Humorismorovas-Poesias-Solimões T (ANEDOTAS QUINTINO) DO

PLAUTUS ACCETTI CUNHA SENDO ENTREVISTADO PELO JORNALISTA FENELON ALMEIDA DE "O POVO" FORT.-CE.

-

LIXEIRODA PREFEITURA

BONECADO LIXO

Onde está o meu poema ~ Que tu levClStes no lúo? N40 ouvf3te o meu clamor Pedindo por carid44e O meu poema de amor Que leva.s!te da cidade? Ele estava bem per.i1ho De uma sacola vermelha Gritei pedi que tu /ossu Espantar essas abelhClS De minhas palavra, doces ,8IJmechesse bem no, montu De papeis sujos, rasgadios Procur4:JSe com capricho Até enoontrar meu poema De amor que loi no U:co.

amor,

O sol num passe de mágica Esconfleu.se atrA Da corttna do horizonte Det:clJndo um monte Dc estrelas vadias Como fGIII todlos os diaBo

O cançado funcionário Varredor a'b TUG Deu as últimas vassouradu No lixo, encontr;pu velha boneca NUIJ, jogou com a lixaria Na cat:ca colerora.

Limeira,

21-12-8.

Acenderam-se as luzeIB do jardim cançado, sentou E dettou-se na grama Cr.mo se ali losse uma cama Dormiu, sonhou... A velha boneca lOura 'e- em linda Abraçou.o lH1ilarina sem o menor respeito

PLAUTUS CUNHA

ALMA PURA
Olhando bem para dentro de mim mesmo Vi minhlalma e tive pena Estava tão sujtnha., LIIvei com minhas lAgr1JnU Enxuguei Com o sopro do arrependimento.,

Dançou com ele ali um minUl!to.

Dia claro interrompendo o sonho Da bailarina e da boneca loura O Fiscal do lúo Seu Totonho

-

Enoontrou.o deitado, Abraçado com a lICllBSOUna...

Plautus Cunha

!:

_

'---

,

ANEDOTASDO .QUINTlMO , .

-

iHUmol:!.smo. Chlstl3s.Facéclãs,Quadras.Sonetose
Poesias. .Inédftas)

ILUSTRAÇOESDE : ÂNGELA CUNHA, Autor e PRATA Fotogravura~
Fortaleza

- Gravuras

da:

1

Clicherie

Caucaia

-

Ceará

r ,

DIREITOS AUTORAIS REGISTRADOS NO MEC Biblioteca Nacional, folhas 12, livro N9 10. Registrado sob N9 11.600 EDIÇAO CORRlGIDA DO 13/4/58

I
1

AUTOR

E AUMENTADA

-I
\

'.

Rubríca de Autencidade -. .Plantus Cunha
.

PágIna 1

QUINTINO CUNHA E SEUS FLAGRANTESGENIAIS

1"

é uma Interessante obra de arte ", islnda assim não me furtaria ao prazer de l"eproduzlrJagora, algumas das multas boutades do nunca esquecido poeta cearense José Qulntlno da Cunha.

_

EÇA DE QUEIROZ, izia que: "Uma graça d que faça rir, ,passadosvnte ou s cem léguas do Mundoque a produziu

-

-

da vida de Q. C.? Edições seguidas; já mudei até o tltuó para .. FLAGRANTES VIDA GENIAL DE QUINTINOCUNHA". DA Eu mesmo como "Edição" do próprio Qulntlno e Qulnqulnha. estou cançado, com proglemas visuais. Seguindo Eça de Quelroz(não confundamo nome). Aqui v.ãoas obras de arte. Que Vivemna boca do povo. Uma graça que faz rir, passados vinte anos ou há cem légua do Mundo que a produziu - é lima Interessante obra de arte".

i 'Gomo poderia deixar de. publicar as boutades e flagrantes

Página 02

Anedotas do Qulntlno ·

QUlNTINO

-

I
ADVOGADO DOS

POBRES

Foi advogado dos pobres de Fortaleza enquanto viveu. Publicou Pelo Sollmões, livro que o conceltulu como poeta de apurada sensibilidade. Um dia, ,pensouna cátedra da Faculdade de Direito e escreveu tese O Estilo na Jurisprudência,trabalhoJurfa1co, a que lhe valeu o doutoramento. Merece, pois, os mais justos elogios a decisão, tomada por PlautlAS Cunha, escritor e jornalista dos melhores, de tor. nar cada vez mais dlvulg8'da essa faceta do espfrlto do pai. E por direito lhe pertence. Não pode ser melhor a homenagem. E convenço-mede que ó amor filial de Plautus o conse. seguirá com vantagem. Ralmundo Girão

