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MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4.

a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude

_________________________________________________________________________ Processo n. XXX Adoção nacional cumulada com decretação de perda de poder familiar Requerentes: AAA e BBB Criança: CCC

PARECER

Como as pessoas, os valores, que são idéias, nascem, padecem sorte vária e morrem. Sua raiz é modesta e comum. As necessidades elementares da vida individual, projetando-se na vida coletiva, se sublimam em normas. Estas, desfeita a placenta que as nutre, se apresentam como valores autônomos, eternos, universais. Em torno deles se constroem as ideologias, proliferam outros valores, forma-se o tecido das ilusões caras à existência. As instituições vicejam à sua sombra e a conduta se organiza segundo a sua diretriz (Antônio Cândido de Mello e Souza). A adoção não pode estar condicionada à preferência sexual ou à realidade familiar do adotante, sob pena de infringir-se o mais sagrado cânone do respeito à dignidade humana, que se sintetiza no princípio da igualdade e na vedação de tratamento discriminatório de qualquer ordem... São preconceituosos os escrúpulos existentes. Por isso, urge revolver princípios, rever valores e abrir espaços para novas discussões. É chegada a hora de acabar com a injustificável resistência a que indivíduos ou casais homossexuais acalentem o sonho de ter filhos. (Maria Berenice Dias).

Relatório: A presente ação foi inicialmente proposta perante a ....a. Vara da Infância e da Juventude, VIJ do Recife por AAA, residente nesta Comarca, qualificado à fl. 00, na qual pedia a guarda da criança CCC, nascida no dia 00/00/2005 (certidão de registro civil de nascimento à fl. 00), filho de DDD, residente na Comarca do YYY, nascida no dia 00/00/00, que, sendo adolescente na ocasião, se fazia representar pelos seus genitores. Na declaração de fl. 11, com data de 00/00/00, consta: 1

Em fevereiro de 2006 o requerente pede a transformação da ação de guarda para adoção (fl. omissis.. Além disso. lhe dando todo o apoio material e afetivo até a hora em que seu filho nasceu... 2 ..... Omissis.omissis – bem como conceder a visita do menor em apreço ao mesmo . que não possuímos condições materiais para manter o menor CCC.. antes mesmo do ajuizamento da competente ação. o requerente conheceu seu companheiro – Sr. BBB – depois começaram a ter uma vida em comum e decidiram adotar uma criança. a partir de entrevistas e visitas domiciliares (relatório assinado em julho de 2006). 00/00). 00). Ela disse que sabe das implicações do processo de adoção e concorda com todas elas. omissis.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. bem como do requerente com a criança. que trata da Organização Judiciária do Estado de Pernambuco (fl. Durante a conversa ele nos disse que era desejo dele e do requerente ter um filho. prosseguindo-se com o estudo psicológico que vem também assinado por estagiária de Serviço Social. FULANA . ainda. de 02/01/2001.. Declaramos. Dentre a documentação acostada encontram-se fotografias da genitora ainda grávida.. . ao que tudo indica. 31. sendo o pleito deferido e remetido à .. Observamos que o ambiente familiar oferecido pelo requerente a criança é adequado e saudável ao seu pleno desenvolvimento físico e emocional. Omissis”.. visto que nos encontramos em dificuldades financeiras . .. além da genitora: A Sra. acrescentou que o Sr. Os dois decidiram juntos o momento de realizar a adoção. (fls.. 47).... Omissis.disse-lhe que um casal de amigos concordava em lhe dar abrigo até que a criança nascesse. DDD a informou que sua motivação para entregar o filho decorreu do fato . Omissis. No início de 0000. VIJ do Recife por força do disposto na Lei Complementar nº... ela aceitou a proposta vindo a conhecer o Sr.. pouco após o seu nascimento (fls. Acrescentou que lhe trataram muito bem. 00/00) Em conclusão: Omissis. Foi quando a Sra. O requerente revelou que seu desejo de adotar surgiu desde .AAA deu entrada no processo de adoção sozinho se deu pelo fato de casais homossexuais não poderem dar entrada em conjunto.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ “não se opõem em conceder a guarda do menor CCC. A guarda provisória é concedida (fl. AAA e seu companheiro nesta ocasião. Conforme os relatos da genitora. 51).a.. com a escuta do requerente e do seu companheiro. Omissis .nos posicionamos favoravelmente .. Omissis.

