dentro do parque industrial de qualquer país, num momento de emergência excepcional - entenda-se na eclosão de uma guerra – uma grande sobrecarga recai na chamada “Base Industrial Mobilizável” (BIM), englobando as indústrias específicas de material de defesa, as de interesse militar e outras indústrias também envolvidas no esforço coletivo, assunto perfeitamente caracterizado nos Elementos Teóricos de Mobilização Industrial, segundo o contido no Capítulo VII (volume II) dos “Subsídios para Estudo dos Fundamentos Doutrinários”. Assim delineada a BIM, é fácil compreender que o esforço integral das indústrias de material de defesa deve ser acompanhado pelos empenhos específicos de todos os demais setores industriais: basta considerar que a falta de um pequeno componente pode inviabilizar a utilização de um grande conjunto ou sistema de armas. Outra consideração a ser feita diz respeito ao apoio a ser prestado ao restante da comunidade nacional, que continuará a existir e a consumir durante o conflito e, portanto, não poderá, de forma alguma, ser negligenciado o seu apoio. •

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Para tudo isto, torna-se de importância fundamental que, durante a paz, na fase do Preparo da Mobilização Industrial, seja realizado o completo levantamento e cadastramento do Parque Industrial, e, para melhor apoiar o esforço de guerra, as Transformações Industriais julgadas necessárias.
TRANSFORMAÇÃO INDUSTRIAL

ADAPTAÇÃO
(NOVAS LINHAS DE PRODUÇÃO, ALÉM DAS JÁ EXISTENTES)

AMPLIAÇÃO
(AUMENTO DA CAPACIDADE)

CONVERSÃO
(PRODUÇÃO DE NOVOS MATERIAIS)

3.6 - Esforço Industrial de Material de Defesa Outro ponto crucial é a necessidade de ser organizada, pelas Forças Armadas, uma completa “catalogação do material de defesa”, para o que são recomendados os seguintes passos: • estabelecimento de um padrão de identificação para todo material utilizado pelas Forças Armadas, seja através da implantação generalizada do “Número de Estoque Brasileiro (NEB)” ou adotando o “Número de Estoque da OTAN”, complementado por um B de Brasil (B + nº/OTAN) ou, até mesmo, por outra solução melhor; • depois, a dissecação de todos os conjuntos e sistemas de armas para localizar os pontos e as peças intercambiáveis, bem como incrementar esta sistemática, o que facilitaria, sobremaneira, o suprimento (ou abastecimento, como é chamado na Marinha Brasileira) dessas peças ou componentes (itens de suprimento); e

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• finalmente, a reunião de todos estes dados em “Catálogos de Material”, os mais perfeitos e completos possíveis. Ao mesmo tempo, e com igual importância, um grande empenho precisa ser realizado pela união das Indústrias e das Forças Armadas, buscando, com denodo, a “nacionalização” do material de defesa e de seus componentes. A indústria brasileira já deu provas contundentes de sua potencialidade, bastando haver determinação política e recursos compatíveis.

4 - A INDÚSTRIA BRASILEIRA E A MOBILIZAÇÃO NACIONAL 4.1 - Panorama Geral A falta de convivência da Nação brasileira com a ameaça de uma guerra, em face do caráter pacífico do nosso relacionamento com os demais povos, e a distância geográfica dos cenários de guerra mais recentes, causando uma reduzida repercussão no País, devem gerar uma constante preocupação com o possível despreparo da sociedade brasileira para as situações que o futuro possa lhe apresentar, inclusive, através da efetivação de uma das Hipóteses de Conflito Armado (HCA). Deve, ainda, ser realçado que o nível ideal de preparação de uma sociedade para enfrentar situações de emergência, ligadas às ações de guerra e às facilidades de conversão da economia de paz, em particular, da estrutura produtiva normal, em outra, voltada para atender, prioritariamente, os esforços de guerra, está intimamente ligada à interação sócio-econômica do País e à competência da classe dirigente, do empresariado e da sociedade, em geral. O Brasil vive, nitidamente, uma posição intermediária, pois conseguiu implantar um parque industrial significativo, sem atingir, entretanto, as dimensões de uma "economia integrada". Talvez isto tenha ocorrido, justamente, por ser o País que deu grandes passos à frente, na tentativa de vencer a barreira do subdesenvolvimento, sem uma evolução planejada. Entre os setores que muito evoluíram, sem qualquer dúvida, o mais importante para a MOBILIZAÇÃO NACIONAL é o destinado a produzir o Material de Defesa. Ele deu imensos passos, mostrando determinação, competitividade econômica e, sobretudo, qualificação tecnológica. Ademais, tendo contra si o peso de utilizar alguns componentes importados (motores, caixas de marcha automáticas, juntas de tração homocinética, etc), o setor enfrentou dificuldades em sua exportação, gerando sérias limitações no produto

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final. E, quando começou a contrariar interesses comerciais alienígenos, sofreu o peso do desamparo do Governo, agravado pelo pequeno volume de encomendas nacionais; terminou sufocado e... praticamente desapareceu. O Brasil se industrializou, montou uma indústria moderna e competitiva, em alguns setores, mas, buscando o desenvolvimento industrial, com pequena determinação, não atingiu o "status" de economia desenvolvida.

