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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA ONTEM E HOJE, SEMPRE ESTUDANDO O BRASIL

DEPARTAMENTO DE ESTUDOS

LS 811/02 DAInt

COLÔMBIA

Os textos de Leitura Selecionada, de caráter doutrinário, teórico ou conjuntural, destinados à distribuição interna, às vezes discordantes entre si, visam a trazer novos subsídios aos estudos que aqui se realizam e expressam opiniões dos respectivos autores, não, necessariamente, as da ESG.

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ESCOLA SUPERIOR DE GUERRA DEPARTAMENTO DE ESTUDOS DIVISÃO DE ASSNUTOS INTERNACIONAIS

LS 811/02

COLÔMBIA

Rio de Janeiro 2002

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Presidente da República FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Ministro de Estado do Ministério da Defesa GERALDO MAGELA DA CRUZ QUINTÃO Comandante e Diretor de Estudos da Escola Superior de Guerra Vice-Almirante ADILSON VIEIRA DE SÁ Subcomandante e Chefe do Departamento de Estudos Brigadeiro-Engenheiro FRANCISCO MOACIR FARIAS MESQUITA

Divisão de Assuntos Internacionais (DAInt) Chefe: Cel Av JORGE CALVÁRIO DOS SANTOS

Escola Superior de Guerra Divisão de Biblioteca, Intercâmbio de Difusão Av. João Luís Alves, s/nº CEP: 22291-090 - Urca - Rio de Janeiro, RJ - Brasil Telefone (021) 545-1737 FAX: 295-7645

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SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO ............................................................................................ 7 2. FISIOPOLÍTICA........................................................................................... 7 3. OCUPAÇÃO................................................................................................. 8 4. SITUAÇÃO POLÍTICA ............................................................................... 10 5 - CONCLUSÃO ............................................................................................. 13

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COLÔMBIA COLÔMBIA 1. INTRODUÇÃO
Com área de 1.141.748km2, pouco menor que a do nosso Estado do Pará (1.248.042 km2), a Colômbia tem, segundo classificação de Renner, a forma compacta, com seu maior comprimento de 1.600 km e largura máxima de 1.800 km. Suas fronteiras terrestres com o Brasil, a Venezuela, o Peru, Equador e Panamá somam 3.800 km. Sendo o único país bioceânico na América do Sul possui 1.600 km de costa no Atlântico e 1.300 km no Pacífico, integrando tanto a América Andina quanto o Marginal do Caribe.

2. FISIOPOLÍTICA
Envolvendo a Colômbia e a Venezuela Ocidental, os Andes se bifurcam em vários ramos que se estendem ao norte do nó de Pasto e findam circundando o golfo ou Lago de Maracáibo, o maior da América do Sul com seus 13.000 km2 em zona de grande potencial petrolífero. Na Colômbia os Andes se apresentam digitados, formando 3 cadeias distintas: a Costeira ou Ocidental, a Central e a Oriental. Na digitação andina forma-se a "Estrela Fluvial Colombiana", onde se encaixam, em gargantas profundas, as Bacias do Atrato, a do Madalena Cauca, que seguem para o Atlântico; bem como o Aráuca-Meta, Guaviari, Valpês e Putumáio integrantes das Bacias do Orenoco e Amazônica. O Madalena (1.700 km), com seu afluente Cáuca (1.350 km), é, por seu caudal, o 4º rio mais importante da América do Sul; são cursos que correm em estreita planície, enquadrada por contrafortes de maciços montanhosos, essenciais nas atividades econômicas do país. O canal marítimo de Barranquilla (Boca de Ceniza), aberto artificialmente, deu a essa cidade maior impulso em detrimento mesmo de Santa Marta e Cartagena que também disputam o transporte pelo Madalena.

