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O SR. ALOYSIO NUNES FERREIRA (Bloco/PSDB – SP. Como Líder.) – Sr. Presidente, Srs. Senadores, Srªs Senadores, venho à tribuna esta tarde na sequência de um discurso proferido aqui em nosso plenário pelo meu colega Flexa Ribeiro. O tema inevitável do dia de hoje é o tema da inflação. A Senadora Ana Amélia já se pronunciou sobre isso. É uma notícia triste e preocupante o fato de que o IPCA acumulado nos últimos doze meses, divulgado pelo IBGE na manhã de ontem, mostra que as coisas vão muito mal nessa área. O índice chegou a 6,59%. A inflação de março foi de 0,47%, mais ou menos dentro do esperado pelos analistas. O índice representa recuo em relação a fevereiro, mas, em compensação, é bem maior do que o registrado em março, quando o IPCA fechou em 0,21% – em fevereiro foi 0,60%. Então, Sr. Presidente, é notícia que preocupa a todos, ainda mais quando meditamos sobre as medidas que o Governo vem tomando para segurar a alta de preços e verificamos que todas elas são medidas precárias, tópicas, medidas de curto prazo, com exceção, quero registrar aqui, a redução das tarifas de energia. É uma medida positiva por parte do Governo, quanto ao seu objetivo, embora eu tenha discordado do método autoritário como foi aplicado, através de medida Provisória. Mas o fato é que vamos de desoneração em desoneração, sem atacar o problema da carga tributária de maneira permanente e geral, desonerações de curto prazo. Não se sabe se serão prorrogadas ou não. Isso gera muita incerteza no cenário econômico, o que, por sua vez, inibe os investimentos. Nós temos a sensação do governo enxugando gelo, infelizmente. No acumulado em 12 meses o IPCA ultrapassou a meta de 6,5%, definida para este ano. Desde novembro de 1991, quando chegou a inflação a 6,64%, esse limite superior não havia sido ultrapassado. É, agora, Sr. Presidente, a nona vez, durante a gestão do PT, em que o teto é ultrapassado. Ou seja, somente duas vezes nestes últimos 10 anos de governo do PT a inflação se manteve dentro da meta. O problema, Sr. Presidente, é que há desconfiança geral da população em relação ao recuo dos preços. O Banco Central acumula juros de que a inflação cairá. Tomara que caia. Mas cairá mesmo? Essa dúvida está na cabeça dos agentes econômicos, está na cabeça das famílias. Não são
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apenas os agentes do mercado que têm essa preocupação ao fazerem seus cálculos econômicos. São as donas de casa, são os pais de famílias, que, no supermercado, na feira, constatam a alta dos alimentos, constatam o aumento do preço dos gêneros de primeira necessidade. Como se dizia no meu tempo de moço: é a chamada carestia que está de volta, que já caiu na boca do povo, em uma dimensão que há muito tempo não se via em nosso País. Além dos protestos, chega-se a fazer humor. Afinal de contas, somos brasileiros: acabamos rindo da própria desgraça, quando se comenta de contrabando de tomate na tríplice fronteira do sul do Brasil. Mas é piada que não tem graça, porque a alta dos preços atinge, sobretudo, as pessoas de nível de renda mais baixo, os mais pobres, que são assistidos, é verdade, por programas de transferência de renda do Governo, mas o Governo dá com uma mão e a inflação tira com a outra. A memória da inflação no País – agora nós nos damos conta – ainda é muito presente na minha geração. Ela é latente. Ela está dormindo, mas pode voltar a qualquer momento. Será que já não voltou? Faz 20 anos apenas que nós conseguimos estabilizar a nossa moeda. E a simples expectativa de que esse processo de remarcações possa voltar é uma centelha suficiente para alastrar o incêndio. Na semana passada, meu caro Senador Aníbal Diniz, meu caro Senador Benedito de Lira, fui a um restaurante em Brasília e constatei que, no cardápio, os preços estavam escritos a lápis. Comentei com amigos essa observação, e vários repetiram ter feito a mesma observação. O cardápio com preços escritos a lápis, para poderem ser