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LITER RAE

AUTOBIOGRAFIA:
a questão
do suj eito na narrativa*
objetivo deste artigo é levantar algu­
questões sobre a posição do
sujeito na produção de narrativas
autobiogrdfcas A relação do escritor com
aquilo que Coi no passad , a reconstituição
da experiência vivida numa construção
"para a leitura"jc as diferentes posições
atualizadas pelo sujeito no ato de escrever
são algumas das preocupações deste traba­
lho,'
Como pano de fndo para o desenvol­
vimento da questão, definimos, de infcio, o
espaço do "literário" em nossa cultura, in­
vestigando de que Conna se relaciona com
a questão do "suj�ito modero", Isto por­
que, se não se pode dizer que autobiogafia,
literatura e mesmo os relatos de viagem
constituem "novidade" na cena "modera"
- uma vez que se tem notícia de produçães
análogas desde a Antiguidade -, de outro
Verena Alberti
,
lado, a possibilidade mesma de constituição
de tais narrativas está fortemente vinculada
8 existência de um "indivíduo" sujeito da
criação, origem legítima da produção do
discurso.
L que pretendemos ressaltar desde já,
entretanto, é que tal ancaramento ao "indi-
-
vfduo" -que em princípio se destaca ainda

mais no caso da autobiografia -Eão implica
uma posição "monolítica" e "linear" do su-
o eito da criação, uma vez que o escritor, no
processo de produção da narrativa, se move
continuamente entre o ue "é" e o que
"poderia ser", E essa ambigüidade chega a
+
ser tão profnda a ponto da "alteridade"
criada ganhar estatuto de "realidade", tor­
nando possível, por exemplo, chorar e tre­
mer pela morte de alguém que não existe:
"Sim, eusabia que, num dado momento,
tinha que matá-Jo e não ousava. L
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LtwæHu/óroæ,Riodc Janeiro, va, 4,n.1, ¡ºº1,µ.ôô-8I
UAnAEAUBIORA ôT
coronel já estava velho, fazendo os seus
peixinhos de ouro. E uma trde pensei:
4Agora sim que não tem mais jeito!'
Tinha que maÚ-lo. Quando terminei o
capítulo, subi temendo para o segundo
andar da casa, onde estava a Mercedes.
Soube o que havia ocorrido quando viu
a mina cara. `L coronel já morreu"
disse. Deitei-me ra cma e fquei cho­
rando duas horas" (Garcia Márquez,
1982:37).
L techo anterior, apesar de deslocado
no que diz respeito â autobiografia - onde
o "personagem" que morre efetivamente
existiu -, ilustra, no universo amplo da cria­
ço literária (e,. seria possível dizer, da .
ciação artística em geral), a dimensão da
¸¸relação de contigüidade ente IImador" e
I
Ucriatura", cmo se esta última fosse tão
real quanto o primeiro. ão esses udesliza­
mento" entre a Uidentidade" do autor e sua
-
.
aiação que aqui nos inter�am e que ire-
Ì
mos discutir no caso especifico da autobi9-
\
gaf'Antes, prém, gostaríamos de levan­
tar algumas questões sobre o lugar da
literatura na moderidade.
l. L¯ÜHP¯UHPNPMLÜÜHNlÜPÜÜ
"Que é, pis, tal linguagem, que nada
diz, jamais se cala e a que se chama
'literatura '?"
(Foucault, 1966:399).
A pergunt feita por Foucult parece
condensar aquilo que, aos olhos dos pensa­
dores contemporâneos, diz respeito ilitera­
tura: algo difícil -ou impossível-de def­
nir e que, ao mesmo temHo, diz e não diz.
( Uma linguagem esjecífi_a que se voltam
escritores e leitores, que precisa do ulivro",
atravesa a editora, as livrarias, é objeto de
circulação, levanta questões, ou passa ao
laro delas, e é parte constituinte da cultura
acumulada pelos homens.
Comecemos a investigar a questão a r
partir de um texto de Walter Benjamin,
sobre a "narração" e o 'Iromance" (1969).
De acordo com Benjamin, o surimento do
romance está estreitamente vinculado ao
contexto de consolidação da burguesia,
momento em que a narração teria começa-
do lia retroceder bem devagar para o arcai-
co�' (Benjamin, 1969:60), sendo uma das
razões dessa tansformação a instauração
do domínio da imprensa, que retira da nar­
ração a função de informar e explicar acon­
tecimentos de forma plausível,.e do narra-
dor, a atribuição de difundir (e ensinar)
experiências para serem apropriadas pelos
ouvintes (como na tadição oral, no conto­
de-fadas, na saga e em outras fonnas de
"gênero" épico). Essa lenta tansfonnação
ucria", segundo Benjamin, uma nova situa-
ção, reserada ao romancista, que Usegre­
gou-se. L local de nascimento do romance
é o indivíduo na sua solidão, que já não
consegue exprimir-se exemplarmente", co-
mo exemplo de ensinamento usobre seus
interesses fundamentais, pois ele mesmo
está desorientado e não sabe mais aconse-
Ibar. Escrever um romance significa levar o
incomensurável ao auge na representação
da vida humana. Em meio 8 plenitude da
vida e atavés da representação dessa pleni-
tude, o romance dá noticia da profunda
desorientação de quem vive" (Benjamin,
1969:60).
Lque esta caracterização do romance e
do romancista tem de comum com a idéia
que fazemos de literatura e lIescritor"? São
aquela linguagem de que fala Foucult e o
sujeito que a cria constuções específcas da
"moderidade", produzidas e consumidas
pelo "indivíduo" em sua solidão?
É claro que a designação "literatura"
não se aplica apenas a llromance", e mesmo
o aparecimento deste último não significou
um corte irreversível que inviabilizasse o
desenvolvimento de outro tipo de "gênero"
-
6. ETHTRC-1W\
literário, ou de '4gálers anteriores" lque1e
que ento se instituía.
'
Mas o simples apa­
recimento da idéia do individuo-sujeito
aia dor já no convida a etabelecr um
paralelo cm a posibil idade æemergSncia
desse individuo solitirio em sua ciação (e
n leitura).
Poe-se flar de "literatura" fora da to
cntovertida "modcmidade'� Ou sen que
em relação a clturs nlo marcdas pelo
"individualismo" seria mais apropriado D-
lar de "namço": a (in)fração dos ou­
vintes atav& de relatos que dão conta de
experiências, acontecimentos, explica-
¯ ?