4.2 - A capacidade Industrial Brasileira no fornecimento de itens de interesse militar 2
"No Brasil, pode-se fazer praticamente qualquer produto, ao mais alto nível, desde que adequadamente especificado". (Eng José Roberto Mandl)

A industrialização brasileira nasceu decalcada em modelos estadunidenses e baseada na implantação de empresas multinacionais, parcialmente dependentes da importação de componentes de alta tecnologia e grandemente dependente da importação de tecnologias básicas. Em função desse quadro, sedimentou-se uma cultura de "país usuário", consumidor, tendo por moeda de negociação as matérias-primas, brutas ou semi-processadas, abundantemente providas por uma natureza generosa, ainda que a um custo ecológico elevado. Em momentos isolados, lançaram-se sementes de pesquisa tecnológica, brotadas na necessidade estratégica de se ter algum nível de auto-suficiência, em uns poucos segmentos cuja produção, de média e alta tecnologia, pudesse ser mantida a nível estatal ou misto, ou oriundas da postura de nacionalismo de elementos visionários, que esperavam divulgar a idéia de que pode ser preferível um produto nacional, embora ainda em desenvolvimento, a um produto estrangeiro (importado ou produzido no Brasil), dilapidador de nossas divisas. Todas essas iniciativas esbarraram na sólida tradição colonialista, deixada pela herança lusitana. Exemplificando, dentro desse quadro, podem ser situadas as seguintes empresas:
2 Extrato de um estudo sobre o tema, apresentado pelo Eng SYLVIO JOSÉ COELHO DE SOUZA, do IFI/CTA, por ocasião do CIMN/95

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• • • •

a Empresa Brasileira de Aeronáutica (EMBRAER), já privatizada; a Engenheiros Especializados SA (ENGESA), infelizmente, já fechada, a Eletrônica Profissional (TECNASA), recentemente encampada por uma empresa de produtos eletrônicos domésticos; e a GURGEL, empresa automobilística de tecnologia 100% brasileira (até nos motores, e sem apoio no mercado competitivo dos automóveis, onde se fazem representar montadoras, evasoras de divisas para suas matrizes ou montadoras estrangeiras, que para cá exportam livremente).

Enquanto isto, desaparecia do mercado uma lista interminável de pequenas empresas pioneiras em áreas lucrativas a longo prazo, mas que não resistiram à falta de estímulos governamentais nessas áreas, algumas até, de interesse estratégico. Dessa forma, o que pode ser encontrado, atualmente, é um mercado repartido por multinacionais, (salpicado por um ou outro centro de produção científico-tecnológica de alto nível), se debatendo com a míngua das verbas que lhes são destinadas. Tal movimento de dilaceração dos centros potenciais de produção tecnológica tornou-se evidente na última década, a partir do fim dos governos revolucionários, mantendo-os sob a curta rédea dos recursos liberados, apenas sob pressão de um ou outro Ministério envolvido diretamente. Apesar de tudo isso, o pesquisador brasileiro é, notadamente, engenhoso e criativo, sendo capaz de, partindo de laboratórios primitivos, produzir avanços a nível científico-tecnológico, como ocorreu, entre outros, no Instituto de Aeronáutica e Espaço, do Centro Técnico Aeroespacial (em São José dos Campos/SP) e no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, da Telebrás (Campinas/SP). Embora contando com a dedicação de cientistas e profissionais abnegados, o passo que separa o fato científico de sua contrapartida industrial, que é bastante oneroso, não tem sido sustentado (talvez por ser desinteressante para aqueles que conosco teriam de competir) e é grande, em termos de produção de larga escala, a distância entre a qualificação necessária à indústria para implementar a produção de artigos modernos e a antigüidade quase sucateada de grande parte do Parque Industrial brasileiro. Um fato alentador desta década, a nível mundial e brasileiro, é a disseminação de ferramentas e equipamentos computacionais de auxílio ao

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projeto (“Computer-Aided Design”) e à fabricação (“Computer-Aided Manufacturing”), mais conhecido por CAD-CAM, e das máquinas-ferramenta com eletrônica integrada, ainda que se tenha feito à base de contrabando e/ou pirataria. Mesmo que tal só tenha ocorrido de forma fragmentada, ainda assim, pode oferecer suporte às atividades de terceirização de projeto e de fabricação de componentes sensíveis. Enfocando-se a partir da filosofia atual de flexibilização dos meios de produção (células de manufatura flexíveis), a adaptação de empresas às necessidades e especificações das normas militares (Normas MIL) tem encontrado um grande facilitador na aproximação do parque industrial às normas da série ISO 9000, bastante comentada na imprensa, como sendo a égide da modernidade e a Meta Brasileira (extremamente questionável do ponto de vista da seriedade com que tem sido emitidos alguns certificados...). Na situação atual, provavelmente, os mais profundos abismos sobre os quais o país tenha de lançar pontes serão o da produção microeletrônica e o de matérias-primas especiais. Vive-se um momento em que o volume de consumo de circuitos integrados já justificaria o desenvolvimento de processos nacionais de fabricação, porém, devido ao adiantado estado desses processos nos países denominados "Tigres Asiáticos", foi escolhida a rota da importação pura e simples, de “chips” padrão ou especificados (com as máscaras de circuito), sem que ocorra a transferência das tecnologias de gravação no silício, que são segredos industriais dos mais bem guardados. O preço a ser pago por essa dependência, permita a história, jamais poderá ser avaliado. Já nas matérias-primas de alta tecnologia, o volume de seu emprego tem permitido que os consumos militares sejam supridos por "rebarbas" dos produtos civis aqui manufaturados ou por engenhosas manobras de deslocamento de recursos. O tempo ganho com isso tem sido empregado na capacitação de empresas nacionais à fabricação de materiais metálicos, poliméricos, cerâmicos, etc, ainda que a um custo elevado, e com volume de produção reduzido. Neste panorama, grava-se profundamente a falta de um conceito pátrio de industrialização como ferramenta estratégica no palco das nações. Ainda que, individualmente, tenha havido uma grande quantidade de propaladores dessa idéia, não se vê fruto de tal trabalho, em escala comercial. Finalmente, com alguma tristeza, cabe concluir-se que um fato marcante na globalização da economia é o aprofundamento da distância entre os países

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desenvolvidos e os subdesenvolvidos. Nisso, a situação brasileira, de país "em desenvolvimento", sujeito às pressões repulsivas dos países desenvolvidos, é igual à de um pescador com um pé em cada barco, que se estão afastando; apenas por um ato de soberania, atuando conjuntamente, em todas as Expressões do Poder Nacional, poderá o Brasil definir seu futuro como Nação. Ainda assim, do ponto de vista da capacidade industrial brasileira para a produção de itens de interesse militar, o país já possui o substrato de homens e máquinas necessário, no nível requerido por tais aplicações, mas de tal forma diluído em um Parque Industrial sucessivamente aviltado por medidas desestimulantes à sua consolidação. Faz-se necessário um trabalho profundo de cadastramento e atualização dos dados sobre as indústrias de potencial interesse e de seus dirigentes, paralelo ao estímulo à formação de recursos humanos conscientes das necessidades pátrias, nas Escolas Técnicas e nas Universidades, para que, com o correto conhecimento e adestramento de recursos mobilizáveis, vejam-se garantidas a Soberania e a Paz !

