Módulo 4 - Princípio dos trabalhos virtuais. Método do esforço unitário.

Deslocamentos em vigas
com e sem articulações. Exemplos.

O Princípio dos Trabalhos Virtuais (P.T.V.), para os corpos sólidos deformáveis (no nosso caso,
estruturas), pode ser escrito:

* *
e i
W = W


*
W
e
é o trabalho virtual externo, e
*
i
W é o trabalho virtual interno.

Recordamos que o trabalho W é o resultado do produto de esforço por deslocamento.
O trabalho virtual externo é produzido pelos esforços externos aplicados à estrutura quando nela
consideramos deslocamentos virtuais de suas seções (esforço externo da estrutura na seção x
deslocamento virtual atribuído à seção). Esses deslocamentos virtuais, atribuídos às seções da
estrutura, devem ser pequenos, respeitar a continuidade da estrutura e as restrições de
deslocamentos impostas por seus apoios.
O trabalho virtual interno é produto da multiplicação dos esforços internos da estrutura pelas
deformações virtuais, onde estas deformações virtuais são aquelas que correspondem aos
deslocamentos virtuais das seções.
Nosso interesse no Princípio dos Trabalhos Virtuais é determinar um deslocamento de uma dada
seção de uma estrutura, quando esta estrutura é submetida a um carregamento (neste curso,
carregamento é conjunto de esforços externos aplicados à estrutura) ao qual chamamos caso real
de carregamento, sendo os esforços internos solicitantes na estrutura nesse caso real de
carregamento indicados por N, M, T.
O esforço externo a ser condiderado no cálculo do trabalho virtual externo
*
e
W é um esforço unitário
adimensional, aplicado como único esforço de carregamento da estrutura (caso barra de
carregamento), na seção em que se quer o deslocamento e na direção em que se pede determiná-
lo.
Os esforços internos de força normal, momento fletor e torção usados no cálculo do trabalho virtual
interno
*
i
W , indicados por N, M, T, são os esforços internos da estrutura para esse carregamento
de esforço unitário isolado (esforços internos solicitantes da estrutura no caso barra de
carregamento = carregamento de força unitária).
Os deslocamentos virtuais no cáculo do trabalho virtual externo
*
e
W , e as deformações virtuais no
cáculo do trabalho virtual interno
*
i
W , para esta estrutura com carregamento de esforço unitário
isolado (caso barra de carregamento), são os deslocamentos e deformações da estrutura na
situação de carregamento para a qual queremos determinar o deslocamento (caso real de
carregamento, esforços internos solicitantes N, M, T).
Da expressão do P.T.V.,
* *
e i
W = W , resulta que o deslocamento que se deseja obter para a seção
da estrutura, no caso real de carregamento, deslocamento este indicado por “u”, é dado por:

t
NN MM TT
u = dx + dx+ dx
EA EI GI


O cálculo das integrais é feito para cada trecho de diagrama em separado, ao longo da estrutura,
somando-se os resultados para os trechos.
Pode-se utilizar, nesse cálculo da integral em um trecho, o seguinte resultado, atribuído a
Vereschagin, que fornece o resultado da integral do produto de duas funções, onde a segunda
função é uma função do primeiro grau em x ou uma função constante:

Integral do produto de duas funções em um trecho (intervalo) = área, no trecho, do gráfico
(diagrama) da primeira função, multiplicado pelo valor da segunda função na posição do C.G. do
gráfico (no trecho) da primeira função.



Valor B 2
Valor = B
2
L 3
L
3
Vamos integrar, utilizando Vereschagin, o produto das funções de momento fletor M e Mpara um
mesmo trecho da estrutura, M sendo a função de momento fletor correspondente à estrutura sujeita
ao seu carregamento (caso real de carregamento) e Ma função no trecho para a estrutura sujeita
ao carregamento isolado de esforço unitário adimensional (caso barra de carregamento).
Seja, por exemplo, a função de momento fletor M uma função de primeiro grau em x (reta
inclinada), onde o eixo x é o eixo da barra, com seus valores variando de a = 0 no início do trecho
até um valor igual a “b” no final do trecho.
A função de momento fletor M, por sua vez, é a função do primeiro grau em x que varia de um
valor A = 0 no início do trecho até um valor “B” no final do trecho, como se vê na integral abaixo
representada:











Para obtermos o valor da integral, começamos determinando a área do gráfico da primeira função,
de momento fletor M, que é a área do triângulo de base igual a L e altura igual a b.
Isso feito, localizamos o C.G. (centro de gravidade) da função de M. Correspondendo o gráfico de
M a um triângulo retângulo, o seu C.G. está a uma distância igual a um terço da base L do lado de
comprimento “b” do triângulo, que é a sua altura. Transferimos, então, a posição do C.G. da função
de M, assim determinada, para o gráfico da função de M.














