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convenções sociais e no fundo é sempre concebido como justiça mais superior e verdadeira. Nessa concepção, acentua-se o caráter utilitário do D. natural, graças ao qual o D. natural não visará à realização de uma ordem, mas à consecução de uma vantagem, tendo por isso caráter prático mais que especulativo. Portanto, nem sempre essa concepção tem o caráter antisocial de que se reveste em Antifontes e nos outros sofistas. Tampouco teria esse caráter naqueles que a retomaram alguns séculos depois, epicuristas e céticos. Epicuro dizia que o D. natural é uma convenção excogitada pelos homens para seu próprio proveito, a fim de não se prejudicarem uns aos outros (DlÓG. L, X, 150). Os céticos, com Carnéades, sustentavam que "os homens sancionaram o D. para seu próprio proveito, já que ele é mudado de acordo com os costumes e dentro de uma mesma sociedade, de acordo com os tempos: logo, não existe D. natural algum; todos, sejam homens, sejam outros seres vivos, são guiados pelo proveito próprio, sob a direção da natureza; conseqüentemente, ou a justiça não existe em absoluto ou, se existe de algum modo, é o cúmulo da estultice, porque ao defender as vantagens alheias estaria agindo em seu próprio prejuízo (LACTÂNCIO, Div. Inst., V, 16, 2-3; CÍCERO, De rep., III, 21). Nessas doutrinas a polêmica não se volta diretamente contra o D. natural, mas contra sua interpretação racionalista e otimista, segundo a qual ele é a garantia infalível de uma ordem perfeita. Mas era justamente essa garantia infalível que a outra corrente fundamental, que vai de Platão e Aristóteles aos estóicos, aos juristas romanos e aos escritores medievais, via no D. natural. Na verdade, Platão definiu o D. ao definir a justiça como aquilo que possibilita que um grupo qualquer de homens, mesmo que bandidos ou ladrões, conviva e aja com vistas a um fim comum {Rep,, 351 c). Ao que parece, essa seria uma função puramente formal do D., graças à qual ele é simplesmente a técnica da coexistência. Mas Aristóteles já qualifica o D. tomando como referência a coexistência justa, racionalmente perfeita. O D., diz ele, é "o que pode criar e conservar, no todo ou em parte, a felicidade da comunidade política" (Et. nic, V, 1, 1129 b 11), devendo-se recordar que a felicidade, como fim próprio do homem, é a realização ou a perfeição da atividade própria do homem, ou seja, a razão Ubid, I, 6, 1098 a 3). "A sanção do D.", diz ele em Política (I, 2, 1254 a),

"é a ordem da comunidade política, e a sanção do D. é a determinação do que é justo". Mas um D. assim entendido é só o D. natural, que é o melhor e em toda parte o mesmo (Et. nic, V, 16, 1135 a 1). O D. fundado na convenção e na utilidade é análogo às unidades de medida que variam de um lugar para outro; o D. natural, ao contrário, é '"aquilo que tem a mesma força em toda parte e independe da diversidade das opiniões" (Ibid., V, 6, 1135 a 17). Os estóicos só fizeram explicitar o fundamento dessa doutrina, identificando o D. natural com a justiça e a justiça com a razão Q. STOBKO, Ecl., II, 184; PLUTARCO, De Stoic. Rep., 9); sua melhor expressão está num famoso trecho de Cícero conservado por Lactâncio: "Há certamente uma lei verdadeira, a reta razão conforme à natureza, difundida entre todos, constante, eterna, que, comandando, incita ao dever e, proibindo, afasta da fraude... Nessa lei não é lícito fazer alterações, nem é lícito retirar dela qualquer coisa ou anulá-la como um todo... Ela não será diferente em Roma, em Atenas, hoje ou amanhã, mas, como lei única, eterna e imutável, governará todos os povos e em todos os tempos, e uma só divindade será guia e chefe de todos: a que encontrou, elaborou e sancionou essa lei; e quem não lhe obedecer estará fugindo de si mesmo, e, por haver renegado a própria natureza humana, sofrerá as mais graves penas, mesmo que tenha conseguido escapar daquilo que em geral é considerado suplício"
(LACTÂNCIO, Div. Inst., VI, 8, 6-9; CÍCERO, De rep.,

III, 33). Esse conceito de D., entre outras coisas, induzia a reconhecer a igualdade de todos os homens visto que em todos eles, pela sua natureza racional, revela-se a lei eterna da razão. Em Cícero, encontra-se esse reconhecimento (De leg., I, 28) e também um dos corolários mais importantes da doutrina do D natural: o princípio e o fundamento de qualquer D. devem ser procurados na lei natural dimanada antes que existisse qualquer Estado; portanto, se o povo ou o príncipe podem fazer leis, estas não terão verdadeiro caráter de D. se não derivarem da lei primeira (Ibid., I, 19-20, 28, 42, 45). Essas afirmações foram reiteradas por Sêneca, em que também se encontra a teoria do "Estado de natureza", que deveria dominar o pesnamento político por muitos séculos. Segundo essa teoria, antes das instituições criadas por convenção pela sociedade, existiu uma idade em que os homens viveram sem lei, unicamente à mercê da inocência da natureza original.