DEUS

4. A REVELAÇÃO DE DFAJS.

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DEUS, MORTE DE

O quarto e último modo de distinguir as concepções de D. consiste em considerar a via de acesso a D. que essas concepções concedem, ou não, ao homem. A esse ponto de vista dizem respeito, especialmente, a distinção e a oposição entre deísmo e teísmo, que consistem, grosso modo, em considerar a manifestação de D. como iniciativa do homem (deísmo) ou de D. (teísmo). Portanto, é possível distinguir duas concepções principais: i) a que atribui à iniciativa do homem e ao uso das capacidades naturais de que dispõe o conhecimento que o homem tem de D.; ii) a que atribui à iniciativa de D. e à sua revelação o conhecimento que o homem tem de D. Obviamente, essas duas concepções podem combinar e dar lugar a iii), para a qual a revelação só faz concluir e levar a cabo o esforço natural do homem para conhecer D. Desses três pontos de vista, o primeiro é o mais estritamente filosófico; os outros dois são predominantemente religiosos. A filosofia grega só conheceu o primeiro. O segundo ponto de vista pode ser visto com toda a clareza em Pascal: "É o coração que sente D., não a razão. Eis o que é a fé: D. sensível ao coração, não à razão" (Pensées, 278). E Pascal acrescenta logo: "A fé é um dom de D." (Jbid., 279). Por isso, a revelação autêntica de D. ao coração do homem é uma iniciativa exclusivamente divina, iniciativa que o homem pode facilitar, é verdade, dominando suas paixões, mas não solicitar ou provocar. O terceiro ponto de vista foi instaurado pela Patrística, que considerou a revelação cristã como o cumprimento da filosofia grega. Esta é produto da razão, do Logos, que é o primogênito de D., e contém verdades ou germes de verdade que o cristianismo leva ao desenvolvimento pleno (JUSTINO, Apol. séc, 13). O princípio de que a revelação não anula e nem inutiliza a razão dominou toda a filosofia escolástica e foi posto em dúvida só pelas últimas manifestações desta, no séc. XIV. No Renascimento, inverte-se: a revelação não chega no fim, para cumprir a obra da razão, mas a inspira e a sustenta desde o início. A razão só faz transmitir e ilustrar a verdade que D. revelou em tempos remotos. Esse foi, p. ex., o ponto de vista de Pico delia Mirandola e de Giordano Bruno. Em ambos os casos, porém, a obra da razão e a da revelação colaboram, e não são antitéticas.

O deísmo do séc. XVIII, assim como o seu precedente histórico, a doutrina da religião natural dos sécs. XVI e XVII ( Thomas Morus, Herbert de Cherbury, Locke), contrapõe à revelação histórica a revelação natural, que ocorre através da razão, chegando a ver no Evangelho (como Matteo Tindall) apenas "uma republicação da lei da natureza" (O cristianismo antigo como criação, 1730). Obviamente, uma divindade que se revela à razão só tem e só pode ter caracteres racionais; por isso, o deísmo restringe os atributos da divindade aos que podem ser determinados pela razão a partir da relação entre D. e o mundo. Em face disso, o teísmo, como diz Kant, "crê num D. vivo, num D. cujos atributos podem ser determinados por analogia com a natureza e com fundamento na revelação" (Crít. R. Pura, dialética, capítulo III, seç. 7). É preciso, porém, ressaltar que, na terminologia filosófica predominante depois do Romantismo, utilizada sobretudo pelo panteísmo, a "revelação de D." não é um fato histórico, mas manifestação progressiva de D. na realidade natural e histórica do mundo. Além de predominar nas filosofias de Hegel e Schelling, esse significado é importante em filosofias do séc. XIX que obedecem à mesma inspiração. Rosmini apresenta como fundamento da filosofia e, em geral, do saber humano, a idéia do ser, que é revelação direta do atributo fundamental de D. à mente do homem {Novo ensaio, § 1055); de modo análogo, Gioberti considera como base do conhecimento a intuição, que é a revelação imediata de D. ao homem (Introdução, II, p. 46, 1). Essa idéia tem trânsito em doutrinas díspares e também pode ser vista nas que acentuam ao máximo a transcendência de D. e, portanto, vêem sua única revelação possível na inatingibilidade. Essa é a doutrina de Jaspers, para quem o fracasso inevitável do homem em sua tentativa de alcançar a Transcendência é a única revelação possível, a cifra da própria Transcendência (Phil., III, p. 134). DEUS, MORTE DE (in. Death of God; fr. Mort de Dieu; ai. Gottertod; it. Morte di Dio). O anúncio de que "Deus morreu" foi feito por Nietzsche, no sentido de que "a fé no D. cristão tornou-se inaceitável" 04 gaia ciência, 1882, § 108, 125, 343), mas hoje é considerado símbolo da renovação do cristianismo, que precisava libertar-se das estruturas mitológicas e sobrenaturalistas de que se revestira nos séculos anteriores, reencontrando a pureza de sua mensagem. Essa "nova teologia" inspira-se