apagados com a borracha e remarcados. E não são aumentos circunstanciais, apenas aumentos do restaurante ou disso ou daquilo. Existe o chamado índice de difusão da alta de preços, que é a forma como a inflação se alastra nos diferentes bens e serviços produzidos e consumidos no País. Em março, 69% dos 365 itens pesquisados pelo IBGE ficaram mais caros. Isso quer dizer que, de cada dez preços, sete subiram. Vejam os riscos que nós estamos correndo. E, quando se analisa o IPCA – agora regional e não apenas por setores –, nós verificamos que, em sete das onze regiões metropolitanas pesquisadas, o índice anual está acima da meta. Nas capitais do Nordeste, estão as mais altas taxas de inflação do País, meu querido amigo e Senador pelo Estado de
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Alagoas, Benedito de Lira. Nas capitais do Nordeste, verificam-se as mais altas taxas de inflação ocorridas no País; é o que noticia o jornal O Estado de S. Paulo, na sua edição de ontem. E, infelizmente, constato – não apenas eu, Senador de oposição, notoriamente de oposição, mas também os jornalistas econômicos, os agentes econômicos, aqueles que estudam economia e a população – que, no Governo, há uma certa leniência. Vejam o artigo de Celso Ming no jornal O Estado de S. Paulo, hoje. Eu não diria pouco caso. Evidentemente, a Presidente da República está preocupada, a ponto de reunir-se, ainda nesta semana, com três eminentes economistas do nosso País: o Ministro Delfim Netto, o Professor Yoshiaki Nakano e o meu queridíssimo amigo Luiz Gonzaga Belluzzo, para ouvir conselhos. Mas só conselho não adianta; é preciso tomar medidas. Não pode o Governo apostar apenas na desoneração de itens, que são medidas de curto prazo. Os empresários beneficiados por essa desoneração e mesmo os consumidores dos seus produtos não sabem se essa desoneração vai durar seis meses, um ano, se será prorrogada ou não. Não adianta segurar artificialmente preço de combustíveis, preço de passagem de ônibus. É preciso atacar o mal pela raiz; é preciso conter, por exemplo, a gastança absurda do Governo; é preciso fazer uma reforma tributária que possa realmente reduzir, de maneira geral, o peso absurdo dos tributos. Mas, para isso, é preciso cortar gastos. Não é possível fazer reforma tributária, diminuir receita e ter 39 Ministérios. A Presidente Dilma fica hesitando entre dramatizar a situação e fazer pouco caso das críticas que lhe chegam. Com isso, acaba produzindo declarações absolutamente inconvenientes ou destrambelhadas, como as mais recentes declarações da Presidente no encontro de Chefes de Estado na África, que só fizeram reforçar a desconfiança dos agentes econômicos e diminuir o prestígio, já tão minado, do Banco Central, como autoridade monetária. Já passou da hora de apenas acompanharmos os fatos; já passou da hora de apenas reclamarmos da resiliência da inflação; já passou da hora de apenas jogarmos a responsabilidade nos outros, na crise internacional. Não adianta o Governo continuar apenas tentando vender a imagem de que está comprometido no combate à inflação. Nós esperamos atitudes concretas, positivas, ações corajosas. A Presidente da República tem prestígio suficiente, tem apoio político suficiente. Falta a ela a disposição para enfrentar os
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problemas, mesmo que tenha de pagar preço de popularidade no curto prazo; mesmo que ela precise, num determinado momento, esquecer a sua condição de candidata e se dedicar a enfrentar os problemas do País, eventualmente quebrando alguns ovos para fazer omelete. É isso que nós esperamos, Sr. Presidente, Srs. Senadores. E eu encerro com mais um trecho do jornalista Celso Ming, a quem sempre recorro para tentar entender um pouco aquilo que ocorre na economia brasileira. Diz ele: “A inflação não é o cavalo paraguaio, que sai na frente e, na primeira curva, perde o fôlego.” É o que diz o jornalista Celso Ming. Muito obrigado.

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