? Historcamente, segundo Alain Viala
(1985), a "literatura" tria surido apenas
em meados do século XVû,com a criação
das principais academias, o surimento dos
direitos autorais e o creciment do com�r·
cio de obras, quando ento a arte de ecre­
ver cmeço1 8 separr-se do saber erdito
e as expresões gens de Lettres ou homme
d Lears ji nio eram sufcientes para ex­
pressar • diferença então esboada. A dis­
tinção lexicl mais imediata foi dada então
plo
.
.. tenno�ta· �que se diferenciava do
letado ou especalista do sabr, mas se
aplicva a toos o "mete da fonna'\
fossem eles autores de obras em verso ou
em prosa, de literatura de arte ou de entre­
tenimento. Asubstituição dessa designaço
abrangente plo �ermoresaitor parece lo­
clizar-se ainda no século 7, quando
"esaitor" começa a ganhar o sentido de
ciador de oras com obetivo estético, o
qual passou a se impr sobre a aplicação em
vigor até então, de '4ecriba", "copista".
Éinteressante obserar a sobrepoiço
do tenno uesaitor' 8O de "autor", Viala
chama atenção para a etimologia do segun­
do lermo, que reúne as acepçõs grega e
latina de "criador" "autoridade" e "aumen- ,
tr" (aquele que taz alguma coisa a mais),
formando um sistema semântico onde a
autoridade. do autor se apia sobre sua qua­
lidade de originalida4c, concluindo-se, cn-
to, que aquele que copia não c lutor. Por
outro lado, se o "escritor" era até ese mo­
mento o "copista' , cma novl acpão se
tomará trmo laudatório para designar o
aiadores de literatur de are, ultapsn-

do ou memo suplantndo o "autor" cmo
tro referente a um prestigio. Asim, se
"autr" man�m-se como autoridade, origi­
nalidade e autria |esator' pas a ser
- .
reerado apenas aos "autores" que tm um
valor a mais, à ueles que juntam l aia
-
o
a arte da forma
.
"L '�cril aecide em ce tempo a rang d
valeur culturelle majeure en m2me
temps que Mqualué d'écrivain acc�d
au rang de tUre de dignaé. Ne pou"a
être ditigué comme tel que celui qui
aura pris le rique de s�er au ju­
gemem public, de mettre son nm Wjeu
sur le marché littérair"" (ViaJI,
1985:278).
Daí porn�o, a forte seleço daqueles
que têm aces o a essa condição.
É nessa époc também que Viala locali­
z o início da emancipaço da "literatura",
. - -
que, apesar de cnstar nos dicion'rio cmo
sinônimo de Udoutrina" e "erudição" -isto
�, sabr daqueles que leram muito e muito
retiveram das leituras; saber dos "letados"
Ý
enfm -, começa a aproximar-se das bell9
Lettre em opsição às Lettrs savantes.
Entretnto, essa mutção iniciada em
meados do século XVIInão deve levar-nos
a inferir a existência do "Jitcr6rio" nl socie­
dade clásica: o autor sublinba que sua au­
tonomia estava apnas se esbçando, no
conjunto de contIito e efeitos de um movi­
mento que s6 seria consumado no século
seguinte. A produção "literária" do século
XVIIain a seria marcada pela ambigüida­
de de duplicidade e da "cnsagração con-

A ÃEAUB¡U8A ó,
fiscada", OU seja, a consagação do escritor
confscada pelo Etado, a censura e copta­
çóes diversaQ
Uma segunda interpretação do nasci­
mento da literatura - a de Foucault - situa
esse momento ainda mais próximo de nó,
especificamente no século �,coinciden­
te com o que, para este autor, foi o surgi­
mento do "homem" (Foueaull, 1966):
"( ... ) desde Dante, desde Homero,
existiu, realmente, no mundo ocidental
uma fora de linguagem que n6s outos,
agora, denominamos 'literatura'. Mas a
palavra é de fesca data, como �recente
também na nossa cultura o isolamento
de uma linguagem particular cuja moda­
lidade própria é ser 'litenria'. É que, no
inicio do século 7,na época em que
a linguagem se entranhava na sua espes­
sura de objeto e se deixava, de parte a
parte, atravessar por um saber, reconsti­
tuía-se ela alhures, sob uma fonua inde­
pendente ( ... ) inteiramente referida ao
ato puro de escrever" (Foucault,
1966:393).
.
Aliteratura, assim, teria surgido como a
principal compensação ao nivelamento da
liuagem - e aqui o nivelamento corres­
ponde à sua fagmentação em dominios
-
como ftlologia, fonnalismo, exegese e a
própria literatura -, o qual, apesar de seme­
lhante ao esfacelamento ocorrido com a
história natural e � análise das ri
.
uezas,
diferencia-se destes últimos por impdir al­
guma forma de reagrupamento: para Fou­
caul!, a unidade da linguagem foi imposi­
vel de ser restaurada. E s
.
ua fagentção
em domínios múltiplos, torando-se objeto
de conhecimento, é, para o autor aquilo �
pennitiu O �parecimento do uhomc�' co­
mo objeto dilIcil e sujeito soberano de todo
conhecimento. Sendo assim, ara Foucaul�
a literatura e o homem são coetâneos, o
último tendo surgido do nivelamento-da
linguagem, e a primeira como compensa­
ção desse nivelamento.
Com efeito, a opinião de Foucaul!, ape­
sar de perconer um caminho diverso do de
Viala e de sugerir um marco mais recente
para a contituição do "literáro", reforça a
idéia de que, se a "moderidade" pode não
deter exclusivamente a "pateridade" da
literatura, ao meno é nela que nossa repre·
sentação do "literário" se cnsubstancia,
coincidindo com aquilo que, segundo Ben-
-
jamin, caracterizaria o romance: � indiví·
duo·sujcito da criação, o livro e o leitor em
- -
sua solidão (em oposição à naração, que se
atualiza no "ouvinte", prescindido do livro
e da solidão da leitura), e além disso e
articularmente, uma "nova" modalidade
de criação, cuja específcidade é ada pla
atua aação de uma linguagem singular, a
Uliterária", fzendo de seu autor um uescri-
tor".
J. Uteratura e "Indivíduo"
A oposição entre "narração" e "roman·
ce" desenvolvida por Benjamin sugere uma
correlação do tpo narração : soiedade ::
romance: indivíduo, na medida em que o
romance, ao contrário da na nação, seria o
lugar do indivíduo revelar-se independent
de uma sociedade que (in)fora, aconse­
lha, difunde e resguarda a tradição. O I
mancista, condicionado pelo contexto his­
tórico em que suriu, não poderia falar de
outra coisa a não ser de sua desorientação,
tendo a sociedade, os acontecimentos épi-
cos, e os conselhos para a esfera
pública da contudo, que
uma das ucria-
� � c"~on= - stituída a partir
de um "contrato social" entre indi·
víduos iguais e autônomos, diferenciando·
se, assim, cmo sacie/as, da Imiversitas,
modelo de sociedade derivado do princípio
70 Ð1HTMO-1HU
de bienrquia (Viveiros de Casto ðAaúj o,
1977:139). Sendo assim, num primeiro n-
- vel, ni � sslvel pensar o indivldu9 como
2P
osto â sociedade, uma vez que tal "COI­
tato" pressupe sua existência e autonomia
anteriore, sendo frmado cm base nos
direits e devere do indivlduos como su­
jeito morais e pollticos. Entetanto, como
bm mostam Viveiro de Casto e Araújo,
ao lado do ser moral autÔnomo, sigalro
do rontt socid, a moderidade tmb�m'