O valor da função de Mna posição correspondente ao C.G. da função de M, que indicaremos por
“Valor”, pode ser determinado a partir da semelhança do triângulo hachurado acima com o triângulo
maior, correspondente ao gráfico da função de M.
Assim, a altura do triângulo hachurado, igual a “Valor”, está para a base do triângulo hachurado,
igual a dois terços de L, assim como a altura “B” do triângulo maior (gráfico da função de Mno

trecho) está para a sua base, igual a L.





Finalmente, temos:

Trecho
L.b 2
M.M dx = Área x Valor = L
2 3



L L
b B
a = 0
A = 0
x
M M
dx
Trecho
dx = Área . Valor
Valor
L
C. G.
1
L
3
b
a = 0
x
L.b
Área =
2
M
Trecho
L
B
1
L
3
2
L
3
M
A = 0
transferimos
De forma análoga, obtemos as integrais para os produtos de funções a seguir:

Função de M com valor inicial a = 0 e valor final “b”, função de M com valor inicial “A” e valor final
B = 0:

















Função de M com valor inicial a = 0 e valor final “b”, função de M constante, com valor inicial “A”
igual ao valor final “B”:















Função de M constante com valor inicial “a” igual ao valor final “b”, função de M com valor inicial A
= 0 e valor final “B”:




L
C. G.
1
L
2
L
b
B
a
A = 0
x
Área = L.a
M
transferimos
M
Valor
dx
Trecho
1
L
2
1
L
2
Valor B 1
Valor = B
1
L 2
L
2
1
L.a B
2
L
C. G.
1
L
3
L
b B
a = 0
A
x
1
L
3
L.b
Área =
2
M
transferimos
M
dx
Trecho
Valor = A = B
L.b
A
2
Valor
L
C. G.
1
L
3
L
b
B = 0
a = 0
A
x
1
L
3
2
L
3
L.b
Área =
2
M
transferimos
M
Valor
dx
Trecho
Valor A 2
Valor = A
1
L 3
L
3
L.b 2
A
2 3
Função de M constante com valor inicial “a” igual ao valor final “b”, função de M com valor inicial
“A” e valor final B = 0:

















Função de M constante com valor inicial “a” igual ao valor final “b”, função de M constante, com
valor inicial “A” igual ao valor final “B”:
















Outros exemplos de integração:






















L
C. G.
1
L
3
L
b = 0
B A

A
x
1
L
3
2
L
3
L.a
Área =
2 M
transferimos
M
Valor
Trecho Valor A 2
Valor = A
2
L 3
L
3
dx
L.a 2
A
2 3
L
C. G.
1
L
2
L
b
B = 0
a

A
x
Área = L.a
M
transferimos
M
Valor
dx
Trecho
1
L
2
1
L
2
Valor A 1
Valor = A
1
L 2
L
2
1
L.a A
2
C. G.
L
1
L
2
b
a

Área = L.a
M
transferimos
Trecho
1
L
2
L
B A
x
M
Valor
dx
Valor = A = B
L.a A
dx = ( ) ( )
A B L 2
a.L b a A B A
2 2 3
+ (
· + ÷ + ÷
(
¸ ¸































Obs. Vimos, acima, casos em que as funções M e Mestão do mesmo lado da barra. Caso as
funções tejam em lados opostos da barra, por exemplo, M tracionando em cima da barra e M
tarcionando embaixo, estas funções deverão ter sinais opostos. Por exemplo, M será positivo e M
negativo, de onde “Valor” será negativo.
A integração de Vereschagin permite, também, determinar expressões para o cálculo das integrais
nos trechos, que são uma alternativa na resolução dos exercícios:




a
b
A
B
x
L L
L
C. G.
1
L
3
L
b = 0
B a

A = B
x
1
L
3
2
L
3
L.a
Área =
2 M
transferimos
M
Trecho
dx
L.a
A
2
B
Valor = A = B
(área da parábola)
dx
a

Trecho
L
C. G.
1
L
3
L
b = 0
B
A = 0
x
1
L
3
2
L
3
L.a
Área =
2 M
transferimos
M
Valor B 1
Valor = B
1
L 3
L
3
dx
L.a 1
B
2 3
B
Valor

Exercícios resolvidos


1 - Determinar o deslocamento angular da seção transversal da extremidade livre da barra
prismática. EI = constante










Solução

Determinamos as reações de apoio e o diagrama de momento fletor M para a estrutura, como
vimos no curso de EE - Estática nas Estruturas.




















