VIVEKA-CHUDAMANI

*SHANKARA

APRESENTAÇÃO
O Viveka Chudamani (A Jóia da Suprema Sabedoria) foi editado pela Editora Teosófica (Brasília-DF) em 1992, com comentários feitos por Murillo Nunes de Azevedo, que também é responsável pela tradução. Trata-se de uma obra de imenso valor para todo estudante das genuínas tradições espirituais da humanidade, pertença ele ou não a uma delas. Apresentamos aqui o prefácio à edição brasileira, uma nota relativa à tradução, a introdução feita pelo tradutor e 102 dos 581 aforismos do Viveka Chudamani; não disponibilizamos os comentários constantes desta edição, para permitir que cada buscador possa obter do texto o seu próprio entendimento.

PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASLEIRA
A Jóia da Suprema Sabedoria (Viveka Chudamani) é um dos mais importantes textos do pensamento oriental. Seu foco central é viveka, um profundo discernimento que revela a identidade entre a Vida presente no homem (Átman) e o Todo universal (Brahman). Essa percepção transformadora é a sabedoria não-dual. A natureza da Realidade "deve ser conhecida pela clara percepção espiritual" (aforismo 56). Neste texto, Sankara apresenta-nos uma visão geral do seu pensamento e os princípios fundamentais da filosofia Vedanta Advaita, da qual foi o seu mais destacado expositor. É uma excelente obra para quem deseja conhecer e estudar a tradição da Vedanta, que surgiu e foi sistematizada bem antes de Sócrates ter nascido na Grécia. Viveu em um período de apogeu da criatividade filosófica da Índia clássica. Foi um dos grandes pensadores do Oriente e a chama do ensinamento Advaita (não-dual). Era a época dos sutras, da Yoga, da difusão dos Upanishads e das escolas filosóficas da Índia (Darsanas). Após encontrar Gaudapada, o autor dos comentários ao Mandukya Upanishad foi treinado na Yoga por Govinda Yogi - que é um outro nome para Patañjali. Segundo informações da tradição hindu e de Blavatsky, em A Doutrina Secreta (1), Sankara nasceu logo após o período em que viveu Buda. Na essência, sua filosofia era um complemento metafísico para a ética budista. O destacado pensador vedantino T. Subba Row, em sua obra Esoteric Writings ("Sri Sankaracharya’s Date and Doctrine"), usando dados históricos da Índia e instruções de Iniciados da Índia e Tibete, diz que Sankara revestiu-se de um corpo humano 51 anos após o Nirvana do Buda.

A Vedanta é derivada dos Brahma-Sutras e da filosofia dos Upanishads (2). Na Vedanta Advaita de Gaudapada e Sankara, Brahman é a única Realidade. O Espírito em nós (Átman) (3) é idêntico ao Ser universal. Tudo é Brahman, o Uno sem segundo, o Todo não-dual (advaita). Para Sankara, Átman é imutável, não-individual, eterno e a Verdade suprema. E o mais profundo discernimento (viveka) é aquele que nos revela esta identidade de Átman com o supremo Espírito. Esta percepção é a espada da Sabedoria que corta as ilusões criadas pelo pensamento. Além do Viveka-Chudamani, Sankara escreveu vários outros textos, entre os quais os Comentários ao Manduka Karika de Gaudapada, Comentários ao BhagavadGita, Atmabodha, Aparokshanubhuti, Hinos, Dakshinamurti. Também lhe são atribuídos os Comentários aos Brahma-Sutras e os Comentários aos Upanishads. Sua Obras Completas (em Sânscrito) é composta por 10 volumes.

NOTA
Devido à língua Sânscrita ser muito rica e possuir um vocabulário bastante diverso das línguas ocidentais, as traduções, principalmente os textos de conteúdo filosófico como este, por vezes apresentam-se um tanto diferenciadas. Por este motivo, considerou-se conveniente e importante cotejar o texto de Mohini M. Chatterji com outras versões. Assim, quando outras traduções (ou notas explicativas) apresentaremse esclarecedoras, partes destas foram acrescentadas ao texto. Foram utilizadas as seguintes edições:
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Viveka-Chudamani, tradução de Swami Madhavananda. Advaita Ashrama, Calcutta, 1989. Vivekachoodamani, tradução de Swami Chinmayananda. Central Chinmaya Mission Trust, Bombay, 1989. Viveka Churhamoni, tradução de Swami Vijoyananda. Editorial Kier, Buenos Aires, 1980. Viveka Chudamani, tradução de Julio Pardilla. Visión Libros, Barcelona, 1982. Viveka-suda-mani, tradução de Roberto Plá. Editorial Sirio, Malaga, 1988.

