Direito Internacional Público

Prof. Doutor E. Correia Baptista Doutor Tiago Fidalgo de Freitas

1 – O Pacto celerado entre os três Estados é um Tratado multilateral restrito, na medida prevista pelo Art. 2º/1, al. a) CVDT, uma vez que é um acordo resultante da convergência das vontades dos três Estados, sujeitos de direito internacional, formalizadas num texto escrito com o objetivo de produzir efeitos jurídicos no plano internacional. Assim, o Pacto entra em vigor na ordem jurídica internacional no dia 1 de Agosto de 2009, dia em que o Principado de Andorra (PA) o rubricou, por força das disposições do Art. 24º/2 CVDT, uma vez que o Pacto é silente quanto à sua entrada em vigor. A simples rubrica vale como assinatura, porque assim foi acordado pelas partes nas negociações, Art. 12º/2, al. a), sendo esta a forma necessária para manifestar a vinculação ao Pacto, conforme Art. 12º/1, al. b).

2 – O Artigo 1º do Pacto, consubstancia um vício objetivo, porque o seu conteúdo não é viável no plano internacional, uma vez que é proibido por violação de outras normas e princípios de Direito Internacional, nomeadamente normas de ius cogens. Esta violação causa a nulidade de todo o Pacto, cf. Art. 53º CVDT, implicando o seu desvalor jurídico, Art. 69º/1 CVDT. No entanto, dentro da lógica do princípio de aproveitamento de atos jurídicos, poderá ser possível dividir o Artigo 1º dos restantes artigos do Pacto, desde que se verifiquem cumulativamente as seguintes condições: - A cláusula seja separável do restante articulado; - A não aplicação desta cláusula não ponha em causa a base essencial do tratado; - Não seja injusto continuar a cumprir o resto do tratado; Ora, quer-nos parecer que efetivamente assim é, podendo então, com base no Art. 44º/3, als. a), b) e c) CVDT, manter os efeitos jurídicos do restante articulado do Pacto. No entanto, com base no n.º 5 do mesmo artigo 44º, tal divisão não será possível pela referida violação do ius cogens, pelo que todo o Pacto é nulo.

3 – A Concordata é um tratado bilateral expresso, entre o Estado do Vaticano e um outro Estado, neste caso a República Portuguesa (RP). Assim sendo, está sujeito às mesmas regras e direitos que os outros tratados assim tidos pelo Art. 2º/1, al. a) CVDT. Havendo uma contradição entre dois tratados com partes distintas, como é o caso, importa saber se vigora a Concordata ou o Pacto em relação à matéria do Artigo 3º do Pacto, nos termos do Art. 30º CVDT. Uma vez que só a RP é parte em ambos os tratados, o Art. 30º/4 al. b) CVDT, vem afirmar que a RP estaria obrigada a reger as suas ações pela Concordata. Já o n.º 5 do mesmo artigo vem acrescentar que, por força da incompatibilidade das disposições entre os dois tratados, a RP incorre em responsabilidade perante a Santa Sé.

Ricardo Jorge Seca da Costa, aluno 21864 Turma Noite, Subturma 2

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60º/5. nos termos do Art. ou seja.As partes não tenham antecipado a possibilidade dessa alteração de circunstâncias. Convém ainda referir que o Artigo 2º do Pacto constitui uma situação jurídica absoluta. o município de Olivença continua a pertencer ao RE. a RP teria de considerar que o Artigo 2º do Pacto era uma disposição essencial para a realização do objeto ou fim do tratado. a) e al. dispostos pelo n. a República Italiana não se pode retirar. como nos quer parecer. apenas criando deveres de entregar a jurisdição do território ao Estado adquirente. Doutor E. 60º/2. . 6 – O RE invoca uma alteração fundamental das circunstâncias para alterar os pagamentos à RP. e encontram-se regidas pelo Art. . 60º/3. esta suspensão é contrária ao Art. al.Direito Internacional Público Prof. para que seja válida. b). até se podendo considerar que a alteração seja fundamental. uma vez que a doutrina é convergente em assumir que a proteção consagrada à pessoa humana não é exclusiva de tratados de natureza humanitária. 60º/1. 62º CVDT. b) CVDT. se considerarmos que o Artigo 3º do Pacto é uma violação substancial do Artigo 57º da Concordata. Uma vez que estão em causa tratados de amizade. determinar assim a suspensão da Concordata. Correia Baptista Doutor Tiago Fidalgo de Freitas Esta pode. estes tratados não têm efeitos imediatos. respondendo a 4 critérios cumulativos. o engano a fazer as contas não se Ricardo Jorge Seca da Costa. tem de ser consubstanciada no Art. No entanto. prevista no Art.A alteração provoque uma mudança radical no equilíbrio entre obrigações das partes. conforme este seja respetivamente bilateral ou multilateral. Parece-nos claro que os motivos invocados pelo RE não serão fortes o suficiente para que se possa considerar que houve uma alteração fundamental das circunstâncias. Esta alteração. Art. al. conforme o Art. configurando-se assim numa violação substancial do tratado. 4 – Estamos perante uma denúncia ou recesso. a RP fez-se valer da figura jurídica da exceção do não cumprimento. Só a posse efetiva cria a titularidade da soberania. a Itália deveria notificar as restantes partes com 12 meses de antecedência.A alteração seja fundamental. não se prevê que os mesmos tenham cláusulas relativas à cessação da sua vigência. Para assim proceder. . b) do referido artigo: . aplicando o disposto no nº1 do referido artigo. ou seja. Contudo. 5 – Em virtude da impossibilidade de ter o controlo efetivo do município de Olivença. a menos que as Partes tenham estabelecido essa possibilidade. no todo ou em parte. Deste modo. 56º CVDT.º1. situação oponível erga omnes. um tratado com o objetivo de regulação do estatuto ou da utilização de um determinado território. os atos pelo qual uma das partes se retira de um tratado. para suspender a aplicação do Artigo 4º do Pacto em relação a cidadãos do Reino de Espanha (RE). uma vez que. Subturma 2 2 . 60º/3. b) CVDT. al. ou se essa possibilidade puder ser deduzido da natureza do tratado. mas sim às convenções que tutelem direitos humanos. A ser um destes casos.A existência da circunstância agora alterada tenha constituído requisito fundamental para consentimento do tratado. uma vez que a RP resolveu suspender a aplicação do Artigo 4º do Pacto. aluno 21864 Turma Noite. o que não ocorreu.