&
cia o individuo únic e singular, o ser
* �
~ ¬
icl lco, qu�aquando o social
S • se� vito como estatal, o ofciã., �
cntal, aquilo que � essencalmente exte­
rior 1 dimensio intera dos indivrauos, on-'


o amor e senbmentos_
cit.:161), peritindo­
nos, ento, num segundo nível, flar de
oposiçlo ente individuo e soiedade.
. É em grande parte a ete "individuo" que
se pode relacionar o espaço da literatura na
moderdade; e não M O deI., como tam­
�m o da arte como um todo, da genialidade
e da loucur. LgEnio, o louco, o artista e o

escrtor destcm-se, por assim dizer, do
"too" social e podem flar além dele, fora
dele, sobre ele C¡ principalmente, com mais
"sabdoria" "razão" e "originalidade". do
que os indivíduos comuns. Se, num primei­
D movimento, contituem expressõe de
um "desvio" ânona, nio se oe esquecr
que esse mesmo "desvio" vem aCO� :
do de elevada valorizaço em nossa cultura,
. ~ .
que, ao mesmo temp em que prvilegia a
segmentaço/individualizaçlo,7paradoxal­
mente promove o "pluralisllP': - a Ualter·
natva" a umudanCl cultural" a udiferen-
ª
,
g
¬
¬, pan preerar o valor encmp�ssa­
dor do individualismo (Duare, 1980:8 e
12).
Lespaço da literatura, da criação literá­
ria, em nossa cultun, então, encontrria
paralelo com aquilo que cnfere ao indivi­
duo, como ser único e singular, lugar esp­
cial e privilegiado, detacado da sqiedade.
E não c em outa dirçlo que caminham
algumas das id�ias sobre a are de escrever
da moderidade: ciaçio solilAria, envol­
vendo uma "psicologia" dos gnagens e
uma "psicologia" do .utor, axiada sobre o
tema da "inspiraçlo Intima", devendo br­
tar das profndezas do indivlduD-lutor
(Duarte,1981:43); al�m disso e espcifica­
mente, uma lguagem pr6pria ao individuo
ciador (e, pornto, cntária â nora), de
fnçlo expressiva (e não estritamente c­
municativa), onde se privilegia a polisse­
mia (em detimento da clareza) e efeitos de
deloamento; linguagem esta que por mui­
to tempo foi assoiada â Uconotaçio", em
opsiço â"denotço", utilida na comu­
nicaçlo ctidiana, não "p�tic", da socie­
dade (Cota Lima, 1973:3-6)¸ im, .al�m
de solitária e tam�m na
& .
eifeidade -o
a are de esc=v er
:
::
,
nosa cltura, revela seu ancoramento ao
primeiro termo da dicotomia indio x
soeiedad¿
E, se fonnos um pouc adiante, veremos
que, se � no "Íldlo" (sujeito ciador ou
sujeito leitor)
q
ue a literatura se consJs-

