DEUS, PROVAS DE

265

DEVER

razão não pode ajudá-lo nessa escolha, que ele considere qual é a escolha mais conveniente como se estivesse diante de um jogo ou de uma aposta em que é preciso considerar, por um lado, o lance e, por outro, a perda ou a vitória eventual. Ora, quem aposta na existência de D., se ganhar, ganhará tudo; se perder, nada perderá: portanto, é preciso apostar sem hesitação. A aposta já é razoável quando se trata de um ganho finito e pouco superior ao lance, quanto mais se o ganho é infinitamente superior ao lance. Nem é preciso dizer que a distância infinita entre a certeza daquilo que se aposta e a incerteza daquilo que se pode ganhar equipara o bem finito, que certamente se arrisca, ao infinito, que é incerto. Todo jogador arrisca a certeza para ganhar a incerteza e arrisca o finito certo para ganhar o infinito incerto sem pecar contra a razão. Num jogo em que houver iguais probabilidades de vencer ou de perder, arriscar o finito para ganhar o infinito é, obviamente, da maior conveniência (Pensées, 233). Essa aposta parece falar mais a língua das mesas de jogo que a da vida moral, mas é preciso observar que Pascal a utiliza unicamente para combater a impotência de crer produzida pelas paixões, e que o resultado dessa prova deveria ser o de "concorrer para convencer, não por aumentar as provas da existência de D., mas por diminuir as paixões". De qualquer forma, é óbvio que semelhante prova só tem validade moral em face do comportamento humano: não tem validade teórica. Esse mesmo caráter é absorvido na prova moral da existência de D. formulada por Kant: para ele, D. é um postulado da vida moral: sua existência é requisito para a realização do bem supremo, da união de virtude e felicidade, que não se verifica na atuação das leis naturais. "O bem supremo no mundo só é possível se admitirmos um Ser Supremo cuja causalidade se conforma à intenção moral... Logo, a causa suprema da natureza, porquanto pressuposta para o bem supremo, é um Ser que, mediante o intelecto e a vontade, é causa (portanto, autor) da natureza, ou seja, é D." (Crít. R. Pratica, I, 1. II, cap. 2, seç. 5). Essa prova, que Kant extraiu das famosas considerações do vigário saboiano, no IV livro de Émile de Rousseau, foi muitas vezes retomada na filosofia contemporânea. Outra forma da prova moral é a apresentada por James, que reformulou a aposta de Pascal (The Will to Believe, cap. I), reafirmando a utilidade e a conveniência da crença em D. com vistas a uma

vida moral ativa e confiante. Nesse aspecto, D. é "objeto mais adequado do nosso espírito". Num universo sem D., a ação moral parece destinada ao insucesso; por outro lado, a ação moral e a fé em D. podem contribuir para reforçar a existência do mundo invisível. "D. pode tirar força vital e acréscimo de ser da nossa fidelidade" (Essays on Faith and Morais, p. 30). 1CF Há, por fim, uma prova formulada de vários modos, que parte de alguns tipos de experiência imediata e privilegiada, interpretados como relação direta com D. Diz Filon: "Mas há uma inteligência mais perfeita e mais purificada, iniciada nos grandes mistérios, que conhece a Causa, não a partir de seus efeitos, assim como se conhece o objeto imóvel a partir de sua sombra, mas que transcendeu o efeito e recebe a aparição clara do ser não gerado de tal modo que o compreende em si mesmo e por si mesmo e não em sua sombra, que é a izào e o mundo" {Ali. leg., III, 100). Plotino e i i.s místicos admitem essa forma de experiência direta de D.; segundo Bergson, ela é a única prova possível da existência de D. A concordância entre os místicos, não só cristãos mas também pertencentes a outras religiões, é "o sinal da identidade de intuição que pode ser explicada do modo mais simples como a existência real do ser com o qual acreditam estar em comunicação" (Deux sources, p. 265). De forma atenuada, esse argumento pode ser repetido no que se refere à busca pura e simples de D.: a própria busca, na variedade dos seus procedimentos e resultados, pode ser uma prova intrínseca da existência, sem que seja, porém, definível ou determinável de modo acabado aquilo que se busca (PAUL WEISS, em Science, Philosophy and Religion, Nova York, 1941, I, pp. 413 ss.). É o que já Pascal dizia: "É prova de D. não só o desvelo dos que o procuram como também a cegueira dos que não o procuram" {Pensées, 200).
DEVER (gr. xò KaGfjKOV; lat. Officium, in.

Duty; fr. Devoir, ai. Pflicht; it. Doveré). Ação segundo uma ordem racional ou uma norma. Em seu primeiro significado, essa noção teve origem com os estóicos, para os quais é D. qualquer ação ou comportamento, do homem ou das plantas e animais, que se conforme à ordem racional do todo. "Chamam de dever", diz Diógenes Laércio (VII, 107-09), "aquilo cuja escolha pode ser racionalmente justificada... Entre as ações realizadas por instinto, algumas