A fome no mundo, um desafio para todos

Kevin Carter – Prémio Pulitzer 1994

Em 27 de Julho de 1994 Kevin Cartner de 33 anos de idade suicidou-se. Partes da nota de suicídio de Carter diziam: “ Estou depressivo... sem telefone... dinheiro para alugar... dinheiro para ajudar as crianças... dinheiro para dívidas... dinheiro!!!... Estou assombrado por memórias de assassinatos e cadáveres, raiva e dor... de crianças esfomeadas ou feridas, de loucos gratuitos, muitas vezes polícia, de executores de assassinos....”

Ana Isabel Sousa

A fome no mundo, um desafio para todos

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ISVOUGA – LMPRP - Marketing, Publicidade e Relações Públicas, Técnicas de Expressão

produtivos e comerciais. «Não será fácil avançar. pela Declaração universal dos direitos do homem 1. Declaração sobre o Progresso e o Desenvolvimento no campo social. de 10 de Dezembro de 1948. no caminho da indispensável transformação das estruturas da vida económica. Declaração Universal dos Direitos do Homem. neste difícil caminho. n. 1993..Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e OMS (Organisation Mondiale pour la Santé . Espero ainda colaborar na tomada de consciência da justiça distributiva e da solidariedade humana. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. proclamada pela Assembleia geral da Organização das Nações Unidas na sua resolução n.Espero com este trabalho analisar e descrever algumas das causas e as consequências do fenómeno da fome e contribuir para o empenho de todos nós em partilhar as dificuldades e carências das 25 mil pessoas que morrem de fome por dia em todo o mundo. quer para fazer face aos desafios urgentes e às exigências éticas do presente. Atlas des produits alimentaires et de l'agriculture .Organização Mundial para a Saúde). tais estruturas dão azo a que se estendam incessantemente as zonas de miséria e. dilapidando. 2 ONU. o suficiente para corresponder às suas necessidades energéticas. graças a relações humanas cada vez mais solidárias. n. A tarefa exige a aplicação decidida de homens e de povos livres e solidários». a Declaração universal para a eliminação definitiva da fome e da subnutrição.542 (XXIV). art. 6 Cf. os recursos materiais e energéticos e comprometendo o ambiente geofísico. 2. 1992.». regem a economia mundial: eles demonstram-se como que incapazes quer para reabsorver as situações sociais injustas. das vontades e dos corações. Declaração mundial sobre a nutrição. Agriculture: Horizon 2010. porém. Carta Encíclica Redemptor hominis [1979]. são os canais de distribuição e os rendimentos dos casais que determinam o acesso aos produtos alimentares». um desafio para todos 2 ISVOUGA – LMPRP . Da mesma forma. também FAO.1. adoptada em 1974. Roma. Submetendo o homem às tensões por ele mesmo criadas. 5 Cf. 1. junto com esta. 16 de Novembro de 1974. Publicidade e Relações Públicas. Roma. a alimentação não é produzida nem distribuída de maneira equitativa. a frustração e a amargura. Técnicas de Expressão . 1. 217 A (III). apoiando-se em diversas pressões políticas. n. pág. declara que cada pessoa «tem o direito inalienável 1 1Cf. 25. herdadas do passado. monetários. ibidem. Roma. de 11 de Dezembro de 1969. 16) O direito à alimentação é um dos princípios proclamados em 1948. em 1969. 16: «O planeta poderia perfeitamente oferecer a cada um dos seus habitantes a porção alimentar média de cerca de 2. art. que é necessário «eliminar a fome e a subnutrição e tutelar o direito à uma nutrição adequada»2 . com um ritmo acelerado. 1995. Roma.Marketing. Cf. adoptada e proclamada pela Assembleia geral da Organização das Nações Unidas na sua resolução n. L'ampleur des besoins. UM DESAFIO PARA TODOS: O DESENVOLVIMENTO SOLIDÁRIO «A amplitude do fenómeno põe em questão as estruturas e os mecanismos financeiros. Conferência Internacional sobre a Nutrição. II. Relatório final da Conferência. A FOME NO MUNDO. em última análise. (JOÃO PAULO II. Todavia. 1. FAO. pág. ONU (Organização das Nações Unidas). 4 FAO (Food and Agriculture Organization .700 calorias por pessoa/dia. no sentido de conseguir uma melhoria decisiva no combate à fome. C 93/24. 3 ONU. Conferência Mundial sobre a Alimentação. ou seja. a angústia. que. 10 b. n. 1. Este apelo diz respeito a todos. A Declaração sobre o progresso e o desenvolvimento no campo social afirmava. Determinados países produzem mais que outros e. se não intervier uma verdadeira conversão das mentes. Doc..

