DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO

A criação da primeira "Comunidade", a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) foi o ponto de partida de mais de cinquenta anos de Tratados europeus. Entre 1951 (Tratado CECA) e 2001 (Tratado de Nice), foram assinados nada menos do que dezasseis Tratados. Esta acumulação de Tratados conduziu a uma situação constitucional complexa, dificilmente compreensível para os leigos na matéria. Esses Tratados sucessivos não se limitaram a alterar o texto original, dando antes origem a novos textos que se vieram juntar ao primeiro. O trabalho de reformulação iniciado pela Convenção Europeia e concluído pelos Chefes de Estados e de Governo em Outubro de 2004 sob forma de Tratado Constitucional responde à necessidade, que entretanto se tornou urgente, de consolidar num texto único os Tratados europeus existentes.

A EUROPA DIPLOMÁTICA DO PÓS-GUERRA A cooperação europeia começou por ser apenas o prolongamento de certas alianças militares constituídas durante a guerra. Por exemplo, o Tratado da União Ocidental, de Março de 1948, prorrogava a aliança entre a França, a Grã-Bretanha e a Bélgica. Esta aliança viria a alargar-se e a constituir a União da Europa Ocidental (UEO). Quase simultaneamente, a cooperação europeia era aplicada à economia com a criação, em Abril de 1948, da Organização Europeia de Cooperação Económica, que viria a transformar-se na Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE). Pouco tempo depois, surgia a Europa política com a criação do Conselho da Europa que viria a permitir o alargamento da cooperação europeia a múltiplas formas de actividade política, técnica, social e económica. No entanto, por muito alargada que fosse, esta cooperação continuava a ser um trabalho de colaboração entre Estados. A EUROPA SUPRANACIONAL: CRIAÇÃO DAS COMUNIDADES (1951-1965) A Europa supranacional corresponde a um conceito novo de Europa formulado por Robert Schuman na sua famosa declaração de 9 de Maio de 1950. Esta abordagem, dita funcionalista, destinava-se a criar uma solidariedade efectiva entre os Estados-Membros. A iniciativa viria a criar, na nebulosa europeia, um núcleo duro de Estados, "a Europa dos Seis", e a dar origem às Comunidades Europeias.

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a questão da cooperação política entre os Estados-Membros regressa à ribalta. A CEE congrega os seis países já membros da CECA e tem por objectivo a integração através do comércio tendo em vista a expansão económica. A CEE cria um mercado comum e uma união aduaneira e prevê políticas comuns (agricultura. nestes domínios. Em súmula. assinados em Março de 1957. a CECA continua a limitar-se ao domínio da economia com a instituição da Comunidade Económica Europeia e da Comunidade Europeia da Energia Atómica.Comunidade Europeia do Carvão e do Aço . A Alta Autoridade e o Conselho de Ministros ficaram responsáveis pela tomada de decisões. em 1954. a Itália e os países do Benelux. Os Estados-Membros passaram a estar sujeitos a órgãos supranacionais cujas competências se limitavam aos domínios do carvão e do aço. cabendo à Assembleia Parlamentar um papel essencialmente consultivo. A Comunidade Económica Europeia (CEE) e a Comunidade Europeia da Energia Atómica ou Euratom (1957) Após o fracasso da Comunidade Europeia da Defesa (CED). mas existe ainda uma duplicação de esforços e torna-se necessária a sua unificação. do poder de adoptar decisões e de as impor àqueles Estados. Em 1961. mais conhecida por Euratom. embora dispusessem. velar para que todos os Estados-Membros possam beneficiar do desenvolvimento da energia atómica e garantir a segurança do aprovisionamento. O malogro do plano Fouchet (1961) Apesar do fracasso da Comunidade Europeia da Defesa. A Euratom é constituída exactamente pelos mesmos Estados-Membros. um diplomata francês. a Alemanha. destinada a organizar a livre circulação do carvão e do aço. O Tratado de Bruxelas de 1965 funde os executivos das três comunidades numa só "Comissão das Comunidades Europeias" e instaura um Conselho único que substitui os Conselhos das três comunidades. Paralelamente. a partir de 1957 passam a coexistir três comunidades distintas. Estas duas Comunidades são criadas pelos famosos "Tratados de Roma". O Tratado de Paris criou a CECA por um período limitado de 50 anos. comércio e transportes). o Tratado garante um elevado nível de segurança da população e impede o desvio de materiais nucleares para fins diferentes daqueles a que se destinam. O seu objectivo é contribuir para a formação e o crescimento da indústria nuclear europeia. Na sequência dos trabalhos. As três comunidades já dispõem de instituições comuns. em 23 de Julho de 2002.CECA (1951-2002) A primeira concretização da nova tentativa de integração foi a constituição da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA). assiste-se a um autêntico questionamento dos princípios fundamentais da construção europeia. uma comissão intergovernamental presidida por Christian Fouchet. A resistência das soberanias à construção europeia aumenta. Esta Comunidade era constituída por seis Estados: a França. AS CRISES E A RESISTÊNCIA DAS SOBERANIAS (1961-1970) Durante este período. essa comissão propõe a criação de uma União com o objectivo de instaurar uma política externa DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO 2 . portanto. Os partidários de uma Europa das nações recusam a concepção supranacional das Comunidades. é encarregada pelos Seis de elaborar propostas concretas para promover a União política. A CECA caducou. bem como o livre acesso às fontes de produção.

