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HENRI
Colecção: PERFIS

© l!:ditions Denoêl.zGonthter
Título original
Psychologie et Marxisme

Tradução de Calado Trindade Capa e orientação gráfica: Estúdio Vega

PSICOLOGIA
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Direitos de tradução para a língua portuguesa reservados por Editorial Vega Rua Jorge Ferreira de Vasconcelos, 8 - Lisboa-2

Composição e impressão : Tip. Garcia & Carvalho, Lda. Rua Santo António da Glória, 90 - Lisboa 3000 ex., em Março de 1978

Colecção ~

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RENEZAZ1D

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HENRI

NOTA SOBRE O AUTOR

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René Zazzo é Professor de Psicologia Genética na Universidade de Nanterre. Desde 1962, sucedeu a Wallon na Direcção do Laboratório de Psicologia da Criança da Escola Prática de Altos Estudos de Paris. Antigo assistente de Wallon e discípulo de Arnold Gesell, com quem trabalhou nos Estados Unidos e de cujas obras foi o introdutor em França, Zazzo é por sua vez um psicólogo da infância com individualidade própria. Dos numerosos livros e artigos que publicou, destacam-se Deoenir d'Intelligence et Quotient dJÁges (1941), Psychologues et Psychologies d"Amérique (1949), Les jumea'/,txJle couple et la perscmme (1962), Conduites et consoience (1962), Mamuel de l'examen psychologique de lJenfant (1962), Traité de PsyoholQgie .de fEnfant (1969) e Les Débélités (1969).
Prefácio de JOAQUIM BAIRRÃO Professor no I. S. P. A. e Director do Centro de Orientação e Observação Médico-Pedagógica (M. A. S.) Posfácio de JEAN PIAGET

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EDIfORIAL

PREF ACIO A EDIÇÃO

PORTUGUESA

Não nos é possível por aqora, fazer uma reflexão aprofundada acerca do trabalho de René Zazzo, Vida e Obra de Henri Wallon, pequeno livro que é) aliás) uma bela, introdução ao pensamento de WaUon feito pelo seu discípulo e continuador, e que noutra altura aprofurvdarei como merece. Por agora) âaâa a impossibilwde de um tal estudo) sugiro ao leitor um possível modo de abordar a presente obra. Começarei por recordar reswmidamenie o capitulo «Retrato de Henri Wallon» no qual Zazzo nos fala do homem. == Wallon foi realmente um mestre que permitiu. que algo se orçomieaese à sua volta) sobretudo o trabaiho de várias pessoas) graças à uüerliçaçõo do «afectioo» e do «científico». Ê essa presença física) psicológica e científica que Zazzo aborda com afecto e admiração. Assim foi possível que nascesse '1!4lkPL~ggl!b uma comunidade de trabailho e não uma «seita» ou «capela». Daí a importância de certas personalúladês que sirvam de modelo a outras para o progresso do conhecimento. Sílvio Lima dizia num contexto aproximado: «As noSSG!8Universidades e Instituios, ... têm enfermado da carência de poderosas indimdualidades cria7

. . 'I.> (génese dos tipos motores e peicomoiores ) até à qénese do ~psiquico (~a1Y!-f:.)0. v-. "".. o~t.ia».(.à alvorada de libertação) W allon foi exemplar) congregando) apesar de tudo e de todos) amigos e cotaooroâores que «à sua luz» fizeram progredir as ciências do Homem e contribuíram) na medida do possível) para uma sociedade mais justa.o fascismo . a emoção) que se estabelece a relação entre biológico)(L.[..~:.w1l!MkL fJ.-...ora. ". Wallon foi o primeiro a reconheoê-la embora com o nome de Psicobioloçia.gica. eqyd..~:'.' r t :.. ratório Wallon) nome que tomou após a sua morte ocorrida ( em 1962) chama-se «Laboratório de P sicobiologia da criança».t tanto em voga sobretudo nosi l-" _ ~ autores americanos e ~~tiç.!!.. 0 ..~' '-'./'.siqu~» l ~lr'~'. Como nos diz Zaezo: «1~ a ciência que faz o marxismo e não o marxismo que faz a ciência...(o papel do 60cius ou de outrem 00 edificação do psiquismo) para culminar naquilo que se poderá) impropriamente talvez) chamar personalidade..-~ticiê~.. Vejamos em sequuia um outro capítulo) que escolhemos por nos parecer ser um resumo da obra de Wallon) feito em intenção dos psicólogos americanos que praticamente o desconhecem.o.. Primeiramente ligada ao tónus.ue os ti-.Q§..!HL'IJÍ!:I-_original para explicação do com.:R.Por outras palavras) do comportamento motor às estruturas mais evoluídas) cogniti:vas ou categoriais).11 • {()I. e eluoidxüico do que vimos dizendo. psico~ '!J!9t.junç.Qj§cto walloniano de psicobiologia) estâ também para além da fundaçãº~r:~~iológicai e genética.» Da resistência à libertação) da longa noite da destruição da razão .:r. A dialéctica de Wallon consiste em unir aquilo que à primeira vista nos surge como não conciliável: através M 8UaJ teoria da emoção ele OP-eT'CU!. I V. De comportamentos' simples (cotos) ele vai dJiferenciando cada vez mais o.' :' /((i " /(') ·7 ' Assim se estabelece um sistema. a conduta se vai organizando. Em 1925 não tem ainda a possibilidade de erigir tal ciência) que sob certos aspectos aprofunda por volta dos anos quarenta) em Les Origines du Caractêre chez l'Enfant. com a publicação de l/:iTInfan...I' (.'f".f311I.tn~. \ .. .§estão intima-"~ cwJ mente relacionados com os ~~~.c. Como nos diz Zazzo) Wallon é conhecido por toda a parte.§'!'Ut nervoso se vai hierarquizando.:!!~ocialização. Em 1925..âoras à Wundt) Piéron e Michotte.-...I)E .» Direi sobretudo que se sente entre nós a falta de personalidades como W<lillon)onde o cientista se liga atenta e militantemente ao político) contribuindo para as grandes transformações. Talvez que esse desconhecimento se deva à complexidade da obra) que propõe }~!..2.ºlg1l.. nome proqranuitico.. Ê o capítulo «Quem é Henri Wallon».-". que ainda hoje a França não ousou par razões óbvias pôr em prática na sua totalidade.. ._tLmotr. mas existe «um último universo para conquistar) o do mundo omçlo-saaxit..." -' .+l~J}t.!.:. Aliás) o Labo-!' I. WaUon propõe aquilo que mais tarde se chamará uma ~r. hoje. l 11.~""..-.~entaçãp. 1(( \."' I"~ . "'1 ("~. . Essa neuropsicoioçia./)i::.rcJ:_'x. ICe fi . I r. Basta recordar q..P.obiológicos) aspectos sooio-ajectivo« e as..(":--t. Mas é através de uma noção-chove.' WêÇÀ~ " .entação pato~~~ 'li .' pecios cognitwos. (no sentido do desenvolvimento) ~ma fundarrr/. .sjc. I)K\f. '~ '8 \ --) '\ 1. é nico».1'!.t ~U1:bJ.. seu suporte) . Na primeira obra ele tenta mostrar (descrever) e explicar çO'rl19.RQ~r!~c~t.~d!! i-.tgr:f:..': portonnento.J tenta a ~sag~ entre o orgâniQo Ç9.. I I Vamos terminar este breve prefácio citando Zazzo: «A motrioidxuie e a consciência são os dois pólos entre os quais se poderia classifcar as várias concepções de psicologia. . Da libertação e dessa colaboração) recordo a Reforma Langevin-Wallon..~:ç~ '.social e psicológico..il-o J2n.' a emoção diferencia-se através c!.to)....libr{tç{6e articulado entre aspectos r}§U!. Recordemos finalmente que no_pr.

r Março de 1978. Nestes textos que contêm repetições inevitáveis) não inponho a minha leitura de Wallon como a única 10 11 ..r ._é o ~f!... Se é oerâade que parece a todo o leitor que Wall<m é um autor difícil de apreender) de abarcar) de assimilar completamente e) sobretudo de transmitir a outros) nomeadamente aos estudantes) o facto é q:uea dificuldade é ainda mais paralisante para mim que trabalhei com ele durante um quarto de século. Em certos momentos) já não sei se é ele ou se sou eu quem fala. dados 08 progressos simultâneos dos estudos ne:wrobiológicos e da psicologia. ('. .•.{' I1 ( v. It t""L ~ n . C\ (. Deixo QI outros.a_ tência de Zazzo) na presente obra."'·' T"'crt-.0..' ! ~ ({) Ó." )' PREFÁCIO Ao decidir publicar uma recolha de alguns dos artigos que consagrei a Henri WaZlon)renuncio sem dúvida definitivamente ao projecto de escrever um estudo de conjunto sobre a sua obra. I c c~n:cia) é essa a adver> _)r r/_. /.'s~ de. . Are l' -j"I.Ia r)u ". os meus artigos dispares não apresentam estes perigos...ca.1 'I. Os esboços que constituem.busiva que me dá a minha qualidade de sucessor na direcção do seu laboratório.0!:!.Ó».Ju.'" I " I.' '~~"i~' ( ...Eis uma muito breve reflexão sobre uma obra gigantesca) que parece cada vez mais aotual.-. menos próximos dele) o risco e o mérito de um tal empreendimento. ''3'' .? ~(. \ \ )i"'-.'.1 Qj !~4.? '. _ .. Oonvêm melhor ao tipo de relações que se estabeleceram entre mim e Wallon) no plano intelectual e no plano humano.• ~~ov. . Wal~. ''1 JOAQUIM BAIRRÃO 'çI') . Se redigisse um livro sobre ele) recearia construir uma estátua de mármore e de sal) se desse uma apresentação sistemática da sua obra) temeria torná-ta um sistema) com a caução o.

para forças hipotéticas) Wallon empreende a o.r.. tivas a um certo estado do saber) e) sobretudo. Não porque ele próprio proceda por esboço. O misticismo é a conirapartida das incertezas da ciência.obali" .dialéotico.. Nestas duas construções aparece claramente o projecio u-alloniano. . ~ modalidades arcaicas da sensibilidade e do movimento. A primeira obra que ele dirigiu intitulava-se Ã~lu~. Wallon deu-me um dia o conselho) muito significativo vindo dele) mas que nunca segui) de não sublinhar nada nas meus escritos.:.lt. Sabe-se hoje em dia com plena certeza .j. ().. .stá{f.~). tipos psic.uito pelo contrário) o traço do seu pensamento é sempre muito d..(.çfiQ do~. ao mesmo tempo a questão fundamental que le'vamto. " firme) o seu discurso frequentemente de uma extrema densidtuie.QQ_ do m:. e.~ :Y _~. das construções destinadas a ilustrar) num momento historicamente datado. . P!!L todas: o movimento do seu pensamento.t. Contudo) aceitei o título Psicologia e Marxismo proposto pelo editor porque pensei que o próprio Wallon o teria aceitado.Qr:i.~<k é o tecido comum e original de onde procedem ? 11.J~ ~).'.i!2lf2g. .. .gori. Wallon pode ajudar-nos a comrpletar esta teoria. E é esta densidade) esta riqueza) que se presta a uma ( .r.rrJ. Tratan. f:·... M... multiplicidade de leituras. ou a Sua çg.' . devemos reter que a motri-'r. Digo o que ele me dá e as perspectivas que me abre nos campos da psicologia) esperando despertar o apetite do leitor e que este descubra nas obras de Wallon uma outra coisa.i: " Inicialmente) desejava intitular esta compilação do seguinte modo: Henri Wallon. j A I / J o:'.gmentar o devir em períodos estáticos.. os alimentos de que precisa..Q1n.:Jr.qy. Refiro-me a leituras complementaxes '.f( . na base das suas observações) que a criança é um ser social g~jCf!~1!J. /..'pcssoas que a. de nada realçar mediante o emprego de itálicos ou por qualquer outra forma.r.:.. um método e uma direcção da investigação em psicologia.:ã)' há mais de quarenta anos..•• \.c!~!!teem ~'ários ar!iggs o seu método c~~n4.."""'~ é o de não fra..~ ' . le. Pode também ajudar-nos a compreender o súbito entusiasmo dos nossos contemporâneos pelos problemas do «Corpo» e a desmi8tificar este entusiasmo.' ''I!. mostram-nos Wallon como um precursor..fixa de Uma v~.1 . I r . Ora WãZlon-ãfirrrui7.a.a~~ism~..nálise das emoções originais) isto é) afinal de contas.r J as di/e-):' ..iQa'!1lçnt(:[< Mas o que falta às teorias anglo-saxódcas da afeição é uma apreciação mais exacta do papel da emoção para a compreensão deste processo.QS e.ritº=!b~ ? . rodeiam) corresponde a uma necesSidade inata. 'u.. .<do~Js.Je. possível. de Wallon não é ambivalente ou ambíguo.io~.o "":..c.z. Para Wallon.' I -' -'\ . '.Qtor. do-se de estádios) hoje em dia contestáveis) o princípio que subsiste é o de apreender a evolução da criança na sua ril.~.. ::t~n~~siste~" como' por exemplo a sua 1J.' _.. No entanto) ao passo que Freud apela para uma roetopsicoloqia..'.... -Ó. Assím) mesmo nos modos de expressão tipográfica) velava por que o pensamento jamais se congelasse em palavras) numa categorização intelectual sempre rejormâvel.l??'l. Estes esboços também são mais convenientes do que uma exposição didáctica das maneiras de pensar e de escrever róprias de Wallon..'X 12 ~'t 11 18 . Com este processo) dizia) você limita a liberdade do leitor e .. As actualidades da psicologia) em 1975) confirmam a actualidade de Wallon. ~~ .~ rentes realizações da vida psíquica. N a sua obra existem) sem dúvida).Ji fi. ~ ".m9J 1935) e ifefiniu eX1!:ligjJ. < •••• . primeira infância e. .f!:~ .' \ '': )0' .•."1 .1. Acima de tudo) o que Wallon nos ensina ~ a viJlilâncifLÇ!lJIka oespi... nomeadamente) as recentes descobertas sobre 08 proceseos afectiooe. tal como para Freuâ. . . . . e a direcção que propõe para resolcê-ta.If'.:i'~'. '~>' 1 .! C não a uma diversidade de interpretações) pois o pensamento '.es.c}Cl§.. A retomada dos trabalhos sobre a.().• . '- o:. a questão principal é a passagem do biológico ao psíquico. Mas trata-se sobretudo das sínteses reta..Çty~~~ ~ à mi!~L atrarvés . Tratando-se dos tipos psicomotores.

..~r':1 No entanto.~'tlt.&.icscrece Wallon) 8Ó podem nascer e especificar-se através do seu ~C~.'. Mas Wallon considera que as belas declarações não resol»em nada: a ciência não se deduz do :marxismo) é o marxismo -I.. o homem..pelo menos-neste -a~to) as obras de ambos são complementares e não adversas.\1'S ['..-'~.'l meses antes da morte de Wallon) é de um interesse excepcional: Piaget declara com muita clareza que acaba finalmente de compreender o contributo fundamental de Wallon a uma tC1lLÍfJ.'".a. «As leis do pensamento) ~". A súbita aceleração das irnsjormações da sociedaâe. quer seja física ou mental._------_. O màterialismo. em meados do século passado."'.JII-511~ a revolução darwiniana que substitui a eternidade do homem pela ideu: da sua qénese. . pensamento. Jipnúncia e reCU8..!!. que comportam contradições internas) conflitos) e que estas c.r'Ii'1 'I' . r'_ ['r" C?rpgrecer.eus adversários e mesmo no de muitos dos seus partidários ~Q.\9f razões das coisas) humanas e materiais. I' 1:'" .o univer80».. n. E também. u "0. a revelação~lL01Jtlitos sQCiqi§.aJ Na realidade..§!!11c-: ~C razão forma-se e transforma-se pelas J-.} /L...§Idadeir9_rn:ar.---------"'\.aderrQ~91ggÍ1! v.iqplggia.Q. ~(jo do ~omem não é absol~ta. Wallon assim o exprime) claramente) em conclusão da frase acima citada: «Fazer estas constaiações não é dar uma solução . . u'nUL-ideQwg}.a. a psicologia) a mais difícil das ciências) pois que é nela que as ilusões da subjectividade encontram o seu último refúgio) pela insatisfação e pela impaciência que nos faz earperimeniar.l r- .. Tanto pela sua abertura em relação à experiência inédita das coisas) como pela firmeza do seu método) Wallon foi o Pri:. a natureza.) 1·ez.nament08 reciproao:.AÍ' lincessante ajusttumenio às q. Este texto) publicado em 1962) algun .s mas também do ponto de vista do seu movimento) da sua transformação. os fulgurantes progressos das técnicas 6 das ciências. ' .UWÍ8 se reparte a nossa experiência das coisas e âa vida) em [umâi-lo« cada vez 1naIÍ8 uns nos outros.: Agradecemos a Jean Piaget por nos ter permitido auzir esta homenagem que Wallon recebeu como uma última palavra de amizade e de paz. O leitor encontrará em posfácio uma homenagem de J ean Piaget a Henri Wallon..os processos de df2.JJ.' é uma realidade objectiva que existe [ora e independentemente •da consciência. I REN'S ZAZZO 15 14 .Iderar que a natureza não é uma acumulação acidental de objectos) que nenhum [enomenc pode ser compreendido se for encarado isoladamente) que os [enômenos devem ser considerados não apenas do ponto de vista das suas '(elaçõ~ e dos seus cimdicic. Nesta perspectiva.~qJ!:Z os seus principi3s de acçÍio a partir da ci~cia em i formação) a partir das acçôes empreendidas pelo homem..:tivWa empenha-se em tecer novas relações entre todos os sistemas nos q.\.meiro aJluminar à luz 4Q_'lJ. é a afirmação de que a natureza. é apenas indicar uma direcção».0 espírito dos s.. q~~.!!!I-tradiçõesdão conta.~.. .mente relatW. ~ a todQS QS misticism98) a todas as inuposturas. «a ciência essencialmente f":f>/. aquilo a que se chama marxismo é a emergência.§:~rw. C\ ~" . .' representação e que escapa às suC!:spróprias análises.ear um mal-entendido devido ao fado do marxismo.~ ~_~~~~inh08_da l!§. tratando-se ~~ mais particularmente da psicologia. e)consoante o que for exigido por esta obra de unificação pelo conhecimento c.'{.~ '1 em reformar ou abolir as distinções ou categorias intelectuais do passado que a tal se poderiam opor». Empenha-se então em démonStrar que)... A dialéctica é o método -t que consiste em cons-i~.'!!. da~ . bsolutS!:..QQ. de uma nova idade do .'"..o. actualmente 11..!&. J 'ít!Z.' ~I:"~I) ~'::'Ai' f" "'" . .al. Wallon é a introdução e a ilustração do método marxista em matéria de psicologia. :' Outubro de 1975. paralelamente aos desenvolvimentos da füosofia crítica) tudo converge para uma tomada de consciência das lei« 1ªue regem a sociedade..I I ::j:. nem mesmo é dar um programa preciso de investigação.. h r > ~~in-b'-".Liie_J:cc.

..t~:l!-m. as complexidades. Por conseguinte. para ter a certeza de que não o trairei de algum modo junto de vós. pois ~pondem_~iQ~ ~ ~JQL des.ar:. l·. A minha longa familiaridade com a sua obra.que para o leitor é sempre.. Muito pelo contrário.:.) _. em Wallon..e~ ~~o.'1>.'.-9~~~r~~s._qJ!e fiquem demasiado . ~ f""~ ~~:J C! s . Em Wallon.Q.·(j. mais ou menos.< çU~.e. não há ~s~~ .'::1:.já que as suas aparentes comr lexidades não passam de um ruído de fundo. das COIsas. uma doutrina.. como esta noite.me1Ú.m. . ~.Erejudicados. e até por vezes prestando-lhes um serviço. não há. Estou por demais consciente de quanto há de inabitual na lógica de Wallon. de exprimir. ORIGENS E ACTUALIDADE DO PENSAMENTO DE HENRI WALLON Experimento sempre uma certa ansiedade ao falar de Wallon quando se trata. p.:a. nas suas maneiras de pensar. .Já q® ..I . p seu pe.. e o facto de me ter escolhido ·há mais de vinte anos para lhe suceder na direcção do seu laboratório.D~.. não me tornam a tarefa mais fácil. de desconcertante nos seus esforços. " p( i / f) .uer_resJ?!. a minha longa colaboração com ele..ÇQb~_~.s.litar fielmente na própria natureza :. I 2 ..Q é UID~_i§. riJO/).9.. Existem ~utores que se ~--Bimpliflc. um sistema de segurança e para o autor uma esperança de glória. __ w_ _ __ • _ 1 I 17 .. de um sortilégio verbal.CAPITULO M I i. de expor o essencial do seu pensamento.

Gt?. a «ordem moral» reinava em França. terceira do nome. uma atitude.ª~~: Quanto à atitude que consiste para o psicólogo em se confundir com o seu sujeito.Aj). A república. Wallon tal como foi e Wallon tal como é entre nós.. não passa. evitando a assimilação empobrecedora. Henri Wallon nasceu em 1879.L· dida porWchoelcher] para a abolição da escravatura. car o seu metodo.~~r_!!!!!_ci~l'jllm!~. cc-. mas cuja objectividade se define por uma reorganização contínua da razão em contacto com as coisas. Henri Wallon . ou pelo menos afirmada. em muitos outros autores.I I I b~' . chamava-se Henri Wallon e fora o avô do sábio que hoje home-i .-v'-1.re~~i. o mais incómodo de todos.ª. '---' ~ ..l.. e governada por um monárquico. mas.~é~ª.tQi. .. da nossa razão clássica. Wallon denuncia-a não apenas como uma demissão científica mas também como uma ilusão. este método fundamenta-se na convicção de que_~:t~ ciência nAº~~~~_p~~. Era então presidida por um marechal. . encontramo-Ia praticada.1'&'--'I'. --~'/.gjm:R~1~'~~ o que já não é pouco. r~~'" . Ciência objectiva. bem o sei. na observação de u~a génes~. i I . um ~eJ)P1-' método .~) Este ~2tk- método. Wallon no seu tempo.:.0e uma realidade em VIas de se fazer. Assim. mas antes situando esta obra na sua história. de uma afirmação de ordem muito geral. Entrou na política como secretário da comissao pre~n-i .' ~) Q/ r} 'C'):.. aluno de Michelef f~. . esta dialéctica entre razão e realidade. ". t/Ji"'U-'d'\ vida porque a infância o apaixonava e fOI tambem porque VIa J~~:.:~~I" na análise ~o desenvo~vimento. há um aspecto social e político que prejudicou a sua carreira e que alguns gostariam. MacMahon. a melhor maneira de apli. Não sou daqueles que consideram que se faz necessariamente boa ciência de bons sentimentos. Wallon no nosso tempo.(f' ~-e. _' por proposta de um deputado católico liberal. que este designara p~r. def'ormante. os seus temas fundamentais.<' . 1879.IJUI!'. O que acabo de vos dizer sobre a obra de Wallon. tinha quatro anos.' termo de república fora admitido na Constituição. é uma maneira de abordar as coisas. k~ç _ j' Se consagrou a sua obra ao estudo da criança. propõe-se como objectivo abarcar a realidade J J~l_c~~o ~e!a__ ~~(c.~.{q.': . profundamente heterogénea.a lhe suceder q~a~do aban~on~u a SU~I~~l'~ ~. . . cíêncía do ho. Em 1875.: i".•.·.~!!~~~a~i?~~~~.Wallon ". :"': Gostaria de vos tornar isto sensível. e precursor das obras de amanhã. . de ignorar ou de desculpar como algo puramente contingente e estranho à sua obra científica. a razão deverá aplicar-se a uma m. Wallon não é apenas um psicólogo da criança. • • A·· . foi sem dú~~:(. Ignorâ-lo seria o mesmo que nos condenarmos a não compreender a gênese e o alcance desta obra. :::)[::.era um historiador. Depois da derrota de 70 e do esmagamento da Comuna.mem. pelo menos na experiência.9~l~ .."'<'/ Por um lado.§eJ!5~I!!w~eJ1. por exemplo. vencedor da Comuna de Paris. a forma por que os revelou e IHla qual no-los legou. ainda que a mesma se defina não por uma doutrina.e. decerto tanto em matéria de psicologia como outra qualquer.Jlª.. o conde Victor de Broglie.. uma sensibilidade alimentada no meio familiar desde a mais tenra infância. nageamos. mas por uma forma nova de abordar as coisas da psicologia.e o mais difícil. Contudo. Em Piaget. que é. tratando-se de Wallon. parece-me hoje evidente que a sua sensibilidade pelas coisas sociais. por outro lado. O seu projecto é uma. 'Yallon~J:. Mas ~!~~~_q -. justamente. t:. o . Rejeita com vigor quase idêntico as preten ções de um certo objectivismo. Este deputado: ~. determinando as suas interrogações. situando Wallon tal como ele próprio se situou em relação aos grandes psicólogos que foram seus contemporâneos.1u" . presente.al: por conseguinte.t~Q&. 18 No pensamento de Wallon.c I I 19 ." cátedra.·. não penetrando no pormenor da obra (o que não é possível aqui).. :l de todo o misticismo. foi a mola inicial da sua obra científica.

esforcemo-nos. Hoje em dia. o primeiro texto que conhecemos de Wallon. não será toda a nossa independência ?» A emoção desta apóstrofe aos liceais. . trata-se muito pelo contrário de fundamentar a psicologia na ciência do corpo. é ao ensino militante de Théodule Ribot que deve a sua origem e os seus princípios._ª-() ~~QIQgº de profissão.-. oculta no_cor!:Q.. Na época de Wallon. foi a morte de Victor Hugo. todos os sábados à noite. depois do jantar.~ciª-ªQ..J. anos. pois. da sociedade que trabalha para vocês chega-vos apenas um longínquo rumor e vagos apelos. :.. Henri Wallon tem vinte e quatro . as honras: e porquê. Wallon convida os liceais.])or ver sem ambiguidades guªi~_as :r:elaçõesque '" ". O pai. I Alguns anos mais tarde. do meio generoso em que viveu. Esta dívida socia:l. quando prestava serviço militar.. porque tiveram o privilégio de ir para o liceu. Fez a Escola Normal Superior e é profes:sor efectivo de filosofia desde há um ano.A tradição liberal e republicana estava fortemente ~nraizada na família e Henri Wallon. por Charles BionJeL por Henri Wallon. ('-)Tinha. não será desafiar a . -_. constituem uma opção precisa em circunstâncias históricas bem determinadas.... --" . . A grande tradição médico-filosófica da psicologia francesa.ªQs ( outros homens? --Com este discurso.-:-:--- morte. estamos em 1903.. Mas a sua aprendizagem ainda não terminou.." selha os seus alunos mais brilhantes afazerem estUdOide meÇ!} ~~. Vamos tentar esclarecer as COlS~s. :m Ribot quem acon". à espera da sua recompensa de fim-de-ano e seguros de ter em breve uma situação no mundo.:::' 20 21 .'-_. «Para vocês..'ª_..'---. inaugurada por Pierre Janet. e voltaremos a encontrá-Ia muito mais tarde na interrogação que se encontra no cerne da sua obra científica.. E.~-~ .. não podem manter ligados aos cuidados do vosso corpo e do vosso espírito tantos trabalhadores de todas as espécies . pronunciou perante os alunos do liceu de Bar-Ie . e que vai transformar as perpectivas da psicologia: ~uaL é . que é também um compromisso para si mesmo. ..llOS. Na noite em que Victor Hugo faleceu.. Viver para os outros. apressem-se a proclamá-Ia espontaneamente. Falámos do seu meio familiar.ILar~cer·JlQfLdivQ. edificar a psicologia. à mesa com a família. se isola ela neurologia e opõe uma filosofia do vivido às perspectivas objectivas da ciência. seis anos._~<? egoísmo.._:.a. Os estudos de medicina a que se lança depois da filosofia..!!.I lí P pois. não podem absorver sempre sem restituir. n~J~x~~-ª_ das ~. ilustrada por Georges Dumas. foi a aventura abortada do fogoso general Boulanger.. e isso acontece sobretudo quando este psiquiatra despreza a somátíca. vinha esperá-Io à estação e punha-o ao corrente do processo durante o trajecto para casa.• .. passou toda a sua infância num clima de interesse apaixonado pelas coisas públicas. conduziu os filhos a casa de Hugo e explicou-lhes que o poeta sempre lutara contra os tiranos.. vem dos confins da sua infância. 'e a mais comovente. Em 1885.. a fim de se tornar neuropsiquiatra e psicólogo...ç§~!lll(LnºªJlI!~~. o caso Dreyfus. em França. Conta que uma das suas primeiras recordações. então jovem professor de filosofia. o nosso Henri Wallon.. De. enquanto ainda podem consentir em fazê-Io livremente . digam-me. a interrogar-se sobre os seus pretensos méritos e sobre os seus direitos. sem dúvida. .. no liceu. -Duc..--~ nos-unem aos outros homens ---_.~. o pai leu fragmentos de Os Castigos. para compreender a sua obra. precisamos também de dizer algumas palavras acerca da sua formação intelectual. tinha então Henri Wallon dez l'. Vocês não podem ser o contínuo objecto de tanta solicitude e devotamento. de romper com a metafísica a partir do conhecimento do físico. Compreende-se assim o que terá inspirado esse espantoso discurso de fim de ano que Henri Wallon. no dia seguinte de manhã. é frequente o p~~quia!!.

e já veremos que isso era um profundo erro . Não se trata de um traço anedótico. E Ribot. Ele disse um dia: «A psicologia começou por ser. também ela sob o impulso de Ribot. não pode encerrar-se num sistema e também não numa 'VIsãoeclética ou média das coisas. Mas a sua opção não foi consequência nem dos seus estudos. como base material do psiquismo. uma disposição anterior a qualquer formação universitária. mesmo quando os longos desvios da análise científica e os voos da imaginação afastam necessariamente do quotidiano. por mais elaborada que seja. de todas as esperanças de uma ciência em ruptura total com a tradição metafísica: Ribot dá a conhecer a psicofisica desenvolvida na Alemanha e a psicologia inglesa. principalmente e sobretudo transpõe. perfeitamente compreendidas pelos seus 'contemporâneos. porque razão não está na sua natureza chegar a um sistema.Dumas. os princípios de Claude Bernard que acabava de levantar a interdição do positivismo. desempenhou um consídarâvel papel. ao corpo. Evidentemente. de forma que foi considerado durante longo tempo . senão os únicos.foi-lhe mais ou menos imposto por uma 22 tradição e por uma certa estrutura da Universidade. para mim. ao passo que se desenvolverá em paralelo. Blondel Henri Wallon foi. do mesmo modo que Darwin. A origem é muito mais profunda: uma atitude para com a vida. com sábios como Bourdon. para o plano da psicologia.Ora. De todos estes psicólogos-médicos que citei. uma questão de gosto. pelas razões de agir daqueles que nos rodeiam.Escola Naval Superior. A filosofia e a medicina eram então os meios mais seguros. e que tive a sorte de ter como professores . a obra de Ribot é como que a encruzilhada de todos os ensinamentos. uma sensibilidade fundamental. ° 23 . Acontece-me frequentemente. o contacto com esse quotidiano. Binet. sem dúvida. Henri Piéron. de abolir as fronteiras entre o patológico e o fisiológico. quer se trate da literatura ou da psicologia. «Assim. J anet. de todos eles foi quem consagrou mais atenção. edificar-se sobre a diversidade e as contradições do seu objecto. l!:: uma atitude fundamental que confere à obra de Wallon a sua unidade e a sua tensão. Em Wallon existe sempre. As noções geniais de Claude Bernard não foram. Wallon situa-se nesta corrente e neste combate em que cada um à sua maneira se esforçará por definir o estatuto científico e a especificidade de uma ciência do homem.como o paladino do organicismo. o mais médico de todos na sua prática quotidiana. a marcar a sua obra e que utilizou. a preocupação latente pelo indivíduo na sua totalidade. faculdade de Medicina . ainda hoje. equivocou-se. t. Uma atitude que nos explica em grande parte o motivo por que a psicologia de Wallon é a das diversidades mentais e das contradições. extrair uma palavra duma conversa e registá-la sem saber porquê». é testemunho de uma surpreendente fascinação pelo naturalismo e pela fisiologia onde Claude Bernard. Mas • a nova orientação da época. num extraordinário esforço de assimilação e de antecipação. de restaurar o valor da razão pela análise da noção de facto. /r{< o curso dos seus estudos . para com os outros. deve modelar-se. A ciência do psiquismo. a psicologia não existia como matéria autónoma de ensino. mais reflexão à neurologia. de curiosidade pessoal pelos motivos. tal como Taine o Emílio Zola nos seus domínios respectivos. para chegar ao objectivo que se determinara.orna-se o arauto das ideias darwinianas na sua obra sobre L'hérédíté psychologiqUB. aliás. nas suas relações com os outros. nos seus traços particulares. nem da influência externa de um mestre ou de uma ideologia. a corrente puramente experimentalista. quem dedicou mais importância. Formação determinada pela época. Nesse tempo. no significado dos seus comportamentos. certamente. Meios que virão a orientar.