No passado. a hostilidade em relação aos mais frágeis: em particular as crianças e os idosos. Camboja. há cada vez mais de indivíduos atingidos pelos flagelos da fome e da subnutrição ou pelas consequências da insegurança alimentar. Basta citarmos algumas regiões ou países para nos convencermos disto: Etiópia. a apatia. a nível mundial. Assim. com efeito. tem a possibilidade de fazer face às misérias. Uma carência grave e prolongada de alimentação provoca a debilitação do organismo. tais situações constituem uma verdadeira desonra para a humanidade.. Hoje elas são mais circunscritas mas. 1990. por vezes. na maioria das vezes. no entanto. mulheres grávidas ou em período de amamentação. É uma questão de solidariedade vivida e de autêntico desenvolvimento. Numa população pobre. sem dúvida. grupos inteiros são condenados a morrer na desgraça. Ruanda. as primeiras vítimas são sempre os indivíduos mais frágeis: crianças.Marketing.ou seja. as misérias que dizimavam populações inteiras tinham. a Declaração mundial sobre a nutrição reconheceu também que «o acesso a alimentos apropriados.  Os pobres são as primeiras vítimas da subnutrição e da fome no mundo. Publicidade e Relações Públicas. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. Declaração mundial sobre a nutrição. a fim de se desenvolver plenamente e de conservar as suas faculdades físicas e mentais»3. Paris. reconhece-se que os recursos da terra considerados em conjunto podem nutrir todos os seus habitantes5. O desafio que toda a humanidade enfrenta hoje em dia é. Em 1992. Relatório final da Conferência. na sua maior parte uma origem natural. «Cerca de 780 milhões de habitantes de países em vias de desenvolvimento . Haiti. o máximo da penúria alimentar encontra-se nos quarenta e dois países menos avançados (PMA). Ser pobre significa ser mais facilmente atingido pelos inumeráveis perigos que ameaçam a sobrevivência e ter menor resistência às enfermidades físicas. Contudo. Conferência Internacional sobre a Nutrição. 1992. 2. 20% da sua população . 8 FAO e OMS. derivam da acção humana. As realidades da fome  A fome ameaça não só a vida das pessoas. este fenómeno agrava-se e ameaça um número cada vez maior de pessoas em todo o mundo.2 2 7 Cf. sob o ponto de vista nutricional. mas também a sua dignidade. Desde os anos 80. Nesta época em que o homem. ex-Jugoslávia. Documento preparatório da CNUCED (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desenvolvimento) para a segunda Conferência da Organização das Nações Unidas sobre os Países Menos Avançados.de ser libertado da fome e da subnutrição. Os indicadores são muitos claros. vinte e oito dos quais em África7. Há que referir ainda outros grupos humanos a alto risco: as pessoas refugiadas ou deslocadas e as vítimas de adversidades políticas. bem como de progresso material. a indiferença e. aumentaram cerca de 18% no decurso dos últimos anos 6. Técnicas de Expressão . n. a perda do sentido social. Será por escassez de alimentos? De maneira nenhuma: em geral. Roma. de ordem económica e técnica.nem sempre dispõem dos meios para aceder diariamente à porção alimentar indispensável para o seu bem-estar nutritivo»8. mais que outrora. doentes e pessoas idosas. mas mais ainda de ordem ética e política. e sem perigo constitui um direito universal»4.. um desafio para todos 3 ISVOUGA – LMPRP . os alimentos disponíveis por habitante.

Marketing. Técnicas de Expressão . lado a lado com pessoas que vivem na abundância. em benefício exclusivo de pessoas ou de grupos. do poder e da imagem pública. 2. Entretanto. Publicidade e Relações Públicas. a posição social e familiar da mulher. da pobreza. tanto do Oeste como do Leste. um desafio para todos 4 ISVOUGA – LMPRP . o nível de vida nos países com dívidas demasiado elevadas começava a diminuir. a carência de formação nas técnicas da nutrição. destruição brutal de economias tradicionais e aumento da corrupção em todos os países. disponibilizou grandes quantias de dinheiro. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. podem dar origem à subnutrição e à miséria. CAUSAS SÓCIO-CULTURAIS As realidades sociais Alguns factores sócio-culturais aumentam os perigos da fome e da subnutrição crónica. sem esquecer o importante grau de corrupção.1. de que nenhum país se pode afirmar isento. juntos. que afectou de modo particular os países pobres. estrutural e moral. por exemplo) c) Comportamentos éticos lamentáveis : busca egoísta do dinheiro. que o sistema bancário procurou reciclar. demasiado próximos. por vezes desordenados. A segurança alimentar das pessoas depende essencialmente do seu poder de compra. O aumento vertiginoso das taxas de juros colocou a maioria dos países da América Latina e da África em situação de interrupção dos pagamentos. a todos os níveis: económico. os partos precoces e. de maneira indirecta. mas profundamente todos os que carecem de recursos económicos. antes de mais. às vezes. as políticas injustas dos países desenvolvidos atingem. A dívida dos países com desenvolvimento desequilibrado O brusco aumento dos preços do petróleo. em todos os países. e causou também uma crise económica geral. a perda do sentido de serviço à comunidade. o analfabetismo generalizado. A fome pode resultar ao mesmo tempo: a) Políticas económicas inadequadas. mal concebidos ou mal realizados. Por múltiplas razões. Esse período de dinheiro fácil deu origem a múltiplos excessos: projectos inúteis. Esta situação acontece também nos países desenvolvidos: os mesmos factores provocam a subnutrição ocasional ou crónica a numerosos «novos pobres». atingiu profundamente os países não produtores. sob as mais diversas formas. Os tabus alimentares. a maioria dos países pôde contrair consideráveis empréstimos a juros variáveis. A fome existe em todos os países: voltou a aparecer nos países europeus. o que provocou fenómenos de fuga de capital e verificou-se assim um amplo deterioramento da situação. CAUSAS ECONÓMICAS A fome deriva. e não da disponibilidade física de alimentos. e está muito difundida nos países pouco avançados ou subdesenvolvidos. b) Estruturas e costumes pouco eficazes e que contribuem mesmo para destruir a riqueza dos países (as restrições ao comércio e os incentivos económicos. e a precariedade do emprego ou do trabalho constituem outros factores que. em 1973 e em 1979.

