EDUCAÇÃO E PRAZER Rubem Azevedo Alves Este é um momento muito importante para mim, porque estou entrando na idade

do sexo: vou ficar sexagenário. O filósofo dinamarquês Kierkgaard afirmou que é obrigação de cada filósofo dizer para seus leitores sua idade porque, quando um jovem e um velho dizem a mesma coisa, suas palavras têm ou podem ter sentidos completamente diferentes. Queria compartilhar com vocês minhas reflexões sobre “estar ficando velho” e o que seria pensar na criança a partir desse tempo. Quando ficamos velhos, reencontramo-nos com a infância. Descobri que estava ficando velho quando, um dia, tomei um metrô lotado em São Paulo. Eu, jovem, me segurei no balaústre e, muito feliz, me entreguei a um dos meus esportes favoritos: olhar a cara das pessoas. É fascinante. A gente olha para a cara das pessoas e fica imaginando: “Como será que ele faz amor com a mulher dele? O que será que ele como no domingo?” Comecei a olhar para um e para outro e a fazer minha leitura. Até que meu olhar bateu numa moça que tinha o mesmo esporte que eu: ela estava olhando para minha cara, certamente se fazendo as mesmas perguntas que eu fazia sobre ela. Não desviei meu olhar, nem ela. Ficou assim parada, com um sorriso muito discreto. Era uma moça bonita. Eu, olhando-a nos olhos, dirigi-lhe um leve sorriso. Houve aquele momento de suspensão romântica, de encantamento...Aí ela se levantou e me deu o lugar. “Miséria, por que ela não me fez uma grosseria, me mostrou a língua ou me fez um gesto de afronta qualquer?” Naquele gesto ela me revelou uma distância: eu não era do mundo dela. Levei um choque, tive de sorrir para ela, agradecer e assentar minhas pernas trôpegas. Nesse momento, percebi que estou ficando velho e tive de elaborar esta idéia: a imagem de mim mesmo velho. As imagens são muito perigosas. Num desenho de Picasso, aparece uma moça matando um monstro horrendo que a ataca. Ela lhe mostra o espelho e o monstro morre. Os espelhos são muito perigosos. Num de seus ensaios, Jorge Luis Borges diz que os espelhos nunca devem ser colocados num lugar em que a pessoa se veja sem desejar. Vocês já tiveram a experiência de deparar com um espelho num lugar inesperado e levar um susto? Somos assustadores para nós mesmos, porque a imagem fantasiada que fazemos de nós não combina com a imagem visual revelada pelo espelho. Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, no Grande Sertão, diz que o segredo para transformar um covarde num valentão é você chegar para ele e dizer: “Faz cara de ruindade, faz cara de braveza”. Quando ele está com aquela cara de braveza, de ruindade, você mostra o espelho e ele fica valente.
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mas espero que vocês se lembrem da primeira lição de poesia do filme Sociedade dos Poetas Mortos. no espaço. eu fico ofuscado. você não sabe quando o fruto vai cair. não do que falei. Foi diante desse quadro que ele deu a seus alunos a lição suprema da vida. que nos digam. Para isto nós vivemos. Imagino que esse fruto é um caqui e não uma maçã. Vamos botar um pouco de neblina no seu texto.A imagem tem um grande poder. É possível comer uma maçã. ganham as suas cores solenes de um olhar que tem atentamente vigiado a mortalidade humana”.Eu achava que ele era maluco. vê um pôr-do-sol. uma outra coisa sobre a velhice. esquecemos. Pode parecer estranho falar sobre isso num congresso de educação. Colha. O único objetivo de tudo que a gente faz é muito simples: há um dia que é fruto a ser colhido. Coisa importante para um professor. ele levou seus alunos para ver um quadro de pessoas que já haviam morrido. Num poema. Não é isso que o crepúsculo anuncia? Que a gente vai mergulhando no escuro? Woodworth diz. educação. O olhar é poderoso. para isso se faz tudo na vida: política. adultos. mas não é possível comer um caqui. mas como é que a gente voa quando começa a pensar!” Aliás. que nos desejam. Quando olho para vocês. Aí ele me dizia: “Você não sabe que um texto obscuro é melhor do que dois claros?” Na penumbra. O pôr-do-sol é belo e é triste. para quem eu levava os meus textos. no olhar. Encontrei a imagem do crepúsculo. textos do antigo Rubem. Riram. ciência. Foi isso que aconteceu