. parágrafo único da Lei n.. Omissis. 000/000).. e a apresentação dos antecedentes criminais do contestante.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ Formalizando a sua intenção manifesta por ocasião do estudo psicológico.... 00/00).... complemento ao estudo psicológico.. (fls.. 000/0000). ouve-se a genitora.. por considerarmos o estudo apenas psicológico). e audiência (fls.. 000/000). reiterando o parecer favorável à adoção pelo casal (fl.. ocasião em que...... BBB adita o pedido visando figurar no pólo ativo da demanda (fls.... mas o limite de ação do aplicador da lei. e realização de exame de DNA para comprovação da alegada paternidade (fls.. além da oitiva dos requerentes e testemunhas.. e pugnam pelo deferimento do pleito tendo em vista o tempo de convivência com o adotando e o contido no estudo “psicossocial” ( sic... que manteve um relacionamento amoroso com DDD durante .. exarado parecer em contrário.... e este não pode superar o legislativo por razões evidentes..069/90... 000).. Em resposta os requerentes afirmam que EEE rejeitou a criança . Estatuto da Criança e do Adolescente. em apertada síntese.. Publica-se edital de citação de “genitor desconhecido” da criança (fl... nascendo desta relação a criança CCC que foi por ela entregue a terceiro sem o seu consentimento. tendo esta subscritora..... ao engravidar. que anui ao pedido e esclarece que.. em setembro de 2006. Uma segunda audiência ocorre no dia 00/00/2007 ocasião em que são ouvidas a genitora e a avó materna. O feito prossegue com a citação da genitora que já alcançara a maioridade (fl. 000 opina contrariamente à visitação requerida pelo contestante.. 00). 00/00). Independente de despacho da autoridade judiciária. pede diligências para a localização de YYY.Vara Cível da Comarca do XXX.. em cumprimento ao disposto no art.. a não regulamentação do pedido de visita formulado. apresentando resposta em forma de contestação (fls.. a petição e seus anexos seguem com vista ao Ministério Público.. ... e testemunhas. o ainda suposto genitor. 166. por fim... Ao final pede a manutenção da guarda concedida..... dentre elas o fato de que não lhe foi conferido poderes para tanto no Estado Democrático de Direito em que vivemos (fls. suposta avó paterna. . enquanto que EEE é citado pessoalmente (fl.. 8.. A excelentíssima Promotora de Justiça que subscreve o parecer de fl. pelos argumentos que se seguem: Não se discute aqui convicções pessoais.. reivindica a guarda do filho. Com relação aos requerentes.. 000)... alegando. A 3 ..MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. tendo realizado denúncias na imprensa e interposto Ação de Investigação de Paternidade que tramita na X... 000).. 000/000). afirma: que o melhor para a criança é ser adotada por AAA e BBB..

. Sem que venha acompanhado por petição é feita a juntada de antecedentes de pessoa homônima do genitor... diz trabalhar em . Vindo os autos com vista a esta subscritora.. somente tendo notícias da mesma após o nascimento de CCC e.... tendo em vista que diverge a filiação (fl. (fls.. EEE reitera o desejo de receber o filho. não possuir uma companheira.. manifestamo-nos como se segue: 7) Entendo que é necessário equilíbrio na apreciação do caso.. 000).. afirmando que tal intenção já havia sido comunicada à família materna desde a gravidez de DDD (fl. mesmo quando deferida a adoção. sobretudo em desfavor da criança. datado de 00/00/ 2008: Omissis. a história 4 . na busca da defesa destes. EEE com dificuldade parece lutar pelo filho.... 000/000)..000).. em tantos estados de Brasil.. Todavia. Os requerentes insistem na não concessão do direito de visita (fl.. 000).... posteriormente.. parece causar um certo incômodo o fato de que. diante da notícia dada pela avó materna de que “a criança já tinha sido dada e estava fora do país”. Em petição que vem com o timbre da campanha “Seja um pai legal” EEE junta perícia comprobatória da paternidade genética (fls. acionou os órgãos de imprensa e GPCA. não oferece causa para que venha a perder o poder familiar (onmissis). tendo o relacionamento chegado ao fim pelo . .. Não é demais lembrar que há correntes que defendem uma concepção ampliada de família de forma a comportar.. certidão negativa de antecedentes e informações do Judwin (fls.. com o parecer que se segue... DDD “sumiu da vizinhança”. 264/268).. Ademais... Tramita nesta mesma Vara uma ação de adoção proposta por casal heterossexual.. A avó paterna e testemunhas corroboram com a versão de EEE e a última manifesta o desejo de ficar com o neto. Enquanto EEE assevera que DDD não lhe falou da gravidez.... ao contrário... em junho de 2008. não apenas o parecer técnico é favorável à visitação da mãe como tal visitação já foi autorizada judicialmente.... .... juntam escritura pública declaratória de união homoafetiva (fls. em tese....MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. 000/000) e declaração de matrícula da criança em estabelecimento educacional (fl.. O preconceito que atinge os homossexuais pode levar a que. já foi concedida adoção para casal homoafetivo e Recife ainda não deu a “sua contribuição” para os avanços necessários à aceitação das novas formas de configuração familiar. se venha a perder o equilíbrio necessário à apreciação da causa. Após forte desavença com .a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ primeira reitera a sua anuência ao pedido e a versão TAL. 000/000). o que afronta um dos pressupostos processuais que é o da imparcialidade. que a genitora contesta (genitora esta afastada da criança há vários anos)..... versão que é corroborada pela avó materna que acrescenta que a avó paterna também rejeitou o neto. Novo estudo psicológico é realizado.. 000)....... Sr. 8) Esta iniciativa (direito de visita) possibilita que se aprecie o compromisso da família biológica para com a criança e os sentimentos desta última para com a família que..