continuam a enfrentar dificuldades alimentares: os motivos são os desequilíbrios impostos pelos Estados. sem exigir desmedidos trabalhos de irrigação. como arma política ou militar. cujo resultado foi de cerca de oito milhões de mortos. No entanto a Declaração mundial sobre a nutrição. idade ou pertença a um grupo étnico. posição geográfica. empenhando-se em diminuir a pobreza de massa. este de si extremamente deficiente. como o de Cuba ou do Iraque. Inclusive as situações de embargo por razões políticas. nos deltas e vales superpovoados da Ásia foram aplicadas as inovações agrícolas da chamada «revolução verde». No entanto excluindo os casos extremos.Marketing. um desafio para todos 5 ISVOUGA – LMPRP . Hoje em dia considera-se que existem maiores possibilidades de reduzir um excessivo crescimento demográfico.A influência da política A privação de alimentos. A diferença dos níveis de vida não gera apenas situações Ana Isabel Sousa A fome no mundo. ao longo da história. Técnicas de Expressão . foi recentemente confirmado. em 1930. d) a privação de alimentos aplicada como arma contra a secessão política nos anos 70. Se por um lado. para alcançar o controle político por parte do partido único de governo. O balanço foi de centenas de milhares de mortos. como por exemplo: a) a privação sistemática de alimentos aos camponeses ucranianos. destas decisões. Publicidade e Relações Públicas. em particular o de Sarajevo. no Biafra. Tratando-se de verdadeiros crimes contra a humanidade e o século XX foi fértil no número de casos. sexo. para obrigar a Comunidade internacional a restabelecer os seus fornecimentos. em virtude da carestia provocada pelas migrações forçadas e pelo abandono da agricultura. 3.2. tribal ou religioso». por ocasião da abertura dos arquivos do Kremlim. as desigualdades são superiores aos existentes nos países desenvolvidos ou ainda entre os próprios países.1. a política e a gestão económica. sempre foi utilizada. embora pudessem alimentar uma população vinte vezes mais numerosa. por outro. CAUSAS POLÍTICAS 3. e não as causas objectivas ou a pobreza económica.A concentração dos meios Nos países com desenvolvimento desequilibrado. alguns responsáveis exploram as misérias do próprio povo. quando se tomou como refém o próprio mecanismo de assistência humanitária. afirma: «A ajuda alimentar não pode ser rejeitada por motivos de obediência política. b) os recentes assédios na Bósnia. É por isso que há que tomar em consideração o preço. A riqueza e o poder encontram-se demasiado concentrados numa camada limitada ligada à esfera internacional que controla o aparelho do Estado. Por outro lado. c) os deslocamentos das populações na Etiópia. Este crime. por longo tempo desconhecido ou quase. em termos humanitários.A demografia e as suas implicações Coloca-se a questão do crescimento demográfico demasiado rápido constituir uma causa ou uma consequência do subdesenvolvimento. os países pouco povoados como o Zaire ou o Zâmbia. a densidade demográfica não justifica a fome. as primeiras vítimas deste género de actos são populações que deles são objecto. 3. em vez de vencer a pobreza contentando-se em diminuir as taxas de aumento demográfico. por obra de Estaline.

de conflito e violência. um desafio para todos 6 ISVOUGA – LMPRP . como também paralisa as iniciativas económicas e limita as motivações altruístas que existem em todas as sociedades tradicionais. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. Técnicas de Expressão . Publicidade e Relações Públicas.Marketing.

se tornassem pela primeira vez importadores. Técnicas de Expressão .que protege os responsáveis contra a apropriação do seu próprio poder (que. os agricultores. A todos os níveis e em cada país. Nos países sem esta protecção.3. A porção de calorias por habitante aumentou cerca de 20% entre 1965 e 1985». dando origem a uma forte diminuição das produções. e que há-de permitirá a cada homem não ser excluído do corpo social e económico. na realidade. nem privado da sua dignidade fundamental. existem alimentos suficientes para todos». as quais não são equitativas».  Só um desenvolvimento equilibrado. Esta situação generalizou-se em África. uma prática competente e permanente da subsidiariedade . Ana Isabel Sousa A fome no mundo. um desafio para todos 7 ISVOUGA – LMPRP . A produção total de produtos alimentares no mundo duplicou e. poderá revelar-se autêntico e contribuir.As desestruturações económicas e sociais As desestruturações económicas e sociais resultam não só de políticas económicas inadequadas como também das consequências de pressões políticas nacionais e internacionais. a) as políticas nacionais que abaixam artificialmente os preços agrícolas em prejuízo dos produtores locais de alimentos. «no mundo inteiro. Grandes desenvolvimentos Apesar de tudo isto existem progressos fabulosos que não podem ser esquecidos: a população mundial passou de 3 bilhões de habitantes em 1960 para 5. A busca do bem comum é o ponto de convergência em que se concentram:    a busca da maior eficácia na gestão dos bens. como o Zaire e o Zâmbia.. a sessenta e dois anos em 1987.Marketing. que protegem enormemente a sua própria agricultura..3. O facto de a miséria persistir apesar disto demonstra que: «O principal problema concerne as condições de acesso a tais alimentos. que impede a apropriação dos meios financeiros por parte dos ricos. em 1960. inúmeras pessoas trabalham habitual e discretamente. para a estabilidade social. Publicidade e Relações Públicas. acelerando a ruína da agricultura e o êxodo para as cidades. é um poder de servir). tendo em conta o legítimo interesse dos seus semelhantes.3 biliões em 1990. até mesmo a longo prazo. enquanto dois terços de bebés com menos de um ano são vacinados contra as principais doenças infantis. 1. Nos países em vias de desenvolvimento. visando o bem comum. um maior respeito pela justiça social consentida pela destinação universal dos bens. «a esperança de vida à nascença passou de quarenta e seis anos. no decurso dos anos 19751985 dando origem a que países com grandes potencialidades agrícolas. o exercício da solidariedade. favorecendo a produção de excedentes que se exportam a preços inferiores aos preços internos (dumping). mas de soluções justas. A fome não é uma questão de disponibilidade. b) a política da maioria dos países industrializados. Dimensão ética do fenómeno Os princípios para a acção contra a fome. ficam penalizados pelas importações a preços reduzidos que prejudicam o preço dos produtos locais. A taxa de mortalidade de crianças com menos de cinco anos diminuiu cinquenta por cento.