Nas traduções apresentadas nas notas utilizou-se, principalmente, uma associação das duas edições indianas em inglês (e que contém o texto em Davanagari).

INTRODUÇÃO
Este livro é uma das mais valiosas obras da raça humana. O VIVEKACHUDAMANI (A Jóia da Suprema Sabedoria) deve ser lido cuidadosamente. Foi escrito sob a forma de um diálogo entre um discípulo e seu Mestre, e nos revela as culminâncias da realização espiritual que estão a nossa espera.

O seu autor, Sri Sankaracharya, foi um dos grandes pensadores da Índia. É controvertida a data de seu nascimento, havendo imprecisão na abordagem de diversos autores sobre este assunto. Ainda muito jovem foi entregue ao treinamento de Govinda, que foi um discípulo de Gaudapada. Com avidez absorve todos os Vedas e os princípios da Vedanta Advaita (não dualista). A Vedanta é uma das escolas tradicionais da filosofia da Índia (Darsanas). É considerada como sendo a culminância do pensamento expresso pelos Vedas. A tradição antiga da Índia conhecida como o Brahmanismo havia entrado em decadência com a mecanização de seus rituais e o estabelecimento de normas rígidas de estratificação social através da deturpação do conceito de castas. Foi então que no século VI a.C. nasceram os chamados movimentos de protesto que buscavam revitalizar a tradição antiga através de novos caminhos. É o período onde nasceram o Budismo, o Jainismo e a escola materialista dos Carvakas. O Budismo, com sua amplitude de pensamento, praticamente assumiu uma posição importante na Índia, ultrapassando a antiga tradição Brahmânica. Mas, com a Vedanta, o Hinduísmo restabelece, em formas novas, a antiga tradição dos Vedas. O Professor Sri. Radhakrishnan, na sua obra Indian Philosophy, sintetiza o pensamento de Sankara nos seguintes pontos:
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Nossos sentidos podem nos iludir. A nossa memória é uma ilusão, porque é o registro parcial de nossas experiências do passado. As formas do mundo são pura fantasia. O ego é auto-estabelecido e diferente de tudo mais, seja físico ou mental. Átman é existência (Chit), consciência (Sat) e bem-aventurança (Ananda). É universal e infinito. O mundo objetivo é dependente. É um processo em constante mutação. O mundo não é existente, nem vazio. O mundo não é a Realidade última. Nossa ignorância nasce da confusão entre o sujeito transcendental (Átman) e a existência empírica. Quando analisamos o mundo do ponto de vista cósmico, vemos que o mundo é preso pelas categorias de espaço, tempo e causa. Como base e raiz de toda a experiência, temos Brahman, que é diferente do mundo espaço-tempo-causa. Nada é semelhante a Ele, nada é diferente. É nãoempírico, não-objetivo, completamente outro, mas não é o não-ser. É o Ser mais alto. O mundo depende de Brahman, mas Brahman não depende de nada. A ignorância afeta o nosso ser. Removê-la é realizar a Verdade. Quando o erro é

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retirado brilha a Sabedoria.
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A Verdade absoluta é Brahman. Nirguna Brahman é sem qualidades. Saguna Brahman é Ishvara (Deus), o Criador e Governador do Universo empírico. Pela prática das virtudes éticas e pela devoção e conhecimento podemos atingir a meta da auto-realização (Moksha). Moksha, auto-libertação ou liberdade, é a direta realização da Verdade que existe desde a Eternidade. Ao conquistarmos a libertação, nada acontece ao mundo. Somente mudam os nossos pontos de vista. Moksha não é a dissolução do mundo, mas a troca de uma visão errada pela certa (Vidya).

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Sankaracharya morreu na localidade de Kedarnath aos 32 anos. Criou quatro mosteiros para difundir a sua mensagem, sendo o principal o de Sringeri em Mysore. Os outros estão situados em Puri (leste), Dukara (oeste) e Badirinath (ao norte dos Himalaias). Em sua curta vida, Sankara revelou-se gênio em vários campos de atividade. Foi filósofo, poeta, sábio, santo, místico e reformador religioso. Mas, acima de tudo, foi um homem universal, um exemplo para os homens em todas as épocas. Murillo Nunes de Azevedo Rio de Janeiro, 1992

VIVEKA-CHUDAMANI
A Jóia da Suprema Sabedoria
SANKARA

1 - Eu me prosto diante do verdadeiro Instrutor - diante daquele que é revelado pelas
conclusões de todos os sistemas da filosofia Vedanta, mas que em si é desconhecido, Govinda, a suprema bem-aventurança. (4)

2 - Dentre as criaturas sensíveis é difícil alcançar o nascimento como ser humano;
dentre os seres humanos, nascer homem; quando homem, ser um Brahmana; sendo um Brahmana, desejar seguir a senda do dharma védico e entre estes aprender verdadeiramente. Mas o conhecimento espiritual que discerne entre o espírito e o nãoespírito, a realização prática da fusão com Brahmatman e a emancipação final dos grilhões da matéria são inatingíveis, exceto por um karma de centenas de milhões de encarnações.