estão cumpridos os Arts. considerando que o Pacto foi assinado pelo Primeiro-Ministro. embora seja uma convenção multilateral restrita. Subturma 2 3 . neste caso a RP. 45º al. a RP perde o direito de invocar a cessação de vigência do tratado como consequência da violação do Artigo 3º do Pacto. Doutor E. Ainda poderíamos estar perante a possibilidade de o RE estar a apresentar uma reserva ao tratado. no que seria uma causa de nulidade do mesmo. a reserva do RE terá de ser aceite pelas partes para que produza efeitos em relação a estes. mesmo após a vinculação.O Principado de Andorra (PA) vem invocar que a conclusão do tratado foi obtida através de coação pelo RE. b) e 60º/2. 20º CVDT. d). cf. de paz e de retificação de fronteiras. tem sido prática no Direito costumeiro que sejam formuladas posteriormente. 7º/2. b). se as Partes autorizarem. c) CVDT. revestir a forma de Tratado e não de acordo. al. tem vindo a atuar de forma contrária ao que agora exige. 23º/1 CVDT. al. conforme o Art. al. Quanto ao nº 2. aluno 21864 Turma Noite.º 3. al.º 4. Assim. a). ou 24 meses. não temos bases para supor que se aplica o nº 1. seguindo para o n. como nos quer parecer. De qualquer modo. 52º CVDT.Direito Internacional Público Prof. desde a declaração do RE. 161º. é da exclusiva competência da AR aprovar este tratado. numa prática denominada estoppel. Nestes termos. b). al. Correia Baptista Doutor Tiago Fidalgo de Freitas enquadra em nenhum dos requisitos e o fato do turismo religioso estar fora de moda ser passível de antecipação. como é o caso. considerando que o referido Artigo do Pacto era uma disposição essencial para a realização do objeto ou fim do tratado. conforme o Art. i) CRP. A RP. al. 2º/1. b) e n. conforme o Art. não se retira que o Artigo 3º do Pacto seja uma condição essencial para o consentimento de todas as Partes. também o PA perde o direito a argumentar neste sentido. Art. o PA efetuou os procedimentos corretos com vista à obtenção da cessação da vigência do Pacto em relação ao RE. porque o texto nada diz. Também perdeu o direito a objetar a reserva. se considerarmos que a reserva foi feita por escrito. al. conforme é a norma costumeira. cf. 20/5 CVDT. Com esta atuação. 8 – Estamos perante um problema de entrada em vigor e aplicação das normas do tratado ao direito interno de um Estado. que deverá. quando afirma que só deixará de cumprir o Artigo 4º do Pacto em relação a cidadãos do RE. 7 . Uma vez que estamos perante matéria de tratados de amizade. no que seria uma violação do Art. não se aplicado também. no entanto. seguindo o regime do Art. uma vez que dispunha de 12 meses para o fazer. al. No entanto. Embora tanto este artigo como o 19º indiquem que a formulação de reservas deva ser feita no momento da assinatura. 65º CVDT. a) e 2º/1. Ricardo Jorge Seca da Costa. Art. Assim. 45º. nos termos dos Arts.

A regra internacional é que o DIP tem primazia sobre o Direito interno. 197/1. como o nosso Pacto. nomeadamente o seu Artigo 4º. apresentar uma proposta de resolução à AR para aprovação. Não obstante. Correia Baptista Doutor Tiago Fidalgo de Freitas A negociação de tratados compete ao Governo. g) e 135º. O n. não devendo pagar a taxa moderadora. aluno 21864 Turma Noite. cf. cf. Ricardo Jorge Seca da Costa. deveria o PR ter enviado o diploma para o TC. são infra ou supra legais. Art. No entanto. b). Uma vez que o Pacto no momento da aprovação não revestiu a forma correta. o Presidente da AR assume as funções deste. esta envia o documento sob forma de resolução para o PR. 8º CRP adota um sistema de receção das normas internacionais sem necessidade de qualquer transformação. os Arts. quem tem razão é Josep. Resta saber se. devendo o Conselho de Ministros. 134º al. que deverá o deverá ratificar ou pedir a fiscalização preventiva da constitucionalidade. 278º/1 CRP. após a assinatura pelo PR. prevalecem perante ato legislativo posterior. b) CRP.Direito Internacional Público Prof. no sistema constitucional português. as normas constantes do Pacto. Após a aprovação do Tratado pela AR. Assim. Art. 277º/2 CRP. Subturma 2 4 . No impedimento temporário do PR. a inconstitucionalidade orgânica ou formal não impede a aplicação das suas normas na ordem jurídica portuguesa. 132º/1 CRP. al. al. o Art. Doutor E.º 2 deste artigo declara que as normas constantes de convenções internacionais. Art.