-

ir

Plautus Cunha

MINHA

VIDA

DE MENINO, COM

PAPAI aUINTINO

Quintino, meu querido pai ria-se gostosamente de alguma coisa que eu dissesse com graça. Eu fui o seu ajudantesecretário muitas vezes. Certa vez o José Neves, arranjou uma audiência com o juiz, para o velho José Nunes soltar "algum', sobre uma demarcação de terras. José Neves, era Tabelião em Lages, José Nunes, matutão das Umburanas, era obrigado a usar gravata na audiência e não sabia dar o nó, era eu quem dava o nó da gravata. Ao agradecer-me querendo me dã ..algum" eu disse; deixa pra depois e o Zenunes: De lá vou me embora, repliquei. - O Sr. volta, porque este laço é de ida e volta, só quem sabe dá e desatar sou eu: Papai Quintino gostava muito das minhas peraltices. O poeta improvisava coisas originais. Um dos seus lazeres era pescar e caçar, hábitos adqurdos no Amazonas. Em L'3ges., o poeta quase todo dia ia pescar nos açudes da Vila principalmente no Paroara e Antonio de Lima. Caçava uma vez por semana. Nós adoravamos acompanhar o Papai Quintino, ele estava sempre de bom humor. Eu e o meu irmão Cleanto, acompanhavamos o nosso pai nesses passeios. Papai pegou uma caixinha de tinta germania de côr verde e ferveu uma rou pa e um chapeu de verde para se confundir com a côr da mata e enganar as caças ele vestia-se todo de verde e eu com roupas comuns. Didi perguntava: Que trouxeram de bom para o jantar? não trazíamos nada, dia da caça... Respondia: Meu bornal estar cheio de espigas de milho, e um papagaio doido para comer lima canjica! E apontava para o papai que dava boa garga:hada. . .
Página 4 Anedotas do Quíntino *

A VIDA SERIA DO HUMORISTA. . .
Publiquei, um há anos, históMas.

trabalho

rico - religioso,

sacre, que se esgotou em poucos me. ses. Alguém lembrou que estava fora do meu gênero. Então, quando era convida: do para alguma re. cepção, 1943 - Lembrança de quando eu não queria à Guerra. sempre me p.,.diam para " algumas", contar depois

que eu suava para narrar a tremenda carnificina com que os índios gaviões eliminaram os mártires de Alto-Alegre, no Maranhão. Eu me sentia incompreendido pelo meu público, Retornei "ao meu gênero", publicado sempre anedotas do Quintino, no que já fui imitado por outros que publicaram como do poeta algumas que "bolei", em horas rie aperto. Que publiquem de meu pai, vá lá. Mas não há de ser nada. Certa ocasião, perguntaram ao Quintino se ele era sério, ao que o poeta respondeu: Sou sério, náo sou sisudo! Quem é humorista morrerá humorista; tudo isso pode

·

Plautus

Cunha

Página

5

dosgostar é claro, ao humorista, que para muitas pessoas muito ulBudas (ou muito sérias) jamais passará de um palhaço, porque no fundo do seu ser é isso um histrião e não uma sen. slbllidade à flor da pele, que não pode deixar passar sem um, comentário, sútil, às vezes irônico, o aspecto ridículo das ati. tudes mais aparentemente comedidas dos homens. Mas nenhum desses comentáros poderá afetar o sorriso de um humorista de verdade, de um humorista que nasceu e morrerá com o condão de censurar com toque de espirituaidade a que, em outras natureza menos evoluidas, provoca uma série de admoestações acompanhadas em regra de brados sobre regras é costumes. Uma vez que mergulhamos a pena do tinteiro do umor, toda a alma fica perpassada dessa filosofia. Dia e noite, até o dia da última noite, o humorista de quilate arcará com o fardo: será humorista. Às vezes me dizem: "Então, meu çaro. filho do Ouintino, conte-nos alguma coisa engraçada; o senhor tem muito jeito". Nada no universo poderia me esvaziar mais que essa súplica. Desce sobre mim uma cortina, o meu trem de anedotas desencarrilha. Todas as anedotas que eu me lembrava há pouco tempo, me abandonam. Meus portugueses e meus caipiras desaparecem do trem sinistrado, pego pela perna uma de Bocage sobre uns noivos, mas é imoral. Pode contá-Ia, não faz mal. " E assim vive a pessoa que conta piadas. o. ou o humorista propriamente dito.