Uma tal harmonia suporia um ser da natureza que trouxesse em si as virtualidades de adaptação a uma sociedade imutável. num outro plano. Ao nível das interrogações em que a psicologia científica se dirige à filosofia para lhe arrebatar os seus domínios reservados. Um único e mesmo problema. por conseguinte. este texto já nos explica o que levou WalIon a denunciar. Vejamos então como se pode transformar esta famosa antítese indivíduo-sociedade.dos quais. ora se afirma que se harmonizam (graças a não sei que bondade divina). por mais laícas que sejam as doutrinas. Ora. sem dúvida. irredutivelmente. corpo e alma. Em Wallon. mas de um modo de pensamento. aliás divididos entre si. sem referência às con dições orgânicas. Por conseguinte. de um método. Mas não é fácil. também não existe qualquer hiato. em seguida. A fecundidade do método revela-se certamente melhor ao nível da observação minuciosa. A psicologia deve responder-lhe para se afirmar verdadeiramente como ciência. um organismo com as suas leis próprias de desenvolvimento. a tendência a fechar a explicação psicológica sobre si mesma. Existe. Como compreender isto? As noções de harmonia e de hiato pertencem arnbas a uma maneira de pensar metafísica. a criança é modelada pelo seu meio ambiente. Mas o indivíduo não é definível. uma sociedade que pré-existe ao indivíduo 2 que lhe sobreviverá. entre o desenvolvimento da criança e a sociedade. Nem harmonia. sob formulações ou perspectivas variadas: como resolver a questão apresentada pela antítese destes pares de noções-orgânico e social. o que o levou a ser acusado de organicismo. tanto numa observação minuciosa e limitada (a analise de um equilíbrio muscular. que apresenta à partida. nas falsas soluções do espiritualismo ou do misticismo. Não há harmonia pré-estabelecida. e esclarecer estas diversas formas de contradíções umas através das outras. observação e análise tais corno as encontramos nas duas obras fundamentais de Wallon: Les origines du caraciêre (1934) e Les origines de Ia pensée chez l'enfant (1945). Assegurar a especificidade da psicologia por este preço é negar a psicologia. jamais souberam resolver. em princípio eterna. Não existe harmonia pré-estabelecida e. O caminho mais seguro para tentar resolver o problema é o de estudar o homem na sua génese. que as sociedades são diversas e mutáveis. em certos psicólogos. orgânico e psíquico. por ser menos difícil numa exposição tão breve. duas entidades. indivíduo e socie dade. ou as oposições factícias ligadas aos nossos hábitos mentais e verbais. quer se trate de analisar as contradições das teorias entre si. o que o levou a designar o seu laboratório pelo termo de psicobioloqia. não se trata de um jogo dialéctico. optarei por ilustrá-Ia ao nível dos problemas mais gerais. Todas as respostas dadas até então consistem em manter a oposição irredutível dos dois termos ou em reduzir um ao outro. continua aberta a questão que os metafísicos. Negligenciar a realidade corporal é recair. isto é. dois absolutos . a alma e o corpo». ora que se opõem. rigorosa- 24 25 .termo «contradição» surge 'com excepcional frequência nos escritos de Wallon. que todo o homem é o homem de uma certa sociedade. nós sabemos hoje em dia que as civilizações são mortais. No entanto. quer os conflitos respeitantes à natureza das coisas. talvez. as arnbiguidades do pensamento eincrétieo da criança) quer no qus respeita à abordagem dos mais vastos problemas.o indivíduo e a sociedade ou ainda o orgânico e o social . Desde o seu nascimento. o Em todo o caso. separando-a das mas raízes. existe sem dúvida. diz Wallon. nem hiato. Henrí Wallon escrevia em 1958: «Um dos passos mais difíceis de dar para a psicologia é o que deve unir o orgânico e o psíquico. Um método que exerce a todos os níveis.

a nós. da expressão motora . perpetuamente modificável. «esse fantasma de outrem que cada um traz em si» para toda a vida. como é que o sentimento do eu se destaca da simbiose inicial? Bem entendido. a separação não se encontra na natureza do homem. de construção. e que nos serve de intermediário. Isto significa que a oposição indivíduo-sociedade não é de ordem metafísica. E o nosso destino seria então ir à procura da nossa alma.o qus não significa nue todas as crianças que vivem num mesmo meio serão modeladas num mesmo molde . mas porque me parecem. por conseguinte. como é que a representação emerge da emoção e do gesto. por Pierre Janet. não porque os creia redutíveis um ao outro. mais directamente no que nos respeita. foi talhado neste tecido primitivo no qual se desenhou ao mesmo tempo uma imagem complementar. Ela mesma é um facto biológico.cada criança tem a sua tipologia e o seu estilo . interacção entre ambos. inicialmente pura agitação. aliás. de génese que Wallon quer falar: como é que o movimento. . Daí toda uma filosofia de desesperança. ou.mente. não convém recorrer a conjuntos já constituídos como 26 27 . O termo de passagem que Wallon empreg'a pode prestar-se a confusões. psicólogos. no homem.são uma linguagem. sem mesmo o sabermos e tanto mais profundamente. com a sociedade: o eu afirmar-se-á nestes conflitos e nestas oposições. E o nosso eu formou-~e. nem por um nem pela outra. com a sociedade tal como ela é. É da natureza da emoção. li: bem conhecida esta frase de Wallon. É uma harmonia por carência. Sobre esta. em simbiose. É um centro de actividads no qual se realiza 3. que é de ordem histórica e. A imagem tradicional do organismo ''. ultrapassável. de mediação com os outros reais. viradas para outrem. apresenta a vantagem de uma argumentação baseada numa observação mais directa. conduziu (o que não significa que a criança seja maleável e tributável à vontade) . puras descargas. com grupos. Walon inverteu esta perspectiva: nós não nascemos separados. se tornam psíquicos (psíquico no sentido de ligação significativa ao meio ambiente).a que a filogénese. a necessidade de outrem. Não é redutível nem a um nem à outra. errar em busca de outrem. Mas como podem ser tão estreitamente complementares? Não estaremos a voltar à definição tão factícia de harmonia? Wallon faz aqui intervir uma ideia já formulada por Baldwin.consubstanciais. Isto significa.o que não significa que não possam surgir conflitos com outros indivíduos. como é que os gritos e os choros.a maturação do sistema nervoso impõe. de duas entidades. é da natureza do organismo humano. por complementaridade . a história das espécies. portanto. por influência do meio. a noção de indivíduo trazem consigo a ideia de um isolamento inicial. que a solidão. mais precisamente. limites a uma cronologia . tão frequentemente citada: «Jamais pude dissociar o biológico do social. tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica de outro modo que não seja sob a forma das suas relações recíprocas». Vivemoa os nossos primeiros tempos em estreita união com outrem. inscreve-se no orgânico. pode deixar persistir a ilusão de duas realidades distintas. ser social. motrizes. A análise do movimento mostra-nos que nos primeiros tempos da vida os gestos são acima de tudo expressões. Esta sociabilidade não é adquirida no decurso da vida individual. A antítese orgânico-psíquico é iluminada à luz do que dissemos sobre a antítese indivíduo-sociedade. que as primeiras emoções. A bem dizer. uma condição absoluta da sua sobrevivência e do seu desenvolvimento. para descobrir como se constroi 0 psíquismo. mas que aprofunda como nenhum outro psicólogo o fizera antes dele: o social. uma contrapartida do desnudamento inicial da criança ao nascer. é de promoção. ou como se se tratasse de passar de uma a outra região. não nascemos solitários.

pelo menos. mas tal como verdadeiramente se desenrola. As crianças que examina têm de cinco a sete anos. «que deve incitar o pensamento a novos esforços.c~iltes q)elciti r. O livro no qual Wallon analisou as origens do pensamento é. É muito menos conhecido o que Wallon disse acerca. pode ser para a criança «um primeiro modo concreto e pragmático de compreensão». Esta teoria da emoção é elaborada pela observação [dos primeiros pneses de vida e só podia ser obra de um biologista. Ao multiplicar os diálogos com a criança. o mais elaborado de toda a sua obra. ao retomar os seus ditos sob ângulos variados para extrair de cada um deles as suas múltiplas significações. uma confusão: na criança. de forma que. as origens do pensamento discursivo. mas sem que jamais desapareça totalmente um desfasamento de algum modo essencial. ou. O papel que destinou à tonicidade.}un{or . ao passo que Wallon mantém a observação num plano verbal. Wallon interessa-se de forma muito mais ampla pelo pensamento. Os paradoxos da emoção derivam do facto da actividade tónica do organismo concernir tanto ao jogo das atitudes visíveis (expressões do corpo e do rosto) como às funções vis. 28 : 29 ~ ~ :. E digo isto sem estabelecer valor relativo entre as duas obras. Piaget interessa-se pela formação da razão lógica. o fazem a análise ideológica ou estatística. É preciso partir do que é primário na série cronológica dás transformações. um meio de comunicação. Piaget faz reflectir as crianças sobre 'O material. Wallon falou. da inteligência díscursíva. à função postural na emoção e na representação esclarece-nos. o método de Wallon com o de Piaget.cerais. Wallon faz obra de psicólogo. sem dúvida pela primeira vez. todas as contradições em que se embaraça o seu pensa. contradições entre o formallsrno da linguagem e a fluidez dos dados sensíveis. noutras obras. De forma que por intermédio destas atitudes sensíveis se estabelece um laço entre as mais profundas sensibilidades da cri mça e os seus contactos com outrem. Vou dizer algumas palavras a seu respeito para vos incitar a relê-lo ou a lê-Ia. entre o real e a sua representação. contudo. aliás. E. o mais rico. A emoção é um facto fisiológico nas suas componentes humorais e motoras e é também um comportamento social nas suas funções arcaicas de adaptação. É sabido que é a observação da criança da mais tenra Idade. sobre a transformação do fisiológico em psíquico. Wallon coloca-se no plano da descrição psicológica. não é o médico quem fala. adultos. de inteligência das situações. é um faetor de organização. num mesmo domínio. Neste livro.mento: contradições entre a tradição e a sua experiência. Não há dúvida de que a perspectiva genética é a única que nos pode permitir apreender como é que o orgânico se torna psiquismo. Aqui. é preciso estudar a infância. aquela que se esgota completamente nas circunstâncias que utiliza e nos resultados que produz. diz Wallon.: d. em si mesmos contraditórios. o projecto de Wallon consiste em estudar uma «actividade que se discorre». Não se trata de analisar as condições orgânicas ou sociais do comportamento. pelas alternândas de comunhão e de oposição. Trata-se de duas perspectivas. aparece-nos como uma desordem. dos seus movimentos e das suas emoções que conduziu Wallon à sua descoberta fundamental. Aparece-nos como uma obnubilação. a novas sistematizações». As contradições devem ser ultrapassadas para que em níveis sucessivos de dificuldade o pensamento concorde com o real. de dois pontos de vista diferentes. Onde Piaget faz obra de lógica. a representação. se esboçam a consciência de si. Wallon traz à luz do dia os obstáculos com os quais a criança depara. A observação reita sobre a criança prolonga-se numa psicologia geral do pensamento.. Na idade dos cinco-sete anos encontramo-nos no pe-iodo que Piaget designa pela expressão das operações concretas. em resumo. do pensamento não tal como se pode formalizar num tratado de lógica. A nós. Será então que o pensamento surge tão tarde? Não. O interesse suplementar que este livro nos oferece é o de comparar.

Espero que possam reconhecer em que medida são esquemâticos e pobres os meus comentários. a sua curiosidade e a sua simpatia. de criar as coisas». A reacção a respeito de Georges Dumas. Bergson foi o fílóbafo do impulso vital. mas do qual nunca gostou. Aos filósofos existencialistas que se ocupam de psicologia censura o facto de oporem ser e consciência. Wallon estabelece uma ligação entre esta atitude intelectual de Dumas e a sua sociabilidade. Despojadas dos seus impulsos místicos. como. nem pela família dos imaginativos que salvaguardam os benefícios da imaginação. Espero que estes comentários vos ajudem a compreenuer em que consiste a atitude walloniana. sem o aparelho nocional do médico. Mas onde a metafísica. enfim. declarava. Pergunto a mim mesmo se não residirá aí. fantasma combinado dos outros dois (corpo e espirito) que flutuaria entre a consciência e os fundamentos orgânicos da consciência. Mais frequentemente. WalIon disse um dia que os saltos do imaginário são indispensáveis ao psicólogo. nesta investigação sobre as origens do pensamente que se descobre melhor esse esforço sem dispositivos experimentais. é exactamente para elas que somos (orientados pelas necessidades da investigação científica. gostaria de salientar certos aspectos do pensamento de Wallon através dos juízos que formulou sobre alguns dos seus contemporâneos. por reformar ou abolir as distinções ou categorias intelectuais do passado que a t. a sua arte de suscitar. da duração. por fundi-Ios cada vez mais uns nos outros e. Quer estas censuras sejam fundadas quer não. Com Bergson. «O resíduo que pode resultar das suas especulações. O tempe- 31 . o jogo por vezes atordoante das suas hipóteses. seu amigo. cpõe ser e consciência. consoante o venha a exigir esta obra de unificação pelo conhecimento. uma elas razões do isolamento de Wallon. censura-lhe ainda reconduzir tudo ao passado do indivíduo e aos prelúdios da civilização. o segundo é verificar a legitimidade das suas imaginações pela comparação rigorosa com o objecto em questão». pretende Wallon. parece-me. aliás. Para terminar. «Aquele que se proíbe imaginar não descobre nada. de . a ciência essencialmente relativista esforça-se por tecer novas relações entre os sistemas pelos quais se reparte a nossa experiência das coisas e da vida. da sua imaginação. nessa dupla exigência de rigor e de risco. censura-lhe o facto de ter criado um novo termo metafísico. em última análise. Em resumo. limita-se a acrescentar algumas migalhas de erva ao relvado» e concluia: «Imaginar é o primeiro dever. Wallon reconhece-lhe o mérito de ter reje\t ado a noção de consciência como princípio explicativo. o inconsciente. Negar todo o verdadeiro devir. como que uma necessidade de reconhecer em outrem todas as conformidades possíveis. mas 30 I i censura-lhe a futilidade de imaginar um terceiro termo. diz ele. Ela não pode ser adoptado vela família dos verificadores sem imaginação. Wallon censura a Bergson ter mistificado a noção de duração. é que Wallon encontra em todos estes autores as suas próprias preocupações. Sobre Freud. Wallon censura-lhe que pratique o método eclético. apaixonada pelo absoluto e pela imobilidade.al se poderiam opor». mais velho do que ele. sobre Bergson. o que se deduz. por apagar as contradições na descrição dos factos. rejeitando toda a verificação. ao matemático e ao físico.imaginação e de verificação. que foi seu professor na Escola Normal.:ro. Em primeiro lugar. G. Havia em Dumas. Que se esforce por conciliar todas as divergências na diversidade dos autores. isto é. de escutar um dito. Dumas nada tem de místico. talvez. «o devir apareceu como existente em si e como que dotado do poder de se criar a si mesmo. são precisamente essas noções de devir criador e de participação em conjuntos onde o homem deveria encontrar as suas razões de existir. que se descobre melhor a primitiva vocação de WalIon. é de ordem completamente diferente.

O corpo volta a estar na moda. as suas linguagens anteriores à palavra e à razão. De há dez anos para cá. nos Estados Unidos. totalmente diverso. Foge do mundo e das honras. espanhol. Mais de dez anos . foi exactamente a 1 de Dezembro de 1962. publica-se nos USA uma tradução de textos fundamentais de Wallon. juntamente com Langevin. as descobertas que fez e que ilustram a fecundidade desta atitude. bem entendido. (') No momento em que aparece esta obra. a sua ambição consistia apenas em indicar uma direcção. Actualmente. IX Quem é Wallonf) Há também. Aguardemos. Outra forma de sobrevivência: dezenas de grupos escolares e de instituições pedagógicas ou médico-psicológicas têm o seu nome. Deforma muito mais séria. :m também. Será nessa direcção que se orienta a psicologia de hoje? Verifica-se. das suas contradições. Não procura as conformidades. Todo ele é emoção nas suas relações com outrem. psicanalistas na sua maioria. E é talvez isso que nos pode explicar o motivo por que foi o teórico da emoção. há uma dezena de professores que foram seus alunos. Não pretendo afirmar que esse laboratório constitua uma escola walloniana no sentido em que Genebra constitui uma escola piagetiana. os projectos de uma reforma igualitária do ensino.ramento de Wallon é. Wallon não pertence a ninguém. a nossa Introdução a esta compilação (cap. paradoxalmente. Recentemente. a maioria das suas obras. que essa vinculação resulta de uma necessidade biológica fundamental. húngaro. com as suas profundas sensibilidades. Temo que este corpo que nos servem muito quente. Depois do Inconsciente. nas nossas Universidades. E estas descobertas pertencem doravante ao património da psicologia. Aludo aqui à proliferação de trabalhos a que se assiste desde há dez anos em Inglaterra. as suas obras. das suas flutuações onde se operam a ruptura e a comunicação com outrem. evidentemente. não mundano. compraz-se em assinalar as diferenças. eis o corpo. um neuropsiquiatra. ~ desprovido daquela sociabilidade que admira e deplora em Dumas. Não há qualquer dúvida de que a sua influência tem aumentado nestes dez anos decorridos desde que nos abandonou. D. parece-me que a direcção walloniàna é descoberta. Tal como bem acentuei. uma reabilitação do corpo. Não há sistema. não sociável. na Sociedade Francesa de Psicologia) três homens que não foram seus alunos e que não se dizem wallonianos afirmaram-nos como o tinham descoberto ou encontrado em caminhos muito diferentes: um psicanalista. Jacques Paíllard. Os autores. Isso compraz-me e inquieta-me. nos países de língua inglesa que ignoraram quase totalmente a obra de Wallon. metade das quais o não conheceram. um novo absoluto em função do qual tudo se explica. Em França. russo. 11: generoso.. Bergês e o mais eminente dos nossos psico-fisiologistas.. Widlõcher. polaco. dos seus paradoxos. bem entendido. é de forma bem diferente do que a da fidelidade :a uma ortodoxia. Em França e no estrangeiro têm-lhe consagrado teses e livros (1). seja um corpo místico. a que ele tinha horror. mais do que em qualquer outro lado sem dúvida. evidenciaram que a vinculação da criança à mãe não é o resultado de uma aprendizagem. E. desde há certo tempo. de que a revisão que empreendera mal começam. Wallon é uma maneira de abordar as coisas. nomeadamente nas municipalidades operárias.. e disse-o 'com excessiva modéstia. têm sido traduzidas para italiano. mas afastados da metapsicologia freudiana. o laboratório que ele criou e onde trabalha actualmente uma vintena de pessoas. :m a homenagem do povo àquele que simboliza. e que conduziu à teoria da vinculação (attachement). depois do' absoluto da relação com outrem. Cf. até oposto. 32 3 33 . as suas ideias têm-se propagado. não há escola. Mas ele tinha a consciência. se nós lhe somos fiéis.

que o psíquico não se poderia reduzir ao orgânico nem explicar-se sem este. isto é. e com largueza. simultaneamente. Dissera aos seus jovens alunos: «Viver para 06 outros. descubram finalmente Wallon e beneficiem das sugestões que podem encontrar na sua obra. e. quando a doença já o prendera à sua poltrona. uma das últimas que escreveu.. uma recusa da metafísica e do positivismo. sobreviveu à sua morte física. às origens do psiquismo». todos os processos que estão em jogo na afeição. que não se devem «repelir como extracientíficos os problemas relativos à natureza. (') Cf. Novembro de 1958. e que René Spitz se inspirou 'na obra de Wallon. Desafiou e venceu essa morte. Hoje em dia. Num dos seus últimos textos. (') «Fundamentos metafís1cos ou fundamentos díaléctícos da psicologia». Desejo que os autores anglo-saxões. é desafiar a morte 'Oculta no coração do egoísmo». na sua teoria da emoção. em suma. ele está presente em toda a parte. Este texto é como que um eco do discurso que pronunciou no início da sua carreira. Iniciador desconhecido ou precursor. aquilo que chamava a dívida social dos privilegiados. a convicção de que do orgânico ao psíquico trata-se de uma verdadeira génese. Respeitou este compromisso. 1963. Wallon falou da morte e da sobrevivência. também poderia ser de Freud. no mais profundo das suas obras. ao mesmo tempo que nas teorias freudianas. Pagou. Wallon sugeriu muito mais. ~ neste sentido que me empenho actualmente. La NouveUe Critique. Mais que nunca está presente. reproduzido em Enfance. «Um dos passos mais difíceis de dar para a psicologia é o que deve unir o orgânico e o psíquico. O objectivo doa dois autores é o mesmo. encontra-se tanto num como noutro tudo quanto esta pequena frase implica: que a solução pertence à ciência. ~ na medida em que o indivíduo tenta libertar-se a si mesmo e o consegue que pode sobreviver à sua morte física». deveria começar por analisar a forma pela qual cada um deles formulou a antiga questão das relações do corpo e da alma. Com efeito. a alma e o corpo» (1). Quando se sabe que o homem que mais contribuíu para desencadear este movimento de pesquisas e esta subversão da psicanálise clássica é René Spitz. (Delachaux. L'Attachement clarações de Spltz a este respeito. cito p. Freud e Wallon. CAPlTULO II DO CORPO À ALMA: AS RESPOSTAS DE WALLON E DE FREUD Se alguém se lembrasse um dia de comparar. 1.I I Estes autores esforçam-se então por analisar com extrema finura todos os determinantes. de que aquilo que nos oferece actualmente a teoria da afectividade. creio. na obra colectiva. somos levados a perguntar-nos se não se tratará de um inesperado renascimento(2). e igualmente forte a sua determinação de abandonar os caminhos já explorados. Antes de nos abandonar repete pela última vez: «A sociedade está na natureza do homem. também. as de- 34 35 . 1974). pois fora da sociedade um homem não poderia manifestar as suas vlrtualidades de homem. Esta frase de Wallon. sensibilizados pelas suas próprias pesquisas. 105. De acordo com a única forma que podia admitir.

que para mim nada tem de pejorativo. e eu pergunto-me. . e isso é também válido em ciência. Tal tradução seria um regresso à «lógica» que me empenho em denunciar. não pode haver tradução para uma linguagem «clara» daquilo que eu digo. no direito de ser seu intérprete.revolução porque as coisas vão mal não é o mesmo que fazê-Ia: «não -é dar a solução». tanto como as necessidades de racionalidade. diz ainda -Wallon. Nesse sentido. opôs-se com veemência. emergir novas noções sempre sujeitas a revisão. Do ponto de vista da razão clássica. tal como Freud. nin novos métodos. ao nível mais elevado das transformações da natureza. Não pode haver mediação entre eles e eu. Mas quem não arrisca não petisca. A este respeito. fazem-na manifestar-se no seu domínio. recordo um incidente bastante significativo.. é. Wallon. o rigor de um sistema que tem uma resposta para tudo com apenas o mínimo necessário de margem de sombra. um hiato da nossa razão). Contudo. de forma que os impulsos místicos aí encontrem alimento. Uma certa vantagem de Wallon sobre Freud é talvez. e numa ciência incerta mais do que em qualquer outra. 1934. cito p. que lhes explicasse o seu curso. o escândalo walloniano não 3'1 36 . paradoxalmente. e onde queremos descobrir uma passagem. tal como Freud. disse-me. a -mesma enfermidade da razão que deixa assim o campo livre às múltiplas elucubrações do misticismo. para «reformar ou abolir as distinções ou categorias intelectuais do passado que poderiam opor-se» à obra do conhecimento. não é para renegar a razão. mais do que há trinta anos. quando a mudança é passagem: a passagem fundamental do orgânico ao psíquico. e o tabu que proíbe _ corno insensata toda a pesquisa das origens traduzem mesmo medo. será em todo o caso um salto da natureza ou. tal como é actualmente constituída. evidentemente. Wallon. :€ certo que proclamar a necessidade de uma. o contributo de uma psícoterapia. de compreender a mudança e. «nem mesmo é dar um programa preciso de investigações. se aquilo que percebemos como solução de continuidade. toda a novidade na sua causa. experimenta profundamente a insatisfação que leva tantos espíritos a refugiarem-sano misticismo. alguns dos seus alunos vieram ter comigo para me pedirem que lhes «repetisse».Embora não me sinta hoje. Herdeiros. XI.Se o passo de que fala Wallon é tão difícil de dar. a diferença de audiência entre Wallon e Freud deriva de uma diferença de interpretatividade. creio. inventar-se novos processos sempre revogáveis. Wallon e Freud são cientistas. a quem transmiti este pedido. No primeiro ano em que Wallon ensinou no Colégio de França. como ruptura. (E podemos perguntar-nos. era eu seu assistente. transferem-na. porque a nossa razão. o facto de não ter conhecido o êxito das multidões que multiplica infinitamente os riscos.não ter congregado milhares de discípulos e de cortesãos prontos a traí-lo ou a vendê-10. ambos. reeditado por P. U. da vida ao pensamento. A dificuldade das investigações. Bolvín. independentemente do que Wallon possa ter dito. trata-se apenas de indicar uma direcção» (2). Mais profundamente. A tendência habitual da razão consiste em escamotear a passagem ou considerá-Ia impossível. em que se devem defi- o (') Le8 Origines dn Ca?'actere chez l'enfant. interrogo-me sobre a forma pela qual as suas respostas se distinguem das de Freud e sobre as razões de uma audiência ainda tão restrita. Razões bem evidentes do êxito de Freud: o escândalo do sexo. por vezes. com uma impressão perpétua de risco. é . O reducionismo que aniquila todo o efeito. F. mas também do orgânico ao vivo. uma ideologia à medida das contestações do nosso tempo.para reexaminá-la. muito provavelmente. desconcertante na obra de Wallon. contraditório. da revoluçãodarwiníana. apreendemo-la por tudo quanto pode parecer à primeira vista laborioso. se mostra mais ou menos paralítica quando se trata de seguir. em resumo. comparada com a popularidade da psicanálise. isto é.

1. ora como uma actividade útil ora como uma reacção de desordem. por conseguinte. nenhuma instância que sirva de mediador. a dinâmica encontra-se como que no estado puro. aliás. Scientia. Lapicque considera apenas as manifestações motoras da emoção e. sempre inacabada. nenhuma armadura em que ele possa buscar o apoio. facilmente ímagínáveís. O desacordo das doutrinas pode exprimir numa primeira aproxi- (') «0 orgânico e o social no homem». a contradição entre as doutrinas provem de facto de cada uma delas só ver um aspecto das coisas. Entre o corpo e a psique. para opô-Ias uma à outra. 64. Deve começar-se por pôr em dúvida a lógica unilinear dos processos e das funções. todos os processos psieobiológicos fundamentais são abordados a partir de uma busca da sua bipolaridade. Ela é «aquilo que solda o indivíduo à vida social pelo que aí pode haver de mais fundamental na sua vida biológica» (3). ~ na sua obra de 1925 que Wallon inaugura o método repetidas vezes demonstrado mais tarde. como prelúdio da linguagem. mesmo a título de metáfora. as teses de Lapicque e de Cannon. cito p. Um tal sistema é sem dúvida dinâmico. O carácter equívoco da emoção que a fez considerar. não basta operar a síntese de duas concepções opostas para se chegar à verdade e. o Socius. nada existe de comparável aos tópicos de Freud.com uma pesquisa de noções e de imagens. ou como é o seu substrato. Para tentar explicar como o orgânico se torna psiquismo. 1925. considera o córtex cerebral como o ponto de partida desta última. Cannon parte das manifestações viscerais e converte assim a emoção numa actividade puramente vegetativa e bioquímica. aliás. Evidentemente. Está em primeiro lugar. com efeito. como condição do carácter e da representação. Da sua tese de 1925 (4) aos seus últimos artigos. evidentemente. A criança nasce para a vida psíquica pela emoção. está também em primeiro lugar na génese psicobiológica do ser humano. ~ pela emoção que se aprende melhor a indistinção primitiva do orgânico e do psíquico e em seguida a passagem de um ao outro. cronologicamente. Com frequência. Toda a sua análise incide sobre processos. (') L'Enfant turb1tlent. Expõe. reproduzido em Enfance. 39 . a motricidade. A emoção reveste-se na obra de Wallon de uma importância (senão de uma função) comparável à do libido na obra de Freud. Abril de 1973. nas suas condições fisiológicas. durante mais de trinta anos. a imitação. Em Wallon. com um escândalo de «boa vida e costumes». segundo as teorias. da sua ambivalência funcional. mas os conflitos desenvolvem-se entre sistemas claramente definidos. só tardiamente aparecerá de forma explícita na obra escrita de Wallon) . Wallon aprofundará a sua análise da emoção. sobretudo. A contradição deve ser procurada na própria realidade. E é quando ataca o problema da emo38 ção que Wallon logo se coloca no cerne das contradições. pondo de parte a noção de socius (a qual. de forma que é difícil saber quais são para ele a parte do reaf e a das metáforas. 1963. na sua elaboração teórica. Há em Freud o gosto pelo sistema. mas é muito menos facilmente susceptível de ser traduzido ou traído em linguagem «clara». a tendência para especializar as peças do aparelho psicobiológico . afirma o seu projecto revolucionário. Assim. deriva em primeiro lugar da diversidade dos centros nervosos de que depende. Wallon.'" é menor que o escândalo freudiano. parte de quatro noções para ele estreitamente solidárias: a emoção. para apreender a realidade nos seus íntimos mecanismos. nenhum lugar onde a imaginação do leitor possa descansar. Alcan. Em Wallon. tanto nas origens do pensamento humano como na ontogénese. e não se identifica. sem dúvida que as contradições irredutíveis à razão clássica subsistem. define o seu método dialéctico.

A emoção será a matéria dos sentimentos electivos. 1. os subentendidos e subtiliza. Lembra que existem no sistema cérebro-espinal centros sobrepostos.. A análise assim conduzida revela. Sciential Abril de 1953. Mas é também um prelúdio da representação. evidentemente. 40 41 . a função inicial da emoção é a comunhão com outrem. lj'. ao contrário do raptu» unânime que é uma emoção autêntica (8). e em primeiro lugar. emoção.mação uma real contradição das coisas. para além desta indiferenciação primitiva. Convém não esquecer esta bipolaridade fisiológica da emoção para compreender o que são as contradições e as diferenciações funcionais do desenvolvimento. reproduzido em Enfance. confusão. é puramente mítica. 136. Particularmente favorável ao estabelecimento de reflexos condicionados. afirma. multiplica os matizes. por outro lado.. por exemplo) em potência na maturação das estruturas nervosas. à «emoção cabe o papel de unir os indivíduos entre si pelas suas reacções mais orgânicas e mais íntimas. devendo esta confusão ter por consequência ulterior as oposições e os desdobramentos de onde poderão surgir gradualmente as estruturas da consciência» (6).. que criem tudo a partir do nada. Assim. as cumplicidades tácitas. meio de comunicação. desenvolve. Colin. (') (') L'Jl:volution psychologique de l'enfant. mas uma bipolaridade à qual Wallon volta repetidas vezes. A motivação psí cológica do grito ao nascer. p. não uma oposição radical. L'Jl:volution psychologique de l'enfant. p. pressentimento ou lamento. p. por maturação. carregam de significado. depois fá-Ias encontrar-se. diz ele. que. Mas infiltram. 128. sensibilidade sincrética.. (') «o orgânico e o social no homem». com as reacções do meio e graças a elas. finalmente. que. um carácter equívoco» (11). demasiado grosseira para fornecer algo mais do que uma orientação geral. numa idade em que é impossível qualquer deliberação. 136. Contudo. p. as emoções determinam uma evolução que tende à sua própria redução. 1963. clarificando. entre a actividade cortical e as reacções vegetativas. as manifestações viscerais supõem uma organização de uma grande complexidade. 1936. Com efeito. contágio. as influências afectivas do meio têm uma acção decisiva sobre a criança. abre-se um arco demasiado amplo. conduz. 64. «desde que a mímica se torna linguagem e convenção. período de pura impulsívidade. mais especialmente entre movimento e sensibilidade (7). aproximar-se mais de um ou de outro polo. Wallon retoma então o conjunto dos dados fisiológicos. verdadeiramente. a aproximação é demasiado esquemática. A. René Spitz utilizou explicitamente a teoria de Wallon com o qual manteve relações durante muito tempo. O social captou o fisiológico para tornâ-lo psíquico. move-se entre duas espécies de centros nervosos. Neste estádio elementar não há distinção no espasmo entre sinal e causa. os da vida vegetativa no cérebro central e aqueles que correspondem à parte frontal dos hemisférios cerebrais. O que não significa. Entre os dois princípios explicativos. mais ou menos submetidos ao córtex. mas que fornecem também energia e coordenação à vida de relação. Na sua análise da carência precoce dos cuidados maternais. como é o caso aqui. o grito se diferencia como meio de expressão e se torna. No entanto. cujo papel é devolvido ao sistema autónomo. os movimentos. Deste modo. que estes dois sistemas não são totalmente independentes um do outro. à formação de complexos irredutíveis a qualquer raciocínio. mas é também. Pode. «A emoção. consoante as circunstâncias. à medida que aparecem. as reacções (o sorriso. Nas primeiras semanas de vida não há. cada uma das duas concepções. mas o seu antagonismo também lhe pode dar . no sentido em que Wallon a sntende. (6) L'Jl:volution psychologique de l'anfant. Mas.

que exprime a sua agitação. é manipulado por outrem. :m depois da sua dupla crítica das concepções de Lapicque e de Cannon sobre a emoção. Além disso. apenas esboçada em 1925. que por um lado se relacionam com a acomodação perceptíva. J. 1. 1946. a sua estabilidade. 130.Tudo quanto acabo de expor ficaria praticamente incompreensível se a noção de movimento não estivesse constantemente subjacente à de emoção. ob.} p. Bnfance. das atitudes. 236. Constitui. Espasmo intestinal ou orgasmo. todas as emoções correspondem. 235. não sendo os. 29Y1Jt. cito p. a variações do tónus tanto periférico como visceral (12). o movimento. «Os primeiros gestos que lhe são úteis são. Mas o que Wallon sublinha é a função até então desconhecida das posturas. Trata-se. que Wallon chega. regular a justa adaptação do gesto ao seu objecto. por outro com a vida afectiva. 1959. 42 43 . (\O) «o papel do ontro na consciência do eu». p. nem ter qualquer eficácia. para o fisiologista. manipulação. gritos e lágrimas. dar ao gesto a sua agilidade. 281. do início do estádio emocional. pela sua própria natureza. Com efeito. a trave-mestra da psicologia walloniana. mais amplamente a tonicidade. um significado psicológico. É o período que Wallon designa como de impulsividade pura. Wallon confere. Na criança que ainda não fala. a definir a emoção como reacção ou expressão afectivo-tónica. na idade de dois ou três meses. e a intervenção do meio. é acompanhar o movimento. Emoção e função postural são associadas por WaUon desde a sua primeira obra consagrada (sob o titulo de l'Enfant turbuleni) às anomalias do desenvolvimento motor e mental. Variações essas que dependem todas da inervação do simpático. relação com o mundo externo: locomoção. 1959. será abundantemente desenvolvida alguns anos mais tarde no seu curso na Sorbonne publicado em 1933 sob o título de Origines du caraciêre chez l'enfan. existe parentesco ou filiação através das funções primordiais do tónus e do equilíbrio. Efectivamente. assim. espasmos. 3. Ã distinção estabelecida desde há muito pelos fisiologistas entre função cinética ou clónica e função tônica. A tonicidade é. estabelece-se progressivamente uma ligação entre as necessidades da criança. gestos de expressão. O que. a sua finura. cit. (') «Importância do movimento no desenvolvimento psicológico da criança». como deveis estar lembrados. expressão) meio expressivo de si mesmo e de relação com outrem. Entre as reacções musculares víscerais e as mímicas do rosto e do corpo. e retomada em numerosos artigos. reproduzido no número especial Enfance. A actividade de ordem cinética. cito p. (") U2volution P8Ychologiq1te de l'enfant. o movimento propriamente dito. No recém-nascido entrelaçam-se sem poder ainda coordenar-se. especificamente. muito naturalmente. preensão. no primado do córtex cerebral e no das reacções viscerais. parece-me. Esta teoria. contém em potência as diferentes direcções que a vida psíquica tomará ulteriormente. constitui sobretudo a função evidente do tónus. baseadas respectivamente. Entre as diferentes formas ou funções da motilidade. 3. (11) «Importância do movimento no desenvolvimento psicológico da criança». reproduzido em Enfance. nas emergências do desenvolvimento. seus actos ainda susceptíveis de nada lhe fornecer directamente das coisas mais indispensáveis» (11). cada uma à sua maneira. 2. a que concerne directamente à expressão emocional é a função postural. bruscas distensões musculares e reacções tónicas. «o movimento é tudo quanto pode testemunhar a vida psíquica e tradu-Ia inteiramente» (9).. e é nos movimentos de outrem que as suas primeiras atitudes tomam forma» (10). «Incapaz de efectuar seja o que for por si mesmo. Psych. 1956. é principalmente acção.

levado tanto quanto possível aos seus determinantes neuro-fisiológicos ou lesionais. fazer corresponder a diversidade que se observa entre os indivíduos a condições precisas e alicerçar sobre estas eondições a sua distribuição em grupos mais ou menos.choques e das circunstâncias imprevisíveis. claramente diferenciados (15). a mais subtil atitude de simulação só podem funcionar em referência à verdade primária da emoção. :m a. em Sheldon. Permite também. sobretudo.por mais que nos afastemos das fontes orgânicas. o movimento. «Pois. tornam qualquer dedução impossível» (16). linguagem dos olhos e das mãos. 1959. :m pela sua motricidade. Levanta-se então um outro problema. Assim se esboça. em biologia. que o corpo se torna psique. 240-241. o movimento pode fundamentar também uma psicologia tipológica ou diferencial. com tanta profundidade. pela sua tonicidade. uma ciência do indivíduo.orgânicas. ao clínico e ao investigador. 1959. observável tanto no animal como na críança muito jovem. não é um traço de união. fica por explicar uma outra grande passagem: como é que. p.ticada. no decurso da infância. será sempre possível o maremoto emocional. 3. 44 45 . de inteligência-das situações. atitudes e posturas. Psychol. atolado no aeto sensitivo-motor. <. sob o ângulo cognitivo. uma estrutura imutável. Médic. Assim. o dos . Ê o próprio acto. Mas este psíquico acabado de emergir das reacções . a sua exacta coordenação pressupõem «uma soma de regras que podem não ser as mesmas de um para outro sujeito» (14). emoção etcteriorizada. I. p. 241.risos e sorrisos. fórmu- Ias em que o indivíduo Se caracteriza pelas inevitáveis irregularidades do tónus e. A convenção mais sofis. Por conseguinte. 241. Princípio de genética geral. 4. por exemplo. Enfance. p. se a importância do tipo psicomotor é. intonações da voz. e quando as condições de maturação a 10rnam possível. manifesta em todo o comportamento.<8indromasde insuficiência psicomotora e tipos pstcomotores». pelas suas funções posturais. também a descrição do sindroma de «A instabilidade posturo-psrquíca na criança». reproduzido (H) Ibid. a transmutação do orgânico no psíquico opera-se graças à marca social. tal não significa que se possa concluir que seja possível deduzir tal comportamento a partir de tal tipo. jamais serão rompidas as afinidades e as filiações. (")' Ibid'l p. 1963. 3. cito (") Ann.) p. é aquilo que Wallon designou. por conseguinte. tanto no seu aspecto cinético como na sua função tónica. e. do sindroma ao tipo.. ob. à dupla natureza da emoção. 242. no decurso do seu segundo ano. permanece prisioneiro do presente. 1932. Os tipos descritos por Wallon e que ele designa como psicomotores são essencialmente compleições afectivo-tónicas. Wallon é alérgico a tudo quanto possa parecer uma fixidez. a criança dá o passo decisivo que a leva da inteligência' das situações à representação. mímicas do rosto e do corpo.<8indromas·deinsuficiência psícomotora e tipos psícomotores». pelo estilo dos seus actos e das suas relações com outrem. Esta tipologia é totalmente estranha às antigas noções de morfologia e de temperamento tais como as encontramos ainda actualmente. assim como pelos seus modos de sensibilidade. Enfance. 251. são as confusões e os efeitos da emoção. o número de factores em jogo. e por maioria de razão em psicologia. O estudo das diferenças individuais. em Enfance. um simples mecanismo de execução entre as condições externas e as condições subjectivas de um acto ou de uma atitude. o jogo complexo das funções motoras. pela passagem do patológico ao normal. do acto ao pensamento? (lC) <. é um método de análise. Com efeito. p. cr. «Pertence à estrutura da vida psíquica» (13). 163-171. Além disso. e uma tal pessoa em vez de outra. Sob o ângulo afeetivo. a seu ver.

«A imitação concretizou-se. reforçada pela percepção doe desacordos com o modelo imitado. pp. que da actividade sobre si mesmo ou postural «que tem por meios e por objectivos as próprias atitudes do sujeito» (18).generalizando o seu significado. São. (19)' Wallon indica que. As duas tendências. 162-164. ("') De l'aote à la pensée. Mas sentira-se tocado e interessado por esta tentativa de reconciliação de Jean Piaget. dá progressivamente à criança o sentimento. eclipsar-se mutuamente. considerada isoladamente. acomodação às atitudes de outrem. como um dinamismo produtor. continua a subsistir a inteligência das situações. p. masque em seguida se destacou para se tornar representação pura» (20). M. 1942. prepara-se uma espécie de viragem. trata-se menos de movimento orientado para o mundo físico. Não há dúvida de que este recurso à imitação não contém em si mesmo nada de original. Wallon viria a morrer alguns meses depois da publicação do artigo de Piaget. diz. aJ imitação é actividade plástica. Assim. e mesmo a oposição. não é sem dúvida o contributo mais pessoal de Wallon. em outrem. Mas o gesto. para objectivos externos. reinterpreta o drama que Freud simbolizou pelo complexo de llXlipo. M. a imitação na criança é electiva e muito ambivalente: absorver o objecto amado e. ser absorvido por ele. e em estreita ligação com as suas análises preliminares da emoção e da motricidade (17). :É pela imitação que Wallon dá conta desta passagem. que é. Ao mesmo tempo. de contágio. inicia-se uma diferenciação. Da confusão vai sair o seu contrário: a distinção. uma segunda fonte de inteligência. suceder-se. (18) De L'Aote à la Pensée. que vê nela. Flammarion. os gestos em eco aos outros e a si mesmo. A originalidade de Wallon a este respeito deriva da dialéctica que aplica. Encontramo-Io também em Piaget. A imitação é movimento. Deriva de J. o seu tecido primitivo: fenómenos de indução. quer começasse por ser mímetismo quer simples eco. aliás. A partir da análise desta imitação electiva.. contrariamente a Piaget. p. na sua origem. Modifica aquele que o faz. os primeiros murmúrios. contudo.qUe Wallon atribui à linguagem um papel primordial do advento da inteligência representativa. Bald- (1') Ver em posfácio do presente volume o texto de Jean Piaget «0 papel da iniciação na formação da representação». Assim. a partir desta motricidade que começa por se orientar para si mesma. ao mesmo tempo. e desdobramento do acto a executar a partir do modelo. intuição plástica no instante presente. explica-se a formação conjunta do socius e do eu. uma oscilação entre os dois poIos da imitação: alienação de si mesmo no objecto. Nos seus prelúdios e em si mesma. traz consigo a :m sabido razão do seu próprio progresso. distingue-os Wallon da imitação propriamente dita. De l'acte à la pensée. sendo a primeira a sensorimotricidade. Mas o aparecimento da linguagem nada explica sobre o processo da passagem. a consciência ainda obscura da sua coerência. sempre com uma possível regressão. 244. mais uma vez. sobre a junção entre as duas formas de inteligêcia. nesta actividade mimética. e em seguida imitativa. cujo critério é ser diferida. rejeitado (19). desejado. nos alvores da psicologia genética. inversamente. passado o período da imitação automática. um modelo em potência que 'começoupor se apreender apenas na sua realização efectiva. de consonância. A t~oria do socius. sob a qual. c. 46 47 . podem estimular-se. a dialéctica da imitação dá conta da passagem à inteligência discursiva. Não pôde responder-lhe. Contudo. pela função postural à qual pertence. Os primeiros sorrisos em resposta ao sorriso.. em primeiro lugar. em J. Evidentemente. 243. Baldwin.