000). Será que. na condição de fiscal da lei. exigiu um maior esforço na sua análise e estudo. o sentimento de exclusivismo inviabiliza uma adoção aberta. genitor (fls. profissionalmente. hoje também me coloco de forma favorável. 000/000). se pessoalmente já defendia esta possibilidade. Esta subscritora. manifestação do curador que pugna pelo “uso de muito bom senso” e deferimento do direito de visita (fls. lembrando. e que a criança encontra-se bem cuidada e há longo período na companhia dos guardiões. posicionou-se. questionando os limites ao poder normativo do juiz. 000 pede um relatório conclusivo do NARF e NAEF. pela complexidade fática e jurídica que o envolve. a matéria vem sendo discutida (refiro-me a apreciação da união homoafetiva na perspectiva do direito de família) estando a votação empate até a presente data. após atuar como Procuradora de Justiça por convocação. sem sucesso (fl. 000/000). 000/000. Hoje o Substitutivo da deputada Tetê Bezerra admite a adoção por casal homoafetivo. Este é apresentado às fls.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. apenas os requerentes o são. (fls. De logo analisamos a questão atinente à competência territorial. não tendo sido apresentada justificativa para a exclusão do genitor (fl. ainda que. Seguem-se novas manifestações das partes e do curador (fls. de forma contrária a que o pedido fosse apresentado em conjunto (proposta esta surgida posteriormente à primeira entrevista psicológica). Todavia. subscrito tão somente por psicólogas. e. justificando o atraso na devolução com o presente parecer em razão do fluxo de processos que se seguiu desde o seu retorno. Estabelece o Estatuto acerca desta competência relativa: 5 . sendo este o único processo em atraso por parte desta Promotoria de Justiça. a forte influência da avó paterna. notadamente quando o legislativo assinalava de forma contrária à adoção por casal homoafetivo. recebeu os autos apenas no mês de setembro. 000/000). enquanto que o excelentíssimo Promotor de Justiça reitera o pedido de mais um estudo em conjunto (fl. corrente esta conhecida como “adoção aberta”. 000). Parecer: Concluído o relatório acima. sendo que o presente caso. iniciamos as considerações acerca dos aspectos jurídicos. 000/000). decorrente da meta 2 determinada pelo CNJ. junto ao STJ. Em 00/00/2009 realiza-se audiência de tentativa de conciliação. e destaca o uso excessivo de bebida alcoólica por parte da família paterna do genitor de CCC. de início. não se estaria praticando um preconceito às avessas? 9) Observo que esta Promotoria de Justiça. enquanto que a excelentíssima Promotora de Justiça em cota à fl. na presente ação. Seguem-se as alegações derradeiras dos adotantes (fls.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ biológica anterior. 000/000). sendo indeferido pela autoridade judiciária. 000). Ao final da nossa manifestação pedimos que fossem cientificados do posicionamento o genitor e os requerentes.

(STJ. 6 . 000). Acerca da matéria permito-me transcrever entendimento jurisprudencial vazado como se segue: CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA. seus responsáveis (art. Rel. em tese. mostra-se aconselhável que o pedido de adoção seja processado no domicílio de quem detém a guarda do menor. Conflito conhecido. 147. 147. a legislação admite a possibilidade da adoção intuito personae (art. situação que. S2 – Segunda Seção. ART. a exegese da norma deve ser feita com avaliação do caso concreto. A ação foi distribuída no dia 00/00/2006. do ECA).). § 1. devendo esta possibilidade ser restrita a partir da vigência da Lei nº. sempre visando ao critério que melhor atenda ao interesse dos tutelados. quase seis meses após o nascimento do infante. enquanto que os requerentes. DOMICÍLIO DE QUEM DETÉM A GUARDA. INTERESSE DO MENOR. O conflito entre as partes decorrente do presente caso não é atípico em ações desta natureza nas quais a criança não se encontra apta à adoção. Comarca onde tramitou a Ação de Investigação de Paternidade proposta pelo genitor no dia 00/00/2006 (processo n. Em se tratando de processo submetido às regras protetivas do Estatuto da Criança e do Adolescente. 147. 50. 12. II – pelo lugar onde se encontre a criança ou adolescente. Data do julgamento: 27/02/2008). assim. ADOÇÃO. na qual a criança já se encontra disponível juridicamente para uma adoção tendo em vista que os seus genitores perderam o poder familiar ou este poder está extinto (como ocorre no caso dos órfãos). o da Vara da Infância e da Juventude de São José dos Campos – SP. matéria passível de questionamentos aos quais não me dedicarei tendo em vista que a presente ação foi proposta em data anterior a esta Lei. § 13).010/2009 (art. detentores da guarda de CCC. qual seja. o que poderia acarretar (como ocorreu) irresignação do genitor ou até mesmo (o que não aconteceu) arrependimento por parte da genitora. A competência será determinada: I – pelo domicílio dos pais ou responsável. são domiciliados no Recife. Sidnei Beneti. à falta dos pais ou responsável. é competente este juízo. Min. Na espécie. CC 86197/MG. não aconteceria se a adoção se desse através de cadastro.o.I. DO ECA. A genitora é domiciliada na Comarca do YYY (a princípio a criança era registrada apenas com o nome desta).MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. I. Entretanto. 45.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ Art. para declarar competente o juízo suscitado. o que atende aos interesses da criança.

