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pelos homens, S. Tomás repete a doutrina tradicional, de que não é lei aquela que não é justa, e, portanto, "qualquer lei humana deve derivar da lei natural, que é a primeira regra da razão" (Jbid., q. 95, a. 2). Em geral, pertence à lei natural tudo aquilo a que o homem se inclina naturalmente; S. Tomás distingue três inclinações fundamentais por natureza: Ia para o bem natural, compartilhada com qualquer substância que, como tal, deseja a própria conservação; 2a para determinados atos, que foram ensinados pela natureza a todos os animais, como a união do macho e da fêmea, a educação dos filhos e outros semelhantes; 3a para o bem, segundo a natureza racional própria do homem, como a inclinação para conhecer a verdade, viver em sociedade, etc. (5. Th., II, 1, q. 94, a. 2). Assim, S. Tomás considera o D. natural, ao mesmo tempo, instinto e razão visto que inclui nele tanto a inclinação que o homem tem em comum com todos os seres da natureza e com os animais, quanto a inclinação específica do homem. Quanto a esta última, ele estabelece entre os preceitos do D. natural e a razão prática a mesma relação que há entre os primeiros princípios das demonstrações e a razão especulativa: tanto os preceitos quanto os primeiros princípios são "conhecidos de per si", ou seja, evidentes. Mas em todas as suas determinações, tanto instintivas quanto racionais, o D. natural é sempre a participação na "lei eterna", na ordem providencial ou divina do mundo. Durante toda a Antigüidade e a Idade Média, o D. natural conservou a função de fundamento e, às vezes platonicamente, de arquétipo ou modelo de todo D. positivo. Já nessa fase de sua história, a noção de D. natural constituiu um limite e uma disciplina para toda forma de autoridade estatal ou política, servindo ao mesmo tempo para justificá-la. Mas caberiam outras funções à teoria do D. natural a partir do início do séc. XVII. Por um lado, ele viria a ser utilizado na justificação e na reivindicação prática de novos princípios normativos, como os da tolerância religiosa e da limitação do poder do Estado. Por outro, seria utilizado para fundar um novo ramo do D., o D. internacional, exatamente no momento em que o surgimento das monarquias absolutas e a aceitação mais ou menos explícita do maquiavelismo como condutor de suas políticas pareciam fazer da força o único árbitro das relações internacionais. Mas para cumprir essas novas tarefas, a teoria do D. natural devia sofrer uma transfor-

mação radical: essa função coube ao jusnaturalismo moderno. b) Jusnaturalismo moderno — Para o jusnaturalismo (v.) moderno, o D. natural não é mais o caminho através do qual as comunidades humanas podem participar da ordem cósmica ou contribuir para ela, e passa a ser uma técnica racional de coexistência. Conquanto Alberico Gentile — que, antes de Grócio, ainda procurou extrair as noções normativas do D. natural da consideração do estado de guerra (De jure belli, 1588) — utilizasse o conceito de instinto natural imutável que manteria os homens unidos como membros de um único corpo, todos os conceitos desse gênero foram descartados por Grócio. A teoria do D. natural foi levada por Grócio ao mesmo plano racional da matemática, para o qual o próprio Descartes quis levar a filosofia e todas as outras pesquisas científicas. Como fundamento da obra de Grócio, há o recurso à razão, que é o recurso à razão matemática, à qual os filósofos do séc. XVII julgam estar confiadas as verdades da ciência. Segundo Grócio, a matriz do D. natural é a própria natureza humana, que conduziria os homens às relações sociais mesmo que eles não tivessem necessidade uns dos outros. Por isso, o D. que se funda na natureza humana "teria lugar mesmo que se admitisse aquilo que nào pode ser admitido sem cometer um delito: que Deus não existe ou que não se preocupa com as coisas humanas" (De jure belli ac pacis, 1625, Prol., § 11). Porquanto procede por legítima dedução dos princípios da natureza, o D. natural distingue-se do D. das gentes (jus gentiuni), que não nasce da natureza, mas do consenso de todos os povos ou de alguns deles e visa ao proveito de todas as nações. Pela sua própria origem, o D. natural é próprio do homem, único ser racional, ainda que se refira a atos comuns a todos os animais, como a criação da prole (Ibid., I, 1, 11). É definido por Grócio como "o mandamento da reta razão que indica a lealdade moral ou a necessidade moral inerente a uma ação qualquer, mediante o acordo ou o desacordo desta com a natureza racional" (Jbid., I, 1, 10). As ações sobre as quais versa o mandamento são obrigatórias ou ilícitas de per si, e portanto são entendidas como necessariamente prescritas ou vetadas por Deus. Nisso o D. natural distingue-se não só do D. humano, mas também do D. voluntário divino, que não prescreve nem proíbe as ações que pela própria natureza são obrigató-