3 - Humanidade, desejo de emancipação e orientação espiritual de grandes Homens

são muito difíceis de alcançar, pois são adquiridos somente pela bondade dos Deuses (Devas).

4 - Aquele que com dificuldade adquiriu uma encarnação humana e nela a plena
maturidade como homem, o que lhe permite o conhecimento das Escrituras, e que, devido às ilusões, não trabalha pela emancipação, é um suicida, autodestruindo-se ao tentar alcançar objetivos ilusórios.

5 - Quem nesta Terra tem a alma mais morta do que aquele que tendo obtido uma
encarnação humana e um corpo masculino, loucamente luta para alcançar objetos egoísticamente?

6 - Ele pode estudar as escrituras, invocar com sacrifícios os deuses, executar
cerimônias religiosas ou oferecer devoção aos deuses e, todavia, não alcançar a salvação mesmo durante a sucessão de centenas de Brahmayugas. Isso só se dará pelo conhecimento da união com o Espírito.

7 - A imortalidade alcançada através da obtenção de qualquer condição objetiva (tal
como a de um deus) está sujeita a findar, pois está claramente estabelecido nas Escrituras (Shruti) que o karma nunca é causa da emancipação.

8 - Portanto, o homem sábio luta para alcançar a salvação, renunciando ao desejo de
desfrutar os objetos externos, recorrendo a um verdadeiro e grande Instrutor e aceitando seu ensinamento com a alma inabalável.

9 - E pela prática do reto discernimento alcançado na senda da Yoga, ele salva a alma
- a alma afogada no mar da existência condicionada (samsara).

10 - Após abandonarem todo o karma com a finalidade de remover os limites da
existência condicionada, esses homens sábios com mentes resolutas podem tentar alcançar o conhecimento de seu próprio Átman.

11 - As ações são para a purificação do coração e não para a conquista da Substância
Real. A Substância pode ser alcançada pelo reto discernimento e não por qualquer porção de karma (5).

12 - A percepção do fato de que o objeto visto é uma corda removerá o medo e o
sofrimento que resultam da idéia ilusória de que é uma serpente.

13 - O conhecimento de um objeto é conquistado somente pela percepção ,
investigação ou instrução, (6) e não através de banhos purificadores, de dar esmolas ou de centenas de retenções da respiração (pranayamas).

14 - O alcançar o objeto depende da qualificação daquele que o deseja alcançar. Todos

os artifícios e contingências que surgem das circunstâncias do espaço e do tempo são meramente acessórios.

15 - Portanto, aquele que deseja conhecer a natureza de seu próprio Átman, após ter
encontrado um Guru que obteve o conhecimento do Absoluto (Brahmajnana) e seja de bondosa disposição, deve prosseguir com sua investigação.

16 - Aquele que possui um forte intelecto, que é instruído e que tem os poderes da
compreensão, é um homem qualificado para tal investigação.

17 - Somente é considerado digno de inquirir sobre o Espírito (Brahman) aquele que
tem discernimento, não tem apegos ou desejos, tem shama e as outras qualificações, e que possui a vontade de emancipar-se (7).

18 - Com essa finalidade há quatro espécies de treinamentos preparatórios, diz o
sábio. Com eles a tentativa terá sucesso; sem eles não haverá êxito.

19 - Viveka é reconhecido como sendo o discernimento do eterno em relação ao
transitório; então, segue-se vairagya, a renúncia do desejo de usufruir dos frutos da ação aqui e agora.

20/21/22 - Em terceiro lugar, shatsampatti, as seis possessões, que se iniciam com
shama; e quarto, mumukshutva, a aspiração pela emancipação (8). Brahman é verdadeiro, o mundo transitório é um ilusão; tal é a forma da conclusão final que se diz ser o discernimento entre o transitório e o eterno. A renúncia do desejo consiste em abandonar todos os prazeres derivados da visão, audição, etc. e, também, em abandonar todos os prazeres derivados de todos os objetos transitórios do prazer, desde o corpo físico até Brahma, o Criador, após ter meditado inúmera vezes a respeito dos seus defeitos e limitações.