(23) «o papel do outro na consciência do eu». confundida com o seu parceiro. os meios (emoção. Em resumo. foi '0 primeiro a construir uma teoria do socius que. a ideia de uma indiferenciação primitiva a partir da qual se constrói o eu encontra-se presente em toda a sua obra. Estas noções começam por ser grosseiras e irreflectidas.. 1958 e 1963. veio a inspirar Wallon. acções sensório-mataras de origem exógena ou endógena. Mas Wallon integra-a com uma felicidade de expressão e uma força que a tornam 'como que o remate da sua obra.. ulteriormente desenvolvida por Piaget e que lhe forneceu o famoso esquema funcional: assimilação-acomodação~adaptação. Egypt. uma origem comum. .. L'Evolution P8Ychiatrique. Janet (21). dez anos mais tarde (22). dos conflitos. para este último a teoria do eu não implica a destruição ou a reestruturação de uma construção anterior. como eixo de uma nova tópica. imitação) pelos quais o orgânico se torna psiquismo. antes de formular a sua dialéctica do eu-outrem. sem delimitação própria. Wallon. 1. a última peça que confere ao conjunto amplitude significante. 1. de outro íntimo. Le dévetoppement mental ch. estas noções precísarn-ss e clarificam-se.a medida do seu génio de percursor: «0 eu e o outro têm . assim. ainda que pouco dado a metáforas. há um quarto de século. como é evidente. foi também ele quem esboçou os contornos dessa lógica genética. e são unicamente constituídas por agregados de sensações. no meu livro Psychologues et Psychologies d'Amérique. juntamente com Freud e ao mesmo tempo que ele. um associado. um estado de indiferenciação total. Não haverá em Freud uma evolução análoga? Não significará a viragem de 1920 uma passagem da análise dos processos fundamentais. p. ob. Foi Baldwín o primeiro a falar do eu ideal como resultado de uma «ejecção». não há sujeito onde se possa imprimir este decalque. tão longinquo de nós como pode paracer: a última etapa da sua carreira decorreu em Paris. movimento. através da díaléctíca [ . ou ainda o eço e o alter são. às partes salientes destes conflitos e. à teoria do eu? Não será esse o caminho quase obrigatório do psicólogo que parte do biológico para chegar ao homem? Com a diferença de que. a teoria de Wallon formula-se do seguinte modo: entre o eu e os outros) a relação estabelece-se por intermédio do outro que cada um traz consigo. entre o sujeito e pessoas reais. cada um deles é um socius... da socius. Existe. um produto da imitação». amplamente orgânicas. 48 1 49 . Qual é a sua origem? Não é certamente. e o sentimento do outro enriquece-se em proporção com a riqueza do seu consciente. essencialmente sociais. Mas só mais tarde.. num artigo publicado em 1946. 1946 e «Níveis e flutuações do eu». pouco a pouco. ou o outro (23) . acabaria por desenhar-se um núcleo de condensação. entre Freud e WaIlon. mas também um satélite. dada num segundo artigo. sim. ]. ] entre o sujeito e a ejecção [. 1897. inspirado em Darwin e Hegel que foi. contínua. não há um Narciso à procura da sua imagem. onde morreu em 1934. o sub-eu. compara este primeiro estado da consciência «a uma nebulosa onde se difundiriam. Baldwin não é um antepassad-.ez Veniant et dans la race. dos impulsos. O eu e o outro. Na sua massa. reproduzidos nos números especiais de Enfance. p. aluno de Charcot na Salpêtriêre. 309-310. J. Teoria precisada e aprofunC"') Para uma epistemologia da ciência do desenvolvimento psicobiológico. eis um texto de Baldwin que dá muito bem . é o que o termo de socius e a teoria explícita do eu aparecem. 1956. Lamento a desenvoltura com a qual o tratei outrora.. tais como aquelas que resultam dos esforços. P8Ychol. O sentimento do eu desenvolve-se pela imitação dos outros. A título de reparação e de ilustração. a de Freud. da díaléctíca emotiva e motora da imitação. diz-nos Wallon. directamente ou por intermédio de P. a amadurecer lentamente as implicações das suas análises. será preciso remontar a James Mark Baldwin. Tudo se passa como se Wallon tivesse levado vinte 'anos a elucidar os processos. Entre os (") «0 papel do outro na consciência do eu». 288. E'sse outro é designado por Wallon também pelos termos de alier. Paris. Contudo. Inicialmente. um decalque abstracto das relações que pode ter havido entre o sujeito e a sua mãe. o eu. A ideia de que a criança começa por se alienar totalmente na ambiência humana.win. das correntes nervosas corretativas da dor e do prazer. cit..em menor medida.a propósito da noção de socius . para compreender uma das fontes principais da obra de Wallon e de Piaget e também.

li: verdade que não nega que o indivíduo possa estar em conflito com outros indivíduos. p. procede ou emerge de processos biológicos. 1951. não devido a contingências externas. mas. Varia com a idade. nunca é constante. Mas a oposição indivíduo-sociedade não tem o carácter inexpiável. são as suas próprias variações que regulam as nossas relações com os outros «tendo em conta. A oposição radical indivíduo-sociedade é a de duas entidades metafísicas. porque o indivíduo é em si mesmo um eooius. O organicismo de Wallon? Poderíamos discuti-l o indefinidamente. O indivíduo humano é um ser social. 175. aliás. mais precisamente. Na dialéctica do desenvolvimento. tanto para Wallon como para Freud. li: de fado isto o que existe de original na concepção walloniana do 8ocius. e que tanto contribuiu para a sua reputação de organicísta. tópica. no homem. li: numa polémica com Piaget (que o acusa. X. sobretudo. para Freud. a qual. é ele. ou. um e outro fazem intervir o social simultanea- mente ao biológico. não de organicismo. a repartição da matéria psíquica nunca é fixada de uma vez para sempre. «Jamais pude díssociar o biológico do social. tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica de outro modo que sob a forma das suas relações recíprocas» (24). noção de que foi o promotor. mas porque me parecem. as suas reacções devem ser constantemente completadas. evidentemente. o factor social é exógeno. se torna muito mais profunda quando Wallon substitui a noção de sensualidade infantil pela de sexualidade. os conflitos através dos quais se realizam as passagens da ontogénese e se organizam as estruturas da personalidade. tal como Freud. «fantasma que cada um traz consigo». e. No entanto. a adaptação às circunstâncias que exige uma actividade normal». não porque os creia redutíveis um ao outro. é geneticísta. Mas é aqui que surge a sua divergência. mas geneticamente. o social é consubstancial ao organismo. 50 51 . um ser social. tal como Wallon. o papel da sociedade consiste em policiar e reprimir. o substracto orgânico é o tecido material do psiquismo. a intervenção do social se explica pelo desnudamento da criança ao nascer. Tanto um como o outro. tal como aconteceria com o biologismo ou a tendência naturalizante de Freud. Wallon não subestimará em momento algum o papel de maturação. é evolucionista. interno Sociol. com grupos. O que é evidente é que. compensadas. Incapaz de fazer seja o que for por si mesma. e mais ainda na segunda. interpretadas. a tonalidade pessimista que lhe atribui a ideologia individualista. Freud. segundo creio. conforme os indivíduos. nem mesmo de sobreviver. li: indubitável que tanto para Freud como para Wallon. biologicamente.dois. no homem. descrevem a gênesecorno uma diferenciação a partir das fontes orgânicas. que o psiquismo. vol. e tanto mais que o significado destes rótulos é variável. Mas. Oah. tanto um como o outro descobrem ou imaginam as ambivalências. em França. E se é assim. a todos os seus níveis. o outro íntimo data de um período em que os outros ainda não existiam. polémico. as contradições. mas de sociologismo à maneira de Durkheim) que Wallon exprime com o máximo vigor a sua forma de ver as coisas. com a sociedade e que as estruturas sociais possam prejudicar o livre desenvolvimento da personalidade. incerto. é porque o 80C'ÍUS é o efeito de uma necessidade absoluta para a criança. Para Wallon. Wallon. segundo as circunstâncias. li: a (24) «Post-scriptum em resposta a Plaget». para cada um deles.. em parte devido ao facto das próprias sociedades evoluírem por intermédio das suas lutas internas. o social é exterior ao biológico.

maturação do sistema nervoso «que torna sucessivamente possíveis diferentes espécies ou diferentes níveis de actividade». Mas é preciso que se acrescente o exercício à maturação e é da natureza da emoção, da natureza da imitação, em suma, da natureza do organismo humano, tal como foi elaborado pela filogénese, o ser social. Contudo, é precisamente esta renovação na espécie humana, esta infiltração do social no organismo, que tem por consequência a ontogénese não poder reproduzir verdadeiramente a filogénese, como Freud persistiu em acreditar. Para Freud, a marcha do desenvolvimento é predeterminada por todo um passado que o indivíduo recapitula e a força que impõe à humanidade este desenvolvimento é a necessidade que decorre da vida, o AvayK17; existe um destino e o destino é o corpo. As influências externas recentes só podem produzir modificações superficiais ou perturbações no desenvolvimento predeterminado. Para Wallon, não há destino. O biológico e o social são condições necessárias, mas apenas condições. O desnudamento da criança ao nascer traduz-se por uma necessidade absoluta de outrem, mas é um absoluto que abre o caminho da liberdade, de um progresso indefinido. A infância do homem é efectivamente o produto da evolução do passado, mas explica-se também pelo meio no qual o indivíduo se desenvolve, pelas inovações da técnica que impõem formas inéditas de sentir e de pensar. A criança entra ao mesmo nível na sua civilização, não tem de recapitular, e tende, como um sistema, para o seu estado de equilíbrio, para o tipo de adulto que pode realizar e, porventura, ultrapassar. O devir, em vias de se construir, explica-a pelo menos tanto como o passado. Existe em WaIlon um optimismo fundamental e, como já referi, uma recusa ou uma desconfiança em relação a toda a fixidez.

A noção de inconsciente, tal como a de invariante piagetiano, submete-a Wallon a uma critica impiedosa, pois descobre nela a sobrevivência ou uma forma modernizada do velho pensamento substancíalista. Formulando pela primeira vez «o problema biológico da consciência», começa por dizer que se se colocarem à partida duas substâncias, o corpo e a alma, duas séries heterogéneas, nunca será poasivelcombiná-las. Mas «que futilidade imaginar um terceiro termo, fantasma combinado dos outros dois, espécie de psiquismo inconsciente, que flutuaria sempre inacessível à experiência, entre a 'consciência e os fundamentos orgânicos da consciência» (26) ! O artigo é de 1923 e a crítica não se dirige a Freud, que nem sequer é citado, mas sim a Hõffding e a Herbertz. O que Wallon recusa é uma nova entidade, um inconsciente que, ultrapassando os processos biológicos, não passaria de um «preconceito metafísico» (20). Mas conclui que o psicólogo não se deterá «nos limites da consciência se se revelar à experiência um inconsciente já não teórico, mas real, eficaz, indispensável às manifestações da vida mental» (27). Ora, efectivamente, Wallon seguiu a direcção e cumpriu as promessas deste artigo-programa. Quanto à noção de consciência, enquanto entidade e princípio explicativo, rejeita-a tão claramente como a noção de ínconsciente. Ninguém denunciou

(") «o problema biológico da consciência», Traité de psychologie de Dumas, 1923, t. 1, p. 202-229. (") A sua vigilância em detectar, denunciar sob todos estes disfarces, a ideologia fixista, leva-o, como acontece a muitos marxistas, a cultivar o que eu chamaria de ideologia heraclítica. No mínimo, é reticente em relação às teorias da estrutura, aos modelos da hereditariedade fornecidos pela genética, às primeiras formulações da cibernética. Da sua parte, não se trata de submissão a um credo politlco. :m uma questão de temperamento. E, bem entendido, como homem de ciência, sabe inclinar-se perante o facto estabelecido.
(27)

Le probleme biologique de Ia consoience, ob.

cito

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com tanta insistência como ele a introspecção, mostrando, aliás, que as suas ilusões têm menos a ver com a sua subjectividade do que com a sua superficialidade. O que estuda a propósito da emoção, da tonicidade, das ligações com outrem, não será o elemento, os secretos dinamismos das manifestações da vida mental? E este 80GÍUS que se encontra no nosso próprio âmago, não agirá sem que jamais se revele, salvo o caso de certas desorganizações mentais? O facto é que Wallon não emprega, nunca tem necessidade de empregar o substantivo de Inconsciente. Os seus esforços concentram-se na tentativa de nos convencer, por um lado, que há planos de realidades distintos, irredutíveis (corpo e vida mental, por exemplo), estádios de desenvolvimento, unidades funcionais e, por outro lado, que não é legítimo talhar a direito entre estes planos, entre estes estádios, entre estes sindromas. A geração de um pelo outro não é infalivelmente definitiva, o antigo pode subsistir sob o novo, e a flutuação é a regra. :m certo que se pode preferir uma concepção mais ordenada da vida mental, imagens menos fugidias, menos móveis. Mas não compreendo que os psicanalistas tenham censurado Wallon por «só ter estudado as manifestações desencarnadas, descarnalizadas e, para dizer tudo, desinvestidas desse ser social que é a criança desde a sua vinda ao mundo» (28). Nenhum autor dáa todas as manifestações psíquicas uma coloração mais sensual, mais carnal. Não será que «o pass.o que deve unir o orgânico e o psíquico» tenha sido finalmente dado por Wallon, sem ele mesmo o suspeitar? E que nós tenhamos a esse respeito como que um pressentimento sem que o possamos ainda compreender perfeitamente?

CAPITULO

m

O PROBLEMA DO OUTRO NA PSICOLOGIA DE RENRI WALLON Quem és tu, que posso saber de ti? Como é possível que, por vezes, me sejas tão próximo, e por vezes tão longínquo? Es meu semelhante e, 'contudo, os teus pensamentos, os teus sentimentos, como poderei sabê-los ao certo? Tu és eu e tu não és eu" e é, sem dúvida por isso, por essa Íntima estranheza, que te procuro. Como foi possível que eu saísse da minha solidão e me aproximasse de ti? Mas, antes do mais, onde está a ilusão: quando me sinto só ou quando creio que estamos juntos? Um solilóquio de apaixonado? Sim, é possível que se trate da linguagem de um enamorado, uma vez que é o amor que dá a experiência mais viva da comunhão e da separação, pois representa a busca mais intensa do Outro. Mas é um problema muito mais vasto do que aquele que é suscitado pelas angústias e as certezas do amor. O outro, como o poderei realmente conhecer, sendo ele precisamente o outro, o estranho, e uma vez que a única certeza que existe é aquela que experimento no mais fundo de mim mesmo, certeza essa tão incomunicável para ele como para mim? Que relações existem entre o eu e o outro? Serão superficiais, artificiais, ilusórias, ou serão profundas, essenciais, mas, neste caso,como será isso possível ? 55

I :

(")' Citação de M. Bergeron (Psychologie du premier age, P. U. F., 1961,p. 250) de J.-L. Lang, o qual agruparia em 1951 as críticas dirigidas a Wallon pelos psicanalistas ...

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o problema do outro é também o problema do eu, da condição humana. Todos os homens o sentiram, com lucidez maior ou menor. Todos os grandes filósofos o formularam com maior ou menor penetração. Mas como formular um ta'! problema sem correr desde logo o risco de uma falsa orientação, de uma resposta preconcebida? O entendimento, 'consoante as categorias comuns da linguagem, desenha e separa uma da outra duas palavras - o eu e o outro -, por conseguinte, duas realidades distintas. E, quando aparece, a reflexão psicológica confirma e reforça esta distinção. Na realidade, começa por ser reflexão sobre si próprio. E, à medida que a análise se toma mais exigente, mais aguda, mais inquieta, tudo quanto não é o eu, os outros e as coisas, se torna estranho, irreal. No limite, encontramos o solipsismo do filósofo ou o autismo do esquizofréníco, para os quais nada mais existe para além deles mesmos. Contudo, o pensador que não perdeu 'completamente o senso comum, pretende restabelecer a unidade perdida, encontrar um fundamento para a realidade externa, justificar a existência de outrem. A sua atitude não será negação, mas problema. Tal como Descartes, poderá entregar-se à sabedoria de Deus que não quis defraudar as suas criaturas: ou então poderá fundamentar a existência e o conhecimento de outrem por analogia com a experiência que tem de si próprio. Se for psicólogo, estabelecerá uma teoria das comunicações ou descreverá os processos da projecção do eu no outro, da introjecção do outro no eu. De qualquer forma, a dualidade é admitida 'como um postulado, e a prioridade do conhecimento de si próprio sobre o conhecimento de outrem. Enfim,selectivamente, tendenciosamente, a nossa afectividade dá ao problema a sua tonalidade, a sua orientação. É o fracasso, a decepção, o sofrimento e não a alegria que nos fazem reflectir; não é a nossa comunhão com os nossos semelhantes e a ingénua evidência de que existem tal 'como nós, é a solidão
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em que nos encontramos quando os laços se quebram ou se afrouxam. Então, e só então, interrogamo-nos: porquê esta separação, este divórcio? 'I'ratar-se-á de um problema eterno, de um problema insolúvel? Ou será, muito simplesmente, um problema verdadeiro, na realidade, mas mal proposto? Com o tempo, longe de se resolver ou de se desvanecer, torna-se mais agudo, a julgar pelas filosofias contemporâneas da existência e, sobretudo, por essas obras de imaginação, romances ou filmes, que testemunham de modo tão evidente a sensibilidade da nossa época. Se é verdade que o amor é a experiência mais profunda da relação com outrem, o facto é que não subsistem dúvidas de que jamais esta relação foi desejada tão explicitamente, tão ardentemente, tão desesperadamente. O amante de Lady Chatterley, o homem desprovido de qualidades de Musil e, menos retoricamente, as personagens de Fellini e de Bergman, parecem dizer-nos que num mundo em que tudo se desmorona o amor subsiste como o valor fundamenta'! e também como a única esperança, ainda que perpetuamente frustrada. A aceleração 'vertiginosa do tempo, a extensão explosiva da cultura fizeram estalar por todo o lado o cimento das nossas evidências e das nossas 'crenças. Uma decadência, uma corrupção? Não, trata-se antes de uma crise de consciência, como se, demasiado brutalmente, a civilização sofresse uma metamorfose ou se tornasse adulta, trazendo ao desamparo de cada um de nós a confissão das nossas responsabilidades e da nossa solidão: uma civilização da inteligência que procura os seus novos valores, um novo equilíbrio. E, precisamente devido a esta busca, um valor começa por se afirmar no desvanecimento de todos os outros: a lucidez. Mas bastará a lucidez, quando a luz perdeu a sua 'chama? Os impasses do entendimento tornam-se, com demasiada frequência, um refúgio do misticismo. .

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a rejeitar a prioridade do eu 'como postulado fundamental da psicologia. 58 59 . Talvez não ofereça uma solução perfeita. devemos. Ao seguirmos a sua trajectória onde. Henri Wallon. Mas. tão fortemente integrada. tende a apresentar como primitivo o par «eu-tu» que condiciona essencialmente o desenvolvimento da consciência. A bem dizer. na obra tão profundamente pessoal de Wallon. em 1937. temos a sensação de uma necessidade interna de descoberta de tal forma que. é como que uma nebulosa em que o eu e o outro estão ainda confundidos. melhor dizendo. são ainda inexistentes. radica. a qual. se analisarmos a obra do fim para o (') Áctes du Onzieme Oongr8s International de Psychologie. surge-nos hoje como aquele que realizou o projecto e executou o testamento do pioneiro da psicologia francesa. tão primitiva como se julgava» e diz ainda que é provável que o eu e o outro «se edifiquem conjuntamente de forma confusa e apresentem ambos os mesmos progressos». Nã'O se deve negligenciar esta tendência da filosofia contemporânea. 'contudo. 1937. como problema-chave (1). J. diz. quer se trate de filósofos crentes ou ateus. Janet. e como que antecipadora do devir. com Willíam James. 138-149. jamais alguém poderá ter a certeza de quais foram as influências directas. Marc Baldwín. nas suas origens. «ao trágico das almas fechadas €' separadas». cujos trabalhos foram citados por Janet no referido discurso. muitas vezes um acto de fé para escapar ao absurdo da solidão. Mead. Toda uma corrente de pensamento. gradualmente. George H. P. taí como Gabriel Marcel. nos temas da psicologia de hoje. Pelo seu discurso no Congresso Internacional de Psicologia. Wallon não é o único. mas indica uma direcção. «o par eu-tu impôs-se. solidamente nas preocupações. os empréstimos. onde encontramos filosofias existenciais e personalistas. na medida em que exprime uma insatisfação à qual a própria ciência deve estar apta a responder. segundo a expressão de La Senne. Podemos discernir as tentativas de resposta em Max Seheler e também em toda uma tradição da psicologia americana.Henri Wallon retoma «o problema do Outro» e altera profundamente os seus dados. «Les conduites socíales». se se postular entre o eu e o outro uma exterioridade inicial e radical. p. Devemos observar o que se passa no decurso da evolução da criança e constataremos então que o psiquismo. A busca é votada ao fracasso se nos encerrarmos na introspecção ou em qualquer outra forma de intuição subjectiva que nos feche sobre nós mesmos. E isso aconteceu com uma facilidade tanto maior quanto já existia convergência. Paris. mais próximo de Wallon. nem sequer o primeiro. Mais próximo de nós. finalmente e sobretudo. ou. em 1937. indica que «a distinção de mim mesmo e do socius talvez não seja tão fundamental. nomear Pierre Janet. criadora de um pensamento dialéctico de vanguarda. Não haverá solução. Enriquecidacom as heranças da cultura clássica. as coincidências. onde são tão raras as referências a outros autores. se esforça por definir a personalidade 'como um processo integrado na vida social. entre a orientação de Pierre J anet e a sua. se esclarece o aspecto social do psiquismo sem que alguma vez se diminua a importância do aspecto biológico. encontramo-nos perante um convite dirigido às novas gerações de psicólogos para reformar a psicologia na base de uma ideia directriz da natureza social da personalidade e da distinção entre o eu e o tu. Será então relativamente fácil admitir. A título de hipótese. pois é impossível um cogito estritamente solitário». um Deus 'como «tu» absoluto e considerar que o diálogo humano é a transposição do frente a frente entre a alma e Deus. Trata-se de uma reacção de moralistas ao fracasso da filosofia clássica. diz-nos Maurice Nédoncelle.

J. . 1946. que vai buscar a Pierre Janet. distanciados entre si de dez anos.> 1. o fantasma de outrem. mentalmente ou mesmo em alta voz.princípio.• especial de 1959 e n. conclui que o indivíduo não é um ser social «devido a contingências externas» mas que o é intimamente. Mas é igualmente normal que cada um de nós conheça esses momentos de incerteza em que se dialoga consigo mesmo. então. E quando. quando Wallon escreve: «As pessoas que o rodeiam não passam. um aperfeiçoamento. nota-se claramente o amadurecimento desta teoria. para o sujeito. haveria todos os motivos para crer que. n. 1956. ainda que. Parece. A sua elucídação exigiria longos comentários em referência ao conjunto da obra. Qual será. Psychol. Estes dois artigos foram novamente publicados na recolha das obras de Wallon. como é provável. Contudo. em 1946 e 1956. lógicos. O doente julga-se interpelado. Não é possível resumi-Ia em poucas palavras. «um decalque das relações habituais que o sujeito possa ter tido com pessoas reais». como aqueles que Clérambault descreveu pelo nome de automatismo mental. algumas linhas mais adiante. Wallon. objector: o outro. p. a teoria de Wallon pode formular-se do seguinte modo: entre o eu e os outros) a relação estabelece-se por intermédio do outro que cada um de nós traz em si mesmo. do artigo de 1946 ao de 1956. Wallon sublinha fortemente que o outro íntimo não é uma imagem. mais ainda como a construção teórica.«Níveis e flutuações do eu». que nesse artigo Wallon terá querido assinalar com o máximo vigor e concisão as frases que 60 61 . Egypt. nos parece que as noções que surgiram mais recentemente já se encontravam em gérmen nas suas origens. o 80GÍu8. uma interiorização dos outros. Ficaremos a meio caminho. Wallon. esta teoria do Outro só tenha amadurecido lenta e tardiamente (2). no entanto. Que é esse outro. de onde provém? Wallon designa-o também pelo termo de alter e igualmente pelo de socius. domesticado.· especial de 1963). essencialmente. Nada seria mais contrário ao pensamento profundo de Wallon que esta espécie de idealismo. o qual já o extraíra de Baldwin. A afirmação adquire um cunho paradoxal que desorientou a maioria dos leitores. insultado. roubam-lhe os seus mais íntimos pensamentos. consistência. Tal como Sócrates. ignorado. a chave que permite apreender plenamente o que Wallon escrevera antes sobre as origens do carácter e sobre a emoção. quase senpre reprimido. editada pela revista Enfance (n . que o essencial reside na subjectividade. é graças a esse estranho essencial que é o outro. depois de Janet. 389-401.s 1. ao mesmo tempo íntimo e estranho. mas revelando a sua existência e reforçando o seu papel nas flutuações e nas incertezas do eu. numa frase que ficou 'célebre. conselheiro. de ocasiões ou motivos. ditam-lhe os seus actos: é perseguido e possuído por um ser.. exterioridade. diz. Wallon só consagrou dois artigos a este problema. cada um de nós temos o nosso demónio. «o perpétuo parceiro do eu na vida psíquica». Aliás. Tais artigos surgem como que um prolongamento. isso seria um contra-senso total. segundo ele. impõem-lhe pensamentos estranhos. Não é. a sua origem? No seu primeiro artigo. em suma. n. entre a formulação esquemàtica e um comentário impossível nos limites que aqui devemos respeitar. censor. Se pode dar-lhes vida. começa por apreender a existência deste outro secreto através da sua emancipação em casos pato- (') «o papel do outro na consciência do eu». 2. V:evolutiOn Psychiatrique. em nós. vol. Ê o que se passa com as noções relativas ao problema do Outro. e qualifica-o de outro íntimo para o opor aos outros e ao conceito geral do Outro) e diz ainda que ele é. De forma lapidar. a começar por Piaget e a acabar em estudantes de psicologia incapazes de a comentar num dia de exame. de se exprimir e de se realizar». geneticamente. o meio social real pouco representa na evolução da criança.

pessoas e' grupos. no entanto. há também os outros: Alii». De forma negativa." especial. Quando Wallon diz qus o homem é um ser social geneticamente. não é mais que um produto da ambiência». de algum modo. «O Alter. por exemplo. aliás. que a criança é desde esse momento (nos dois primeiros meses de vida) um ser social» (3). complementares mas que parecem. E. como uma necessidade absoluta. mas todas as formas que o outro pode tomar. lhe chegam exclusivamente do exterior. só cerca dos dois/três meses é que «se opera a fusão da criança com os seus próximos». pelas suas carências. Em Durkheim. o exprime. pela sua incapacidade de sobreviver sem a ajuda de outrem.. Assim. o duplo do eu. o alter eqo. «0 estudo psicológico e sociológico da criança». ao passo que o seu carácter social sempre superficial e a SU:l consciência mais ou menos frágil. Segundo Freud é a libido. o biológico é negligenciado: os comportamentos individuais são na sua totalidade e exclusivamente de natureza social.. são estudadas mais directa e mais longamente. a das relações do biológico e do social na ontogénese humana. um outro ser que vele por ele e que o complete. tal como Freud. mais ou menos diversos. dos imperativos sociais. como se quisesse responder a objeeções. consiste precisamente em ultrapassar a oposição entre o biologismo 62 63 . uma ligeira modificação de terminologia: a expressão de Outro não designa neste caso. é reproduzido na primeira antologia de textos de Wallon (Enlance. esse é um facto fundamental mas também uma ambiguidade de expressão. O vigor foi demasiado para espíritos ainda mal preparados para compreender a sua originalidade. antitéticas. Oahiers Intern. pelo seucarácter de algo incompleto. em muitos f. No seu artigo de 1956 em que as relações com o meio ambiente. Poderá notar-se. o estado da impulsividade pura. dissipar mal-entendidos. A originalidade de Wallon. ainda segundo Wallon. Wallon emprega fórmulas 'complementares das fórmulas de 1946. o impulso da espécie. esclarecer o complexo sentido do seu ensinamento. que o 80GÍU8 íntimo não tem qualquer prioridade? A resposta tem a a ver com duas noções: a da indiferenciação primitiva do psiquismo e da sua diferenciação progressiva. um meio. Por conseguinte. mas também os outros reais: «O Alter não é todo o outro. página 20. pela acção dos obstáculos. o seu mérito mais eminente. das limitações. como poderá afirmar ao mesmo tempo que «as pessoas que o rodeiam não passam de ocasiões» e contudo.. que o alter não passa de um produto da ambiência? Que o indivíduo é social geneti-camente. Sociol. em que sentido se poderá dizer que é essencialmente social? Pela sua estrutura biológica. 1959). n. Esta concepção walloniana é radicalmente diferente tanto do biologismo. a natureza social do homem não é acrescentada por influências externas: o social já se encontra inscrito no biológico. 1947. pelo contrário. e se os indivíduos de uma mesma sociedade diferem entre si é porque cada um se apropriou das «representações colectivas» por certos aspectos mais ou menos ricos. • "casos. A enfermidade biológica do recém-nascido pressupõe uma sociedade. para Freud o social não se encontra na natureza do homem. como do sociologismo de Durkheim. ao passo que para Durkheim ele é toda a sua natureza. O próprio Wallon o reconhece quando concede a Piaget: «talvez seja exagerado dizer . que é mesmo incapaz de qualquer reacção adaptada ao meio: trata-se um período vegetativo. Este artigo É (') perfeitamente evidente que ao nascer e nas primeiras semanas que se seguem a criança não é um ser social. identificado e analisado pelo próprio Wallon. não devido a contingências externas e. e não em virtude de influências externas. pelo menos exclusivamente. que dá à evolução psíquica do indivíduo as suas forças e a sua orientação. Com efeito. essencialmente.I exprimem toda a originalidade do seu pensamento. IH. vol. a sua forma íntima e larvar. peia sua fragilidade nativa. é a sua «primeira forma». Então. E precisa: «O Alter não tem qualquer prioridade sobre o Outro».

o bebé desperta para o mundo. de forma que .. por reflexo. a criança experimenta sentimentos de acordo e de desacordo (') «Post-scriptum em resposta a Piaget. poder-se-ia dizer que se formam na sua massa «um núcleo de condensação. o outro». não porque os creia redutíveis um ao outro. os seus argumentos mais decisivos. E.). no homem.Wallon é. mas abertos e prometidos um ao outro antes. tal como em mim mesmo. e entre as diversas pessoas que a rodeiam.e o sociologismo. a comunhão e a separação. as suas primeiras reacções emotivas definem positivamente a sua natureza social. mas porque me parecem. Posso finalmente responder à questão desde sempre colocada. é preciso que a amargura da separação ou a indiferença não nos façam renegar a alegria que já não conhecemos. Mas as emoções que o unem ao meio de uma forma que começa por ser global e indivisível determinam gradualmente uma situação bipolar. o eu vai saber colocar-se a si mesmo no número dos Outros) com essa reciprocidade das perspectivas necessária à compreensão intelectual. A emoção faz alternar o calor e o frio. voI. sejam quais forem a evidência e a solidez das realidades assim conquistadas. Contudo. O eu e o Outro constituem-se. da nossa comunhão com outrem. vindo a tornar-se realidades objectivas e conceitos. Se a teoria do Outro vem na sua obra depois-da teoria da emoção. sem dúvida. graças aos progressos da sua maturação nervosa. X. Tu e eu não somos seres separados. o primeiro a demonstrar verdadeiramente quais são os fundamentos da psicologia e a sua legitimidade: ciência de um plano de realidade que não pode ser reduzida nem ao biológico nem ao sociológico mas que. mas também um satélite.e dou o devido peso às minhas palavras . se se trata da psicologia humana. consciências fechadas. e a natureza social do recém-nascido define-se negativamente: pelas suas incapacidades que o ligam imediatamente a outrem. o Outro não se encontra ainda delineado na consciência nebulosa da criança. Para retomar a imagem da nebulosa. nesse caso. «Jamais pude dissociar o biológico e o social. Assim. com o meio. estabelece-se uma certa delimitação na sua sensibilidade entre o eu e aquilo que lhe é estranho. rechaça o Outro íntimo para um papel secundário e secreto. Ã medida que o eu afirma a sua identidade e a sua integridade. Mas sejam quais forem as formas evoluídas do Eu e do Outro. conjuntamente. Ao nascer. passado um mês ou dois de vida vegetatíva. muito antes da criança poder ?istinguir objectivamente entre o seu eu e outrem. tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica de outro modo que não seja sob a forma das suas relações recíprocas» (. Quando. diz ele. Oahicrli Intern. Ainda que confusamente. bem entendido. 1951. Sociol. assim. O Outro vai objectivar-se na multidão indefinida das pessoas reais. Não há delimitação consciente possível entre as suas próprias acções sensivo-motrizes e o que lhe chega do exterior. mas como a base e a garantia da nossa comunicação. o sub-eu. E evoluirão como um par indissociável de forças. de nos termos encontrado. esta fornece àquela os seus materiais. da qual é como que a consequência e o desenvolvimento. O mal é menos 64 65 5 . o Outro não existe. o eu. sem se refugiar nos impasses das conciliações verbais ou do positivismo. as formas arcaicas permanecem. págína 175. Não essencialmente como uma ameaça de regressão. É certo que pode haver divórcio entre ti e eu. Divórcio de um instante ou afastamento irremediável. Podemos sofrer de solidão. integra um e o outro. Todavia. Ê uma situação de simbiose afectiva.

CAPITULO IV A DIALÉCTICA DA INTELIGÊNCIA: WALLON . de qualquer modo não é essencial à nossa natureza. em última instância. É o meu encontro contigo. Não por esoterismo dos conceitos ou por virtuosidade de abstracção. A minha verdade não é a solidão. factores comuns a todos 'Os níveis do real.pelo 'contrário. elementos. como muitas vezes se afirmou. Para conservarmos os nossos profundos recursos.PIAGET o pensamento de Henri Wallon nem sempre é de fácil acesso. o nosso verdadeiro significado.profundo do que se julga. pelo menos nos domínios em que a realidade pode ser considerada provisoriamente de forma estática. encontrar princípios. Avança contra a corrente do movimento natural da explicação científica que consiste em suprimir as contradições das 'coisas. com a preocupa- 66 67 . a forma de um pensamento pouco comum. Wallon situa-se imediatamente na diversidade. não para reduzi-Ias. li: preciso que o saibamos para não cultivarmos com uma lógica medonha uma filosofia do absurdo. pois explicar é. em reduzir a diversidade. é por ser justamente a expressão. se o estilo desorienta certos leitores. Wallon constrange os nossos hábitos mentais. mas. . as nossas possibilidades de amor. Torna-se ilegítimo quando aplicado ao estudo de tudo quanto deve vir a ser para ser. Nem mesmo. pelo seu estilo. na contradição. Ou então. Um tal processo explicativo é rendível até certo ponto nas ciências físicas.