Ana Isabel Sousa A fome no mundo.Marketing. um desafio para todos 8 ISVOUGA – LMPRP .«Como julgaria a História uma geração que tem todos os meios para alimentar a população do planeta e que se recusa a fazê-lo. A solidariedade é. Técnicas de Expressão . Publicidade e Relações Públicas. num a cegueira fratricida?». uma exigência para todos. sem dúvida.

Marketing. os solos e as florestas são postos em perigo devido à poluição. Neste contexto. em toda a parte. representam cerca de cinco por cento do total dos rendimentos mundiais». um número crescente de pessoas e de grupos escolhem participar. a miséria ou a humilhação. 3. um desafio para todos 9 ISVOUGA – LMPRP . Recordemos apenas a Campanha mundial contra a fome e outras iniciativas. da liberdade sobre a tirania. avaliadas em um trilhão [mil biliões] de dólares [por ano]. mas dum equilíbrio dos direitos. não basta impedir a guerra e os conflitos. dos poderes públicos e das Organizações internacionais. 4.. A paz é o resultado da vitória da justiça sobre os privilégios injustos. a democracia e o desarmamento são duas exigências da paz. o total mundial das despesas militares atingiu um nível sem precedentes em tempos de paz. 5. Técnicas de Expressão . «Nos anos 80. O progresso dos pobres é uma grande ocasião para o crescimento moral. mas como a reintegração na própria comunidade que. ou favorecendo políticas de exploração acelerada. O dever de dar a cada um o mesmo direito de acesso ao mínimo indispensável para viver é não só justificado como obrigação moral de compartilhar com os desfavorecidos. tendo em vista reequilibrar o peso da dívida. Papa João Paulo II diz. em acções comunitárias e têm sido empreendidos numerosos esforços a nível das pessoas.como um fardo e como inoportunos maçadores. na sua Carta Encíclica Centesimus annus. abatimento de árvores e arbustos para lenha de cozinha e até mesmo para o aquecimento. A paz. O respeito do meio ambiente A agricultura revela-se tanto mais poluidora (utilização maciça de adubos.2. Para se obter uma paz verdadeira e uma segurança internacional efectiva. à desertificação provocada e ao desflorestamento. um equilíbrio dos direitos Uma paz duradoura não é o fruto dum equilíbrio das forças. com a finalidade de vencer a fome.. das Organizações não-governamentais. o ar. sobretudo será necessário abandonar a mentalidade que considera os pobres pessoas e povos . pesticidas e máquinas) quando atinge a fase industrial. Nas regiões mais pobres. que pretendem consumir tudo o que os outros produziram. a desertificação é provocada por práticas de sobrevivência que aumentam a pobreza: pastagens excessivas. numa perspectiva de a justiça social garante a união social e a coexistência pacífica das nações.. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. da verdade sobre a mentira e do desenvolvimento sobre a fome. Em cinquenta anos. destruiu-se metade das florestas tropicais na maioria das vezes visando a busca de terras. Iniciativas comunitárias Perante a miséria. o que já é notável. Uma sociedade integrada «. a água. mas também o seu desenvolvimento comum. ao consumo exagerado. As sociedades não podem construir-se legitimamente sobre a exclusão de alguns dos seus membros. Publicidade e Relações Públicas.. Juntamente com outros elementos necessários à vida. cultural e até económico da humanidade inteira». é necessário também favorecer o desenvolvimento e criar as condições susceptíveis de salvaguardar plenamente os direitos fundamentais do homem. sem que a este nível se tenha posto em prática a capacidade de trabalhar de modo adequado.