lneia é nele tam�m .ue ela pYa; ou seja:
se o desvio � valorizado como manifestçio
da individualidade única em sua plenitude,
s6 o � enquanto limitado â dimensão indi­
viduai; enquanto escitor e soiedade pari­
Ibarem "da mesma convicçlo quanto å
'noralidade' do não-p�tic, isto �, da
sociedade" (Cota Lima, 1973:7) e a cia­
ção Iiter4ria nio incidir sobre objetos udo_
tado de po�ncia modifcadora" (id., ibid.).
Asim, uma vez valorzada e enquadrada
--
como desvio, a literatura adquire legitimi-
-
da de pr6pria, queJbe confere plena liberl!-
aede .
-
e
por isso mesmo e nestes re-
velar âsociedade sua loucur, propor ques­
tões, prmitindo o prazer na dúvida (COSi
Lima, 1972:65; 1984:71): "Discurso do
desvio, por exclência ( ... ), a literatura pode
sê-lo sob o preço de nunca m tomar o
A1AËAULÜÏOKA 71
`
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Z. P literatura como "valor"
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CÍ0B8 8 Scg8t8tÍ8I0 0c V8l0t, gBc Sc l0H8
72 E1 ITRC -1W1/Ì
difícil considerar que çom o nascimento do
"individuo" ocidental moero deu-se a
-
ao fto, com que aprendemos a concber o
mundo.
E, se é possível reconhecer neste "indi_
víduo" o espaço da totalidade em nossa
cultura, acreditamos poder avançar um
pouco e supor que tl espaço seja também,
ocupado pela literatura.
Em primeiro lugar, isso ocorre porque a (
I
literatura constitui uma das modalidades de
expressão e operação daquela totlidade: ¡
seja porque, no processo de criação, o es­
critor procure, em seu "foro {ntimo", n
completude da solidão, uma lógica cósmica
que reúna ao mesmo tempo sua expriência
de vida, a expriência do mURdo e o inc
mensurável, dando-lhe sentido e conferin­
do uma totalidade própria àquilo que antes
parecia fragmentado; seja porque uma tota­
lizaço semelhante é operada pelo leitor,
na solidão da leitura, e a partir de uma
experiência de vida distint; seja ainda, por­
que a própria obra impressa, independente
e solitária, guarda em si uma totalidade
secreta, é possível identificar na literatura
uma vontade .e totlização, articulada �
que se deposita no indivJ­
como valor.
Em segundo lugar, porque não deve ser
,
por acaso que conferimos à literatura atri- .
bUlaS "sagados", emprestados, portnto,
ao domínio da religião, "categoria de nossa
cultura segmentada com que procur[amos)
entender o espaço da totalidade" (uarte,
1980:5). L escritor tocado pela inspiração
atinge um estado sublime, pura levitação de
espírito, a que o leitor E também levado,
numa espécie de sagração purifcdora do
que nele há de mais íntimo. Nesse "culto"
a que chamamo literatura, a obra literiria,
se consagrada, transforma-se em uma espE­
cie de "escritura", e o escritor, assim como
os deuses, toma-se um imortal, porque de­
tém, indecifrável, um dom especial: "Ela [a
criação artística) não se reduz (00') a uma
transcrição dos aspectos formais ou fora­
lizado da experiência de vida do artista, ela
se enriquece da expressão de alguma quali-
LA ÄLAUB¡UBA 73
080c Ímg8Ìg8Vcl¡ S0DIc Cu[8S C8I8ClcIÍSlÍ-
CS l8Rl0S Sc 0clcI80, 8RSÍ0S0S 08 0ÍSScC8-
g0 0cSSc IcSÍ0u0 sagrado 08 ÍRSgÍI8g80
[...]¨ [Lu8Hc¡ 1981:43; @ÍÍ0 R0SS0].
bc,Rum0ÌB8I¡RÍCÍ8lg8I88¨m00cHÍ08-
0c´¸ 0 guc Vcm0S ð8 m8IC8 00 ``ÍR0¡VÍ0u8-
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C¡cRCÍ8 0¡VÍ0Í08 cm ¨0¡SCÍglÍR8S¨¡ 8 I8C¡0-
R8lÍ080cC8I8ClcI¡Z808g0ILcSCIlcS¡8¨S0-
C¡c080c C0mglcX8¨ cRÕm, um Sc_uR00
') 0Ìb8I m8¡S 8gI0ÜR0800 c 8Ì_0 ¨cSguÍZ0-
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08u!0I. É ScmgIc um8 ¡RVcRg80¨.
N8I_8SÍl0S8 {8gu0Í8ÍV8, 1986:5).
Î8II8lÍV8CcRlI808R0 Su[cÍl0guc8CII8,
SÍmuÌl8Rc8mcRlc g0Rl0 0c g8Il¡08c 0D[cl0
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[ÛcR[8m¡R¡ 1969:60). Lc 0ulI0l800¸C0Rlu-
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-
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C0RVcRC¡0R0uCb8m8I0c`�8I800X008m0- |
0cHÍ080c¨! Sc 8 8ul0DÍ0_I8Õ8 ð 0 cSg8g0¸
g0I cXCclcRCÍ8, 0c cXgIcSS80 00 ¨¡R0ÍV1-
0u0¨¡R80Sc0cVccSgucCcIguccSScmcSm0
¨1R0ÍVÍ0u0¨, 8RlcS 0c ScI um l8l0¨¸ ð um
¨V8l0I¨,8gI0XÍm8R008m00cD Í080c¡m8I-
C808 gcl0 ¨ÍR0ÍV¡0u8ÌÍSm0¨, 00 ¨8IC8ÍC0¨,
m8IC800 gcl8``BÍcI8Igu¡8¨.
74 ESÃHTRCS -1HI0
J. Lsujeito na ficção
Para chc¿armos mais pcrto da qucst¡o
do sujcito na nerrativa autobio¿réôca, c
ncccssério cstabcIcccr uma comparag¡o
com a namtiva üccionaI. Lcmbrcmo-nos
dorcIatodcGarcaMérquczsobrcamortc
do coroncI AurcIiano Bucndía: no início
dcstc arti¿o rcssaItamos ofato dcquc, na
autobio¿rafia, o "pcrsona¿cm" quc morrc
cfctivamcntc cxistiu, ao contrério do quc
oconcnañcg¡o,qucn¡ofaIadaquiIoquc,
para cscritorc Icitor, pcrtcncc à csfcra do
"rcaI". Ncssc scntido,ananativaficcion�!
�c@istin¿¿c da autobio¿réñæ por n¡o sc
rcfcrcnciar a uma "rcaIidadc" antcrior c
cxtcrior ao tcxto (a vida doautor¡jc sim
_roduzir um "ouuo mundo", ima¿Inério,
ondcscmovimcnta,atuacmorrcAurcIiano
Bucndfa.
Vcjamos a¿ora comoaprodug¡odcssc
"ouuo mundo" incidc sobrc a posig¡o do
sujcito nanarratíva ficcionaI.Tcndocomo
cncr¿iaconstitutivajustamcntcoima¿iné-
río,a oiag¡o dc ñcg¡o sc caractcríza, sc-
¿undoIscr(!º7º¡,poruansfomar,atravcs
dos "atosdcfm¿ir",cssc mcsmoima¿iné-
rio, dciniciaImcntcdifusona"íma¿inag¡o"
docsoitor,cm determinado (cmaI¿oquc,
pIoproccssomcsmodacriaço, passaascr
dorcaIquantoo"rcaI",diríamos¡,"írrcaIi-
zando-o".
contudo,dcacordocom
scrtomadopor"fa�-
tesia",porquentocsteúItima�"fundamcn-
uImcntcumaatívidadccompcmatória"(sc
síntoscdc,fantesioumcopod'é¿ua¡,"pcr-
tcnccntcà mcsmaordcmdarcaIidadcvivi-
da",setisfazcndocxpcctativasscmofcrcccr
"Iu¿arparaoqucstionamcntocacriticida-
dc"(CostaLíma,!º84a:22Jc224¡.Lima-
¿inério,aocontrério,"supõcairrealizaçdo
doquctoce;aaniquiIag¡odascxpcctativas
habituais"(p. 224-5, ¿rifodoautor¡c n¡o
corrcspondcaumasubmiss¡oamparâmc-
uosda"rcaIidadc",mas,antcs,à sualrans-
" .
gressao(p. 226¡
AI�m disso,cnquanto afanusia,mmo
atividadc compcnsatória, scconñ¿ura cm
umavontadc dc"csqucccraræIidadc"(p.
Iº5¡,o _@ériocIaborascm