XI. 1949. como em tempos o fez o nosso amigo Marcel Bergeron. Recordemos. Este esforço dialéctico que procura desposar a dialéctica das coisas. 2. E. Mas esta atitude não bastaria para definir a sua originalidade e a profunda dificuldade da sua obra. Isso é verdade na medida em que Wallon não sente a necessidade de citar Marx ou de declarar que é marxista. ('} Les odgines du camctere chez l'enfant. em certo sentido. fá-lo para alargar a nossa razão. que o materialismo díaléctíco não aparece explicitamente nas primeiras obras de Wallon. tal corno se depreende de várias obras de Wallon. melhor ainda. Se é verdade que ele experimenta a necessidade de uma revisão das antigas distinções e categorias. S. e não um dogma. (') Compraz-me reconhecer que a contestação formulada por M. F. Nas obras em questão. é a análise destas condições que nos permitem compreender. não significa que aí se encerre. 68 69 . que Wallon se reclama muito explicitamente do materíalísmo dialéctico (2). «Esforça-se por tecer novas relações entre todos os sistemas nos quais se repartea nossa experiência das coisas e da vida. quanto a dar da emoção urna explicação genética. se se esforça por romper os estreitos quadros do nosso entendimento. a sua introdução à obra colectlva: A Ia lumi6re du marxisme. em reformar ou abolir as distinções ou categorias intelectuais do passado que a tal se poderiam opor» (1)..ção de nelas descobrir respostas para os problemas da existência e do devir. No entanto. A teoria da inteligência. Wallon exprimiu a sua adesão plena e completa ao materialismo dJaléctico (Cf. Toda a realidade. diz ele. sendo mais recente que os seus trabalhos sobre a afectividade. onde se denunciam e ultrapassam as oposições formais das teorias clássicas. desde 1935. contudo que. é sabido a que renovação conduziu na psicologia da criança: nomeadamente. Aliás. o materíalísmo dialéctico é explícito em virtude do método utilizado e não de profissões de fé. nem mesmo indicar uma direcção. pelo contrário. Expor os princípios deste método. vez mais uns nos outros e. é uma característica do pensamento contemporâneo. em fundi-los cada. 225) foi clara. diz ele. não é dar uma solução. psicológica tem uma história e condições materiais de existência.. agora. Não 'afirma a oposição irredutível do ser e do conhecimento. no que respeita ao esclarecimento das relações da motricidade e do carâcter. Evidentemente. melhor que qualquer outra psicologia.mente abandonada no seu presente estudo. das ambiguidades. Instalar-se imediatamente na contradição e na diversidade.). PS'Jjchiatrique. é perfeitamente clara. Aliás. Eis porque a escolhi." ed. e de um interesse menos evidente para a psiquiatria. I. não é menos característica nem menos original. como exemplo do pensamento walloniano. Um método de pensamento. p. p. O sentimento agudo das contradições. é muito menos conhecida. ~ certo que podemos não aderir a esta maneira de ver. ainda que na maioria das vezes conduza às filosofias do irracional. O materialismo dialéctíco é um método de pensamento que Wallon soube ilustrar magistralmente. do absurdo. Bergeron tem razão em dizer. a ciência não está enamorada de absoluto e de imobilidade. Não se pode contestar. consoante o exigir esta obra de unificação pelo conhecimento. P. se é verdade que o termo de dialéctico é terrivelmente ambíguo. Esta é a atitude deliberada do materialísmodialéntico. talvez. Bergeron no seu artigo de 1950 (Evol. a expressão de materialismo dialéctico. Ê a reconstituição desta história. Contrariamente à metafísica.. U. nada disso existe em Wallon.

o que não muda e o que muda. tanto para um como para o outro é toda uma história feita de transformações. afinal de contas. se tornou esquematização mental. A. Ao abordar o domínio da inteligência. (') La psychologie de l'intelligence. o problema coloca-se nos mesmos termos. simultaneamente na permanência das suas condições e das suas funções e na novidade de cada um dos seus estádios evolutivos. p. de empreender uma comparação séria entre a concepção de Wallon e a de Piaget. ambos se colocam numa perspectiva genética. A oposição tradicional entre a tese da diferença quantitativa entre a criança e o adulto ea tese das mentalidades heterogéneas encontra-se radicalmente ultrapassada. a evolução da inteligência não é concebida como um simples crescimento. Para ele. a logística. sublimação dessa intuição (do espaço) que. p. e com o risco de empobrecer tanto Wallon como Piaget. Da inteligência. isto é. 11. diz-nos Piaget. escalonadas por patamares. Entre o acto e o pensamento. homogeneidade e heterogeneidade. 1947.. Piaget tende a minimizâ-Ios. Esta preocupação ordena as suas perspectivas.Além disso. 1942. Paris. No entanto. a evolução explica-se simultaneamente pelo oposto e pelo idêntico» (1). do acto ao pensamento. A controvérsia que os dois grandes psicólogos da infância prosseguem desde há mais de um quarto de século é sempre apaixonante. O que não muda. Colin. de emergências. Devemos começar por reter este ensinamento comum aos nossos dois autores. sensório-motora à inteligência lógica. Paris. E Wallon a realçâ-los. também se trata de explicar simultaneamente a continuidade e a heterogeneidade. A partir daí. e cujo aparecimento depende de condições neurológicas e das condições de meio. parecem animados de uma mesma exigência dialéctica. finalmente. Em Wallon. em suma. diria o seguinte: Piaget preocupa-se. de mudanças qualitativas. mas. com frequência. E. este exemplo goza do privilégio de ser possível a sua comparação com a teoria que Piaget construiu no mesmo domínio. Em primeiro lugar. Na evolução intelectual da criança existe ao mesmo tempo. desconcertante como um diálogo mal harmonizado: é que. de incluída nas relações entre o organismo e o meio físico. Com efeito. Wallon situa-se no próprio terreno de Piaget. O que muda são as estruturas. De tal forma que se pode afirmar uma «continuidade funcional radical» entre as formas inferiores da adaptação motora e as formas superiores do pensamento (5). os seus campos de observação e de experimentação são diferentes. nos limites de algumas páginas. 250. habitualmente. a frase com que termina De t'acte à la pensée não está em contradição com a perspectiva de Piaget: « . Tanto um como o outro admitem a existência de estádios. Ambos partem dos mesmos problemas fundamentais. se é licito esquematizar em extremo. com a identidade funcional. Flammarlon. Porquê? Qual é a natureza exacta das divergências? E qual a via justa? Não me sinto com forças para pôr os nossos autores de acordo sobre os seus desacordos.. o seu método. a «acentuar as diferenças». de reorganizações. a confrontação dos métodos e das concepções é directa. tal como em Wallon.. em suma. Questão de temperamento e de feição de espírito . do acto motor à representação houve transposição. é a função fundamental de adaptação pela acção perpétua da assimilação e da acomodação. ambos. o seu interesse é sobretudo a axiomática dos estados de equilíbrio do pensamento. Também não me sinto capaz. em Piaget.. acima de tudo. (') De l'acte à Ia pensée. trata-se para ambos de explicar a inteligência. dita-lhe os seus esforços e. 70 71 . Mas sabemos que o seu acordo não vai mais longe. Wallon preocupa-se principalmente com as diferenças) as mudanças da evolução.

A psicologia tradicional procura um princípio explicativo único para estas duas formas de inteligência. U. P. seja ele qual for. então. VII. ordenam-se. cujos modelos são dados pela lógica e para as quais a introspecção fornece os meios de análise. um movimento progressivamente interiorizado. pelo contrário. p. Para Piaget é.o problema fundamental da evolução intelectual é o da dualidade e da sucessão de duas inteligências: a inteligência sensório-motora e a inteligência discursiva. Paris. Les origines de la pen. E.. F. P. com a concepção pragmática da inteligência e o êxito do behaviorisrno. leve à supressão do que pretendia justamente explicar é perfeitamente evidente. numa génese simples e contínua. esta depois se revelará. No essencial. Na psicologia tradicional o RCtOinteligente. às operações de juizo. um interesse directo pela inteligência sensório-motora e esta torna-se. mas não de natureza. Wallon vê na obra de Piaget o exemplo mais recente desta tese: os esquemas sensorimotores sobrepõem-se. é reduzido em última análise à inteligência discursíva. que só importa «o problema da passagem» de uma para a outra (5). como tudo reduzir à lógica. (0) Les origines de la pensée chez l'enfant. 72 73 . E pode mesmo afirmar-se que toda a sua obra é um esforço sistemático para elaborar uma teoria geral onde estejam presentes a lógica da vida e a lógica do pensamento. ao pensamento: isto é. tanto na psicologia tradicional como na psicologia pragmática da inteligência. a haver qualquer identidade. U. (') ] 946. coordenam-se. ou suposto como tal. Ao principio muito geral de adaptação não se junta nenhum novo princípio que dê conta da nova forma da inteligência. e que seria a lógica» (7) ? (. 25. p. No princípio do século opera-se uma reviravolta total dos pontos de vista. que só ele faz sentido? Wallon acrescenta que. muito simplesmente. Segundo o velho adágio referido por Leibniz. Surge. VII. melhor ainda. Paris. Para ele. a representação não é um facto novo. p. Colln. De tal forma que jamais terminará a controvérsia na qual tanto se censurará a Piaget reduzir tudo ao biológico. à intenção de Deus. podemos perguntar-nos se a questão que um dia levantou não permanecerá na sua obra como uma questão ansiosamente aberta: «Poderemos esperar uma explicação propriamente dita da inteligência. Piaget preocupa-se bastante com o duplo aspecto biológico e lógico da inteligência. mas sim aprofundá-Ias e levá-Ias às suas últimas consequências» (6) Ê Que um princípio explicativo único. acabando por realizar representações. o princípio explicativo geral. Assim. mas é também uma questão de fundo «constatar as passagens e acentuar as diferenças». Wallon declara. Será exagerado dizer que só o problema da passagem importa. como o instinto. F. A. 1947. Esta encontra-se no prolongamento da inteligência sensorimotora. as crianças muito pequenas e os animais. Entre inteligência sensório-motora e inteligência discursiva ou especulativa existe uma diferença de complexidade. Postular um princípio explicativo único é correr o risco de negligenciar o essencial. de mobilidade..) La psychologie de l'intelligence. Ora «o meio de descobrir os factores comuns não é escamotear as diferenças. Paris. atribui-se o seu mérito à sabedoria da espécie. original. enquanto espelho de uma realidade anterior a qualquer experiência. no que se refere à inteligência dos comportamentos nos seres desprovidos de linguagem. não obstante as respostas que ele mesmo deu repetidas vezes. por sua vez. ou constituirá esta um facto primário irredutível.combinam-se. uma questão de método. Na verdade. a natureza da lógica reside na lógica da natureza.séechee l'enfant. ou. a natureza não dá saltos.

:muma inteligência prática. adaptação. Neuchã. é levado a «reintroduzir no próprio terreno que escolhera uma das noções centrais da psicologia do pensamento lógico». 74 75 . Claparêds define a inteligência de um ponto de vista biológico e funcional. lógica. Nos animais. A inteligência é associada a todos os poderes da vida. a gênese da sua teoria aparece claramente num estudo que consagrou à obra de :mdouard Claparêde.I ' Em todo o caso. a sua forma mais coerente. O comportamento adequado do animal e da criança de tenra idade não se reduz à acção cega dos instintos e dos hábitos. seu mestre. pelas sanções externas do êxito e do fracasso. que não requer. A inteligência é uma estrutura biológica entre outras. 21-22. Reagindo contra o associacionismo. sem estruturação prévia ou concomitante. obede- cendo à lógica. para conduzir a um princípio explicativo tão geral que nada é explicado! Wallon destaca de cada uma destas duas teorias o que ela contém de positivo. a esta capacidade de combinação e de invenção. A sua organização progride por selecção. A situação a que responde então o indivíduo não é essa realidade objectiva que o intelecto situa fora de nós. à fórmula universal de todo o sistema de equilíbrio: assimilação. (') De l'acte à Ia pensée. :mverdade que a inteligência aparece antes da linguagem. Com efeito. Muito pelo contrário. para ser definida. os seus esforços consistem em tateios. é uma adaptação às novas circunstâncias. a inteligência das situações (na condição de não incluir as puras situações mentais).. Contudo. mas a própria vida é assimilação. A sua função consiste em suprir a insuficiência das adaptações inatas ou já adquiridas.tel. acomodação. A teoria pragmatista da inteligência assume. Delachaux et Niestlé. a todos os seus níveis. Claparede designa por este termo de implicação 2capacidade de relacionar uns com os outros os dados da experiência. 1946 . «um campo perceptivo sempre transformável onde os incitamentos vindos (0) gogie Introdução de Jean Piaget à P8ychologie de l'enfant e Péâade E. p. em Claparêde. E o esforço de Piaget no sentido de «tornar lógico» o biológico não é feito com o objectivo de suprimir as objecções! Se o esforço de Piaget tende a ultrapassar a teoria intelectualista tradicional e a teoria pragmática é. mas um concurso de circunstâncias vivido sincreticamente. deve falar-se da inteligência ao surgir uma conduta para atenuar a insuficiência dos automatismos «quando os movimentos espontâneos e nus do animal não podem permitir-lhe alcançar o seu objectivo» (D). a noção de implicação (8). os critérios do raciocínio e os meios de introspecção. implicação. não uma revira volta da sua teoria. A inteligência. 16. Claparêde. expérimentale. mas também em todas as idades da vida observam-se actos cujo carácter de dependência imediata os torna írredutíveis a qualquer forma de raciocínio. nas crianças. ao fundear a implicação «sobre uma assimilação sensório-motora que atribui de imediato aos dados perceptívos uma significação em função do esquema motor da acção». mas automatizadas. melhor ainda. em ensaios e erros. para sublinhar o essencial. Mas a introdução deste termo é uma rectificação. não pode contestar-se o título de intelectuais a esta intuição variável e apropriada das circunstâncias. Nos seus níveis mais modestos. afinal de contas. Piaget chama-nos a atenção para o facto de Claparêde rectificar nas suas últimas obras a sus perspectiva inicial sobre este assunto: ao admitir que nenhuma tentativa se subtrai inteiramente a uma dada direcção. Wallon retém da teoria de Piaget que a mesma é «assimiladora» . quer no plano da biologia quer no plano da lógica. p. ou. A implicação dos dados percebidos realiza-se de forma imediata por coalescêncía. tomo lI. li: Piaget quem opera a reviravolta. Suíça.

a sua razão de ser confunde-se com a suaexecução presente» (13). A' inteligência díscursiva. 17.'~r--. por mais subtis que sejam os gestos. na medida em que é uma modificação nas formas de operar: começa «com a necessidade do rodeio e sua descoberta» (11). ao comportamento sensorimotor. . que tinham sido a única preocupação da concepção tradicional. «Em lugar de se fundir com o real para realizar estruturas que organizem os seus dados consoante fins úteis.ra-se na estrutura que une ao objecto o desejo do sujeito. em ter desembaraçado a psicologia das ilusões introspectivas. o acto antes do pensamento. Por mais engenhosos que sejam os rodeios.sée. 17.en. são ignoradas ou desconhecidas na nova perspectiva biológica. conDe l'acte à Ia pensée. Para ela. entre a inteligência das situações e a inteligência discursiva pode distinguir-se uma diferença essencial. Distingue-se do instinto. Em lugar de ordenar entre si Os elementos concretos de uma situação. um certo «poder constelante que opera pela atracção mútua do real e dos impulsos correspondentess. a combinação dos meios não passa da aplicação dos recursos actualmente fornecidos pela disposição dos lugares e das coisas. nas suas primeiras formas. nomeadamente na sua obra sobre les Origines de Ia pensée chez l/enfon». de substituir a intuição do mundo pela sua representação. ou sensorimotora. Quer dizer que «se esgota inteiramente nas circunstâncias que utiliza e nos resultados que produz. De l'acte à Ia pensée. mas a uma descrição das duas inteligências. o pensamento dá-lhe um duplo no plano da representação. a um exame puramente ideológico das duas concepções contraditórias. Mas o perigo de tais estudos residia na tentação de reconduzir mecanicamente o pensamento ao acto. assinala o limiar decisivo entre a inteligência prática e a inteligência discursiva. Bem entendido. o estudo destas condições formais da inteligência verbal e discursiva. 123-124. r. p. O aspecto francamente positivo dos estudos consagrados desde o fim do século passado à inteligência prática no animal e na criança consiste em ter inaugurado uma verdadeira perspectiva genética. servando O contributo positivo dos trabalhos anteriores sobre a inteligência prática. distingue-se simultaneamente do instinto e do entendimento. pelo contrário. eit. Distingue-se do entendimento na medida em que não procede por análise.pondem à actividade total do momento» (1). VIII. Na verdade. o ser antes da consciência. 76 77 . A combinação dos movimentos nada mais exprime que o poder de manejar o campo operatório. p. Les Origines ele Ia pensée chez Venfant . onde a inteligência se define como função de adaptação ao real.a inteligência. IX. Les 01'igines de la pensée! t. pelo seu duplo. e reposto. A inteligência das situações. O aparecimento da função simbólica. em reduzir cada momento do desenvolvimento ao momento anterior. A inteligência da situação encont.=. é intuição plástica no instante presente. mas num conjunto dinâmico «onde faetores subjectivos e objectivos formam uma unidade indivisível» (12). opera sobre símbolos ou com a ajuda de símbolos» (H). . começando por levar o contraste tão longe quanto pode. ob. Não se entrega. ao passo que é evidente que este limiar separa radicalmente o homem das outras espécies animais.p. as condições formais do pensamento. p. assim. até fazê-Io coincidir com o efeito a obter.das coisas só entram ao se organizarem em sistemas que re. aliás. p. Com efeito. Wallon remete para primeiro plano. é o meio de escapar à ordem actual das coisas. Deste modo. segundo o raciocínio post hoc propter Me. ou prática. já (13) (H) ('0) (") (") De l'aete à Ia v. esse poder de operar sobre puras significações.

é evidente que a criança não tem imediato acesso à omnipotência da função simbólica. t. por enumerações.aliás. cito Les Origines de Ia ~nséel t. associações. a imitação é um tema tão importante. mesmo no adulto. de afinidades ou de oposições que precedem o momento em que receberá .. a coexistência da intuição e da representação não se limita a dar conta dos obstáculos que a criança deve ultrapassar progressivamente. ob. da qual a linguagem. Acentuar as diferenças não é. A coerência do pensamento consigo mesmo. cito '(9 78 . a imagem e o conceito. na percepção. estruturas anatómicas e funcionais.. 147. a sua incontestável colaboração. A intuição nunca perde a sua função positiva e os seus direitos. (") De l'acte à la penséel p. assegura também a nossa adesão ao real: o acto intuitivo permite em certos momentos orientar a intelecção e ultrapassá-Ia. :m uma fonte social de conhecimento e de pré-eonhecimento claramente distinta da fonte sensório-motora. Por outro lado. E esta passagem da inteligência prática à inteligência díscursiva constitui. ob. antes de se tornar o instrumento por excelência da análise conceptual. é o indispensável substituto . na acção. (18) De l'acte à la pensée. Deste acto essencialmente intuitivo e assimilador que é a inteligência sensório-motora não pode resultar «essa outra forma (") ('0) (17) da inteligência que. são como que noções-chave da psicologia walloniana. cito Les Orig. Finalmente. e do pensamento com as coisas é uma conquista muito lenta. da qual se pode dizer. para Wallon. :m que. A linguagem. o eu e o outrem. A linguagem. 1. A actividade que prepara esta passagem é a imitação. I. p.. desconcertantes para todos os teóricos que recusam o contraditório. E. ob. 1. tão frequentemente retomado sob diversas perspectivas como o tema da emoção. Na obra de Wallon. uma vez transposto o limiar crítico.a separação não aparece tão claramente no desenrolar da infância humana. p. de refazer as suas impressões perceptivas. advertências. e novas condições de vida possibilitadas por essas novas estruturas. negar que a passagem se opere de uma para a outra.. «permanece envolvida em toda a espécie de ligações sensorimotoras e afectivas» (16). os seus primeiros comportamentos «trazem já o reflexo das relações às quais a palavra e o dom de imaginar as coisas servem de instrumento indispensável nas relações humanas» (lõ). Pelo vocabulário e pela sintaxe «contém em potência um mundo de relações. o sujeito e o objecto. Aquelas em que melhor se afirma a originalidade e o génio da sua análise. significações precisas» (19). Ora. que nunca está terminada verdadeiramente. contudo. como já o dissemos. p. 129.ines ele la pensée. ob. A passagem de uma à outra exige faetores novos. Na medida em que a criança se orienta para o meio humano de que depende a sua subsistência e a sua existência. Irredutíveis a todo o princípio unívoco. nomeadamente. expressa ou íntima. desde os primeiros estádios no seu desenvolvimento. proporciona à criança o meio de agrupar. t. 146-147. :m que a imitação e a emoção são comportamentos essencialmente ambívalentes. a criança é submetida às influências do meio que se antecipam ao poder de colocar a actividade motora ao serviço da representação. a coexistência das duas inteligências. fazendo dela uma compreensão ou uma evidência novas (17). a linguagem tem as suas condições próprias de existência e de desenvolvimento. IX. o problema essencial. em que cada espécie de relações tende para uma fórmula explícita» (18). no entanto. se exprime por instruções. cito Les Origines de la pensée. e como que as matrizes de todas as dualidades futuras. 17. p. a sucessão genética de uma para a outra não autorizam a concluir que provenham pura e simplesmente uma da outra.

com factos. compreender e seguir Wallon. desconcertante pela sua abundância e pela forma como se oferece. cito 80 6 81 . tanto está implícito na coerência da linguagem como na 'coerência do movimento. p. Tal como a realidade psicológica que quer abarcar. na verdade. deixando de se confundir com o espaço dos nossos movimentos e do próprio corpo. num resumo crítico? E. 131. não basta constatar que a imitaç-ão é uma actividade através da qual se realiza a passagem de uma forma de inteligência a outra. a inteligência discursiva e a inteligência das situações. 'com novas perspectivas. parece sublimar-se em sistemas de lugares. Para lhe sermos fiéis. E é neste contexto. o desdobramento. ob.Não basta sublinharmos que se a imitação é descrita por Wallon como algo que assegura a passagem entre as duas formas da inteligência é porque. um fundo comum às duas inteligências que a permita e que a explique . E aquilo que pode parecer redundância é um aprofundamento progressivo. comentar-se. (") Actas do Congresso Internacional de Psicologia (Paris. Só Wallon pode repetir Wallon. «De orientação inversa. ainda que uma opere no plano das representações e dos símbolos e a outra no plano sensorimotor. se ainda o não fez. Esta teoria do espaço como fundo comum a toda a inteligência e como condição de passagem encontra-se já claramente desenvolvida. a representação que ela acaba por opor ao modelo. que Wallon termina a sua obra com esta frase lapidar já citada: entre o aeto e o pensamento. Os graus desta sublimação vão desde o mais concreto ao mais abstracto e encontram-se na base dos diferentes esquemas com a ajuda dos quais a nossa inteligência pode classificar e distribuir as imagens concretas ou os símbolos abstractos sobre os quais se torna capaz de especular» (20). demonstrações multiplicados de uma para outra obra. e a cópia. ainda que parcialmente. ambas pressupõem a intuição de relações cujo terreno é o espaço» (21). no entanto. na sua génese. Mas o espaço. Tanto para uma como para o outro é necessário um certo poder de intuição espacial. em suma. na suo obra de síntese De I'octe à la pensée. ":m indubitável que o espaço imaginado e o espaço motor são realidades distintas entre as quais pode haver oposição e conflito. pertence a ambas. esta teoria do fundo comum é retomada. p. uma por momentos sucessivos e a outra pela apreensão e utilização globais das circunstâncias. Cinco anos mais tarde. a alienação de si próprio. um certo ordenamento. algumas linhas mais adiante. desenvolvida. é porque se inscreve entre dois polos contrários: a fusão. 1937). exemplos. Oxalá possa incitar o leitor. Esse fundo comum é o espaço.. é esta riqueza de ideias e de factos. numa comunicação de Wallon ao Congresso Internacional de Psicologia: «A passagem (da actividade psicomotora à actividade mental) parece produzir-se no instante em que a noção de espaço. em 1937. (21) De l'acte à Ia pert8ée. multiplicando as citações. É preciso também investigar as condições dessa passagem. de posições e de relações que nos são independentes. sendo-lhe consagrados um capítulo inteiro e as últimas linhas de conclusão. o pensamento de Wallon não se deixa reduzir a proposições simples. No entanto. a participação no modelo. para não trairmos os seus meandros e os seus matizes. que permitiria. A imagem que transmiti não passa de um pálido decalque. caímos facilmente no defeito da paráfrase. a estudar o modelo. a evolução explica-se simultaneamente pelo oposto e pelo idêntico. Como seria possível transmitir a riqueza das Origines de Ia pansée chez l'enfanu. retomamos as suas fórmulas. isto é. de contactos. 250.

pensée chez t'enfant . nenhuma das quais é negligenciável. Mais de uma das observações contidas na obra tem o cunho da própria vida. Apresenta-se com uma multidão de sentidos que o autor destaca. Não que as observações sejam mais numerosas do que é costume encontrar num estudo clínico. de lo. o rigor de um instantâneo fotográfico. Riqueza de ideias e riqueza de factos. Presses 83 . como acontece com Piaget ou Gesell. O leitor não está habituado a tanta riqueza. Wallon. Neste caso. por exemplo. 1945. Não tem. ao longo do seu trabalho. A obra de Bachelard. consoante perspectivas sem cessar renovadas. Les origines Universltalres. é mais fértil em neologismos e descobertas. como também sobre os destinos espirituais do homem. o enriquecimento provém de sugestões proporcionadas por algumas descrições (1) H.CAP1TULO V AS ORIGENS DO PENSAMENTO SEGUNDO HENRI WALLON A última obra (1) de Henri Wallon constitui uma tal soma de observações e de reflexões. A riqueza de ideias não reside também na quantidade excepcional de noções explicitamente novas. que o pobre critico nem sabe como começar a sua análise no caso de ter realmente lido as suas setecentas e cinquenta páginas. não apenas sobre a infância. Paris.

as suas imagens.Não. Para que admita que os morangos possam não ser encarnados e que o encarnado possa ser a cor de quaisquer objectos. Sem a relação inicial que é o par. Mas se o par contém. quer no acesso às ultra-coisas. ~ Que é o vento? . E torna-se então um problema insolúvel compreender a unidade e a diversidade que o acto de conhecimento simultaneamente pressupõe. essa dupla condição de saber.que nos obrigam a modificar o ângulo sob o qual estávamos habituados a encarar a infância e. ou com as subtilezas de um sistema filosófico. Estas descrições conduzem nomeadamente Wallon a falar de pensnmento-por-por e de ulira-coisas. Ingenuamente. no exemplo 'em que a criança pro- cura definir a chuva e o vento é bem evidente (com esta fórmula de identidade e o sentimento de alterabilidade) o seu duplo carácter de unidade elementar e de diferenciação. o par contém já em si o uno e o diverso. pelo contrário. será necessário que substitua a percepção das coisas. seria impossível todo o edifício ulterior das. não é de átomos que devemos falar. Então. ou melhor. ligação.É chuva. tarefas essenciais da razão (Tomo TI). a génese do homem. No plano da vida prática e da linguagem. as suas observações. Com efeito. imagens. segundo Koffka. mas de moléculas. Ora. «Na medida em que o encarnado é a cor do morango.a mais simples das estruturas é anterior ao elemento isolado. e. são fragmentadas entre os pares que são simultaneamente a condição e a negação de uma verdadeira actividade categoria!. . a criança considera os dois termos de tal modo equivalentes que só o morango pode ser encarnado e que o encarnado do morango é o único que é encarnado.É o vento. relações». quer no das suas actividades classificadoras e explicativas. é-o também no que se refere às noções intelectuais. «Qualquer termo identificável pelo pensamento. de uma forma mais geral. idéias. pelo facto de pertencerem a vários pares. o preconceito do adulto faz-nos conceber a vida psíquica como uma combinaçãocada vez mais complexa de elementos simples. nitidamente individualizados à partida. Será necessário que ao contacto da experiência os pares interfiram e se rompam e que os termos. a condição necessária da diferenciação. .» Quer seja no estudo dos meios intelectuais da criança (Tomo 1). o pensamento é estrutura. A chuva é vento. as quais inicialmente. A reflexão da criança. por séries de algum modo ideais em que cada uma delas. é a diferenciação interna que dá conta ao mesmo tempo da forma e do conteúdo. em relação ao qual seja diferenciado e ao qual possa ser oposto. exige um termo complementar. um obstáculo a esta diferenciação. relação. a sua individualidade e é isso que ilude o adulto sobre o valor dos meios intelectuais da criança e sobre as próprias origens do pensamento. O par . Se quisermos um termo de comparação com as ciências físico-químicas. Assim. pensável. constitui também. correspondendo uma ao acto intelectual e o outro à sua matéria. por exemplo. isso não significa admitir que esse encarnado permita associar o pião ao morango . a chuva e o vento são a mesma coisa? . não é a mesma coisa. é certo. como sistema fechado.. diz uma criança de seis anos. desde a sua origem.. o facto a explicar na génese do pensamento não é o acordo entre dois termos distintos. cada uma das suas qualidades possam ser classificadas.Então é a mesma coisa? .pergunta-lhe o psicólogo. são apenas reconhecidas por contraste. adquiram uma independência e uma disponibilidade tais que se tornem as categorias e as qualidades graças às quais todas as coisas possam ser situadas e classificadas. deparamos sempre com tendências eontraditó- 8q 85 .Não. sensações. O que é verdade no que respeita à distinção entre as cores. Se no momento seguinte chamar encarnado ao pião.Que é que não é a mesma coisa? . 'como estrutura que é. à própria evolução do pensamento. . as suas descrições. os termos de chuva e de vento têm já.

Mas este. Na verdade. etc. Mais exactamente. para combater o seu materialismo. a função só pode consolidar-se num conjunto evolutivo. Não é contestando a existência de tal tipo psicomotor. Mas estas objecções inscrevem-se na própria perspectiva que descobrimos através de Wallon e é imposta pelos factos. uma tomada de consciência das suas perspectivas marxistas. Não é um novo sistema filosófico que nos é proposto. teria objecções a apresentar sobre: a pretensa precocidade das perguntas espontâneas sobre o nome das coisas e dos lugares. que o comentador fará uma crítica eficaz e fecunda. Henri Wallon é marxista. A sua célebre tese sobre o Enfant turbuleni. o que permitiria distinguir. a obra experimental de Wallon descobre e confirma. 'como o físico em relação ao orgânico e ao social. por outro lado. é preciso ser capaz de pensar as contradições que a realidade nos apresenta. Mas as hipóteses da ciência em nada se parecem com um agregado mecânico e os defeitos de um pensamento vivo não são mortais. os seus estudos sobre a motricidade. mas também por uma honestidade prudente e escrupulosa. e. à partida. Por conseguinte. sem receio de se comprometer. Não porque o autor o oculte: vários artigos de metodologia preveniram claramente o leitor. já não é possível. reduzir as estruturas intelectuais do pensamento às estruturas orgânicas. Como crítica geral. acha mais simples ou mais tranquilizante ver nisso uma manifestação filosófico-política exterior à obra científica. essa visão das coisas que Marx e Engels aplicaram há um século no plano de economia política e das ciências da natureza. na sua obra. uma crítica coerente de Wallon exigiria.rias e é nestas contradições que entrevemos o dinamismo de uma razão conquistadora. de um modo geral. Com efeito. censura-se a Wallon que seja organicista. Não há dúvida de que «no decurso do seu desenvolvimento. reduzir o físico ao fisiológico. Toda a riqueza de que falávamos há pouco encontra-se nesta realidade que uma filosofia preguiçosa e uma lógica demasiado simples deixavam até então escapar. 0 facto é que sempre distinguiu entre estas condições e o próprio fenómeno que constitui uma realidade original. Com efeito. Eu. na psicologia. 87 . por exemplo. é quase sempre pelo pormenor que os trabalhos de Wallon são discutidos. o que não se consegue sem uma ruptura violenta do nosso conforto intelectual. por exemplo. Não é uma dialéctica verbal. Mas o método marxista corresponde tão mal à sua miragem convencional e. ou a validade desta ou daquela expressão. no estado actual dos nossos conhecimentos. a psicologia corresponde tão pouco a uma transposição da sociologia marxista que o leitor não avisado. cujas condições são orgânicas». ensina-nos Wallon. talvez. Daí a confusão dos críticos. preconceitos e pré-noções. se Wallon mostrou tudo quanto pode ser proporcionado pelo estudo minucioso das condições de existência de um fenómeno. ao ler Wallon. mas o universo mental despojado das suas ilusões milenárias com todos os seus aspectos ainda obscuros. não parece pos86 sível enveredar pelas vias desbravadas por Wallon sem adoptar de boa vontade ou forçadamente uma atitude marxista: em primeiro lugar. dialéctica essa difícil e para a qual a nOSSarazão ainda não tem suficiente flexibilidade. o paradoxo das acusações. A obra de Wallon não se caracteriza apenas pela audácia revolucionária que demole. Mesmo admitindo que o organicismo tenha constituído um progresso no estudos dos factos psíquicos. a pretensa atitude solipsista da 'criança. Podemos estar em desacordo com Wallon sobre alguns pormenores de observação e de interpretação. corre o risco de fazer marxismo sem o saber. mas a própria dialéctica das coisas. o seu artigo sobre a função biológica da consciência no Traiié de Dumas valeram-lhe esta reputação. entre o essencial e o adventício. como se o comentador não fosse capaz de apreender o seu todo ou como se se tratasse para ele de descobrir «o defeito da couraça».

em que idade aparece? Não será anterior ao homem. de pertencer a um mundo de causas e de efeitos que já não são de natureza orgânica. :m sobre este próprio termo de pensamento que talvez haja motivo para dissipar um mal-entendido. Levar tão longe quanto possível o estudo das condições orgânicas e sociais. mas como uma conduta original num mundo em que constitui verdadeiramente uma novidade. explicar sem empobrecer. encontrar ai uma afirmação do real e a existência de uma conversão da nossa lógica. um plano da realidade em que o psíquico não se define nem como substância material.em psicologia . Entre os dois sistemas de condições orgânicas e de condições sociais existe uma margem para a actividade de todos e de cada um em que «as combinações de objectivos e de aptidões.ao aniquilamento. Em suma. 'a qual é. e que mais tenha contribuído para definir experimentalmente a existência de um plano original dos comportamentos individuais. o fenómeno às suas condições de existência. Acusam-no de ser íntelectualista por ter estudado «as origens do pensamento» sem ter descido às profundezas abissaís que a psicanálise nos deixa antever. Mas. Não considerar como um fracasso da razão essa impossibilidade de reduzir totalmente o complexo ao simples.ournal de Psychologie~ «pensamento» serve para designar toda a conduta que exige rodeios. pelo contrário. aceitar a filiação biológica do psiquismo sem nada negligenciar da sua originalidade. admitir. uma vez existentes. entre a coacção e a liberdade». em que as montagens «instintivas» não bastam . Não existe autor que tenha defendido mais energicamente. E é desta dependência que deriva a impossibilidade de desenvolver na criança mediante simples exercício aptidões ainda não amadurecidas. a propósito do seu último livro. como se esforçam. Mas esta dependência e este condicionamento não impedem as funções psíquicas. Re- pelir ao mesmo tempo a . a estrita causalidade das condições materiais e os aspectos originais de uma génese.pseudo-explicação das virtudes e dos princípios. o de Wallon. Que é o pensamento. num primeiro caso. e a explicação parcial que. tanto contra os organicistas como contra os sociólogos. conduz dnevitavelmente . nem como substância espiritual. de incidências em cascata são susceptíveis de todos os graus entre o conformismo e o políformismo. se. a possibilidade de fenómenos novos. 88 89 . por demonstrar os colaboradores do J ournal de Psychologie no número especial que consagraram ao «Pensamento dos animais»? Trata-se de uma questão de definição. em que «pensamento» é definido como inteligência verbal e discursiva: o termo de pensamento é reservado a uma forma nova de inteligência na evolução das espécies e na história da criança. ao que parece. contudo.e. em toda a génese. nos primeiros anos da actividade escolar?» Nos trabalhos anteriores. e 'ao mesmo tempo. Deverá entender-se por isso que a obra não corresponde à promessa do seu título 'Ouque Wallon situa as origens do pensamento «no período que vai dos 6 ao 8 ou 9 anos. Apreender numa perspectiva ousadamente genética e dinâmica. aceitar como tais as contradições do real. isto é. e por ter negligenciado as fontes mais antigas da infância. reduzindo o efeito à causa. uma outra forma de crítica diametralmente 'Oposta. o do J. a existência de uma realidade psíquica irredutivel a outros planos da realidade. Esta margem define o domínio próprio da psicologia. a que se liga a sua última obra.não há dúvida de que «a evolução psíquica não pode antecipar-se às estruturas orgânicas». evitando explicações em que a emergência se tornaria um deus e» machina. de reacções recíprocas. no segundo caso. muito importante. Wallon estudou com bastante firmeza a determinação afectiva da inteligência para que se possa hoje legitimamente acusá-lo de ter negligenciado as fontes mais antigas e mais profundas do pensamento. Mas eis. e nomeadamente nas Origines du caractêre.

o estudo da evolução afectiva não pode dar conta da evolução intelectual. de rivalidade e de admiração. Mas subsiste o problema de saber como se opera a passagem entre esta inteligência (animal) e as construções variáveis da inteligência explícita. por conseguinte.Assim. A «análise» de Freud não dispensa a análise lógica dos comportamentos. o melhor meio de evitar a intervenção sub-reptícia de princípios que nada podem explicar. Wallon. ao mesmo tempo que as faculdades da psicologia clássica. pela sua sensibilidade. às fixações da líbido que a criança deve ultrapassar sucessivamente na sua evolução afectiva. o método consiste em constatar a passagem entre formas diversas de existência re. tal é o exemplo dado por Henri Wallon. neste ponto. pelos seus desejos. e que o facto de aplicar este mesmo termo às condutas inteligentes do animal ou da criança de mama não constitui uma explicação e. em acentuar as dijerenças. uma descrição do pensamento. Torna-se então perfeitamente compreensível que autores de inspiração freudiana como Juliette Boutonier tenham alguma dificuldade em aceitar uma descrição que demole. discursiva. chegado ao estudo desta etapa. os novos mitos da libido. à aprendizagem da escrita e da leitura. a sua descrição não discorda muito da dos psicanalistas.. a novidade desta idade é o nascimento daquilo que os autores chamaram diversamente razão conhecedora. ainda que devam ligar-se na perspectiva de uma psicologia integral. Aliás. Parece a muitos que ter suposto o pensamento em toda a parte é ter explicado. e de todos os entraves de um pensamento sincrético.91 . menos ainda. Wallon não desconhece certamente o contributo da primeira infância. teórica. desde as primeiras linhas da obra. Na-s Origines de la pensée chez l)enfant) assim como no conjunto da sua obra. inteligência especulativa. sempre em função do mesmo grande princípio de impulso vital. vai empenhar-se em acentuar a diferença) em estudar positivamente as novas condutas naquilo que têm de novo. de descarnalizaçâo. estudou longamente o papel primordial da afectividade no aparecimento das funçõe-s cognitivas. surge a atitude dialéctica. pois com eles e-stão já pressupostos todos os efeitos a explicar». Este problema é o «único que importa. Descrição sobretudo negativa. . E a novidade desta idade. » Por conseguinte. que corresponde ao princípio da actividade escolar. a acção complexa dos sentimentos de amor e de ódio. Em todo o caso. mas é igualmente evidente que o pensamento. E os próprios psicanalistas conhecem bem a demarcação da idade escolar de que se vai servir para definir uma etapa nova: período de 'calma sexual. na formação da personalidade moral e intelectual. não restam dúvidas. para a criança ligada às coisas pelos seus actos.: Para Wallon. é bem evidente que o pensamento assim definido se encontra na filiação da inteligência animal e mesmo das reacções mais elementares da vida. 90 de latência. o simbolismo complexual não tem mais relaçõe-s com o simbolismo operatório do que a poesia com as matemáticas. como comportamento verbal e discursivo. o qual se esforça sempre por conciliar o rigor do experimentador com a intuição do clínico. e no seu próprio título. só ele tem um sentido . o poder de operar «sobre símbolos ou com a ajuda de símbolos». constitui uma realidade nova.. As contaminações do afectivo e do racional e a sua determinação recíproca serão tanto mais evidentes para o psicólogo quanto melhor ele for capaz de se isolar das contaminações. mesmo que os níveis de desprendimento intelectual sejam comparáveis. que aqui ele é ainda «uma superstição do mesmo». «Esse é. como sugere Wallon. mesmo que nos dois casos se trate. de reduzir a sua união com elas.

uma calorosa homenagem.CAPITULO VI WALLON. e no tempo limitado desta homenagem. da minha parte. um incitamento a encontrar o próprio Wallon. PSICôLOGO DA INFANCIA Wallon. outros eminentes psicólogos da infância. sem esquematízar. imperícia. Como transmitir esta riqueza? Como dizer. o que ela tem de originaâ. numa lógica demasiado simples. é necessário poder situá-ia na história da psicologia e compará-Ia com as obras dos seus 'contemporâneos. o meu discurso será uma lembrança. 93 . Para apreciar a obra de Henri WaHon. uma qualidade indissoluvelmente ligados. espero que 'constitua uma introdução a esta obra. o que foi em Wallon um esforço perpétuo para nos arrancar à preguiça das palavras e dos pensamentos habituais? Isso não é possível. pelo menos para mim. Um nome. sem trivializar . a 'despeito da eventual imperfeição. Para O'S outros. Para aqueles que já conhecem bem esta obra.sem 'correr 'O risco de traduzir em frases demasiado banais. psicólogo da infância. Uma vida. uma obra. uma alusão. Para todos nós. de inovador. o que foi esta obra. cuja riqueza me perturba e desconcerta.

