DEUS

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dade, identidade ou indiferença do espírito e da natureza, da liberdade e da necessidade, da consciência e da inconsciência (Werke, I, III, pp. 578 ss.). Essa identidade ou indiferença nada mais é que a identidade panteísta entre o mundo e D. "D e o universo", diz Schelling, "são uma coisa só ou são aspectos distintos de uma única e mesma coisa. D. é o universo considerado pelo lado da identidade e é o todo porque é todo o real, fora do qual nada existe" (Md, I, IV, 128). Mas a doutrina de Schelling implica a noção de que o mundo é não só a revelação de D., mas também sua realização. Essa noção tem origem em Spinoza, embora não se encontre nele: deriva do racionalismo geometrizante de Spinoza, pelo qual D. não mais se identifica com o mundo, mas com a ordem do mundo, mais precisamente com a ordem racional, geometricamente explicável, do mundo. Diz Spinoza: "Nada há de contingente nas coisas, mas tudo é determinado a existir e a atuar de certo modo pela necessidade da natureza divina" (Et., I, 29). Embora se possa distinguir entre natureza naturante que é D., e natureza "naturada", que são as coisas derivadas de D. (Md., scol.), na realidade a natureza nada mais é que a ordem necessária das coisas, e essa ordem é D. "De qualquer modo que concebermos a natureza, sob o atributo da extensão, do pensamento ou de qualquer outro, sempre encontraremos uma só e mesma ordem, uma só e mesma conexão de causas, isto é, uma só e mesma realidade" (Ibid., II, 7, scol.). Assim, para Spinoza D. não é a Unidade inefável da qual as coisas brotam por emanação, nem a Causa criadora da ordem, mas essa mesma ordem em sua necessidade. Isso implica que a derivação necessária e recíproca das coisas, segundo o ideal da racionalidade geométrica, é a realização de D., pensamento este que foi explicitado no Romantismo justamente como referência à doutrina de Spinoza. A concepção de que D. se revela e ao mesmo tempo se realiza no mundo, mais precisamente na necessidade racional do mundo, fundamental no Romantismo. Sua melhor expressão está em Hegel. Este começa insistindo na necessidade da revelação de D.: se D. não se revelasse, seria um D. invejoso. "Quando, na religião, se toma a sério a palavra D., é também por ele, que é conteúdo e princípio da religião, que pode e deve começar a determinação do pensamento; e se a D. for negada a revelação, não

restará outro conteúdo a atribuir-lhe senão a inveja. Mas se a palavra espírito deve ter um sentido, ela significa a revelação de si" (Ene, § 564). Ora, essa revelação não é só revelação, é a realização de D. como autoconsciência de si que ele alcança no homem. "D. é D. só enquanto se sabe: seu saber-se é sua autoconsciência no homem e o saber que o homem tem de D., que progride até o saber-se do homem em D." (Ibid., § 564). Desse ponto de vista, a distinção entre "Essência eterna" e sua manifestação é um estágio provisório, superado pelo retorno da manifestação à essência eterna e pela realização da unidade de ambas. Hegel distingue três momentos do conceito de D.: "em cada um deles o conteúdo absoluto é representado a) como conteúdo eterno que permanece na posse de si em sua manifestação; b) como distinção entre essência eterna e sua manifestação que, mediante essa distinção, torna-se o mundo da aparência onde está o conteúdo; c) como infinito retorno e conciliação do mundo alheado da essência, assim como esta retorna do mundo da aparência para a unidade de sua plenitude" (Ibid., § 566). A realidade plena de D. consiste em reconhecer-se realizado no mundo e através do mundo. Essa concepção de que ao mundo está confiada a realização de D. ou pelo menos sua realização última e total, constitui a inspiração (e a característica) dominante do panteísmo contemporâneo. Bergson exprime esse pensamento quando identifica D. com o esforço criador da vida (Deux sources, p. 235), ou seja, com o movimento pelo qual a vida vai além de suas formas estáticas e definidas, encaminando-se para a criação de novas formas mais perfeitas. Do amor místico pela humanidade que é a ponta avançada do ímpeto vital, Bergson espera a renovação da humanidade e a retomada "da função essencial do universo, que é uma máquina de fazer deuses" (Ibid., p. 234). A expressão "máquina de fazer deuses" é muito significativa; expressa bem a crença de que o mundo deve ser a realização de D. Em outros filósofos retornam velhas fórmulas, como a do mundo enquanto "corpo de D.", mas com novo significado: só se incorporando, D. realiza-se como tal. Alexander diz: "D. é o mundo inteiro porquanto possui a qualidade da deidade. O mundo inteiro é o corpo desse ser; a deidade é seu espírito. Mas o possuidor da deidade não é real, é ideal: como existente real, D. é o mundo infinito no seu nisus para a deidade, ou, para