4.3 - Dificuldades encontradas no Planejamento 3 As dificuldades encontradas no Planejamento da Mobilização Industrial advêm de inúmeras causas, mas principalmente, da ausência de um sistema de informações confiáveis; além desta, merecem ser destacadas, como mais significativas as abaixo mencionadas, em particular, se considerada a Indústria de Material de Defesa e a de Material de Interesse Militar: • precária e deficiente institucionalização do setor, carente de uma melhor estrutura organizacional e mais eficientes normas legais, que disciplinem e coordenem as atribuições e atividades de diferentes atores e agentes, sem lhes tolher iniciativas e criatividade, a par de, persistentemente, incentivar seu desenvolvimento; • atraso tecnológico com reflexos na pesquisa e desenvolvimento de projetos e produtos;

3Extrato

da palestra apresentada na ESG, em painel sobre Mobilização Industrial, pelo Gen Ex DIOGO DE OLIVEIRA FIGUEIREDO, ex-Chefe do Departamento de Material Bélico do Ministério do Exército.

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• alto custo dos investimentos para pesquisa, desenvolvimento, produção e comercialização, em particular quando disputada em área externa; • inexistência de um sistema realmente eficiente para suporte econômico e financeiro às três fases básicas do processo produtivo — pesquisa e desenvolvimento, industrialização e comercialização — inclusive quanto ao acesso às fontes oficiais de crédito; • escala reduzida de encomendas, sejam de projetos ou de produtos; • ausência de medidas realmente impositivas que obriguem a padronização de produtos, conjuntos e itens de suprimentos; • impossibilidade, por falta de recursos e de decisão política, da colocação de encomendas que visem ao acúmulo de estoques de mobilização o que também aumentaria a escala dos contratos de compra e facilitaria a participação em concorrências ou fornecimentos na área externa; • ausência de um cadastro unificado de empresas e produtos, e de outros dados que facilitem informações confiáveis e atualizadas para as atividades de planejamentos, de execução e de controle, o que parece tende a reduzir-se com a recente adoção da catalogação e simbologia da OTAN; • sistemas de fiscalização, controle de qualidade, teste, avaliação e homologação, carentes de estreita coordenação, clareza de atribuições, recursos, equipamentos e pessoal habilitado, para ser obtido maior eficiência, convinvendo com padrão de qualidade de alguns produtos ainda insatisfatório; • fraca coordenação entre as iniciativas e procedimentos das Forças Singulares e as dos demais Órgãos Governamentais envolvidos com o setor e, o que parece pior, ausência de consistente planejamento para a Mobilização; • fraco grau de aprestamento da indústria para atender à emergência de uma Mobilização; • mercado externo de elevada competitividade, no momento com excesso de ofertas, requerendo “marketing” agressivo, financiamento, apoio governamental forte e sofisticação, adequados ao problema do cliente; e • restrições e pressões, internas e externas, à participação brasileira no mercado internacional de armas e de tecnologias para sua fabricação.

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Todos os óbices mencionados advêm do descaso com que o setor vem sendo tratado: vítima pouco defendida e direta, de uma Política Econômica vacilante e com muitos pontos de defesa discutível, trazendo como conseqüências imediatas: • o estreitamento do mercado externo, em conseqüência do fim da “Guerra Fria”, com o esfacelamento da União Soviética, término do conflito Irã-Iraque, advindo daí também o excesso de ofertas de armamentos provenientes da disponibilidade dos estoques russos e americanos; • as restrições ao domínio de tecnologias sensíveis impostas aos países do Terceiro Mundo e acentuadas a partir da crise da União Soviética e da conseqüente presença hegemônica dos Estados Unidos na arena estratégica mundial; • as restrições ao repasse de tecnologias correntes e ao suprimento de insumos e equipamentos críticos ou estratégicos, vigente há vários anos, particularmente em relação a países de pequena significação política no cenário mundial; • a exclusão imposta à quase totalidade dos países do Terceiro Mundo, decorrente da organização de blocos econômicos e no domínio de mercados pelas multinacionais, em tempos de economia global; • o estreitamento do mercado interno, em conseqüência da crise econômica e de gestão por que passa o país, reduzindo ano a ano, os orçamentos militares, hoje limitados a valores que impossibilitam até mesmo as mais modestas encomendas; • as indecisões do Governo brasileiro, face às dificuldades das indústrias de material de defesa do país, regateando ou negando-lhes apoio, recursos, crédito e tratamento diferenciado para a pesquisa e desenvolvimento, produção e comercialização; • o massacre de críticas veiculadas pelas mídias internacional e nacional às posições de nossa Indústria de Material de Defesa, mormente na área externa; • a posição excessivamente prudente do Governo brasileiro, repassando a responsabilidade da presença de nossa Indústria de Material de Defesa, na área externa, aos empresários, às empresas e aos seus representantes, como culpados de comércio irregular, aético e contrário aos interesses nacionais, quando na realidade atuavam com o