Cabe-lhes. Os povos devem «sentir. A integridade e o sentido social É imprescindível motivar o conjunto dos agentes sociais e económicos para políticas de desenvolvimento que tenham como propósito garantir a todos igual oportunidade de viver na dignidade. abriram o caminho. um desafio para todos 10 ISVOUGA – LMPRP . Publicidade e Relações Públicas. uma vez que torna-se obstáculo à realização das reformas tão necessárias para a justiça e o bem de todos. com a finalidade de erradicar a fome do mundo. sob o ponto de vista económico. nem reformas difíceis a empreender no próprio território. Todas as pessoas. apoiar vigorosamente a acção das instituições internacionais.Marketing. que são eles que desempenham o papel preponderante e sobre quem recai a principal responsabilidade». Técnicas de Expressão . existe a tentação de fazer passar para um segundo plano os pobres. étnica ou política são fenómenos difundidos e são de domínio público e apesar de frequentemente denunciados. Estas ONG organizaram instrumentos de concertação e de apoio muito diversificados. para melhorar a sua situação no que se refere à fome e à subnutrição. Por conseguinte. Nos países ricos não faltam pobres. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. se aproveita de tal poder social para obter vantagens pessoais. a fim de tomarem em consideração nas suas decisões e acções os interesses destes. dos países com desenvolvimento desequilibrado. do desperdício ou da apropriação dos recursos. nesse desenvolvimento económico e social. mas antes aplicarem as reformas necessárias. E isto torna-se impossível se as pessoas responsáveis não demonstrarem claramente integridade e preocupação genuína pelo bem comum. social. devem deixar-se constantemente interrogar pela miséria dos mais desamparados. desta forma. nem sempre os responsáveis são punidos ou até levados a cessar tais actividades. O custo que representa para o planeta é muitíssimo superior à quantia total das somas desviadas. pelo contrário. contribuindo com os esforços e sacrifícios necessários. que finalmente favoreçam um determinado impulso económico. A corrupção constitui um gravíssimo abuso da confiança concedida pela sociedade a uma pessoa mandatária para a representar e que.As Organizações não-governamentais (ONG) de desenvolvimento. sob o ponto de vista económico. Os responsáveis dos países em vias de desenvolvimento não devem. um elevado número de pessoas dentre as mais desprovidas pode finalmente sair da própria miséria. criadas a partir de iniciativas locais. A vontade política dos países industrializados Os poderes públicos dos países globalmente ricos devem agir sobre a opinião pública para a sensibilizar perante a situação dos pobres. favoreceram a constituição duma nova sociedade civil popular em vários países em vias de desenvolvimento. por sua vez. A fuga de capitais. onde quer que vivam. em proveito duma minoria familiar. de igual modo. sobretudo as que dispõem de meios económicos e autoridade política. 6. a fim de as ajudar a tomar iniciativas imediatas e perseverantes. mesmo quando essas assumem notáveis proporções. contar com uma reforma internacional incerta. Propostas Acção Global Os países mais ricos têm uma responsabilidade de primeiro plano na reforma da economia mundial. Graças aos dinamismos populares que.

Compete aos países importadores acabar com as barreiras. eximir-se do nível dos preços derivantes do funcionamento cego dos mercados. O papel da pesquisa e da educação Ana Isabel Sousa A fome no mundo. quando realizada em certas condições. Prioridade à produção local A importância primordial da agricultura em todos os processos de desenvolvimento é reconhecida. por pouco numerosos e independentes que eles possam ser uns dos outros. a independência económica e política. é preciso garantir que estes não constituam o objecto de tentativas de manipulação. além de infra-estruturas suficientes e das capacidades locais de distribuição. tem um carácter indiscutivelmente humanitário. Isto exige a criação dum ambiente económico e social fundamentado sobre um melhor conhecimento e uma melhor gestão dos mercados agrícolas locais. Publicidade e Relações Públicas. um desafio para todos 11 ISVOUGA – LMPRP . Não é possível. um desenvolvimento do crédito rural e da formação técnica. deveriam ser constituídas. uma garantia dos preços locais remuneradores. Trata-se de tarefas que requerem ao mesmo tempo competência e vontade humanas. enquanto se permitir que as condições de pobreza extrema persistam e se tornem cada vez mais precárias. na medida do possível. teriam muito a ganhar com a elaboração de sistemas agrícolas. uma organização dos próprios camponeses e a defesa colectiva dos seus interesses.Estabelecer equitativamente os termos do intercâmbio O funcionamento dos mercados que favorece o desenvolvimento requer. por motivos políticos ou humanitários. condições estas que levam ao aumento da mortalidade causada pela subalimentação e pela fome». de igual modo. Com efeito. pode servir também como um incentivo para o desenvolvimento e. que são obstáculo a eventuais importações vindos de países em que uma porção importante da população tem fome. um aperfeiçoamento dos circuitos de transformação e de comercialização dos produtos locais. que vão para além da capacidade de decisão dos participantes. abertos sem dúvida para o exterior mas que todavia privilegiem o seu desenvolvimento interior.Marketing. um acordo concreto entre os países em vias de desenvolvimento. este género de assistência não poderá oferecer «uma solução satisfatória. é uma notável acção de solidariedade internacional. por definição. Entretanto. os socorros devem ser acompanhados de projectos informativos contra futuras penúrias alimentares. Técnicas de Expressão . os países importadores devem certificar-se que os benefícios locais de tais operações comerciais são reservados em grande parte às pessoas mais desamparadas. Qualquer que seja a evolução da conjuntura comercial internacional. mas também a alimentação nos países em vias de desenvolvimento. Por isso. contudo. uma sábia regulamentação. Superar o problema da dívida Aumentar a ajuda pública ao desenvolvimento A ajuda alimentar de urgência tem a nobre finalidade de permitir a uma determinada população sobreviver numa situação de crise. As ajudas poderiam ser limitadas no tempo e muito mais orientadas para as populações realmente carecidas do ponto de vista alimentar. deve ser temporária. A ajuda urgente deve contribuir fundamentalmente para libertar as populações da sua dependência. A ajuda urgente. ele possui as suas próprias leis. por produtos locais.