Em 1925. Wallon não é umcoleccionador de factos como foi Gesell. Duas mentalidades totalmente diferentes. Claparêde e muitos outros. a duração criadora de formas novas. pois os seus contributos científicos não são apenas uma pedra. de forma. é porque a nossa lógica habitual é uma lógica do estático. Não. a abertura de perspectivas insuspeitadas. E nada ganha- 94 95 . Dois mundos à parte. um homem que sabe reflectir nas tomadas de posição do espírito face à realidade . Uma longa tradição pedagógica e psicológica. a obra de Wallon aparece como um esforço no sentido de ultrapassar a contradição das duas teorias em presença: a teoria do homúnculo. melhor ainda. podia então concluir: «O espírito da criança será sempre para nós impenetrável». Gilbert Robin. E a coerência de uma eXPlicrão não basta para fundamentar o seu valor. distintas. que apresentava a criança como uma imagem reduzida e imperfeita do adulto. Seria também necessário analisar as condições e o mecanismo desta metamorfose. WaUon é um observador. toda uma geração de psicólogos contribuiu para explicar a passagem da criança para o homem. aliás.pela sua primeira obra escrita em 1925 . desta conversão total. E. elaborou um inventário muito mais completo sobre os comportamentos da criança do que aquele que nos foi deixado por Wallon. Wallon aparece-nos como um inovador. descrevendo minuciosamente as etapas desta passagem. arcaica. aliás. modificar estas tomadas de posição para se destacar das ideologias e abarcar o real com cada vez mais verdade e eficácia. aliás . Um autor 'ComoPiaget. como um criador da psicologia mais que qualquer outro. Ã força de afirmar a orígínaíidads irredutível da criança.posto a circular a noção de egocentrismo que reforçava a teoria das mentalidades heterogéneas). e a teoria das mentalidades distintas. magistral. mas também um filósofo no sentido mais profundo e mais válido do termo . Enfim. um clínico. não pretendo que Wallon tenha sido o único a tentar este esforço. Evidentemente. Assim.isto é. construiu através de uma quinzena de obras uma teoria da inteligência cuja sistematização nada tem de comparável na obra de Wallon. do intemporal. se o crescimento nos coloca um problema. ou. a criança como redução do adulto. a psicologia da criança encontrava-se numa espécie de impasse.e que sabe criticar. quando Wallon começa a publicar. com Dewey. mas provocam uma reorganização neste edifício. heterogêneas. afirmada noutros domínios para opor a mentalidade dos primitivos à do civilizado. estabelecera-se um corte radical entre a criança e o adulto. Mas descrever não basta para explicar. De tal forma que um psicólogo-médico.Um autor como Gesell. é porque não sabemos pensar a duração verdadeira. fazer intervir não sei que metamorfose para dar conta desta passagem é uma solução puramente verbal. Wallon não é um autor 'de síatema icomn Piaget. tradição proveniente de Jean-Jacques Rousseau. esta teoria opunha-se agressivamente a uma atitude tradicional. conduzia à teoria das mentalidades heterogéneas. Na mesma época. li: perfs itamenteevidente que a criança se torna homem. Montessorí. um tijolo novo no edifício comum. um homem de intuição tanto e mais que um experimentador. nos Estados Unidos. Na perspectiva deste problema. sem que o problema tenha sido sempre claramente formulado. na Suíça. Nenhuma t oria pode nada contra isso. Também Piaget se empenhou explicitamente nesta 'via (não sem ter. para opor a consciência mórbida do doente mental à consciência do homem são. No domínio da psicologia. se apenas sabemos opor a ideia de conversão brutal à ideia arcaica do homúnculo. esta mesma heterogeneidade era.

do que a oposição do indivíduo à sociedade de que procedem ideologicamente. nada sabemos dos seres que duram. anexando WaUon às suas próprias fileiras. na criança. com esse gosto pelo risco sem o qual a ciência é estéril . A duração bergsoniana é ainda uma abstracção. e que. condições essas tanto orgânicas como sociais. mas porque me parecem no homem tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica que não seja sob a forma 'das suas relações recíprocas». que a duração é o elemento da reaiidade. se edifica um plano novo de realidade que é o psiquismo. •. investigando as contradições reais e como estas contradições podem constituir por si mesmas um motor da evolução da criança. jamais pude díssocíar o biológico eo social} não 'porque os creia redutíveís um ao outro. mas também criticando. A atitude de J. através destas condições. condição um 91 7 96 . Um tal problema não se resolve mediante uma pura dialéctica verbal ou uma simples acumulação dos factos. em contacto com os factos. pois afirmou a existência de um plano psíquico original. da sua intuição de observador. mas não na forma unilateral e mecanicista do materialismo tradicional». ou de sociologismo. Acusam-no então de organicismo. naquilo que têm de absoluto. muitas vezes. outros fazem o elogio do seu espiritualismo. Wallon faz uma afirmação decisiva: «Na realidade. diz. Certos comentadores. aliás. nas condições reais. Henri Wallon debruçou-se sobre o problema da génese do espírito. a oposição do biológico ao social. Assim. Procede de um espírito de rebelião que se exprimiu no século XVIII pela ingénua oposição do indivíduo à sociedade. Com ela. acrescehta. dissipando as ilusões ideológicas que prevertem a nossa visão das coisas. É que. Em resumo. Contudo. uma reforma da nossa razão emcontacto com as coisas e para a sua conquista. «é assimilando-a a si que o adulto pretende penetrar na alma da criança». Em todos estes indivíduos e.utilizando todos os recursos da sua formação médica. materiais da sua existência. o qual. Rousseau e de todos quantos o seguiram não é mais válida. Com lucidez e paciência. um aniquilamento das componentes neurológicas e sociais do desenvolvimento em benefício de não sei que confuso psicologismo. O seu método consiste em estudar as condições ma- teriais do desenvolvimento da criança. Segundo a sua tendência essencial e mais profunda. finalmente. existe uma incapacidade de compreender que a dialéctica waíloniana não pressupõe de modo algum uma mínímízação e mesmo. muitas vezes. uma reflexão. diz. Os comenta dores de Wallon.remos se dissermos. Sou «pelo organicismo. a personalidade. e a 'ver como. apresentam as suas explicações neurológicas como um erro de juventude que ele teria posteriormente renegado. A sua solução exige que se aplique aos factos uma interrogação. Wallon vai repensar estas 'Oposições. Wallon explicou-se numerosas vezes a este respeito. como Bergson. se opere uma reforma ou uma abolição das distinções 'Ou das categorias intelectuais do passado que podem opor-se à nossa 'compreensão das coisas. A oposição da criança ao adulto. pelo contrário.-J. no caso extremo. não são mais válidas. «as necessidades do seu organismo e as exigências soc~_ são só dois polos entre os quais se desenvolve a actividade do homem». na melhor das boas-fés. limitaram-se a apreender um momento deste método. Relações recíprocas? Quer dizer que desenvolvimento biológico e desenvolvimento social são.vai ultrapassã-Ias. E esta pretensão é vã: limita-se a descobrir na criança uma projecção de si mesma. o acusava de ser soeiologista. por ocasião de uma controvérsia com Piaget. E. dos seres na sua encarnação. e as suas descobertas ilustram perfeitamente o método que seguiu. historicamente.

Recolocada numa perspectiva genética. mas definiu o seu domínio e as suas perspectivas de uma forma muito ampla. Wallon definiu-se a si mesmo como um psicólogo no sentido mais completo do termo.é uma descoberta fundamental de WaHon. Mas. Mas mais ainda. «Incapaz de efectuar seja o que for por si mesmo. este enxerto muito precoce do social no orgânico revestem-se na espécie humana de uma importância decisiva. Assim. na verdade. afirmou. precisamente. A emoção é uma linguagem antes da linguagem. permitiria descobrir o homem. Mas suprime-se a oposição metafísica criança-adulto. é também atitudes. Os fisiologistas tinham distinguido na função motricidade dois aspectos: o movimento propriamente dito ou actividade clónica e o estado de tensão variável dos músculos ou tónus. preludia as afirmações da personalidade. constituem o estofo das suas emoções. a criança é um ser social. pois 'ligam-se às condições de existência do indivíduo desde o seu nascimento. Nesta perspectiva. Wallon renova profundamente as teorias cientificas da motricidade e da emoção. As atitudes. considerada numa perspectiva genética? A questão pode parecer insólita. psicólogo da infância? Será Wallon. geneticamente. posturas. a emoção esboça o pensamento. Oscila entre um estado de comunhão. ou 99 . recebeu muito pouco da psicologia tradicional. são modeladas pelo adulto e constituem na criança os seus primeiros meios de expressão. WaUon ocupou-se apenas de crianças. de necessidade. As capacidades biológicas são as condições da vida em sociedade . a representação que Ihe é contraditória e não contrária e dá também inicio à distinção do eu e de outrem. um sentido psíquico. 98 Esta «mutação de reacções puramente fisiológicas em meios de expressão». A emoção é 'contraditória nos seus efeitos. modificou os pontos de vista desta última e mesmo os seus princípios. em relação com os seus estados de bem-estar. E emoção é um facto fisiológico nas suas componentes humorais e motoras e é um comportamento social nas suas funções arcaicas de adaptação. uma vez que a criança volta a estar ligada ao homem. de confusão com outrem e de oposição a outrem. Wallon. Em resumo. nomeadamente. permitiria revelar de etapa em etapa o verdadeiro plano da vida mental. a nossa questão deixa de ter sentido. Estudada no adulto. o estudo da criança. Ora as atitudes. à tonicidade. Será. adquire entã:o o seu verdadeiro significado funcional. Tempos houve em que se criavam termos para compartimentar as idades da vida como outros tantos domínios 'distintos: a pedologia.do outro. um psicólogo da criança. o recém-nascido é manipulado por outrem e é no movimento de outrem que as suas primeiras atitudes tomarão forma». Por conseguinte. as posturas. e eventualmente por intermédio de que crises. de indisposição. ao analisar uma génese real. Desde o seu nascimento. sem dúvida necessário estudar através de que dificuldades. O tónus não é apenas um estado de tensão necessário à execução da contracção muscular. Em contrapartida. a emoção dera lugar a teorias múltiplas e contraditórias. Ao confrontar a criança e o adulto. Essa.mas o meio social é a condição do desenvolvimento destas capacidades. Coloca-se devido ao facto de se opor cada 'vez mais frequentemente psicologia da criança a psicologia genética. A originalidade de Wallon consiste em dar à função motora e. Bem entendido. não será antes o promotor de uma psicologia geral. de discriminação. diz Wa:llon. a criança se tornará adulto. A psicologia da criança. O 'caminho está desbravado. Abre-se uma nova perspectiva.

a psicologia da criança subsiste na medida em qUe a infância temcaracteres próprios e problemas específicos. embora as especializações continuem a ser necessárias. a criança constitui um conjunto indissolúvel e original». à imagem tradicional. se inscreve a necessidade social. Por conseguinte. ligando-o a trabalhos manuais». geneticamente. Actualmente. ll:: verdade também que a infância não tem significado fora do objectivo adulto: «A criança tende para o adulto. O que sabemos hoje acerca da psicologia da criança permite-nos compreender que não pode haver questão nem de eliminar o mestre. estamos a passar do período utópico ao período científico. Se a assimilação da criança ao adulto é falsa é porque o próprio adulto é o resultado de uma construção progressiva. construídos sobre ideologias de conformismo ou de rebelião. O ser humano é social. como estes vícios não são os mesmos aos olhos de todos os reformadores. da escola. ou ciência do adolescente. tanto quanto possível o esforço intelectual e façamos passar o ensino pelas mãos. a hebelogia. a nipiologia ou ciência da criança de mama. E cada uma destas afirmações. :€ este conjunto. afirma. Ê viciada pelo desacordo (suposto ou real. E. A educação nova deve às suas origens de rebelião contra as disciplinas autoritárias uma inultrapassável desconfiança em relação à sociedade. depende muito do mestre. evidentemente. o seu aspecto próprio. Para ele. As verdades parciais. entre os direitos da criança e o meio em que é destinada a viver e que se procura preservar. erigindo em absoluto uma verdade parcial. tal como se deduz dos trabalhos e das reflexões de Wallon. mas também não corresponde à imagem moderna ligada ao individualismo do Renascimento ou de Jean-Jacques Rousseau. Uns disseram: «O ensino é autoritário. Este tempo já passou. a concepção de Wallon não é um ecletismo. esta unidade. desde a sua origem. eliminemos o mestre». 1t possível que as soluções propostas tenham sido muito felizes nas suas aplicações de pormenor. conduziu a um sistema utópico. Desta psicologia da criança derivam alguns grandes princípios pedagógicos. durante numerosos anos dos que os rodeiam. desde o nascimento. ll:: feito de tal sorte que a própria sobrevivência seria impossível sem os constantes cuidados. arrancadas aos seus sistemas. l!: verdadeira a afirmação de que as idades da infância possuem a sua originalidade.a sua parte de verdade. não corresponde. do escolar. tomam um novo sentido. Mas a educação nova permitiu que se colocassem problemas. foi uma etapa necessária enquanto se esperava por um conhecimento mais científico da criança. Wallon é ao mesmo tempo psíco-geneticista e psicólogo da infância. como o da educação. 1t nas últimas linhas da sua obra intitulada lJ'Svolution psychologiqu6 de l'enfant que Wallon declara: «Em cada idade. o que acontece é verificar-se uma diversidade heteroclita de sistemas. aliás. que o psicólogo da infância 'deve apreender através da sucessão das idades e no dinamismo que conduz a criança ao estado adulto. Outros descobriram que «o ensino é demasiado intelectual.e numa perspectiva nova .como um sistema para o seu estado de equilíbrio». é porque no próprio indivíduo. mas conserva de cada uma . assim. nem de suprimir o esforço puramente intelec- 100 101 . No entanto. Wallon denunciou nas doutrinas de educação nova (com excepção de Decroly) o erro que consiste em tomar simplesmente a contrapartida dos defeitos e dos vícios da pedagogia tradicional. Se a oposição abstracta do indivíduo à sociedade é igualmente falsa. Wallon rejeita tanto uma 'como a outra como sistemas falsos. Outros ainda declararam que «o ensino é demasiado didáctico.ciência da criança. Deixemos a criança descobrir por si mesma a verdade». a imagem da infância. de uma génese. afirma. Suprimemos. de uma evolução qualitativa. Assim. mas são insuficientes e falsas como sistema geral de educação.

A sua 'Voz calou-se. E é por isso que o seu pensamento se impõe e se imporá cada vez mais. No nosso respeito pelo próprio Wallon. mesmo àqueles que não são marxistas. da inteligência. bem entendido. não é possível fazer um inventário definitivo. sobretudo.I ' tual. mais vivos do que nunca. Não são os argumentos de autoridade que valem. Nenhum de nós terá alguma vez o direito de falar em seu nome. Esta é a lição que dele recebemos. Mas a forma pela qual a utilizaremos é da nossa inteira responsabilidade. Ele deixa uma nova concepção da motricidade. uma maneira original de pensar a psicologia. com tal envergadura. Wallon já não se encontra entre nós. "í' 102 103 . de qualquer forma. Que nos legou ele? Disse pouco a tal respeito. contradições. da emotividade. uma maneira de pensar num domínio que é também o nosso. de uma Ideologia. jamais esqueceremos isto. aplicou este método ao domínio da psicologia. Wallon mostrou-nos como os princípios e o método marxistas deviam ser aplicados na base da mais rigorosa honestidade científica. mas não se trata de uma oposição absoluta. de reformular os seus problemas. nem de contar unicamente com a espontaneidade do escolar.sem pressupor nem operar uma oposição metafísica entre a natureza e o meio. . Entre um e outra pode haver. Mas. pois a criança precisa da intervenção do adulto e das pressões do meio para afirmar a sua pessoa. o método acerca do qual nos dá magistrais exemplos não é novo. A bem dizer. pela sua abra. ao qual ele próprio consagrou numerosos comentários. da génese humana e. uma melhor apropriação da escola à criança. pois trata-se de um legado que dará novos frutos no futuro. mas os factos devidamente estabelecidos. Não procedeu de forma dedutiva a partir de um dogma. para desenvolver todas as suas virtualidades. conflitos. entre o indivíduo e a sociedade. :m o do materialismo díalêctíeo. mas a sua obra e o seu pensamento subsistem. pois a sociabilidade reside na própria natureza do homem. E é 'por ~~ que foi um criador. As soluções são muito mais complexas e exigem uma melhor adaptação da 'Criança à escola. Legou-nos uma maneira de trabalhar. através de tudo isto. Mas é o primeiro autor que 'com tal força.

os psicólogos fizeram 105 . depois de ter denunciado o bergsonismo. o behaviorismo. foram registadas as reacções humanas. acharia hoje no mundo da psicologia toda uma população de acrobatas. A terrível experiência da guerra total levantou brutalmente os problemas da psicologia individual: problemas da desadaptação humana e da dissolução social. Se Politzer fosse vivo. uma infância de tal modo prolongada que poderia fazer pensar num irremediável cretinismo. Assim. interrogarmo-nos sobre a legitimidade desta «ciência» na infância. Georges Politzer. de malabaristas. da razão e das forças instintivas. durante este período. declarava nas últimos tempos da sua vida que a psicologia sob todas as suas formas. da resignação e da revolta. a psicologia encontra-se com tanta frequência numa posição incómoda que poderíamos. a psicanálise. em breve estaria condenada. de prestidigitadores. pelo menos numa doença infantil das ciências humanas.CAPITULO VII A OBRA DE HENRI WALLON Ã LUZ DO MARXISMO Na luta ideológica contra as mistificações da ciência. irritado por tanta presunção. toda a descendência abastardada de Bergson e de Freud. da traição e do heroísmo. a geração de um novo pós-guerra. afinal de contas. de leitores de sina e de taumaturgos sobre os quais exercer a sua verve. Em todos os laboratórios onde.

E eis porque a visão walloniana da evolução psíquica é. :m graças ao crédito de uma psicologia eficaz. 106 107 . de greves e de guerras. precisamente a acumulação de materiais. mas talvez também a mais desconcertante. Mas já não se trata de adaptação individual. a utilização pragrnatista atingiram o seu máximo: divórcio entre a prática e a teoria. a fragmentação do homem nos sectores isolados da sua actividade . a psicologia parece ser a via pela qual se prevertem o racionalismo das ciências e a esperança dos homens num futuro melhor: os determinismos sociais são reduzidos a forças individuais. confusão entre psicotécnica e psicologia. a obra de Henri Wallon adquire excepcional importância. para os pretensos instintos de combatividade e de agressividade. mas também pela originalidade da sua atitude. todas as taras da sociedade. Mas choca-nos ao mesmo tempo a dispersão de tantas riquezas. dos nossos amores e dos n06SOS ódios. mas faltava-lhe ainda muitas vezes uma perspectiva total do seu objecto para se tornar uma ciência. Henri Wallon não passa por ser um autor fácil. quando a própria sociedade é desequilibrada pelas suas contradições. uma exigência de razão c de simpatia. e. contudo. isto deve-se à singularidade dos processos de demonstração e de argumentação. Esta miséria da psicologia é sobretudo evidente nos Estados Unidos. mas também à sua debilidade teórica que se desenvolvem com tanta facilidade as imposturas de hoje. entre a realidade viva e o instrumento que serve para medi-Ia. e estas aos obscuros impulsos do instinto. ficamos estupefactos ao verificarmos os seus consideráveis progressos. Resta então à psicologia ou o refúgio de um positivismo cego. uma preocupação de rigor experimental e a aceitação do risco que comporta a hipótese. um esforço por atingir as realidades mais profundas. aos eternos arquétipos das nossas paixões. A psicologia nasceu na idade de ouro das democracias industriais. e o tratamento desta colheita é suspeito de tantas fraudes que é grande a tentação de rejeitar tudo. quando muito um divertimento de eruditos. O conhecimento do homem encontra rapidamente os seus limites e depressa se obscureceu num universo em que se prevertem todos os valores. A mais lúcida. quando se compara o estado da psicologia com o que apresentava no início do século. Raramente se encontra em Wallon a bela ordenação desses protocolos de experiências a que o psicólogo se habituou e que Jean Piaget. onde. por constituir uma ciência integral do homem. Ao mesmo tempo. No período de crise que vivemos. pelo contrário.amplas colheitas. ou a mistificação que consiste em transferir para o indivíduo. a força das suas verdades parciais são então pura vaidade. Foi graças às respostas que soube dar às necessidades da prática industrial. desfasamento entre o nível técnico e o nível ideológico. psiquiátrica.e ver como os sistemas psicológicos estão ainda longe de uma verdadeira síntese. O engenho das suas técnicas. nos dá no mesmo domínio. a mais lúcida. A recusa de reduzir a psicologia a alguns processos de análise. hoje em dia. sem dúvida. Nesta situação da psicologia contemporânea. de todas as que se nos propõem actualmente. Em parte. por exemplo. num regime de desemprego. em 1950. que a psicologia se afirmou como técnica. E. Não apenas pelo contributo de novos materiais ou pelas suas consequências de imediato alcance. Mas o trigo das observações experimentais está misturado a tanto joio. de fazer tábua rasa. num período de relativa estabilidade em que a adaptação do homem ainda se podia formular em termos simples. a recusa de reduzir o homem à imagem imóvel e parcial dada por uma época. Sei que o leitor deve fazer um verdadeiro esforço para manter o contacto 0 seguir o seu autor em todos os meandros do seu pensamento. Simultaneamente.

Ou. 137. Mas se. L'~volution lJsychologique de l'entant.a mais difícil de todas. A mais abstractiva das experimentações deve ainda POl-mitir a observação. afirma. medidas psicológicas. Com efeito. Este vai-e-vem perpétuo da investigação. mas não nos permitem apreender a sua organização. não se trata para ele de negar o valor dos exames de laboratório. por intermédio das nossas questões. melhor dizendo. sem nada escamotear das suas ambiguidades e das suas vivas contradições e o relato que dela se faz quer-se fiel à observação._-Curso inaugural no Colégio de França. l!: do próprio real que é preciso partir. 137. no decorrer das suas investigações. Apercebemo-nos disso na sua última obra sobre Les Origines de la pensée) despojada de qualquer terminologia técnica e. 109 108 . 1937. aos seus dificultosos esforços. mas são os problemas a pôr que tornam possível a observação» (5). no entanto. mais exactamente.Com efeito. que permite pôr os problemas. Henri Wallon é muito mais um observador) um naturalista do que um experimentador. p. (') ('} Curso inaugural no Colégio de França. «:m a observação. Dialéctica enfim das nossas questões. Assim. por exemplo) que a sua reflexão incidiu. da densidade das questões com que insta o real. sem dúvida. p. Por conseguinte. A observação quer-se fiel ao real. por exemplo. o drama real. foi sobre a experimentação instituída pela natureza (comparação do patológico com o normal. das nossas hipóteses e de uma observação totalmente simples. sobretudo quando esta se aplica ao conhecimento do carácter. E a mais simples das observações já é. ou mais exactamente dos problemas que nos coloca esta realidade para chegar. uma experiência que se esboça. 30. a experimentação subordina-se à observação e a observação aos problemas. este controlo permanente das ideias pelos factos e dos factos pelas ídeías. seria inútil esperar deles algo mais que uma imagem impessoal e abstracta da realidade. «é injustificado censurar os testes pela sua abstracta simplicidade» (2). Não que tenha negligenciado estas últimas. estas exigências contraditórias da abstracção e do concreto: em suma. a dificuldade das obras de Wallon deriva. e que a sua prioridade conduziria a dissolver o indivíduo numa colecção de aptidões ou de funções. e eis o motivo porque Wallon professa tanta desconfiança pela análise factorial. da mobilidade da sua observação. mas de fixar os seus limites e precisar o seu exacto significado (<<O isolamento do laboratório é necessário à exploração em profundidade da criança» ) (1) por métodos de análise e de medida. esta psicologia que quer ser uma ciência pela apreensão do individual é absolutamente o oposto de uma confortável filosofia: para jela. em suma. ----(') -_. Neste sentido. mentais. Pretendeu-se muitas vezes que a linguagem psicológica de Wallon era difícil por estar recheada de termos médicos. p. mas sempre considerou que eram para a psicologia muito mais um processo de controlo que de descoberta. mas uma activa conquista onde nada está jamais terminado. a mais difícil e a mais profunda. sensoriais. se e quando for preciso. da multiplicidade dos seus pontos de vista sucessivos de um mesmo objecto." 129. muito mais que sobre experiências artificialmente provocadas. a análise e a medida assim praticadas pelo método dos testes e pela psico-fisiologia informam-nos sobre as condições de existência do indivíduo. trata-se menos de vocabulário que de sintaxe f> de construção. Pour I'Plre rI01ll:cllc. mas não seriam combinações de sensações ou colecções de aptidões que nos permitiriam compreender um indivíduo que não tivéssemos já apreendido como um ser vivo nos diferentes campos da sua actividade quotidiana. O estilo é interior à própria dialéctica n. à verificação analítica. sobre os seus quadros sociais e sobre os seus sistemas funcionais. Ou. a ciência não é nem criação doespirito nem decalque da realidade.

. Recorde-se a interdição lançada por Bergson contra uma psicologia que se pretenderia científica. uma vez que o domínio da sensibilidade. assinala o momento em que a burguesia renuncia ao setI ideal industrialista «e em que se fragmenta numa série de ~perialismos rivais.. Será ainda preciso encontrar uma escala com que relacioná-Ia. sente-se então que vem das profundezas da obra e que nos põe dírectamente em contacto 'com a realidade. de compreender que está comprometido na história. Que importa a natureza interna do número e do que se enumera? O número não tem que exprimir a própria coisa. O ano de 19001 'diz.cotécnica . Henri Wallon é filósofo e médico. tal como para qualquer outro investigador. :m mesmo desta época que data o progresso que conheceu. belo exemplo da influência que exercem os interesses da produção sobre a ideologia.. sem dúvida. ele acentua o parentesco e a antítese entre o pragmatismo e a psicotécnica. E as pretensões estenderam-se à própria ideologia. Trata-se. nenhum compromisso com o estilo. uma violência contra a confortável preguiça dos nossos hábitos. Nenhuma complacência com o leitor. a partir de técnicas que se tinham constituido sob pressão de certos interesses utilitários. A sua experiência das ideias alerta-o contra o empirismo e a intuição dos médicos. :m uma preocupação de rendimento mais económico que se encontra no ponto de partida da psi. mas o lugar da coisa numa série ou numa certa escala. o seu valor de progresso. julgar separadamente a forma e o fundo. para o psicólogo. por intermédio dos testes. a verdade que lhe convinha . pelo estado das técnicas. pelo contrário. não ser compreendido. Digo o mesmo da psicologia. Wallon jamais sacrifica a complexidade de um problema à aparente clareza do exposto. A sua experiência de clínico alerta-o contra o verbalismo dos ideólogos. abriu 111 110 . quantos filósofos-médicos ou médicos-filósofos serão visionários duplamente limitados.. nenhuma preocupação com a elegância. A cada um a sua verdade. sem intervenção do número.. implicando a divisão dos mercados. talvez demasiado fácil.. de certas necessidades industriais e pedagógicas .. em primeiro lugar. explicar as qualidades da obra pelo temperamento e pela formação do seu autor. no seio de um período que subordina os valores intelectuais aos resultados de ordem prática. esse método que praticou com uma consciência cada vez mais clara. Mas a obra de Wallon só se compreende devidamente à luz do marxismo. a oposição entre número e qualidade é factícia. cuja suficiência radica no duplo quadro das suas vaidades profissionais! Trata-se então. Foi a solução desta dificuldade que. Mas quando uma fórmula emerge na plenitude da perfeição. no fundo. li: a perspectiva do materiaZismo histórico) na qual Henri Wallon procura muitas vezes situar as concepções da psicologia para explicar o seu aspecto decadente ou. O próprio movimento da sua frase. na sua obra. o movimento da sua argumentação são já para nós uma exigência de conversão.. de excepcional vigor e de honestidade. Mas não afirmam os matemáticos que o próprio número é qualidade? E. Esta época está longe de se caracterizar por um declínio das ciências físicas. pelas lutas sociais do seu tempo. Assim.I dos problemas e em Wallon os problemas encontram-se demasiado intimamente ligados à observação para que seja de todo em todo legitimo. aliás. Ser compreendido com pouca dificuldade seria. da consciência é essencialmente o do qualitativo. Mas se esta dupla formação combina as suas qualidades. a conquista ou a reserva de domínios de exploração exclusivos. dos nossos preconceitos. de uma questão de temperamento. Seria fácil. pois não há ciência sem medidas precisas. Contudo. que as suas concepções são determinadas directa ou indirectamente pelo sistema geral das ídeías da sua época. é necessário não simplificar demasiado .

um meio humamo. significa. de toda a realidade. fundamentar uma psicologia diferencial. através dessas referências incessantemente susceptíveis de ser modificadas pelas suas investigações. sobretudo. as condições materiais dos seus comportamentos. «os mais objectivamente reveláveis e os mais fundamentais». Os primeiros trabalhos consagrados à motricidade da criança valeram-lhe e valem-lhe ainda a reputação de organicista. estado mental. reputação provavelmente reforçada pela sua qualidade de médico. O conhecimento dos centros ou feixes nervosos que correspondem a cada aparelho. cada uma delas encarada no conjunto das suas condições e na sua totalidade».. «8indromas de insuficiência psicomotora e tipos psicomotores». 1932. desde as mais elementares e as mais imediatas até às mais indirectas e às mais complexas. ao mesmo tempo. a oposição entre a matéria e a consciência só tem um sentido absoluto num domínio muito restrito: no caso dado da teoria do conhecimento. do ponto de vista da teoria do conhecimento. psycho. colocar a existência do real antes da representação que dele se faz no espírito. Assim. mas também segundo a etapa de evolução da sua obra.conhecimento esse tornado possível pelas perturbações patológicas e pelas etapas normais do desenvolvimento. E. É verdade que Wallon. Para além destes limites. Em todos os seus esforços. assim. a psicologia de Wallon é materialista. As condições de existência do homem. por mais despojado que seja. «pelas reacções que ligam ao meio o ser vivo. o estudo das condições fisiológicas permite desenhar tipos psicomotores. (8) «Bem entendido. explicando as variações individuais de reacção e de conduta através de factores fisiológicos. Matérialisme ct empirio-criticisme. 1946. Por conseguinte. WALLON. e de forma explícita. que deveria consagrá-Io como um dos mestres da psicologia contemporânea.» L:f:NINE. aluno de Nageotte e do célebre neurologista Babinski. e o meio ao qual as suas reacções motoras ligam o ser humano é. Não há conduta. "Éditions Sociales. do ponto de vista rnetodológíco. Entre as condições em jogo na conduta de cada um. essas fontes de informação que se completam e verificam mutuamente «facultam o meio de reconduzir a diversidade que se observa entre os indivíduos a condições precisas e de fundamentar sobre estas condições a sua distribuição em grupos mais ou menos diferenciados» (9). pela pesquisa das suas condições de existência.» (H. renova o estudo do carácter e da consciência. A motricidade não se exerce no vazio. significa abordar o estudo de todo o fenómeno. mas como realidades psicológicas de um condicionamento muito mais complexo. são de ordem fisiológica e social. a matéria antes da consciência (8). 114 115 ~c~i(les GfJelari ~unior .Ser materialista. cuja estrutura penetra. Consoante o rríve! de reacção que estuda. por outras palavras. seria limitar a obra de Wallon e trair o seu espírito abordar isoladamente condições neurológicas. p. A sua famosa tese sobre l'Bnfam: 'I'urbuleni . da consciência por si mesma. fez beneficiar a psicologia das aquisições recentes da ciência médica." 4. no quadro da questão fundamental que é a de saber o que deve ser considerado como primário e o que deve ser considerado como secundário. ao qual não adiram intimamente atitudes motoras. Mas a originalidade de WaIlon consiste em ter tratado tipos psicomotores e etapas do desenvolvimento não como entidades neurológicas. nomeadamente as funções motoras da tonicidade. mais tarde o condicionamento social. os factores de motricidade são. a relatividade desta oposição é indiscutível. Wallon começará por sublinhar o condicionamento biológico. Num (9) Annales méd. forma. Matérialisme dialectique et Psychologie (Curso da Universidade Nova). n. A simples descrição das funções motoras e dos tipos psicomotores é já uma contribuição importante para a edificação de uma psicologia científica. Contudo. substituir a análise ilusória da íntrospecção. 15 e 21.

que precede habitualmente a reflexão.artigo relativamente recente (10). por assim dizer. incapaz. Nunca encontrei um único texto de Renri Wallon que ela tenha decidido sublinhar.O 1. repete-ee. quando Wallon descreve a emoção como estádio da evolução psíquica: «Pela emoção que o fez vibrar. É modelada por estas e é desta prática. o indivíduo encontra-se virtualmente em uníssono com qualquer outro no qual se produzissem as mesmas reacções». na vida do indivíduo e. ao sistema espontâneo das reacções afectivas. é manipulado por outrem. Condição primária da génese de uma consciência. a comum matriz do eu e de outrem. de nada ser se não for por intermédio dos outros. diz ainda Wallon. Wallon escreveu: «é um ser cujas reacções. nomeadamente. «Desde a infância. mais ou menos tardiamente. sem dúvida. II. não do autor. compensadas. t. como um facto social nas suas funções arcaicas de adaptação. O indivíduo. a uma consciência individual autónoma. pelas atitudes mentais do meio. Encontra-se implícita nas primeiras adaptações da criança. p. de mal-estar ou de necessidade. 116 117 . Journal 01 (") Todos os sublinhados nas citações são da minha responsabilidade. A dimensão social não é acrescentada. sobretudo em relação com os seus estados de bem-estar. Assim. no primeiro capítulo de lJEnfant turbuleni. já se encontra exposta. o grupo e o indivíduo parecem indissoluvelmente solidários» (12). pertencem ao domínio emocional. «O homem não €o totalmente explicável pela psicologia. reacção motora ou intelectual que não implique um objecto modelado pelas técnicas industriais. deixar ao leitor a sua liberdade total de apreciação. não já como uma reacção parasita. todas as espécies de dificuldades e de conflitos. precisam de ser completadas. :m-ogeneticamente». Wallon tem o cuidado de voltar a esta noção de modelagem social de cada vez que as suas análises correm o risco de conduzir o leitor a uma interpretação organicista. não existe hiato inicial entre o social e o individual». que se encontra nas origens da experiência de si mesmo e da experiência de outrem. contra a liberdade do leitor. Por outras palavras: «Quando há homem. no alvor de uma consciência ainda indiferenciada. esta explicação em que se descobre. Quer. Espero que Renri Wallon me desculparia por ter acentuado os seus próprios textos. voltando à questão da motricidade para explicar 'a génese da consciência. Mas esta explicação em que a emoção nos aparece. n. que se destacará o fundo das nossas noções sobre o qual se edifica a representação das coisas». mas como a função psíquica e social das atitudes num período em que a criança ainda não fala. no decurso da infância. e é nos movimentos de outrem que as suas primeiras atitudes tomarão forma» (11). Egyptian Psychology. A actividade da criança só pode revelar-se a propósito e por intermédio dos instrumentos fornecidos tanto pela utensilagem material como pela linguagem em uso no seu meio. é um ser social não «devido a contingências externas. aparece-nos como um facto fisiológico nas suas componentes motoras. de nada efectuar por si mesma. mas sim a uma necessidade íntima. pois o seu comportamento e as suas aptidões específicas têm por complemento e (") Les Origines de Ia pensée. Mas praticar citações é jã atentar contra a espontaneidade do autor. «Por conseguinte. Incapaz de nada efectuar por si mesmo. todas. 1945. não há. nos seus aspectos essenciais. Mas a socialização cultural da criança exerce-se sobre um ser já sociável nas estruturas mais profundas do seu comportamento. E Wallon lembra então que os gestos e as atitudes da criança. pelos hábitos. embora possa aí haver. ('0) «o papel do Outro na consciência do Eu». a emoção. do carácter e da compreensão. interpretadas. a vida social em todos os seus níveis e sob todas as suas formas determina as reacções do indivíduo. 436.