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conhecimento, a autorização, o respaldo, a participação e o aplauso das autoridades governamentais; e • a crise de confiança entre Governo e empresários da Indústria de Material de Defesa, instaurada a partir do momento em que se desarticulou a convivência construtiva que estava em vigor desde o início da década de 70, face às dificuldades surgidas nas áreas interna e externa, e ausência de medidas para restabelecer o equilíbrio e o clima de cooperação e apoio. 4.4 - Planejamento sugerido para a Mobilização Industrial no Brasil 4 O planejamento (ou o Preparo) de uma Mobilização Industrial fundamentar-se-á no objetivo primordial de facilitar apoio aos planos operacionais e fornecer elementos de orientação para um balanço ajustado entre as necessidades militares, acrescidas daquelas oriundas da sobrevivência da comunidade nacional, em face de cada situação de emergência específica (concretização de HG) e a disponibilidade dos elementos básicos da produção. No caso presente da indústria brasileira de transformação, pode-se tecer algumas considerações de caráter mais genérico, expondo seus pontos fortes e sua vulnerabilidade, que darão resposta eficiente ou restringirão as atividades de Mobilização. A partir de uma visão mais objetiva da sua organização estrutural, especial atenção deve ser dada aos fatores de produção: planta industrial, mãode-obra, insumos e capacitação tecnológica. a. Equipamentos e instalações industriais (planta industrial): De modo geral, o parque industrial brasileiro de base (produtor de bens de capital, indústria metalúrgica e química de base) tem padrões de desenvolvimento tecnológico bastante atualizados, superiores mesmo aos parques manufatureiros da maioria dos países em desenvolvimento e muito próximos dos de algumas potências industriais. O que deve preocupar os planejadores da Mobilização são alguns aspectos de dependência da nossa capacidade produtiva, em confronto com os de outras economias de melhor desempenho industrial.
4Extrato de capítulo similar da LS anterior sobre o mesmo tema, de autoria do Cel R1 DARLY ALFREDO MATTEI, então membro da DALMob / ESG.

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É certo que a participação do capital estrangeiro na indústria de transformação (cerca de 75% do estoque de capital externo existente no país) contribui para a atualização tecnológica em muitos setores básicos e para a inserção dos nossos manufaturados na competição de mercados externos. Isto tem representado, para a maioria dos nossos empresários, um canal de conhecimento e acompanhamento da evolução dos processos de produção desenvolvidos no mundo. É certo, por outro lado, a crescente dificuldade na absorção e transferência de tecnologias de ponta, principalmente vividas por grande parte das empresas nacionais. É tranquilizador, entretanto, o fato de que, internamente, já produzimos parte ponderável das nossas necessidades básicas de produtos industriais. A atual capacidade instalada da indústria brasileira está, na maioria dos casos, acima da sua real utilização, caracterizando uma crescente ociosidade, principalmente nos setores de base. Nestes termos, a conclusão imediata é de que existe um potencial produtivo instalado, de acionamento quase imediato, em situações que venham a exigir um rápido incremento na produção ( Surto Industrial), sem necessidade de grandes investimentos em capital e máquinas. A atual produção física da indústria brasileira está nos mesmos níveis de produção, já alcançados em 1975, configurando um subaproveitamento da capacidade instalada na maioria das fábricas. Pesquisas feitas, adicionalmente, pelo Sistema Integrado de Informações Industriais do CDI, têm demonstrado que grande parte dos setores funcionam com apenas um turno de trabalho. A grande disponibilidade de mãode-obra existente no país, incluindo contingentes mais qualificados, é fator positivo na elevação da oferta de produção, na maioria dos setores de interesse na MOBILIZAÇÃO. Em casos de adaptação e conversão é que se pode prever um maior esforço a ser despendido no desenvolvimento de técnicas para a aplicação em planos de treinamento. Isto deveria constituir a preocupação fundamental da organização institucional que articularia os planos de MOBILIZAÇÃO. É importante salientar, ainda, que o Brasil já produzia, em 1983, mais de 80% (oitenta por cento) das atuais necessidades de bens de capital da maioria de seus projetos industriais. b. Mão-de-obra A grande disponibilidade da mão-de-obra e a facilidade para seu recrutamento, em todo o território nacional, são, sem dúvida, aspectos sobressalentes nos planos de MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL. A questão

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fundamental, entretanto, é a sua capacitação técnica e, a nível institucional, como organizar, em tempo hábil, treinamento capaz de dar resposta às necessidades das situações de adaptação e conversão. Sabe-se que uma grande quantidade da atual mão-de-obra qualificada disponível provém do sistema SENAI e outras escolas profissionalizantes de origens diversas, localizadas junto aos núcleos industriais mais significativos. Tal constatação conduz à outra questão: como treinar mão-de-obra em regiões com pouca ou nenhuma industrialização? Os treinamentos volantes podem representar algum tipo de solução paliativa em situações de emergência, mas não são capazes de dar ao setor industrial, num esforço de guerra, uma resposta muito eficiente. A maior especialização da mãode-obra será alcançada, necessariamente, no contato direto com as linhas de produção, dentro de um processo normal de produção contínua. Em tese, a responsabilidade pela formação básica deste contingente é quase exclusiva dos sistemas oficiais e de algumas escolas privadas de ensino profissionalizante. Torna-se, então, uma exigência a adeqüação de uma política nacional de treinamento, dentro de um enfoque também voltado para a MOBILIZAÇÃO. Com vistas à MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL, é indispensável estabelecer diretrizes básicas para uma identificação prévia e eficaz do nível de qualificação da mão-de-obra empregada e da disponível (isto é, a desempregada ou subocupada). É essencial preservar a mão-de-obra necessária à produção de determinados itens de interesse militar e de abastecimento interno, em épocas de guerra, evitando seu recrutamento intempestivo e prejudicial ao processo de produção. Um fator muito importante a ser considerado é a remuneração da mãode-obra assalariada, para criar incentivos à formação de profissionais qualificados. O primeiro passo, neste caso, é a identificação individualizada desse contingente de mão-de-obra, a partir dos setores considerados estratégicos, avaliando condições de disponibilidade, localização e qualificação dos operários essenciais à operação de uma estrutura industrial de apoio à MOBILIZAÇÃO NACIONAL. O segundo passo é a conjugação desses dados com os Planos de Mobilização, inclusive, evidentemente, os PLANOS DE MOBILIZAÇÃO DE PESSOAL das Forças Armadas. Através de critérios lógicos de preservar, na atividade industrial, a mão-de-obra indispensável a seu funcionamento, estará sendo evitada a convocação, para prestação de serviço militar, de homens que desempenhem funções importantes na base de apoio ao esforço de guerra. Dessa forma, evitar-se-á a perda de eficiência, produtividade e, até mesmo, riscos de colapso no abastecimento interno e externo, durante as situações de emergência.