_rcumaten-
sdo, umavczquca"incaIizag¡o"dc"outra
coisa"nao anula o plano da realidade (p.
!º4-5¡. Ncssc scntido, o "ouuo mundo"
produzidonañcg¡on¡oscopõcà "rcaIida-
,dc","fícg¡o",sc¿undoCosuLima,n¡o�-
comosccosmmadcñnir~símpIcsmcntco
"avcsso"darcaIidadc, nãot"mcntíra",ao
conuérIo:"opIanodarcaIidadcpcncuano
jo¿o ñccionaI (...¡, porquanto o quc ncIc
cstésc mcscIacomoqucpodcríatcrhavi-
do,oqucncIchésccombinacomodcscjo
do quc cstivcssc, c qucpor iso passa a
haver e a estar" (p.!º5;¿rifonosso¡.
Noqucdizrcspcitoaocsoitor,taItcns¡o
cntrcoima¿InériocorcaIsofrcumrcbati-
mcntoparaopIanodo"cu".Aindasc¿undo
CostaLima,oima¿inériotcmrcIag¡odircu
comapossibiIidadcdcampIiaroqucchama
dc "ân¿uIo dc reaça0" das cxpcrióncias
pcssoaisdocscritor(!º84a:228¡,cxprcss¡o
usada paracontcstaranog¡odcrcdupIica-
g¡o cspccuIar, sc¿undo a quaI as fi¿uras
composuspcIocscritorscríammcrosrefe­
xos ouprojcgõcsdcscucu(p.2J2¡.Assím,
aomcsmotcmpocmqucoima¿inéríopcr-
mitca''transfomaç¡o"docscritorcmpcr-
sona¿cns quc nada tóm a vcr com cIc, taI
uansformag¡o c aIimcntada pcIa rfaçao
dcsua cxpcriênciapcssoaI(csta,vividano
pIanoda"rcaIidadc"¡, oân¿uIodcrcfrag¡o
scndoocspagonointcriordoquaIsccsta-
bcIcccalendo cntrcocuima¿ínériococu
"rcaI":
"LfíccionaI,portanto,impIiceuma dis-
sipag¡otantodcumaIc¿isIag¡o¿cncra-
IIzada,"(cIcn¡orcfIctcumavcrdadcdc
ordcm ¿craI¡ "quanto da cxprcss¡o do
cu"(n¡orcfIctctampoucoosvaIorcsdo
cscritor¡."NcIc,o eu se lOrna m6ve� ou
scja,scmscfíxarcmumponto,assumc
¯
LÃ1KA rE AUUÏUKÆA
divcrszs nucIczgõcs, scm dúvidz,con-
tudo, possibiIiudzs pcIo ponto quc o
zutorcmpíricoocupz.Ézcszmovónciz
do fíccionzI· quc, simuIunczmcntc,
impIiæ a dissipaçao do eu e afirma os
limites da reaçao dcscusprópriosvz-
Iorcs~quctcmoschzmzdodcangulo de
refaçao. Assím, tal dissiaçao do eu
n40 o torna meistente, mmosccscrc-
vcrñcg¡ofosscznuIzrscusprópriosvz-
Iorcs,normzsdccondutzcscntimcntos.
Aimaginaçao permite ao eu irrealizar­
se enquanto sujeito, pzrzqucscrcaIizc
cm umz propostz dc scntido ( ...¡ PcIz
ñcg¡o,opoctase inventa possibiliades,
sabendo-se nao confndido com nenhu­
ma delas; possib¡lidzdcs contudo quc·
_ . . , -
nzo tnvcntznzm scm umz mottvzçao
bio¿réñce"(Costz Limz, !º84z: ¿rífos
nossos¡.
Dcssc modo,o"cu"docscritor nz nzr-
rztivzficcionzIscdisipa nocspzgozbcrto
pcIoân¿uIodcrcùzg¡o,pcrmit¡ndozocs-
oitor"irrczIizzr-sc cnquzntosujcito", "in-
vcntzr-semúItiplzspossibiIidzdcs",imagi­
nar-se, cnEm,"outro dcsi mcsmo". E,no
cxtrcmodcssz"movónciz"docu,cdzdzzo
cscritor (c zo Icitor, quc tzmbcm sctrzns-
portepzrzoimz¿inério¡zpossibiIidzdcdc
chorarpcIzmortcdcumpcrsonz¿cm,como
sc cstivcssc scndo "possuído" por, ou sc
"mctzmor!osczndo"cmsuzoizg¡o³
Z. Pconstrução autobIográfica
!nvcsti¿ucmosz¿orz,comocontrzponto
zcsszmodzIidzdcdc"posscss¡o"do sujci-
to modcmo,o quc ocorrc com o "cu" do
cscritor nz crizg¡o zutobio¿réficz.¸ Eg
p ¸¿inc!g¸ io,podcr-sc-izdizcrquc,nzrccons-
tituig¡o dc suz cxpcrIónciz dc vidz,_¡ ç
cabczozutor c"¡rrcz-
� -
¡�t'umpcrsonz scntido,zzu-_
tobio¿rzfiz,zo invcs dcsuscitar zdissipz-
g¡odocucmmúItipIos"outros",pzrco,zo
mntrtrio,reafrmar suz
Pzre U qucce-
rzctcrízzzzutobio¿rzfíz zidcntidzdccn-
ucnznzdorczutor,cxprcsszdzzuzv�sdo
acro aurobio rt /Co cstzbcIccido mm o
Ic:tor,cs�cicdcdccIzrzg¡odoupo"istoc
zutobio¿rzfiz".
Ppzrtirdcumzdcfmig¡oinicizIdczu-
tobio¿rzñz - "Récir rerrospecti en prose
qu'une personne réellle [air de sa prpr
existence, lorsqu'elle mel ('accent sur sa
vie individueI/e, en parriculier sur I'hisroir
de sa personaliré" (1º75:14¡¸ ·, Lcjcunc
procurzin!criroquc,ncstzdcñuig¡o, pcr-
mznccc rcsuito à zutobio¿rzfíz, sc z com-
pzrzrmoscom
curso
co, o c o zuto-rctrztooucn-
¾ _ . -
szio. compzrzç¡o rcsuItzquc zzuto-
bio¿rz!íz tprincialmente umz nzrrztivz
(rcir), compcrspcctivzrctrospcctivzcCº
'.
jo zssunto trztzdo c z vidz individuzI� c
impIicznecessariamente zidcntidzdccntrc
zutor,nzrrzdorcpcrsonz¿cm(p. ¡4-5¡.
P ¿rzdzg¡o su¿cridz pcIos zdv�rbios
¿ri!zdossigiñædizcrqucostróscIcmcn-
tospæcmn¡oconstzrcmtodzszspt¿inzs
dcumzzutobio¿rzñz,scndozpnzsprcdo-
minzntcs,mzsquc
non
nopacto zidcntidzdccntrc
onomccxpostonzcepzcnz!oIhzdcrosto
(umnomcquccquivzIczumzzssinzturz¡c
onomcquconzrrzdorscdémmopcrsonz-
¿cm principzI, zcrcscidz nz mzioriz dzs
vczcs dz indiceço, nz capz,nz foIhz dc
rosto, nzs orcIhzs cnz conuzcepz, dc quc
sc trztzdc umz zutobio¿rzfiz.O pzcto zu-
tobio¿ré!ico sc dé, cnt¡o,quzndoz idcnti-
dzdccntrc zutor, nzrrzdor c pcrsonz¿cm c
zssumidzctomzdzcxpIIcitz pcIozutor,zo
contrério do � p z
;
c

