DEFINIÇÃO

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DEFINIÇÃO

Mas só se tem uma teoria da D. propriamente dita, como declaração da essência nominal, quando a essência nominal é considerada a única possível, podendo-se, portanto, dizer o mesmo de sua D. Nesse sentido Hobbes dizia: "A D. não pode ser outra coisa senão a explicação de um nome mediante um discurso". Quando o nome se refere a um conceito composto, a D. é a resolução do nome em suas partes mais gerais, de sorte que se pode dizer que a D. é "a proposição cujo predicado é resolutivo do sujeito onde isso é possível; e onde não é possível, exemplificativo deste" (De corp., 6, § 14). Do mesmo modo, Locke diz que "D. outra coisa não é senão dar a conhecer o significado de uma palavra mediante vários outros termos não sinônimos" (Ensaio, III, 4, 6); e julga que "o melhor modo de dar uma D. é enumerar as idéias simples que se combinam no significado do termo definido" (Ibid., III, 3, 10). Nessa tradição, Stuart Mill afirmava que D. "é uma proposição declaratória do significado de uma palavra" (Logic, I, 8, 1). Expressões semelhantes recorrem em filósofos e lógicos mesmo recentes, que não admitem a doutrina da substância e se inclinam para um ponto de vista nominalista. O mais das vezes, todavia, a teoria da D. nominal apóia-se no pressuposto de que um nome não tem nem pode ter mais de uma D.; esse pressuposto distingue a teoria da D. daquela que chamamos teoria da essência-significado. 3B Pode-se dizer que esta última teoria foi proposta pelos estóicos. Crisipo afirmava que a D. é uma resposta (ÒOTÓôooiç, DIÓG. L, VII, 1, 60), entendendo com isso que qualquer resposta dada à pergunta "o quê?'' pode ser considerada uma D. da coisa. Foi provavelmente com base nessa noção extremamente generalizada da D. que começaram a surgir numerosas espécies de D., como em Cícero (Top., 5, 26 ss.) e, na sua esteira, em Boécio. Este enumerou 15 espécies de D., privilegiando, como se disse, a primeira, que é a D. substancial. As outras 14 espécies são as seguintes: Ia D. nocional, que dá certa concepção do objeto, dizendo mais o que o objeto faz do que o que é; 2a D. qualitativa, que se vale de uma qualidade do objeto; 3a a D. descritiva, feita com caracteres que ilustram a natureza de uma coisa; é peculiar ao orador; 4a D. verbal, que consiste em esclarecer uma palavra com outra palavra; 5a D. por diferença, que consiste em esclarecer a diferença entre dois objetos, p. ex.,

entre o rei e o tirano; 6a D. por metáfora, como p. ex. quando se diz que a juventude é a flor da idade; 7a a D. por privação do contrário, como p. ex. quando se diz que o bem é o que não é mal; 8a D. por hipotipose, que é a elaborada pela fantasia; 9a D. por comparação com um tipo, como quando se diz que o animal é como o homem; 10a D. por falta de plenitude no mesmo gênero, como quando se diz que o plano é aquilo a que falta a profundidade; IP D. laudativa; 12a D. por analogia; p. ex.: "o homem é um microcosmo"; 13a D. relativa; p. ex.: "pai é quem tem filho"; 14a D. causai, p. ex.: "dia é o sol sobre a terra" (De diffinitione, P. L., 54a, col. 901-07). A disparidade dessa relação de Boécio é tal que qualquer resposta à pergunta "o quê?" pode ser considerada definição. Desse ponto de vista, a herança da teoria estóica da D. é o conceito moderno de que D. é a declaração do significado de um termo, ou seja, do uso que o termo pode terem dado campo de investigação. Desse ponto de vista, não existe uma essência privilegiada do termo (nem nominal nem real), mas existem possibilidades diferentes de defini-lo para fins diferentes; todas as possibilidades podem, embora em graus diferentes, ser declaradas essenciais aos seus fins. Assim, pode-se considerar D. qualquer restrição ou limitação do uso de um termo em determinado contexto. E em todos os casos a D. supõe o contexto, ou, como disse M. Black, um conjunto de pressuposições que constituem um preâmbulo à D., de sorte que sua forma é "Toda vez que as condições forem assim e assim, o termo íserá usado assim e assim" (cf. M. BLACK, Problems of Analysís, 1954, p. 34). Segundo a natureza do preâmbulo, a D. poderá ter caráter diferente. Se o preâmbulo faz referência a linguagens artificiais (como a lógica e a matemática), a D. será simplesmente uma convenção (proposta ou aceita) sobre o uso da palavra em tal linguagem (D. estipulativd). Se o preâmbulo fizer referência a linguagens não artificiais ou só em parte artificiais (como a linguagem comum e as das ciências empíricas), a D. será a declaração do uso corrente do termo em questão (D. lexical) ou a proposta ou aceitação de uma modificação oportuna desse uso (redefinição) (cf. R. ROBINSON, Definition, 1954). A essa terceira espécie pertencem as D. dos termos contidos neste dicionário, que utilizam, simplificam ou retificam os usos de um termo em linguagem filosófica, científica ou corrente.