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c. Insumos A metodologia proposta pelo Conselho de Desenvolvimento Industrial (CDI) alinha os insumos industriais em segmentos distintos, segundo sua escassez relativa e importância de sua utilização na produção civil e militar, em situações emergenciais. Cada insumo componente de um processo industrial de interesse da MOBILIZAÇÃO deve estar devidamente qualificado numa matriz considerando sua essencialidade e possibilidade de substituição, segundo sua classificação, como material estratégico, crítico ou essencial. Deverão ser discriminadas, ainda, as razões de seu enquadramento em tal categoria, para que se tenham os primeiros indicadores de soluções alternativas de abastecimento. A conceituação e demais detalhes sobre estes insumos estão contidos nos Elementos Teóricos de Mobilização Industrial. Dentro de exame específico da vulnerabilidade do abastecimento, parece lógico que a nossa pauta de importações assuma caráter especialmente prioritário, para estabelecimento dos diversos graus de ameaça a um abastecimento industrial. Nos combustíveis reside nossa maior vulnerabilidade no que concerne a insumos estratégicos, notadamente o petróleo. d. Capacitação Tecnológica A experiência de técnicas brasileiras, em alguns projetos de engenharia de base e na projeção de equipamentos adaptados à nossa realidade tecnológica em bens de capital, é uma alternativa considerável num eventual esforço de adaptação e conversão deste parque, numa nova extensão da indústria nacional de material de defesa. Considere-se, também, o fato de que a atual produção industrial brasileira apresenta um grande coeficiente de vulnerabilidade, em razão de sua concentração espacial, o que é especialmente sentido na área de bens de capital, insumos básicos metalúrgicos e químicos. Já nas chamadas indústrias de bens de consumo (têxtil, confecções, couro, calçados, alimentos), dada sua dispersão pelo território nacional, sua característica de maior mobilidade e a predominância de empresas de menor porte e de capital nacional, nossas preocupações em relação à vulnerabilidade ficam sensivelmente atenuadas. Uma das formas para desenvolver a Capacitação Tecnológica é a alocação de “Encomendas Educativas”. Trata-se de programas especiais,

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colocando encomendas ditas educativas, com toda a tecnologia envolvida e demais recursos, tudo com a finalidade específica de atingir a plena capacitação. “NÃO BASTA TER; É MAIS IMPORTANTE SABER E PODER FAZER”. 4.5 - Perspectivas para uma Mobilização Industrial no Brasil “Com um Parque Industrial parcialmente atualizado, tendo alguns setores competitivos em termos internacionais” — segundo afirmou o Dr Geraldo Lamartine de Paula Fonseca, então membro do Conselho de Desenvolvimento Industrial / MIC — e “outros setores em condições de sensível atraso tecnológico” — de acordo com o Gen Diogo de Oliveira Figueiredo, exchefe do Departamento de Material Bélico / Min Exército, a MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL enfrentará graves limitações a começar pela dificuldade de institucionalizar linhas mestras para orientar tão díspares componentes. Ademais, considerando os aspectos abaixo, poder-se-á inferir perspectivas pouco positivas para uma MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL no Brasil, entre as quais: - limitações em termos de padronização de material, por parte das Forças Armadas; - inexistência de um sistema referencial universalmente aceito para os itens de suprimento, (ou abastecimento, como a MB o trata), seja o Número de Estoque Brasileiro (NEB) ou, como outros preferem, a simbologia adotada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), antecedido de B (B + nº/OTAN); - restrições para ser obtida a catalogação do material de defesa e/ou do material de interesse militar; - condicionantes de economicidade deste setor industrial que apontam para a necessidade de encomendas em grande escala (incompatíveis com as limitações econômicas do momento atual), agravadas pelo confronto com o excesso de oferta no mercado internacional e o panorama mundial de aparente paz;

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- dificuldades para a auto-suficiência do país com integral nacionalização do material, particularmente, pelas restrições de acesso às tecnologias mais desenvolvidas; - ausência de um sistema de informações exatas e confiáveis, tanto nacional, como mundial, agravado pelo fato de que os sistemas de armas usualmente geram informações classificadas como sigilosas; e - finalmente, a inexistência de um Projeto Político Brasileiro, fixando as decisões e diretrizes relativas ao esforço industrial, particularmente, quanto à produção do material de interesse militar. 5 - A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL NOS EUA 5
“Sem possuir armas próprias, nenhum Principado está seguro; está, antes, à mercê da sorte, não existindo virtude que o defenda nas adversidades” “(Machiaveli”

Durante a Segunda Grande Guerra, os norte-americanos conseguiram a notável proeza de transformar, em curto espaço de tempo, o seu imenso parque industrial, num arsenal gigantesco que muito facilitou a vitória aliada. Desde então os governos dos países industrializados, impressionados por tão concreto exemplo, passaram a se preocupar com aquilo que na época veio a se chamar de “MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL”, ou a ciência de coordenar a rápida transformação do parque industrial do país, projetado e utilizado para a produção de materiais de emprego civil, em tempos de paz, numa estrutura que — em situação de guerra — passe imediatamente a produzir material de defesa, sem contudo interromper a produção de outros artigos, de consumo privativo da comunidade civil.