to¸_ ro _ m zn�sc�", dccIzrz-
76 ET HWMO-1H1/l
ço de negação daquela identidade e ates­
tado do caráter de fcço.
É por isso também' que uma autobiogra­
fa nunca pode ser anônima, porquanto Ibe
fltaria assim o nome do autor, daquele que
atualiza o pacto. .
E, como contaprova dessas afrmações,
Ljeune apnta o fato do leitor muitas vezes
procurar a ruptura de tais contatos: por um
lado, julga encontr, na fcção, semelhan­
ças ente o texto (os persongens, as situa­
çes) e a vida do autor e, por outo, na
autobiografa, busca defonações e ufuros"
que atestem a não corespondência ente
autor, narrador e personagem (p. 2_7.4
_
Entretnto, se o pacto autobiográfco
¯confere à identidade ente autor, narrador e
prsonagem um cdter manifesto, iso não
signifc, ainda segundo
nível do discuro, nã
:
o
teto, narador e
prsoagem remetem, respectivamente, ao
sujeito da enunciação e ao sujeito do enun­
ciado: o narador nara a história e o perso­
nagem é o sujeito sobre o qual se fala.
Abo, por�m, remetem ao autr, que pas­
b então a ser o referente,fora do texto.
Do ponto de vista da relação entre autor
e narrador, tedamos uma ientidade clara,
assumida, que se mani esta no presente da
enunciaço: c o autor que esceve aquelas
linhas; �ele que narra, no momento presen­
te, a história. lá ente autor
S
e personagem,
o que teriamos não constitui identidade,
mas, antes, uma relaço de �
uma vez que o sujeito do enunciado (pero­
nagem), apesar de inseparável da pessoa
.'
que produz a naraço (o autor-narador
esU flando dele mesmo), dela está afasta­
do, o que se compreende principalmente ao
verificar.a distância t Æ9pre
­
.Qda enunçjaçio e Æ
a
D
mento passados: o personagem com a ida-
e de três anos assemela-se ao autor com·
a idade de três anos. É por isso que, do ponto
de vista do enunciado, o pacto autobiográ­
fco prevê e admite falhas, erros, esqueci-
mentos, omissões e deformaçes na ml0-
ri do personagem; posibilidades, alih,
que muitas vezes o autor mesmo - num
movimento de sinceridade próprio å auto­
biografia -levant: esaeverá sobre sua vi­
da aquilo que lhe ð peritido, seja em fun­
ço de sua memória, de sua posição soial,
ou mesmo de sua posibilidade de conheci­
mento.
W espécie de u�eclaraço d� princl- ¿
Rios", mesmo não expressa, fz' pare do ì
cntato autobiográfc cm o leitor e dife­
rencia a autobiogafa do demais textos
referenciai, uma vez que a exime da seme·
Ihança estita ao referente,
TAEAUB¡U8M T
cação do sujeito coincide com a própria
significação da autobiogrfa, uma vez que
"on n peut assumer sa vie san d'une cer­
taine maniere en {rxer le sen; ni I'englober
suns en [ave M synthese; exliquer qui on
élai4 san dr qui on esl (. 174) ..
Asim. se alguém se põ a escrever uma
autobiografl l, é prque tem emmeote fxar
.um sentido em sua vida e dela operar uma
síntese. Síntese que envolve omissõs. se­
eção de acontecimento a serem relatados
e desequilíbrio ente o relatos (uns adqui­
rem maior peso, são namdo mais longa­
mente do que outos), operações que o autor
s6 é capaz de fzer na medida em que se
orienta pela busca de uma significação:
busca essa que lhe dirá quais acontecimen-·
tos ou refexões devem ser omitidos e quais
(e como) devem ser narrado. É essa busca
também que prevalece na estutura do tex­
to, os relatos ganbando sentido à medida
que vão sendo narrados, acumulando-se
uns aos outos, de modo que a significação
se constrói no momento mesmo em que o
autor esceve a autobiografa.
Asim, s na "irealização" da ficção
ocorre uma dissipaçdo do eu, na "significa­
ção" da autobiografia pode-se dizer que o
que ocorre é sua fIXação. Pois, se, na pri­
meira, é possível imaginar alteridades e
concretizar fonnas de vida diversas ("ou­
tas"), na segunda, ao contrário, a movência
do sujeito se circunscreve ao espaço da
semelhança, resultando na construção de
uma "imagem" .de si mesmo, à qual se
cnlere \ ese f,a) um seritldo ..
Dito assim, não é difcil supor a relação
entre a constução autobiográfica e um mo­
vimento "mítico,6 do eu do autor, na medi­
da em que a "energia constitutiva" da auto­
biogafa parece ser, não o imaginário, e
sim o signifICado.
Ï o que faz o escritor de autobiografa
senão imprimir descontinuidades à sua vi­
da, selecionando episódios "significativos"·
que se encaixem na "etrutura" do texto,
para elaborar (no texto e de si mesmo) uma
síntese (um concebido)? Isso acontece num
movimento tal que esse "semelhante" de si
mesmo toma-se um "indivíduo" único e
totalizado, o sujeito "psicológico", cuja
constituição "mítica" já foi inclusive suge­
rida por Lévi-Strauss ao final de sua análi­
se sobre a cura xamanftica: "sabe-se bem
que todo mito � uma proura do tempo
perdido.
Eta forma modera da técica xamanís­
tiça, que é a psicanálise, tira, pois, seus
cracteres particulares do fato de que, na
civilização mecânica não há mais lugar
para o tempo mEico; senão no prpri h-
mem" (Lvi-Strauss, 1949:236; grifo nos­
so). Ou seja, sobre o pano de fundo da
modernidade, é possível dizer que o esforço
autobiográfico, análogo ao psicanalítico,
cnstitui também a "procura do tempo per­
dido", expressão e atualização do tempo
mítico, localizado, na "civilização mecâni­
c
"
, no "próprio homem".
É esse quadro que também sugerimos
no início deste item, ao aproximar a auto­
biografia da "narração" nos tennos de Ben­
jamin: é como se na moderidade, de modo
análogo ao que ocorreu com o "tempo mí­
tico", s6 tenha restado lugar para a IInarra-
ção" que fala de, e sobre, o "eu".
E tomando-se o próprio lexlO autobio­
gráfico, � possível supor que, çomo texto,
também se aproxime do relato mítico: uma
história narada, na qual se justapõem con­
tradições, que 'caminha em direção a uma
solução 'final, es écie de alívi para a con-
w
tradição antes experimentada entre o que
"fui" e o que "sou":

