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(De docta ignor, I, 22). Às vezes essa característica é tomada como ponto de partida da prova ontológica, como faz Descartes, para quem "a existência necessária está contida na natureza ou no conceito de D., de tal modo que é verdade dizer que a existência necessária está em D. ou que D. existe" (Secondes Réponses, prop. I, Démonstration). Outras vezes nega-se a legitimidade cie semelhante prova, mas assume-se igualmente a necessidade como definição de D.; é o que faz p. ex. Leibniz. "É preciso", diz ele, "procurar a razão da existência do mundo, que é a totalidade das coisas contingentes, e é preciso procurá-la na substância que traz consigo a razão de sua existência e que é, portanto, necessária e eterna" ( Tbéod., I, § 7). Portanto, substância necessária, para Leibniz, é D. (Monad., 38). Nesse aspecto, são poucas as novidades apresentadas pelas concepções de D. como causa criadora na filosofia moderna e contemporânea. Limitam-se a repetir as características tradicionais, a começar da necessidade, que na maioria das vezes é assumida como ponto de partida para uma demonstração ontológica. É o que fazem, p. ex. Lotze (Microkosmus, III, p. 457) e, na sua esteira, muitos representantes do espiritualismo contemporâneo. A única exceção a essa tendência é constituída por Kierkegaard e por todos os que se inspiram diretamente em sua concepção de D. Segundo Kierkegaard, a relação entre D. e o mundo é incompreensível e só pode ser esclarecida negativamente com a noção de diferença absoluta, de "salto" entre o mundo e D. (Diário, VIII, A, 414). Portanto, Kierkegaard não utiliza a noção de causa para determinar a relação entre o mundo e D., evitando atribuir a D. a categoria de necessidade. D. é "aquele para o qual tudo é possível" (Die Krankheit zum Tode, I, c; trad. it., Fabro, p. 247); essa definição de D. torna a fé possível por ser o fundamento da confiança naquele que pode sempre encontrar uma possibilidade de salvação para o homem mas exclui a certeza fundada na necessidade da natureza divina. É óbvio que, desse ponto de vista, a própria qualificação de D. como criador do mundo torna-se imcompreensível, sendo indiferente afirmá-la ou negá-la. O mesmo vale para a doutrina contemporânea que, nesse aspecto, mais se aproxima da inspiração de Kierkegaard: a de Jaspers. Qualificar a transcendência do ser com os atributos tradicionalmente dados a D. ou como D. mesmo é, segundo Jaspers,

anular a distância entre a transcendência e o homem, ou seja, anular a transcendência como tal. A única cifra ou sinal da transcendência é o fracasso que o homem sofre quando tenta alcançar a transcendência. Esse fracasso é o único e autêntico sinal da transcendência, que é negada por todas as tentativas de torná-la próxima e acessível, pensando-a com os termos tradicionais da divindade (PM., III, 3, pp. 166 ss.).
2. DEUS E O MUNDO MORAL.

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A relação entre D. e o mundo moral (ou I mundo dos valores) é o segundo aspecto de I distinção das várias concepções de D. Sob esse ! aspecto é possível isolar, em primeiro lugar, as ; doutrinas que não atribuem a D. nenhuma fun- ' ção de ordem moral. Essas doutrinas, porém, j são raríssimas, pois constituem formas de um [ quase-ateísmo; pode-se mencionar Voltaire. Pa- \ radoxalmente, Voltaire disse que a divindade se j desinteressa completamente pela conduta dos \ homens. Azar dos cordeiros que se deixam de- > vorar pelos lobos. "Mas se um cordeiro fosse di- • zer a um lobo-. 'Faltas ao bem moral, D. te punirá', o lobo responderia: 'Faço o meu bem físico i e parece que D. não está muito preocupado em i saber se te como ou não'" (Traité de mét., 9). ; Contudo, esse ponto de vista, que é comparti- \ lhado por outros iluministas, aparece raramente i na história da filosofia, em que a relação entre • D. e a ordem moral tende a tomar como mode- : Io a relação entre D. e o mundo físico. Nesse ; aspecto, podem ser distinguidas três concepções fundamentais: a) a que considera D. como \ garante da ordem moral do mundo; b) a que o ; identifica com a ordem moral; c) a que o considera criador da ordem moral. a) Deus como garante da ordem moral. j Por essa concepção, a ordem moral, do mes- ! mo modo que a ordem substancial do mundo, é independente de D.; mas D. concorre de modo mais ou menos eficaz para mantê-la ou para realizá-la, acrescentando-lhe sua garantia. É essa a concepção de Platão e Aristóteles, segundo os quais D., apesar de criador da ordem natural, não tem nenhuma responsabilidade sobre a ordem moral que é confiada aos homens, limitando-se a apoiá-la e a encorajá-la com sanções próprias. No mito de Er, Platão atribui à parca Láquesis as seguintes palavras, dirigidas às almas que estão prestes a escolher um novo ciclo de vida: "A virtude não tolera senhores; cada um participará dela mais ou menos, conforme a honre mais ou menos. Cada