5Este capítulo foi extraído das palestras pronunciadas na ESG, em 1984, pelo Doutor RALPH SANDERS, sob o título geral “A Mobilização Industrial nos EUA”, compiladas na LS 29-88, de autoria do Cel R1 DARLY ALFREDO MATTEI, então integrante da DALMob/ESG.

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5.1 - Considerações Iniciais As primeiras idéias a serem expostas nesta parte se vinculam às razões pelas quais a MOBILIZAÇÃO torna-se estratégica. É a visão norte-americana sobre o tema, trazida à apreciação dos estudiosos da MOBILIZAÇÃO pelo Doutor RALPH SANDERS, do “Industrial College of the Armed Forces” (ICAF) e do “National War College” (NWC), ambos da “National Defense University” (NDU), no Forte Mc Nair, Washington, nos EUA. As considerações daquele cientista político foram aqui inseridas por constituírem aspecto inédito na abordagem do tema MOBILIZAÇÃO e, evidentemente, com ênfase na MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL. Sem essa “rationale”, os planejadores militares têm dificuldade em compreender a finalidade de seus esforços. 5.2 - A Mobilização Industrial dos EUA para a Segunda Guerra Mundial A MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL engloba as indústrias que trabalham simultaneamente para as Forças Armadas, para as necessidades gerais do país e para a população civil. Os três aspectos econômico, militar e técnico serão melhor apreciados se estudados separadamente, o que será feito a seguir. 5.2.1 - Problemas Econômicos da Mobilização Industrial O primeiro enfoque a ser abordado, dentre os problemas econômicos da MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL, é representado por uma discriminação entre as empresas: umas devem continuar suas atividades; outras, aumentá-las, outras, cessá-las, outras, enfim, transformá-las. Muitos países, por outra parte, preparavam o aumento de sua capacidade de produção criando empresas, “núcleos de organização”, que se desenvolveriam com bastante rapidez e de acordo com um plano previsto, em caso de necessidade. A indústria alemã, mesmo quando parecia utilizar totalmente sua capacidade de produção, possuía importantes reservas de forças que só seriam reveladas por ocasião do conflito. O caráter sigiloso desses desdobramentos industriais fez com que recebessem a denominação de “indústrias ocultas” (Schattenindustrie). Através de tais desdobramentos, o REICH desenvolveu suas “indústrias ocultas” em todos os domínios, mas, principalmente, na indústria química, na de energia elétrica, nas aciarias e em outros ramos. Às vésperas da Segunda Grande Guerra, o Terceiro Reich se esforçava em impor, para todas as organizações de produção civil, modalidades que facilitassem sua transformação em indústria de guerra.

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F. STERNBERG observa que um Estado constituirá um verdadeiro “estoque indireto de material de guerra”, se indústrias que trabalham para fins civis se ocuparem, ao mesmo tempo, de fabricação de guerra. No livro “Industrielle Mobilmachung”, o Instituto de Conjuntura de BERLIM dava alguns exemplos de transformações industriais: INDÚSTRIAS QUE FABRICAM FORNECEM EM EM TEMPOS DE PAZ: TEMPOS DE GUERRA: Tapetes Cobertores de lã Geladeiras Mesas cirúrgicas Brinquedos; Pianos e móveis Caixas de madeira ou de papelão Máquinas agrícolas, elevadores, Obuses fornos, cabos Os métodos expostos, aliás, não constituem exclusividade da ALEMANHA. Nos ESTADOS UNIDOS, por exemplo, o Departamento de Guerra transferia, a partir dos tempos de paz, encomendas de material de guerra para indústrias cujas atividades estavam voltadas para outras espécies de fabricações. Eram celebrados “acordos de cavalheiros” que asseguravam, em tempos de guerra, a fabricação de quantidades determinadas de artigos nos prazos fixados. Estes “acordos de cavalheiros” nunca absorviam mais de 50% da capacidade normal da empresa, o que tornava menos aguda a dificuldade da passagem da atividade dos tempos de paz para a dos tempos de guerra, e constituíam um interessante coeficiente de segurança para o plano de mobilização. Na INGLATERRA, concediam-se subvenções aos construtores de certos tipos de veículos cujo valor, do ponto de vista militar, havia sido reconhecido pelo Ministério da Defesa. Na ITÁLIA, a construção dos aviões civis, por exemplo, era submetida a certas prescrições que deviam facilitar sua transformação em aviões militares. Na BÉLGICA, a Comissão Permanente de Mobilização da Nação firmou contratos deferidos em nome do seu Governo; tais contratos eram concluídos em tempos de paz, mas sua execução era adiada, até o momento da Mobilização.

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No interregno entre as duas grandes guerras, na FRANÇA, cada ministério dirigia aos industriais, cuja responsabilidade lhe era atribuída, ordens de encomendas detalhadas, que permitam estabelecer necessidades de cada setor. Era fácil, portanto, saber quais as indústrias que deveriam ser mantidas ou ampliadas. O sistema francês, bastante diferente, baseava-se numa dupla idéia: por um lado, o industrial francês, que quisesse evitar o fechamento de sua fábrica, em tempos de guerra, teria que resignar-se a alguns sacrifícios; por outro, o próprio Estado podia garantir financeiramente certas despesas com equipamentos. Assim, a Lei de 1º de abril de 1930, relativa aos mercados que interessavam à MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL, autorizou os Órgãos de Defesa Nacional a transferirem maquinaria capaz de assegurar à MOBILIZAÇÃO uma produção rápida de artigos, cuja fabricação exigia estudos técnicos prévios ou instalações caras. 5.2.2 - Problemas Militares da Mobilização Industrial Outrora, no decorrer de uma guerra, o problema da proteção das indústrias praticamente só se apresentava nas áreas vizinhas ao teatro de operações militares. O ensinamento principal se referia ao perigo de um país ter a maior parte de suas indústrias concentradas numa região da fronteira, facilmente atingível pelo invasor. Duas soluções se apresentavam: a construção de uma barreira defensiva na fronteira e a distribuição harmoniosa das indústrias, nas diversas regiões do território nacional. Mas as atuais possibilidades da aviação e dos engenhos aeroespaciais, capazes de atingir facilmente qualquer parte do território nacional, complicam o problema. Oferecem-se, todavia, alguns recursos para prover à defesa: • recurso militar (defesa aeroespacial baseada em sistema de deteção radar, com míssil anti-míssil, aviação de interceptação e de caça, defesa antiaérea, etc); • a descentralização industrial, com a dispersão das indústrias; • a camuflagem e ainda a proteção direta dos centros de fabricação. Seria muito interessante examinar, em detalhes, as repercussões dos últimos três séculos para a vida econômica dos tempos de paz e os métodos que se seguiram para realizar a aplicação deste programa, o que, entretanto, não se coaduna com o limitado alcance deste trabalho. A título de exemplo, indica-se, apenas, na FRANÇA, uma portaria dos Ministros da Guerra, da Aeronáutica e da Marinha (franceses) que excluía da