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Nessa vertente, destaca-se o Atrato (650 km) que drena a planície do Departamento do Chocó onde praticamente, chove o ano todo (10 metros anuais). Por isso, o Atrato é considerado o curso de maior caudal do mundo se levarmos em conta a área de sua bacia que é de 80.000 km2. A rede hidrográfica que rega as planícies orientais se divide entre os dois rios mais caudalosos da área o Orenoco e o Amazonas. Correm nos llanos do Orenoco o Aráuca (1.000 km) fazendo limite com a Venezuela, o Meta (1.200 km) também lindeiro e o Guaviari (1.350 km). Para o Amazonas vai o Putumáio (1.850 km). Observando-se que mais da metade das terras colombianas - a Orenóquia e Amazônia são planícies as quais se juntam também a litorânea Região do Pacífico e a Costa Baixa do Caribe. Nesse contexto se impõe o grande contraste - a Península e Departamento de La Guaira forma o apêndice mais setentrional da América do Sul, ocupando uma superfície de 12.000 km2; caracteriza-se pela acentuada aridez, opondo-se com a abundante hidrografia que caracteriza a fisiografia colombiana. Uma estreita zona desta península pertence à Venezuela e aí está a contestação de fronteira envolvendo a Ilha de los Monges. No extremo oposto outra área que já se constituiu em motivo de conflito com o Peru, onde o Rio Amazonas num trajeto de 116 km limita a Colômbia. Nesse apêndice meridional ao sul do Putumáio, o porto fluvial de Letícia é o maior elo de atração com o Brasil, levando através do Amazonas a Colômbia a outra saída pelo Atlântico. Nas vastas áreas de planície, do Orenoco e Amazônia, se encontra a zona geopolítica neutra da Colômbia, contrastando com o ecúmeno estatal localizado nos Andes.

3. OCUPAÇÃO
A Colômbia foi a base do Império Hispânico na fachada meridional do Caribe, já que seu núcleo geohistórico se instalaria nos Andes, no setor denominado Sabana de Bogotá, na cidade fundada em 05 de agosto de 1538 por D. Gonzalo Jimenez de Quezada, numa altitude de 2.640 metros e numa distância de 1.160 km do Mar do Caribe ou Atlântico; aí Cartagena das Índias era a mais importante praça fortificada. A conquista espanhola tivera início bem antes, quando em 1499 Alonso Ojeda, Juan de la Cosa e Américo Vespúcio percorreram a Península de Guaira;

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enquanto o cerco era fechado por Rodrigo de Bastides, aportando em 1501 na foz do Madalena e Vasco Nuñes de Balboa em 1513, atravessando o Panamá, descobria o Pacífico. Transformara-se o espaço colombiano na cabeça-de-ponte para os conquistadores da América do Sul. Implantado o Vice-Reinado da Nova Granada, iria se desenvolver estrategicamente posicionado entre o Atlântico e Pacífico. Aí, em Bogotá, a 20 de julho de 1810 Simon Bolívar se rebelava contra a metrópole; mas a causa emancipadora só teria o seu desfecho na Batalha de Boiacá (7 de agosto de 1819) quando as tropas comandadas por Bolívar e Santander derrotam o exército realista de Barrero. Em 17 de dezembro de 1819 o Congresso de Angostura se decidia pela criação da Gran Colômbia integrando o Vice-Reinado de Nova Granada, a Audiência de Quito e a Capitania Geral da Venezuela. Ao impôr o nome Colômbia procurava Bolívar reparar o mal histórico, que por erro do cartógrafo alemão Waldseemuller cunhara-se para o continente o topônimo América. Mas, o fenômeno da disjunção geopolítica foi bem mais forte e assim, em 29 de fevereiro de 1832, se desfazia a Gran Colômbia, resultando dela três países - Venezuela, Equador e Nova Granada. Caberia a Constituição de 8 de maio de 1863 dar à Nova Granada o nome de Estados Unidos de Colômbia, substituído em 5 de agosto de 1886 para República da Colômbia. República que tem no espanhol sua língua oficial e, no catolicismo herdado do colonizador, a religião de 95% da população. População estimada em 1991 em 33.613.000 pessoas mestiças de brancos, negros e índios. Repartida de modo desigual com as maiores cifras no setor da Cordilheira, diminuindo nos vales profundos, tornando-se insignificante nas vastas planícies orientais. Observando-se que a distribuição demográfica é mais equilibrada no setor montanhoso nos 5 Departamentos - Valle, Quindio, Rivarralta, Caldas e Cundinamarca. Aí 70% dos habitantes ocupa altitudes acima de 1.000 metros. País por sua latitude equatorial, apresenta solo muito variado desde as planícies quentes aos altiplanos e montanhas frias. Possibilitando culturas tanto tropicais quanto temperadas. O café é seu produto principal, de qualidade apreciadíssima, por ser plantado entre os 600 e os 1.800 metros. Seguem-lhe o cacau, a cana-de-açúcar, o fumo, o algodão, banana, arroz, mandioca e batata. A diversidade climática concede à Colômbia variada agricultura tornando o país menos dependente economicamente da América Hispânica.