que é preciso persegui-los de forma conjunta para a obtenção de resultados duradouros. Publicidade e Relações Públicas. um desenvolvimento autêntico em cada país: é preciso atribuir uma importância primordial a tal educação e a dicotomia entre educação e desenvolvimento. mediante uma acção de maior impulso em favor do desenvolvimento. existem projectos que favorecem novas iniciativas locais autónomas. De igual modo. Se a segunda é evidente. Contudo. o fatalismo. Conseguem chamar a atenção para as situações desesperadas. e através da criação de instituições de resposta à privação. a sociedade portuguesa exibiu considerável preocupação pelo pobre. dois objectivos interdependentes e ligados entre si. sobretudo pelas mudanças sociais que implica. praticamente desde a fundação da nação. por um lado. da subnutrição e da pobreza. os dois aspectos são indissociáveis: é fundamental e primordial a sensibilização de todos para as realidades e as causas do subdesenvolvimento. no caso que se nos refere). todos temos de interrogar-nos sobre o que fazem e sobre o que poderiam fazer. a par do que se faça em matéria de projectos.   Os Organismos Internacionais: Associações e Organizações Internacionais Católicas (OIC). Serão necessários:  o contributo da ciência: As pesquisas no campo biotecnológico. esta luta contra a fome. ao longo dos anos. a sensibilização dos indivíduos e dos povos: pais. um desafio para todos 12 ISVOUGA – LMPRP . é necessária uma ampla campanha de esclarecimento e de promoção da justiça social e de solidariedade. a primeira é frequentemente pouco conhecida. Estes últimos têm um papel capital no progresso da consciência da humanidade. Por sua vez. na medida em que a atribui a factores tais como a sorte. dos cuidados à saúde ou do fornecimento de energia. as ciências humanas. A POBREZA EM PORTUGAL A percepção da pobreza pela sociedade portuguesa A percepção da pobreza pela sociedade portuguesa revela que a maioria dos portugueses tem uma compreensão pouco científica das causas da pobreza. por exemplo. a inevitabilidade. tendo em vista ajudar a corrigi-los. a tomada de consciência dum maior número de pessoas. A maioria deles levou a cabo. em atitudes dos poderes públicos. e mass media. a indispensável contribuição de fundos privados e. Sabendo-se que uma acção eficaz contra a pobreza. mobilizando fundos privados e públicos e organizando assistências locais.Marketing. Foi em gestos individuais. da sociedade. programas. Entre as suas conquistas mais notáveis. ou projectos que têm como finalidade revigorar as instituições e as colectividades locais. podem contribuir para o melhoramento da segurança alimentar mundial. educadores. Dela depende directamente. podem pôr em melhor evidência os desequilíbrios dos sistemas locais e as consequências nefastas que geram. requer aceitação ou pelo menos o consentimento. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. Organizações Não-Governamentais (ONG) e suas redes Estes Organismos são conhecidos pelo seu dinamismo: deram prova da própria capacidade na promoção do desenvolvimento integral dos pobres e na resolução de situações urgentes (fome e carestia. Desde muito cedo. planos e políticas. elas podem contribuir para a definição e a actuação local de novos itinerários para a solidariedade entre os povos. Técnicas de Expressão .Para enfrentar um desafio tão desmedido como o da fome. responsáveis políticos. A missão dos Organismos Internacionais é dupla: sensibilização e acção. ou faltas imputáveis aos pobres. para uma melhor leitura e uma interpretação mais justa da organização social. por outro lado.