Página

6

Anedotas

do Quintino

..

I

"Vencido ou Vence4or, terás a perpetuidade no me~ coração". (Trecho de uma car~a de Quintino Cunha ao seu filho PI'autus Cunha)
...

Editora Miguel Ângelo Accetti Endereço: Rua Floriano Peixoto, 1314 Fone: 231-0327 Fortaleza . Ceará
* Plautus Cunha

mo)

Página

7

CARTA DE QUINTlNO AO SEU FILHO PLAUTUS CUNHA

Plautus Cunha, que então residia no Rio, escreva a seu pai, cientificando-o de que ia servir ao Exército, na revolução. Quintino respondeu-lhe com a seguinte carta:

.Meu

filho:

Deus te abençôe. Tenho nos olhos e no coração a tua carta. Estou bem pago de meu amor a ti. Valem os teus 18 anos, 18 séculos de experiência do mundo, dos homens e das coisas. A lição que deste não fui eu quem te passou, fui causa e tu foste efeito. Porque da minha essência jamais nasceria um esquecido dos seus deveres pátrios, a despeito de luto, sangue ou morte! Serve, meu filho, a Pátria que eu te apresentei no lar como um Sol, centro de luz irradiadora e eterna, cujos raios se adelgam por toda a poligonal da vida!
.

A Pátria letra, a pátria arte, a pátria ofício e a pátria cio

ência convencionam (não sabes aritmética?) que as letras, as artes, os ofícios e as ciências sejam um Redaço de pano ver. de, armarelo, azul e branco e terás uma preciosíssima toalha para enxugares o suor do teu rosto ou sangue do teu.. corpo na fadiga da refrega, da luta pelo magno dever. Não vises situações de melhor proveito. elas são semp.re duvidosas. O que é certo é que, vencido ou vencedor, terás a perpetuidade no meu coração, porque para ele hei de trasladar do túmulo vago do Soldado Desconhecido. Olha, lembra-te bem: ser revolucionário para a ordem e não para a desordem. Revolucionário pela indigação de ver desrespeito à grande obra da Humanidade, quer dizer, a Lei, que é moradia certa das nossas relações necessárias. Deus te faça tão bom soldado como és bom filho. Teu Pai.
* Plautus Cunha Pagina 9

FLAGRANTES
NA FACULDADE DE DIREITO: LEONARDO AO QUINTINO Olha Quintinoaqueles professores dando gargalhadas! Foi algumas que você disse? - Quando você ver estes professores rindo, pode acreditar que foi uma piada que eu disse há dois anos, e eles estão compreendendo agora. "Mas, nem só pilheriando viveu Quintino Cunha em Quixe. ramobim. "Lembro-me bem de como, certa ocasião, viajando para a cidade onde morava num trem da R.V.C. tinha o conhecido humorista como companheiro de viagem seu amigo Deoclécio, residente em Boa Viagem, que levava, para g6so de férias uma filha de dez anos. De súbito, a catástrofe: o trem virava e se despedaçava. E no meio de centenas de vozes que o chamavam por socorro, uma se sobressaiu angustiosa: "Dr. Quintino, me salve! "Que valiam os presentes que levava para os filhos e a esposa; que valiam malotas e embrulhos ante a vida daquela que lhe pedia para salvá-Ia. Rápido, quanto lhe permitiam as pernas trôpegas, chegou aonde estava a criança desamparada. E, curvado, o corpo em forma de arco, se fez abrigo da peque. nina Rita. E a Vida, parodiando o Cinema, fez com que os pe. daços de madeira que se desprendiam, caissem a um palmo de distância dos dois. O carro ficou em pandarécos. Do meio àos rlestroços saiu ileso o autor de "O Poder da Miséria". Vinha. sem óculos, sem chapéu, sem bengala, sem malota e sem embrulhos, mas trazia pela mão, salva e sã, para os braços do pai desesperado, a pequenina a quem dera proteção. . .

I:.:.~

Poucos, raris~~m~s, foram os filhos que tiveram o prazer e a . -. ,u . :, .,

honra .de possuir' um pai, tão original e dedicado. O dono da foto que se..projeta nesta página é o meu-pai, meu melhor ami.. como uma doce recordação de minha existência. Sua respos-

ta a uma solicitação minha foi: "Sempre contigo".

POr isso,

';ontinoo repetindo com segurança que não vivo sozinho, pois ele está sempre comigo.