23/24 - Shama é a imperturbável concentração da mente sobre o objeto de percepção
(9). Dama diz-se ser o confinamento, às suas próprias esferas, dos órgãos de ação e de percepções sensoriais, após tê-los feitos desprender dos objetos dos sentidos. Uma condição não relacionada com ou dependente do mundo externo é o verdadeiro uparati.

25 - Titiksha é o suportar de toda dor e sofrimento sem nenhum pensamento de
retaliação, sem abatimento e sem lamento. (10)

26 - Uma meditação fixa sobre os ensinamentos de Shastra (Escrituras) e do Guru
(Mestre) com uma firme fé neles, por meio da qual o objeto do pensamento é realizado, é descrito como shraddha.

27 - O fixar constante da mente no Espírito puro é chamado samadhana, a não
distração da mente com objetos puramente ilusórios.

28 - Mumukshutva é a aspiração à libertação, através do conhecimento do nosso
verdadeiro Ser, de todos os elos criados pela ignorância, começando pelo sentimento da personalidade e terminando com a identificação de si mesmo com o corpo físico.

29 - Mesmo que as qualificações enumeradas sejam em pequeno ou moderado grau,
ainda assim serão fortalecidas e melhoradas pela ausência de desejo, por shama e outras qualidades e pela bondade do Instrutor; e darão frutos (11).

30 - Naquele em quem a ausência de desejo (vairagya) e a aspiração pela
emancipação (mumukshutva) são proeminentes, shama e outras qualificações produzirão grandes resultados.

31 - Quando a ausência do desejo e a aspiração pela emancipação são fracas, haverá
apenas indicações de shama e das outras qualificações, tal como (ver) a água em uma imagem.

32 - Dentre os instrumentos de emancipação, o supremo é a devoção (bhakti). A
meditação sobre a verdadeira forma do Ser real diz-se ser devoção.

33 - Outros dizem que devoção é a meditação na natureza de nosso Átman. Aquele
que possui todas essas qualificações é o que está apto a conhecer a verdadeira natureza de Átman.

34 - Tal pessoa tem que se aproximar do Guru, através do qual a libertação da
escravidão é alcançada; alguém que seja sábio, bem versado nas Escrituras, sem pecados, livre do desejo e conhecedor da natureza de Brahman.

35 - Alguém que atingiu o repouso no Espírito, como uma chama que se extinguiu
quando o combustível foi consumido. Alguém cuja bondade não é influenciada por considerações pessoais, e que está ansioso por auxiliar àqueles que buscam ajuda. (12)

36 - Tendo obtido a orientação de um tal Preceptor através da devoção, da atitude
respeitosa e do serviço, o objeto de vossa busca deve ser-Lhe dirigido quando Ele não estiver de outra forma ocupado. (13)

37 - "Eu te saúdo, Oh Senhor, pleno de compaixão. Oh amigo daqueles que se curvam
diante de Ti. Eu caí no oceano do nascimento e renascimento. Salvai-me com o Teu olhar que nunca falha, que faz cair sobre nós a chuva de ambrosia da sinceridade e misericórdia."

38 - "Proteja da morte àquele que está aquecido pelo trovejante fogo selvagem da
mutável vida que é tão difícil de extinguir, aquele que está sofrendo as rajadas do infortúnio, pois não conheço outro refúgio".

39 - Os grandes Seres pacificados vivem regenerando o mundo como a primavera que
se aproxima e, tendo cruzado o oceano da existência corporificada, auxiliam aqueles que tentam fazer o mesmo, sem qualquer motivo pessoal".

40 - "Este desejo é espontâneo, pois a tendência natural das Grandes Almas é remover
o sofrimento dos outros, assim como os raios de ambrosia da Lua esfriam a Terra aquecida pelos fortes raios de Sol".

41 - "Oh Senhor, aspergi-me com as gotas da tua fresca água de compaixão, pois
estou aquecido pelo fogo da floresta do nascer e do renascer; gratifica meus ouvidos com as palavras de ambrosia, à medida que elas fluem do receptáculo da tua experiência, da felicidade procedente de Brahmajnana (conhecimento do Supremo), sagrado e reanimador. Felizes são aqueles que são vistos por Ti, mesmo que por um momento, pois eles se tornam em aptos receptores e são aceitos como discípulos".