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Os bosques cobrem 69,4 milhões de hectares, produzindo boa madeira. As savanas orientais e os pastos das montanhas diversificam-lhe a pecuária que vai desde a espécie bovina até a ovina. As regiões montanhosas têm um subsolo rico em minérios - ouro, prata, esmeraldas e ainda petróleo e gás natural. As esmeraldas colombianas são famosas sobretudo as do Departamento de Boyacá, extraídas das minas de Muzo e Coscuez pertencentes ao governo. As reservas petrolíferas mais exploradas estão nos vales do Madalena, costa atlântica e litoral do Pacífico. Enquanto os depósitos carboníferos mais importantes estão situados nas proximidades dos centros industriais de Cali, Medelin e Bogotá.

4. SITUAÇÃO POLÍTICA
Desfeito o sonho de Bolívar, que morreria desgostoso na cidade de colombiana Santa Marta, a República de Nova Granada, formada pela Colômbia e Panamá, promulgando sua la Constituição (1832), estabelecia uma forma de governo federal. Nesse período destacou-se a presidência do General José Hilario Lopez que aboliu a pena de morte para delitos políticos e a escravidão (1850). A nova Constituição Unitária (1866) dava ao país o nome de República da Colômbia, centralizando os três poderes. Seguiu-se uma longa série de lutas candilhistas promovidas pelos dois Partidos que disputavam o poder: os Liberais e os Conservadores 1 . Estes últimos, vencedores em 1902, se mantiveram no governo até 1930. Desse período o destaque é para a separação do Panamá (1903), com a ajuda dos Estados Unidos. O governo de Washington resolveu denunciar o Tratado de 1846 que garantia livre trânsito aos estadunidenses em troca da soberania colombiana na área. E assinou o Tratado de 1903 com a nova República do Panamá, adquirindo o direito de construção de um canal e de sua manutenção, numa zona de 8km de largura em ambas as margens. Sucederam-se novos desentendimentos entre Conservadores e Liberais que se alternavam no poder, quando tiveram que enfrentar a ocupação peruana de Letícia e sua devolução, graças à intervenção da Liga das Nações (1932-34).

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Na "Guerra dos Mil Dias (1889-903) houve milhares de baixa dos dois lados.

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Em 1948, com o assassinato de Jorge Gaitán é imposto o estado de sítio para por fim a "La Violencia", tumulto no qual registraram-se numerosas mortes. É então eleito Laureano Gomez, candidato único conservador, já que os liberais não participaram do pleito de 1949. Este, apesar de governar com a suspensão de garantias constitucionais, viveu período de agitações políticas que culminou com sua deposição. Novo período de golpe e contragolpe quando, para restabelecer a normalidade, uma Junta Militar através de plebiscito (1957) pôs em vigor uma Emenda na Constituição estabelecendo pelo prazo de 16 anos o revezamento entre os Partidos na presidência. Assim, Alberto Lleras Camargo exerceu como liberal a sua presidência (1958-62) passando o cargo ao conservador Guilhermo León Valência. No primeiro ano do governo Valência registram-se ondas de terrorismo, levando o Congresso a conceder-lhe autoridade para agir mediante Decretos, chegando-se ao Estado de Sítio em 1964. A crise econômica seria em parte superada em 1965, quando ao Estados Unidos renovaram seu auxílio financeiro, após entendimentos com o Governo de Bogotá para a abertura de um novo canal na região nordeste colombiana ligando o Atlântico ao Pacífico. Cabia em 1966 a presidência ao liberal Carlos Lleras Restrepo, que reprime seriamente o movimento subversivo de esquerda, que recrudescia em 1967 com a morte do chefe guerrilheiro Padre Camilo Torres, que chegara a controlar parcialmente uma área de 120 km2 no sul do país, na Amazônia. Foi ainda nesse governo proposta a criação do Pacto Andino, acordo sub-regional assinado em Bogotá, chocando-se, em parte, com a então vigente ALALC de âmbito continental-latino. Em 1970 é eleito Misael Pastrana Borrero, conservador candidato da Frente Nacional, cuja política de "justiça social" iria gerar sucessíveis crises de violência; crises respondidas com a declaração da sociedade em perigo e o fechamento de cinco universidades. Destacando-se que, nesse ano de 1970 em 19 de abril, Carlos Toledo Plata, com a ajuda de Maria Eugenia, filha do General Gustavo Rojas Pinilla 2 , fundava o movimento guerrilheiro M-19. Nas eleições de 1972 Rojas Pinilla é derrotado e, no governo do liberal Alfonso Lopez Michelsen, ocorre a primeira grande ação do M-19 com a invasão do Museu Bolívar em Bogotá (1975). A Colômbia reata com Cuba e a
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Deu um golpe em 1953, mantendo-se no poder até 1957 quando foi derrubado por outro golpe.