P. C.
* Plautus Cunha Página 11

NOSSA

INESQUECíVEL VIRGININHA

Partiu para o Oriente Eterno, no dia 12-10-86. Residia no Rio de Janeiro. Era a primeira filha do segundo matrimônio Quintino Cunha. do poeta marido Seu

Álvaro Guedes de Lima, oficial da Marinha, ainda mora no Rio, com quatro filhos, sendo uma, de menor idade, d~ixados pela espiritousa Virgminha, que pare-

eia muito com o poeta.
,..

* *

Papai Quintino,

estava

em

casa de minha avô Fransquinha Accetti, para resolver um dese-ntedimento entre vizinhos. ManVmGININHA, num retra~ que fiz de memória.

dou que fossemos chamar o Dr. * * * Pinto, que morava bem próximo a padaria do cel. Emílio Sã, na Rua Clarindo de Queiroz. O Dr. Sousa Pintos, tesemunha do incidente. Fui com a Virgininha, ela, mais velha. Chegando lã perguntou a um moço que queria ser espirituoso: Por favor é aqui que mora o Dr. Pinto? - Não senhora aqui mora o Dr. Galo. Ela completa: - Mas deve ser ele mesmo, pois faz ctnco meses que não o vejo.

-

Página

12

Anedotas do Quintino

*

OBRAS

DO

MESMO

AUTOR: 2a. ed. 25a. ed. -7a. ed. 3a. ed. 3a. ed. 2a. ed. (Esgotado) 78. ei.

Massacre Anedotas do Ouintino Ceará Gaiato Ceará Rindo Ceará Moleque Obra Prima da Literatura de Cordel Cearálegre Cabra da Peste
* Plautus Cunha

(esgotado) (Esgotado) (esgotado)

-

a sair
Página 13

BODE

ESPIRROU...

EM ACOPIARA, onde o poeta se demorou uns dez anos. aqui e acolá ia fulminando com sua inteligência. em respostas maravilhosa. tantos quantos tivessem a audácia de provocá-Io. Um dia. Quintino. acompanhado de seu filho Cleanto Cunha. ao entrar na loja de Chico GuUherme. deu um formldavel esespirro! A coqueteria Feminina arriscou-se e uma das moças loja disse troçando:

-

Bode espirrou é sinal de chuva! Quando vê cabra também!

Do Livro Cantigas de Muita Gente., nandes e ZalKino Piatigorosky. Conceito claro e profundo Que se eleva sem se impor A casa é feita no mundo E o lar é feito no amor.
Página 14

.

de Aparíclo Fer-

Anedotas

do Qulntlno

*

INFLExrVEL em nada pedir a govêrno algum, "virgem de funções públicas", como se considerava. Quintino decidiu empreender uma nova viagem ao extremo Norte, à cata de meIhoria financeira. Mas, étntes da partida, deixou em mãos 'de Pedra Barbosa, gerente do Café do Comércio de Fortaleza. para serem publicadas, quando já longe estivesse. estas parelhas:

ADEUS, CEARÁ! Aqui vivendo, à guisa de verdade. só me impressionam ódios e saudades. . . Ódios G'OS ideais, vivendo, a êsmo. mesmo os nascidos dentro de mim ,mesmo! Saudades dêsses campos. dêsse clima. que nos transportam de confôrto acima. Terra boa. coberta de virtudes.

adfuturum,

glacial de de perto. é como o sol, Boa madrasta. cheia de adora. imensamente. os saindo. embora continui

açudes queima de perto. . . cuidados, seus enteados... o inverno...

E, assim vivendo. o meu viver alterno Que o cearense. é como o passarinho: tem que voar para fazer o ninho!
..

Plautus

Cunha

Página

]5

PROI:MIO

tem aceitação. É lida. Agradou.

Há fatos que são sintomas. Este -de tirar um livro em nosso País, a 25a. edição, é um deles. fndice de que a obra

ANEDOTAS DO OUINTINO- para o ouvido cearense, é som familiar. Por onde se anda, ouvem-se, repetidas,. as historietas de Ouintino Cunha. Obrigatórias, nos fins de rega-bofes, do mais grâfino banquete ao mais íntimo repasto, no momento em que os comensais já espiritualizaram bastante. ,"vinoveritas, pessoa alegre, de bons 'sentimentos que o vinho revela, como revela os brigões, pródigos, os taciturnos, os lo-

quazes.. .

