DIREITO

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Viviam felizes, fruindo sua convivência. Não eram virtuosos, porque a sua inocência era feita mais de ignorância, ao passo que a virtude é própria da alma doutrinada e experiente. Mas a ordem em que viviam era a melhor possível porque ditada pela própria natureza, nela até os chefes se inspiravam, em sua sabedoria (Ep., 90). Assim, o mito da idade de ouro transforma-se em mito filosófico porque se une à noção de D. natural e é caracterizado por ela. Mas, afora esse mito, os juristas romanos elaboraram uma doutrina do D. bastante semelhante à dos estóicos. Em meados do séc. II, Gaio, nas primeiras palavras das suas Instituições, que são citadas inclusive no Digesto, afirmava: Ia existe um D. das gentes (Jus gentium) universal, que compreende princípios reconhecidos por toda a humanidade; 2- tais princípios foram ensinados aos homens pela razão natural e, por isso, são coevos do gênero humano (Inst., I, 1; Dig., I, 1, 9; Ibid, XLI, 1, 1). O que Gaio chamava de jus gentium era chamado de D. natural por Paulo, mas a definição era a mesma (Dig., I, 1, 11). Mais tarde, no séc. III, distinguiu-se o D. das gentes do D. natural. Segundo Ulpiano, o D. natural é o que a natureza ensinou a todos os animais e por isso não é próprio apenas do gênero humano, mas é comum a todos os animais que vivem na terra, no mar e no céu. Desse D. provém a união do macho e da fêmea, que nós chamamos de matrimônio, a procriação e a educação dos filhos, coisas essas de que também os animais têm experiência. O D. das gentes, ao contrário, é aquele de que se valem todas as raças humanas, sendo próprio somente dos homens (Dig., I, 1, 1-4). Essa distinção representa o produto de outra instância crítica, qual seja, o reconhecimento de que nem todas as leis universalmente reconhecidas como tais pelos homens se fundam no D. natural; p. ex.: a escravidão, como nota o próprio Ulpiano (Ibid., I, 1, 4), embora universalmente admitida, não se funda no D. natural porque o homem é originalmente livre. Mas com essa distinção, o conceito de D. natural mudava, perdia-se o vínculo entre D. natural e razão. Por ser comum a todos os animais, portanto também aos desprovidos de razão, o D. natural não podia mais ser considerado como ditado pela razão e coincidente com a racionalidade. Por isso, ele foi remetido seguindo-se o esquema estóico, àquilo que, nesse esquema, constituía o equivalente da razão nos animais, ou seja, o instinto. Segundo os Padres

da Igreja que, nesse aspecto, continuam a tradição dos juristas romanos, a lei natural está escrita no "coração" dos homens como uma espécie de força inata ou instinto. Diz S. Agostinho: "O D. natural não foi gerado por uma opinião, mas inserido em nós por uma força inata, do mesmo modo como, na religião, estão a piedade, a graça, a observância, a verdade" (Dediv. quaest., 31; cf. S. AMBRÓSIO, De off, 3). E foi justamente esse o conceito legado à filosofia escolática através das Etimologias de Isidoro de Sevilha (séc. VII). Diz Isidoro: "O D. natural é comum a todas as nações, sendo que em todos os lugares deriva do instinto natural, e não de uma constituição; p. ex., a união do macho e da fêmea, a sucessão e a educação dos filhos, a posse comum de todas as coisas e a liberdade de todos, a aquisição das coisas que estão no céu, na terra e no mar, etc." (Etym., V, 4). Não causa estranheza, portanto, que os juristas medievais tenham considerado o D. natural exatamente como um instinto ou uma tendência inata, que eles interpretam como sinal ou marca posta no homem por Deus (PIACENTINO, Summa instit., I, 2). No séc. XII Graciano dividia todas as leis em duas partes, atribuindo a Deus as leis naturais e aos costumes, as leis humanas (Decretum, d. I). A identificação da lei natural com a lei divina constitui o fundamento do D. canônico. O D. natural, notava Rufino, comendador de Graciano, é "uma força (vis) que a natureza imprime na criatura humana para levá-la a fazer o bem e a evitar o mal". Ela ordena o que é útil, como p. ex. "ama o Senhor teu Deus"; proíbe o que é nocivo, como p. ex. "não matarás"; demonstra o que convém, como p. ex. "tende tudo em comum", ou "seja uma só a liberdade de todos", etc. (Summa decr., d. I, Dictat. Grat., ad I). A distinção de Graciano entre lei divina e lei humana é assumida como fundamento da doutrina tomista do direito. Segundo S. Tomás, há uma lei eterna, uma razão que governa todo o universo e que existe na mente divina; a lei natural que está nos homens é reflexo ou "participação" dessa lei eterna (S. Th., II, 1, q. 91, a, 1,2). Além dessa lei eterna, que para o homem é natural, há duas outras espécies de leis: a "inventada pelos homens e segundo a qual se dispõe de determinado modo das coisas a que a lei natural já se refere" (Ibid., II, 1, q. 91, a. 3) e a divina, necessária para encaminhar o homem ao seu fim sobrenatural (Ibid., a. 4). No que diz respeito ao fundamento de todas as leis feitas