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lista de fornecedores todas as empresas que construíssem novas instalações na região parisiense. Em contrapartida, a proteção direta das empresas era tentada em alguns países: assegurava o correspondente do “Times” (inglês), na ITÁLIA (5 de janeiro de 1939), que a FIAT, perto de TURIM, teria organizado um verdadeiro centro industrial subterrâneo, que se estendia por vários quilômetros de túneis. O problema é mais delicado ainda quando se trata de criar, ou ampliar, a Indústria de Material de Defesa, tendo em vista sua utilização em tempos de guerra, com atividades não–remuneradoras durante a paz, ou porque os produtos fabricados não têm nenhuma utilização pacífica, ou porque o preço de custo na indústria nacional é proibitivo. O Estado tem de escolher, então, entre algumas alternativas: • a criação de indústrias estatais que funcionem no período de desaceleração da produção; • a concessão de subvenções e estímulos; • a atribuições de prêmios à indústria privada que previr instalações e adotar aquele regime de trabalho; • a aquisição de participações financeiras em determinadas sociedades; e • a imposição da compra de equipamentos suplementares. 5.2.3 - Problemas Técnicos da Mobilização Industrial: o Aumento Progressivo da Produção e dos Estoques Por todas as razões indicadas anteriormente, é impossível que as indústrias possam fabricar, de um dia para o outro, a quantidade dos produtos julgados necessários em tempos de guerra. As decisões de aumentar a produção e/ou transformá-la, são ações que exigem grande esforço. A necessidade de amplos estudos prévios e a minúcia a ser observada na fabricação de todo material de guerra são outros fatores capazes de retardar o momento em que toda a indústria trabalhará, com empenho total, para o atendimento das necessidades de guerra. Os dois caracteres principais da fabricação de guerra são: • a produção em série, única fórmula capaz de assegurar rendimento aceitável; e um

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• a permutabilidade das peças, que permite a montagem dos conjuntos em oficinas diversas e a substituição das peças defeituosas no material já em serviço. Entre o momento em que se decide concretizar as providências com vistas à fabricação de determinado artigo e aquele em que a produção atinge o total desejado, escoa-se um prazo, mais ou menos longo, que se pode dividir em duas etapas: a da tomada das providências administrativas e a do início do processo industrial propriamente dito. O prazo para acertar as providências compreende o período indiaspensável: • ao planejamento da fabricação; • à construção e/ou à implantação da planta industrial; • à montagem e ajustagem dos equipamentos e dos aparelhos de aferição; • à formação do pessoal qualificado; • à escolha e reunião dos insumos; e • à experimentação da qualidade dos primeiros produtos. Dá-se, então, início ao processo, que dura até o momento em que a produção atinge o nível desejado. É preciso, todavia, levar em conta os atrasos nos transportes, os prazos e eventuais retardos de fornecimento dos insumos, o rendimento pouco expressivo das primeiras experiências, as falhas e, infelizmente, os inevitáveis acidentes. Não se deve olvidar, tampouco, que a produção poderá compreender inúmeros estágios, entre o recebimento da matéria-prima e a apresentação do produto acabado; que as máquinas de um estágio da produção só podem começar a funcionar no momento em que os estágios precedentes já tiverem proporcionado uma produção suficiente. É possível obter consideráveis reduções dos prazos referentes às providências iniciais, com uma boa preparação a partir dos tempos de paz: os planos de fabricação podem estar prontos; os equipamentos podem estar instalados; as linhas de montagem podem ser pré-preparadas; as oficinas podem ser construídas ou até ampliadas, antes do início do conflito. É mais difícil reduzir o prazo para que o processo de fabricação propriamente dito se inicie. As providências preliminares podem ser tomadas em tempos de paz, em quase todos os casos, mas, no entanto, o aumento progressivo da produção só deve ocorrer no início do conflito. Parece difícil acelerá-lo no momento em que está sendo transtornado pela MOBILIZAÇÃO MILITAR e pelos primeiros ataques inimigos (na hipótese de uma guerra convencional).