42 - "Como cruzarei o oceano do nascimento e renascimento? Qual é o meu destino, o
que significa existir, Oh Senhor, eu não sei. Oh Senhor, bondosamente me protegei, aliviai as dores procedentes do nascer e renascer". (14)

43 - A Grande Alma, observando com os seus olhos umedecidos pela misericórdia o
buscador do refúgio que, aquecido pelo fogo da floresta do nascimento e renascimento, chama por Ele (15), instantaneamente lhe diz que nada tema.

44 - Aquele ser sábio misericordiosamente instrui na Verdade o discípulo que chega
até ele desejoso de emancipação, praticando os retos meios para a sua conquista, de mente tranquila e preenchida por shama.

45 - O Mestre diz:
Nada temas, homem sábio, não há perigo. Há um meio para se cruzar o oceano do nascimento e renascimento - aquele que os Yogis usaram. Eu te mostrarei qual é.

46 - Há um meio efetivo para a destruição do nascimento e renascimento, pelo qual,
cruzando o oceano da mutável vida (samsara), atingirás a suprema bem-aventurança.

47 - Um excelente conhecimento é alcançado pela compreensão da finalidade da
Vedanta. Com ele termina a grande miséria do nascimento e renascimento.

48 - As escrituras (16) demonstram diretamente que shraddha (fé), bhakti (devoção),
dhyana (meditação) e yoga (união) são as causas que trazem a emancipação da servidão da existência encarnada (a liberação das ligaduras do corpo, que são obra da magia de avidya).

49 - Devido à ignorância se produz uma conexão entre vós, que sois Paramatman, e
aquilo que é Atman, surgindo a roda da existência corporificada. A ignorância (avidya) é queimada até as raízes pelo fogo da sabedoria surgido do discernimento.

50 - O Discípulo diz:
"Oh Senhor, por misericórdia, ouça-me! Estou fazendo uma pergunta e, quando ouvir de tua própria boca, atingirei meu objetivo".

51 - "O que é a escravidão? Qual sua origem? Como ela é mantida? Como pode ser
removida? O que é o não-espírito? Qual é o Espírito Supremo? Como se pode discernir entre eles?"

52 - O Mestre responde:
Tu és feliz, obtivestes teu objetivo. Por ti tua família tem sido santificada, à medida que desejastes te tornar Brahman, libertando-te da escravidão imposta por avidya.

53 - Os filhos e outras pessoas podem saldar os débitos de seus pais, mas ninguém,
exceto o próprio indivíduo, pode libertar a si mesmo da escravidão.

54 - Os outros podem remover a dor (causada pelo peso) das cargas colocadas sobre a
cabeça, mas a dor (que surge) da fome e outras não podem ser removidas a não ser pela própria pessoa.

55 - Vemos que o doente somente se recupera se ele próprio utilizar os medicamentos
e uma dieta adequada, e não por esses atos executados por outros.

56 - A natureza da Realidade única tem de ser conhecida pela nossa percepção
espiritual e não através de um pandit (um erudito); a forma da Lua tem de ser conhecida através de nossos próprios olhos; como poderia ser conhecida através de outros meios?

57 - Quem a não ser Si mesmo (Átman) é capaz de remover a escravidão de avidya,
kama e karma (ignorância, paixão e ação) mesmo em um bilhão de kalpas?

58 - A libertação somente pode ser alcançada pela percepção direta da identidade do
indivíduo com o Ser Universal; e nunca pela yoga (hatha-yoga), nem pela Samkhya (filosofia especulativa), pela prática de cerimônias religiosas ou pelo mero conhecimento.

59 - A forma e a beleza de uma vina (instrumento de cordas da Índia) e a perícia ao
soar suas cordas são para o entretenimento das pessoas e não para o estabelecimento de um império.

60 - A boa pronúncia, domínio da linguagem, perícia, esclarecimento e o aprendizado
são mais para o deleite dos letrados e não para a obtenção da libertação (17).

61 - Se a suprema Verdade permanece desconhecida, o estudo das Escrituras é inútil;
quando a suprema Verdade é conhecida, o estudo das Escrituras é inútil (o estudo somente da letra é inútil, o Espírito tem de ser buscado pela intuição).

62 - Em um labirinto de palavras a mente se perde como um homem no meio de uma
espessa floresta; e, portanto, com grandes esforços, aquele que conhece a Verdade deve conhecê-La acerca de Si mesmo (da Real natureza do Ser).

63 - Qual a utilidade dos Vedas para quem foi picado pela serpente da ignorância?
Excetuando a medicina do supremo conhecimento, (de que servem) as Escrituras, encantamentos ou qualquer remédio? (18)

64 - Não se cura uma doença apenas pronunciando o nome do remédio sem tomá-lo;
a liberação não é alcançada sem a percepção direta, (nem) pela mera pronúncia da palavra Brahman.