que corria o risco de esvaziar de conteúdo o carácter supranacional das instituições comunitárias existentes. que conduziu. juntamente com a Dinamarca e a Irlanda. Em 1981. a construção comunitária regista progressos concretos: • • • • Afirmação do papel das reuniões dos Chefes de Estado e de Governo. ao financiamento da política agrícola comum. a partir de 1974. para resolver o problema da instabilidade monetária. A construção comunitária prosseguiu durante a década de 70. A Grã-Bretanha adere às Comunidades Europeias em Janeiro de 1973.comum e uma política comum de defesa. Instauração. que obrigaram a Comunidade a reflectir sobre o seu futuro. que assentava na existência de uma unidade de conta comum. em 1978. o relatório do "Comité dos três sábios" (1978). à realização de "Conselhos Europeus" três vezes por ano. relativos às disposições orçamentais e financeiras que permitem chegar a um acordo sobre o regime das finanças comunitárias (sistema dos recursos próprios e execução do orçamento). para retomar o seu lugar. Esta crise foi ultrapassada graças ao compromisso do Luxemburgo (Janeiro de 1966). Três objecções conduzem ao malogro das negociações no quadro deste plano: a incerteza quanto à participação da Grã-Bretanha. contam-se os relatórios Davignon (1970) e Tindemans (1975). • DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO 3 . a partir das eleições de 1979. assistiu-se aos primeiros alargamentos das três Comunidades a novos Estados-Membros e a dinâmica comunitária foi relançada graças a decisões concretas. opondo-se a um conjunto de propostas da Comissão relativas. seguida da Espanha e de Portugal em 1986. embora tenha sido acompanhada de duas grandes crises mundiais: a crise do dólar e a crise do petróleo. respeitando os seus interesses mútuos. Este episódio da História da Europa ficou conhecido pela "crise da cadeira vazia". é a vez da Grécia. Foram empreendidos múltiplos trabalhos. nos termos do qual sempre que estejam em causa interesses muito importantes de um ou mais países. Entre os mais importantes. do Sistema Monetário Europeu (SME). Paralelamente a este trabalho de reflexão que prenuncia já o Acto Único. Tratados de 1970 e de 1975 e Decisão de 1985. os membros do Conselho devem procurar chegar a soluções que possam ser adoptadas por todos. Recurso ao artigo 235º do Tratado CEE para alargar os domínios de intervenção da CEE. o projecto Spinelli (1984) e o Livro Branco sobre a realização do mercado interno (1985). exigiu um acordo político sobre o papel da Comissão e a votação por maioria. o ECU. designadamente. A crise da cadeira vazia (1965) A partir de Julho de 1965. OS PRIMEIROS ALARGAMENTOS E O RELANÇAMENTO (1970-1985) Durante este período. as divergências sobre a questão de uma defesa europeia que aspire à independência em relação à Aliança Atlântica e o carácter excessivamente intergovernamental das instituições propostas. a França deixou de participar nas reuniões do Conselho e. Eleição do Parlamento Europeu por sufrágio directo e universal.