que deles participem profissional de Serviço Social. é neste sentido que dispõe o Estatuto ao tratar dos procedimentos a serem seguidos quando da colocação em família substituta estabelece que: Art. 168 – Apresentado o relatório social ou o laudo pericial. determinará a realização de estudo social ou. à 7 . os quais integram as equipes desta ... 167 – A autoridade judiciária. pelo prazo de cinco dias. decidindo sobre a concessão de guarda provisória. se apresentam apenas como estudos psicológicos. de ofício ou a requerimento das partes ou do Ministério Público. bem como. No que concerne à possibilidade jurídica do pedido. 000). Prosseguindo com a nossa análise nos debruçamos com as considerações que se seguem. à alimentação. à saúde. o direito à vida. mais uma vez e injustificadamente. A Constituição da República. dar-se-á vista dos autos ao Ministério Público. a resposta à indagação: é possível a adoção por pessoas do mesmo sexo? Transcrevemos o nosso parecer apresentado em ação anterior de natureza semelhante que tramitou nessa . da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente. decidindo a autoridade judiciária em igual prazo. Todavia. a omissão não acarretou prejuízo aos envolvidos.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ No que concerne aos estudos técnicos realizados. sobre o estágio de convivência.. com absoluta prioridade. defendemos que caberia algumas considerações acerca do pedido em caráter preliminar. e ouvida. Diante da inegável polêmica que reveste o tema da adoção por casal homossexual. qual seja. que significa uma evolução do nosso entendimento de três anos atrás acerca dos limites ao poder normativo do juiz em um Estado Democrático de Direito (fls.. Art. perícia por equipe interprofissional. sem antecipação do julgamento do mérito. sempre que possível. CR/88 ao dispor acerca da adoção estabelece: “Art. sendo recomendável. 00/00): tradicionalmente compreendida como uma das condições da ação pela qual se verifica a existência ou não de vedação legal ao pedido formulado. VIJ (processo n. VIJ. destacamos que. no caso de adoção. 227 – É dever da família.a.a. como tem pugnado esta subscritora em caso anterior.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4.. se possível. a criança ou o adolescente... (Grifei).

Refere-se a “cônjuges ou concubinos" (arts.o. Alguns destes requisitos foram alterados com a Lei n. conhecida como novo Código Civil. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. exploração. mas estabelecendo como requisitos que: o adotante deve ser maior de 21 anos (art. terão os mesmos direitos e qualificações. ser 16 anos mais velho do que o adotando (art. estando os procedimentos disciplinados nos arts. § 1. violência. “divorciados e judicialmente separados” (art. na forma da lei. a Lei nº. universais. § 4. ou por adoção. não ser ascendente ou irmão do adotando (art. 152 usque 170.o. em caso de tutor ou curador é vedado a adoção enquanto não saldar o seu alcance ou der conta da sua administração (art. que estabelecerá casos e condições de sua efetivação por parte de estrangeiros. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”. Os filhos.o.o. § 2. à profissionalização. Omissis § 5. veda a adoção por tutor ou curador que não tenha dado conta de sua administração e saldado o seu débito (art.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ educação.620). 1.406. 42.619). discriminação. 39 usque 52. ao lazer. cabendo ao Poder Público a responsabilidade de assistir a adoção. 1. 44).MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. § 1. 1. o direito à convivência familiar é direito fundamental – portanto erga omnes. a ser cumprida por pelo menos um dos cônjuges ou companheiros (art.o. ao respeito.o. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. sendo vedada qualquer discriminação entre as modalidades de filiação – seja genética ou não -. Ou seja. O Estatuto da Criança e do Adolescente trata do tema nos seus arts. mantém a diferença de idade entre adotante e adotando em 16 anos (art. caput). 42. Todavia. havidos ou não da relação do casamento. e 42.629 e estabelece as seguintes exigências: a idade mínima do adotante é reduzida para 18 anos. 41. 42. 1.). possuem eficácia imediata e abrange um mínimo existencial – da criança e do adolescente. Todos estes requisitos.618 a 1. 10. seja do Estatuto seja do Código Civil. não restringindo o deferimento da adoção a formas específicas de entidades familiares. crueldade e opressão. foram atendidos pelos adotantes. à dignidade. à cultura.o. § 3.).).). de 10 de janeiro de 2002. A adoção será assistida pelo Poder Público.406/2002 não prevê a possibilidade de adoção por casal homossexual (ou homoafetivo): 8 . 10.618 e seu parágrafo único). que dispõe sobre adoção nos arts. § 6. 42.

contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família”. 9 .723: “É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher. § 3. As uniões homossexuais são constitucionalmente protegidas enquanto tais. contudo. A união homossexual constitui-se entidade familiar desde que apresente como características: afetividade.68. se estas modalidades de entidades familiares são as únicas admitidas pelo ordenamento jurídico brasileiro. por sua vez. Do que dos autos constam estes 1 2 LÔBO. para efeito de proteção do Estado. independentemente de regulamentação. Entidades familiares constitucionalizadas: para além do numerus calusus. é conceituada no artigo 1.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ “Art. a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar (art. 2002. Destaco entre os estudiosos do tema Paulo Lôbo 1 que apresenta os seguintes argumentos: “A ausência de lei que regulamente essas uniões não é impedimento para a sua existência. (Grifei). (Grifei). A Constituição da República considera.o. Indaga-se. que é entidade familiar completamente distinta. LÔBO.).) e daquela constituída a partir do casamento civil. com sua natureza própria”. Paulo. 12. 226. A união estável.622 – Ninguém pode ser adotado por duas pessoas. p. porque as normas do art. ou se viverem em união estável”. entendemos que não há necessidade de equipará-las à união estável. a questão a ser enfrentada volta-se à restrição do Código Civil. Revista Brasileira de Direito de Família. salvo se forem marido e mulher. Em sendo negativa a resposta. configurada na convivência pública. Paulo. 1.o. ao lado da família monoparental (§ 4.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. também é o que nos ensina Paulo Lôbo2. Na perspectiva doutrinária é forte a posição que rejeita a teoria da norma geral exclusiva. São Paulo: Saraiva. 2008. Por outro lado. Famílias. n. 226 são auto-aplicáveis. estabilidade e ostensibilidade.

