DIANOETICO

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DICTUM DE OMNI ET NULLO

são natural no diálogo. A falta de confiança de Platão nos discursos escritos, porquanto não respondem a quem interroga e não escolhem seus interlocutores (Fed., 275 c) (o que talvez tenha levado Sócrates a não escrever nada e a concentrar toda a sua atividade na conversação com amigos e discípulos), também consolida a superioridade do diálogo como forma literária, que procura reproduzir o ritmo da conversação e, em geral, da investigação conjunta. Foi por certo esse o motivo que induziu Platão a manter-se fiel à forma dialógica em seus escritos e a esquivar-se à pretensão do tirano Dionísio de reduzir sua filosofia à forma de sumário {Let., VII, 341 b). A exigência do D. está presente, de modo mais ou menos claro, em todas as formas da dialética (v.), e não se pode dizer que esteja totalmente ausente da indagação filosófica, que, mais do que qualquer outra, procede através da discussão das teses alheias e da polêmica incessante entre as várias diretrizes de pesquisa. Além disso, o princípio do D. implica a tolerância filosófica e religiosa (v. TOLERÂNCIA), em sentido positivo e ativo, ou seja, não como resignação pela existência de outros pontos de vista, mas como reconhecimento de sua legitimidade e com boa vontade de entendê-los em suas razões. Nesse sentido, o princípio do D. permaneceu como aquisição fundamental transmitida do pensamento grego ao moderno e que, na atualidade, conserva valor eminentemente normativo (cf. G. CALOGERO, Logo e dialogo, 1950).

DIANOETICO (gr. ôvavoTittKÓÇ; in. Dianoe-

tic, fr. Dianoétique, ai. Dianoétik, it. Dianoetico). Intelectual. A palavra grega, adaptada às línguas modernas, permaneceu quase exclusivamente na expressão "virtudes dianoéticas", que, para Aristóteles, indica as virtudes próprias da parte intelectual da alma, ao contrário das virtudes éticas ou morais, pertencentes à parte da alma que, embora desprovida de razão, pode em uma certa medida obedecer à razão (Et. nic, I, 13, 1102 b). Para Aristóteles, as virtudes dianoéticas são cinco: arte, ciência, sabedoria, sapiência, intelecto (Md., VI, 3, 1139 b 15); sobre elas, v. os verbetes correspondentes. DIANÓIA (gr. ôtávoioc). Conhecimento discursivo que procede pela inferência de conclusões a partir de premissas. Essa é a definição dada por Platão (Rep., VI, 510 b) e por Aristóteles, que nela vê o conhecimento científico "referente a 'causas e princípios'" (Met., V, 1, 1025 b 25). Essa palavra eqüivale, aproximadamente,

ao que entendemos por razão, em sentido objetivo, e, no uso de Platão e de Aristóteles, implica certa discrepância com o sentido específico de nous ou intelecto, porquanto este designa a faculdade — considerada superior — de intuir os princípios de que partem os procedimentos racionais (v. DISCURSIVO). DIANOIOLOGIA (ai. Dianoiologie). É assim que Lambert denominou a primeira das quatro partes do seu Novo Organon (1764), mais precisamente a que estuda as leis formais do pensamento. Só faz reproduzir a lógica formal de Wolff. DIÁSTEMA (gr. ôváoTr)u.a). Propriamente, intervalo. Na lógica aristotélica, chama-se de D. a conjunção do sujeito com o predicado, ou seja, a proposição (An. pr., I, 4, 26 b 21; An. post., I, 21, 82 b 7; etc). DIATRIBE (gr. ÔKXTpiPrj; lat. Diatriba; in. Diatribe; fr. Diatribe, it. Diatriba). Breve tratado ético. Esse termo também aparece como título de obras atribuídas aos estóicos Zenâo e Cleantes, bem como a outros filósofos antigos. DIBATIS. Palavra mnemônica usada pela Lógica de Port-Royal para indicar o sexto modo do silogismo de primeira figura (Dabitis), com a diferença de assumir como premissa maior a proposição em que se encontra o predicado da conclusão. O exemplo é o seguinte: "Alguns loucos dizem a verdade. Quem diz a verdade merece ser imitado. Logo, merecem ser imitadas algumas pessoas que não deixam de ser loucas" (ARNAULD, Log., III, 8). DICOTOMIA (gr. ÔI%OTOUJOC,- in. Dichotomy, fr. Dichotomíe, ai. Dichotomie, it. Dicotomia). 1. Divisão de um conceito em duas partes segundo o método diairético da dialética platônica (PLATÃO, Górg., 500 d; Pol, 302 e ; cf. LEIBNIZ,
Nouv. ess., III, 3, 10). (V. DIALÉTICA.) 2. Denominação clássica (cf. ARISTÓTELES, FÍS.,

VI, 9, 239 b 18) do primeiro argumento contra o movimento, de Zenão de Eléia, que pode ser assim exposto: para ir de A a B, um móvel deve antes percorrer a metade do trajeto A-B; e antes ainda a metade dessa metade; e assim sucessivamente, de modo que não chegará nunca a B(ARISTÓTELES, Fís, VI, 9, 239 b 10; Ibid.,
VI, 2, 233 a 2). V. AQUILES; FLECHA; ESTÁDIO. DICTUM. V. SIGNIFICADO.

DICTUM DE OMNI ET NULLO. É o princí-

pio fundamental do silogismo: o que se diz de todos, diz-se também de alguns e de cada um; e o que não se diz de nenhum, tampouco se diz de alguns nem de cada um. P. ex., se todo