as Comunidades e a Política Externa e de Segurança Comum (PESC). a criação de novas políticas (educação. O Acto Único propõe várias reformas destinadas a facilitar essa harmonização. começou a sentir-se a necessidade de mais um relançamento. No plano institucional. Oficializa a existência do Conselho Europeu e consagra a prática da cooperação em matéria de política externa. de acordo com o chamado método comunitário. Estes dois pilares estabelecem uma cooperação de tipo intergovernamental que recorre. que requeriam a unanimidade a nível do Conselho para se poder proceder à harmonização das legislações. O TRATADO DE MAASTRICHT E A CRIAÇÃO DA UNIÃO EUROPEIA (1992) O contributo do Tratado de Maastricht foi importante porque assinalou uma viragem na construção europeia. Assim. Por último. o papel do Parlamento Europeu é reforçado graças à instauração de um procedimento de co-decisão em certas matérias e à sua participação no processo de nomeação da Comissão.O ACTO ÚNICO: PRIMEIRAS REFORMAS IMPORTANTES (1986) Progressivamente. Este Tratado esteve na origem da famosa "estrutura em pilares". Para realizar estes progressos. Estabelece como objectivo primordial a realização do mercado único até 1 de Janeiro de 1993. as principais inovações são o lançamento da União Económica e Monetária. nomeadamente a associação da Comissão e a consulta do Parlamento Europeu. O primeiro pilar é constituído pelas Comunidades já existentes e o seu funcionamento assenta nas instituições. a CEE passou a designar-se Comunidade Europeia (CE). no entanto. cultura) e a aplicação do princípio da subsidiariedade no controlo do exercício das competências. foi necessário instaurar uma certa diferenciação entre os Estados-Membros. começava a tornar-se evidente que seria muito difícil concluir a realização do mercado interno com base nos tratados existentes devido. o mesmo sucedendo com a Dinamarca. bem como a cooperação nos domínios da justiça e dos assuntos internos (JAI). No domínio comunitário. De facto. o Reino Unido não participa no protocolo social e continua a poder decidir sobre a sua participação no euro. através do exercício comum das soberanias nacionais. O Tratado de Maastricht reúne sob o mesmo tecto a União Europeia. posteriormente concretizada através da decisão tomada em 1998 de instaurar uma moeda única (o euro). O segundo pilar é constituído pela PESC (Título V do Tratado da União Europeia) e o terceiro pela JAI (Título VI do Tratado da União Europeia). nomeadamente nos domínios económico e monetário. Com o Tratado de Maastricht. o que exprime a vontade dos signatários deste Tratado de alargarem as competências comunitárias a domínios não económicos. ou seja. às instituições comuns e apresenta certos elementos supranacionais. do ambiente e da investigação. a instituição de uma cidadania europeia. um protocolo social alarga as competências comunitárias no domínio social. permite o recurso à votação por maioria qualificada num maior número de casos. bem como o reforço do papel do Parlamento Europeu (criação de um procedimento de cooperação) e o alargamento das competências comunitárias. A ratificação DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO 4 . nomeadamente .às suas disposições institucionais. Por outro lado. que passou a assumir uma dimensão política.