"Pois memórias e autobiografas são
substitutos dos espelbos. Se estes, metá­
¡ icos e implacáveis, assinalam o desgas­
te dos traços, o torpor dos olhos, a
redondez do ventre, fechamo-nos contra
a maldade dos espelhos e procuramos
nos rever no que fomos, cmo se o per­
curso da antiga paisagem nos capacits-
-
78 ÐTKTRO~1HV
se 8 nos explicar ante nós mesmos"
(Cot Lima, 1985:244).
História M"ad, na medida em que �
consllda tmbm para a leitur, porque o
autor nlo se signifca apenas para si mes·
mo, mas tamb�m para os outos, � capaz de
contar sua hit6ria, tnsmitir sua experien­
cia -no que a conslçio autobiogáfc se
aproxima da noo de "projeto" desenvol-

vida por Gilbrto Velho, como sendo uma
elaborçio cnsciente, psslvel de ser co­
municda, d. tentativa "de dar um sentido
ou uma coerência" •"experiencia fagmen­
tadora" do individuo nas soiedades com­
plexas (Velho, 1981:31).

Ï � por esse ato de conlar, justmente,
que o projeto autobiográfco parece tomar­
se paslvel, na medida em que exige do
escritor o esforço dç tomar inleleg(vel para
o outos sua experiência "fagmentada",
L8contrário, se teria, no limite da busc
de sentido para a própria vida, um "veto å
comunicação", uma "radicalização do au­
tobiográfco, implicando a imposibilidade
de partilhar os seus sigifcdos" (Cost
Lima, 1985:307), uma vez que s6 o autor
seria cpaz de signfcr-se a si mesmo, não
dando condiçõe ao leitor de "partilbar o
que ali se oferece" (. 306).
Nesse sentido, talvez, a fnçio da narra­
tiva na autobiografa seja análoa Aquela
que adquire na cncpço moder de his­
tória: a de elaborar uma ex Iic o (um
concbido) para o pasado, na qual o tempo

linear fnalmente pára, acitando uma con-
clusão: "o tempo narativo parce trabalhar
paralelamente a etas ciencias "(naturais)"
- e ao método crtic - complementndo­
as, pis enquanto elas se obrigam a um
progresso contínuo, equivalente ao inces­
sante movimento do temp linear, 8 nara­
tiva confecciona um real no qual este tem­
p, eta Oecha, fnalmente pára, acitando
uma conclusão" (Aaújo, 1986:49).
3. L8limIte. de expre •• Ao do "eu"
Se é no Iinútdo epaço da seme/a�a
que se move o "eu" autbiogr'fco e se,
nesa movencia, ele produz uma imQem
mític de si memo, fixando-se como "eu
para si" e "eu para os outos'1 de outo lado,
cntudo, essa conslUçio da identidade nio
se fz sem ambigüidades. Ïse mose pode
dizer que o ecritor de autobiografa é "g-
suído" por, ou se "metmorfoseia" no ima­
ginário, de alguma fora é psslvel reco
nhecr, em seu afã de expressar e regatar 8
experiencia de vida, uma �nttiva de su­
plantar as descontinuidades que o separam
do sujeito do enunciado .
Ao analisar a prouçio de autobiogra­
fas na terceira pessoa, em que o autor refe­
re-se a si mesmo como se fora outro, Phi­
lippe Ljeune (1980) adverte que tl fgur
(a terceira pessoa) mo deve ser tida como
uma forma "indireta" de falar de si mesmo,
em opoição ao crter "direto" da primeira
pesoa, pois "elle uI U mani�re de réali­
ser sous Mforme d'un déoublement ce
que Mpremi�re personne ralise sos M
forme d'une confsion: I'inéluclable dU­
lé d la 'ersonne'gramalicale. Dire 'je' UI
plus Iubituel (dne p/s 'nalurl') que dir
'd´quan on prle d so� mai n'eSI pas
plus simple" (Lejeune, 1980:34; grifos do
autor).
Ist acontece porque "eu" � sempre uma
fgura aproximativa nos discuros (1 exce­
çio do enunciados performativos), por­
que, nela, se confundem e se mascaram as
distincias e as divisões da identidade múl­
tipla do sujeito que fala: a ditincia ente o
sujeito da enuncaçio e o sujeito do enun­
ciado, que, como vimos, marca a espcif­
cidade do texto autobioráfco. Nete, a
dualidade da voz narativa corresponde, se­
gundo Lejeune (198:37), As distincias de
perspectiva ente o narrador e o persona­
gem, que fzem com que coexistam diver­
sos jogos de focalização e de voz, como a
A 11E AU B¡UKÆA

