DEUS, PROVAS DE

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DEUS, PROVAS DE

MITIFICAÇÂO)

substancialmente na obra de Bultman (v. DESe de Bonhoeffer (v. DEUS, 2, b): contrapõe a fé à religião, nega a transcendência de D. (sendo, pois, quase um panteísmo) e transfere para o mundo histórico a esperança escatológica dos primórdios do cristianismo ao afirmar que "D. não é, mas será", no sentido de que se realizará como amor no seio de uma comunidade humana ajustada ao exemplo de Cristo (G. VARTANIAN, Death ofGod, 1961; T. AmzER, The GospelofChristianAtheism, 1967). DEUS, PROVAS DE (in. Arguments for God; fr. Preuves de Díeu; ai. Gottesbeweise, it. Prove diDió). Entenderemos por essa expressão não só as "demonstrações", mas também os indícios ou as indicações que foram consideradas provas da existência de D. Cada uma dessas provas nasceu de determinada concepção de D. e recorre a certo tipo de causalidade, mas cada concepção também se vale de provas extraídas de concepções diferentes, de modo que, via de regra, há certo sincretismo nesse ramo do pensamento filosófico. No entanto, existe um argumento que não se refere a nenhuma concepção de D. em especial, que enunciaremos em primeiro lugar. le O recurso ao consenso comum é uma prova que vez por outra aparece na história da filosofia. Dele se valeu Aristóteles para demonstrar que a divindade reside no primeiro céu, e não tanto que ela existe (De cael., I, 3, 270 b 17). Mas esse argumento foi muito desenvolvido pelos platônicos ecléticos do séc. I a.C, e é provável que Cícero o tenha extraído deles. "Para demonstrar a existência dos deuses, o argumento mais forte que podem aduzir é que nenhum povo é tão bárbaro, que nenhum homem é em absoluto tão selvagem, a ponto de não ter em sua mente indício da crença nos deuses" (Tusc, I, 30). Pode-se considerar equivalente a esse argumento a crença de que a idéia de D. é uma das idéias inatas ou constitutivas da natureza racional humana. Tal foi a tese dos neoplatônicos de Cambridge no séc. XVII (Herbert de Cherbury, Cudworth, Moore), que Locke teve presente em sua crítica do inatismo do Livro I do Ensaio. E foi essa a tese defendida no século seguinte pela escola escocesa do senso comum (Thomas Reid e Dougald Stwart). A afirmação do caráter inato da idéia de D. eqüivale ao recurso ao consensus gentium, porque a presença da idéia de D. em

todos os homens é a única base presumida para admitir o seu caráter inato. 2S O argumento mais antigo e respeitável, e também o mais simples e convincente, é o da ordem ou desígnio do mundo, que, em termos modernos, se chama argumento teleológico ou físico-teológico. Foi ele que convencera Anaxãgoras a admitir a Inteligência como causa ordenadora do mundo. Platão e Aristóteles fazem-lhe referência freqüente. O primeiro diz, p. ex.: "Que a Inteligência ordena todas as coisas é afirmação digna do espetáculo que nos oferecem o mundo, a lua, os astros e todas as revoluções celestes" (Fil, 28 e). E Aristóteles, que repetira esse argumento em seu diálogo juvenil Sobre a filosofia, adaptando-lhe o mito platônico da caverna (os homens reconheceriam a existência de D. assim que saíssem da caverna, só com olhar a natureza) (Fr. 12", Rose), o pressupõe quando compara D. ao chefe de uma casa bem organizada ou de um exército (Met., XII, 10, 1075 a 14). Podemos ler esse argumento na formulação de Fílon: "Se virmos uma casa construída com cuidado, com vestíbulos, pórticos, apartamentos para homens, mulheres e para outras pessoas, teremos uma idéia do artista: não acharemos que foi feita sem arte e sem artesãos. E o mesmo diremos de uma cidade, de um navio, ou de um objeto qualquer construído, seja ele pequeno ou grande. Do mesmo modo, aquele que entrou nesse mundo como uma casa ou numa enorme cidade e viu o céu que gira em círculo e tudo contém, os planetas e as estrelas fixas movidos por movimento idêntico ao do céu, simétrico, harmonioso e útil ao todo, e a terra que recebeu o lugar central... esse homem concluirá que tudo isso não foi feito sem uma arte perfeita e que o artífice desse universo foi e é D." (Ali. leg., III, 98-99). Obviamente, como notava Kant, esse argumento conclui pela existência de um Demiurgo, isto é, do criador da ordem do mundo, e não do criador do mundo. Todavia, foi também utilizado por aqueles que admitem a causalidade criadora de D. Sua força probante reside na noção de ordem, mais precisamente no caráter absoluto dessa noção (v. ORDEM). Esse foi, é e continua sendo o argumento mais simples e popular, mas nem por isso o mais frágil. Stuart Mill procurou expressá-lo de forma mais rigorosa em quatro partes, em conformidade com os quatros métodos indutivos: concordância, diferença, resíduos e variações concomitantes (Three Essays on