A garantia do direito à convivência familiar através da adoção internacional: em defesa do mito de Réia no combate a Cronos. que tenha a todos como iguais perante a lei. Porto Alegre: Livraria do Advogado. a consideração deste princípio ganha relevo na apreciação do presente pedido. inclusive a sexual. 2007. É cediço que as normas podem se constituir de regras e de princípios. È a família baseada no afeto. 1177-1178. sendo inviolável este direito (art..como promovê-la. Agasalhando. Ingo Wolfgang (Org. inerente e irrenunciável de todo o ser humano .49.).MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. José Joaquim Gomes. o que só será possível a partir de um modelo inclusivo. 237f.. Baseamo-nos. enquanto que os primeiros exigem. É a alternativa que ora utilizamos em resposta aos dispositivos do Código Civil supramencionados. a posição segundo a qual a norma contida no art. Direito Constitucional e teoria da constituição. da CR/88). Para considerar a viabilidade jurídica do pedido recorremos primeiramente ao princípio da dignidade da pessoa humana (art. p. 105-147. Ed. devorador da infância. A vida real é complexa e dinâmica. criando as condições para que as necessidades existências básicas do indivíduo se realizem. nestes princípios.o. 5 MORAES. na compreensão. 1999. 1. A igualdade não deve se dar apenas na consideração de todos como iguais. em resposta à natural incompletude do desenho normativo tradicional busca-se na Constituição e nos seus princípios os valores fundantes da sociedade. vista neste parecer não mais como um sentimento ou fato social. Maria Celina Bodin de. Constituição. 5. In: SARLET. sem preconceitos ou discriminação de qualquer ordem. 10 . no cuidado e na solidariedade que se deve promover. Centro de Ciências Jurídicas/FDR. passemos à análise dos dispositivos do Código Civil. 226 da Constituição da República é uma norma de inclusão. Coimbra: Almedina. como ora o fazemos. liberdade e integridade física e moral – dentre os princípios que fornecem o substrato material da dignidade da pessoa humana.o.o. recorremos a Maria Celina Bodin de Moraes 5 que o inclui – juntamente com o da igualdade. pelo qual todos devemos não apenas reconhecer e proteger a dignidade existente – uma vez que é dado natural e cultural.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ elementos característicos em relação a REQUERENTE I E REQUERENTE II estão presentes. não há como o Direito prevê todos os fatos e situações. 3 CANOTILHO. III da CR/88). portanto. O conceito de dignidade humana: substrato axiológico e conteúdo normativo. 3. 4 QUEIROZ. promoção e realização pessoal dos seus integrantes 4. promotora do bem de todos. permitem ou proíbem algo de forma definitiva. mas como princípio constitucional (art. 3. 2006. p. p. Acerca da solidariedade. na defesa de uma sociedade solidária. os princípios são mandados de otimização de um direito ou bem jurídico 3. Universidade Federal de Pernambuco. direitos fundamentais e direito privado. 2007. Tendo em vista que a família enquanto um valor deve ser considerado – a par das suas funções sociais– pela sua contribuição para a felicidade. I e III da CR/88). Laíse Tarcila Rosa. Dissertação (Mestrado em Direito) – Programa de Pós-Graduação em Direito.

da LICC. pela sociedade e nela se inclui em especial a escola que. dispõe sobre a matéria nestes termos: Art. no caso em que um casal formado por um brasileiro e um canadense busca o reconhecimento da união estável para fins de obtenção de visto permanente no Brasil para este último. O STJ. não vemos como dissociar tais argumentos da análise do pedido em apreço. conviver com o adotando)? Logo. assim decidiu: 11 . 227 da CR/88). mas carece de sentido deferir a adoção apenas para um dos requerentes quando ambos constituem uma família e deverão.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ mas na construção de uma cultura de iguais que passa pelos Poderes Públicos.o. apreciando a questão da união homoafetiva na perspectiva do direito de família. segundo os autos. mas afinal o que se deseja não é dar à criança uma família (aí se inclui a monoparental. – Para adoção conjunta. 12. de 03 de agosto de 2009 que. não acolhendo o Substitutivo (SBT – 1) o qual expressamente admitia a adoção por casal homoafetivo desde que “haja comprovação de estabilidade da convivência ”. Muito embora não haja a dualidade de sexos a que se refere o art. 5. 42. conforme já referidos. independente do estado civil ”. 1. pois estas são também sujeito de direitos e prioridade absoluta (art. § 2. A inovação a ser introduzida diz respeito à Lei n. estabilidade e ostensibilidade. nesta condição. Poder-se-ia questionar a utilidade dos argumentos acima que se voltam na defesa do reconhecimento da união homossexual (ou homoafetiva) como entidade familiar e não em prol da adoção. ou como por nós argumentado na ação já mencionada: Esta moldura dever ter a fluidez necessária para acompanhar a evolução social em um Estado laico que fez esta escolha como modelo civilizatório. Ademais o caput do artigo não limita o sexo do adotante: “Podem adotar os maiores de 18 (dezoito) anos. comprovada a estabilidade da família.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. qual seja: afetividade. portanto a interpretação deve se dar da forma mais harmônica com os princípios fundamentais da nossa sociedade e contidos na Constituição. mostra-se preparada e disposta a promover este direito que é de REQUERENTE I e II e CRIANÇA I e II. A complexidade do mundo real exige uma dinâmica que se opõe a um determinismo de sentido absoluto em nome de uma suposta e ilusória “segurança jurídica”.723 do CC não se pode negar reconhecimento aos adotantes enquanto uma família. é indispensável que os adotantes sejam casados civilmente ou mantenham união estável.010.o. tendo em vista que restou comprovada a ocorrência dos requisitos para tanto. ante a regra de hermenêutica jurídica contida no art.