restição 8O prsonagem, ou a intsão do
nanador, que pode comentar acontecimen�
tos com ironia, por exemplo, ou tratá-los
liricamente etc. Compensando ou mesmo
mascarando essas distincias, tensõs e mu­
dançs constantes de perspectiva, o empre­
go da primeira pessoa, mais comum na
autobiografa e quando se fala de si mesmo,
apenas estaria promovendo a ilus40 da
unidde d eu, de que, parece, necessita�
mos, haja visto o incômodo e a sensação
artifcial que provoca a leitura de uma au­
tobiografa em terceira pessoa. Assim, a
análise do emprego da terceira pessoa na
narrativa autobiogrifica conduz àquilo que
se esconde detrás do emprego do "eu" e á
profunda tensão inerente a todo esforço au- .
tobiográfico:
"Tom se passe comme si dans l'aUlobio·
graphi2, aucune combinaison du syste­
me ds personnes dan J'énoncialion ne
pouvait de maniere salisfaisante 'expri�
mer totalement' la personne. Ou pllltõt,
pour dire le choses moins nafvement,
tomes les combinaisons imaginables ré·
velent plus ou moins clirement ce qui
et le propre de la personne: la tension
entre I 'ipossible unité et I 'intolérable
division, et la coupure fondamentale qlli
fait du sujet parlant un Rtre d fie" (p.
38; grifos nossos).
Sendo assim, aquilo que havfamos situa�
do como sendo próprio do "eu" autobiográ­
fco - a fixação de uma significação do.
sujeito - antes de constituir a totalização
mitica da identidade do autor, toma-se, pelo
olhar "esquizofênico", uma ilusão de uni­
dade, com a qual o escritor se depara duran�
te a constrção de seu texto autobiográfico,
experimentando a distância entre o sujeito
do enunciado e o sujeito da enunciação, a
pluralidade de perspectivas da voz narrati­
va e as divisões interas ao eu que se pro­
clama único.
Isso no leva a supor que, se efetivamen­
te o escritor de autobiografia não estabele­
ce, como o de fcçio, uma continuidade
com o Uimaginário", tal continuidade, D
verdade, é buscada em relação ao "vivido",
à experiência de vida que o autor tent
reconstrir, prourando, sem sucesso, C~
primer tota/ement /personne". É como se
os diveros de �
fossem
por divi-'
mento da continuide vivido: ϸcomo tal
expressãodo
eu emsua "inteireza" é impos�
sívcl, o mito construído pelo sujeito 8Uto�
biográfico deixa sempre um residuo que
não se "encaixa" na estrutura concebida, de
modo que, não fora sua construção para a
leitura (sua narração), a Oecha do tempo
vivido não parava e se teria um j'veto 8
comunicação".
Ïse antes haviamos localizado a especi­
ficidade da autobiografia justamente na
identidade entre autor e narrador, agora esse
mesmo nanador, incapaz de ser a expressão
do autor em sua "inteireza", desloca�se,
como o peronagem, para o plano da cons�
tução: passa 8 ser uma imagem do autor,
constuida e gravada nas linhas do livro.
Desse modo, é possível dizer, como Vargas
Llosa, que o narrador de uma história é
sempre uma invenção, mesmo que essa his­
tória seja aquela do "microtempo fnda­
mentaI" que o autor protagoniza.
NOWS
l. Um dos exemplos desa pssibilidade p-
de ser encontrado em Csta Lima, "Mito e pro­
vérbio em Guimarães Rosa" (1972), onde s
verifica que a afta incidência de provérbios n

80 ¶HTRO -1H1D
obra d Guimarãe Ros levou o autor a aproxi­
má-Ia da narraço e do relato mític.
2. Sobe o "surgimento" da autobografa e
as Co.s õ de Rouu, ver Csta Lima,
1985:250-95, e Ljeune, 1975:13, 49-263 e 340.
w Ct Uma, 19848 e 1985, encntram-se
tam�m referências æCofssõudoAgstinho,
que mer detqueD "gneloga" do "gê­
nro' autobiogrfc, na medida em que tm�m
cntl\ narrativa sb a expriênca do au­
tr diante d "algo cpitl' - su convero
(Csta Lima, 1984a:237). Etetnt, de acrdo
cm É J. Weintraub, citdo pr Cta Uma.
embr Agostinh "crmente etivese 00-
cent d i4ios incsia g al, não a via cmo
algo Ce valor em si memo ou merecdora de
cltvo' (Cst Lima, 1985:257), de moo que
8 "singulardde" da exprênca "individul"
não entava a( em quetão.
.
3. Îanalogia entre a omovênca" do sujei­
to e fenômeno de "p$ o" ou "metamoro­
s" foi dnvolvida em nosa disertação de
metrado a parir do cncito de "ritual" e "sa�
aUco" de Lévi-Straus. Para um aprofunda�
ment da quetão, induindo a relaço entre, de
um lad, a litratura e, de outr, a opsiço
'évi�strausian entre "mito" e "ritua'', ver A�
br, 199.
4. A respito desa identidade, ver, tambm,
Csta Lima (1985:252-3).
5.Em sua anális, Ljeune lanç mão d uma
quarta fgura, o modlo, aquilo ao qual o enun�
dado prtende assmelbar�se, cmo forma de
instrumentlizr a ontrpsiço d autobiogr�
fa à biografia. Cmo,entetanto, modelo eautor
se confundem na autobiografia (Lejeune,
1975:40), optmo pr adtr a fgur "autor"
quando s trt d rlação de semelhanç no
nível do enuncado.
6. Utilizamos aqui princpalmente a noão de
"mito" desnvolvida pr Lévi-Straus, que' re�
mete 8 ordem do "pnsado", da "etrutura", do
"cncbido" e do "deontínuo", pla qual ela�
bramos o que o autor cama de "texto" do nl
(c. principalmente Lvi-Strus, 1970).
7. Sugro aqui a relação entre tal "ontinui­
dade" e a noço de "ritual" deLévi-Strauss, que,
opndo-se ao "mito", cnstitui uma outra mo­
dlidade de elabração d "texto' do real, da
ordem do "vivido", do "acnteimento", do
"cntínuo" (cf. principalmente Lévi-Straus,
1970).
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