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As Forças Armadas, todavia, têm necessidade de mais material, antes mesmo do início da guerra (dotação inicial) e consumirão uma quantidade enorme dele, a partir do início das hostilidades. Daí a necessidade de estoques (ou reservas de guerra) capazes de cobrir, com uma certa margem de segurança, as necessidades levantadas pelo Comando-Geral das Forças–em–Operações (através de seu Estado–Maior), até o momento em que as produções, recentemente organizadas, possam atendê-las. A constituição destes estoques (RESERVAS DE GUERRA) é um problema delicado. É muito importante que estes estoques sejam suficientes: o esgotamento dos estoques de guerra, a partir de setembro de 1914, é um exemplo nem sempre lembrado. Mas não devem ser muito antigos, em se tratando de itens que logo se tornam obsoletos (aviões, veículos, carros-de-combate, mísseis, sistemas de armas, seus componentes e partes, produtos químicos, máscaras, munições, etc). As modificações dos modelos tornam sem valor os estoques constituídos. Os outros inconvenientes da constituição de estoques são seu custo, em termos de capital, as dificuldades e o custo de manutenção. Suas vantagens, entretanto, não devem ser desprezadas: um estoque de material representa um trabalho preservado; toda produção de guerra, anterior à mesma, significa uma verdadeira divisão do trabalho no tempo: as forças humanas que foram utilizadas na fabricação do material tornam-se, em conseqüência da própria existência dos estoques, disponíveis para o combate. Sem querer exagerar nesta idéia, é adequado dizer que o limite inferior dos estoques é determinado pela necessidade de preservar, até o momento em que possam ser fabricados, em série, os materiais cujos protótipos estão preparados. Na atualidade, o grande avanço científico-tecnológico, a complexidade e a sofisticação dos chamados “Sistemas de Armas” determinam custos elevados para sua produção e, não raro, em curtos prazos para se tornam obsoletos. Desta forma, o problema de níveis de estocagem destes materiais exige delicada análise e difícil decisão. Em conclusão, pode-se afirmar que a importância da MOBILIZAÇÃO nos EUA tem sido intermitente, alterando períodos em que atinge culminância, como o iniciado na criação do primeiro instituto de planejamento deste assunto a funcionar no mundo, o “Industrial College of the Armed Forces”, em 1927, encarregado de estudar e incrementar a Mobilização Industrial, com outros, em que é quase esquecida. O deslocamento da produção de um grande número de tipos de armamento para a produção de um número menor, porém com maior avanço

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tecnológico integrado, ou, em outras palavras, a quantidade e diversidade foram substituídas pela seleção e apuro da qualidade. O estudo da Mobilização nos EUA, entretanto, se justifica principalmente por um povo pacífico e pacifista, como o brasileiro, para evitar a perplexidade dos que jamais imaginariam a guerra no seu quintal e a serena segurança dos que sabem coordenar ações dentre os requisitos de uma situação de emergência excepcional, entenda-se guerra.

6 - ALGUMAS CONCLUSÕES Nos segmentos precedentes, foram levantadas algumas questões importantes da realidade industrial brasileira, com observações a respeito das dimensões do planejamento para a ação industrial no contexto de uma Mobilização Nacional. Constitui um difícil desafio imaginar idéias e analisar caminhos que conciliem uma indústria, ainda que dinâmica e expressiva, mas ainda dependente de capital e tecnologia, no âmbito de um planejamento capaz de responder, na prática, com as ações essenciais que construirão a base econômica de apoio às operações militares. A melhor compreensão das atividades industriais, inseridas num programa de tamanha envergadura, repousa no seguinte: a. falta-nos um melhor e mais bem organizado sistema de informações industriais, que contenha elementos básicos para a formulação de um planejamento eficiente e eficaz, tanto quanto possível, e em particular, o requerido para atender a situações emergenciais; b. torna-se indispensável a criação de um mecanismo institucional articulado entre: Ö as entidades sociopolíticas interessadas em um processo de Mobilização; Ö as áreas econômicas do Governo cuja missão básica é interpretar uma política econômica adequada e programar o seu desenvolvimento para uma Economia de Guerra; Ö o empresariado, no qual se assenta a execução da atividade econômica; e Ö as Forças Armadas que, através dos seus estrategistas, planejam, coordenam e executam planos de

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MOBILIZAÇÃO. c. a necessidade de manter em constante desenvolvimento a Base Industrial Mobilizável (BIM), particularmente a de material de defesa, com uma política correta, buscando agressividade nas exportações, na medida em que permite o aporte tecnológico necessário para se manter atualizada , sem dispêndios significativos para o País; d. a análise permanente das nossas vulnerabilidades e dependências no campo industrial, notadamente a tecnológica, que permita reduzir gradualmente os riscos de comprometimento do planejamento da Mobilização e restrinja as decisões políticas quando de sua execução; e e. é imperioso admitir, finalmente, que a pouca experiência brasileira em situações de Mobilização, muito antes de levar-nos ao desespero, deva estimular, acima de tudo, para uma maior reflexão a respeito deste tema. Sobre um assunto de alto interesse para toda a nação brasileira, a conscientização da magnitude e complexidade dessa missão é um permanente exercício de todo o cidadão ou, pelo menos, dos seus representantes institucionais, em relação a um dos seus mais legítimos direitos a serem preservados: a autodeterminação do seu processo de desenvolvimento. Para que isto seja viável, é fundamental a efetivação de um Projeto Político Nacional, contendo decisões e diretrizes relativas à Defesa Nacional, inclusive as referentes à participação da Expressão Militar do Poder Nacional, da qual derive a implementação dos meios para o emprego das Forças Armadas. Resumindo, é da maior importância para a “MOBILIZAÇÃO INDUSTRIAL”: 1 - a definição clara e inequívoca e sua real implementação -- derivada de uma intensa conscientização, a nível nacional -- da política e da estratégia brasileira para a produção e venda de Material de Defesa; 2 - a divulgação, corretamente dirigida e orientada, das reais vantagens -- econômicas e políticas -- que terão os empresários ao colaborarem com o programa de “Mobilização Industrial”, bem como dos

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mecanismos que protegerão as empresas contra vazamentos de informações técnicas e/ou comerciais; 3 - a criação -- dentro do maior número de indústrias -- de núcleos expansíveis, embriões para a fabricação de Material de Defesa; 4 - a organização das equipes de técnicos militares que poderão, inclusive, trabalhar, em colaboração com as empresas, nos núcleos acima indicados; 5 - a criação de linhas de crédito para a produção e exportação, e principalmente, para a pesquisa e o desenvolvimento (algumas até a fundo perdido, tal seja o interesse estratégico versus a eventual inexistência de outros mercados); e 6 - a adaptação e a atualização contínua do cadastramento das empresas, através de informações precisas a serem regularmente fornecidas pelos técnicos militares residentes.

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