ou seja. que podemos qualificar de “pré-cientificas”. A “cultura consumista” legitima a prioridade atribuída à prossecução das preferências próprias atingindo a noção de justiça. A pobreza é olhada como um elemento “normal” da sociedade. Daí que o combate à fraude dos pobres pareça preocupar alguns sectores mais do que o combate à pobreza. Quatro razões principais parecem explicar esta mudança: 1.Em 1937. «Se tivermos em conta que a taxa de pobreza anual mais corrente é de cerca de 20%. 2. em relação à pobreza. no sentido do progressivo afastamento de qualquer forma de compromisso ou sentido de dever para com os pobres. o enfraquecimento do sentido da responsabilidade individual de cada cidadão e de cada cidadã. escreveu Fernando Maia que “… o sentimento do dever moral de solidariedade humana com o necessitado.Marketing. É conhecida a consciência que se tem da pobreza desde os finais dos anos 50. E mais recentemente. O facto de que. Este elemento cultural extremamente influente pode modificar a atitude do público em relação à pobreza. Verdadeira dimensão da pobreza em Portugal Ana Isabel Sousa A fome no mundo. escreveu Frazão o seguinte: “O sentimento do bem e do amor pelos infelizes é apanágio da alma portuguesa. a sociedade portuguesa desenvolveu uma cultura básica do Estado de Bem-Estar. este valor é o mais elevado dos 27 países da União Europeia. um desafio para todos 13 ISVOUGA – LMPRP . para com a pobreza. parece vir a sofrer alguma mudança. Segundo dados do Eurobarometro. A persistência da pobreza parece ter criado o fenómeno da habituação. 3. quase metade da população (47%) considera que as pessoas pobres sempre foram pobres. em 1985. uma epidemia de preguiça que teria de ser explicada de outra forma. a atitude do público em geral. É de sempre”. Daí. Técnicas de Expressão . Publicidade e Relações Públicas. com o consequente enfraquecimento da “sociedade moral” que promoveu o clima geral de solidariedade que existia no passado. mergulha sólidas raízes na consciência individual e colectiva dos portugueses”. 4. numa população de 10 milhões. levam a concluir que a sociedade portuguesa não está preparada para apoiar as medidas necessárias para um verdadeiro combate á pobreza». teríamos 2 milhões de preguiçosos. Não é de hoje nem de ontem. Estas duas características da opinião pública. Os pobres seriam maioritariamente fraudulentos. remetendo para o Estado a solução dos problemas. mesmo na população pobre. Outro terço da população considera que a causa da pobreza está na “preguiça” ou “falta de vontade” das pessoas pobres – dados de um Inquérito Directo efectuado confirmam esta perspectiva. Todavia. nos seus aspectos éticos e políticos. na opinião pública em geral. com o qual nos habituamos a conviver sem sobressalto. considerando-a resultante de “pouca sorte”. Parece existir uma reserva sistemática e generalizada quanto á “autenticidade” dos pobres. Simultaneamente ¼ da população portuguesa atribui à pobreza um carácter fatalista.

no contexto europeu. a transmissão geracional da pobreza. As pessoas e os grupos encontram-se mais vulneráveis à agressividade e ao egoísmo. A solidariedade e a justiça nunca foram tão possíveis “A persistência da pobreza é uma acusação moral dos nossos tempos”. Deve também reconhecer-se que a pobreza em Portugal não é devida à falta de recursos nacionais. 40% dos representantes desses agregados familiares eram pessoas empregadas por conta de outrem ou por conta própria e a percentagem de reformados era superior a 30%. e não como um semelhante com quem partilha o passado e deve partilhar o futuro. Working Out of Poverty. tem desenvolvido programas de luta contra a pobreza.    A pobreza não é uma realidade marginal ou passageira da sociedade portuguesa. No entanto. Em termos totalmente novos e agressivos a concorrência gera um clima permanente de incerteza e insegurança. desde então. Portugal entrou na União Europeia e. estes mesmos factores que se opõem às indispensáveis mudanças. antes assume características de um problema social extenso e resistente. cujos benefícios se não devem subestimar. é anormalmente elevada. parece incontornável a conclusão de que a maior parte de quanto se vem fazendo. o mundo em que vivemos é um mundo de abundância e nunca como hoje foi tão possível erradicar a pobreza. São. sociais e culturais que geram os mecanismos sociais que perpetuam a pobreza. de que a pobreza é erradicável mantendo inalterados os modelos económico. não só evidencia ineficiência na aplicação dos recursos como permite deduzir que passa ao lado das reais causas da pobreza em Portugal. persistem situações como as seguintes:  a taxa de pobreza no País tem-se mantido quase constante. estão em condições de Ana Isabel Sousa A fome no mundo. As consequências da globalização têm sido muitas e profundas. no pressuposto. porventura inconsciente. à volta dos 20%. A pobreza tem de ser encarada como um problema que reclama apoio pessoal para ocorrer às carências. pretensamente resolúvel por políticas e medidas periféricas e residuais. Publicidade e Relações Públicas. Perante esta realidade. em que todos. mas. – ILO.Marketing.Em 1986. cujas causas só podem ser removidas modificando os factores económicos. passaram pela pobreza (em pelo menos um ano) 47% das famílias portuguesas. cultural e de poder da sociedade portuguesa. Técnicas de Expressão . parecem estar envolvidos numa permanente luta pela sobrevivência. aliás. integrados em programas de âmbito europeu. «Uma globalização não regulada permite um clima de liberalismo económico e filosófico em que os mais poderosos países e empresas. a olhar o outro como um rival a remover do caminho. um desafio para todos 14 ISVOUGA – LMPRP . Report of the Director-General Globalmente considerado. taxa que corresponde a cerca de 2 milhões de portugueses. ou quase todos. O problema central reside no facto de a pobreza continuar a ser vista como um problema periférico. durante o período de 1995-2000. dentre as quais 72% foram pobres durante 2 ou mais anos.