é ao aspecto dialéctico da psicologia que deveríamos consagrar os nossos comentários. mas um método que se empenha em apreender a unidade da natureza e a sua diversidade. mais concreta. Revue Philosophlque. Relações de antagonismo.Da imagem ao real. na análise do comportamento humano. as suas contradições e a sua evolução. nesta vida original. mais viva' de fenómenos. as causas fisiológicas e sociais se misturam e determinam um novo plano. Mas para um marxista a dialéctica não se sobrepõe ao materialismo. para começar por um facto nos confins da psicologia e da fisiologia.e.ao desenvolvimento do pensamento. todos os métodos comparativos e. A análise das condições de existência. Agosto de 1928. É indubitável que a vida de cada um. Junho de 1930. I l As causas materiais como objectos de ciência são já uma realidade dialéctica. Sem dúvida que a obra de Wallon é a sua demonstração mais brilhante no domínio das ciências experimentais. e como que de uma vez por todas... ao passo que os do adulto dependem em cada época das condições históricas e sociais (11). É o que se passa. 436. é pela ultrapassagem do caso individual que se pode operar: análise estatística pelo método dos testes. assim. A imobilização obtida pela regulação e pelo ajustamento das actividades tónicas. Revue Philosophique. por exemplo. A investigação das condições de existência define o ponto de vista materialista. que esta evolução tem por motor a acção recíproca das forças da natureza. . a fusão do biológico e do social é demasiado íntima para que a sua análise seja alguma vez perfeita. A dialéctiea não é um exercício verbal. um novo reino da natureza. 97-121. que estas mutações não são simples repetição circular. com tudo quanto esta comporta em cada época de técnicas e de relações em que se modelam a vida e as condições diversas de cada um» (13). a ultrapassagem das explicações parcelares e parciais... Abundam os exemplos em que a refutação das teorias metafisicas. de um plano da existência com outro. p. um malabarismo de teses e de antíteses. pois as causas de insuficiência são inversas e opera-se. com a acção contrária dos músculos agonistas e antagonistas na equilibração. Journal de Psychologie.De l'acte à Ia pensée. análise genética pela comparação das crianças de idade em idade. uma doutrina formal. mas qualitativas. É assim que. A mentalidade primitiva e a da criança. esta comparação privilegiada da criança de hoje com o adulto das civilizações passadas. uma clivagem entre as condições necessárias . Da experiência concreta à noção de causalidade .. repete-se. mas também de filiação entre a (13) (H) Les Origines de Ia pensée. que a natureza está envolvida num processo de movimento e de mutações. em todo o caso no que respeita à psicologia. sobretudo. é uma realidade original que não se reduz às suas condições de existência e. . uma descrição mais exacta. A comparação entre a inteligência da criança e a do primitivo é fecunda. neste nó de realidade. p.fisiológicas e sociais . O movimento de um segmento tornado possível pela imobilidade de outros segmentos. O real e o mental. Tema de reflexão ao qual Wallon volta várias vezes nos seus trabalhos: os limites da criança são de origem fisiológica.por condição essencuü a sociedade. mas evolução. não apenas quantitativas e graduais. Mas não é apenas nas relações gerais de uma ciência com outra. Journal de Psy_ chotooie. . enfim. Junho de 1935. Agora. Fevereiro de 1932. o renovar dos problemas e a sua solução aparecem no uso consciente da dialéctica . 118 119 . A dialéctica é um atitude permanente de investigação que toma em consideração o facto de que nenhum fenómeno pode ser compreendido se for encarado isoladamente. análise patológica em que a doença dissocia os níveis funcionais. que o método dialéctico deve apreender a dialéctica das coisas.

desde a origem. mas introduz novas coacções. regras que por sua vez podem ser negadas. O «eu» opõe-se ao «outro». dualismo ou desdobramento . De passagem. p. começa por ficar empenhada em toda uma estratificaçâo de dependências em que se atolam as suas puras significações» (10). 44. t. Unidade e contraste ainda na estrutura original da consciência. mas. Edit. Unidade e contraste na génese das noções. mas. I. para apreender' as relativas constâncias da natureza (tanto psicológica como física) exige-se que se utilize e denuncie simultaneamente as constantes artificiais das noções e das categorias. contudo. a partir de uma mesma «nebulosa» psíquica. à pureza destes símbolos que criou. em que a dialéctica da natureza se complica através de uma dialéctica da inteligência humana. é a célula inicial de onde sairá a representação. Uma função não pode ser reduzida aos seus factores elementares. da experimentação. de uma mesma experiência arcaica. O jogo implica a negação das coacções habituais. Dialéctica da linguagem e do pensamento. Estes exemplos. e a vida intelectual que. a todo o sistema de ligações intelectuais : contudo. «Antes de ser instrumento por excelência da análise e das classificações.) t. a difícil marcha das suas investigações. «a emoção serviu de transição entre o puro automatismo que permanece subordinado às incitações sucessivas do meio... 1934. numa crítica geral dos processos de análise. mais exactamente do polimorfismo do tónus nos seus diferentes empregos. pela trapaça. A propósito de motricidade. A linguagem subtrai a criança aos trilhos da inteligência animal. necessária..sobre as dificuldades da investigação psicológica. Les Origines de la Pensée. 85. introdu-Ia no mundo dos símbolos. abstraídos do seu contexto. A convicção só poderá vir se se retomar com o autor o exame minucioso dos factos. II. p. Poderiam encontrar-se em Wallon os prolegómenos a todo o exercício dos processos de análise: desde a análise falaciosa da introspecção até à análise. p. mas nasce ao mesmo tempo que ele.. sem estarmos certos de ter comunicado o sentimento de uma necessidade experimental. 154. Para alcançar as contradições reais das coisas. O pensamento por par opõe-se a todo o pensamento discursivo. e não uma impressão de gratuitidade ideológica. que a crítica dos testes adquire em Wallon o seu pleno significado. sem termos a certeza absoluta de ter exprimido e não destruído o essencial do pensamento walloniano. afirma. ~ a este nível. perigosa e. Terminamos aqui a apresentação dos exemplos. O par é o último grau aquém do qual não há pensamento formulável» (17). Além 121 (lO) ('6) (") Les Origines du caractêre . Contradições internas do jogo. procedendo por representações e símbolos. a própria linguagem opõe os entraves do seu formalismo e o peso afectivo das palavras. «Não há pensamento punctiforme. pode fornecer à acção outros motivos e outros meios para além dos que se referem ao momento presente e à realidade concreta» (1~).emoção e as duas formas de actividade que põem o homem em relação com o meio: a aptidão a reagir por movimentos apropriados e a aptidão a representar-se as realidades do mundo exterior. Wallon é levado a precisar ainda melhor a sua perspectiva. 120 . fixados numa fórmula. E esta explicação faz-nos penetrar ainda mais longe naquilo que é a atitude dialéctica. Henri Wallon explicou-se repetidas vezes directa ou indirectamente . só têm o valor de uma indicação. Ibid. Pela sociabilidade que inaugura nas origens da vida psíquica. a dupla orientação intelectual de assimilação e de discriminação. é preciso ultrapassar as contradições próprias do espírito que as pensa.

instrumentos. explica o efeito reduzindo-o à sua causa. sobretudo. por redução analítica. entre o real e o inteligível. Do facto da inteligência começar por proceder por assimilação. e há sempre entre ambos uma distanciação de algum modo essencial. O racionalismo. deva escapar à ciência. Gallimard. diz Wallon. Les Origines de la Pensée. a sua unidade assenta na unidade global de um comportamento muito mais simples. para apreender o movimento.. sendo uma exigência do conhecimento. Segundo Wallon. p. nas suas operações. p. não é um dado primário. não no que serve à sua realização. na sua diversidade original. t. 126-136. de l'esprit humain. ponto de vista genético que tem simultaneamente em conta as origens em que as forças contrárias ainda se encontram confundidas. o qual. é também discriminação. e que só conferem eficácia ou inteligibilidade aos símbolos do idêntico ou aos das ideias na condição de poder constatar o seu acordo com as operações da natureza» (19). acentuar as diferenças. Julien Paris. descobrir cada plano de existência na sua irredutível originalidade. BENDA: De quelques constantes 1950. aparece uma necessidade de integração. (") Les Origines de la Pensée. 316. Ponto de vista globalista e funcional. e no estádio de evolução em que. e nas manifestações mais totais do seu actual destino» (18). 434. 122 123 . dissolve-o em representações estáticas . ao realizar-se.disso. mostra-nos que a razão não se reduz aos seus. não se segue que a realidade. «a saber. o objectivo para o qual tende a evolução: «O estudo analítico de uma função exige que esta seja sempre comparada. Com efeito. como lhe 'censurava ainda recentemente Julien Benda. da função aos seus meios ou aos seus órgãos. Les Or~gin'es de la Pensée. 433. não estando os seus órgãos ainda diferenciados. entre a irreversibilidade absoluta do empirismo bruto e a reversibilidade total do acto intelectual. para traduzir ao mesmo tempo o que há de constância e de evolução nas coisas. Mas a inteligência não é apenas assimi('8) lação. as operações que se intercalam entre o real e o idêntico. Não foi por aposta que expus até aqui a obra de Wallon sem falar uma só vez da psicologia da criança. Bergson. II. a inteligência começa por negá-Ia. t. o erro de Êmile Meyerson quando define o domínio da razão como sendo o Ido idêntico. mas também. aliás. nos dá desse modo um belo exemplo da confusão a que pode conduzir a prática das pretensas ideias claras e distintas: pois mete no mesmo saco do «mobilismo» e do irracional. t. e decididamente. Para dar conta da diversidade. as etapas com a originalidade de cada uma e pela ordem da sua sucessão. de alternâneía. que ela se encontra essencialmente nas suas tentativas. nesse esforço das estruturas do pensamento para atingir as estruturas das coisas. que deve incitar o pensamento a novas sistematizações» (22). II. «é a descrição e a análise diferencial dos órgãos e das condutas» (20). p. O «racionalismo moderno» não propõe quebrar os instrumentos intelectuais. m certo que (20) (21) ("') Les Origines du Oaractêre. consiste em omitir o essencial na obra de ciência. a propósito das controvérsias sobre as relações entre o psiquismo e o organismo. não pode resolver certas disparidades ou diecordâncias dos factores em questão. «O que só deveria contar». Sartre e Karl Marx (21). tal como o desenvolve a tomada de consciência marxista. O homem de ciência deve procurar. II. p. é também diferenciação. Pois o poder determinante encontra-se naquilo que se realiza. o erro de Jaspers quando define o domínio do espírito como sendo o das assimilações intuitivas. contra o fixismo da inevitável análise. uma função. «Sem dúvida que o acordo do pensamento com as coisas. é às suas condições que é preciso ir. Etapa ou momento necessário. do conjunto às suas partes. Assim.

na sua perspectiva geral. Mas. as estruturas mentais com as estruturas das coisas. A evolução do ser humano através da sua infância. pois que o faz sem qualquer artifício. Confrontando o psiquismo com as suas condições de existência. este ensinamento magistral. 1~5 124 . a obra de Wallon é uma psicogénese que ultrapassa de longe o aspecto estritamente pedológico. a mais incerta e a mais ambígua das ciências. mas também como um contributo decisivo para a teoria do conhecimento. sobre o que será. contudo. os seus recursos. apesar da sua originalidade. uma autocritica. a acrescentar as suas ideias a outras ídeias. o psicólogo da infância: consagrou-lhe a quase totalidade dos seus trabalhos. CAP1TULO Vil! PSICOLOGIA E MATERIALISMO DIALÉCTICO O homem cujos oitenta anos celebramos hoje é provavelmente um dos maiores sábios de que o nosso país se pode orgulhar. E. no sentido mais profundo da palavra. operou uma reorganização total. pode considerar-se a obra de Wallon não apenas como uma contribuição para um domínio especial e limitado. Permite uma tomada de consciência e. E eu creio que este homem novo compreenderá melhor do que nós próprios. as estruturas orgânicas com as estruturas intelectuais do pensamento. O seu domínio é a psicologia. na direcção de uma evolução sempre inacabada. Então. Wallon continua a ser. nomeadamente da sua última obra sobre as origens do pensamento. parece-me. Para guem saiba observar. apesar do fervor dos seus amigos e da 'estima dos seus colegas. adquiri a profunda convicção de que a sua carreira mal começou. por excelência. Mas estas homenagens não atingem.Wallon é. Não há dúvida que 'a sua celebridade desde há muito ultrapassou as nossas fronteiras. tal como a evolução do adulto através das civilizações. E ainda hoje lhe são rendidas homenagens no mundo inteiro. Paris. mas sobre o que poderia ser. Nesta ciência. A génese do espírito humano revela-nos todas as suas dificuldades. Relendo a obra de Henri Wallon à luz do marxismo. a universalidade que ele merecia. mas igualmente ao adulto. um cientista desconhecido. 1950. as suas contradições. ao mesmo tempo que os seus limites actuais. mais experimentalmente. apesar da grandeza desta obra. É o ensinamento mais profundo que eu desejaria extrair da obra de Wallon. Mas revela também ao adulto. O conhecimento da infância não interessa apenas à criança. Wallon realizou uma obra profundamente inovadora. mas mais rigorosamente ainda que esta última. permite-nos compreender o sentido da evolução psicológica. as suas esperanças de os ultrapassar. O estudo de uma génese informa-nos não sobre o que é. se a psicologia é na verdade uma pedra angular entre as ciências da natureza e as ciências do homem. favorece o nascimento de um homem novo. a gênese realiza a mais objectiva das análises. Não se limitou a contribuir com a sua pedra para o edifício comum. explicitando esta dialéctica incessante do espírito à conquista do real.

em biologistas como Prenant e Georges Tessier. Limitar-me-ei a alguns pontos de referência. Em primeiro lugar. Exprime-se na acção política. o método graças ao qual Wallon pôde quebrar todas as espécies de contradições doutrinais para atingir as próprias contradições das coisas. em Henri Wallon. podem ser dadas pela ciência a estas dificuldades. isso deve-se ao facto de que. O mundo científico honra Wallon como um colega de valor mas sem querer e sem poder. em primeiro lugar. em Wallon. Mas enquanto não se tiver explicado. Sempre me chocou que nos inventários tendenciosos da produção marxista se tenha negligenciado os trabalhos científicos. E mais confortável repisar fórmulas do que compreender o marxismo nas suas criações novas. a solidariedade que une política e ciência não é facilmente compreendida. substancialista. Que ele é o próprio movimento da sua obra. Isso é bem evidente e. se se trata de psicologia. como um grande cientista. Se é verdade qus o marxismo de Wallon é com demasiada frequência considerado como uma opção política sem grande relação com a sua obra. Mas. por outras palavras. ao facto de Henri Wallon ser um cientista marxista. bastante normal. E. entrar na perspectiva marxista que dá à sua obra o seu pleno significado. não é essencialmente dessa forma que o marxismo se. gostaria esta noite de mostrar que o marxismo. E certo que do ponto de vista da ciência. quais são as relações entre o corpo e a alma? Esta última interrogação pode parecer muito antiquada. não se juntou à sua obra científica como um simples pensamento generoso. que formulações mais subtis tendem a camuflar. Examinar a fundo a obra de Wallon seria fazer ao mesmo tempo o inventário das dificuldades fundamentais da psicologia ("entrever as soluções que. E óbvio não ser possível num quarto de hora dar uma panorâmica completa e exacta da obra de Wallon. Evidentemente. Mas também é absolutamente evidente não ser esse o obstáculo essencial ao conhecimento e à compreensão da obra de Wallon.não apenas para os seus adversários como também para os próprios marxistas. mas. se utiilzarmos uma formulação ainda mais tradicional: quais são as relações entre o indivíduo e a sociedade. o inventário é bastante breve. A classe operária honra Wallon como um camarada. I 126 127 . aliás. bem entendido. difícil de compreender . E poderá. Nestes últimos tempos falou-se muito de um enfraquecimento do pensamento marxista. para abarcar o espírito do homem em toda a sua complexidade. no fundo.Como explicá-Io ? Tudo se deve. exprime. não se trata de admitir a noção de alma. e menos ainda como o quadro de um dogma. à luz do marxismo. muito simplesmente. mas tem pelo menos o mérito de evidenciar claramente uma atitude metafísica. a algumas ideias dírectrizes. é incapaz por enquanto de entrar na compreensão Íntima da sua obra. Por conseguinte. dizer-se que 08 próprios intelectuais marxistas tenham fornecido o esforço necessário de compreensão? E certamente mais. A fecundidade do materialismo dialéctico é em físicos como Langevin. de um modo geral. que é preciso procurá-Ia. Joliot. fácil falar de marxismo do que fazê-lo. os poderes públicos não pretendem honrar um homem que fez uma opção política como a sua. por razões diversas. se nos referirmos aos escritos puramente filosóficos. Se nos colocarmos para já no plano das dificuldades fundamentais podemos enunciá-Ias do seguinte modo: Como passar do biológico ao psíquico? Como passar do individual ao social? Ou. Uma ciência verdadeiramente marxista é difícil de admitir. exprime-se no acto científico.

como estes movimentos se tornam consciência.de forma verdadeiramente completa. Quer dizer que 'ainda que reconheça à criança caracteres que lhe são próprios. daquilo que no ponto de partida é o mais concreto.em dado momento da história . é também um meio. mostra até que ponto a própria noção de duração. pelo seu esclarecimento das sucessões. Ao dizer isto. Não se rejeitam as explicações teológicas e metafieicas por uma recusa de explicação. Mas deixam inteiramente por resolver. um método de análise. Em Wallon. O materialismo mecanicista que reduz o psiquismo a correlações psíquicas. se pode tornar uma pura abstracção quando se esvazia de todo o conteúdo material.quer o queiramos quer não. Não negou o espírito e a consciência. o bergsonismo. o melhor método consiste em ver como se formou. com Watson. para compreender o que é o psiquismo. que adira a essa filosofia mística da mobilidade. Subsistirá porque todos temos a noção do nosso eu. das contradições. são marcadas pelo dinamismo.de um ponto de vista crítico e descritivo. procurou compreender qual era a sua génese. como se opera a promoção qualitativa do fisiológico ao psíquico.a todo este movimento de ideias inaugurado há cem anos pelo evolucionismo de Darwin -. «A criança tende para o adulto. E dizer que um problema está mal colocado. ou essa espécie de positivismo que. um fim em si. suprime a 'consciência para só deixar subsistir movimentos musculares. diz. se ele próprio foi aluno de Bergson na Escola Normalisso não implica. na valorização da puerilidade. Como médico e como pedagogo prodigalizou incessantemente às crianças os seus cui- dados e a sua ajuda. a génese realiza. Por um lado. Se Wallon se liga à nossa época . a psicologia da criança é um estudo dialéctico do ser humano. também não os aceitou como realidades em si. mas seres que duram. cada criança é um ser original que deve ser tratado com respeito e amor. então a psicologia da criança aparece como o meio privilegiado para responder aos problemas levantados pela psicologia geral. pois que é feita sem qualquer artifício. o qual consiste em saber o que é o psiquismo como plano novo de realidade: 'como este corpo é uma pessoa. a sua concepção da infância é essencialmente dinâmica. Mas nada seria mais estranho à sensibilidade e ao pensamento wallonianos que uma concepção da criança confinada na pieguice. E como psicólogo sempre considerou que. Para quem sabe observar. em cada idade. foi dito. como um sistema para o seu estado de equilíbrio». não é negar que o problema exista e ainda menos resolvê-lo. Mas a mais célebre dentre elas. a noção de alma subsistirá . a mais delicada mas também a mais objectiva das análises. das ultrapassagens. concebe-a em relação ao adulto que esta criança deve um dia realizar numa sociedade bem determinada. contudo. a infância não é apenas um objecto de estudo. Quer dizer que nascem e se desenvolvem em função de um estatuto orgânico que lhes é próprio e das condições materiais e culturais do seu meio. Se quisermos colocar numa ordem discursiva as principais ideias de Wallon que na sua obra se cruzam e se encadeiam con- 128 9 129 . de uma realidade espiritual que não é redutível pura e simplesmente à nossa carne. tiveram sem dúvida a sua utilidade . incondicionada. o problema essencial da psicologia. pelo sentimento do tempo e da duração. Se. estudou as suas condições de existência. tanto um como o outro. Todas as filosofias contemporâneas. ou seja. como princípios explicativos. de uma autonomia. não quero diminuir em nada o interesse que Wallon dedica à infância por si mesma. Não há duração pura. Por outro lado. instalou-se logo de início no cerne de uma realidade complexa. Wallon jamais se instalou num universo simplificado pelas recusas do espírito e da consciência.

é um ser simultaneamente biológico e social. Isso aconteceu. tal como os pulmões implicam a atmosfera». O recém-nascido. é um ser social. tal como o da linguagem. «O indivíduo. mas que não o ultrapassa. Wallon tenta fazer-se entender melhor. para ser removido. evidentemente. afirma Wallon. desta vez. bem entendido. Wallon escreve: «Jamais 131 . Mas se se tratar do plano psicológico. «Talvez seja 130 exagerado dizer. desde o seu nascimento. desde o nascimento. paradoxal. não devido a contingências externas. para sair de uma imobilidade penosa. Esta luz que Wallon faz incidir sobre a infância do homem afasta-nos definitivamente do materialismo mecanicista. A debilidade física do recém-nascido confere ao ser humano. para as pessoas». Se Wallon se limitasse a esta constatação poder-se-ia dizer da sua obra que ela aperfeiçoa o organicismo. Conciliador no que se refere às palavras. Para o organicismo. transportado. Mas como entendê-Ia? Que pretende Wallon dizer exactamente? Escusado será dizer que o comportamento do recém-nascido é determinado fisiologicamente. origem de numerosas controvérsias. mas firme na sua posição. Assim. «O aparecimento de campos cerebrais. Mas em que sentido se poderá dizer que ele é já. assim. Piaget. no homem. Numa resposta a Piaget que o acusava. uma justaposição de factores biológicos e sociais. É-o geneticamente». o célebre psicólogo de Genebra. e manifestaram o receio de que Wallon operasse uma redução do social ao biológico. para obter a satisfação das suas exigências mais elementares e mais urgentes. não é tudo. do organícismo. nesse momento. diz ele. virtualmente. Houve quem desprezasse este ensinamento ao mesmo tempo tão simples e tão novo de Wallon. embalado. tanto no tempo como no espaço. pelo facto destes autores darem ao termo «social» um sentido diferente e serem incapazes de compreender o raciocínio dialéctico de Wallon. Esta dupla determinação suprime a oposição radical entre o organismo e o sociologismo. mas devido a uma necessidade Íntima. é o organismo tomado isoladcnnenic que se coloca na origem de todos os fenómenos próprios da vida e de todos quantos são próprios da sociedade. a primeira a sublinhar é que a criança. pelo contrário. mas é um ser primitiva e totalmente orientado para a Sociedade. a pobreza inicial da criança humana é a condição negativa mas decisiva da sua socialização. E. extrai Wallon um ensinamento da mais alta importância e. concede. mas de sociologismo. não de organicismo. Evidentemente. Também aqui se deve evitar um mal-entendido que se encontra na. para ser tirado de uma posição incómoda. uma dimensão social. todas as suas aptidões sejam polarizadas . não é um membro da Sociedade. Wallon não nega a existência de factores fisiológicos que podem ser estudados à parte. A sua fraqueza inicial é a condição da sua superioridade sobre todas as outras espécies animais. Vê-se. à primeira vista. mas.tinuamente. O mérito de Wallon consiste em chamar a nossa atenção para o facto de que a imperícia.que a criança é desde esse momento um ser social». enxugado quando se molha. e certos autores soviéticos admiraram-se que fosse possível qualificar o recém-nascido de ser social. a explicação reside na incessante acção recíproca entre o ser vivo e o seu meio.. A criança humana é um ser social. Daí resulta que todas as suas actividades. desta observação perfeitamente banal. Para Wallon. . por mais primordial que seja. admite um plano de realidades sociais que ultrapassa o indívíduo.. implica a sociedade. um ser social? A resposta é dupla. então é preciso compreender devidamente que o indivíduo não é uma adição. Precisa de assistência «não apenas para se alimentar. Mas esta implicação. está implicado no orgânico. sem dúvida. que o social.

que Wallon elaborou a sua teoria da emoção que é um dos aspectos mais importantes da sua obra.o que nos é possibilitado pelo método marxista . por um lado na criança. na criança pequena. nega à consciência e à introspecção a pretensão de nos dar uma imagem fiel das coisas e menos ainda da nossa vida íntima. com a mãe. desde o livro intitulado Les Origines du caractêre chez l'enfant até aos seus últimos artigos. assim como de todas as ideologias. Não teria sido possível chegar à descoberta que exponho. a qual é. de comunicação. a noção de consciência foi excluída durante muito tempo das pesquisas em psicologia de laboratório. :m na observação desta comunhão afectivacom as pessoas que a rodeiam e. sem dúvida. Wallon. não porque os creia redutíveis um ao outro. numa altura em que esta atitude prevalecia nos meios científicos. a criança pertence ao seu meio antes de pertencer a si mesma». escreve Wallon. nas suas perturbações da actividade motora e intelectual. Ao estudá-Ia nas suas origens. O paradoxo da emoção consiste em ser simultaneamente um factor de perturbação. mantém que a consciência é uma realidade sem a qual a psicologia não passa de uma soma de 'cegas constatações. por outro na história das civilizações e através das lutas sociais. particularmente. a criança começa a dirigir-se às pessoas que a rodeiam não apenas por intermédio de gritos relacionados com as suas necessidades materiais. mas porque me parecem no homem tão estreitamente complementares desde o nascimento que é impossível encarar a vida psíquica de outro modo que não seja sob a forma das suas relações recíprocas». tanto em França como no estrangeiro. e sem admitir . «Pelas emoções. ao longo da sua obra. por toda uma mímica que é uma linguagem antes da linguagem. a emoção realiza. de confusão e a condição primordial. conhece. um dos mais belos êxitos do pensamento marxista. Contra o idealismo. para Wallon. 133 132 . empobrecendo-a consideravelmente. num plano novo de socialização. também por sorrisos que são os primeiros laços afectivos com o meio. sobretudo no adulto. Também aqui encontramos em Wallon os dois aspectos complementares de uma crítica negativa e positiva. na idade de dois ou três meses. pois confronta a criança com outrem num jogo de alternâncias. Ela pressupõe um sujeito que sente. admiti-Ia como uma: realidade entre todas as outras. é preciso. doutrina de origem americana e de inspiração positivista. E. «Essa é.pude dissociar o biológico do social. uma simbiose da criança com o seu meio. sem observar a emoção nas suas origens. a emoção era considerada acima de tudo nos seus aspectos negativos. o começo da vida intelectual. na criança. A teoria da emoção conduz-nos muito naturalmente à noção de consciência. As emoções são um meio de comunhão efectiva. Esta dialéctica das relações aparece mais claramente ainda quando. a primeira fase por onde passa a consciência da criança». «Seja qual for a necessidade de reagir contra o papel tendencioso que o idealismo tenta fazer-lhe desempenhar à custa da realidade cientificamente conhecível. mas são também um sistema de expressão. aliás. não obstante. isto é. Nas teorias clássicas que estudavam a emoção. delibera. Em primeiro lugar. quais eram as suas condições materiais. decide e em função do qual actuam em leis das suas diversas actividades». teve o mérito de rejeitar uma tal condenação da consciência. Contra o positivismo. uma união estreita. Ê sabido que sob a influência daquilo que se chama o behaviorismo. a pedra angular de todos os sistemas psicológicos. mas. esforçou-se por mostrar como emergia a 'consciência. através de que contradições e de que flutuações se desenvolvia. Wallon mostrou que a emoção tinha funções positivas e de importância fundamental. Falávamos há pouco das primeiras manifestações emotivas da 'criança.uma lógica da contradição.

o movimento da sua argumentação são já para nós uma exigência de conversão. O próprio movimento da sua frase. WaUon nunca sacrifica a complexidade de um problema à aparente clareza de uma exposição. intelectual entre a criança e aquilo que a rodeia. motora. mas espantosamente luminosa quando conseguimos finalmente 'compreendê-Ia. é o bom-senso. Ele é tanto mais necessário quanto mais o objecto de estudo oferecer relações mais complexas. E isso não acontece por utilizar palavras difíceis. enfim. como é o caso da psicologia. este camarada ao qual exprimimos esta noite os nossos sentimentos de afeição e de admiração. em todos os pormenores do seu pensamento. E numa confrontação perpétua com os seres e com as coisas que a criança adquire pouco a pouco uma imagem de si mesma. Este homem. devo acrescentar. a primeira condição material da 'consciência é a maturação do sistema nervoso. o materialismo dialéctico é um método de trabalho. resolução de contradições. ~ que ele obriga-nos a pensar em termos dialécticos.Como é evidente. E num mesmo esforço que se delineiam. da sua dificuldade. Nos tempos que hão-de vir. mais frágeis. As duas exigências de brevidade e de fidelidade não eram ele modo algum conciliáveis. a consciência de si mesmo e a consciência de outrem. tão perturbante. acções recíprocas. uma violência contra a confortável preguiça dos nossos hábitos. Também aqui não há a passagem de uma individualidade fechada a um ser socializado. não um conjunto de dogmas. a qual é a charneira entre as ciências ditas da natureza e as ciências ditas do homem». verbal. A minha exposição da obra de WaIlon não deu certamente uma ideia exacta da sua riqueza. um malabarismo de palavras-chave. termos técnicos. mais variáveis entre factores de aspectos mais heterogêneos. I mais subtis. mas antes uma construção solidáda da individualidade e da sociabilidade. mais encadeadas. ter sido tão longo e ter feito uma exposição tão sistemática da obra de Wallon. 134 135 . E que representa esta atitude para um cientista? O próprio Wallon nos responde a esta pergunta num artigo publicado há alguns meses: «O conhecimento do materialismo dialéctico permite descobrir ou explicar as formas variadas da causalidade: conflitos autogéneos. Devo pedir desculpa por. dos nossos preconceitos. e que espero próximos. Mas ela é. mas a descoberta activa da dialéctica das coisas. O materialismo dialéctico não é uma dialéctica verbal. em última instância. as suas ideias darão todos os seus frutos. do homem de amanhã . Wallon é marxista em todos os rodeios. Wallon não é um autor fácil. a partir da confusão primitiva. da sua originalidade e. Eis porque a sua obra é ao mesmo tempo tão desconcertante. Mas o bom-senso do homem novo. Por conseguinte. etc. Em suma. O marxismo.um bom-senso que ainda nos não é familiar. o resultado das trocas contínuas de ordem afectiva. é não apenas um grande cientista como um precursor. ao mesmo tempo. Ora Henri Wallon possui este bom-senso.

Polónia. Provém da auto-suficiência do universo anglófono. fora do qual .CAPITULO IX QUEM É HENRI WALLON . ao tom filosófico dos autores franceses.. talvez ainda mais. Assim se afirma hoje em dia em França o renome de Henri Wallon. Foi a partir de uma formação filosófica. deste ponto de vista. do obstáculo da língua. Hungria) e na América Latina. verdadeira consagração. Em França. neste fim de século. mas também quase ao mesmo tempo na maioria dos países da Europa (Itália. o do mundo anglo-saxónico.é preciso reconhecê-lo não há. Ora. tanto quanto o podiam ser os homens da sua geração.um universo a conquistar. Para todo o psicólogo de língua francesa. Provém também. livros. URSS. Wallon é tipicamente francês. nem mesmo principalmente. Resta a Henri Wallon . Espanha. e são-lhe consagrados artigos.. A~ suas obras estão aí traduzidas. de uma cul137 . pelo menos parcialmente. falecido em 1962 com a idade de oitenta e três anos. da desconfiança dos americanos em relação às ideias gerais. teses de doutoramento. Carta aos psicólogos americanos Ele é por excelência :o psicólogo da infância. a dificuldade de conquistar a América não deriva apenas.

tura filosófica extremamente sólida, que se empenhou em dissipar as ilusões da filosofia. No entanto, é preciso assinalar que os seus próprios compatriotas levaram bastante tempo a reconhecer o génio de Wallon. A lentidão deste reconhecimento corresponde, talvez, nas suas razões profundas e com um inevitável desfasamento temporal, à lentidão do amadurecimento do seu pensamento, e esta própria lentidão deve-se ao método que Wallon inaugura para o esclarecimento da psicologia genética. Os primeiros artigos de Wallon datam de 1913, mas já tinha quase cinquenta anos quando apareceu, em 1925, L'Enfant Turbuleni , o seu primeiro escrito original, e será preciso esperar ainda quase uma dezena de anos para que se afirme em Le« Origines do caractére chez l'enf amt todo o seu poder inovador. É nesta obra, publicada em 1934, que se encontra formulada a teoria das emoções, a trave-mestra da sua psicologia genética, a qual inspirará alguns anos mais tarde René Spitz quando este procura interpretar os efeitos da perda da mãe na criança de mama. Contudo, este livro não tem a elegância de apresentação ou a lógica de demonstração susceptíveis de seduzir um leitor apressado: trata-se de uma recolha de artigos e de conferências feitas na Sorbonne no decurso dos anos precedentes. Les Origines du caractêre, esse primeiro grande livro continuado em 1945 por Les Origines de la pensée chez l'enjomi, não tem apenas o mérito de esclarecer de forma nova a génese da vida emocional, é também uma perfeita ilustração do trabalho walloniano, da força de penetração deste trabalho, mas, ao mesmo tempo, das dificuldades que pode apresentar para o leitor. Tem-se afirmado com frequência que a dificuldade de ler Wallon deriva do seu estilo. Dificuldade com a qual se defrontaria nomeadamente o tradutor de uma língua estrangeira. Na realidade, não se trata de uma dificuldade de ordem formal. O tradutor que compreendesse bem Wallon não teria, creio, qualquer dificuldade particular em transpô-Io para uma outra língua, nomea138

damente para o inglês. A dificuldade provém do facto de que, em Wallon, o estilo desposa os meandros do pensamento, e o pensamento esforça-se por aderir ao real, às suas ambiguidades, às suas ambivalências, às suas contradições. O que não significa, aliás, que Wallon se interesse apenas pelas aparências, como o faria um fenomenólogo. Efectivamente, para ele, trata-se de explicar e não apenas de descrever. E, por outro lado, para ele, 8J ciência nunca é um decalque da realidade; é, evidentemente, uma construção. Mas a explicação, quer seja de ordem intrapsíquica, quer em referência com as condições de existência, deve evitar a tentação de redução. É uma atitude metodológica válida a todos os níveis, em todos 00 domínios: não começar por reduzir a diversidade dos indivíduos e das condutas em função de um princípio explicativo que poderia ser-lhes comum, mas, pelo contrário, começar por acentuar as diferenças; não reduzir demasiado rapidamente as contradições sob o pretexto de que elas têm a ver com os jogos ilusórios da linguagem, pois podem derivar também da própria natureza das coisas; não reduzir o plano psíquico às suas condições de existência, embora o conhecimento destas condições, tanto biológicas como sociais, seja um momento absolutamente necessário da explicação. É preciso admitir, por hipótese, que as diferenças, as contradições, as emergências evolutivas não são apenas para explicar mas que também podem ser explicativas. Escamoteá-Ias, é empobrecer a nossa visão das coisas, é deter a explicação a um nível irrisório. Assim, Wallon lutará durante toda a sua vida em duas frentes: por um lado, contra os filósofos da existência que, para evitar a redução, se recusam a qualquer explicação; por outro lado, contra os psicólogos ocupados num trabalho de simplificação lógica, de formalização. E nada ilustra melhor este combate que a disputa prosseguida durante mais de trinta anos entre Wallon e Piaget, onde vemos oporem-se, reforçarem-se, precisarem-se, duas atitudes radicalmente distintas. Piaget, tentando, aliás em conformidade com o seu próprio tem-

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peramento, advogar a complementaridade das obras de ambos; Wallon procurando, bem entendido, aqui como em qualquer outro lado, acentuar as irredutíveis diferenças.

em moda que fez da «relação» um absoluto, isto é, um princípio metafísico. A relação afectiva, por si mesma, é relativa às suas condições de existência tanto biológicas como sociais. A motricidade e a consciência são os dois polos entre os quais se poderiam classificar as diversas concepções da psicologia. A dialéctica de Wallon consiste em solidarizar o que aparece à primeira vista como inconciliável: pela sua teoria da emoção, opera a junção entre motricidade e representação, tenta franquear a passagem entre orgânico e psíquico. «O movimento, diz ele, não é um simples mecanismo de execução ... no seu aspecto tónico-postural, é a emoção exteriorizada». «Cada uma à sua maneira, as emoções respondem a variações do tónus tanto periférico como visceral». Expressão de si mesmo, a emoção torna-se rapidamente expressão para outrem. Funcionalmente, é comunhão e comunicação, uma linguagem antes do verbo. E será sempre «aquilo que solda o indivíduo à vida social, pelo que aí pode haver de mais fundamental na vida biológica». No entanto, a oposição habitual entre emoção e representação só abarca um aspecto da vida emocional. É certo que a primeira função da emoção consiste em unir, em confundir os indivíduos entre eles pelas suas reacções mais íntimas, mas «esta confusão deve ter como consequência as oposições e os desdobramentos de onde poderiam gradualmente surgir as estruturas da consciência». Daqui se deduz tudo quanto opõe o ponto de vista de Wallon ao de Piaget. Este último analisa a gênese da lógica, ao passo que Wallon analisa a génese do homem nas suas relações iniciais com os outros homens. Para Piaget, a socialização da criança é um processo intelectual, a conquista da reciprocidade dos pontos de vista, a partir do autismo e do egocentrismo. Para ~ a socialização mergulha as suas raizes na emotividade, na _~r~_on~!idade global. Wallon interessa-se principalmen te pela representação," pelas tomadas de consciência. Piaget con-

:m evidente que a perspectiva walloniana não atribui à experimentação um lugar privilegiado. Esta não passa de um momento completamente secundário da investigação psicológica. Por gosto e pela sua formação médica, Wallon é acima de tudo um observador. Um observador, por um lado, impelido à decifração do desenvolvimento humano pelas coacções das condi.. ções orgânicas e, por outro lado, orientado por toda! a sua sensibilidade pessoal para a compreensão da relação com outrem. Por um lado, destaca vigorosamente a noção de maturação nervosa, condição necessária de toda a aprendizagem, como, aliás, o faz ao mesmo tempo nos Estados Unidos, Arnold Gesell, remando contra a maré do behaviorismo. Por outro lado, na filiação directa de J. M. Baldwin, e como precursor dos teóricos da vinculação, considera primitiva e primária a necessidade de outrem e as suas análises visam compreender como a partir de um estado original de indiferenciação se vão construir solidariamente a imagem de si mesmo e a imagem de outrem, o socius. Assim, a seu ver, o psiquismo cria-se pela maturação, que é duração, pela relação com outrem, que é história e sem que se possa negligenciar uma ou a outra - sem que possamos, também, satisfazer-nos com este esquema geral. Pois cada indivíduo realiza-se no decurso de uma história e das relações que lhe são próprias, mas a sua história depende também da velocidade de maturação, da sua particular compleição psicomotora: uma criança hipotónica, por exemplo, não está predisposta para as mesmas modalidades relacionais, nem talvez para o mesmo estilo de inteligência, que uma criança hipertónica. Em França, sem dúvida, Wallon é o autor que contribuiu mais consideravelmente para definir o psiquismo na-e-pela-relação, mas nada é mais estranho à sua concepção que a psicologia actualmente
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sidera a operatividade, isto é, a acção sobre as coisas e os símbolos das coisas. :E indubitável que os dois autores identificam um mesmo período nos primeiros tempos da vida, e ambos o descrevem em termos de motricidade. Mas .Eiaget designa-o -~Q!l]~J~~ríodo da _intel igência sensorirnotora, ao passo que Wal~C?!!-.fof~. a expressão de inteligência das situações. JA motricidade de que fala Piaget concerne à conquista dos objectos físicos, ao passo que Wallon se interessa pela atitude motora, pelas posturas-signos que integram a criança no seu meio e lho tornam compreensível. Serão os dois pontos de vista conciliáveis ou mesmo complementares? :Ir; o que Piaget tenta estabelecer num artigo publicado em homenagem a WalIon pelo seu 80/ aniversário (1). Quero crer que o artigo de Piaget não era uma simples delicadeza de circunstância, que a sua confissão de ter sido incompleto nas suas análises era mais do que a galantaria de um instante: urna vez que, nos anos que se seguiram, ele mesmo retomou o estudo da representação e da imagem. Quanto a Wallon, a morte selou o seu destino antes de ter podido r_e§~der ao convite do seu velho amigo e adversário. Sei apenas que se mostrou muito sensibilizado pela homenagem de Piaget. Pela primeira vez, Piaget dizia que compreendera finalmente a justiça de certas censuras que Wallon lhe fazia. Pela primeira vez, Wallon admitiu sem dúvida que se poderia lançar uma ponte através das suas discordâncias. Mas permanece o facto de que o génio de cada um se define por contraste com o génio do outro. génio de WalIon consiste em ter introduzido na psicologia a noção de duração concreta. Não é certamente o único, nem mesmo o primeiro, a tê-Ia mencionado. Bergson, nomeadamente, que foi seu professor na Escola Normal Superior, é um filósofo da duração. Mas precisamente o que Wallon censura a
(') Cf. este artigo reproduzido em posrácío, p. 163.

