DEFINIÇÃO

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DEFINIÇÃO

do se fala de coisas que não podem ser predicados de outras coisas" (Met., VII, 4, 1030 a 6). É essa a D. constituída pelo gênero próximo e pela diferença específica: entendendo-se por gênero próximo o predicado essencial comum a coisas que diferem em espécie (p. ex., o predicado animal comum a todas as espécies animais) e por diferença o que distingue uma espécie da outra (Top., I, 8, 103 b 15). Esse conceito aristotélico de D. tornou-se clássico, ficando sistematicamente ligado ao conceito de essência substancial e de ser como necessidade. Spinoza só fazia expressar isso com outras palavras quando dizia: "A verdadeira D. de uma coisa qualquer não implica nem exprime nada além da natureza da coisa definida" (Et., I, 8, schol. II). Depois de Aristóteles e por influência da Lógica estóica, o conceito de D. tornou-se muito mais extenso e flexível; Boécio podia enumerar 15 espécies de D. (v. adiante). A D. substancial, todavia, continuou sendo vista como a única verdadeira e autêntica, como se afigurou ao próprio Boécio (De diffinitione, em P. L, 64S, col. 898). Esse foi o ponto de vista compartilhado por todos os escolásticos e até pelos nominalistas ou terministas que, porém, insistiram na importância da definição nominal. Ockham dizia: "A D. tem dois significados, já que uma é a D. que exprime o que é o objeto (quid rei) e a outra é a D. que exprime o que é o nome (quid nominis). A D. que exprime o que é o objeto pode ser assumida em dois sentidos: num sentido lato, caso em que compreende a D. propriamente dita, e a D. descritiva, e em sentido estrito, caso em que é um discurso breve que exprime a natureza toda da coisa e nada contém que seja extrínseco a essa coisa" (Summa log., I, 26). Por outro lado, a D. que exprime o que é o nome é "um discurso que declara explicitamente a que se refere implicitamente com um enunciado" (Ibid., I, 26). Ockham exclui da lógica as D. reais porque "o lógico não trata de coisas que não sejam signos" (Ibid., I, 26), mas não nega a legitimidade dessas D. fora da lógica. Por outro lado, parece-lhe um embuste (trufaticuni) admitir que de um mesmo objeto (p. ex., do homem) haja uma D. lógica, uma D. natural, uma D. metafísica. "O lógico, que não trata do homem porque não trata das coisas que não são signos, não tem de definir o homem, mas só ensinar de que modo as outras ciências, que tratam do homem, devem definilo. Por isso, o lógico não deve consignar ne-

nhuma D. do homem, a não ser para exemplificar; nesse caso a D. dada como exemplo deve ser natural ou metafísica" (Ibid., I, 26). Esse ponto de vista foi adotado pela lógica posterior. Jungius distinguia três espécies de D.: nominal, essencial e científica, que correspondem aos três significados do termo estabelecidos por Aristóteles (Lógica, 1638, IV, II, 6-8; II, 15). Leibniz reivindicava, contra Locke, a distinção entre D. nominal e D. real, dizendo que "a essência do ouro é aquilo que o constitui e lhe confere as qualidades sensíveis que lhe permitem ser reconhecido como tal e tornam nominal a sua definição, ao passo que teríamos a D. real e causai se pudéssemos explicar sua estrutura ou constituição interior" (Nouv. ess., III, 3, 19). Mas anteriormente (num ensaio de 1684), distinguira entre "D. nominais, que contêm apenas as notas para discernir uma coisa das outras, e D. reais, das quais consta que a coisa é possível" (Op., ed. Erdmann, p. 80). Wolff valeu-se dessas observações para dizer que "a D. da qual não resulta que a coisa definida é possível se diz nominal; e aquela de que resulta ser possível a coisa definida, se diz real" (Log., S 191); e, para dividir as D. nominais em essenciais e acidentais, acomodava a seu modo — como dizia explicitamente — as noções escolásticas (Ibid., § 192). Kant, por sua vez, entendia que definir era "expor originariamente o conceito explícito de uma coisa dentro de seus limites", entendendo por explícito a. clareza e a suficiência das notas, por limites a precisão e por originariamente o caráter primitivo da determinação, que não deve precisar de demonstração (Crít. R. Pura, Doutrina do método, I, seç. I, § 1). 2- A possibilidade da D. nominal foi admitida por Aristóteles como via subordinada e preparatória à D. real: "E como a D. é a declaração da essência haverá também a declaração daquilo que o nome significa ou outra declaração nominal: p. ex., o que significa o nome triângulo" (An.post, II, 10, 93 b 28). A distinção entre D. real e D. nominal não despertava o interesse da lógica estóica, que não atribuía à D. a tarefa de declarar a essência substancial, portanto não se encontra nos escritores de inspiração predominantemente estóica, como Cícero (Top., 5, 26 ss.) e Boécio (De diffinitione, P. L, 64a col. 901-02). Pedro Hispano também a ignora. É utilizada pelos lógicos terministas medievais porque lhes fornece o modo de definir o objeto específico da lógica, como ciência dos signos (v. os trechos de Ockham acima citados).