mas antes de um problema de política económica. simultaneamente. Integrar.retirarem aos maiores benefícios do sistema. Existência de uma autoridade que tenha a função de promover esse bem comum. 2. se não enganadoras. Publicidade e Relações Públicas. em três frentes: a. . b. trabalho a tempo inteiro» a precariedade deve procurar-se prioritariamente no nível dos salários. não será garantia de justiça se não forem preenchidas duas condições fundamentais: 1. estratégias e instrumentos que visem a remoção das causas estruturais da pobreza e da exclusão. em muito. Ninguém de bom senso ignora a importância decisiva do crescimento económico. um desafio para todos 15 ISVOUGA – LMPRP . como é a portuguesa. A resolução da pobreza requer medidas que ajudem as pessoas a tornar-se auto-suficientes em matéria de recursos. Mas quando a política económica não consegue conjugar o crescimento com a distribuição. Em relação aos empobrecidos. O aumento dos salários é uma tarefa complexa. vencer os bloqueios culturais e comportamentais que a pobreza persistente gera nos pobres. As medidas redistributivas são necessárias. mas jamais poderá eliminá-las. Sendo que «71% dos representantes dos agregados pobres em pelo menos um ano do período de 1995-2000 eram trabalhadores por conta de outrem (TCO) e tinham contrato permanente. há que ocorrer às carências mais graves.Marketing. Técnicas de Expressão . o que implica que esteja apto a ganhar a sua vida de uma das formas consideradas normais na sociedade em que vive. «ajuda a justificar a fraca competitividade da economia nacional e as dificuldades de crescimento verificadas nos últimos anos». além do mais. as estratégias baseadas no princípio do “crescer primeiro para distribuir depois”. a pobreza e a miséria são situações de negação da liberdade. Para se ser livre é preciso que as pessoas tenham as condições necessárias ao exercício da liberdade. aqui não de um problema de politicas sociais. em grande maioria.Segundo um estudo levado a cabo pela McKinsey.» Seja qual for a ideologia dominante. ajudar o pobre a (re)conquistar a sua autonomia em matéria de recursos. Numa sociedade com pobreza persistente e de longa duração. dos empresários. é necessário intervir. deles dependem as medidas destinadas a aumentar a produtividade . objectivos. relacionadas com a não satisfação de necessidades humanas básicas. não devemos esperar que as desigualdades resultantes da actividade económica sejam compensadas por políticas redistributivas”. Também se verificou que os TCO pobres tinham. comprometendo a sua capacidade de vencer a situação e de utilizar os meios postos ao seu dispor e. Trata-se. Portugal está em antepenúltimo lugar em termos de gestão das empresas nacionais. Revalorização da noção de bem comum. em democracia todos os valorizamos e defendemos o direito à liberdade. E a regulação. poderão vencer a privação e atenuar as desigualdades da repartição primária. o que. que exige tempo e o envolvimento dos trabalhadores. “Quer isto dizer que são suspeitas.e o Estado. O que nem todos reconhecem é que. ainda. Ana Isabel Sousa A fome no mundo. de que hoje já nem se fala. mesmo quando vier a existir. nas diferentes políticas públicas.

va). mas também através da transmissão da pobreza de uma geração a outra. «Muito do que se faz é bom.Marketing. um dos ciclos viciosos da pobreza: o pobre tem baixo nível de educação por ser pobre e é pobre por ter níveis baixos de escolaridade. É sabido que é através deste ciclo vicioso que a pobreza persiste não só ao longo do ciclo de vida do pobre. 2. que permita libertar a criança da sua função de contribuir para o rendimento familiar. O acesso indispensável das crianças pobres ao sistema escolar. politicamente inaceitável e cientificamente injustificável. Publicidade e Relações Públicas. indispensável. sendo que aquele nível é tanto mais baixo quanto mais cedo as pessoas entrarem na vida de trabalho. situação eticamente condenável.c. necessário. A pobreza constitui uma grave negação dos direitos humanos fundamentais e das condições necessárias ao exercício da cidadania. mas no que fica por fazer». 3. "A fome no mundo. Bibiografia 1. pelo menos para reduzir a privação e atenuar o sofrimento das pessoas em situação de pobreza. O apoio à família. O sistema educativo adquire aqui uma importância decisiva. Ana Isabel Sousa A fome no mundo.vaticano. Este texto foi elaborado pelo Pontifício Conselho “Cor Unum”. Quebrar o ciclo de pobreza Segundo os dados do ICOR 2004. que efectivamente se traduza na aquisição de conhecimento e de aptidões. um desafio para todos 16 ISVOUGA – LMPRP . superando preconceitos acerca da pobreza e suas causas e estimulando comportamentos mais solidários. Um desafio para todos: O desenvolvimento solidário". Técnicas de Expressão . por indicação do Papa João Paulo II. se não para erradicar a pobreza. As condições de sucesso.  Incentivar a sociedade civil para que se multipliquem as acções de proximidade em favor dos mais pobres e se desenvolvam atitudes e comportamentos de maior justiça social e solidariedade. que para ser correspondida terá de assegurar: 1. (retirado de www. isto é. Outro ciclo que se reproduz ó o que conduz os portadores de baixos níveis de educação a situações profissionais menos favoráveis que acabam por levar a uma maior vulnerabilidade à pobreza. existe uma forte relação entre o nível de escolaridade atingido pelos pobres e a idade em que começam a trabalhar. Promover a mudança de mentalidade dos não-pobres. Este é sem dúvida. O problema não está no que se faz.

Publicidade e Relações Públicas.Marketing.A. Vulnerabilidade e Exclusão Social no Portugal Contemporâneo”. Pedro Perista e Paula Carrilho/ Gravita – Publicações. Ana Isabel Sousa A fome no mundo.). S. Isabel Baptista. “Um Olhar Sobre a Pobreza.2. Alfredo Bruto da Costa (coord. um desafio para todos 17 ISVOUGA – LMPRP . Técnicas de Expressão .