Observamos que a força normal N e a torção T são nulas nesta estrutura, assim como será nas
demais estruturas deste módulo 4 e do módulo 5.
Embora tenhamos força cortante V na estrutura, que produz deslocamento, o seu efeito sempre
pode ser desprezado.
Portanto, a expressão do deslocamento se reduz a:

M.M
u = dx
EI


Sendo o produto EI constante na barrra:

M.Mdx
M.M 1
u = dx = M.Mdx =
EI EI EI





B
4 tf
A
2m 3m 2m
M (tf.m)
8
12
V
A
= 8 tf
V
B
= 4 tf
H
B
= 0
M
B
= 12 tf.m
B
4 tf
A
2m 3m 2m
1
A
V = 0,5 m
M (adimensional)
1
B
V = 0,5 m
B
M = 1,5
Caso barra de carregamento e momento fletor M:

Vamos definir o esforço unitário adimensional, que deverá, no caso barra de carregamento, ser
aplicado sozinho na estrutura:

- Queremos o deslocamento da extremidade livre (extremidade sem ligação a apoio ou barra) 
aplicamos o esforço unitário na extremidade livre.

- Queremos o deslocamento angular da seção  o esforço unitário a ser aplicado na extremidade
livre é um momento unitário.




















Novamente, as reações
A B B
V , V e M , e os momentos fletores M, foram obtidos da maneira que
vimos no curso de EE.
Observamos que, sendo o esforço unitário aplicado à estrutura um momento adimensional, os
momentos fletores Msão adimensionais, e também o momento de reação na seção B,
B
M .
Para que os produtos das reações na barra pelos braços de alavanca, que estão expressos em
metros, resultem momentos adimensionais, a unidade das reações deve ser m
-1
.


Cálculo de M.Mdx :



















1
B
1
A
2m 3m 2m
1
1,5
H
B
= 0
1
x
1
L
3
2
L
3
Valor
M
Valor 1 2
Valor = 1
2
L 3
L
3
+
L = 2 m
C. G.
1
L
3
M
transferimos
2.8
Área =
2
L = 2 m
L = 2 m
C. G.
1
L
3
8 1 1
x
1
L
3
M
transferimos
L = 2 m
Valor
2.8
Área =
2
M
Valor = 1
+
8
























Observamos que, no cálculo das áreas multiplicamos momentos M em quilonewtons vezes metro
(kN.m) por comprimentos em metros. Então, a unidade destas áreas é kN.m².
Multiplicamos as áreas por “Valor” que, neste exemplo é adimensional. Portanto, a unidade dos
resultados das integrais é kN.m².

Finalmente, temos o deslocamento angular procurado:



M.Mdx
31, 33
u = rd (radianos)
EI EI
, com sentido anti-horário.

Notar que, na expressão acima, ao substituirmos o valor do módulo E para efetuar o cálculo, este
deve ser expresso em kN/m² e o momento de inércia I em m
4
, uma vez que utilizamos KN e metro
como unidades na determinação do valor da integral.
Observamos ainda que, como o resultado final obtido tem sinal positivo, o sentido do deslocamento
é o mesmo que foi adotado para o esforço unitário adimensional: anti-horário.



















+
Valor 1, 5 2
Valor = 1,5
2
L 3
L
3
1,5
1
L
3
2
L
3
Valor
L = 3 m
C. G.
1
L
3
12
x
3.12
Área =
2
M
transferimos
M
L = 3 m
=
=
1º trecho 2º trecho 3º trecho
2
Valor
Valor Área Área Área Valor
2.8 2.8 2 3.12 2
1 1 1,5 = 31,33 kN.m
2 2 3 2 3
2 - Determinar o deslocamento vertical da seção da extremidade livre da barra prismática.
EI = constante










Solução

Determinamos reações de apoio e diagrama de momento fletor M conforme vimos no curso de EE.


















Deslocamento “u”

Sendo o produto EI constante na barrra, a expressão do deslocamento será:

M.Mdx
M.M 1
u = dx = M.Mdx =
EI EI EI


Caso barra de carregamento e momento fletor M:

Vamos definir o esforço unitário adimensional, que deverá, no caso barra de carregamento, ser
aplicado sozinho na estrutura:

- Queremos o deslocamento da extremidade livre (extremidade sem ligação a apoio ou barra) 
aplicamos o esforço unitário na extremidade livre.