65 - Sem dissolver o mundo dos objetos, sem conhecer a Verdade espiritual, onde está
a libertação eterna? As meras palavras externas não têm quaisquer resultados além de sua mera elocução.

66 - É impossível tornar-se um rei pela mera afirmação "eu sou um rei". É necessário a
conquista dos inimigos e o controle do tesouro de todo um país.

67 - Um tesouro oculto não aparece pela enunciação da palavra "apareça", pois tem de
haver uma informação confiável, escavação e remoção de pedras. De maneira similar, a Verdade pura que transcende a operação de maya (maya aqui significando a força da evolução) não é obtida sem a instrução dos conhecedores do Supremo, juntamente com a reflexão, meditação e assim por diante, e nem por inferências ilógicas.

68 - Portanto, os homens sábios devem se esforçar de todas as formas para se
libertarem dos grilhões da existência condicionada da mesma maneira que fazemos todos os esforços para nos curarmos das doenças.

69 - A excelente questão que propuserdes deve ser respondida por aqueles que estão
desejosos de liberação. Como uma sábia frase, está de acordo com as Escrituras, pois é breve e plena de significados.

70 - Ouça atentamente, Oh homem sábio, minha resposta, pois ouvindo serás
libertado da escravidão à existência condicionada (samsara).

71 - Diz-se que a causa principal da liberação é o completo desapego da mente dos
objetos transitórios. Em seguida, a aquisição de shama, dama, titiksha e a completa renúncia de todo karma (19) (atos religiosos e outros com a intenção de conquistar qualquer objeto do desejo pessoal).

72 - Então o sábio estudante (deve se devotar) diariamente, sem interrupções, ao
estudo das Escrituras, à reflexão e meditação nas verdades ali contidas. E, assim, tendo se libertado da ignorância, o homem sábio goza a bem-aventurança do Nirvana mesmo estando na Terra.

73 - O discernimento entre o Espírito e o não-espírito que precisas agora compreender
está sendo por mim relatado. Ouça atentamente e o realize em ti mesmo.

74/75 - O sábio chama a isso de corpo denso, que é a combinação de tutano, osso,
gordura, carne, sangue e sêmen e é constituído de pés, tronco, costas, cabeça, membros e órgãos. É ele a causa que dá nascimento à ignorância e à ilusão do "eu" e do "meu". Os elementos sutis são akasha, ar, fogo, água e terra (entendendo-se aqui os princípios mais elevados destes elementos). (20)

76 - Pela mistura de uns com os outros eles se tornam os elementos densos e as
causas do corpo denso. Suas funções são a produção dos cinco sentidos, e esses se destinam à experiência de quem os possui.

77 - Os seres iludidos, que estão presos a objetos mundanos pelos laços de um forte
desejo difícil de ser quebrado, são forçosamente arrastados pelo mensageiro (samskaras) - o seu próprio karma - para o céu (svarga), a Terra e o inferno (naraka).

78 - Atraídos de várias maneiras pelas qualidades dos cinco sentidos, o som e os
outros, cinco criaturas encontram sua morte. São elas: a gazela, o elefante, a mariposa, o peixe e a abelha negra. O que dizer então do homem que está preso conjuntamente por todos os sentidos?

79 - Quanto à virulência, os objetos dos sentidos são mais fatais do que o veneno da
serpente negra (naja tripudians). O veneno só mata aquele em quem é injetado, mas os objetos dos sentidos podem "matar" até pela sua própria aparência externa (literalmente: pela mera visão deles).

80 - Somente aquele que está livre da grande servidão dos desejos, tão difícil de
evitar, é capaz da liberação. Ninguém mais, mesmo que versado nos seis sistemas de filosofia.

81 - Aqueles que estão somente sentimentalmente desejosos de liberação e apenas
aparentemente livres da paixão, buscando cruzar o oceano da existência condicionada (samsara), são capturados pelo "tubarão" do desejo, seguros pelo pescoço e forçosamente tragados e afogados.

82 - Somente quem mata o "tubarão" do desejo com a espada do supremo
desapaixonamento atinge, sem obstáculo, o outro lado do oceano da existência condicionada.

83 - A mente daquele que trilha a áspera senda dos objetos sensoriais torna-se turva,
e a morte espera por ele a cada passo. Mas aquele que trilha a reta senda, sob instrução de um Guru, um bom homem que cuida de seu bem-estar espiritual, obterá por sua própria intuição a conquista do seu objetivo. Saiba que isso é verdade.

