DEDUÇÃO

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DEDUÇÃO

cular derivar do universal" ou como "um raciocínio que vai do universal ao particular", etc, refere-se apenas à primeira dessas interpretações e por isso é restrita demais para poder abranger todas as alternativas a que essa noção deu origem. Ia A definição aristotélica de silogismo coincide com a definição geral de dedução. Diz Aristóteles: "O silogismo é um raciocínio em que, postas algumas coisas, seguem-se necessariamente algumas outras, pelo simples fato de aquelas existirem. Quando digo 'pelo simples fato de aquelas existirem', pretendo dizer que delas deriva alguma coisa, e, por outro lado, quando digo 'delas deriva alguma coisa', pretendo dizer que não é preciso acrescentar nada de exterior para que a D. se siga necessariamente" (An.pr., I, 1, 24 b 17 ss.). Definido nesses termos, o silogismo nada mais é que a derivação de uma proposição de outra, tendo, pois, o significado generalíssimo que ainda hoje se atribui à palavra dedução. Mas Aristóteles acrescenta que o silogismo perfeito é a D. perfeita, aquela na qual as premissas contêm tudo o que é necessário à D. da conclusão (Ibid, 24 b 23). Aristóteles faz a distinção entre D. e demonstração e entre D. e indução. A D. se distingue da demonstração porque a demonstração é uma D. particular (Ibid., 25 b 26), mais precisamente a D. que tem "premissas verdadeiras, primeiras, imediatas, mais conhecidas do que a conclusão, anteriores a ela e causas dela" (An.post, I, 2, 71 b 18 ss.). E distingue-se de indução porque esta se contrapõe àquela por sua estrutura esquemática (An. pr, II, 23, 68 b 30 ss.). Como fundamento da relação entre as premissas e a conclusão, está a relação entre os três termos do silogismo, que Aristóteles exprime com o verbo vnápxziv (inesse = inerir): o significado deste é explicitado por Aristóteles, ao determinar o modo como é possível formular silogismos e adquirir "a capacidade de produzi-los". A esse propósito, ele diz que, em primeiro lugar, é necessário considerar o próprio objeto como tal e sua definição, bem como as características que lhe são próprias; depois, é preciso considerar as noções que se seguem do objeto, as noções de que o objeto se segue e, enfim, as que ele exclui. Em outros termos, é preciso contemplar a essência ou substância do objeto, que é precisamente expressa pela definição, e tudo o que ela implica ou pelo que é implicada. Aristóteles ainda se expressa dizendo que é necessário

contemplar a totalidade da coisa, não a parte, p. ex., não o que se segue "de alguns homens", isto é, da essência ou substância "homem" como resulta da definição. E é por isso que Aristóteles introduz uma limitação importante-, o silogismo deve ter premissas universais (Ibid., I, 27, 43 b 14). A estrutura substancial da realidade, tal como é esclarecida na metafísica, é, portanto, o fundamento da teoria aristotélica da dedução. As características fundamentais da teoria aristotélica da dedução são as seguintes: d) multiplicidade das premissas derivadas da função indispensável do termo médio; b) universalidade das premissas. Ambas essas características dependem do fundamento substancial da relação dedutiva. Com efeito: Ia o termo médio é indispensável porque a atribuição de um predicado a uma coisa só pode ser feita com referência à substância da própria coisa, e só em virtude dessa referência podem ser determinadas a qualidade (afirmação ou negação), a quantidade (universal ou particular) e a modalidade (essencial ou acidental) da atribuição deduzida. 2a A universalidade das premissas deriva do fato de elas deverem referir-se ao objeto em sua totalidade, ou seja, à substância ou à essência necessária do objeto. Essa teoria da D. dominou a filosofia e a lógica antiga, medieval e moderna (salvo os reflexos da concepção estóica de que falaremos em seguida), e, como identifica a D. com o silogismo, pode ser estudada com este último termo. 2- Pode-se presumir que, à medida que os pressupostos substancialistas usados por Aristóteles como fundamentos da teoria da D. fossem perdendo prestígio, o mesmo aconteceria com as características da sua teoria, quais sejam, a multiplicidade e a universalidade das premissas. E é exatamente isso o que ocorre na lógica dos estóicos, que, diferentemente de Aristóteles, são sensistas. Os estóicos dividiam os raciocínios em demonstrativos ou apodíticos, que concluem por algo de novo, e não demonstrativos ou anapodíticos (v. ANAPODÍTico), que não concluem por nada de novo. Mas privilegiavam estes últimos porque "não têm necessidade de demonstração para serem encontrados, mas são demonstrativos na medida em que concluem também os outros raciocínios" (SEXTO EMPÍRICO, Pirr. hyp., II, 140,156; Aãv. dogm., II, 224 ss.). Ora, nos raciocínios anapodíticos (do tipo "Se é dia, há luz; é dia, logo, há luz"), a conexão que constitui a premissa "Se é dia, há luz" é clara por si mesmo e não