agora: durante minha interrupção. em verso: “E o meu lábio zombeteiro faz a lança dele refluir”. sério. porque ele tem a ver com a mortalidade. Caqui é meio sacana. Nós somos espelhos uns para os outros.Ele olhava os meus textos e dizia: “Tem luz demais. Não agüento lê-lo”. surge a possibilidade de a gente fazer a própria fantasia. como dizem os textos sagrados. lição que nós. O que a gente pede constantemente às pessoas é que elas nos olhem com olhar manso. Vamos dizer que ficar velho é tomar conhecimento da proximidade da morte. O olhar de um professor pode castrar um aluno. Somos como pôr-do-sol. porque é espelho da gente. E a gente está perdido de novo”. Fiquei com medo da imagem da velhice e tratei de procurar belas imagens que me reconciliassem com ela. espelho-me no rosto de vocês. vocês riram. rendi com um amigo meu. Borges diz: “A gente se vai solidamente andando pela rua e. mas do que não falei. num poema: “As nuvens que se ajuntam em torno do sol que se põe. Isso faz parte da felicidade do pensar! “O pensamento é uma coisa à toa. Adélia Prado diz. de repente. se alguém 2 . poeta. Riram com a emergência da própria fantasia. Ficar velho é começar a viver sob a luz crepuscular. Basta o olhar zombeteiro de uma mulher para fazer refluir a lança de um homem. mas que a criança nunca esquece: carpem diem. que significa “colha o dia”.

Assim.Temos que ter a coragem de parecer tolos.Você toma consciência das coisas realmente importantes. a alegria. diz: “eu sempre viajei com um pára-quedas. Mas. O da gaiola é aquele certinho. A gente fica mais simples. com o cair da noite. O que é um dentista senão uma ferramenta especializada em mexer com dentes? Um médico. dirse-ia. Toda criança tem que deixar de ser um corpo humano e se transformar numa ferramenta. Há dois tipos de pensamento: o que vem na gaiola e o que está no vôo.Vocês precisam ter ousadia. Heidegger diz que quando a gente se defronta com a morte experimenta a liberdade. jovem ainda. Adoro ler diários porque pegam o pensamento no vôo. Parece que digressão não pode ser 3 . Você pega a criança.E no final. Se eu fosse viver de novo. simplifica as coisas. A coragem de ser tolo significa estar livre. Essas reflexões sobre ficar velho fizeram com que um dos meus escritores favoritos. mói a carne e sai lingüiça na outra ponte. não é um bom cientista. é como se descobrissem qual é o seu destino. Hegel dizia que a sabedoria só vem quando a coruja de Minerva abre suas asas ao cair da tarde. numa definição. o do vôo é aquele “tchan”. Carpem diem. seria ainda mais tolo do que fui”. Freqüentemente eu tenho a fantasia de que as escolas são máquinas de moer carne. prêmio Nobel. dizia para um outro físico: “Tenho uma teoria louca. lá no norte da África: “O vôo das aves ao meio-dia. Borges. Num texto famoso. Borges fala das coisas que faria se tivesse outra vida para viver: “Nadaria mais rios. com um guarda-chuva e um termômetro. Roland Barthes. Barthes dizia que seu método de pensamento era a digressão. Tudo igual. a morte? A única coisa que as escolas querem fazer com as crianças é transformá-las em ferramentas. há uma reflexão sobre o prazer. Pauli. Onde. enfia de um lado. o gozo. talvez. começa a tomar consciência da bobajada em que se envolveu durante a vida inteira. eu diria apenas que é a única finalidade. a vida é um fruto a ser comido. inclusive na ciência. tudo pensando do mesmo jeito. Elas voltam. ele termina: “Eu tenho 85 anos e sei que estou morrendo”. nas nossas escolas.Lembro-me do diário de Camus. A coragem de fazer tolice é importante. ou com o que vocês imaginarem. é ensinar às crianças a alegria de pensar. uma ferramenta especializada em mexer com o coração. os genitais. entrasse na interlocução. seja no anoitecer da vida”. Quando a gente fica velho. O cientista que não tem coragem de fazer tolice. O que acontece é que a pessoa fica destruída. viajaria mais leve”. de pensar tolice. conheceria mais cachoeiras. só não sei se ela é louca o suficiente para merecer meu crédito”. o que é educação. Elas voam em todas as direções. A morte cria na gente uma perspectiva diferente. tomaria mais sorvetes. no seu texto. é como se não tivesse uma direção.me pedisse para resumir.

No final. Ficando velho. como que está passeando na floresta. porque somente quando a gente fica inconsciente é que realmente sabe. vê que não vai ler mais todos eles e então começa a purificar sua biblioteca.. Você diz seu nome e não precisa dizer mais nada. depois. coisas que são muito importantes para que elas não precisem pensar. mas como alguém que olha para um lado. sem arrebentar a casca. para libertá-las do peso do pensamento. ensina a criança a dar nó no sapato. Mas não serve casca grossa. não por uma trilha. Barthes dizia que. porque método é uma coisa retinha. É um conhecimento parecido com a córnea: você vê através dela. a gente tem seis tijolos e uma tábua onde põe uma lista telefônica e um livro. uma orquídea. mas pelo desafio.método. mas não a enxerga. faz estantes e mais estantes. Pego a laranja e descasco. você olha para aquela livraria toda. a rodar pião. no texto da aula inaugural do Colégio França.. Agora. a gente ensina o que sabe. a escovar os dentes. Agora. você começa a aumentar o seu curriculum vitae – uma. a somar. É como acontece com os currículos na primeira fase você só tem o seu nome. Brinco com meu amigo Paulo Freire: “Você fica falando da teoria da conscientização. Quando foi ficando velho – e velho para ele era ser mais novo do que eu – Barthes.não resiste à tentação de ir. ouve o barulho de uma cachoeira. Aprendi a descascar laranja com meu pai. Nietzsche dizia que a experiência de poder. Na primeira fase. descobri que esse é também o caminho das bibliotecas. na terceira. não: era o prazer de descascar laranja. de sua mãe e o seu endereço. dez páginas. Quem vê a córnea é cego. que ele dependurava em cima do fogão de lenha para secar e ajudar a acender o fogo. ele não podia ir em linha reta. Aí a gente começa a comprar livros. vê uma borboleta que não se escondeu. é muito fácil. três. No princípio eu precisava pensar. não tenho a menor idéia da gramática. Eu me tornei inconsciente do conhecimento porque ele passou a fazer parte do meu corpo. Fiz um vídeo educativo que é uma meditação sobre o ato de descascar laranja. é caminho. Ficava encantado de ver como meu pai descascava laranja: sem ferir. os livros que me são importantes cabem em três prateleiras. para chegar ao lugar aonde queria. a alegria 4 . E. não só para chupá-la. É como se a laranja olhasse para mim e dissesse: “Veja se você pode comigo!” Aceito o desafio. as três fases de Barthes na vida de professor: na primeira. o nome de seu pai. Foi assim que aconteceu comigo. eu estou pregando a teoria da inconscientização”. O que é fácil demais não fascina. começa a encher paredes e mais paredes com livros. duas. na segunda. fala de três fases da vida. Acontece assim com a linguagem quando falo. Não tem graça.Precisamos ficar inconscientes. seu currículo tem apenas o seu nome. O pensamento tinha que ficar meio solto. cem artigos publicados.

dizia: “Hoje. Um filósofo do século XVIII. No final do texto. A vida é para ser conhecida. Litzberg. Na primeira fase o professor ensina o que sabe. em latim. sentir de novo do jeito que eu esqueci. Barthes afirma que a terceira etapa da vida é o momento de desaprender. aquele que prova o fruto. e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos. Quando você ensina.Procuro despir-me do que aprendi. você lhe dá coragem para ir àquele mar e explorá-lo. É uma das experiências mais bonitas. Barthes fala sobre o que se encontra após o esquecimento: sapientia. É como fazer um gol. fez mapas dos mares que conheceu. O sábio é um degustador. É este o objetivo maior da vida: o prazer. se constroem universidades a fim de estabelecer um novo conhecimento.Isso se chama ensinar a pesquisar. seus perigos. o deixar-me levar pela força de toda vida viva: o esquecimento”. mas para ver preciso desaprender a maneira de ver que me ensinaram”. de resolver um problema de matemática. está dando à criança esse poder. Ao orientar um aluno numa pesquisa. Na segunda. O objetivo da justiça social. O verbo sapere. pois. Alberto Caeiro diz: “A única coisa que importa é ver. Sapientia significa literalmente ciência saborosa. “Empreendo. Raspar. raspar. ensina o que não sabe. de rodar um pião. Para 5 . significa ao mesmo tempo saber o sabor. por exemplo. É para ser fonte de prazer. O professor ensina a seus alunos sobre aquele mar. ensinar ao aluno a ir a lugar onde nunca fui. é criar um espaço de liberdade no qual o prazer seja possível. Barthes define a missão de professor na idade do esquecimento: nenhum poder. não conheço. o professor diz: “naquele mar eu nunca fui. um pouco de sabedoria e o máximo de sabor possível. Pensem sobre isso.de poder fazer alguma coisa. O esquecimento é uma libertação. Eu sonho com o momento em que sejam construídas a fim de instaurar antigas ignorâncias”. é um dos prazeres da educação. Seja o poder de descascar uma laranja. e esse poder tem de dar alegria. Não há formas seguras de fazer essa navegação. Procuro raspar de minha pele as camadas de verniz que foram sendo depositadas. que escrevia muito sob a forma de aforismos. Ao elaborar esse tema. não pensem que é loucura. raspar para que? Raspar para que eu possa ver de novo. mas posso ensiná-lo a ir por esse mar aonde nunca fui”. que é a alegria do poder. mas para ser degustada. procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram. e é preciso que o professor saiba disso. Quando um aluno lhe diz que queria navegar naquele mar. não com a cabeça. Sabem como é que a gente ensina o que não sabe? Imagine um navegador: ele navegou. por todos os lados. você lhe dá coragem de cometer erros.

o conhecimento será completamente destruído.Façam uma análise científica do beijo. para Santo Agostinho. Mas Santo Agostinho nos diz que os objetos da ordem da utilidade não nos dão felicidade. o caro. Onde fica a educação? Acho que a educação fica nas duas feiras. a dos utensílios. A primeira é a “feira de utilidades”. é inútil. os objetos que são pontes. É um negócio grotesco: duas bocas pregadas uma na outra. à pura contemplação. para isso a gente luta.. inúteis porque você não usa aquilo para outro fim. é perda de tempo. O conhecimento é uma ferramenta que me permite fazer coisas.. estão o relógio. Transmite doença. O modo de pensar ocidental é deformado pela filosofia instrumental. todas as pessoas são sérias. O que me dá felicidade é o poder de ler o poema. Todas as coisas que trazem a felicidade são inúteis. Na outra feira. melada.. O objetivo da vida é chegar à inutilidade. 6 . Na feira da utilidade. Você já chegou. Que coisa mais esquisita. É como uma panela para eu cozinhar meu frango ao molho pardo. Porque não descobriram qual é o objetivo da vida. vitaminas. Eu já escutei mais Beethoven do que o próprio Beethoven. Ninguém faz um frango ao molho pardo porque é isto ou aquilo. mas se ficar apenas na concepção do conhecimento como um instrumento. Pode parecer esquisito eu falar de prazer quando há tanta gente morrendo de fome. aquela pimentinha. todos os objetos da vida fazem parte de uma de duas feiras. como matérias de mestrado. Mas o que querem os meninos de rua que estão morrendo de fome? Não é a alegria de brincar? Santo Agostinho será agora invocado para justificar minha filosofia do prazer. utilidades. a panela. mas não é nada disso. uma coisa inútil. para não ter dor. Um dietista diria que ele tem hidratos de carbono. O útil é aquilo que você se serve para chegar a nenhum lugar. Mas o poema ou o frango ao molho pardo. aquele anguzinho. e fica lá beijando. antes de mais nada. Porque o conhecimento é. aquela couve. a feira da fruição. Para isso se faz a ciência: para dar prazer.isso fazem as revoluções. O cientista é um grande cozinheiro. os poemas que não servem para nada. ao puro deleite. de energia.Beija-se porque é gostoso dá cada calafrio! Ou cada “calaquente”. o alicate. usados para fazer alguma coisa. na nossa cultura. Por isso. estão as sonatas de Mozart.. para escutar música. você quer ficar lá. Nesta.. se a gente pudesse usar essa expressão. os velhos têm horror à inutilidade: querem continuar a ser vassouras. Você podia estar se dedicando a coisa mais séria. chamada das inutilidades. Para ele.. alicates.Para que serve um beijo? Que coisa mais inútil é um beijo. ao puro gozo. A gente faz o frango pelo prazer: aquele frango. Qual a utilidade de um frango ao molho pardo. portanto.

Sedutor porque ele não tem nenhum argumento para obrigar o menino a aprender matemática. é para passar no vestibular. Esta é a delícia de ficar velho: eu aqui dizendo essas doidices e vocês não podem fazer nada comigo. quando você sonha. então o professor deixará de ser um feitor e passará a ser um sedutor. Um país é feito de sonhos. primeiro você tem um sonho. você libertaria a educação. que o fizesse sonhar. restaurar a educação a sua condição de fim. Se não existisse o vestibular. A Pietà começou no sonho de Michelangelo. vem a banda tocando um sonho enorme e cada um larga seu soinho e começa a seguir a banda. O Grande Sertão começou no sonho de Guimarães Rosa. Demitir-me? Eu sou aposentado. pensa o pai. E como é bonita esta sedução: a sedução da felicidade de aprender.Um dos meus ideais como educador é transformar o vestibular num sorteio. enquanto as disciplinas estão na ordem da utilidade. Somos castelos com mil quartos. têm prazer. Há muitas inteligências adormecidas. Aí surgem os absurdos dos questionários e dos exames. Só aprendemos literatura quando descobrimos que ela é inútil. Pensem nisto: restaurar a educação a sua condição de inutilidade significa. ler Guimarães Rosa para passar no vestibular. que é uma teoria política.. “Preciso colocar meu filho no Pitágoras para ele passar no vestibular”. você explode. e com o conhecimento aparece resposta para cada sonho. e o sonho chama o conhecimento. Essa é a concepção instrumental do conhecimento: aprender Matemática.. na filosofia agostiniana. Cada um no seu sonho é pequenino e. No sonho começa o frango ao molho pardo e. E isso virou povo porque tem um sonho em comum. O mundo começa nos sonhos. São as nossas inteligências. Santo Agostinho definiu um povo como um conjunto de pessoas racionais. Não existe o aluno burrinho. Chico Buarque fala disso na sua música A Banda. No momento. não de meio. ele é a maior força determinante de nossas escolas. Mas quando as disciplinas passarem para a categoria do prazer. unidas pelo mesmo sonho. ou seja. Não houve foi um professor capaz de acordá-lo. dentro de cada quarto existe uma bela ou um belo adormecido. Insisto em que a educação seja restaurada a sua dignidade de coisa inútil. que somos sonhos encarnados. Então ele tem de seduzir o menino a aprender matemática. A feira da inutilidade começa no sonho: a Nona Sinfonia de Beethoven começou no sonho de Beethoven. pode-se instaurar uma pedagogia do medo. Porque é divertido. É claro que isso vai criar um problema seríssimo para o professor porque. Na psicanálise nós acreditamos nisso. Dentro de cada um existe um belo sonho adormecido e uma das tarefas do educador é fazer acordar esse sonho. de repente. As crianças iriam ler ou aprender matemática porque. 7 . E é assim.

nos últimos anos. é restaurar nos nossos alunos a capacidade de sonhar. então. Notem que esses três momentos foram patrocinados por homens marcados para morrer. a capacidade de sonhar. nos adolescentes. Todo mundo acredita no homem que está para morrer. Quando existe pureza. por que haveria de caminhar? Eu diria que a grande tarefa da educação. Que político no Brasil hoje tem o poder de fazer o povo sonhar? É isso que eu vejo em vocês professores.Cadê os nossos sonhos. Eu tive a felicidade de ter sido de uma geração que sonhou. neste momento. _______________________________________________________________ Síntese da palestra proferida no II Congresso de Qualidade de Educação 8 . Vejo nos moços de agora a perplexidade: eles não sonham mais. viramos povo. nós temos a capacidade e a condição de fazer o jovem sonhar. neste momento. podemos ter a esperança de que o Brasil será um país mais bonito do que é agora. mas o que é qualidade? Saber tudo o que se pede para passar no vestibular? A grande tarefa dos educadores. nós podemos sonhar. tivemos um sonho: no das Diretas Já. Vocês têm a capacidade de fazer o povo sonhar de novo. não é a administração. Nenhum deles queria coisa alguma. Em três momentos. Existe só um bando de gente. E isso é uma coisa que o professor pode fazer. Acho que o Brasil. A grande esperança que nós professores temos é a de recuperar a nossa dignidade e compreender que somos o início do mundo. caminhando e cantando a mesma canção. é restaurar nas crianças. não tem povo. minha gente? Foram-se. Nossos sonhos morreram e precisamos restaurá-los. que não deu certo. O homem que vai morrer é puro. O grande desafio do nosso Brasil de hoje não é a inflação. E se você não sonha. Diz o texto bíblico que o mundo começa com a palavra. Nesses três momentos começamos a sonhar juntos. Qualidade é importante. na morte do Tancredo e no cruzado do Funaro. nestes últimos anos. por que haveria de estudar? Se você não tem fantasia de uma terra prometida. Nós temos a palavra.