84 - Se o desejo pela liberação existe em ti, os objetos sensoriais têm de ser mantidos
a grande distância, como se fossem veneno. Deves constantemente, fervorosamente, buscar a alegria como se fosse ambrosia, bem como a bondade, o perdão, a sinceridade, a tranquilidade e o autocontrole.

85 - Mata a si mesmo quem atende somente as necessidades de seu próprio corpo,
nada fazendo de bom para os outros, constantemente evitando o seu próprio dever e não buscando a liberação da servidão causada pela ignorância.

86 - Quem vive somente para nutrir o próprio corpo é como alguém que atravessa um
rio montado num crocodilo pensando que seja um tronco de árvore.

87 - Para aquele que está desejoso da liberação, os desejos pertencentes ao corpo
levam à grande morte. Somente aquele que está livre desses desejos está apto a ganhar a liberação.

88 - Vence a grande morte: o desejo pelo corpo, esposa, filho e assim por diante.
Tendo-a vencido, os ascetas (muni) entram na suprema morada de Vishnu (ou seja, alcançam a união com o Logos que reside no seio de Parabrahman).

89 - Este corpo grosseiro que condenamos é feito de pele, carne, sangue, nervos,
gordura, tutano, ossos etc. e está repleto de impurezas.

90 - Este corpo grosseiro, produzido pelos cinco elementos densos - que por sua vez
originam-se do processo quíntuplo (de união dos elementos sutis) através do karma prévio - é o veículo dos gozos terrenos. É no estado de vigília desse corpo que são percebidos os objetos densos. (21)

91 - As diversas formas grosseiras são percebidas pelo ego corporificado através dos
órgãos externos, assim como são percebidos os buquês de flores, a madeira do sândalo, mulheres e tudo o mais. Assim é a percepção consciente do corpo no estado de vigília.

92 - Este corpo grosseiro do qual dependem todas as manifestações externas de
Purusha (Espírito) é como a casa em que moramos.

93 - O corpo grosseiro (denso) passa pelos estágios da infância, decadência e morte. O
corpo está sujeito a doenças, às condições da vida, honra, desgraça, adulação etc.

94 - A visão, audição, tato, olfato, paladar e intelecto são os chamados sentidos. Por
intermédio deles nos chegam as percepções dos objetos densos. É através dos órgãos de ação - a língua, as mãos, os pés, o corpo etc. - que os atos são executados.

95/96 - Manas, buddhi, ahamkrti e citta, com suas funções, são chamados
instrumentos internos (antahkarana). Manas pela razão de postular e duvidar; Buddhi devido à sua propriedade de chegar a um julgamento claro sobre os objetos; Ahamkrti surge do egoísmo ("eu"); Citta é assim chamado devido à sua propriedade de (relembrar) concentrar a mente em seu próprio interesse (22).

97 - A vitalidade (prana, o segundo princípio), como acontece com o ouro, a água etc.,
devido à diferença de suas funções e modificações torna-se prana, apana, vyana, udana e samana. (23)

98 - O corpo sutil é constituído: 1) das cinco faculdades começando com a fala; 2) dos
cinco órgãos começando pelo ouvido; 3) dos cinco ares vitais começando com prana; 4) dos cinco elementos começando com akasha; 5) de buddhi e o restante; 6) de avidya (ignorância); 7) kama (desejo) e 8) karma (ação) - (chamadas as oito "cidades").

99 - Ouça! Este corpo produzido de cinco elementos sutis é chamado sukshma, bem
como linga sharira. É o campo dos desejos (latentes) onde se experimentam as consequências do karma (experiência anterior); é ignorante (juntamente com o karana sharira), não tem princípio e é um upadhi (veículo) de Atman.

100 - A condição característica deste corpo é o estado de sonho; esse estado é
distinto de vigília em virtude da maneira peculiar pela qual os sentidos trabalham. No estado de sonho a mente revive a condição criada pelos desejos do estado de vigília. (24)

101 - Este corpo manifesta-se na condição de ator. Brilha nele o Ser Absoluto que tem
como veículo o intelecto (buddhi) e que não é afetado por qualquer karma, como se fosse uma testemunha independente. Por isso Atman (o sétimo princípio) é livre de toda a união, não sendo afetado pela ação de qualquer upadhi.

102 - Este linga sharira executa todas as ações como um instrumento de Atman,
assim como a talhadeira e outras ferramentas executam as ações do carpinteiro. Por essa razão Atman é livre de toda união. (...)

Notas
(1) Editado pela Editora Pensamento (São Paulo, SP). Voltar.

