CONSTITUIÇÃO E MUDANÇA

1. Assinalaram-se ontem, 2 de Abril, trinta e sete anos sobre a aprovação da Constituição da República Portuguesa, pela Assembleia Constituinte, com o voto de todos os partidos com assento parlamentar, com excepção do CDS, hoje CDS/PP. A aprovação da Constituição marcou, de modo indelével, o início dum longo caminho de democratização da sociedade e das instituições portuguesas, depois de quarenta e oito anos duma longa ditadura. Ao longo destes anos, o texto da Lei Fundamental foi objecto de sete revisões constitucionais, algumas delas constituindo verdadeiras rupturas constitucionais, como aquelas que afastaram a interpretação paralisante dos limites materiais da revisão constitucional, que abriram caminho para as privatizações, que eliminaram fórmulas marcadamente datadas como “a transição para o socialismo” ou “garantia do processo revolucionário” ou que, mais longinquamente, extinguiram o Conselho da Revolução, herdeiro constitucional do Pacto MFA-Partidos. 2. É impossível olharmos para a Constituição aprovada em 1976, na sua versão original, sem atentarmos na sua natureza programático-estatal e convocarmos o “desencanto da lua-de-mel”, na expressão de Ralf Dahrendorf do período pós-revolucionário. À estabilidade dum núcleo identitário-constitucional de natureza matricial, justapõe-se um desenvolvimento interpretativo das normas constitucionais efectuado pela jurisprudência e pela doutrina, interpretando de modo actualista a Constituição, face a novos problemas ou buscando diferentes soluções. Como escreveu Francisco Lucas Pires, na sua tese de doutoramento, “a jurisdição constitucional teria de ser assim, também, o momento em que se ilumina e se depura a essência da consciência mediadora sobre os problemas constitucionais, na própria encruzilhada entre a norma e a realidade”. A revisitação da Lei Fundamental, num momento particularmente delicado da vida nacional, torna evidente a importância do texto constitucional que, não sendo gravado na pedra nem sendo um programa de políticas, assegura um limite constitucional inultrapassável pelas maiorias parlamentares ou pelos credores do Estado, ainda que de natureza institucional, sob pena da violação dum contrato social de natureza constitucional. Podemos discordar das decisões do Tribunal Constitucional quanto aos juízos de conformação constitucional – neste particular, as Regiões Autónomas têm um largo capital de queixa quanto à restritiva interpretação feita quanto ao sentido, âmbito e limites da constituição autonómica, ultimamente quanto às

questões económicas ou fiscais – mas temos de reconhecer que não se fixou numa interpretação dirigente da Constituição. 3. A constituição autonómica, com a instituição de duas Regiões Autónomas, com órgãos de governo próprio e poder político, legislativo, financeiro, patrimonial e administrativo é uma das mais interessantes, inovadoras e promissoras novidades da Constituição de 1976. As históricas aspirações dos povos insulares provocaram acesos debates na Constituinte em torno de questões que se reacendem, a espaços, no discurso político. O processo autonómico constitui um adquirido constitucional, o que não significa – por estranho que possa parecer – que subsista um adquirido interpretativo quanto aos poderes e competências das Regiões Autónomas. Na dúvida, os órgãos de soberania – legislativos ou jurisdicionais - decidem em desfavor das autonomias, o que não afasta a perspectiva de que autonomia regional é um processo de aprofundamento progressivo e de natureza gradual. Pedro Gomes

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful