SEGUNDA SEÇÃO OS SOCRÁTICOS MENORES 4 , estais /, 4 nem ao outro a À.

Este é o meu ÀO que continuaram Á homens e, confutando Á e intrépidos, de modo a esquemas da tradição moral 0 mas é também verdade y Kat de Sócrates, teve a ventura de XaÀciuí?y de tal riqueza e variedade de orien “Ser que se formaram sob o seu magistério. de Sócrwes, 39 c Todos OS testemunhos e fragmentos 4 menores foram recolhidos numa excelente edição por O. i( Re/iquiae, 4 vols.. Edizioni deIl’Ateneo, Roma 1983-1985, casa editora Bibliopolis de Nápoles. A esta nos referiremos de 4 e Sistemática. / 1. O CIRCULO DOS SOCRÁTICOS E AS ESCOLAS SOCRÁTICAS MENORES Na Apologia, Platão põe na boca de Sócrates, dirigindo-se aos juízes que o condenaram, uma afirmação (à qual já nos referimos) que, naquele momento do processo, queria ser uma profecia, mas, no mo mento em que Platão a escreve, já era realidade. Eis toda a passagem: Mas a vós que me haveis condenado quero fazer uma predição, e dizer aquilo que acontecerá depois. Eu já estou naquele limite no qual mais facil mente os homens fazem predições, quando estão para morrer. Eu digo, ó cidadãos que me matais, que uma vingança recairá sobre vós, logo depois da minha morte, muito mais grave do que aquela que cometeis ao matar-me, Hoje fazeis isso na esperança de vos libertardes do dever de dar conta da própria vida; e, ao invés, passar-vos-á todo o contrário: eu vo-lo digo antecipadamente. Não mais apenas eu, mas muitos vos pedirão contas: todos aqueles que até hoje eu moderava, e vós não percebestes. E serão tanto mais obstinados quanto mais jovens; e a vossa irritação será tanto maior. Pois se pensais que, matando homens, impedis que alguém vos repreenda pela vossa vida não reta, estais enganados. Não, não é este o modo de se libertar deles; e nem é possível nem belo; mas há outro modo belíssimo e muito

fácil, em vez de caçar ao outro a palavra, esforçar-se por ser sempre mais virtuosos e melhores. Este é o meu vaticínio para vós que me haveis condenado; e aqui termino Com efeito, não só é verdade que os discípulos, que continuaram a obra socrática, submeteram a exame a vida dos homens e, confutando -lhes as falsas opiniões, foram numerosos e intrépidos, de modo a subverter, com as suas doutrinas, todos os esquemas da tradição moral à qual se apegaram os acusadores de Sócrates; mas é também verdade que nenhum filósofo, antes ou depois de Sócrates, teve a ventura de ter tantos discípulos imediatos e de tal riqueza e variedade de orien tações, como foram aqueles que se formaram sob o seu magistério. 1. Platão, Apologia de Sócrates. 39 c-e. Todos os testemunhos e fragmentos relativos aos socráticos menores foram recolhidos numa excelente edição por G. Giannantoni, Socraticoruni Reliquiae, 4 vois., Edizioni dell’Ateneo, Roma 1983-1985, em co-edição com a casa editora Bibliopolis de Nápoles. A esta nos referiremos de maneira constante e sistemática. 330 OS SOCRÁTICOS MENORES O CÍRCULO DOS SOCRÁTICOS E AS ESCOLAS SOCRÁTICAS MENORES 331 Já a antiga doxografia deu-se conta disso e ligou a Sócrates quase todas as sucessivas escolas filosóficas, inclusive as da era helenística Veremos que isto é substancialmente verdade e que Sócrates também foi, em certa medida, pai do epicurismo e do estoicismo (e, em certo sentido, até mesmo do pirronismo); de resto, isso aconteceu em con seqüência de uma complexa série de fenômenos e, portanto, só mediatamente. Todavia, mesmo que se prescinda das influências mediatas do socratismo, continua sendo verdade o que acima afirma mos: Sócrates foi circundado de homens de inteligência e de têmpera verdadeiramente excepcionais. Diógenes Laércio entre todos os amigos de Sócrates, indica sete como os mais representativos e ilustres: Xenofonte, Esquines, Antístenes, Aristipo, Euclides, Fédon, e o maior de todos, Platão. Se excetuarmos Xenofonte e Esquines, que não tiveram inteligência propriamente filo sófica (o primeiro foi principalmente um historiador, o segundo um literato), os outros cinco foram todos fundadores de escolas filosóficas. O sentido e o alcance de cada uma dessas cinco escolas são muito diferentes e são também diferentes os feitos a que chegaram, como veremos de modo particularizado; todavia cada um dos funda dores deve ter-se sentido um autêntico (senão o único autêntico) herdeiro de Sócrates. A excepcional ligação ao mestre de todos estes discípulos é atestada de modo preciso; antes, a história das relações de cada um com ele (no início ou no seu desenvolvimento) registra algo de excepcional. Eis o que se narra de Xenofonte: Xenofonte, filho de Grilo, era ateniense, de Érquia, extremamente mo desto e de belíssimo aspecto. Conta-se que Sócrates encontrou-o numa via estreita, estendeu-lhe o bastão, para impedir-lhe a passagem, perguntou-lhe onde se vendiam todos os tipos de alimentos. Xenofonte respondeu; mas Sócrates perguntou-lhe ainda onde os homens tomavam-se virtuosos; e como ele permanecesse calado, disse Sócrates: “Segue-me e aprenderás”. E

desde então foi discípulo de Sócrates. E por primeiro anotou as conversações de Sócrates e tornou-as conhecidas ao público numa obra com o título Comen tários. Foi o primeiro dos filósofos a escrever obras históricas 2. Cf. Diógenes Laércio, 1, 18 (= Qiannantoni, 1 6). 3. Cf. Diógenes Laércio, 11, 47 (= Giannantoni, 1 5). 4. Diógenes Laércio, lI, 48. De Ésquines conta-se esta formidável anedota, que mostra o seu total apego a Sócrates: A Ésquines, que lhe disse: “Sou pobre, não tenho nada, dou-te a mim mesmo”, [ replicou: “Não te dás conta, portanto, da grandeza do teu dono?” De Antístenes narra-se que, tendo conhecido e ouvido Sócrates depois de já ter fundado a sua escola, tirou dele tanto proveito, que exortou os seus discípulos a serem junto com ele codiscípulos de Sócrates É-nos referido este fato muito indicativo: Dado que habitava no Pireu, Antístenes todos os dias subia quarenta estádios para ouvir Sócrates De Aristipo conta-se que, depois de ter ouvido, por ocasião dos jogos olímpicos, falar de Sócrates, foi tomado por tal perturbação, que até o seu físico se ressentiu e não se refez senão quando, da longínqua Cirene, veio a Atenas e tornou-se ouvinte de Sócrates De Euclides de Megara narra-se que, para poder continuar ouvin do Sócrates, ele não exitou em desafiar o perigo de morte. De fato, em conseqüência de uma inimizade surgida entre Atenas e Megara, os atenienses decretaram a pena de morte a todos os megáricos que entrassem na sua cidade: e Euclides, não obstante, continuou a ir regularmente de Megara a Atenas, durante a noite, travestido com roupas femininas O afeto que ligava Sócrates a Fédon é atestado por Platão no diálogo homônimo, sobretudo na passagem, chamada justamente a “dos cabelos de Fédon”, que é conhecidíssima’°. De resto, sabemos 5. Diógenes Laércio., 11, 34; cf. também II, 60. 6. Diógenes Laércio, VI, 2 ( Giannantoni, V, A, 12). 7. ibidem. 8. Cf. Plutarco, De curios., 2, p. 516 C. 9. Cf. Gelio, Noctes atticae, VII, 10, 1-5 (= Dõring, fr. 1 Giannantoni, II A 2; cf. infra, p. 358, nota 1). 10. Eis a passagem do Fédon (98 a-c): “Fédon — Eu me encontrava sentado à sua direita [ Sócratesi junto ao leito, sobre um baixo divã; ele, ao invés, estava sentado muito acima de mim. Ora, acariciando-me a cabeça e apertando OS meus cabelos contra o pescoço (de fato, quando podia, costumava brincar com OS meus cabelos), disse: Fédon, talvez amanhã [ sinal de luto pela morte de Sócratesi cortarás estes cabelos. — Talvez, Sócrates, disse eu. — Não, se aceitares o que digo. — Por

pois. com esplêndida imagem. diametralmente oposta àquela revelada por Platão.. quê?. No dia seguin te. e. e interessam à história e à literatura mais que à história da filosofia. se nos vier a morrer o raciocínio e se não pudermos fazê-lo reviver . que veremos serem. vem aqui. de uma dupla escravidão. diante do teatro de Dionísio. enfim. como ficará claro no exame analítico que agora faremos. por mais de uma razão. III A 7). — Cortá-lo-emos hoje. a distância que separa Platão de todos os outros socráticos. 5. retrata perfeitamente. a figura de maior relevo entre os socráticos “menores”. eu os meus e tu os teus. embora filtrando-o de modo particu lar.332 OS SOCRÁTICOS MENORES que Sócrates livrou Fédon. As relações de Antístenes com Sócrates Antístenes’ foi. cantou. Desde então — e tinha vinte anos — foi discípulo de Sócrates até a sua morte’ Muitas dessas narrações são talvez lendas ou ampliadas de ma neira lendária.. apresentando-se a ele Platão como aluno. II. seja falando dele. logo em seguida. repentinamente. disse. repensar e reviver a fundo um aspecto funda mental do socratismo: precisamente aquele aspecto que revela a face da bifronte 1-lerma socrática. que. Diógenes Laércio. Diógenes Laércio. Eis. ao ouvir a voz de Sócrates. o que Diógenes Laércio refere acerca de Platão: Conta-se que Sócrates sonhou que trazia no colo um pequeno cisne que. disse que o pequeno cisne era justamente ele’ E ainda. enquanto a Platão. 13. Fédon e as suas escolas. Platão agora precisa de ti”. 01. Xenofonte e Ésquines de Sfeto. quei mou a obra exclamando: “Efesto. Enquanto [ preparava-se para participar com uma tragédia na competição. Aristipo. perguntei eu. abriu as asas e partiu. estudaremos. Cf. em todo caso. escolas socráticas menores. Euclides. adiante. certamente. ao invés. estranho que entre Antístenes e Platão tenha nascido muito cedo um aceso . para logo cantar a sua mensa gem. não são propriamente filósofos. p. é para mim a mais doce de todas as coisas” ( Giannantoni. enquanto. como disse mos acima. Platão pi)e na boca de Fédon estas palavras: “Tentarei contar-lhes estas coisas porque a recordação de Sócrates.. dedicaremos a primeira parte do volume II: o apólogo do cisne que voa do seio de Sócrates. por causa das conspícuas conquistas da sua especulação. 366.J”. suavemente. Antístenes. I 5. material e moral’’. 1. representam muito bem os diferentes temperamentos e as diferentes características dessas personagens.. Não é. naturalmente. 12. seja ouvindo OS Outros falarem dele. E no Iflhcio do diálogo. Deixaremos de lado. de modo surpreendente. soube apreender. nota 1.

mas não tinha puro sangue ático: o pai era ateniense. Milão-Varese 1966 e por G. V A 1. 7 ( Decleva Caizzi. 76. a capacidade de bastar-se a si mesmo. Diógenes Laércio (VI. 1. haeres. como mostram as seguintes afirmações: A sabedoria é um muro solidíssimo.contraste. não precisavam de ulteriores aprofundamentos. que não pode ruir nem ser traído . Sêneca. 56. a admirável capacidade de suportar as fadigas. XV. 2.. Vio/arium. Decleva Caizzi. 125. 10. IV. p. Giannantoni. 11. 124. Foi primeiro discípulo de Górgias (Diógenes Laércio. Epifânio. 122 D. como resulta de alguns testemunhos. frs. como tal pregou-o aos outros Captou a doutrina socrática central da psyché e reafirmou alguns de seus corolários mas como pontos já adquiridos. VA35. Antisthenis fragmenta. as indicações cronológicas que se extraem de Diodoro Sículo. um semibárbaro e ISSO. Não conhecemos a data de nascimento nem a de morte.. como tais. 171. 140. a força de alma. Como veremos. enfraquecendo-as teoncamente: reafirmou que “a virtude é suficiente para a felicida de” que “se pode ensinar a virtude” e que “não se a pode perder depois de adquirida” enquanto é “uma arma que não se pode jogar fora” Todas estas teses supõem a identificação da virtude com o conhecimento.C. as outras passagens que citamos são elencadas como frs. na obra citada acima (as passagens acima citadas sobre a origem semi. o socratismo e. Ora. 3. 1. Simpósio. VI. logo veremos.bárbara de Antístenes são numeradas por Decleva Caizzi como frs. 5. 2. II. VI. Antístenes dá provas de acolher essa identifica ção. 141. que o chama de velho que aprende tarde).41). Adv. que se transformou. sap. 122 A. 122 C. Antístenes era. até mesmo em inimizade De Sócrates. Reafirmou também as teses centrais do intelectualismo socrático. II. 3.). (cf. 62s. 18. VI. pois. Antístenes admirou sobretudo a extraordinária ca pacidade de autodomínio. 151 e 152 = Giannantoni. De const. Eudóxia. 1 5-18) atribui-lhe uns grande número de obras.. XCVI. porém. que. As mais recentes coletãneas dos fragmentos do nosso filósofo foram preparadas por F. Como fundamental mensagem de liberdade e de libertação ele entendeu. 31. XXX). V A 27) refere algumas anedotas das quais resulta que Antístenes caracterizava Platão pelo seu desmedido orgulho. portanto. 111. 1 = Giannantoni. todas perdidas. as passagens relativas à cronologia como frs. 26). 13. constitui um elemento importante para compreender muitas das suas atitudes práticas e teóricas (cf. numa 1. Plutarco. enquanto a mãe provinha da Trácia. as tentativas feitas para determinar a cronologia com precisão são todas aleatórias: só é possível dizer que Antístenes viveu na passagem do século V ao século IV a. Vila Lyc. Diógenes Laércio. só em idade já bastante avançada tomou-se discípulo de Sócrates (de onde a mordaz expressão de Platão [ 251 b]. ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA CÍNICA 1: 334 OS SOCRÁTICOS MENORES palavra: a total liberdade. 1) e teve treinamento com outros sofistas (Xenofonte. Diógenes Laércio. Antístenes nasceu em Atenas. 107.

107. o § 2 e a documentação aí apresentada. 13 ( Decieva Caizzí. 64. 8. 117. 70 e 23 Giannantoni. portanto. Cf. por exemplo. 7. a definição do “que é” das coisas complexas consiste na enumeração dos elementos simples que as compõem São. fr. dizem “o que era ou o que é uma coisa” mas “o que era ou o que é” é entendido por ele de modo antitético a Platão’ Conhecemos as coisas simples ou elementares através das percepções sensoriais. ao mesmo tempo. olhando bem. não se lhe pode atribuir outro nome além daquele 3. 12 (= Decleva Caizzi. VI. V A 163. 9. VI. mais que ao socrático A coisa individual é expressa pelo seu nome próprio e. Diógenes Laércio. são um absurdo. . Diógenes Laércio. Cf. 71 Giannantoni. ele limitou bastante o alcance dessas afirmações susten tando. As definições. VA 134e99). não é possível fornecer definições e só é possível. 131. Conta-se-nos que a Platão ele costumava objetar: “Eu vejo o cavalo. sobretudo. frs. 120 Giannantoni. claras as razões do nominalismo antistênico: “O princípio da instrução — dizia ele — é a pesquisa dos nomes” E o centrar-se mais sobre o nome do que sobre a essência significava dar razão ao procedimento sofístico (recordemos em particular a Pródico). não o universal inteligível (não a Idéia ou essência). de negar a necessidade e até mesmo a possibilidade daqueles desenvolvimentos lógico-me tafísicos que Platão deu ao socratismo’ As Idéias platônicas. tem apenas o objetivo de limitar ao mínimo necessário o que se necessita para saber e. delas. 11. 5. Todavia. VI. portanto. 4. V A 134). Mesmo a assim chamada “lógica” antistênica. V A 134). 10 ( Decleva Caizzi. e a alma com os raciocíniosu. Diógenes Laércio. não a cavalidade”°. fornecer descrições mediante analogias: se. Cf. 82. 88 Giannantoni. 84 B. queremos explicar a quem não viu a prata o que é a prata. 105 ( Decleva Caizzi. e. por exemplo Decleva Caizzi. VI. para ele. supra nota 5. 90. para ele. V A 134). fr. diremos que é “metal semelhante ao estanho” Ao contrário. no máximo. Diógenes Laércio. o seguinte: A virtude não tem necessidade de nada senão da força de Sócraces A virtude está nas ações e não tem necessidade nem de muitas palavras nem de muitos conhecimentos ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA CÍNICA 335 Nesse sentido deve ser entendida a atitude negativa de Antístenes diante das ciências. 69 Giannantoni. fr.É preciso construir muros inexpugnáveis nos próprios raciocínios Os que querem se tornar homens virtuosos devem exercitar os corpos com os exercícios físicos. 6. 83. Afirmação que significa exatamente isto: vejo o particular empírico e sensível. frs. VI.

Diógenes Laércio. cf. cai qualquer possibilidade de construir uma lógica e uma ontologia do tipo platônico Em suma: para Antístenes. 1043 b 4-32 ( Decleva Caizzi. 63 Giannantoni. é basea da na descoberta da psyché como essência do homem e na conse qüente afirmação de que os valores supremos são os valores da alma. 68 (= Decleva Caizzi. Aristotele. O segredo da felicidade está inteiramente em nós: está na nossa alma. maneira autônoma. está na nossa autarquia. 84 A I e A 16). Antístenes revive essa revolução. fr. II ( Decleva Caizzi. VI. Ibidem. Estobeu. 12. com isso. e especialmente esta última (p. 50 C Giannantoni. II. 31. e o conseqüente sentido de franqueamento e de libertação de tudo o que desde sempre os homens consideraram bom e indispensável para ser feliz e que. II. também fr. 14. H 3. A mensagem de liberdade e de libertação A revolução socrática da tábua de valores. VI. 277 ss. 70 Giannantoni. mas até danoso à felicidade. Reale. fr. V A 134). frs. 13 ( Decleva Caizzi. V A 15 1 7. Seria. 2. ao invés. vol. fora desse contexto polémico. 336 OS SOCRÁTtCOS MENORES ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA C 337 que lhe é próprio: por exemplo. pois. VI. 18. 1. ou seja. 44 B Giannantoni. e. 16. V A 134). ibidem.10. 21. portanto. 15. II. a possibilidade de formular juízos que não sejam tautológicos. 160). Cf. 17. V A 150). entender a lógica e a gnosiologia de Antístenes de Cf. 19. 64 Giannantoni. um erro. Eutiderno. Diarribes. Metafisica. 50 B. em particular as notas 8-19. 384 b. Decleva Caizzi. como vimos. fr. V A . em sentido empirista e nominalista. V A 149. 20. poder-se-á dizer que o homem é homem. Diógenes Laércio. 3 ( Decleva Caizzi. Aristóteles. ou que o bom é bom. lO ( Decleva Caizzi. V A 134). 45 Giannantoni. Ou seja. 44 A. todo o comentário a H 3. Anrliol. que refere quase com os mes mos termos o pensamento de Pródico ( Diels-Kranz. Crádlo. mas não que o homem é bom Cai. Cf. a possibilidade de conjugar termos diferentes. ao perceber sobretudo o seu aspecto destrutivo diante dos valores tradicionais. ou seja. fr. 38 = Giannantoni. Platão. La ti’íetafisica. 50 A. 28). fr. o verdadeiro rosto de Sócrates era aque le — e só aquele — revelado pela sua sabedoria reguladora da vida: a mensagem de Sócrates era uma mensagem puramente existencial.. como logo veremos. está no nosso não depender das coisas dos outros: está no não-ternecessidade-de-nada (tb lnl&vbç cpoc Epicteto. fr. Diógenes Laércio. se revela como não-bom e não só não-necessário. 13..

483ss. Aristóteles recorda a doutrina de Antístenes. são considerados pobres a ponto de afrontarem qualquer fadiga. amiúde. todavia. Antístenes. Nessa mesma passagem. um tem o necessário para os seus gastos e até de sobra. e agora não sou ciumento com ninguém e a todos os amigos mostro-a sem ciúmes e divido com qualquer um que queira a riqueza da . convicções de tipo materialista. como agora. melhor do que o nosso riquíssimo Cálias: quando estou em casa. 104 b 20 ( Decleva Caizzi. embora possuindo muitos recursos. E se às vezes o meu corpo tem necessidade de amor. assim como a sua doutrina lógica. não querendo nenhum outro aproximar-se delas. Trata-se. não compro alimentos de grande valor no mercado — porque custam muito — mas dispenso-os do meu apetite. Metafísica. enquanto as realizo.. 47 A = Giannantom. não a media nem a pesava comigo. Convém ainda refletir que essa riqueza torna também liberais. no Sofista. 1. e muita. as minhas posses são tantas que me resulta cansativo encontrá-las: contudo. de fato. tão bem defendido pela coberta que muito me custa levantar-me do leito. retomou Sócrates. existem tiranos que destroem famílias inteiras. pela sua trágica obsessão. Se. fr.Eis como Xenofonte descreve esta liberdade de Antístenes: — E tu. fr. se agora me fossem retirados todos os meus pertences. Cf. Destes tenho compaixão. de quem a adquiri. uma por uma. Aristot ele. por dinheiro reduzem cidades intei ras à escravidão. dessedentar-me quando bebo e co brir-me de modo a combater o frio quando estou ao relento. Ademais. quem se contenta com o que tem não deseja o que é do outro. por necessidade roubam. Antístenes teve. V A 152). outros escravizam os homens. mas dava-me dela tanto quanto eu podia suportar. é natural que sejam muito mais justos os que buscam a frugalidade em vez dos grandes dispêndios: com efeito. E todas estas coisas parecem-me tão doces que. outros invadem as casas. 23. és assim tão orgulhoso da tua riqueza. vol. de fato. ver Reale. A 1. (= Decleva Caizzi. Da minha parte. durmo. 1024 b 26ss. as paredes parecem-me na verdade cálidas túnicas. quero ser um pouco condescendente com as minhas vontades. e sei de certos tiranos tão famintos de riquezas que cometem delitos muito mais horrendos do que os homens desesperados: alguns. Vejo tantos que são carentes e. dize-me como é que. nunca desejo receber alegria maior e sim menor. e comendo muito. assassinam em massa e. que com este vinho de Taso à minha dis posição. V A 153). 246 a-e. de um materialismo Ingénuo com finalidades essencialmente polêmicas (contra Platão). 22. a meu ver. muito provavelmente. afir mando que só o corpóreo tem existência. pois algumas parecem-me tão mais agradáveis do que convém! Mas o que eu mais considero na minha riqueza é que. segundo a qual é impossível que dois se contradigam. A 29. 47 C Giannantoni. enfim. o que tenho basta-me porque com grandíssima alegria me acolhem aquelas a quem vou. enquanto o outro carece de tudo. — Porque. pp. porque muito mais contribui ao prazer alcançá-lo depois de estar longo tempo na espera de satisfazê-lo do que poder usar coisas de grande valor. riqueza e pobreza os homens as têm não em casa. e parece que Platão. nunca se saciam. Aristóteles. notas Sss. Parece-me que se encontram na mesma condição daqueles que. tem em mira justamente essa posição de Antístenes. bebo-o sem ter sede. qualquer risco para ganhar mais: conheço irmãos que tiveram a mes ma herança e. embora sendo tão carente. embora tendo muito. La Merafisica. mas na alma. assim Como nos Tópicos. amigos. O nosso Sócrates. permitem-me abun dantemente matar a fome quando como. o teto um grosso manto. por exemplo. vejo que não há nenhum trabalho que seja tão ignóbil que não me ofereça um sustento suficiente. porém.

(Decleva Caizzi. e até mesmo justamente por isso. Giannantoni. I 24. 67-72 (parcialmente reportado em Decleva Caizzi. os lugares habituais. 3. discípulo de Antístenes: Assim conquista-se a liberdade. ouvir o que vale a pena ouvir e — o que mais me interessa — estar em plena 338 OS SOCRÂTICOS MENORES ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA CíNICA 339 liberdade da nwnhà à noite junto a Sócrates. observai a minha absoluta liberdade. 24. Epicteto. pois. tem ainda domínio sobre mim? Felipe ou Alexandre. IV. Xenofonte. 26. Cf. nessa passagem em que fala Diógenes. cf. fala também de libertação total do . poucas linhas depois. ninguém pode forçar-me a usar as minhas representações diferentemente do modo como quero. fr. o segundo engrandecendo-o em sentido radical próprio de Diógenes. ir-se embora. qual quer um que não se deixa vencer nem pelo prazer nem pela fadiga nem pela fome nem pelas riquezas e pode. Diarribes. os amigos. com ulteriores ampliações próprias do neoestoicismo de Epicteto. A libertação dos apetites e do prazer A passagem de Xenofonte fala de libertação de homens e coisas (riquezas e amigos estão na alma!). 25. E o que é ainda mais maravilhoso. IV. E como o libertou? Ouve o que diz: “Ensinou-me aquilo que era meu e aquilo que não era meu. de quem é ainda escravo? A quem está submetido? As duas passagens lidas são dois exemplos extremos do modo de entender Antístenes: o primeiro diminuindo-o em sentido moderado e quase reacionário (pois este era o sentimento de Xenofonte). pela qual posso cumprir o que vale a pena cumprir. então. este ideal de liberdade é chamado com a expressão não-ter-necessidade-de-nada Eis como Epicteto revive este ideal antistênico em chave neoestóica. O qual não admira quem conta muito dinheiro. Por isso [ dizia: “Desde que Antístenes libertou-me. mas passa o tempo junto aos que lhe agradam E explicitamente. fr. enquanto a passagem de Epicteto. Mas. eles se integram e se cor rigem mutuamente. O que possuo é meu. 45. V A 82). Pérdica ou o Grande Rei? Como poderiam? Quem se deixa supe rar pelo homem deve ser superado muito antes pelas coisas”. não sou mais escravo”. Mas vejamos concretamente qual é a exata estatura da liberdade antistênica. Simpósio. Quem. E tal uso fez-me ver que o possuo livre de impedimentos. Por isso. 117 = Giannantoni. V B 290). os familiares. no final. de coerções: ninguém pode impedir-me. Xenofonte. todavia. Simpósio. 34ss.minha alma. 118. a companhia dos homens. todas essas coisas são dos outros. os parentes. cuspindo o seu miserável corpo inteiramente no rosto de qualquer um. o que é propriamente teu? O uso das representações. a reputação. quando lhe apraz.

tem um significado exatamente contrário com relação ao sentido que têm as afirmações platônicas paralelas: de fato. Graec. 20. põe o homem à mercê da pessoa que dá aquele prazer A luta contra os prazeres e as paixões — note-se bem —. 28. Sironi. 108 B. 108 C. como nos é atestado por muitas fontes. frs. consi derando-o em si um mal. passim. cf. 108 E. radicalizando-o. aft. “sem a virtude. nota precedente. como veremos. condenou de modo categórico qualquer prazer. 08 D. 30. Antístenes. com dessacralizada e (para um grego) quase blasfema imagem ele imprecava: Se pudesse ter entre as mãos Afrodite. Sócrates não considera o prazer sem mais como um mal. 27. en tendido não só como totalmente diferente da alma. assim como não o considera sem mais como um bem: tudo depende do uso que dele se faz. 29. em Platão. em qualquer caso.. 340 OS SOCRÁTICOS MENORES ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA CÍNICA 341 a condenação do prazer é pronunciada apenas em vista de salva guar dar a total liberdade do homem. 109 A-B = Gfannantoni. Em particular isso se verifica no prazer erótico. porque para providenciar para si os objetos do prazer o homem perde a independência e a autonomia e deixa de ser soberano absoluto de si mesmo. v A 122. cur. acompanhando-se da paixão amo rosa. eu a atravessaria com uma fle cha! Por que esta luta contra o prazer? Porque o prazer. 108 A. Libertação das ilusões criadas pela sociedade e exaltação da fadiga Na passagem de Xenofonte acima lida. 108 F = Giannantoni.. 2. Teodoreto. Decleva Caizzi.prazer e do apetite. ele dizia ser tal. frs. o qual. no momento em que é buscado. mas até mesmo como túmulo e cárcere da alma Ao invés. 4. em Antístenes. V A 123). Ver em particular Platão. Este é o primeiro ponto no qual Antístenes vai além de Sócrates. e isso é confirmado por outras fontes: “Ninguém que ame o dinheiro dizia ele — é bom: nem rei. torna escravo o homem. 53 ( Decleva Caizzi. II. Ao contrário. vimos qual era o pensa mento antistênico sobre as riquezas. para ele. a condenação do prazer e da paixão depende do seu dualismo metafísico e da concepção religiosa (órfica) do corpo. Clemente Alexandrino. 107. Fédon. Cf. que só se a podia desejar “aos filhos dos inimigos” . Sentença reportada por muitas fontes. no materialista Antístenes. 111. e com extraordinária energia ele dizia: Prefiro antes enlouquecer do que experimentar prazer E contra o prazer do sexo. nem cidadão privado” de fato. a riqueza não dá alegria” E da vida no luxo. fazen do-o depender do objeto do qual ele deriva.

V A 114. Graec. 94 Giannantoni. afi: ci XI. Clemente Alexandrino. Diógenes Laércio. como o nomos da cidade. 95 = Giannantoni. porque a sociedade honra e louva justamente o oposto daquilo que o filósofo preza. 8 (= Decleva Caizzi. 130. II. então. provavelmente. 21. VI. 101 = Giannantoni. Enfim. do pónos (icóvoç). Strom. A alguém que lhe disse: “Muitos te louvam”. fr. 35. fadiga em opor-se às leis da cidade. frs. Antístenes. Decleva Caizzi. tem uma dupla gênese. v A 134). V A 89. VI. de mal?” Isso exprime perfeitamente uma atitude carregada de verdadeiro desprezo pela sociedade. fr. “nem cognoscível através de ima gens” E também diante do além ele não hesitou em pronunciar-se em sentido negativo: Iniciando-se certa vez nos mistérios órficos. E também isto significava uma drástica ruptura com o sen timento comum. a ausência de ilusões. consagrou a sua escola a Héracles. e. de todas aquelas falazes opiniões que nos vêm da sociedade Também esta foi uma ulterior radicalização do pensamento socrático. E a fadiga é. V A 80. herói das legendárias fadigas. Diógenes Laércio refere: “ costumava conversar no ginásio do Cinoarge [ = cão ági próximo das portas [ Atenasi e alguns pensam que a escola cínica tomou o seu nome do Cinoarge”. Antístenes afirmou expressamente: O sábio não deve viver segundo as leis vigentes da Cidade. 33. ou seja. justamente.. Decleva Caizzi. fadiga em renunciar à fama. 7. Teodoreto. fadiga em separar-se das riquezas e das coisas. ao sacerdote que dizia que os iniciados em tais mistérios participavam de muitos bens no Hades. ul . os quais declarou serem “muitos” apenas “por lei”. 34. e. fundador do cinismo Antístenes foi reconhecido pelos antigos como fundador do ci nismo e como escolarca dos cínicos O termo cínico deriva de cão (i e. ‘Ele chegou mesmo a teorizar que “a falta de glória e de fama (d8o é um bem” E com a adoxía ele afirmou como “fim último” a atyphía (dnx vale dizer. antes. 32. fr. Decleva Caizzi. indicada como bem e estreitamente ligada à virtude. V A I 37. mas segundo as leis da virtude 31. II (= Decleva Caizzi. o qual não é “assimilável a nada”. enquanto uno é Deus “por natureza”. li (= Decleva Caizzi. e de tal modo que devia fatalmente chegar à ruptura com a lei. V A 134). fr. uma atitude de radical antítese foi assumida por Antístenes também com relação aos Deuses da Cidade. Decleva Caizzi. fr. 97 A e 97 B = Giannantoni. então. Diógenes Laércio. 178 C Giannantoni. Antístenes. a glória têm qualquer significa do. de fato. têm significado negativo.Mas nem mesmo a honra. fr. Mais ainda. 36. de modo mordaz Antístenes respondeu: “Que fiz. V A 125. para sublinhar este seu alto conceito da fadiga. repli cou: “Por que. tu não morres?” É claro que a ética antistênica implica um contínuo esforço e fadiga por parte do homem: fadiga no combate ao prazer e aos im pulsos. porque elevava à suprema dignidade e valor aquilo de que todos fugiam 5. a fama. 179 = Giannantoni. 93 = Giannantoni.

também na escolha dos destinatários da mensagem filo sófica. Antístenes propôs a sua mensagem também aos que estão fora dessa elite. Cf. ademais. aos “maus”. possível que no cão eles vissem o emblema da vigilância: daquela vigilância que o cão tem pelo seu dono e o filósofo cínico pela sua doutrina. 39 A-E. com alternados êxitos. 136 C. o outro dos bárbaros”. que se prolongará. Diógenes. 4 (= Decleva Caizzi. Diógenes Laércio. (E. até a época cristã (do que falaremos nos volumes sucessivos). V A 85): “Que a fadiga seja um bem. Diógenes Laércio. 40 A-D Giannantoni. chegando até mesmo à negação da sociedade e de suas estruturas. V A 178). supra. Enfim. purificar a vida da polis. frs. 130 B. frs. demonstrou por meio do grande Héracles e de Ciro. mas. já são por si indicativas. vivificar a sociedade. estimular toda a vida civil com o seu logos. mas do instituto do matrimônio e da polis. VI. considerada pelo vulgo como vida de cão. Os testemunhos sobre isso São numerosíssimos: cf. Porém ainda mais indicativa é a sistemática inflexão que ele imprimiu ao pensamento socrático: enquanto Sócrates queria. 2 (= Decleva Caizzi. 128 A. 40. 19 Giannantoni. tonificar o vigor da lei. Decleva Caizzi. 130 A. o Cão” E provável que. todavia está fora de dúvida que o espírito e as premissas do cinismo já estão bem claras em Antístenes A origem semibárbara que Antístenes considerava com orgulho. 136 A. que era um ginásio reservado aos atenienses de sangue bastardo. à elite ateniense.) Diógenes de Sinope levará o cinismo de Antístenes às extremas conseqüências. anti-sociais e antipolíticos. com efeito. 342 OS SOCRÁTICOS MENORES ANTÍSTENES E A FUNDAÇÃO DA ESCOLA CÍNICA 343 teriormente refere que Antístenes era chamado de ‘Alt? ou seja. levando o concei to de não-ternecessidade-de-nada àquele plano preciso no qual o cinismo posterior se moverá. com a sua filosofia. Antístenes arranca a mensagem socrática dessa finalidade e sublinha nela os aspectos individualistas. 41. VI. estes filósofos tenham-se autodenominado “cínicos”: um nome símbolo de ruptura. 134 A. revolucionando aquele modo de pensar tipicamente ático a conse qüente escolha do Cinoarge. 39. II (cf. o Cão puro O discípulo de Antístenes. nota 35). tirando o primeiro exemplo dos gregos. e a propor não só a supressão das classes sociais. mas tratava-se de uma precisa escolha . fun damentalmente. e Giannantoni. V A 22-26. V A 179-181. 162 = Giannantoni. Ele abrirá assim ao cinismo uma nova fase. autodenominou -se “Diógenes. Ele foi expres samente reprovado por isso. 136 B. por exemplo Decleva Caizzi. dirigia-se não apenas aos atenienses. explorando a coincidência entre o nome do ginásio no qual surgiu a escola com o nome que se dá comumente ao tipo de vida que eles escolheram. fr. Antístenes corrigiu Sócrates e abriu a perspectiva cínica: Sócrates. Cf. 136 D etc. fr.38. 134 B. também Diógenes Laércio. VI.

136 A. Mondolfo. 60 = Giannantoni. Sobre os desenvolvimentos do Cinismo cf. Não faltaram estudiosos a negar que Antístenes possa ser considerado funda do do cinismo. Diógenes Laércio. A History of cynicísrn. navegou para Atenas. “Antístenes se nos apresenta em veste de cínico genuíno”. von Wilamowitz Moellendorff (aos quais egregiamente responde Maier. a ponto de poder responder: “Também os médicos estão com os enfermos sem. o qual não leva em conta o que Maier já pusera em relevo de modo muito dificilmente refutável. fr. encontrando-se por acaso com Iscômaco durante os jogos olím picos.de ruptura. e embora tendo ouvido breves indicações e amostras dos seus discursos. II pensiero anrico. ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 1. o cão. mas os enfermos. que Antístenes fez com plena consciência. por isso. 6 ( Decleva Caizzi. e os desenvolvimentos do cinismo”. os seus discursos e a sua filosofia. cidade fundada por colonos gregos na costa da Africa.). Primeira Seção da Primeira Parte. II. 45. vol. que já em Xenofonte. ao determinar a missão do filósofo e o seu objeto. num contemporâneo. 122 A = Giannantoni. VI. Diógenes Laércio. p. perguntoulhe que tipo de coisas dizia Sócrates para mover a tal ponto o ânimo dos jovens. eu não vim chamar os justos. até o momento em que. 44. isto é. Além dos nomes de insignes estudiosos como E. A quem lhe acusava de ser filho de mãe bárbara respondia: “Até mesmo a mãe dos deuses é da Frígia’ (Diógenes Laércio. também fr. 190. 1 = Decleva Caizzi. cujo objetivo consistia em reconhecer os próprios males e libertar-se deles . Diógenes. pegar a febre” Afirmação que tem uma impressionante analo gia com as palavras de Cristo: “Não os que estão com saúde precisam de médico. V B 143. V A 22 e 23). 21 5s. Socrate. recordaremos D. 136 B = Giannantoni. V A 167). VI. vol. e chegou a conhecer o homem. Marcos 2. 43. Também o cinismo pretendia ser uma espécie de redenção espiritual: com a diferença de que ele mirava unicamente à vida presente. vale dizer. Schwartz e Ii. Lucas 5. Londres 1937. bebeu daquela fonte. fr.17. VI 13 (= Decleva Caizzi. 186 Giannantoni. VI. cf. ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 345 ifi. 4-6. III: ‘1.31.12. pp. V A 1). Dudley. Diógenes Laércio. 48. Mateus 9. sedento e ardente. R. mas os pecadores” Foi observado com justiça: “Os cínicos. Aristipo veio a Atenas atraído irresistivelmente pelo que ouviu contar sobre Sócrates por alguém que encontrou nos jogos olímpicos: Aristipo. precedem a revolução dos valores feita posteriormente pelo cristianismo ao fixar a missão da redenção e o seu objeto. ficou de tal modo abalado a ponto de perder as forças corpo rais e ficar completamente pálido e desfalecido. 47. As relações de Aristipo com Sócrates Da longínqua e rica Cirene. o cristianismo à futura” 42. fr.

A ligação de Aristipo com Sócrates era tal que Platão. 3. sem temor de errar. não condenou o prazer como mal (como o fez. deve ter influenciado bastante a sua visão da vida. de onde quer que ele derive. com efeito. indubitavelmente. A sua origem não-grega. em Aristipo determinado modo de avaliar as coisas que a vida confortável por ele vivida na flores cente Cirene e numa família rica tinha-lhe tornado quase natural. e bem podia ser também o prazer. e 268ss.cj. mas só se convenientemente inserido numa vida sustentada pelo conhecimento. como fazem alguns. mas não o considerou em si um bem: bens eram só a ciência e a virtude. assim como os costumes da sua cidade natal e. A sua vida deve. o principal móvel da vida. 1 Cirenaici. 1 Cirena. que Aristipo. contudo. De curios. 1 A 12 = iv A 22). o Cirenaico não foi um verdadeiro discípulo. Permaneceu.C. era abso lutamente sem escrúpulos: ele. chegou a exigir pagamen to pelas suas lições. [ traduções são tiradas desta edição. Diógenes Laércio refere-nos que Aristipo “por primeiro entre os socráticos pretendeu uma compensação em dinhei ro” e até mesmo tentou mandar dinheiro a Sócrates. e isto foi como um impedimento para a compreensão e aceitação da mensagem de Sócrates. Afirmar. Sobre a data de nascimento não estamos bem informados e nem sobre a data de morte. Ao invés. afirmou que o prazer é sempre um bem. 2. Aristipo foi. Antístenes). A numeração dos fragmentos é dupla porque Giannantoni reestruturou esta coletânea nas Socraticorum Reliquiae. a ponto de os antigos o chamarem simplesmente de “Sofista” (para os antigos os sofistas eram. recebeu-as imediatamente de volta. a ponto de chegar a considerar o prazer. Giannantoni. p. traduzione e siudio introdutivo. no âmbito do grupo dos socráticos.A sua espera não foi desiludida. ser situada no arco de tempo que vai dos últimos decênios do século V à primeira metade do século IV a. Em primeiro lugar. também o teor de vida que levava na sua família. Florença 1958. é possível afirmar. no Fédon. tão diferente da de Sócrates. como veremos. como vimos. Plutarco. que “parece ter razão quem sustentou que. de fato. Sócrates. todavia. em nítido contraste com o discur so socrático Em segundo lugar. ficou fixa nele a convicção de que o bem-estar físico era o bem supremo. 172ss. foi o mais independente de Sócrates. com base nos elementos que temos. 516 C (= Giannantoni. E foi uma inde pendência que chegou aos limites da infidelidade 1. com o resultado que se pode facilmente imaginar: E tendo-lhe mandado certa vez vinte minas. seja no seu pensamento. Raccolta dellefbnti antiche. citadas acima. Aristipo assu miu diante do dinheiro uma atitude que. mas só um amigo e admirador de Sócrates sem particulares adesões no plano filosófico” (Giannantoni. cuja numeração indicaremos com o expoente 21. rom pendo inteiramente o equilíbrio da posição socrática. para um socrático. aqueles que forneciam os seus ensinamentos mediante pagamento). 28) é impossível. em suma.. um verdadeiro hedonista. ao invés. p. justamente como faziam os sofistas. pp. seja na sua prática de vida. 2. na Grécia e na Sicília. e sempre pelas mesmas razões. na realidade. tendo Sócrates afirmado que o demônio não lhe permitia aceitar: na realidade tinha ficado indignado E também Xenofonte caracteriza Aristipo da seguinte maneira: . Aristipo. Viajou muito. talvez. Para a vida e obra de Aristipo ver G.

2. pouco dissesse a Aristipo. Ver. 4. discutir com aqueles que não tinham dinheiro para oferecer Não que Aristipo pusesse o dinheiro como fim: mas ele devia. 65 (= Giannantoni. 60 (= Giannantoni. Ibideni. 9. tomando gratuita. Diógenes Laércio. resposta que dava Aristipo a quem o repro vava das relações que tinha com a bela Laide: Eu a possuo. E paradigmática. 1 A 13 = iv A 32) 8. considerá-lo um meio indispensável para levar o gênero de vida exigido pelo seu hedonismo Compreende-se. Respondemos que Aristipo aprendeu de Sócrates exatamente a atitude de pôr-se acima das coisas e dos eventos sem nunca ser vítima deles. de fato. neste ponto. a maravilhosa arte de tratar com os homens. Também a filosofia de Aristipo e. adiante. ii. ao tempo e à pessoa.mente dele as pequenas migalhas. Xenofonte. 5. revendiam-nas depois aos outros a alto preço e não eram como ele amigos do povo: não queriam. que o discurso socrático sobre a alma. Diógenes Laércio. e julgar segundo a conveniência de cada circunstância’. mas não de modo a ser escolhida por si mesma”. 6. dos quais alguns [ esta é uma clara referência ao nosso filósofo]. com os seus corolários. Memoráveis. sente necessidade de dizer expressamente que Aristipo não es tava por encontrar-se em Egina. o cirenaísmo só se explicam como transformação do socratismo. fatalmente. presentes no dia em que o filósofo bebeu cicuta. disse: fato de pode relacionar-me serenamente com todos”. portanto. Para o nosso filósofo. e que os paradoxos da ética socrática não exercessem sobre ele qualquer apelo. 1 A 1 iv A 12). enfim. E ainda: Interrogado sobre o que ele aprendeu com o estudo da filosofia. o § 3 e a documentação ali apresentada. o desprezo do supérfluo e. aquela atitude de possuir sem ser possuído. enquanto não se explicam absolu tamente se se prescinde da matriz socrática. a virtude acaba sendo a arte de mover-se corretamente numa vida de prazeres: a arte de possuir o prazer. É-nos ainda referido que educava a filha “para desprezar o supér fluo” 7. 91 (= Giannantoni. Refere-nos Diógenes Laércio: Era capaz de conformar-se ao lugar. sem deixar-se possuir e ser vítima dele Perguntar-se-á. I B 1 = iv B 1722) refere: “ cirenaicosi consideram a riqueza artífice do prazer. em geral. II. 346 OS SOCRÂTICOS MENORES ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 347 Sócrates oferecia com liberalidade todos os seus ensinamentos. sobre este ponto.elencando os nomes dos fidelíssimos amigos de Sócrates. o que Aristipo podia admirar em Sócrates e que opiniões suas podia condividir. fl Sou possuído por ela porque é ótima . 1.

85 (= Giannantoní. a escola dividiu-se em correntes. deste. é fácil compreender que Aristipo. distinguir o pensamento de Aristipo do pensamento dos seus imediatos seguidores. II. lO. num conúbio verdadeiramente único. a filha Arete. que resgatou Platão”. Diógenes Laércio. o persuasor de morte. Epitimide cirenaico. p. Eis a lista dos cirenaicos e a sua sucessão segundo Diógenes Laércio. Cf. vol. 14. que foi chamado Metrodidata. ao qual impôs o mesmo nome do avô (e que. 1 A 1 = IV A 962). 1 B 1 IV A 1722). il. ii. 1 A 172 = IV A 1602) a sucessão é esta: ‘Foi discípulo de Aristipo. deste. se aproximava de Sócrates por muitos traços do seu caráter: eis como Gomperz no-lo descreve: Era própria do seu caráter [ Aristipo] unia alegre serenidade que o preservava de toda ansiedade com relação ao futuro. A filha Arete recolheu em Cirene a herança espiritual paterna e transmitiu-a ao filho. Diógenes Laércio. E provável que o núcleo essencial da doutrina cirenaica te nha sido fixado justamente através da tríade Aristipo. chamado primeiro o ateu e depois ‘deus’. 348 . De Antipatro. o jovem. VOl. depois foi discípulo Epitimide cirenaico. portanto. deste. 75 Giannantoni. 68 (= Giannaniorii. A partir do que É difícil e até mesmo impossível. 667). a ca pacidade de gozar e a ausência de necessidades. deste. 1 Parte. depois chamado ‘deus’.coisa vencer e não ser escravo dos prazeres e não o fato de não gozar deles” (Diógenes Laércio. Refere-nos Diógenes Laércio: Descuidando a pesquisa sobre a natureza por causa da sua manifesta incompreensibilidade {. II. 72 (= Giannantoni. foi denominado Aristipo.] os cirenaicos consideravam inútil a tisica e a dialé tica’ lemos. da qual provém Aristipo. Juntavam-se nele. 1 A 171 = IV A 1602): “ foram discípulos de Aristipo a filha Arete. mais que raro. também os cirenaicos negaram qualquer uti lidade às pesquisas naturalistas. Parebate e deste. e Anicéri [ Segundo Suda (= Giannantoni. deste Anicéri. Diógenes Laércio. Deste foi discípulo Teodoro.. segundo os testemunhos que nos chegaram. Antipatro. Os pressupostos teóricos do cirenaísmo Tal como Sócrates. o ateu. o jovem. Egésia. Diógenes Laércio. o persuasor de morte. 66 (= Giannanioni. 13. li. A Egésia. Etíope Ptolomeu e Antipatro cirenaico. Egésia.. l Secão. assim como de toda lamentação com relação ao passado. deste. II. de Arete foi discípulo Aristipo chamado Metrodidata e deste Teodoro. este aspecto da sua personalidade e a calma paciente que sabia manter diante de qualquer provocação produziram a maior impressão nos seus contemporâneos” (Pensatori greci. mais que pelo pensamento. 12. Aqui trataremos só das doutrinas que podem verossimil mente referir-se ao cirenaísmo original 2. 1 A 1 = IV A 1602). II. o velho — Arete — Aristipo. Sucessivamente. 1 A 1 = IV A 512). o Jovem). 92 (= Giannantoni. II. Anicéri (ou Anicérides) e a Teodoro seguirão as três ramificações nas quais sucessivamente se fragmentará a Escola. Parebate. III: “I O declínio e o fim da escola cirenaica”. 1 A 1 = iV A 1042).

16. (= Giannantoni. como a de carpinteiro ou sapateiro. evang. O verso citado neste como no precedente testemunho é de Homero. pelo fato de não terem nada a ver com o que é bem ou mal e. de fato. que. mais sábios ou mais justos ou mais co rajosos ou mais razoáveis. parcial). porque a lógica cirenaica era nada mais que uma ele mentar doutrina do critério da verdade.. 9 ( Giannantoni. Ps. 1 B 19 = IV A 1662).996 a 32ss. como Aristipo. alguns entre os sofistas. = IV A 1702. tudo se diz em razão do melhor e do pior. como logo veremos. dizia buscar “o que de bem e de mal pode existir nas coisas” Até mesmo as matemáticas eram consideradas por Aristipo total mente supérfluas. Enquanto. não teriam qualquer utilidade. Por isso ele. 1 B l3ss. enquanto para nós são somente as coisas humanas. observássemos com os nossos próprios olhos todo o universo e a natureza das coisas. 17. Praep. estão acima de nós e. 62. Eusébio. de fato. refere Eusébio. acima de nós. em parte. evang. as coisas ao nosso alcance e úteis. 1 B 20 IV A 1662. Metafts. de fato. B 2. Não seremos. 1. chegando a voar mais alto que Perseu “acima das ondas do mar e acima das Plêiades”.ca. porque estes são incompreensíveis. cf. 9 Eusébio. certamente. não são para nós. ao contrário. Eles não nos trariam nada. relacionando bem a posição cirenaica com a socrática: Depois dele [ Aristipo cirenaico e Aristo de Quio esforçaram-se por afirmar que se devia filosofar só sobre argumentos éticos: estas são. Por isso Sócrates disse justamente que as coisas. portanto. todo o contrário com relação aos raciocínios sobre a natureza. des pedindo-se da pesquisa naturalista de Anaxágoras e de Arquelau. em parte. Praep. dizendo que só é útil buscar “o que de mal e de bem pode existir nas coisas” Melhor do que todos. IV. 8. assim como não são para nós as coisas depois da morte. e mesmo que fossem escrutáveis a fundo. Plutarco. mesmo vulgares.. 392. diz que se aplicaram a ela “pela sua utilidade” Mas entre as duas fontes existe contraste ape nas aparente. 7 (= Giannantoni. tal como ela é. nada se diz sobre o bem e sobre o mal’ I5. despre zavam as matemáticas. ao invés. Odisséia. por isso. e nem mesmo se. Aristóteles. reduzia-se a um sensismo . sem o que não é possível ser feliz. também Giannantoni. no que se refere às matemáticas.OS SOCRÁTICOS MENORES ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 349 O Pseudo-Plutarco confirma: Aristipo cirenaico [ recusa toda a ciência da natureza. nem fortes ou belos ou ricos. em todas as outras artes.. XV. como nos refere Anstóteles: De modo que. com a felicidade. Sirom. As coisas naturais estão.I B 11 = IV A 1702). Algumas fontes dizem-nos que os cirenaicos descuidaram a lógi ca’ enquanto Diógenes Laércio. graças a isso.

Adv. mas que o que produz a afecção seja branco ou doce é impossível afirmar E se dizemos que são as afecções que nos aparecem. em certa medida. 24. Para os cirenaicos. 1 B 1 = IV A 1722). De fato. mas do que produz as afecções nada é compreensível e isento de erro: que nós.. como nos assédios. compreensíveis. math. e se depois pensamos que se nos mostre aquilo que produz as afecções. negavam que a credibilidade que delas deriva fosse suficiente para afirmações seguras sobre as coisas. Por isso todos nós somos infalíveis sobre as nossas próprias afecções.fenomenístico. a afecção que nos atinge não nos mostra 18. Cf. VII. mesmo que seja algo. Adv. dos mo . p. Co!. Diógenes Laércio. e não-isento de alguns traços gorgianos. 191 (= Giannantoni. 1 B 71 IV A 2132). e a do doce. VII. dizem. acrescentando o “parece”. da distância. Adv. Plutarco. como eles dizem... os nossos estados subjetivos. e elas são. mas o que está fora não o é. Eis alguns eloqüentes testemunhos. mas todos erramos sobre o que está fora. 19. melhor do que todos. é preciso dizer que tudo o que nos aparece é verdadeiro e compreensível. 350 OS SOCRÁT MENORES ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 351 nada além de si mesma. pois a alma é incapaz de conhecê-lo por causa das circunstâncias. mas. de fato. mas nunca os objetos que os provocam. 92 ( Giannantoni. 21. de fato. 22. 1 B 25 = IV A 1682). não nos aparece. enquanto o que é externo e produz a afecção. Sexto Empírico: Dizem. 20. Sexto Empírico. math. sem deixar transparecer o “é” com relação às coisas externas E. 1 B 1 IV A 1722). verda deiramente. Assim (se devemos dizer a verdade) a afecção é a única coisa que nos aparece. II. inspirado. em Protágoras. Refere Diógenes Laércio: Só as próprias afecções são cognoscíveis. temos afecções do branco. 11 (= Giannantoni. deixando de lado as coisas externas. de maneira segura e irrefutável. 92 (= Giannantoni. encerravam-se nas afecções. devemos dizer que tudo é falso e incompreensível. As afecções. por exemplo Sexto Empírico. 1120 d (= Giannantoni. que só elas são compreensíveis e que não são falazes. 1 B 69 IV A 2112). 11. Diógenes Laércio. é possível dizê-lo sem erro. e não aquilo de que nascem E Plutarco: [ cirenaicos] pondo em si mesmos afecções e imagens. só são cognoscíveis as nossas afecções sen soriais. portanto. os cirenaicos que critério da verdade são as afecções.

justamente. 1 B 77 IV A 2192): “Os filósofos cirenaicos dizem que só existem as afecções e nada mais. Todos. o prazer do instante. math. 24. não está entre as coisas reais”. que devemos examinar agora. por acaso. colhido e ex perimentado como tal”. VI. math. por considerarem as sensações. Se. não tendo recebido a afecção do outro. Giannantonj. E precisamente este o elenco gorgiano (ver supra o capítulo sobre Górgias. De resto. II. Assim o entendeu Gomperz. que não pode ser confrontada com a dos outros É sobre estas precisas premissas que se funda o particular hedonismo cirenaico. Os nomes. 194ss. no sentido de dissolverem as coisas nas sensa ções mas no sentido de considerarem as sensações não reveladoras do objeto (a sensação não revela. esta afecção surgiu nele e em outro por alguma coisa branca. VII. algumas são agradáveis.vimentos. mas vela o objeto). 53 (= Giannantoni. Adv. pp. estendem-se também ao campo dos fins. chamam comumente alguma coisa branca ou doce. 1 B 71 = IV A 2132). outras dolorosas. (. 210-220 ). isto é. são convencionais e não podem objetivamente exprimir senão a minha afecção.. que eu seja constituído de modo a ter uma afecção de branco daquilo que existe fora de mim. abso lutamente. Daí dizem que não existe um critério comum para os homens e que os nomes são impostos arbitrariamente. que são afecções subjetivas. a dor. Mas. nem o outro. que para nós só existem as nossas afecções e que a voz. portanto. OU seja. E chamam más as dolorosas. com efeito. Pode ser. não tendo recebido a sua. quando não é afecção. mas não têm uma coisa branca ou doce: cada um aprende só a própria afecção. Sexto Empírico. outras intermédias. nem boas nem más as intermédias. quando fl é afecção. cujo fim não é nem bom nem mal e a afecção é intermédia entre o . na verdade. boas as agradáveis. nenhuma afecção comum para nós. não no sentido moder no humiano. pois. os cirenaicos são fenomenistas. das mudanças e por todas as outras causas juntas. que afirmam que só são cognoscíveis e verdadeiras as nossas afecções]. Das afecções. Daí afirmam que também a voz. comum o que nos aparece Portanto. que são comuns. de fato. intersubjetivamente incomunicáveis. é arbitrário dizer que a mim apareceu tal coisa e ao outro tal outra. e o outro ter uma sensi bilidade constituída de modo a ser afetado diferentemente. que o faz dizer Quanto a mim. 6 A única passagem que poderia sugenr esta tese é de Sexto Empírico. O hedonismo cirenaico É certo que Aristipo já tinha uma visão da vida totalmente hedonista. 25. como resulta de Xenofonte. Não havendo. cujo fim é um prazer verdadeiro. em particular pp. mas produtora de afecções. para nós não existe. 23. eis como a Escola fixou este ponto: [ cirenaicosi que falam de tal modo sobre os critérios [ seja. cujo fim é.. não é. situo-me entre aqueles que querem transcorrer a vida da maneira mais fácil e prazerosa possível E com toda a sua vida ele mostrou considerar válido só (ou prioritariamente) o prazer físico. Pensarorj greci. ademais. Adv. e. têm opi niões análogas com relação aos fins: as afecções. de fato. ele não pode dizer. tal testemunho apenas repete o que dizem OS Outros. 3.

isto é sinal de boa disposição da alma e demonstração de mente serena. são todos iguais porque todos são “movimentos suaves”. para os cirenaicos. o prazer por exce lência não podia ser senão “o prazer do corpo”. as afecções são critérios e fins. a falta de prazer ou de dor é. VII. dizem eles. Adv. Diógenes Laércio.. falta de movimento ou êxtase e é “semelhante à situação de quem dorme” 26. não buscamos outra coisa e de nada fugimos tanto como do seu contrário. 30. mas por si mesmo. Seguindo-as. no presente atual. ao invés. (pp. assim como fogem da dor. 1 B 2 IV A 163’). 1 B 1 = IV A 172’). = IV A Slss. 88 (= Giannantoni.prazer e a dor. Diógenes Laércio. 28. mais ainda. Memoráveis. 199 (= Giannantoni. II. é evidente que. considerados justa mente como tais. e quando se nos ocorre. math. na parte do hoje na qual cada um age ou pensa em . nem se preocuparem com as que devem ainda acontecer: de fato. 27. II. 352 OS SOCRÁTICOS MENORES ARISTIPO E A ESCOLA CIRENAICA 353 É evidente que. expli cando que agradáveis são as sensações que implicam “um suave movimento”. 1. vivemos atentos à evidência e à alegria. para os cirenaicos. Xenofonte. mesmo que nasçam de coisas consideradas “indecentes” Ademais. Os prazeres. sem qualquer escolha. enquanto dolorosas são as sensações que implicam “um movimento violento”. 1 B 71 = IV A 2132) 29. De todas as coisas existentes. Refere Eliano: Aristipo parece que falava com grande veemência e força. o prazer devia ser unicamente o que tem lugar no instante. convidando os homens a não se angustiarem com as coisas passadas. II. 89 (= Giannantoni. E também nós nos comportamos deste modo: Indício de que o prazer seja fim é o fato de se nos tomar familiar desde pequenos. i A Iss.’). 9 (= Giannantoni. à alegria com base no prazer E que o prazer seja o fim do agir é demonstrado pelo fato de que todos os animais o buscam. e só de maneira subordinada eles considerassem prazer o da alma e o que brota da ínteligência: São muito melhores — diziam eles — os prazeres do corpo do que os da alma. Ver os numerosíssimos acenos nos vários testemunhos sobre a sua vida em Giannantoni. e fazer alguma hierarquia entre eles. 173ss. pelo que é com estas que punimos de preferência aos que erram Resulta igualmente evidente. Sexto Empírico. 1 B 1 = IV A 172’). à evidência com base em todas as outras afecções. com base nas premissas esclarecidas. uma vez reduzido o prazer a “movimento suave”. a dor Mas os cirenaicos aprofundaram ulteriormente o discurso. Exortava a pensar no hoje e. e muito maiores as moléstias que derivam do corpo. e todos são bens. que. desaparece qualquer possibilidade de distinguir entre os prazeres. no momento que passa.

de fato. 88 (=. Não é o prazer que é torpe. 90 ( Giannantoni.. de socrático. Ii. a felicidade. não é o gozo que deve ser condenado. 32. satisfazendo-as. considerando que não tinha qualquer valor a memória dos praze res passados. reduzido o bem ao prazer e este ao “movimento suave”. mas mediante os prazeres particulares Para valorizar mais a felicidade do que os prazeres do momento. os que se dão à dissolução. 1 A 75 IV A 1742).. mas o fato de.] puseram todo bem no prazer e consideraram que a virtude devesse ser louvada por isso. ao invés. que só o presente é nosso e não o que já se realizou nem o que ainda se espera: o primeiro. consiste na confluência de particulares prazeres. 6 ( Giannantoni. porque o primeiro não é mais e o segundo não é ainda e é obscuro. XII. para os cirenaicos. entre os cirenaicos. perdia consistência: Para os cirenaicos parecia existir diferença entre o fim último e a feli cidade. seja o fato de ainda gozar. XIV. 1 B 1 = EV A 1722). 1 B 28 = IV A 1742). Dizia. deve ser buscado não por si mesmo. Var. considerou sem qualquer valor para ele. na sua visão. Diógenes Laércio. 1 B 1 = IV A 1722). mas o fato de se tornar vítima dele. 33. enquanto a felici dade não o é por si mesma. seja o fato de ter goza do. porque provoca prazer E Diógenes Laércio: Consideram a sabedoria um bem que. já acabou e o segundo é incerto se virá E Ateneu acrescenta: [ sustentou ainda que esta [ a sensação agradável em que consiste a felicidadel é instantânea. mas. não é a satisfação das paixões que é má. Giannantoni. 11. situando-se assim no mesmo plano dos dissolutos. mas qualquer excesso que nele se insinue Não há dúvida de que. com efeito. os cirenaicos deveriam revolucionar a sua concepção do prazer e dar uma avaliação primária ao prazer espiritual. Ateneu.. deixarse arrastar por elas. em au todomínio no prazer. e que. Eliano.algo. entre os quais são calculados também os passados [ não são maisj e os futuros [ ainda não sãol. De modo semelhante. o prazer particular é perceptível por si mesmo. a areté e a sabedoria foram reduzidas à boa condução da vida de prazer. pois o “movimento suave” não pode estar nem no passado (que não é mais) nem no futuro (que ainda não é). vivem só o presente. Mas é claro que. foram instrumentalizadas pelo prazer. 544 a (= Giannantoni. todavia. mas só tem lugar no presente Enfim. é evidente que os cirenaicos deviam antepor o prazer do momento à própria felicidade. nem a esperança dos futuros. 34. hisi. fazendo consistir o bem só no presente. que. Escreve Cícero: Os cirenaicos {. Diógenes Laércio. há somente o princípio do autodomínio. só se podem extrair estas conseqüências. dosando oportu namente a cada momento as alegrias da vida. pensando comportar-se bem 3!. portanto. pois o primeiro consiste no prazer particular. mas pelas suas conseqüências . Ademais. transformado de domínio sobre a vida do instinto e sobre o apelo do prazer. Relativamente a certas posições sofísticas.

Cícero. Com efeito. disse Aristipo. que representa a nítida antítese do alegre otimismo sob cuja marca nasceu a Escola com Aristipo. Escreve Cícero: Aristipo só se preocupa com o corpo. III. e. porém. talvez tivesse uni sentido o que dizes: se. III. Da lição socrática fica nela mais a casca que a substância. 116. 38. estando entre os homens. 87s. Será justamente sobre este ponto que Epicuro dirigirá suas inovações. Cf. 8ss. como veremos no terceiro volume. 36. a posição de ruptura que já Aristipo assumiu diante do ethos da polis. isto é. 39. põe-se totalmente fora deles: Eis o texto: — Mas eu.. cf. foi justamente esta aporia que provocou na escola cirenaica uma cisão e o surgimento. Aristipo respondeu que há uma terceira possibilidade. na qual há quem comanda e quem obedece. não quiseres comandar nem obedecer e não respeitares de bom . 1 B 1 = IV A 1722). desaparece a possibilidade de encontrar qualquer apoio ulterior. 1 B 1 = IV A 1722). se esta via. conseqüentemente. de uma corrente inspirada num pessimismo arrasador. 33. No colóquio entre Sócrates e Aristipo reportado por Xenofonte. o que significavam a exaltação do prazer e a obliteração da psyché: significavam uma fatal condenação à contradição. mas pela liberdade e conduz sem dúvida à felicidade. que não passa nem pelo domínio nem pela escravidão. porém. Ruptura com o “ethos” da polis Há ainda um ponto que merece ser observado. não me situo tampouco entre os escravos: penso que existe uma via intermediária. perdido o sentido do discurso sobre a psyché e sobre os valores. por ser fonte de preocupações. — Oh! exclamou Sócrates. que. ele desenvolvia o seu discurso educativo como se não houvesse nenhuma outra possibilidade senão a de formar pessoas aptas ou para comandar ou para obedecer. contrasta com o seu ideal hedonista) sobre como a vida de quem domina é preferível à de quem é domi nado. 1 B 43 e 1 B 47 IV A 189 e 1932). Sócrates estava ainda inteiramente identificado com o ideal da polis grega. (= Giannantoni. Diógenes Laércio. e sabemos. II. E. Este juízo é bastante acre. 91 ( Giannantoni. que transformarão de maneira essencial o hedonismo cirenaico. mais do que sabia Cícero. Diógenes Laércio. ( Giannantoní. Divin. 8. 354 OS SOCRÁTICOS MENORES ARISTIPO E A ESCOLA C1RENA1CA 355 Depois do que dissemos. não resta dúvida de que o cirenaísmo represente uma Escola semisofística. o hedonismo e o socrático princípio do autodomínio e da liber dade não se põem de acordo: para não se deixar arrastar pelo prazer é preciso agarrar-se a algo que seja mais forte do que o próprio prazer. supra o § 1 e as notas 9-12. como se não tivéssemos uma almato. à explicação de Sócrates (que Anstipo rejeitou por que. II. no seu seio. pela qual tento encaminhar-me. também não passasse entre os homens. 37. De oftic. como não passa pelo comando e pela escravidão. instit. porém exato. 4.35. também Lactâncio. rompendo aqueles esquemas..

EUCLIDES E A ESCOLA MEGÁRICA 357 IV. e sou forasteiro em toda parte As sucessivas afirmações em sentido cosmopolítico dos cirenaicos inserem-se. Cícero. Socraticorum Reliquiae. exatamente. sobre elementos que. nestas premissas. pr. 1 B 33 IV A 1792). A filosofia de Euclides como tentativa de síntese entre eleatismo e socratismo Também as notícias que nos chegaram sobre Euclides (que abriu uma escola em Megara. que pôs o seu filosofar a serviço da Cidade e morreu para permanecer fiel ao ethos da polis. Mais ainda. 42. as per plexidades e incertezas das modernas reconstruções historiográficas. mal definida. como veremos. li. 139 (= Giannantoni. ou seja. fazer gemer os mais fracos e depois servir-se deles como escravos — Sim. porque um empenho participativo na vida pública não deixa gozar a vida de modo pleno. Kommentierte Sammlung der Testimonien. os quais não nos dizem em que sentido e medida ela preten deu ser socrática. ou insistiram demasiadamente sobre o elemento eleata. onde viveu e fundou a sua escola. Sobre OS desenvolvimentos do cirenaísmo cf. Primeira Seção da Primeira Parte. portanto. III: il. ou chegaram até mesmo a negar a relação da escola megárica com a 1. li. Estrabão. 1. Xenofonte. cor rendo o risco de tornar incompreensível a relação com Sócrates.. porque a ruptura dos esquemas da polis ocorre por razões de egoísmo e de utilitarismo hedonista. 1 B 2 IV A 1622). Platão. e justamente para não sofrer isto. 40. 1 lss. que são. 45. se é verdade o que é atestado por Diógenes Laércio (II. Platão e os outros filósofos amigos de Sócrates se refugiaram em Megara. são de origem eleata. na verdade. Aprofundada discussão sobre . Não conhecemos nem a data de nascimento nem a de morte. 1. Com relação à posição de Sócrates. EUCLIDES E A ESCOLA MEGÁRICA 1. por razões políticas.grado quem comanda. Ele deve ter sido mais velho que Platão. e G. que. 42. Die Megariker. Euclides nasceu em Megara (cf. IX. (= Giannantoni. Giannantoni. pr. Fédon. a julgar pelas vacilações dos testemunhos que nos che garam. alguns estudiosos situam entre 435 e 365 a. mais negativas que positivas. creio que te darás muito bem conta de como os poderosos sabem. De modo conjetural. ao contrário.. vol. Amsterdã 1972. e insistem. Dõring.C. depois da morte de Sócrates. sua cidade natal. Acad. 59 b-c. Memoráveis. Acad. no mínimo. junto a Euclides. São compreensíveis. a posição de Aristipo e dos cirenaicos não podia estar em mais estri dente contraste 41. eu não me encerro numa cidade. O declínio e o fim da escola cirenaica’. tanto na vida pública como na vida privada. da qual tomou o nome) e os seus seguidores são escassas A escola conheceu momentos de grande sucesso mas foram de breve duração. a vida de Euclides. Cícero. 11. e a sua mensagem parece não ter incidido de maneira essencial sobre o desenvolvimento do pensamento grego. 129. as quais. 106). 8). respondeu. Só recentemente foram feitas edições dos frag mentos de Euclides e dos seus seguidores: K. podemos até mesmo dizer que aquela mensagem deve ter sido ouvida como ambígua ou.

. Parmênides e Zenão Um outro testemunho diz: Sustentam que se deve negar validade às sensações e às representações. e negavam de modo absoluto a geração. II. do qual afirma Diógenes Laércio. 3 A. 707-724. afirma ter sido discípulo de Sócrates) a Xenófanes. cuja tese é retomada e reafirmada por K. mais recentemente. supra. na ordem. fr. fr. expressamente relacionando Euclides (que. pelos megáricos e seus seguidores. o qual refere que ele “dedicou-se também ao estudo de Parmênides” Cícero. A Escola conheceu o maior sucesso com Estílpone. qui íd bonum solum esse dicebant quod esset unum et simile et idem semper. pr. Heidelberg 1959. 31. tentou a primeira síntese entre a ética socrática e a ontologia eleata. quod is Eretria fuit. Fritz. Krãmer. 163 A Giannantoni. enquanto uma coisa não é idêntica com outra. Diógenes Laércio. em Diiring como frs. que. 7. quorum omne bonum in mente positum et mentis acie. (as passagens acima mencionadas figuram. 11 A 30). A Menedenio autem. Arete bei Platon und Aristoteles. 83ss. enquanto se deve ter confiança apenas na pura razão. contra a evidência dos textos A verdade está no meio: Euclides. na voz Megariker. 73ss. in Pauly-Wissowa. como logo veremos. 2. 42. com base em testemunhos mais an tigos. 505s. 6. apresenta a filosofia megárica como continuação direta da eleata. 2. Realenzyclopõdie der classischen Alterturnswíssenschaft. 106 (= Diíring. por Estílpone. a corrupção e o movimento de qualquer coisa 4. E são escassas e insuficientes sobre os pontos mais delicados. 129 (= Doring. tenta em vão refutar esta interpretação. Eretriaci appellati. 4 B e em Giannantoni nos números 11 A 4. Melisso e. 31 = Giannantoni. um fundamento ontológico Mas vejamos de modo preciso como esta síntese foi tentada e proposta. A componente eleata A ligação de Euclides com o eleatismo é atestada expressamente por Diógenes Laércio. Acad. por exemplo K. nota 1). Con seqüentemente. fr. particularmente nas pp. 88s. buscando dar ao momento axiológico. V. v. Diiring na sua recente edição dos fragmentos (cf. 11. II A 31): Megaricorum fuit nobilis disciplina. II. se impõe pelos textos). post Euclides Socratis discipulus Megareus. 43 A. Die Megariker. qua verum cemeretur”. estes afirmavam que o ser é uno. como veremos. Cf. 29 e 5). no entanto. cuius ut scriptum video princeps Xenophanes [ deinde cuni secuti Parmenides et Zeno (itaque ab iis Eleatici philosophi nominabantur). como alguém bem observou. Col. hi quoque multa a Platone. Cícero. pp. pp. eleata. 26 A. Proposições deste teor foram sustentadas em época mais antiga por Xenófanes. 113 [ Diiring. Parmênides. 3. II O 2: “Pela invenção dos argumentos e pela capacidade sofística (Estílpone) destacou-se tanto sobre OS outos que quase toda a Grécia voltou o olhar para ele e seguiu a Escola megárica”]. J.os dados biográficos e cronológicos pode-se ver em Dõring. 26 A = Giannantoni. (Doring. SupI. a quo idem illi Megarici dicti. pp. . 5. H. 1931.

os pontos doutrinais atestados. 27 Giannantoni. noutros termos. 1 (= Dõring. são os seguintes. mas as con clusões’ Euclides. no que se refere ao pensamento de Euclides. que se inspiram na temática eleata. entre outras coisas. o para lelo é supérfluo’ EUCLIDES E A ESCOLA MEGÁRICA 359 O momento da analogia era um dos momentos típicos do proce dimento dialético socrático (como ad abundantiam demonstram os diálogos protoplatônicos). se se baseia sobre coisas dessemelhantes. como diremos no terceiro volume Em particular. que visava demolir o adversário atacando as suas conclusões e mostrando o absurdo das mesmas ‘ 3.8.. e precisamente zenoniana. resultam claras. assim o Uno-Bem euclidiano não admitia o seu contrário: [ eliminava as coisas contrárias ao Bem. é-nos expressamente atestado que Euclides rejeitava aquele tipo de procedimento baseado nas analogias: Não admitia o argumento por analogia. fr. evang. XIV. Aristócles in Eusébio. que polemizará vivamente com Platão e com Aristóteles e. porque. Praep. é confirmado pelo fato de que. não há mais espaço para a multiplicidade e para o devir. 358 Os SOCRÁTICOS MENORES E que estes testemunhos sejam verdadeiros. que concebe o discurso só em termos de absoluta identidade ou absoluta alteridade’ Sempre a mesma fonte nos informa: [ nas demonstrações não atacava as premissas. Euclides e os seus imediatos seguidores re duziam o Bem ao Uno (id bonum solum esse dicebant quod esset unum)’° e concebiam este Uno com a característica eleata da absoluta e imóvel identidade e igualdade de si consigo (simile et idem semper)”. Em primeiro lugar. a própria história da escola. demonstra-o. E que este Bem-Uno sempre idêntico fosse o Ser-Uno eleata (socraticamente reformado). sustentando que não são’ Isto postulava também a eleata negação da geração. A componente socrática Tampouco as ligações de Euclides com Sócrates. da corrupção e do devir. além da negação da multiplicidade. que tem lugar sempre entre os contrários’ Em segundo lugar. sustentando que este se baseia sobre coisas semelhantes ou sobre dessemelhantes. II O 26). justamente nos pontos em que estes superaram o eleatismo. . preferia manter a dialética na estrutura puramente eleata. como este não admitia absolutamente um não-ser. e afirman do-o como sempre idêntico. o argumento deve tratar de coisas semelhantes mais que das suas analogias. e se se baseia sobre coisas semelhantes. e Euclides o rejeita justamente porque ele rompe o esquema da dialética eleata. uma vez negada a existência de qualquer coisa que se opunha ao Bem-Uno. 17. sobretudo ten do presente a particular reconstrução que de Sócrates propusemos acima.

II A 34). II A 30. ora Deus. 17. Deus e a mente são igualmente típicas conotações da teologia socrática. Assim formula o raciocínio. como veremos no segundo volume. nota 8). e Contra a aristotélica doutrina da potência e do ato. pp. 11. Euclides dá àquele Bem uma série de atributos de origem tipicamente socrática: Euclides afirmou que uno é o Bem. Polemizaram contra a platónica doutrina das Idéias. com muita eficácia. 12. era uma só. o co nhecimento que Sócrates identificava com o Bem. fr. Também a negação euclidiana do contrário do Bem como não-ser. Diógenes Laércio. que rompia a univocidade e absoluta estaticidade do ser eleata. para Euclides como para Sócrates. 24 = Giannantoni. e neste caso a comparação introduz um excesso (o qual. ora mente. lI A 30). 288. 10. 129 (cf. e assim por diante’ Ora. Cf. pp. supra. II. 29 Giannantoni. 106 (= Dõring. supra. Cícero. como vimos aci 9.. 14. o Ser-Uno eleata é identificado com aquele Bem que foi o fim último de toda a pesquisa socrática’ Ademais. Cf. Gomperz (Pensatori greci. II. 117. 42. a sabedoria (ppovcoLç) de que se fala é.. 11. 632). 13. pr. Ibidem. p.Contudo. Diógenes Laércio. 18. fr. 360 OS SOCRÁTICOS MENORES EIJCLIDES E A ESCOLA MEGÁRICA 361 ma. 16. 30 = Giannantoni. que rompia a unidade do ser eleata. ou trata-Se de identidade apenas parcial.. fornecendo os instrumentos para recuperar o devir no âmbito do ser. 107 (= Dõring. e neste caso será melhor extrair nossas conclusões da própria coisa antes que dos objetos com OS quais a confrontamos. Acad. a passagem de Aristócles acima citada (cf. Diógenes Laércio. 24 = Giannantoni. podemos acrescentar. perverte o nosso juízo)”. justamente. “Ou a semelhança chega a ser identidade completa. fr. II A 34). 07 (= Dõring. reduzido a pura ignorância do bem A virtude. Diógenes Laércto. II. corresponde à substancial negação socrática do mal. 19. 11. fr. embora sob diversos nomes e devia coincidir com o conhecimento do Bem-Uno. II 106 (= Dõring. . supra. 15. Ver. nota 7).). que é chamado com muitos nomes: ora sabedoria.

porque tais coisas não possuem realidade. VII. exatamente. te. como veremos 5. Die Megariker. porque se tratava de um passado renegado explicitamente por Sócrates. Protágoras. 349 b. mediante a “segunda navagação”. por tê-lo sempre presente na men 20. ao invés. 161 (= Doring. seguido por Dõring. Levi individuou e expressou bem o sentido desta operação euclidiana de mediação. 48 a. fr. 329 d. por Verdade se entende. 22. Deus. dando fundamentos metafísicos ao socratismo E a distância entre uma e outra destas tentativas está no fato de que a primeira busca no passado da filosofia da physis um fundamento ao socratismo. torna-o feliz à medida que. então é claro que Euclides. mostrando que o valor que ele lhes atri bui com relação à sua vida é pura ilusão. em outro nível. pp. Escreve este estudioso: “A metafísica de Euclides visava. Megariker. esforçar-se-á por libertar-se de todos os pensamentos que não se referem a ele e tenderá com todas as suas energias para aquele único objeto. 11 A 32). 4. a segunda o encontra. libertar o homem da preocupação de todas as coisas particulares. A erística megárica e a dialética socrática Os megáricos são conhecidos por terem dado largo espaço na sua especulação à erística e à dialética. 85s. ao mesmo tempo. Deus. ou seja. fará Platão. para os megáricos. ética e religiosa ao mesmo tempo. tentou dar o fundamento ontológico que faltava ao socratismo. Assim a ciência torna-se a mais elevada virtude. 25 = Giannantoni. o corte nítido que o megarismo euclidiano opera entre a opinião falaciosa e a verdade. 21. mas só com o que diz aquele que entende das coisas justas e das injustas. Críton. identificada com o Uno-Bem-Deus. Quem se convencer verdadeiramente de que só existe o Ser-Uno. e precisamente na descoberta da metafisica. porque traz ao homem toda a perfeição de que a sua alma é capaz e. . efetivamente. a ponto de terem sido chamados. que pode parecer extremamente eleata. na realidade é em igual me dida socrático. o bem humano consistia no conhecimento da Verdade. cf. na superação da filosofia da physis. no seu ponto focal é perfeitamente confirmada por Cícero. mas não dizem expressamente. e este é um só e é a própria Verdade E aqui. como os in térpretes do Críton concordam. embora explicite muitas coisas que os textos sugerem. como demonstra a seguinte passagem do Críton: E então. Platão. não devemos absolutamente nos preocupar com o que pensam os outros. com êxitos aleatórios.. a correspondência inclusive verbal com Platão. libertando-o da opinião errada que atribui realidade a coisas que não existem. mediando eleatismo e socratismo. purifica o seu espírito das perturbações que esta crença pro duz” Com efeito. o qual nos infor ma que.De resto. col. esta explicação de Levi. o Bem. São muito Interessantes as observações sobre isto feitas por von Fritz. do Bem-Uno-Deus Em suma: encontramo-nos diante de uma tentativa rudimentar de fazer aquilo que. A mediação entre eleatismo e socratismo e o seu significado Se é correto o que vimos acima. 876s. Diógenes Laércio. caríssimo.

11. justamente. Cf. A ‘segunda navegação’ como passagem da pesquisa fisica dos présocráticos ao plano metafísico”. Euclides se contenta. O trecho que transcrevemos está na p. supremo conhecimento e suprema virtude. dialéticos Veremos. nem com Fédon. Le dotirine filosofiche de/Ia scuola de Megara. supra a nota 7. pp. Cf. além de concordar com as premissas do sistema. infelizmente desconhecido OU não meditado pela maior parte dos estudiosos do megarismo. 5-6. Enfim. fase. dos sofrimen tos e elevá-lo à visão do verdadeiro Bem. 362 OS SOCRÁTICOS MENORES EUCLIDES E A ESCOLA MEGÁRICA 363 em certo momento.23. depois. Exata a observação sobre isto feita por Gomperz (Pensatori greci. Classe di science morali. VIII. ll:”I. que. se podemos nos permitir esta expressão. particularmente. ética e reli giosamente. p. e fonte necessária de feli cidade” Nós acrescentaremos que isto. como tal. eristas e. 613). o espírito das trevas do erro. 24. que é. 2° Seção da 1° Parte. de modo que também nisso Euclides deve ter-se considerado fiel ao mestre. realizando nas diversas fases do seu desenvolvimento formas variadas. o qual escreveu: Não me preocupo com estes tagarelas. 470. nem com quaisquer outros. embora não acolhendo o procedimento por analogia. de Zenão. que inspirou aos megáricos o frenético amor pela controvérsia Com efeito. mas vimos também que Sócrates fez largo uso dele. Também isto foi bem observado por Levi: “ os megáricos atribuíam à sua critica destrutiva das opiniões dos adversários a função de purificar-lhes. Sessão de 19 de junho de 1932. Deve-se. “A tentativa de Euclides está para a especulação platônica como um ser vivo de estru tura muito simples está para um organismo muito complexo. A. que. tendo merecido as satíricas pontadas do xilógrafo Tímon. 26. no tercei ro volume. E um ensaio de fundamental importância. notar desde agora que o próprio Euclides se guiu este caminho. Euclides (e com ele os seus seguidores). ou seja. nem com o belicoso Euclides. concorda perfeitamente com o caráter da pró pria dialética socrática. Serie IV. um método dialético. vol. admiração e ira pela sua habilidade extrema mente capciosa. o método propugnado por Euclides. ao mesmo tempo. os desenvolvimentos da Escola nestas direções e exami naremos alguns célebres argumentos erístico-dialéticos que suscita ram. como vimos. 465-499. mais do que lógico-gnosiológicas . no final. o mé todo da confutação das conclusões do adversário e da sua redução ao absurdo é. contudo. storiche e filologiche”. dificil mente fica imune a desvios de caráter erístico Vimos que tal método derivou do eleatismo e. ao mesmo tempo. com eticiZar a metafísica eleata e com objetivizar ou existencializar a ética socrática”. o vol. 25. in “Rendiconti delia Reale Accademia Nazionale dei Lincei. tinha finalidades protréticas e morais. quem quer que ele seja. Levi. das paixões. muito provavel mente atribuiu à dialética um caráter ético.

304ss. 11 A 34). foi capturado junto com a queda de sua pátria e constrangido a ficar em um bordel. que. pp. Eubúlides. alguém que julgava saber extrair das fisionomias dos homens o seu caráter moral. para o grego. 32. ele sentenciou que o filósofo devia ser um vicioso. Os testemunhos indicam bastante claramente que ele seguiu duas direções na sua especulação. como veremos. antes que o seu logos filosófico o transformasse. I A 1). ao invés. explicando que ele verdadeiramente era assim. todo o capítulo que dedicamos à dialética socrática. que tomavam praticamente insignificante o discurso que provinha de Megara. suscitando a hilaridade geral. 105 = Giannantoni. conquistaram fama sobretudo pelas suas refinadíssimas armas dialéticas (usadas contra os adversários. mas. Mas daí conseguiu entrar em Contato CO Sócrates e depois. Ele fundou uma escola na sua nativa Élida’. Diógenes Laércio. Fédon (a quem Platão dedicou o seu mais belo diálogo) foi. no campo ético. o menos original. foi sobretudo porque. mas também em vazios jogos de virtuosismo erístico). 29. 106 (= Dõring. 28. no sentido de que ele é capaz de dominar também os caráteres mais rebeldes e os temperamentos mais passionais. Baseando-se nos traços do rosto de Sócrates. Alexino. o que Cícero refere nas Tusculanas: 1. De resto veremos que o próprio Sóc não permaneceu imune disso. dos Eupátridas. Sobre os desenvolvimentos dessa escola cf. fr. FÉDON E A ESCOLA DE ÉLIDA Entre os socráticos menores. Se a antigüidade foi avara de notícias sobre este aspecto e. 8 Giannantoni. O xilógrafo Tímon aproxima-o de Euclides e parece considerá -lo. Le donrine filosofiche dei/a scuoia di Megara. Diógenes Laércio. mas o próprio Sócrates defen deu Zopiro. 31. 11 A 22). 1 Seção da 10 Parte. Diodoro Crono e Estílpone. como Euclides. Cf. 11. ao invés. de modo mais determinado. 30. vol. FÉDON E A ESCOLA DE ÉL!DA 365 V. eles não esqueceram as finalidades éticas origi nais destas armas. Do escrito de Fédon deriva indubitavelmente. um erista-dialético Por outras fontes. a julgar pelo pouco que nos foi transmitido sobre ele. como já acenamos.. Sobre Fédon flOS informa Diógenes Laércio (II. pp. as mensagens das novas Escolas eram de tal alcance inovador. em particular. fr. I 107 (= Dõring. enquanto continou a ter efeito o virtuosismo erístico-dialético. conservou a lembrança do outro.Os sucessores de Euclides e. embora de maneira mediada. II “I Os desenvolvimentos dialéticos da escola megárica e a sua dissolução”. Zopiro era um “fisionomista”. ou seja. 3! Giannantoni. resulta que Fédon se ocupou prioritariamente de ética No seu Zopiro ele devia desenvolver o conceito de que o logos (o logos socrático) não encontra nenhum obstáculo na natureza do homem. 472s. por incitamento . Levi. “Fédon de Élida. permaneceu por muito tempo como extremamente sedutor e intelectualmente excitante 27.

3. não haveria nada de extraordinário nela. Cícero. e Zopiro — alguém que pretendia saber reconhecer o caráter de qualquer um a partir do aspecto físico — tinha-lhe atribuído toda uma série de vícios. eles têm. 366 . 2. à espe culação socrátuca). IX. a “vontade” permanece desconhecida. E o caso de Sócrates: encontrava-se numa reunião. 111w A 2). 107 (ver o fragmento no capítulo prece dente. diz expres samente que alguns não são considerados autênticos). XXXIV. 5. e. do desejo de melhorar. mas que ela saiba levar à luz homens que jaziam em tal estado [ ao estado de abjeção em que tinha caído Fédon]. ínsitos em seu caráter. e acrescentou que ele era um cortesão. 11 A 34). Ora. foi justamente Sócrates que lhe veio em socorro: disse. mesmo que se fosse inclinado a eles. Quanto aos que passam por naturalmente levados à ira. Orar. 5 ( Giannantoni. Sócrates. Tusc. a sua fronte? Ele disse que Sócrates era estúpido e tolo. 6. parece-me ser verdadeiramente prodigioso Enfim. IV. e que em virtude dela todos pudessem separar-se de qualquer gênero de vida. De ftito. 364 — Giannantoni. Naquela situação.de Sócrates. são curáveis. de logos. II. também o que dizem do nosso filósofo Gélio. uma constituição psíquica insana: porém.. Epístola 82. mas da vontade. formadas pelas clavículas: afirmava que ele as tinha obstruído e obturado. IV A 166). à inveja. p. de todas as paixões e de todas as coisas deste gênero. que fala de ratio. 18. suscitando com isso a hilaridade de todos os outros. mais exata do ponto de vista histórico é a terminologia da passagem precedente. 36. os seus olhos. 80. 1. no nível teórico.. Cf. se a filosofia tivesse poder só sobre os homens de boa estirpe e bem educados. (a palavra te/untas é ciceronlana. Escreveu diálogos. à piedade. III A 3 e 1). porém. porque não tinha as cavidades na base do pescoço. mas extirpá-los e erradicá-los de modo a libertar-se deles. e às paixões deste gênero. não depende de causas naturais. em Diógenes Laércio. lOs. Alcibíades e Críton e seus amigos o resgataram. 445 a (Bidez. Estrabão. de qualquer hábito. Estes vícios podem nascer de causas naturais. 8 (= Giannantoni. Juliano. II. que aqueles vícios existiam efetivamene. Cf. p. da educação (in voluntate studio disciplina) Uma confirmação de que esta fosse a tese de fundo sustentada por Fédon encontra-se também na carta do imperador Juliano: Fédon considerava que não havia nada de incurável para a filosofia. mas ele os tinha lançado fora com a razão (ralione) E ainda no De Fato: Por acaso não lemos como caracterizou a Sócrates o fisionomista Zopiro. 5. isto é. Desde então tomou-se livre e se dedicou à filosofia”. pode-se dizer. que não viam aqueles vícios em Sócrates. Cícero. Tímon. Noctes atticae. o seu rosto. Temístio. entre os quais Zopiro e Simão (Diógenes Laércio menciona também outros títulos. Cf. com efeito. de Sêneca extraímos uma ulterior prova da centralidade desta temática em Fédon: 4. e a esta afirmação se diz que Alcibíades explodiu em grande gargalhada. que declarava poder conhecer a fundo o comportamento e a natureza das pessoas observando o seu corpo. 136 = Giannanioni.

ademais. Ver o que dizemos no volume 111: • A rápida dissolução da escola elíacoeretríaca”. “Certos animaizinhos”. se consideramos os resulta dos a que chegaram. “não são sen tidos quando mordem. e a sua simples presença e a palavra freqüente adquire a eficácia das boas admoestações. ficando prisioneiro de uma casa de tolerância) mas era um ponto que espelhava muito bem um dos traços mais típicos do intelectualismo de Sócrates. mas erradamente. como o demonstrará nossa exposição sobre Platão. p. nativo daquelã mesma cidade. Cf. Mas já uma geração depois. que são. Cf. “socráticos unilaterais” dadas a eles são adequadas. tentou rejeitá-las. 10. meio sofistas. imprimindolhe. nota 1. mesmo que não fale. Até mesmo o simples encontro com os sábios é útil. II. iii F 1-25 e ii G 1-5. a força da sua mordedura é tão tênue que não nos damos conta do perigo: o inchaço acusa a mordedura. A Fédon sucedeu Plisteno. Algum estudioso. . Diógenes Laércio. os megáricos. proveniente da Escola do megárico Estílpone recolheu a herança da Escola de Elida e a transplantou em Erétria. da presença de um deles se extrai sempre algum proveito. Giannantoni. 7. junto com Asclepíades de Fliunte’°. “semi-socráticos”. como por exemplo Robin’. Para Menedemo e Asclepíades cf. São qualificáveis de “semi-socráticos” porque permanecem. supra. os cínicos e os cirenaicos. Sêneca. o logos de Sócrates foi capaz de libertá-lo da abjeção em que tinha caído. Tu não te darás conta de como e quando esta te aproveitará. 105. 8. uma direção análoga à da escola megárica.OS SOCRÁTICOS MENORES Nada como a conversação com homens bons tem tanto poder de dar aos homens um honesto hábito e reconduzi-los à reta via. Epístola 94. inegavelmente. a convicção da onipotência do logos e do conhecimento no âmbito da vida moral. e se comparamos estes com os de Platão. O mesmo te acontecerá com a conversação dos ho mens sábios. Menedemo. Não me é fácil explicar-te como ele possa oferecer este proveito: mais fácil é compreender o provei to que me trouxe. porque não sabem dar ao seu discurso um novo fundamento. vale dizer. mas no próprio inchaço não há sinal de ferida. 366. A escola de Elida teve pouca duração. I A 12). muito mais conspícuos. Ibidem. mas num certo momento advertirás que te aproveitou” É evidente que Fédon aprofundou um ponto da filosofia socrática do qual tinha diretamente experimentado a eficácia (como vimos. eles não operam entre Sócrates e as outras fontes de inspi ração uma verdadeira mediação sintética. Eles são qualificáveis de “menores”. 41 (= Giannantoni. meio eleatas. mas permanecem oscilan tes. 1 Seção da 1 Parte. VL CONCLUSÕES SOBRE OS SOCRÁTICOS MENORES Tudo o que dissemos sobre os socráticos por si já terá persuadido o leitor de que as várias qualificações de “menores”. como disse Fédon. caso estejam incertos e inclinados ao mal: ela desce pouco a pouco aos corações. 9.

por assim dizer. os cirenaicos. fatalmente o deformam. pp. que discrimina os horizontes especulativos destas escolas dos ulteriores horizontes platônicos. razão. Robin. Storia de! pensiero greco. 218. 3. 204ss. 217s. afirma-se de maneira clara no pensamento de Antístenes. é aquela a que já nos referimos outras vezes. o filho da escrava trácia. pp. e de Aristipo. Robin. paradoxalmente. Storia de! pensiero greco. 2. . as elevará. enriquecerá. da luz difundida por Sócrates. dos quais falare mos amplamente no volume II. portanto. isto é. o grego africano” E tem também razão em afirmar que estes socráticos “já são helenistas” os cínicos precedem os estóicos. engrandecerá.“Socráticos unilaterais” permanecem porque filtram no seu pris ma um único raio. contudo. levan do-as a êxitos novíssimos e de grande fecundidade. A descoberta teórica. p. sempre contrabalançado até então no espírito grego pela tendência racionalista. denominou “segunda navegação”.. forneceram abundantes armas aos céticos. quando observa que nos socráticos menores “o influxo do Oriente. no Fédon. 1. em detrimento dos outros e. Tem. Trata-se da descoberta metafísica do supra-sensível: e é exatamente esta descoberta que. posta na base das intuições socráticas. Sioria de! pensiero greco.. Robin. os megáricos. os epicuristas. como sabemos. exaltam um único aspecto da doutrina ou da figura do mestre. e que Platão. Robin.