- Queremos a translação vertical da seção  o esforço unitário a ser aplicado na extremidade é
uma força unitária vertical.








B
2 tf/m
A
2m 3m
9 tf.m
2 tf.m
V
A
= 1 tf
V
B
= 3 tf
H
B
= 0
M (tf.m)
4
5
2
B
2 tf/m
A
2m 3m
9 tf.m
2 tf.m














Novamente, as reações
A B B
V , V e H , e os momentos fletores M, foram obtidos da maneira que
vimos no curso de EE.
Observamos que, sendo o esforço unitário aplicado à estrutura uma força adimensional, as forças
de reação também serão adimensionais, e os momentos fletores Mterão metro como unidade, pois
serão o resultado do produto de forças adimensionais por braços de alavanca em metros
(adimensional x metro = metro).
Cálculo de M.Mdx :





































M (m)
B
1
A
2m 3m
2
A
V = 0,6667 B
V = 1,667
B
H = 0
x + x
M
L = 3 m
L = 3 m
M
M
M
L = 2 m L = 2 m
=
2
3
2
5
2 2
4
4
=
+
=
+
=
transferimos
C. G.
1
L
2
2
x
Área = 3.2
M
L = 3 m
Valor -2

2
L
L
3
2
Valor = (-2)
3
Valor
M
1
L
2
1
L
2
L = 3 m
2
+
L = 3 m
C. G.
1
L
3
3
3.3
Área =
2
M
M
2
L
3
L = 3 m
1
L
3
x
Valor
+
Valor -2

1
L
L
2
1
Valor = (-2)
2
2
transferimos















2º Trecho
1º Trecho
3
3
Área
Valor Área Área Valor Fórmula Valor
1 3.3 2 2.4 2 2.2 2+0
3.2 . (-2) + (-2) + 2 - = - 8 tf.m
2 2 3 2 3 12 2


Importante: Nas expressões acima, “Valor” é negativo quando os momentos M e Mestão em
lados diferentes da barra, por exemplo, M embaixo (tracionando o lado de baixo da barra) e Mem
cima (tracionando o lado de cima da barra).

O deslocamento pedido é, portanto:

M.Mdx
-8
u = = m
EI EI


O fato do deslocamento ter resultado negativo quer dizer que o sentido do deslocamento é contrário
ao sentido adotado para o esforço unitário no caso barra de carregamento.
Portanto, o delocamento é:

2 4
8
u = m ( ), para cima, sendo que o módulo de elasticidade E deve ser expresso em
EI
tonelada-força por metro quadrado (tf/m ) e o momento de inércia I em metros à quarta (m ).


+
C. G.
1
L
3
M
transferimos
2.4
Área =
2
2
x
1
L
3
2
L
3
Valor
M
Valor 2 2
Valor = 2
2
L 3
L
3
+
L = 2 m L = 2 m
4
x
L = 2 m
L = 2 m
A = 2
B = 0
q = 2 tf/m
=
3
Trecho
q.L A+B
M.M dx = - (fórmula)
12 2
Exercícios propostos


3 - Determinar o deslocamento vertical do apoio B da barra prismática.
EI = constante









Resposta:
160
u m
EI
= para baixo, com E em kN/m², I em m
4



4 - Determinar o deslocamento vertical da extremidade livre da estrutura.
EI = constante








Resposta:
320
u m
EI
= para baixo, com E em kN/m², I em m
4


5 - Determinar o deslocamento angular da seção transversal do apoio B.
EI = constante










Resposta:
10
u rd
EI
= no sentido anti-horário, E em kN/m², I em m
4













4m
A
20 kN.m
B
2m
10 kN
2m
A
B
A
4m
10 kN/m
6 - Determinar a deflexão angular da seção transversal do apoio móvel da barra prismática.
EI = constante











Resposta:
6
u rd
EI
= no sentido anti-horário, E em tf/m², I em m
4

7 - Determinar o deslocamento vertical da articulação da estrutura.
EI = constante







Resposta:
90
u m
EI
= para baixo, E em kN/m², I em m
4



8 - Determinar o deslocamento vertical da seção da extremidade livre da barra prismática.
EI = constante











Resposta:
11, 5
u m
EI
= para baixo, E em tf/m², I em m
4







2m 3m
20 kN.m
A
B C
4 tf.m
B
4 tf
A
2m 3m
B
2 tf/m
A
2m 3m
4 tf.m