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é homogêneo, absoluto e indivisível {Contra Cels., I, 23), sendo também superior à própria substância já que não participa dela: participase de D., mas D. não participa de nada (De Princ, VI, 64). Além disso, a unicidade de D., na qual os filósofos cristãos insistem tanto para opor-se ao politeísmo pagão quanto para eliminar da noção de Trindade qualquer resíduo de multiplicidade de divindades, leva-os a acentuar a separação entre D. e o mundo, pois se D., de algum modo, participasse do mundo, participaria também da multiplicidade e da diversidade que o constituem (GREGÓRIO DE NISSA, Or. catech., 1). Pelo mesmo motivo, é acentuada a eternidade, ou seja, a imutabilidade de D. em face da mutabilidade e da temporalidade do mundo. Para S. Agostinho, D., enquanto Ser, é o fundamento de tudo o que é, o criador de tudo. Com efeito, a mutabilidade do mundo que está ao nosso redor demonstra que ele não é o ser e que, portanto, precisou ser criado por um Ser eterno (Conf., XI, 4). Antes da criação não havia tempo e não havia nem mesmo um "antes": não tem sentido, pois, perguntar o que D. fazia "então". A eternidade está acima de todo tempo e em D. o passado e o futuro nada são. O tempo foi criado juntamente com o mundo (Ibid, XI, 13). No séc. XI Anselmo resumia em Monologíon os resultados de um trabalho já secular, esclarecendo os caracteres da criação a partir do nada como "um salto do nada para alguma coisa" (Mon., 8) e insistindo na impossibilidade de admitir que a matéria ou outra realidade qualquer preexistisse à obra de criação divina. As coisas são tão-somente por participação no ser; isso significa que sua existência provém unicamente de D. (Ibid., 7). Anselmo admitia que na mente divina estivesse o modelo ou a idéia das coisas produzidas, mas este também, apesar de preceder à criação do mundo, foi criado por D. (Ibid., 11). Contrariando, porém, um dos caracteres de D. criador (a liberdade de criar), a doutrina de Abelardo dizia que a criação é um ato necessário de D., ou seja, um ato que não pode não ocorrer, visto que D. não pode não querer o bem e que a criação é um bem (Theol. christ., V, P. L., 178, col. 1325). A característica fundamental da doutrina da causa criadora é que D. é o ser do qual dependem todos os outros seres. Mas foi só através do neoplatonismo árabe que se desenvolveu o corolário implícito nessa concepção, chegando-

se à determinação de um atributo que depois passaria a ser o primeiro e fundamental atributo dessa doutrina: o da necessidade do ser divino. De fato, se as coisas do mundo extraem seu ser de D., este só pode extraí-lo de si mesmo, ou seja, D. é o ser por natureza ou por essência, ao passo que as coisas têm o ser por participação ou por derivação de D. Desse modo, determina-se uma cisão no ser: de um lado o ser de D., do outro o das criaturas; de um lado o ser por si, do outro o ser por participação; de um lado o ser necessário, do outro o ser possível. Essa distinção foi introduzida por Al Farabi (séc. IX), e graças a Avicena (séc. XI) prevaleceu na Escolástica árabe e cristã, tornando-se um de seus princípios fundamentais. Avicena interpreta a relação entre necessidade e possibilidade nos termos da relação aristotélica entre forma e matéria. A forma, como existência em ato, é necessidade; a matéria é possibilidade. O que não é necessário por si mesmo é necessariamente composto de potência e ato, portanto não é simples. Tal é o ser das criaturas. Mas o ser que é necessário por si é absolutamente simples, desprovido de possibilidade e de matéria: é D. (Met, II, 1, 3). A distinção entre ser necessário e ser possível e a definição de D. como ser necessário foram introduzidas na Escolástica cristã por Guilherme de Alvérnia (De Trinitate, 7) e tornaram-se fundamento da teologia de Alberto Magno e de Tomás de Aquino. Este último exprime a necessidade do ser divino como identidade entre essência e existência em D.: D. é o ser cuja essência implica existência. De fato, tudo aquilo que se acha em alguma coisa por participação deve ser necessariamente causado por aquilo em que se acha por essência; por isso, o ser de todas as coisas é criado ou produzido por aquilo que possui o ser por essência própria, isto é, por ser necessário (S. Th., I, q. 2, a. 3; q. 44, a. 1). A necessidade é, em outros termos a definição da própria natureza de D. Pois embora a proposição "D. existe", que expressa essa definição, não seja de per si conhecida no que se refere a nós (que podemos não entender o significado do nome D. e interpretá-lo, p. ex., como corpo), é todavia conhecida por si, secundum se, ou seja, em si mesma necessária (Ibid., I, q. 2, a. 1). A característica de necessidade, à qual o pensamento filosófico chegou relativamente tarde, torna-se fundamental para todas as doutrinas de D. que surgem depois. Nicolau de Cusa define D. como "necessidade absoluta"

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