Contudo. assim não procedeu. Min. Recurso especial conhecido e provido”. mas cuja essência coincida com outros tratados pelo legislador. ALEGAÇÃO DE LACUNA LEGISLATIVA. onde se pretende a declaração de união homoafetiva. Órgão Julgador: T4 . convivência pública. uma vez que a matéria.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4.Quarta Turma. de modo a impedir que a união entre pessoas de idêntico sexo ficasse definitivamente excluída da abrangência legal. ainda não foi expressamente regulada. o fato é que. 5. (REsp 820475/RJ. Ao julgador é vedado eximir-se de prestar jurisdição sob o argumento de ausência de previsão legal. dês que preencham as condições impostas pela lei. POSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO. A despeito da controvérsia em relação à matéria de fundo. Luis Felipe Salomão. O entendimento assente nesta Corte. DO CPC. PRINCÍPIO DA IDENTIDADE FÍSICA DO JUIZ. p/ Acórdão Min. Não há ofensa ao princípio da identidade física do juiz. Rel. duradoura e contínua. É possível. DA LEI 9. caso desejasse. máxime porque diferentes os pedidos contidos nas ações principal e cautelar. (Grifamos). Data do Julgamento: 02/09/2008). portanto. AÇÃO DECLARATÓRIA DE UNIÃO HOMOAFETIVA. Os dispositivos legais limitam-se a estabelecer a possibilidade de união estável entre homem e mulher. a fim de alcançar casos não expressamente contemplados.724 DO CÓDIGO CIVIL. . 4. quando da prolação da sentença. 12 1. Rel.278/96 E 1. 6.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ PROCESSO CIVIL. quanto a possibilidade jurídica do pedido. proibir a união entre dois homens e duas mulheres. utilizar expressão restritiva.723 E 1. 3. sem. se a magistrada que presidiu a colheita antecipada das provas estava em gozo de férias. não existe vedação legal para o prosseguimento do feito. a integração mediante o uso da analogia. Antônio de Pádua Ribeiro. POSSIBILIDADE DE EMPREGO DA ANALOGIA COMO MÉTODO INTEGRATIVO. se for o caso. que o magistrado de primeiro grau entenda existir lacuna legislativa. quais sejam. ARTIGOS 1. para a hipótese em apreço.O. contudo. 2. Poderia o legislador. corresponde a inexistência de vedação explícita no ordenamento jurídico para o ajuizamento da demanda proposta. 7. Admite-se. OFENSA NÃO CARACTERIZADA AO ARTIGO 132. conquanto derive de situação fática conhecida de todos.

Alemanha. É hora de abandonar de vez preconceitos e atitudes hipócritas desprovidas de base científica. Reconhecida como entidade familiar. publicidade. a ele cabe. (Apelação Cível n. excluir a pretensão dos adotantes tão somente por serem eles homossexuais e nesta condição viverem em família . NEGARAM PROVIMENTO. Os estudos especializados não apontam qualquer inconveniente em que crianças sejam adotadas por casais homossexuais. Caso em que o laudo especializado comprova o saudável vínculo existente entre as crianças e as adotantes. Suécia. Rel Des.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ Não menos brilhante é a decisão do TJRS. com características de duração. Sétima Câmara Cível. a união formada por pessoas do mesmo sexo. vanguarda na luta pelo reconhecimento e respeito aos direitos das pessoas homossexuais: APELAÇÃO CÍVEL. Finlândia. Espanha. apoiado na Constituição que exerce o papel de centro reunificador. como por nós enfatizado no parecer já referido: uma apreciação amparada em uma racionalidade que possibilite o olhar para o presente e o futuro de um mundo plural que se transforma e reclama uma nova postura do Direito. 227 da Constituição Federal). 70013801592. Islândia. CASAL FORMADO POR DUAS PESSOAS DO MESMO SEXO. e mais recentemente a Escócia e o Uruguai. UNÂNIME. adotando-se uma postura de firme defesa da absoluta prioridade que constitucionalmente é assegurada aos direitos das crianças e dos adolescentes (art. 13 . POSSIBILIDADE.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. Entendimento em contrário . Maria Berenice Dias). Países como a Dinamarca. Direito este que também se realiza e recria quando aplicado ao caso concreto. Principado de Andorra . Presidente Desa. Noruega. Reino Unido. merecedora da proteção estatal. continuidade e intenção de constituir família. mais importando a qualidade do vínculo e do afeto que permeia o meio familiar em que serão inseridas e que as liga aos seus cuidadores. ADOÇÃO.ou seja. Luiz Felipe Brasil Santos. ignorar a realidade social não pode se constituir uma alternativa ao Estado. em sessão presidida pela Desembargadora Maria Berenice Dias.não se mostra possível. decorrência inafastável é a possibilidade de que seus componentes possam adotar.

