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na: essa liberdade deveria ser identificada com a necessidade do desígnio providencial ou ser negada como coisa impossível. A ação do homem só pode adequar-se à ordem racional do todo porque o homem é uma parte desse todo. E com efeito sabemos que os estóicos reconheciam a necessidade do agir humano; só para Crisipo o assentimento voluntário do homem intervinha como fator concomitante, sendo comparável à forma do cilindro, que contribui para que ele gire sobre o plano inclinado (CÍCERO, De fato, 41-43). Plotino retoma o mesmo conceito de providência: "De todas as coisas forma-se um ser único e uma só providência; se começamos pelas coisas inferiores ela é destino; no alto, é só providência. Tudo no mundo inteligível é ou razão ou, acima da razão, Inteligência e Alma pura. Tudo o que desce de lá é providência, ou seja, tudo o que está na Alma pura e tudo o que vem da Alma para os seres animados" (Enn., III, 3, 5). A ação que emana de D. coincide, em outros termos, com sua ação providencial: os seres haurem de D. não só o ser e a vida, mas também a ordem das ações em que seu ser e sua vida são exercidos. Plotino procura não buscar na ordem providencial a origem do mal, mas o atribui a uma espécie de acréscimo acidental que alguns seres fazem à ordem da providência (Ibid., III, 3, 5). Mas, para ele, a providência e D. identificam-se, pois "do Princípio que permanece imóvel em si mesmo provêm os seres individuais, assim como de uma raiz, que permanece fixa em si mesma, provém a planta: é uma floração múltipla que redunda na divisão dos seres, mas na qual cada um carrega a imagem do Princípio" ilbid., III, 3, 7). Sem dúvida, muitas dessas expressões e imagens poderão ser empregadas, como de fato serão, pelas doutrinas que reconhecem em D. o criador da ordem moral, mas não o identificam com essa ordem, embora só encontrem seu significado literal nessa identificação. A negação da liberdade humana, ou melhor, a interpretação dessa liberdade como necessidade, é um de seus corolários. Giordano Bruno expressou esse corolário com a doutrina de que, embora as orações não possam influir nos decretos do destino, que é inexorável, o próprio destino deseja que lhe supliquem para fazer o que estabelecera fazer. "Quer ainda o fado que, conquanto até Júpiter saiba ser ele imutável, e que outra coisa não pode ser senão aquilo que deve ser e será, não deixe de, por tais meios,

correr celeremente para seu destino" (Op. cit, I, 31). Por sua vez, Espinosa nega que D. seja causa livre no sentido de poder agir diferente do modo como age: ele é livre apenas no sentido de que age "só pelas leis de sua natureza" (Et., I, 17). Assim, em Spinoza, a noção de providência identifica-se com a noção de necessidade: necessidade segundo a qual todas as coisas derivam da natureza de D., como única Causa perfeita e onipotente (Et., I, 33, scol. 22). Fichte só fazia repropor a tese de Spinoza quando, num texto que lhe valeu a acusação de ateísmo (Do fundamento da nossa fé no governo divino do mundo, 1798), identificava D. com a "ordenação moral viva e atuante", negando que D. fosse "uma substância particular", diferente dessa ordenação. Essa identificação ficou como fundamento do Romantismo. Hegel diz: "O verdadeiro bem, a razão divina e universal, é também potência de realização de si mesmo. Em sua representação mais concreta, esse bem, essa razão, é D. O que a filosofia vê e ensina é que nenhuma força prevalece sobre a força do bem, ou seja, de D., de tal modo que a impeça de atuar: D. prevalece, e a história do mundo não representa outra coisa senão o plano da providência. D. governa o mundo: o conteúdo de seu governo, a execução de seu plano, e a história universal" (Phil. der Geschichte, ed. Lasson, p. 55). Não obstante a ambigüidade de certas expressões, o sentido da doutrina hegeliana aqui recapitulada é evidente: D. é a razão que habita o mundo, e a razão que habita o mundo é a própria realidade histórica. De um século a esta parte essa doutrina foi repetida com freqüência, sendo às vezes designada "doutrina da providência imanente". Ainda serve de base para algumas correntes que visam renovar a teologia cristã e a empenhar o cristianismo numa ação mais direta e eficaz no mundo. Assim, p. ex., Bonhoeffer identifica a realidade com o bem e ambos com Deus. Por um lado, o bem é a realidade porque não é uma fórmula geral: o real é impossível sem o bem. Por outro lado, D. é a "realidade última" não no sentido de ser uma idéia ou a meta final da realidade, mas no sentido de que "todas as coisas se mostram distorcidas se não são vistas nem reconhecidas em D.". Desse ponto de vista, a ética cristã é "a realização, entre as criaturas de D., da realidade reveladora de D. em Cristo" (Ethik, 1949, II; trad. in., pp. 55 ss.). A novidade de doutrinas desse tipo consiste, por um lado, no abandono