(2) Editado pela Editora Pensamento (São Paulo, SP). Voltar. (3) Atman ou Atma. (N.E.). Voltar. (4) Em outras traduções: "Eu me prosto ante Govinda, cuja natureza é suprema bemaventurança. Ele é Sadguru (Instrutor supremamente qualificado), a quem só se pode conhecer quando se realiza por completo a essência da Vedanta, e que está além do alcance da fala e da mente". (N.E). Voltar. (5) Em outras traduções: "As ações (não-egoístas) conduzem à purificação da mente, mas não é a percepção da Realidade. A descoberta da Verdade é obtida pelo discernimento e nunca através de milhões de ações (karma)." (N.E.). Voltar. (6) Em outras traduções: "A convicção sobre a Verdade pode ser obtida através do raciocínio sobre os saudáveis conselhos de um sábio...". (N.E.). Voltar. (7) Ver aforismos de nº 19 a 28. (N.E). Voltar. (8) Em outras traduções, aforismo nº 19. (N.E.) Voltar. (9) Em outras traduções, final do aforismo nº 22. (N.E.) Voltar. (10) Em outras traduções, o aforismo nº 25 corresponde ao nº 24. (N.E). Voltar. (11) Em outras traduções este aforismo é o nº 28: "Ainda que adormecida ou débil, esta aspiração pela libertação, através da graça do Guru, pode vir a render frutos, (sendo desenvolvida por meio de vairagya, shama, etc." (N.E.) Voltar. (12) Em outras traduções este aforismo ainda faz parte do aforismo nº 33. (N.E.). Voltar. (13) A partir deste trecho há uma diferença na numeração dos aforismos. O aforismo nº 36 desta tradução inglesa é o aforismo nº 34 de outras versões: "Venerando este Guru com devoção, o discípulo deve aproximar-se dele, e tendo-o atendido com sua prostração, humildade e serviço, deve pedir-Lhe que explique tudo o que deve ser conhecido." (N.E.). Voltar. (14) Em outras traduções, o final do aforismo nº 40, correspondendo a este, é: "Salvame, Oh Senhor, e ensina-me detalhadamente como pôr fim à miséria desta existência relativa". (N.E.). Voltar. (15) Refere-se ao Mahatma, a Grande Alma. (N.E.). Voltar. (16) Referência ao Kaivalya Upanishad, I, 2. (N.E.). Voltar.

(17) Em outras traduções, aforismo nº 58: "Falar com desenvoltura, a habilidade em expor ou comentar os Shastras, e também a erudição - estes meramente produzem uma pequena satisfação pessoal para o estudioso, mas são completamente insuficientes para libertá-lo". (N.E.). Voltar. (18) Em outras traduções, aforismo nº 61: "Para aquele que foi picado pela serpente da ignorância, o único remédio é o conhecimento de Brahman. De que servem os Vedas e outras Escrituras, os mantras e a medicina para a vítima deste veneno?" (N. E.). Voltar. (19) Em outras traduções: "a completa renúncia de todas as ações egoístas". (N.E.). Voltar. (20) Em outras traduções, aforismos nº 72/73: "Composto de sete ingredientes medula, ossos, gordura, carne, sangue, derme e epiderme - e consistindo dos seguintes membros e suas partes: pernas, quadris, tórax, braços, costas e cabeça; este corpo, o domicílio da ilusão expressa nos temos "eu" e "meu", é designado pelos sábios como corpo grosseiro. O éter, ar, fogo, água e terra são os elementos sutis". (N. E.). Voltar. (21) Vide aforismos nºs 75 e 76, e também o Mandukya Upanishad. (N.E.) Voltar. (22) Na Vedanta, a mente como órgão interno (antahkarana), em seu aspecto global, é constituída por várias funções e, conforme sejam elas, a mente é denominada: buddhi, manas, citta ou ahamkara (ahamkrti). Buddhi é a Inteligência, Intelecto puro, a luz de consciência que ilumina as imagens mentais, a função determinante da verdade de algo. (N.E.). Voltar. (23) Prana (respiração), apana (retenção), vyana (circulação), udana (procriação) e samana (digestão). Vide Prasna Upanishad III. (N.E.). Voltar. (24) Em outras traduções, aforismos nº 98/99: "Sonho é um estado distinto do de vigília, no qual o ser brilha por si mesmo. No sonho, buddhi assume de agente e de objeto, decorrentes das várias impressões acumuladas no estado de vigília, enquanto o supremo Átman brilha em sua própria glória, tendo buddhi como seu único véu. Átman é testemunha de tudo e não é contaminado pelas atividades de buddhi. Assim, Átman é inteiramente independente e não é atingido por nenhuma ação que possa ser executada por seus envoltórios condicionantes".

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