O TRATADO DE NICE (2001) O Tratado de Nice diz essencialmente respeito ao que ficou por decidir com o Tratado de Amesterdão. o processo de alargamento da União aos países da Europa Central e Oriental. o combate à fraude e a cooperação aduaneira. a simplificação dos instrumentos de acção da União. torna-se igualmente evidente que a arquitectura da União deve ser definida de forma global e estável. a institucionalização formal do Conselho Europeu. O TRATADO QUE ESTABELECE UMA CONSTITUIÇÃO PARA A EUROPA (2004) O Tratado Constitucional europeu. do Conselho e da Comissão. a criação do cargo de Ministro dos Negócios Estrangeiros europeu. frequentemente denominado. logo após a assinatura deste Tratado que foi possível abrir. do Parlamento e votação no Conselho) a fim de preservar o carácter democrático e a eficácia de uma estrutura que passaria a integrar mais de vinte membros. a incorporação da Carta dos Direitos Fundamentais. a imigração. "Constituição". que será presidido por um presidente eleito DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO 5 . a definição clara das competências. pela primeira vez. a passagem das fronteiras externas. foi proclamada durante a Cimeira Europeia de Nice pelos Presidentes do Parlamento Europeu. elaborada por uma Convenção. O Tratado de Amesterdão possibilitou progressos significativos. como o asilo. à Finlândia e à Suécia em 1995. este Tratado reforça os poderes do Parlamento através da extensão do procedimento de co-decisão e dos seus poderes de controlo. a possibilidade de um Estado-Membro se retirar da União. Este texto consolida 50 anos de Tratados europeus. disposições que permitem que vários Estados-Membros recorram às instituições comuns para estabelecer entre si uma cooperação reforçada. Trata-se da composição da Comissão. O TRATADO DE AMESTERDÃO (1997) Os anos que se seguiram à entrada em vigor do Tratado da União Europeia foram assinalados pelo alargamento da União à Áustria. a fim de lhe permitir funcionar de modo coerente após o alargamento. O método comunitário passou a ser aplicável a importantes domínios até então abrangidos pelo 3º pilar. tais como a atribuição de personalidade jurídica à União. Por outro lado. em 1998. o que constitui uma prova de que este Tratado representa um passo decisivo para a Europa que assumiu assim uma dimensão política. a Constituição introduz igualmente muitas novidades. ou seja. os problemas institucionais ligados ao alargamento que não foram solucionados em 1997. Foi esta evolução que conduziu à criação da Convenção Europeia e à elaboração da Constituição. de forma mais sintética.do Tratado de Maastricht não foi fácil. Permitiu alargar as competências da União e colocou a tónica no objectivo de um nível de emprego elevado e na coordenação das políticas de emprego. Para além desse trabalho de consolidação e simplificação dos textos. revoga e substitui por um texto único todos os Tratados em vigor. O Tratado de Amesterdão prevê. a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia. Prevê igualmente a abertura de novas negociações para proceder às reformas institucionais necessárias na perspectiva do alargamento (composição da Comissão. Após o Tratado de Nice. de resto. com excepção do Tratado Euratom. Foi. da ponderação dos votos no Conselho e do alargamento dos casos de votação por maioria qualificada. Este Tratado tornou igualmente mais fácil o recurso às cooperações reforçadas e mais eficaz o sistema jurisdicional. Além disso.

O Tratado Constitucional foi assinado em Outubro de 2004 e deverá entrar em vigor em 1 de Novembro de 2006. a supressão da estrutura em pilares e a extensão do âmbito da votação por maioria qualificada no Conselho e do processo legislativo ordinário (co-decisão). Estes textos não vinculam juridicamente a Comissão Europeia. diversas alterações das políticas vigentes. após a respectiva ratificação por todos os Estados-Membros. a definição de um novo sistema de maioria qualificada para a votação no Conselho.por um período de dois anos e meio. não pretendem ser exaustivas e não têm qualquer valor interpretativo dos textos da Constituição DO TRATADO CECA À CONSTITUIÇÃO 6 .