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eleição do novo liberal Julio Cesar Turbay Ayala provoca outra grande ação do M-19 com a invasão da Embaixada da República Dominicana por 60 dias. A crise externa ficava por conta da Nicarágua que passava a reivindicar as ilhas caribenhas de Providencia e San Andrés em poder da Colômbia. Eleito em 1982 o conservador Belisario Bettancur, o M-19 recusa a anistia, enquanto o assassinato do Ministro da Justiça Rodrigo Lara Pinilla dá início à guerra contra os traficantes de drogas (1984). Assassinatos, deportações de traficantes para os Estados Unidos, ofensivas de movimentos guerrilheiros entre os quais o ELN (Exército de Libertação Nacional) e a FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), denúncias do M-19 de ligações do Cartel de Medellin com militares, levam a Colômbia à instabilidade com o Presidente Cesar Gavíria Trujillo decretando o Estado de Emergência por 90 dias (1992). No governo de Gavíria o super-traficante Pablo Escobar se entrega e é preso numa "prisão 5 estrelas", por ele próprio construída, enquanto novas ondas de violência se sucediam. A guerrilha, a ordem pública em grande parte da zona rural, levando alguns governos de Departamentos a negociarem abertamente com a Coordenadoria Guerrilheira Simon Bolívar. Por sua vez, os traficantes que haviam sido os primeiros a desafiar o Estado de Emergência com a fuga de Escobar, se dividem. Contra o Cartel de Medellin se impõem os Pepes, perseguidos pelo chefão, aos quais se unem militares e policiais aposentados e civis liberais reunidos na "Colômbia Livre". Os ataques e contra-ataques se sucedem, culminados com a morte de Escobar num tiroteio em 2 de dezembro de 1993.

5 CONCLUSÃO
A instabilidade política vem sendo a tônica nesse país vizinho do Brasil e que, como os demais signatários do Pacto Amazônico, tem sua área geopolítica neutra no setor fronteiriço. Instabilidade que promete continuar com o "terremoto político" surgido em 13 de março de 1994 com o movimento cívico-militar que participou das eleições que em 1995 levaram ao poder Ernesto Samper Pizano. Esse movimento cívico-militar, constituído pelo Movimento de Solidariedade Iberoamericano, se uniu ao PN (Participação Nacional) e à ARENA (Aliança de Reservas Nacionais e Ação Cívica ) procurando combater as maquinárias políticas "narcodemocráticas” que vêm governando o país.

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A "narcodemocracia" é justamente imputada a Antonio Navarro Wolf, dirigente do M-19, aliado de Ernesto Samper Pizano que se acusa como promotor da legalização das drogas. Em julho de 1995 finalmente abria-se a crise. O Presidente Ernesto Samper Pizano não conseguiu explicar à "Fiscalia General de la Nación" porque recebeu um cheque de 40 milhões de pesos (47.000 dólares) que não apareceu nos livros oficiais de contabilidade de sua campanha presidencial. Afirmam seus opositores que este cheque foi doado pela "Comercializadora Agro-Pecuaria la Estrella Ltda", companhia de fachada do Cartel de Cali, criada em 12 de janeiro de 1994 e liquidada em 9 de agosto do mesmo ano - exatamente dois dias depois que Samper Pizano tomou posse do cargo de Presidente da Colômbia. Na prática a guerrilha pode derrotar o Exército transformando a Colômbia num “narco-Estado”, afirma um documento do Pentágono citado pelo “Washington Post” de 10 de abril de1998. Os rebeldes da FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) com cerca de 15.000 membros, e os 5.000 do ELN (Exército Nacional de Libertação), já controlando cerca de 40% do território colombiano. Para vencer os rebeldes as Forças Armadas necessitam da vantagem de dez soldados para um guerrilheiro. No entanto, dos 120.000 militares só 20.000 estão nessa luta, pois a maior parte, na defensiva, se encontra protegendo refinarias de petróleo, oleodutos, aeroportos, estradas e torres de comunicação, alvo predileto dos atentados; enquanto o restante dá apoio logístico às unidades. A guerrilha opera como uma máfia com organização hierárquica bem definida com várias facções que se enfrentam ou lutam contra o Exército, dividindo a Colômbia em zonas independentes ou, como dizem os próprios colombianos, em pequenas repúblicas. É este o cenário de um país transformado na Bósnia sul-americana que se prepara para eleições presidenciais de 31 de maio cujos candidatos – Horácio Serpa o liberal do partido governamental e Andrés Prastana, do partido conservador defendendo o diálogo com a “guerrilha sofisticada”, enquanto Harold Bedoya e Noemi Sanin sugerem “chumbo grosso” e firmeza militar. Por ora, o destino geopolítico da Colômbia é de desestabilização

MAIO 2001

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