publicado no site do IBDFAM.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ admitem a adoção por homossexuais. sujeita cada vez mais setores sociais à intervenção casuística de um Estado que. mas que não é a ideal por infantilizar a “ sociedade órfã”. In: Anuário dos Cursos de Pós-Graduação em Direito da UFPE . Ao mesmo tempo em que a moralização da jurisprudência serve também à funcionalização do direito. Situação no presente caso inevitável. Um outro é o PL 3323/2008 de autoria do Deputado Walter Brito Neto (PRB/PB) que propõe a expressa vedação da adoção “por casal do mesmo sexo”). Recife. segundo Ingeborg Maus6: Esta informalização básica do direito. 14 . e se encontra não na nossa porta. levando a que o Judiciário supra a omissão. A nova Imago paterna afirma de fato os princípios da “sociedade órfã”. uma das mais antigas é o PL – 1151/1995 da Deputada Marta Suplicy (PT/SP). p. os adotivos e as mulheres desquitadas. 125156. na nossa realidade. Lamentavelmente o legislador brasileiro não se posicionou com clareza (em consulta ao site da Câmara dos Deputados utilizando como argumento de pesquisa a palavra “homossexual” acessamos 41 itens de Projetos de Lei e Outras Proposições. a “dinamização da proteção dos bens jurídicos”. em nome da administração das crises ou sua prevenção. apresentado no dia 26/10/1995 e que ainda não alcançou o seu desiderato. a Justiça ganha um significado duplo. 6 MAUS. 2000. Nesta sociedade exige-se igualmente resguardo moral a fim de se enfrentar pontos de vista morais autônomos oriundos dos movimentos sociais de protesto. coloca em questão a autonomia do sujeito para garantir a autonomia dos sistemas funcionais. O judiciário como superego da sociedade – sobre o papel da atividade jurisprudencial na “sociedade órfã”. Ingeborg. 11. 153-154) O “novo” (na realidade. Acerca da matéria é também oportuna a leitura do artigo de Jorge Luiz Ribeiro de Medeiros: Interpretar a Constituição não é ativismo judicial (ou ADPF 132 e ADPF 178 buscam uma interpretação adequada aos direitos já existentes na Constituição). já disse o poeta. mas na nossa casa. n. pratica assim a “desqualificação” de base social.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. que disciplina a união civil ente pessoas do mesmo sexo. Os Parlamentos podem mais facilmente desobrigar-se da pressão desses pontos de vista que vêm “de baixo” na medida em que já internalizaram eles próprios os parâmetros funcionalistas de controle jurisdicional da constitucionalidade das leis. Mas mesmo quando a Justiça – em todas as suas instâncias – decide questões morais polêmicas por meio de pontos de vista morais. colocando o judiciário como o seu superego. e o preconceito será superado tal qual ocorreu com os filhos ilegítimos. (p. a relação homoafetiva data de priscas eras) “sempre vem”.

neste caso do Judiciário. sem que se considere que esta situação autorize a medida extrema de afastamento definitivo da criança da família? Tais situações seriam tão desumanas quanto a escravidão foi um dia. e a conseqüente discriminação. luta pelo filho.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. 000/000. amar e por eles ser amado.010/2009). e. 163. A despeito das considerações que ora fazemos. de forma livre e espontânea. ou por se exigir um padrão único de comportamento. A genitora anui ao pleito. desde que tais circunstâncias não ofereçam risco à criança. constituindo-se este interesse superior uma “noção marco” (segundo Cecília Grosman) que referencia a atuação dos Poderes. 166. Neste contexto.o. independente da sua condição social. primeiro comprovando a paternidade e. pois. portanto. em nome do qual já se praticaram inauditas injustiças. como não o é a fé que a família extensa professa ou o uso de bebida alcoólica por um avô ou um tio. A pobreza não constitui causa para que um pai venha a perder o filho. resta a aplicação do princípio do superior interesse da criança. Ademais. sendo devidamente esclarecida das conseqüências desta decisão nos termos do art. aviltando a conquistada cidadania e os direitos dela decorrentes. em quantas famílias extensas se encontram usuários de bebida alcoólica. 15 .é impossível. naquele momento. § 2. em juízo. parágrafo único do Estatuto (vide ainda o art. passemos à análise do mérito da questão.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ Admitido. por conseguinte. 291) conclamamos a uma reflexão para que não se praticasse um “preconceito às avessas”. aos nossos argumentos. idéias e religiosidade que . a possibilidade jurídica do pedido. em seguida.bem sabemos . apesar de termos pedido a ciência dos requerentes e do genitor da nossa manifestação de fls. da Lei n. 3. Por razões que não foram apresentadas. como também não se discute que o lapso temporal de convivência de CCC com o casal e o afastamento da família biológica se deu de tal forma prolongado que esmaeceu os vínculos afetivos com esta última e floresceu e consolidou-se com os primeiros. 12. ou mesmo se uma família é predominantemente matriarcal. operando-se o que doutrina denomina posse do estado de filiação. apesar do nosso parecer em contrário por entender que tal posicionamento seria condenar previamente a que este viesse a perder o poder familiar pelo longo período de afastamento da criança que leva. o direito de visita. Se assim não o fosse. o certo é que o genitor não recorreu da decisão interlocutória que lhe negou o direito de visita. constituir uma família. pois além de negar-lhes melhores condições de vida lhes seriam negados direitos como a ter filhos (não apenas gerá-los). verdadeiramente. a exclusão daqueles que integram a camada social desfavorecida seria ainda mais desumana. na Declaração dos Direitos da Criança de 1959 (Princípio 2). Este primado encontra-se insculpido no art. ao contrário. cremos que um dos mais odiosos males da humanidade é o preconceito. a defesa do genitor não teve acesso. pedido que sempre foi indeferido. ao menos. reivindicando a sua guarda ou. como é cediço. consta a aposição das assinaturas tão somente dos primeiros.1). 227. previsto na Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança de 1989 (art. O genitor. Eis porque em junho de 2008 (fl. ao enfraquecimento dos vínculos afetivos.