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Bergson é O ter feito da duração um princípio metafísico, um novo absoluto. Não há dúvida que Bergson tinha razão ao dizer que a nossa inteligência habitual se mostra inapta a apreender a duração. Para ultrapassar a negação da duração pela inteligência, a solução reduz-se a negar 'a própria inteligência. Desta forma, os problemas reais colocados ao século XIX pelo evolucionismo e pelas mudanças revolucionárias da sociedade levam a uma renovação do misticismo. Para escapar ao erro de Bergson e de toda a sua descendência, para encontrar outra saída além da sua, é preciso compreender que a duração em si não existe. O que existe, não é a duração, são coisas que duram) isto é, que se desenvolvem, que se transformam. A duração, nomeadamente quando se trata do desenvolvimento da criança, ELª}en~a transformação ~~ estruturas orgânicas, é também, .por conseguinte, a. modificação gradual ou ~01~êa~.qu;:~titativa Ol} qualitativa, da~~~~aç_ões. com o meio, são os conflitos de onde saiem novas ~ºrmas_de equillbrio, a emergência de novas maneiras de ser, é, um belo dia, a -duraç~o_gu~ se transcende a si mesmapelas actividades da memória e da imaginação, pela construção do conceitodetempo. ~ importância que Wallon 'atribui à maturação e à tonicidade ilustra bem o que é para ele a materialidade de toda a duração; tal como a dialéctica da duração é sublinhada pelo termo prelúdios que emprega tão frequentemente ao analisar as origens do carácter e do pensamento. Remontar às origens, para ele, é procurar não necessariamente uma forma embrionária, mas um comportamento que pode ser de uma outra ordem, e mesmo em aparente contradição com o comportamento a explicar. O prelúdio é verdadeira emoção, aquela que é relação com outrem, são os gritos, os choros, as gesticulações que só exprimem sensibilidades internas; o prelúdio à imitação, à cópia mais ou menos intencional de um modelo, é o automatismo do eco ou do mimetismo; um dos prelúdios à actividade de definição, é a resposta tautológica.

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144 10 145 . Possa esse retrato. E sentir-me-ia feliz por ter contribuído para isso. !se desenvolve e morre. meu primeiro patrão. por mais fiel que seja a minha apresentação do homem com o qual trabalhei durante um quarto de século. E nada custa mais para o cientista. Possa a publicação destes textos criar a necessidade de uma tradução das obras fundamentais de Henri Wallon.Na' sua própria evolução. No termo da minha carreira. Tinha um tal respeito pela sua individualidade. Com a colaboração de vários dos meus colegas de então. O materialismo dialéctico. A expressão de ideologia marxista era para Wallon contraditória nos seus termos. é mais que evidente que o leitor americano só terá de Wallon o retrato parcial e esquemático de um autor que é impossível esquematizar. O facto das suas descobertas confirmarem no domínio da psicologia os princípios metodológicos enunciados por Marx e Engels. Wallon desvia-se dos esquemas habituais. O materialismo dialéctico. «O nosso laboratório. consoante é entendido como um método de pensamento ou como um rótulo ideológico. espero que os colegas americanos possam agora fazer por Wallon. aliás. que. pela diversidade das suas perspectivas. se lançava uma ponte entre o laboratório Wallon e o Centro de Pesquisas de Gesell. uma espécie de [eeâ-back. que se serviria da contradição como de uma receita. a dificuldade da obra walloniana. reforçava nele a convicção de que os nossos trabalhos não podiam conduzir à coerência de um sistema. Arnold Gesell. E eu. Não obstante. O respeito pelos factos. Repito-o e insisto: assim se explica. tomada de consciência das tentativas eficazes da ciência e permanente vigilância contra toda a ideologia. dos seus pontos de vista. explica ao mesmo tempo a dificuldade em assimilar Wallon e o êxito que encontra actual . que o exercício desta função. é um corolário da crença no mundo exterior. Não foi por acaso que ele acolheu no seu laboratório os mais diversos espíritos. O empenhamento político de Wallon (aderiu ao Partido Comunista em 1942. tal como para o indivíduo na sua adaptação quotidiana. Por mais judiciosa que seja a escolha dos textos de Wallon aqui reunidos. mente junto de certos psicólogos em busca de uma crença. Quanto ao resto. empreendemos a tradução das principais obras de Gesell e a adaptação francesa da sua escala de desenvolvimento. comanda 'a nossa acção. nomeadamente de Irêne Lézine. não é uma estrebaria de corridas». verdadeiro ou falso. dizia. E também: «Não somos uma capela». de uma escola. A dialéctica marxista é função do real. de uma investigação atenta à desconcertante lógica de tudo quanto vive. em última análise. esforçava-me por fazer conhecer em França os psicólogos americano» e. Ê significativo que durante muito tempo os comunistas tenham mostrado algumas reticências em reconhecer Wallon como marxista. por pouco que fosse. a observar meticulosamente a6 crianças da mais tenra idade. sob 'a ocupação alemã) varreu sem dúvida quaisquer reservas a seu respeito. nomeadamente. trata-se apenas de uma direcção de pesquisas. a psicologia walloniana chega assim ao que se designa como materialismo dialéctico. acrescentaria que falar de wallonismo seria trair fundamentalmente Wallon. pela minha parte. só admite um único postulado: a crença no mundo exterior. O que fiz outrora por Gesell. Há quarenta anos. O marxismo não é a trombeta de J ericó. com o qual aprendera. imagino com os Estados Unidos um efeito de retorno. Assim. os mal-entendidos podem subsistir e mesmo amplificar-se. também. creio. isto é. no deslumbramento de um olhar novo. pelo menos válida a um certo nível de aproximação. seria muito mais nociva que a lógica clássica. que nos proibia mencionar o laboratório ao publicarmos os nossos artigos. Uma dialéctica verbal. ser suficientemente atractivo ou estranho para despertar no leitor a curiosidade de conhecer o modelo. Mas também aí. e o estímulo de Henri Wallon. ao voltar dos Estados Unidos..

com a entoação da sua voz que eu sei. :m e1e próprio que hoje pretendo encontrar. indissoluvelmente associada ao rosto do seu autor. não o consigo. em tal argumento. faz com que eu sinta que estou a segui-Io sem rup- 147 . no seu desenvolvimento. dia após dia. Não posso meditar sobre a sua obra sem o ouvir. impessoa'l? Com efeito. Aliás. Em todo o caso. em tal palavra. estranhamente. Provavelmente. No entanto. em tal frase. a minha compreensão de Wallon é feita tanto de simpatia 'como de razão. na sua criação. de forma tal que a trama desta obra parece ao mesmo tempo. a correspondência do seu pensamento e do seu rosto. falei demais sobre a obra de Wallon sem nada dizer acerca do homem que ele foi. no decorrer dos anos. O pensamento de Wallon. Os seus escritos falam-me com a sua voz. necessária e contingente. sem o ver. hesitante ou peremptória. será consoante a força interna da obra e a nossa própria força. quando tento encontrar. Melhor ou pior compreensão? Não sei. será possível expor as suas ideias de forma abstracta.CAPITULO X RETRATO DE HENRI WALLON Escrevi demais. para mim que o 'conheci durante mais de trinta anos. é algo completamente dif-erente para a compreensão de uma obra tê-Ia podido apreender. ao amplificar-se de uma para outra obra.

sem pausas calculadas. os seus colaboradores. o seu último Inverno. Sobre a secretária. Neste aspecto. os seus alunos. Está erecto.. e tanto mais facilmente quanto não formos perturbados pela fascinação de estádios demasiados concretos. Mil novecentos e vinte e nove. tenso. entra no âmago do assunto. de me orientar. A sua cabeça. junto da cátedra. papéis. Â sua volta. A duração. Uma noite de Inverno. brutalmente. por exemplo. O anfiteatro já está à cunha. sob a doce auréola dos cabelos brancos. Não tenho tempo de me preparar. mas nunca a metamorfose. matámos o tempo. de uma vida. Sem frase de introdução. a sua ausência de arte. tão profundamente semelhante ao homem que vi. Vagueio de um curso para outro nos corredores da Sorbonne. à procura de não sei quê. Fala. Escuta-nos. neste rosto. Wallon já está lançado. onde brilham alguns pêlos ruivos. A bem dizer. somos tranquilizados por uma profunda convicção de identidade e de continuidade. Hesita. Num passo rápido. examina os nossos argumentos. O seu discurso é denso. Fico de pé. Tão diferente e. Entro no anfiteatro Guizot. Deste modo. Por acaso ou por curiosidade. Com um gesto comedido. encontro-o. com as pontas dos dedos apoiadas na mesa inundada de luz. dá a sua opinião. 149 148 . Tudo quanto lhe resta da vida refugiou-se neste olhar. encaminha-se para a imensa mesa onde brilha o quebra-luz verde de uma 'lâmpada. A voz está colocada alto. Não percebemos a lenta duração da vida.. a da maturidade e a da velhice. real ou imaginária. Wallon não é um orador e não procura sê-lo. abre-se uma porta para deixar passar o professor. o auditório está conquistado. pouco a pouco ordena as nossas ideias. Isso acontece sem dúvida porque a total simplicidade da sua fala. alguns minutos antes de começar a aula. não faz um único movimento. encontramo-Ia. sobrepujando a multidão ruidosa dos estudantes. dele é o mesmo olhar que nos liga. encontrar na fotografia do exilado de Jersey a figura romântica gravada por Deveria. acabo de escrever estas palavras e. de recordações demasiado vivas. Rosto que um frémito percorre de tempos a tempos como uma vaga de emoção.tura. no que respeita aos outros ou a nós mesmos. imediatamente. na sua poltrona. revistas. podemos reconstituir o desenrolar de uma obra. É um pouco como o que se passa quanto aos sucessivos retratos de Victor Hugo. buscamos a sua opinião. O tom é igual. fixo. na sua 'continuidade. A sua frase é destituída de atractivos e não utiliza qualquer dos artifícios que captam habitualmente um auditório e. um olhar que não pode envelhecer. e sem mesmo se sentar. Wallon imóvel. quando a constatamos. lil uma quinta-feira à tarde. quase rosado. sem uma tentativa de estabelecer contacto 'com o público. Mas do próprio Wallon só guardo imagens descontínuas. entre os quais nos é impossível estabelecer qualquer filiação. de mudar progressivamente as velocidades. O seu olhar. no entanto. Voltamo-nos para ele. que ouvi pela primeira vez há um terço de século. alguns amigos. Rosto colorido. de um rosto. o envelhecimento de um corpo. É o mesmo homem que se encontra por detrás da multiplicidade dos seus rostos. As suas mãos poderosas. Mas o seu olhar vai de um interlocutor para outro. a sua máquina de escrever. Toca a sineta e. reconstruímo-Ia através do próprio movimento do nosso pensamento. Como se pro-curasse as suas palavras e a sua voz. Fala. modestamente. rápido. Muito simplesmente. contudo. Discutimos. Juntos. raramente nos apercebemos desta descontinuidade da recordação e. 'ligeiramente inclinada. sem inflexões. a julgar por mim mesmo e pelo silêncio que reina agora no anfiteatro. não somos diferentes das crianças. como se reatasse o seu discurso a partir da última palavra da sua última lição. A sua voz débil c frágil torna-se mais firme. parecem presas aos braços da poltrona. a sua mão ergue-se .

Isso deve-se. Mas. Mais tarde. Proclamo-me durkheimiano e rejeito a psicologia. No entanto. é a matéria do que se tornará alguns anos mais tarde a famosa obra sobre les Origines du caractêre't Assisto ao nascimento de uma obra. E esta imagem de Wallon. que saberei situá-lo na génese do seu pensamento. para destacar uma ideia. ou. é um homem que adivinho. demasiado brutal para que possa. na disponibilidade. uma simples aparência externa. E nada sei a seu respeito. através desse estilo. de organizá-Ios de um modo diferente do seu. desta reputação falsa e malévola. jamais se apagará. O curso sobre les Origines du coractêre chez lJenfant segue-se a l'Enfant iurbuleni. Henri Wallon tem precisamente cinquenta anos. do itálico. que descobrirei o seu significado. neste aspecto. ao facto de já não serem como o eram alguns anos antes os sinais e a significação da juventude. esta impressão de juventude é demasiado viva. o seu desenvolvimento. conservando todo o prestígio do adulto. Aliás. Ainda mal terminada a infância. no entusiasmo. estou prestes a tornar-me seu partidário. Meyerson. Aliás. na sinceridade que 'animam um rosto. Será cinco ou seis anos mais tarde. na verdade não há muito tempo. como poderia eu saber que o tecido apertado das suas frases. que conservo do que disse? A que ligá-I o ? Não li nada dele. aquele que possui esta qualidade espiritual da juventude. uma criação magistral que modifica as perspectivas da psicologia. como adolescentes. onde talvez me embaracem termos estranhos de biologia. de modo que têm para mim a cor indecisa do sonho.. a partir de um mal-entendido. um argumento. é preciso que deixe ao seu leitor uma certa liberdade de vê-Ios. de privar o leitor da sua liberdade de interpretação. dizemos então para connosco que as pessoas parecem mais jovens que a sua idade. corre o risco de fixar o seu texto. talvez a 'emoção secreta dê a este pensamento uma força insuspeitada de penetração. Mas a reputação de Wallon é a de um organícísta. depois ó fora de nós. dir-me-á ele. E l'Enfant turbulent. apresentado em 1925 como tese para o 150 .nos pgõe em contacto directo com o seu pensamento. Não é de ideias que me apercebo. neste primeiro encontro. Muito ingenuamente. Encontro-me naquele limiar da vida em que a perspectiva das idades se modifica bruscamente. dávamos à juventude o rosto da infância. quando Wallon me desaeonselhar a utilização do artifício tipográfico. Eu ainda não tenho vinte. juventude do comportamento. no plano das nossas acções estudantis. I. é assim que me aparece Henri Wallon. está muito mais próximo de nós. Quando crianças. quando expuser os factos. sem dúvida. Em psicologia. tem vocação para modelo e mestre. e depois.-. quando este curso aparecer nas livrarias. Esse grande homem ruivo que me choca pela sua espantosa juventude. Embora as recordações que guardo desse dia tenham sofrido uma lenta metamorfose. Em política. 151 . e essa é uma constatação tão frequente que se torna insólita. mas de palavras. melhor dizendo. deve bastar por si mesma. tanto em psicologia como em política. duvi-dar da minha memória. sob o império de Bouglé e de Fauconnet optei pela sociologia contra a psicologia. de um estilo e. não seria capaz de tal. observo um homem a dar a sua lição e este homem agrada-me. descobrimo-Ia em nós. Neste primeiro dia. e muito mais tarde ainda. nessa altura que descubro com espanto que os adultos podem ser jovens. eu não saberia que fazer desta liberdade. então assistente na Faculdade de Letras. pouco conheço e. Então. terei uma explicação ou uma justificação do tom que empresta às suas lições: a força da sua argumentação. muito mais tarde. aliás. é o seu prolongamento. Então. Sei apenas que professa opiniões heréticas. Ao sublinhar uma frase. esta «idéia» mais forte que o tempo. de momento. Juventude da voz. por exemplo. O organicismo é ainda uma maneira de negar a psicologia.

atitudes. a primeira elaboração de um pensamento. em grande parte. amplificam. pelo menos. implicação mútua entre os factores de origem orgânica e de origem social que operam na génese do psiquismo. Substituir pela noção de relações recíprocas a de uma causalidade unilateral e mecanicista é já um progresso. em dá-Ias a si mesma como espectáculo. confusa. A primeira formalização. e também por uma espécie de complacência da criança em reproduzir as suas próprias reacções emocionais. se não ouso dizer que é um começo absoluto na obra de Wallon. relação com 'Outrem. pelas suas posturas. isto é. Relações de comunhão. logo de uma forma completa e perfeita. Assim. da intenção de reformular o problema muito geral das relações entre a actividade mental e o movimento. A motricidade é. desembaraçando-a nas falsas facilidades do paralelismo e do organicismo tradicional. de contágio. de uma tese. quer dizer intercâmbio. em ensaiá-Ias. e num trabalho que se apresenta inexactamente como uma psicologia da criança turbulenta. A descrição dos sindromae psicomotores. assinalar o início da era walloniana em psicologia. a linguagem. uma função de realização. Expressão. mas muito mais tarde. em 1925. Wallon libera uma reflexão até então prisioneira de uma lógica 152 demasiado simples. Reconsiderando esta noção. O subtítulo é mais satisfatório: «estudo sobre os atrasos e as anomalias do desenvolvimento motor e mental». Quanto à primeira parte. Esta é sobretudo um método de aproximação para atingir as leis gerais do desenvolvimento. que constitui a segunda parte da obre. publicada em 1909). l1l de implicações que é preciso falar: implicação da sociabilidade futura da criança nas suas reacções corporais. ainda incapaz de nada efectuar por si mesma. E é então que Wallon anuncia. nada menos. é tornar cientificamente pensável o que os metafísicos designam como problema das relações entre o corpo e a alma. com um efeito de ampliação em que a análise das causas. emoção e psiquismo. Têm a ver com a emoção que desencadeia estes comportamentos e que estes comportamentos traduzem. o rodeio pela patologia leva efectivamente a revelar os primeiros estádios do desenvolvimento normal da criança. pelas suas atitudes. É 'certo que são unicamente crianças anormais que fornecem a Wallon as observações por meia das quais a tese é construída. condutas. o movimento torna-se gesto. uma função de expressão antes de ser também.• la. A noção destas relações já era banal em psicologia. Mas a construção ultrapassa de longe a psicologia patológica. é mais fácil. mas ainda não é ir suficientemente ao fundo das coisas. sem dúvida a primeira e fundamental peça de toda a sua obra. e por intermédio do seu meio. Iage sobre o seu meio. tipos observáveis em sujei tos normais. Pelos seu gestos. por encadeamentos extremamente precoces . O que faz. parece-me. evidentemente. na espécie humana. Mas ainda peca por modéstia.doutorado em letras. no sentido mais completo da palavra. Mas a significação. de natureza intelectual como o será mais tarde. em diversificá-Ias. Um primeiro livro (se pusermos de parte a tese de medicina sobre Le délire de persécuiion. e contraditória de um autor para outro. Pela resistência de outrem. esboça. E é pela emoção que se estabelecem as primeiras relações com outrem. comportamentos carregados de significação humana. Por conseguinte. a emoção que inicialmente 153 . a sua concepção da emoção. mas obscura. Aliás. desde a primeira linha da introdução. A emoção é indissociâvel das suas expressões tónicas: posturas. a criança. o que se propõe é uma solução para o problema-chave das relações entre motricidade. dizendo. o tónus muscular torna-se mímica. quando se trata de satisfazer as suas necessidades e os seus desejos. a eficácia destes comportamentos não são. aliás.e nesta condição de incapacidade inicial da criança-. canalizam. Assim. Mas começa progressivamente a estabelecer-se uma distinção nesta confusão primitiva. o título comercial deste livro limita a sua verdadeira intenção e chega a traí .

WalIon abandona o seu primeiro manuscrito e recomeça uma redacção inteiramente nova. que fazem profissão de pensar os problemas humanos ao nível mais elevado. Habitualmente. quando. explica-se mais longamento. é que depois da guerra em que participou como médico de batalhão. devidas unicamente à emoção. feridos de guerra. mas ao plano das relações inter-individuais: à psicologia. Faz quatro anos que esta teoria nasceu. Os trabalhos anteriores de Wallon consagrados à infância preparavam-no para interpretar de forma original as suas observações de guerra e. a comparação de duas categorias de doentes estabelece a complementaridade de dois planos de explicação. por efeito de retorno. e compreende-se então como nasceu em WalIon esta ideia segundo a qual os factores biológicos e os factores psico-sociaís estão indissoluvelmente ligados em todo o comportamento humano: é a análise da emoção que se encontra na origem desta ideia que é essencial para WalIon. no entanto. assimilada imperfeitamente pelos próprios psicólogos. Doze anos mais tarde. Antes de se tornar «uma antena entre o mundo interior e o estranho». E deste modo que Wallon confere à emoção o seu papel na génese do psiquismo. A teoria genética da emoção nasceu e. que vai fornecer a Wallon a sua perspectiva de psicologia genética. ela é o comportamento primário em que ainda não existem diferenciações do psíquico e do fisiológico. esta reorganização da psicologia genética é uma obra de maturidade. sem qualquer lesão do sistema nervoso. do eu e do outrem. Que se passou? Não diz muito a este respeito no seu prefácio a l'Enfant iurbuleni. estudando as perturbações causadas pelas feridas situadas nos diferentes graus do sistema nervoso. e descobre nas expressões emocionais um aspecto que não pertence à neurologia.amalgama a criança ao seu meio por intermédio das mais confusas. reforça ao mesmo tempo a análise neurológica da motricidade. no projecto de ensino que redige para a sua candidatura ao Colégio de França. A tese sobre lJEnfant iurbulent estava já praticamente pronta em vésperas da primeira guerra. em 1937. ou pelo menos foi publicada. que vai levá-lo a ultrapassar a concepção estritamente fisiológica da emoção e a resolver por essa mesma via as contradições das doutrinas clássicas. os médicos-psicólogos reduzem o espírito ao 154 155 . em seguida. esta quinta-feira à tarde. a intuição racional que bruscamente é descoberta: a fase puramente emotiva pela qual passa a criança é comparada ao mesmo tempo às perturbações de origem afectiva observadas nos adultos. O que sabemos. das mais arcaicas sensibilidades. comentadas e quase coordenadas em Agosto de 1914. Por conseguinte. mas que preludia estas diferenciações. Como poderia compreendê-lo ? Outros mais avisados do que eu o não compreenderam ou compreendem-no de través. Exactamente em que perspectiva? Ê provável que jamais o saibamos. e ao estádio que ocupam na sistema nervoso os centros coordenadores dos mecanismos emocionais. leva um dia à noção de outrem e à consciência de si mesmo. nem mesmo à fisiologia entendida num sentido mais amplo. e que por conseguinte ainda não deu todos os seus frutos. Todas as observações estavam redigidas. E o exame de adultos. a ideia directriz e organizadora de toda a obra de Wallon. Esta concepção de Wallon. estas observações iam permitir-lhe fazer incidir uma nova luz sobre os seus trabalhos antigos. ainda hoje desconhecida pelos fisósofos. Deste modo. Compreende-se então em profundidade o processo de comparação e. Ê a constatação de perturbações profundas e duradouras. escuto Wallon sem C' compreender. a não ser que o seu trabalho de 1914 já não corresponde às suas actuais concepções. com ela. Wallon trabalhou longos anos antes de chegar a esta concepção e ele próprio a apresenta como o resultado tanto de um amadurecimento como de uma conversão. essas pessoas.

ansiedade de cada vez que devo falar da obra do meu mestre. encontram-se demasiado estreitamente ligados ao seu temperamento. da sua bagagem médica para professar a psicologia. não obstante o orgânico. não apenas na sua obra. não é a terminologia. não pertence a um nem a outro. quando o assistir no seu ensino. o que é hoje em dia mais frequente. Wallon não é um homem que se dá em espectáculo. dou conhecimento a Wallon. me encarregava de o substituir: iniciar gerações sucessivas de estudantes no pensamento de Wallon sem o traduzir. Seria destruir o que quero ensinar-Ihes. ultrapassa a neurologia mas não a nega: integra-a no plano das condutas e confere-lhe. sem o trair. nesse dia ou em qualquer outro. ~ demasiado cortês para mo dizer. uma forma inabitual de pôr os problemas.orgânico. E. na lição desse dia talvez nada haja que me permita descobrir Wallon. é o seu encadeamento. por desvios ou atalhos. terei a explicação ou a justificação desta forma de proceder. a único método válido consiste em trabalharem sem tradução. a que os perturba no meu curso. não me apercebo disso. assim. e praticar a cura pelo espírito com uma segurança doutoral tanto mais contestável quanto é verdade que só conservam de doutor o título. Só mais tarde. como neste mesmo instante. como. Ao princípio será difícil. um novo significado. para a terminologia bastar-lhes-ia um dicionário. que gosto de fazer malabarismos com as oposições e as conciliações das tríades dialécticas. a que esperam de si é uma tradução do meu curso na sua lógica habitual. nem um professor que conduz os seus alunos pela mão. Mas. esteja tranquilo. :m isto a dialéctica. de apreender as causalidades. criando-me mal-estar. pelo contrário. Wallon é um homem desconcertante. em que Wallon. ora ao segundo tipo destes médicos abusivos. então apaixonado por Hegel. Uma delegação de estudantes procura-me para que lhes explique este curso que têm dificuldade em seguir. Define a psicologia como plano original da realidade e. os temas privilegiados da sua investigação. à sua sensibilidade. tanto pior: de qualquer forma. depois. para ele. mostra-se admirado com tal pretensão e proíbe-me claramente que faça esse trabalho de explicador. Contudo. pois rejeitam como inútil ou falacioso tudo quanto aprenderam como médicos. 'a relação com outrem. desembaraçam-se. tão pouco didáctica. fiz essa experiência demasiadas vezes para que o ponha em dúvida. Mas a sua forma de ensinar. a valor do seu argumento é incontestável. literalmente. e segue-o quem pode. imediatamente. Oacontactos humanos. bem. em Wallon nada é malabarismo. Avança pelo seu difícil caminho. precisamente. nem um autor que comenta 'Ü seu próprio pensamento. Meio divertido. Pode ser que pense que n8. Quanto àqueles que não conseguirem nadar. aliás. sempre foram um problema para Wallon. como 156 151 . umas das condições materiais do psiquismo. Mas hão-de conseguir. Enquanto psicólogo. Estamos em 1937. não é de admirar que Wallon tenha sido classificado. ou antes. para que não sejam tidos em conta numa evocação como esta. Mas. Assim. uma questão a resolver entre os estudantes e eu. A sua dialéctica é e-sforço e não um jogo do espírito. pelo menos na aparência. proibido pelas autoridades de Vichy. Antes de aceitar. ora como pertencente ao primeiro. diz. mas devo confessar que pesaram no meu próprio ensino. continua a ser a condição material.» Não garanto. meio vexado. A explicação que dá para a sua recusa é completamente diferente: os estudantes devem operar uma conversão profunda da sua maneira de pensar para compreender a psicologia.0 sou capaz de o fazer. li. de aceitar e analisar as contradições reais com que deparamos em psicologia. a primeiro ano de Wallon no Colégio de França. Que se deitem à água. E eu. estas declarações que acabo de reconstituir vinte e cinco anos mais tarde. e desde esse mês de Fevereiro de 1942. não têm muito a perder. Quanto a si.

das antigas atitudes apenas subsistiam o sorriso púdico.. graça sedutora: uma personagem. e os frémitos. para descongelá-Ia. que se tornou o psicólogo que conhecemos. com a idade. timoratos. Como em cada lição. com um candidato. Wallon. uma aguda consciência do mínimo gesto. graças a não sei que imponderável. Ora. Wallon é um tímido. ele objecta a fecundidade das hipóteses. pelo contrário.também. a discrição e a necessidade de comunhão. o que havia de anguloso na abordagem de Wallon suavizou-se até desaparecer e. a oferenda de um olhar e a reserva. urbanidade. ministro da Educação Nacional em 1944. abruptamente. na sua vida quotidiana. pela generosidade. subverter as antigas categorias intelectuais. pelo contrário. A timidez de Wallon é vibrante de emoção. seca ou. No encadeamento das recordações. raramente encontrei homem que desminta tão totalmente esta definição da personalidade. no domínio da psicologia. Wallon afronta e ataca. toda facilidade. toda fremente de pudor. Quando Wallon descreve a reacção de porte. Revejo Wallon. para não incomodar um motorista . No frente-a-frente com um visitante ou num dia de exame. ainda que intelectuais. nos últimos anos. à sua emotividade vigilante. alguém havia de sugerir que a inabilidade dos seus movimentos. a este calor e a esta força colhidos nas fontes mais profundas que ele soube. a figura de Paul Langevin surge em mim. O que é certo. é que Wallon viveu com intensidade a complexidade. Afirmou-se que o ser humano assume em cada encontro um papel que deve vir a desempenhar. Foi graças a esta experiência. Não há papel. uma sensibilidade por si mesmo. Langevin. que se abrigam dos olhares e dos golpes. nem mesmo para lhe impor limites. sentimos que o que nos comunica são confissões sobre si mesmo. sem dúvida. não para renegar a razão. dois homens tão próximos um do outro pela inteligência. Então. tanto mais que é contagiosa. e contudo tão diferentes! Aliás. assumindo com uma ingenuidade desarmante as suas funções oficiais. afirma. deslocando-se a pé para o Ministério. lamento que ele tenha falado tão pouco acerca das relações entre a personalidade e a personagem. vivificá-Ia. e de mascará-Io.. a necessidade e as dificuldades das relações com outrem. as súbitas colorações do rosto. a tensão que uma palavra podia resolver ou agravar. Não é aquela desses seres acanhados. A investigação intelectual. ora exaltante. isso não elimina 158 159 . A explicação seria muito sumária. o que é facto é que a sua sensibilidade permanecia a mesma. é outra coisa : procura o contacto que a sua emoção entrava. se põe a falar. quando se precipita para a sua cadeira e. Será um dia aplicada a Wallon a análise que ele próprio fez acerca das compleições psicomotoras ? Então. a perplexidade das relações com outrem e que foi graças a esta experiência. nunca se pode reduzir à simples aplicação mecânica de técnicas. a sua segunda natureza. Se é verdade que a sua expressão era mais calma. Mas isso não é dizer muito. e que assim se forma a sua personalidade. Todos nós somos tímidos. assim. tão estreitamente amigos. fugidios. por exemplo. os paradoxos da emoção. há mil maneiras de sê-to. que a timidez de Wallon tem como contrapartida uma inesperada audácia no plano das ideias. conferir-lhe poderes ilimitados de conquista. ora dolorosa. Depreende-se. Uma sensibilidade por outrem. e sobretudo. quase de humildade. Quando. ou que fazem um seguro contra todos os riscos por intermédio de minuciosos cálculos estatísticos. mas. Aos psicólogos que procuram a segurança numa experimentação demasiado estreita. por discrição. afectuoso. mais serena. tiverdes constatado que uma correlação entre duas séries de factos não é significativa do ponto de vista estatístico. a paratonia das suas atitudes são um reflexo do seu carácter. de compensá-Io. A palavra torna-se então breve. não há personagem. associação por contraste. e só isso nos importa. da intenção adivinhada ou imaginada.

Dessa forma. é enquadrá-Ia num sistema impessoal de referências. por volta de 1930. ou. Seria conhecer muito mal Wallon crer que as suas posições contra o uso de testes e contra a genética traduzem. a sua atitude fundamental a respeito deste método nunca mudou. esse génio não exige obrigatoriamente que se seja genial. no domínio da biologia. quando publica a sua Psychologie aqrpliquée. Se a explicação do indivíduo é o objectivo do psicólogo. Felizmente. foi. entre a intuição e li análise intelectual. sem dúvida. consoante se trata de dá-lo a conhecer. a ciência progride. como muito bem disse Minkowski. Assim. o meio de «reconduzir os diferentes aspectos ou aptidões do indivíduo aos efeitos constatados sobre colectividades ou categorias apropriadas de indivíduos». por exemplo. de uma reserva que. testar um indivíduo. pela experiência. A intuição é precedida. Deve delimitar o objecto próprio dos seus estudos». por pouco que seja.de modo algum a existência de uma relação real. sobre o método dos testes. ao passo que tantos outros. Embora o tom das suas explicações varie de um período para outro. e deve ser se- guida por uma análise escrupulosa. como na estatística de que é solidário. aliás. Afirmou-se frequentemente a respeito de Wallon que ele é um homem de intuição. intervém o génio do observador».pela reflexão. a sensatez de não se pronunciar publicamente. e aceitar pagar. Sem dúvida. acrescenta. Em todo o caso. Muito pelo contrário. e nem mesmo é sempre capaz de o fazer. quer da construção de uma teoria. Wallon desconfia de tudo quanto pode imobilizar o pensamento. mas também força estruturante dos dados objectivos. na condição de não se querer sugerir por essa via que nele a inspiração ocupa o lugar do esforço intelectual. se o objecto essencial da psicologia é a personalidade mais íntima do sujeito. preparada. participação afectiva. eventualmente o controlo estatístico. mas um momento necessário. E exacto. A intuição é apenas um momento da investigação. diz ele. se ridicularizaram ao amalgamarem ciência e política. «um precioso instrumento de investigação e de análise». Wallon tem o gosto do risco. Pelo contrário. E é nestes limites que se exercerá a verificação experimental. uma crítica severa da introspecção. A intuição é simpatia. que não é da sua competência e a propósito da qual teve. então a descrição não poderia consistir no simples agrupamento de caracteres inicialmente esparsos e dissociados. mas não é afogar a sua personalidade nesse sistema. Mas esse é precisamente o preço que é preciso pagar. Wallon explica-se claramente a este respeito. a intuição em Wallon não é subjectividade. quer se trate do diagnóstico individual. um conformismo em relação à teoria soviética de uma certa época. por exemplo. «O contacto sempre imediato que o psicólogo deve manter com a realidade concreta não é um contacto qualquer. «por uma espécie de intuição plástica. como sob a acção de um movimento alternativo do pensamento. um tipo psicológico. conduzido 'a afirmações contestáveis. Procedem de uma convicção muito pessoal. Deste modo. só é 'apreendido na sua fisionomia própria. de tudo quanto pareça postular a fixidez do real: a prática dos testes. Melhor. e considera o risco como uma necessidade. para avançar nos caminhos da descoberta. Wallon explica-se repetida e Iongamente. até mesmo poetas. aliás. nada tem de dogmático. A identificação destes caracteres «pressupõe habitualmente uma espécie de intuição divinatória que precede a visão clara dos pormenores e que nos incita a verificar a sua existência». por vezes a erros. ou quinze anos mais tarde ao combater o seu abuso. Deixemos de lado a genética. E. Aqui. Vê nele. A estatística só responde às questões que lhe propuserdes. é pôr «em evi- 160 11 161 . Os primeiros escritos metodológícos de Wallon marcaram uma recusa categórica da perspectiva subjectiva em psicologia. a teoria cromossomátíca da heredit:ariedade. muitas vezes.

sem que se tivesse em conta os anos perdidos sob a ocupação alemã. senão de intriga. Recordarei sempre a sua reacção de indignação e de vergonha. «senti que aos métodos psicobiológicos era necessário acrescentar outros. a demissão do psicólogo. fica de pé sobre um parapeito. no Colégio de França. Depois. Durante longos anos. foge-se para a frente. no vestiário desafectado de uma escola dos arrebaldes. em 1941. Desde 1935 que a Assembléia do Colégio aceitara Wallon. na Escola de AItos Estudos onde Piéron fazia integrar em 1927 o Laboratório de Ps. por exemplo. É preciso elasticidade. O curso recomeçou a seguir à Libertação. com meios irrisórios. sabemo-Io hoje. A coragem de Wallon tinha algo de provocante e de ingénuo: quando. em 1949. na frente de Madrid. Foi fora da Sorbonne. à fixidez definitiva de um número. consoante se trata de compromisso pessoal ou de promoção social. o seu rosto subitamente ruborizado. Contudo. Não é certamente est-e o género de audácia que mais convém para triunfar no meio universitário. Wallon foi reformado. uma afirmação de si mesmo que não desperte demasiada desconfiança ou inquietação. Quatro anos mais tarde. Piéron escreve: «Wallon. a confusão entre a realidade e o instrumento da sua descrição. naturalmente. permaneceu na Sorbonne numa posição precária. O método mais objectivo e mais concreto de conhecer ia influência destas condições [ . pois constata-o com demasiada frequência.. Mas foi preciso esperar dois anos para que fosse assinado o decreto que permitia a criação da nova cadeira. Quando se tem medo não se recua. Mas esta oposição era então tanto mais eficaz quanto Wallon era incapaz de manobrar contra ela. durante a guerra de Espanha. a esclerose da observação. a sua carreira de professor parecia dever prosseguir: por ocasião das Jornadas Internacionais da Infância 162 163 . à minha descrição do desastre de Dunquerque. um sentido estratégico. Mas o que ele teme. Primeiro. nomeadamente graças à combativída de de Henri Piéron. sob a ocupação alemã. inquietou-se e sofreu com este atraso revelador de manobras e de intrigas». ] !é o método dos testes». ao passo que o seu curso é proibido por Vichy e que receamos todos os dias a sua prisão pela Gestapo. E a sua carreira foi difícil. atira-me ele com uma voz trémula de emoção.dência índices pessoais que parecem irredutíveis e que atestam a originalidade do desenvolvimento próprio da cada indivíduo». recusando abrigar-se das balas.icobiologia da Criança. explica no seu projecto de ensino apresentado em 1937 ao Colégio de França. E Wallon vitupera a imbecilidade de quem realiza o teste. com um encargo de conferências depois das aulas: não souberam atribuir-lhe uma cadeira. criado por Wallon alguns anos antes. na idade legal. Mas a sua nomeação para o Colégio de França. Os seus amigos pretenderam que uma oposição política travou sempre a sua promoção. A audácia e a timidez encontramo-Ias igualmente na vida de Wallon. pois as relações psicobiológicas não formam um sistema fechado. dez anos mais tarde. era a proibição do CUr5:l por Carcopino. a redução da individualidade a um mosaico de características. que Wallon pôde mostrar o que valia.. antigo condiscípulo de Wallon e ministro de Pétain. de carreira académica. milita na Resistência. que foi obtida com justiça. E não deixará de utilizar este método na sua consulta de crianças. é a atitude preguiçosa que acompanha demasiadas vezes a prática dos testes. quando. enfim. por um recente artigo de Piéron. Ê possível e mesmo provável. seu camarada de juventude. uma certa flexibilidade. mas antes abrem-se sobre possibilidades de existência cujo número e variedade aumentam com a diferenciação da actividade humana e as condições de ambiência que esta realiza. Em conclusão. seu amigo de sempre. de que Wallon estava completamente desprovido. mas. mas recusa entrar na clandestinidade.

depois de longos sofrimentos.. Mas a desgraça atingi-lo-ia terrivelmente.. recupera a coragem. com os seus modos que lem- 164 165 . e também porque é a imagem mais juvenil de Wallon que ele nos res- titui como que miraculosamente: um discurso pronunciado em 1903 por ocasião de uma distribuição de prémios. num impulso que nos absorveria completamente. [. Wallon. provavelmente também porque a fuga não está no seu temperamento e nos seus princípios. de convicção! «Será. como está rígido no seu fato de cerimónia. chegados ao termo. ~ no sábado que Wallon morre. tento em vão redigir algumas linhas para anunciar o seu falecimento à imprensa. Ele que não ama os papéis. pelas crianças que lhe são confiadas. Será num aniquilamento progressivo que marchamos para a nossa última hora? Porquê deixar ao acaso dos acontecimentos o cuidado de fazer ou desfazer a nossa vida? Se.. sobre o esquecimento. desafiar a morte oculta no coração do egoísmo?» Depois.. não seja uma falta contra a sociedade pela qual existimos e para a qual devemos agir [.. O texto é com frequência enfático mas não pleno de força. Gerrn:aine Wallon. pois. se toda a nossa vida não fosse mais que o nosso ideal realizado por nós mesmos e realizado pelos outros. :€ numa quinta-feira que adoece. o que é uma coisa muito dura para o homem que envelhece. não será viver com intensidade.. é a sua paixão pelo homem e pela solidariedade entre os homens.. depois. pergunta aos alunos do último ano. Na máquina de escrever. poderíamos nunca mais morrer. » Só e atingido por um mal muito pior do que poderia temer. ] Viver para os outros.. Em 1953. pelos seus colaboradores. quando Wallon é professor de filosofia no liceu de Bar-le-Duc. foi condenado. sobre o tecido de que é feita a nossa consciência? O acaso quis que no dia seguinte à sua morte eu encontrasse um texto extraordinário.» E é toda a generosidade de Wallon que passa através do seu discurso. perde o interesse pela vida. A um jornalista indiscreto que o interrogava sobre o prolongamento da vida humana. ] Esforcemo-nos por ver sem ambigüidade que relações nos unem aos outros homens [. Wallon respondia com uma certa amargura: «Seria preciso suprimir a velhice para que. de confiança. As crianças devem vir à sua consulta no dia seguinte. a Universidade de Cracóvia chamava-o para ocupar uma cadeira de psicologia da criança. pois parece-me responder à minha pergunta. aliás vários meses antes do seu acidente. toda essa força desenvolvida por todos entra nos nossos músculos? Eu sou toda a sua força. Sobre a sua pequena secretária. nos dissolvessemos sem ter de sofrer a enfermidade. sua mulher e colaboradora.organizadas em sua honra em Paris. A consulta é desmarcada no último momento. Estou a ver Wallon. eles são toda a minha força? A nossa vida triunfa. recomeça a trabalhar.. Então. Trabalha até ao último dia. morria. ] Não podeis manter ligados aos cuidados do vosso corpo e do vosso espírito tantos trabalhadores de todas as espécies sem jamais restituir. prestes a abandonar o liceu. Em 1954. A 1 de Dezembro de 1962. há o desaparecimento de todos os próximos. Contudo. derrubado por um automóvel. é a desordem viva de um homem que não preparou a sua partida. desejássemos deixar de ser para além das nossas obras e pelas nossas obras. a peroração explode como um canto de puxadores de sirga: «Pois quê. de alegria e de liberdade». o prolongamento da vida humana . em 1950. a uma imobilidade quase total. é a humanidade que avança num grande clamor de forças. «~ preciso e basta que este ideal que quisemos com toda a nossa melhor vontade não seja um absurdo. do esquecimento que devemos tecer a nossa existência?. é o canto do trabalho emancipador. uma folha branca repousa: as primeiras linhas de um artigo sobre a memória. E.. que o faz vibrar. Que teria ele dito sobre a memória.