fundamentando-se o nosso posicionamento com base no interesse superior da criança como acima argumentado. tendo sido nesse entretempo proferida a sentença de adoção. mas provavelmente acarretará ao menor V. art. foi dispensada (arts. Nada recomenda a mudança desse estado de coisas.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. § 5. § 2. tal decisão – que tenho seja a melhor do ponto de vista do ordenamento jurídico – implicaria modificação da vida da criança de cuja adoção se trata. em favor da criança CCC. o caso tem uma particularidade.638 do CC. nº. A função deste tribunal é a de fazer a interpretação da lei federal. filho de EEE e DDD e.a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ caput da Constituição com a expressão “prioridade absoluta”.404/6-SP evidencia o sentimento das Cortes Superiores em relação à prevalência dos interesse da criança e do adolescente: Contudo.638 do CC. podem oferecer ao adotando condições para o seu bom desenvolvimento físico.o. É bem possível que o precedente poderia servir para o julgamento de outros casos.. um mal que ele não fez por merecer. do que foi apurado. extinguindo-se o poder familiar dos genitores em razão da adoção (art. 24 do Estatuto quando da redação do inciso IV do art. sem que para isso exista outro argumento que não o de ordem meramente legal. portanto. apesar dos seus esforços iniciais. de fato. destacando-se a reconhecida impropriedade legislativa do inciso V). 166. 1. se considerada a inconstitucionalidade decorrente da supressão da expressão “ injustificado” contida no art. 28. via de conseqüência. IV do CC. da qual destacamos o art. A oitiva da criança. e aqui se põe uma boa oportunidade para definir o entendimento da regra que está no art. 45. que é consentida em relação à genitora (lembrando que pela nova redação da Lei nº. 31 do ECA. com profundos reflexos sobre a criança. 1.o. psicológico e afetivo. resultou por ver prejudicado o seu direito que pereceu diante do interesse maior da criança que se encontra com o casal requerente há mais de três anos. Os requerentes. 196. § 1. 16 . 2010/09. A situação é.635. tendo em vista que não restou provado que o genitor tenha incorrido nas hipóteses sanções previstas no art. que não anuiu ao pleito e. autorizando o deferimento do pedido de adoção formulado por AAA e BBB. emocional. anômala. 1. há mais de dois anos. o consentimento é retratável até data da publicação da sentença constitutiva da adoção) e cumulada com a perda do poder familiar do genitor. em virtude da sua idade. Contudo. O voto do Ministro do STJ Ruy Rosado de Aguiar no Resp. e é reiterado na legislação infraconstitucional. e 168 do Estatuto).o. 43 do Estatuto. É que o indeferimento do pedido de suspensão da guarda permitiu que a criança permanecesse com o casal Hall desde 17 de dezembro de 1996.

VIJ.a.. 10. em respeito aos arts. caput e 227. 30 de outubro de 2009. Eis o parecer.MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE PERNAMBUCO 4. da Constituição da República. § 6. provocando um efeito inter partes. lançando-se o nome dos requerentes como pais. III do CC. 47. conferindo-se ao adotando o nome de família destes (cabendo aos adotantes informar a ordem de lançamento do patronímico).a Promotoria de Justiça de Defesa da Cidadania do Recife – Infância e Juventude _________________________________________________________________________ Quanto ao registro civil de nascimento.o..o. como habitual nesta .. do Estatuto. § 2. LAÍSE TARCILA ROSA DE QUEIROZ Promotora de Justiça 17 . bem como o dos seus ascendentes na condição de avós.pelo qual a autoridade judiciária. no exercício da sua função jurisdicional de dizer o direito. opino no sentido de que seja aplicado. negar-se-ia a aplicar determinado dispositivo legal por este se chocar com a Constituição. Recife. adotandose o procedimento previsto no art.. 5. apenas no caso concreto – com relação ao art. o controle difuso de constitucionalidade da lei ..o.