No decurso do segundo ano. enquanto evocação de objectos ou de acontecimentos não directamente perceptíveis ou não assinalados por índices perceptíveis. a criança não testemunha qualquer representação. Ela desposa estranhamente o rosto imóvel. Ela é um desafio 2 velhice. É a última imagem sua que me deixa. ao esquecimento. Não há dúvida de que a viragem mais decisiva na evolução mental da criança é aquela que assinala os inícios da representação. As suas condutas são exclusivamente sensório-motoras. Durante pelo menos todo o seu primeiro ano. Tem precisamente 24 anos. (e é bem conhecido o contributo de Wallon para o conhecimento destes últimos pontos). pelo contrário. que admiro nessa noite de 1 de Dezembro. POSFACIO o PAPEL DA IMITAÇÃO NA FORMAÇÃO DA REPRESENTAÇÃO por JEAN PIAGET Para prestar a minha homenagem à obra de Henri Wallon neste número jubilar. Resplandecente de juventude. à morte. assistimos à produção desse acontecimento de importância capital para o pensamento humano que é o nascimento da representação. escolhi um dos pontos em que os nossos trabalhos convergem e se completam sem contradição. Está vermelho de emoção. tanto ao homem como ao amigo. ou sensório-tónicas. emocionais. e sobretudo na sua segunda metade. trata-se apenas de uma «inteligência das situações». etc. apaziguado. por eles e por si mesmo fez um juramento.bram o adolescente! Mas falou aos seus primeiros alunos com toda a sua fé. a sua inteligência é apenas sensório-motora: tal como Wallon o diz com profundidade. permitindo à inteligência 166 167 . Em particular.

. assenta sobre os «símbolos» e já não sobre «signos» (sendo o símbolo um significante «motivado» ou que se assemelha ao seu significado. não existe ainda função simbólica. etc. isto é. conta desta representação? A representação implica seguramente a constituição de uma função simbólica.ar significados não presentes e. a que se chama vulgarmente a imitação diferida (quer dizer. desde os 8-9 meses. é preciso recorrer a um contexto mais preciso de imitação. etc. por conseguinte. levara-me outrora em La naissancede l'intelliflence~ em 1935 (I) . Assim. ções. poderia pensar-se que a formação da representação se encontra simplesmente ligada à aquisição da linguagem e é evidente que este factor é efectivamente capital. considerada por si como uma pseudo-imitação e chamada «ecocinésia». Esta presença da imitação em todas as formas da função simbólica que aparecem sincronicamente no decurso do segundo ano (e veremos em seguida mais uma com a imagem mental).interiorizar-se em pensamento propriamente dito. pois subsistem dois problemas fundamentais a resolver. O primeiro consiste em compreender porque é que a linguagem não aparece nem mais cedo nem mais tarde e. Assim. únicos representados até então. portanto. a imitação sensório-motora testemunha. a caracterizar-se esta por uma diferenciação dos significantes e dos significados. Muito antes da imitação diferida. mas os significantes utilizados são «índices» perceptíveis ou sinais de condicionamentos. Com a representação. uma espécie de evocação pelo gesto e pela mímica) e que Wallon considera como a única imitação autêntica por oposição à imitação sensório-motora (adquirida em presença unicamente dos modelos. o qual. O segundo problema consiste em estabelecer se o signo verbal é o único dos significantes diferenciados ou se intervêm outros no nascimento da representação. Mas se a linguagem. é notável que ao nível em que se aprende a falar. desde a partida. etc. desempenha de facto um tal papel no desenvolvimento da representação e do pensamento. etc. é digno de nota que neste mesmo nível apareça urna nova forma de imitação. atribuídas aos objectos. A este respeito. já toda organizada no meio social e imposta à criança por transmissão educativa. Nos precedentes níveis sensorimotores. no entanto. e se são contemporâneos ou não da aquisição da linguagem. Ora. Ora. pois existem numerosas. é verdade que todas as condutas já manipulam significa . significantes indiferenciados dos seus significados e que constituem simplesmente uma das suas partes ou um dos seus aspectos. pelo contrário. Como dar. que começa na ausência perceptiva do modelo e que comporta. aos gestos das pessoas. e outras contemporâneas desta aquisição. assim. a simbólica gestual destes jogos de ficção consiste essencialmente numa imitação. 334-335. pois consiste em eyQQ. pois este é muito mais precoce. nem tudo está dito. qual o contexto que favorece a sua aquisição. de uma diferenciação dos significantes e dos significados. ainda que possa continuar-se após o seu desaparecimento). Além disso. uma tal diferenciação afirma-se e apresenta-se mesmo como uma condição constitutiva do acto representativo como tal. com efeito.. a considerar a imitação como o processo que assegura a transição entre a inteligência sensório-motora e a representação figurada. a criança comece também a utilizar todo um sistema simbólico. podendo um certo sincronismo ser o índice de uma solidariedade. um esforço de (') P. não basta apelar para o condicionamento. só pode evocá-Ios por meio de significantes diferenciados. sucedendo aos simples jogos funcionais ou de exercício. mas falta determinar de que forma de imitação se trata. 169 . isto é. e não «arbitrário» ou convencional como o «signo») : é o sistema dos jogos simbólicos.. assim. Sendo uma das formas mais específicas de significantes diferenciados constituída pelo sistema dos «signos» verbais. algumas das quais são igual168 mente muito mais precoces.

no queconcerne a um novo modelo. um dinamismo produtor. e s6 em seguida a boca (Obs. os erros não se explicam por falsas agulhagens associativas. na sua presença perceptiva. cuja tendência é sempre a de insistir sobre as descontinuidades e as crises. 25.1. um modelo em potência que 'começou por só ser apreendido na sua realização efectiva. Com efeito.. etc. abrir e fechar a mão no vazio. mas resulta directamente da interiorização da própria imitação. Obs. tornou-se imitação de cenas e de acontecimentos. De l/acte à la pemée. estes novos actos de inteligência dão por vezes lugar. Desde antes do seu nível «diferido» e propriamente simbólico. começando na segunda metade do segundo ano por taxar de ecolálias. também ela. é notável que Wallon.08 11 meses e 21 dias por ajustar as mãos aos olhos (2). as formas (a) H. na idade de 11 meses e 14 dias. WALLON. Assim. 244). Por conseguinte. sem que haja ainda qualquer evocação mental ou representação interior. ou seja. a imagem 'como tal seria. por conse. a simples transferências associatívas comandadas por sinais. etc. uma das minhas crianças me observa a fechar e abrir alternadarnente os olhos e responde abrindo e fechando a boca. de só 'começar. assinalado pelo aparecimento da linguagem por si só. iniciados após o desaparecimento do modelo.ia acção de fazer corresponder partes visíveis do corpo de outrem a partes não visíveis do próprio corpo (rosto). Quando. em presença do modelo de abrir e fechar a boca. tenha igualmente recorrido à imitação para assegurar a transição sensório-motora para o representativo. independentemente da linguagem). o termo de imitação a partir da imitação diferida. depois. 1942. ecocinésias. é compreensível que a imitação deixe de estar sujeita à condição até então necessária. no seu poder de acomodação. por exemplo no caso da imitação dos movimentos relativos ao rosto de outrem sem equivalente visual no próprio corpo. e acaba . F'lammarton. em 'lugar de estabelecer entre ambos um corte radical. começa por abrir e fechar as mãos. nomeadamente na capacidade de imitar modelos novos (o que é o caso desde (.~'uinte. E. fez-se instrumental. é a este mesmo nível que o acto de inteligência. deu lugar aos simulacros. responde passando a mão sobre a boca. a imitação constitui. ambas tão bem descritas por W. e que não se reduzem. (') A formação do símbolo na criança. 56-58 de La formation du symbole). já uma espécie de representação. a saber a miragem. :m verdade que. como já dissemos. a orelha. Ora. bem entendido. admitir que a imitação sensório-motora se interioriza em imitação diferida. é supor que o elemento novo que entre ambas intervém.29). mas testemunham ensaios sistemáticos e controlados. Mas. Outra das minhas crianças com 11 meses e 5 dias. seguidas de súbitas reorganizações novas. em todo o capítulo que consagra à «Imitação e Representação». uma vez adquirida a técnica imitativa. escreve: «A imitação 'concretizou-se como um poder latente. mas em actos e no sentido »róprio de uma reprodução material da apresentação. em seguida sobre as faces. um esforço de correspondência. assim. 170 171 . não surge de forma exterior a este processo de interiorização. coisa interessante. um produto da imitação. na criança de 15 a 18 meses. quando esfrego os olhos. mas que em seguida se destacou para se tornar representação pura. apesar das belas observações de Guillaume. a representações imitativas do objectivo a alcançar: abrir lentamente a boca em face de uma abertura que é preciso alargar para atingir o interior de uma 'caixa.S 10 a 12 meses no que respeita a ensaios sistemáticos) e . Koehler no chimpanzé (portanto. (obs. Wallon só utiliza. Neste livro cativante e pleno de ídeias que Wallon teve a 'coragem de publicar em 1942 (3). nos dias seguintes. e possa dar lugar a ensaios «diferidos». Nunca foi estritamente acomodação a outrem. até então subordinado à necessidade de proceder por tateios dirigidos. que opunham de forma decidida o signo e a coisa» (p. dá lugar pela primeira vez na criança a estas interrupções momentâneas da acção.cópia do modelo apresentado. numa situação análoga.

. constituiu durante muito tempo uma representação figurativa e não foi por acaso que a sua acção foi tão forte entre os gregos. Obrigam a reconhecer um estado do movimento. Mas ao nível do pensamento científico moderno. aproximação essa a nosso ver notável. Nesta idade (1). 245). finalmente. ao que me parece. a representação pode apresentar um carácter «figurativo». facto pelo qual todos nós lhe somos devedores: trata-se do papel que faz desempenhar aos processos sensório-tónicos ou posturais nas funções afectivas e cognitivas. apesar das descontinuidades relativas entre as suas formas ecocinéticas e as suas formas «diferidas». liga-se a um aspecto fundamental do seu sistema e sobre cuja importância insistiu. e visar menos a cópia do que operar e construir. é a «plasticidade perceptivo-postural» (p. 158). ou seja. evidentemente. estabelece a ponte entre o sensório-motor e o representativo. A geometria. evidentemente. também para um artigo escrito em homenagem a Wallon! insistir aqui sobre este ponto de convergência entre as nossas interpretações. tão pouco tem sido apercebido. e um estado da representação. tender ao fornecimento de uma imagem mais ou menos conforme às realidades representadas. assim. Trata-se de conexões activas. que a diferença mais marcante entre a obra de Wallon e a minha se reduz. muito mais a uma complementaridade que a uma oposição. Esta diferença refere-se <1 dupla natureza da «representação». não receia tais perigos na passagem das formas inferiores de imitação às suas formas representativas: «As etapas sucessivas da imitação respondem. Mas se é satisfatório para o espírito . por exemplo. que serão. Mas tem um certo interesse constatar que Wallon. isto é. os jogos sensório-motores da criança leva(4) Trata-se de observações sobre a criança de Guiliaume na idade de 1 ano e 10 meses. de tal forma que as notas que se seguem prolongam muito directamente as que acabamos de fazer sobre os começos do simbolismo. 134-5. por oposição à álgebra. com efeito. que são o resultado de móbeis investigações e que comportam por conseguinte um certo grau de previsão ou de dedução» (p. que habitualmente desconfia tanto da tendência para utilizar uma sucessão genética como ponto de apoio de uma explicação. A álgebra 173 172 . aliás. onde este deixa de confundir-se com as reacções imediatas . ele próprio introduz. o papel do sistema postural é. afinal de contas.. em que o movimento já a contém antes que ela saiba traduzir-se em imagem (id) ou explicitar os traços de que deveria ser composta». rarn-na a estabelecer as conexões mais extensas e mais variadas entre os seus campos sensoriais ou exteroceptivos e posturais ou proprioceptivos.ação igualmente cognitiva) até esses «simulacros» colec. isto é. na medida em que evidencia o facto de causalidade por imitação na doutrina dessas ideias-imagens designadas pelo termo de Eidos ou de «formas». a representação também pode incidir sobre as transformações como tais. pondo à disposição desta um «esquema corporal já muito completo e bem orientado.. Ora. desde as mais primitivas condutas emocionais (que para ele têm uma signific.. Em suma. muito anterior à imitação diferida. Ao nível do pensamento científico. tivos que descreve com tanta sagacidade no seu capítulo sobre «Ritos e representação» e de que estabelece. 161) que. então. muito exactamente ao momento em que a representação que não existia deve vir (J) formular-se (o sublinhado é nosso). e que o filósofo que reservava só aos geómetras o acesso à sua República construiu uma teoria das Idéias onde Wallon entendeu ver (recordámo-lo há pouco) o parentesco psicológico com um certo primado da imagem ou do simulacro. configurações.) A verdadeira razão que leva Wallon a passar aqui sobre as descontinuidades que. (p. para Wallon. não o é menos poder sublinhar este facto essencial e que. uma aproximação com as ideias platónicas (p.sensório-motoras anteriores à imitação.e.

.pectQ. A minha é a de operação. o aspecto figurativo do pensamento matemático) é destituída de qualquer valor demonstrativo. a sequência ininterrupta das condutas que conduzem acções sensório-motor as com os seus esquemas às acções interiorizadas pré-operatórias e. tende a subordinar todas as variedades de espaços a «grupos» fundamentais de transformações.itação ~L PMê-ª~IJlJJQ.. assim. e que só terminam nos dois patamares de 7 a 11 anos e de 12 Ia 15 anos. espaço.".. o facto é que permanece indispensável do ponto de vista heurístico.. Nesse '1' =: f caso. e pode mesmo."/' -. mas que necessariamente se completam. "muito mais do que as da "r.en~Q~to. profunda~epte '" ...Itl)reseI!1açã9. em oposição aos aspectos figurativos precedentes. lógica das . acaso e combinatório. e operatório em particular. tempo.•.. resta dar conta da formação tão laboriosa das «operações». relações. estes mesmos mecanismos ultrapassam incessantemente o figurativo..r..0!LO_S~u. ou seja.assenta inteiramente sobre sistemas de representações e a geometria contemporânea.•._§. finalmente. Por outro lado.g~ ~~r.. _. Uma acção pode ser percebida por via proprioceptiva e o seu resultado por via exteroceptiva. A corrente de conjunto que conduz da acção e das técnicas à ciência propriamente operatória obriga.1'~ I . mento e velocidade. por um lado. coordenações que. Uma operação pode ser simbolizada. é.:!n.~a~j:L~ses elementos de ord~m e de ajustamento que se encontram em todos os níveis: por conseguinte. movi1. )~~:. mativa. mas. permanece irrepresentável em imagem.. O aspecto operativo das funções cognitivas oculta..._a. de que uma série de estudos em todos os domínios logico-matemáticos elementares (elasses. só SIJ pode explicar remontando às coordenações entre as acções corno tais. . Wallon e eu. deixar de incidir sobre qualquer objecto a não ser por uma imaginação simbólica muito aproxií7 J. os mecanismos operativos. é evidente que a filiação genética sobre a qual' :_ ' parece que concordávamos.o_tor ao r:~J?.. efec. a mesma é a que resulta de interesses divergentes. desde o «programa de Erlangen». Não obstante. na medida em que nunca podem ser «figurados» adequadamente. i Sendo assim.. enquanto acto contínuo. "- J_~y_ocaI.•. número. às operações logico-matemáticas enquanto operações que incidem sobre transformações. ' \ ""-"--- "\. é impossível pensar sem um apoio simbólico e os mais abstractos dos matemáticos concordam em reconhecer que.. etc.--'--""..ê..~igl!!::'!Jivo. Parece-nos que é mesmo a totalidade das funções cognitivas que depende de uma tal dicotomia.) nos r.. Onde Wallon fala de um período pré-categorial do 175 . no decurso da um longo processo de descentração a partir da acção própria.. a distinguir. aquilo em que é generalizável e assimilável. como em matemáticas «puras». um aspecto «operativo» da representação e do pensamento.ições e «grupo» das inversões e reciprocidades. que julgo vislumbrar hoje em dia. mostraram que se preparam apenas entre os 2 e os 7 anos.E. " Para voltarmos então a essa complementaridade entre as investigações de Wallon e as minhas.s~ e~pli~~. :~. derivando eles mesmos uns dos outros. A ideia central dos trabalhos de Wallon é a do papel do sistema postural.. três grandes categorias cujo carácter comum consiste em levar exclusivamente a configurações (e traduzir em figuras ou em símbolos figurativos os movimentos e mesmo as transformações quando o sujeito tenta percebê-Ias ou reproduzi-Ias). Ora.. se a «intuição» (por conseguinte..jL.. Ora. tendem a subordinar a si mesmos os dados figurativos.•.I"HI. Ao aspecto figurativo do conhecimento podem estar ligadas as percepções. pelo contrário..". aqui..:.. ao passo que o aspecto figurativo da ..t-:-tpropos. por V~~I!!. "\-. mas o seu esquema. o sensorlü-motor no' serÍtJdo ~-st~i~9_ que é necessário . o aspecto operatívo em :>geral (acções e operações).I~~Iüat~vo.I: representação está ligado ao sistema sensório-tónico ou postural por intermédio da imitação e da imagem. enquanto estes incidem sobre «estados» que só vêm a adquirir significações quando ligados entre si por transformações. a imitação sob todas as suas formas e as múltiplas variedades de imagens mentais.· tlvament~.. não é perceptível.

sequência dos nossos trabalhos mostrou serem inerentes às transformações operatórias..'~qu~.eu-diria. a primeira manifestação destes invariantes (ou esquemas de conservação) que a (p. isso acontece precisamente por se tratar de constituir previamente um sistema suficiente de representações figurativas. que tem por meios e por objectivos as próprias atitudes do sujeito. que a ciência leva. aqueles que estão virados para o mundo exterior e que são ainda comumente considerados como estando na origem da vida mental. pois é preciso esperar entre 2 e 7-8 anos para que se elaborem as primeiras estruturas operatórias representativas ou sistemas de transformações que já não se contentam em copiar ou reproduzir. e outra que é a actividade sobre si mesmo ou «postural». eu vejo aí um período pré-operatório. loco cit. Wallon critica-me longamente (p. Primeiro.reprõduzi=iõ>. 246). depois de ter falado de Platão. Pela minha parte. 243). em seguida das técnicas experimentais' e científicas. aqueles amontoar-se-iam por uma espécie de progressão mecânica. mas modificam o objecto . diz que a ciência actual.~ (p. Onde Wallon. aquele que o faz. traz em si mesma a razão dos seus progressos» (p.rel:açãoestreita dos nossos pensametltosço_m o seu objecto». fundado sobre uma forma muito prática e activa do «grupo das deslocações». pensando na representação tal como a descreveu nos últimos capítulos do seu estudo. por meu lado. E Wallon continua.n'Ôem a. .pensamento da criança. uma virada para os objectivos exteriores. que engendra a imagem a partir da imitação e procede do sistema postural. se recusava com razão a encontrar nos meus esquemas sensório-motores o que só pode ser fornecido pela imagem. Mas porquê então este intervalo entre os esquemas sensório-motores e as operações? Em primeiro lugar. 25-49) por ter estudado a inteligência sensório-motora e a construção do real do ponto de vista daquilo que chama uma «psicologia da consciência» e projectando todo o espírito nos esquemas sensorimotores. sobretudo. 176 12 177 . falando Ia «'representação. cuja utilidade só depois se revelaria. e que os sistemas de transformações são um outro. e esta é a modificação mais imediatamente apreendida.~ces~idadELd~ figuração. Não se poderiam caracterizar melhor aa duas formas da «representação». pela representação figurativa em geral. que se subordina primeiro e que caracteriza a especifícidade da ciência por oposição ao elemento figurativo conservado em comum com o mito (~~. Ela corresponde. a uma mesma ~. Em seguida. li: uma actividade plástica. 246). Nesta mesma obra «De l'acte à Ia pensée» que comentamos neste artigo. Wallon declara: «Entre os efeitos ulteriores do movimento. efectivamente bem distintas mas exactamente complementares. A função postural. que a figuração é apenas um aspecto das coisas. «Na tese dos esquemas motores que se sobrepõem e se ordenam entre si para finalmente realizarem representações. Numa passagem de notável lucidez e quase profética quanto aos resultados ulteriores das nossas respectivas pesquisas. 245). inicialmente solidária do mito. é pàrque-estes_«te. que despertaram o interesse de Wallon e o meu: a forma figurativa. Com a serenidade permitida por vinte anos de distância. sob estas formas diversas. diria. é «em certa medida a criação do seu objecto» (p. como Wallon claramente enuncia. à transformaçã. Encontra-se na origem da imitação» (p. compreendo hoje que Wallon. também ela. e a forma operativa que começa com os esquemas motores e só chega às operações propriamente ditas do pensamento «depois». mas entendendo por-i. Abrem-se então duas orientações na actividade. pela linguagem. Mas também eu tinha razão em antecipar nas coordenações entre esquemas de acção o ponto de partida das operações ulteriores. ao mesmo tempo que o meio. do objecto. se há ~. há-os de duas espécies. e na constituição do esquema do objecto permanente.. pelo contrário. 242-3)... (') De l'acte à la pensée. Mas um gesto modifica.

Colóquio Lang'evín-Wallon. Paris.~~s~®. J.---. depois de ter procurado (e. compraz-me terminar ~ta~a not_ª-. e que é inútil abordar aqui. e um sistema de operações coordenadas e objectivas. «isso é outra história». o sistemas postural e o sistema sensório-motor.~mhomenagem a.~ minha ... Março de 1962. ~~-------. antes da representação.s 112.. n. "'-_..-.. complementares.-. -_. LES ORIGINES DE LA PENSltE SELON HENRI ~volution Psyquiatríque.. Mas. Prefãcio à tradução inglesa dos textos de Wallon. material e directamente centrada.s:s. .porque.' -.. termos di~ussÕ€s que o nosso comum amigo Zazzo comparou recentemente a diálogos de surdos. número de homenagem a Henri Wallon. Ora. apercebi-me" ao reler a bela obra de Wallon.. 23 de Maio de 1973 DU CORPS A L' AME: LES R:e::PONSES DE WALLON ET DE FRll. 1963 L'OEUVRE DE WALLON A LA LUMI1!lRE DU MARXISME La Pen. uma vez que o aspecto figurativo e o aspecto operativo da representação são..9. Em resumo. fundamentalmente. La Pensée. entre a acção própria. WALLON t -o ( } J ~ vJ /" ' WALLON. embora nos acontecesse. por ocasião de uma sessão de homenagem a Henri Wallon pelo seu 80.° aníversárío._\Y n' I REFERltNCIAS ORIGINES ET ACTUALlT1t DE LA PENS:eJE DE HENRI WALLON Alocução proferida por ocasião da jornada internacional da OMEP consagrada a Wallon. que o termocentral de «representação» era justamente um desses termos ambivalentes que nos tinham separado.. PSYCHOLOGUE DE L'ENFANCE 26 de Maio de 1963.orna~ ~~sário um hmgo j)r.AAentraç~. certeza na complementaridade das nossas próprias obras.e. Primavera de 1971 LE PROBL1!lME DE L'AUTRE DANS LA PSYCHOLOGIE DE HENRI WALLON Número especial de homenagem a Henri Wallon de Vers l'lMucation N ouvelle. 119 empregarmos as mesmas pal~vra~. a Wallon e a mim.p.lUD Nouvelle Revue de Psychanalyse.s 31.~nsá~os ~m.. 1964 LA DIALECTIQUE DE L'INTELLIGENCE: WALLON ET PIAGET Publicado sob o titulo de «La dialectique de l'intelligence dans l'oeuvre de Henri Wallon». UNESCO. WJlilon..-.elaexpr.~Q!~~ª--di~~rentes.. com alguma dificuldade) um ponto sobre o qual estivéssemos certos de ter convergido. confesso. QUI EST WALLON . é evidentemente porque.Q-º.--. Dezembro de 1947..ge=de. como dizia o romancista inglês. '-. 1950 PSYCHOLOGIE ET MAT:eJRIALISME DIALECTIQUE Alocução proferida a 16 de Junho de 1959 na Sala das Sociedades Científicas de Paris..p. New York. 1975 178 179 . a fim de o evidenciar neste artigo jubilar.ã.sée. Assim.. n. tal como o são já. em ~volution Psychiatríque.

Posfácio: Jean PIAGET LE ROLE DE L'IMITATION DANS LA FORMATION DE LA REPRl!:SENT ATION " Bvolutwn Psychiatriquc: número de homenagem a Henri \Vallon.v 4.PORTRAIT Journal DE HENRI WALLON de Psychologfe. n. Outubro/Dezembro de 1963. Doutor em Letras com uma tese sobre l'Ercjant: Turbulent Criação do Laboratório de Psicologia da Criança em Boulougne -Bíllancourt 1927 1929 1930 1931 1934 1937-1949 1941 1942 O Laboratório é integrado na Escola Prática de Altos Estudos. i' HEN~I WALLON Algumas docas da vida e da obra Nasido em 1899-1902 1902 1903-1908 1908 1908-1931 1914-1918 1920-Ht37 1925 1925 Paris. Março de 1962. a 15 de Junho de 1879 Escola Normal Superior Professor de filosofia no liceu de Bar-Ie-Duc Estudos de medicina Doutor em medicina Assistente de Nageotte em Bicêtre e na Salpêtriêre Mobilizado como médico de batalhão Encarregado de curso na Sorbonne. da qual WaUon é nomeado director Participa na criação do Instituto de Psicologia de Paris e L10 Instituto Nacional de Orientação Profissional Príncipes Les de Psychologie du caractére appliquée Adesão ao «círculo Origines da Rússia Nova» l'enfant chez Professor L'évolutwn no Colégio de França psychologique ele l'enfant Proibido de ensinar pelo governo de Vlchy Adere ao partido comunista clandestino depois da execução de Politzer e do físico Salomon 180 181 .

Psychose infectieuse et confusion mentale. 8 . de persécution. l'Enchéphale.).). J.Négativisme ou simulation? Le syndrome de Ganser. 2. 6 . 11. 1911 7 . l'Encephale.Accês d'excitation et de délire accompagné de vertiges chez un imbécile. 1911. 1908. 1909. 8. Rev. 5 .et Rolland.et Gantier (Cl. de Psycho.Discours proncncé à Ia dístríbutíon des prix du lycée de Bar-le-Duc. 1910. 81-85. 468-473. L'Encéphale.Rapports de I'hystéríe et de l'épilepsie chez deux enrants.1944 1945 1945 1946 1948 1949 1950-1952 1950 1953 1962 Secretário-Geral da Educação no Governo da Libertação Delegado do «Front National» à Assembleia consultiva provisória L68 origines de la pensée chez l'enfant Deputado por Paris na Assembleia Constituinte sucede a Langevin como presidente da comissão para a reforma do ensino Criação da revista Bniance ~formado Professor na Universidade de Cracóvia (Polónía ) Les mécanismes de la mémoire Atropelado por um automóvel.et Kindberg (L. 9 . 9-15. 118 p. 1909.PUBLICAÇ6ES DE HENRI WALLON 1903 1908 1909 1 . 1-2. 182 183 . juin 1911. J. Le déli1'e chronique à base d'interprétation (thêse de médecine). Description du cerveau d'un enfant aphasíque. mars-avrtl 1911. 244-248. 171-177. 1910 4 . le 30-7-1903. 158-163. t. 3. 2 .. reproduit in Bnfomoe. Neurol.Psychose circula ire ayant débuté à douze ans chez une fillete intellectuellement débíle. Un enfant sitiophobe et flaireur. L' Encéphale. 1968. Batllíêre. 335-340. Paris. 1909. 3Délire l'Bncéphale. 1.. Daí em diante fica condenado à imobilidade Último artigo: «Pluralité et nombre chez les enfants de ~ à '1 ans» Morre em Paris no dia 1 de Dezembro de 1962 BIBLIOGRAFIA estabelecida em colaboração com RACHEL MANARANCHE A . 1. Perte des notions de temps.

J. de Psycho. de l'Ens. Ses conditlons psychophysiologiques. 1-38.. XIX. 1913. déllre de persécutton. 11. 327-330. 408-414. 22 . (avec une page d'introduction) in G. t. 759-764. in l!JducatioH Physique: Quelques conjérenoes scientifiques et techniques.et Dumas (G. Z'Encéphalc. 1926. juillet 1926. XX. 367-374.. 1923. Fr.. 1923. de Psycho. 355-360. 1963. 1925. 1926. rééd. 82-105.Psychonévrose et troubles d'origine sympatique. rééd. 1914-1919. XXI.Le délire d'interprétation.La conscience et Ia víe subconsciente. 1. L'autisme du malade et l'égocentrisme enfantin: lntervention aux discussions de Ia thêse de Piaget. Mouvement et psychisme. XX. 1914. lI... 472-476.Les psychonévroses de guerre. 957-974. 1. de Psycho. Stades et tro1~bles du déveZoppement psyehomoteur et mental chee Z'enfant (thêse prlncipale pour le doctorat és lettres i. Uenfant turbulent. de Psycho. Ij! 't f 1925 32 33 - 34 35 36 37 38-et 39 ~ 40 4142 43 - 1926 1927 1928 44 - 45.22 et n. Année PsychoZ.. 413-425..1929 46 - La conscience et Ia vie subconsciente. 28. Dumas. La mentalité épíleptíque. Tabês. Année Psychol. psychose. Paris. 10 - 1924 "1Ií: 31- t.. J. 1925-1926. enfance.. Prim. Rev. t. Ann. Bull. 1928.).Sur quelques problêmes de psychlatrie (à propos d'un livre récent). 12. Dumas. Paris. in Enfance. Soe. Latarjet. 3-4. ele l'Ens. trav. et506 à 521). 61-78. Rev. de Psycho. Phils. 1. Prim. 316 p.. sous Ia Direction du Pr. 20 . 1914. 1914. La maladresse. 161-185. 111-120. N01weaH traité de Psychologie. 327-328.. Fr.. Paris. Bull. Pédag.. XIX. L'Euoéphale. 131-136. L'étude des anormaux et Ia psychologie de l'enfant. 436-444.. 21. Re». Année Psychol. juillet 1926. rééd. J. 47 - 184 185 . Ii ! 1913 1914 1919 1920 1921 1922 1923 Forme écholalique du langage chez un ímbécíle épíleptíque. 1921. 1927. 27 .la réédítlon en un seul chapitre -des. J. Année Psuchol. 14 . ler juin 1919. 23. 653 p. 13 .. 217-252..754-757. Dumas. 1928. sept.. rééd.-oct.. Bull. PUF. Alcan. in G. Année Psychol. 215-236.Obsession et délire. t. 95 p.Stéréotypies. 23-25. 1921. La mentalíté primitive et celle de l'enfant. Rev. 21. Alcan. 28 . J.La psychose hallucinatoire. 71-76. 479-521. VII. ln Enlance.. Psycho"logie pa. Une variété d'enfants anormaux: les instables. 15 .. L'interrogation chez l'enfant. Sei.Spiritisme. janv..Le délíre d'imagination... Année Psychol. 69-66. J. de Psycho. 1926. 190-196. de Psycho. XXII.Les réactíons motrices dans les crises dues à l'émotíon. 202-228. 1920. articles cí-dessus n. 158-159. perte des notions de temps consécutives à une crise d'alcoolísme aigu.. J. Paris. sexualíté. 7-8. 268-280. Mercure de Ertmce.La eapacíté d'attention chez l'enfant. Alcan. de Psyco. as. Fr.. 1914. rééd. in G. de Psycho.La conscience et Ia conscience du moi. 1942. 24. 12 ... de Psycho. juin 1922. J. 16 . fév. 24 . de Psycho. 5. 1925. Dereux (J. 264-278. de Psycho. 1959. de Psycho. 1911. publ. alcoolisme chrorilque. A. 17 . 30 . J. Les causes psychophysiologiques del 'inattention chez l'erifant. Lyon.Le problême biologique de Ia conscience. 26 . 1920-1921. 1924. Boc. Exhibitionnisme et syphllís.r. RecueiZ d'observatiotl8 (thêse cornplémeutaire de lettres).). J. Phil. Rev. J. 1923. Philos. 29 . XX. (Il s'aglt de . 1914. Les troubles mentaux de guerre. 1913. 1921. Traité de Psycho"logie. 142-166. janvier 1920.. juín 1925. Rey. J. Tra-ité de Psyeho"logie. J.Un cas de brusque varíatíon dans Ia forme de crises d'origine émotive.3-4. in Enftmce. 18 . de Ps-ycho. 1928.Lésions nerveuses et troubles psychiques de guerre. 170-182. 331-335. Annéc Psychol. J. Alcan. 25 .. 1-2. 1929. Alean. 1930. Pédag. 4-14. 337-347. 500-515. La notíon de cause chez l'enfant (ler project d'enquête). L'habileté manuelle. Paris. I.. mai.24 et occupant Icí respectívement les pages479 à 506. 1914. 1959. Paris.. La «Science des rêves» de Freud. juin 1929. inertie systématique.thoZogique. fév.L'idée de dégénérescence mentale. 19 . 361-367. 97-120. avril 1920. Année Psychol. 23 -l!:motionet épílepsie. 51-64. 1924. rééd. XX.et Langte. Soe. 5M-556.

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" ........ """ " CAPITULO 35 m 55 O PROBLEMA DO OUTRO NA PSICOLOGIA DE RENRI WALLON....··r..... " . ..... ....... CAPITULO IV A DIALÉCTICA DA INTELIGÊNCIA: -PIAGET CAP!TULO V WALLON67 SEGUNDO :~....! 1 I INDICE PREFÁCIO À EDIÇÁO PORTUGUESA Por Joaquim Balirrão PREFÁCIO CAPITULO I I ............. AS ORIGENS DO PENSAMENTO HENRI WALLON 83 J ............... 7 I 11 ORIGENS E ACTUALIDADE DO PENSAMENTO DE RENRI WALLON " CAPITULO li 17 DO CORPO À ALMA: AS RESPOSTAS DE WALLON E DE FRIDUD... """ ..

I ~.· . ·~···. t. . CAPíTULO IX QUEM ~ HENRI CAPíTULO X WALLON WALLON .fl j" . PSICÓLOGO DA INFÂNCIA CAPITULO Vil 93 f I 1. i I A OBRA DE HENRI WALLON Â LUZ DO MARXISMO CAPíTULO VIII 105 125 13'7 ~1-' PSICOLOGIA E MATERIALIS'MO DIAUlCTICO. It i r.í ... .< i .' j RETRATO DE HENRI POSFÃCIO 147 i: O PAPEL DA IMITAÇÃO NA FORMAÇÃO DA REPRIDSENTAÇÁO Por J ea:n Puujet I I 167 I I " iI. I' CAPlTULO VI \ WALLON. I ~ ~ h .. I'.