A pilhéria é milenar. Parece ter Adão engolido a maçã unicamente por uma pilhéria de Eva. Teríamos sido, portamo filhos da pilhéria e... de bom gosto a primeira da historia humana, por entre as moitas meio surpresas do terral Paraíso. Diógenes foi a suprema pilhéria 'grega. E em Roma a satira tomou forma degênero literário. Com o poeta Caio Lucílio, no segundo século a. C., queimando em rimas os des' regramentos dos seus concidadãos. Depois veio Horácio, com as afamadas "Sátiras". Veio Juvenal, com as suas não menos
..Célebres"

.

O maior humorista e repentista cearense de todos 05 tempos, no Ceará, foi Ouintino Cunha. Conheci-o de perto. Dou testemunho dos admiráveis efeitos das suas imp~ovisações chitosas do seu repentismo. Longe de ser um vaidoso, com a sua personalidade atraente e a sua forte miopia visual, sem qualquer espalhafato de gesto nem de linguagem, trazia em gargalhada as ..rodas" dos cafés da
cidade

-

primeiro o Riche, depois o Glória,

mais

recente-

mente o Globo, nos quais se amesendavam intelectuais, cientistas e juristas, estudantes e profesores a ouvilo. No Tribunal do Jun nunca perdeu uma causa. Bacharel em Direito, advogado, andou por muitas te:r<:1"; exercendo com brilhantismo a profissão, com resultados ótimos. Os seus dotes oratórios fizeram-no respeitado na tribuna do Juri, profissional na arte da Lei. Muitos que Ihê davam algum dinheiro, lhe deviam quando menos a liberdade.
Página 16
Anedotas do Qulntino ir

Foi advogado dos pobres de Fortaleza enquanto viveu. Publicou Pelo Sollmões, livro que o conceltuou como poeta de apurada sensibilidade. Quando rapaz, estreara com Diferentes (1895). prefaciado por Farias Brito. São contos, JeUzes pela delicadezada expressão. Outros que Impressionampelo atrevimento da Idéia, e em todos uma certa feição 'Particular., ue q 08 torna deveras originais. . Um dia, pensou na cátedra da Faculdade de Direito e escreveua tese O Estilo na Jurisprudência,trabalho jurrdlco, que lhe valeu o doutoramento. Escreveu a.lnda "os MARTIRES DA SELVA" (romance'

-

MORTEDE CABELEIRA"."FILHAS DE URTIGA" (sátiras e eplgramas). DE MIM PARA OS MEUS,sobre a sêca de 32. ; E Entretanto. como repentlstae donode fino humor,é que o Dr. José Qulntlno da Cunha havia de entrar na fama. Para não mais sair. Merece, pois, os mais justos elogios a decisão, tomada por Plautus Cunha.escritor e jornalista dos melhores, de tornar cada vez mais dlvulgada essa faceta do esprrlto do pai. E por direito lhe pertence. Não podeser melhor a homenagem. Todavia,a Individualidadede Qulntlno Cunha,no conjunto, exige estudo mais demorado, num 'levantamento biográfico que o retrate devidamente. Quem o fizer, dará valiosa contribuição à n08sa cultura mental. E convenço-me de que o amorfilial de Plautu8 o conseguiria com vantagem. . Ralmundo Glrio

amazonense). "VIR PARAVOLTAR"(romance cearense).li A

..

Plautus Cunha

Pág1na 17

aUINTINO CUNHA O G~NIO DO IMPROVISO
De Ouintinó Cunha não seria exagero dizer-se aquilo mesmo que se disse de Oscar Wilde: que a sua maior e mais bela obra é aquela que ele não escreveu. Ninguém mais ignora que o maravilhoso criador de .. Dorian Gray" foi um causeur genial. Nos seus lábios morava Õ milarge da palavra, que era sempre nova, imprevista, alucinante, mágica. Era o verbo novo, revelador, que aturdia e confundia. Seus paradoxos imortais foram as suas parábolas. E dizem mesmo que a sua obra mais característica está encerrada nas "'ntentions", que é o seu livro de estréia, aquele em que o seu estilo mais se aproxima da prodigiosa espontanei'dade de suas memoráveis causeries. Ouintino Cunha é assim. Q'uintino é o gênio do improviso, que é um fenômeno curioso de mecânica mental. No improviso não há raciocinio, há intel igência bruta. O improviso é uma idéia instintiva, que não sofre o processo lógico das idéias acionadas pela reflexão. Para citar Freud ou Ralph, direi que o improviso é a subo versão cerebral do pensamento pela explosão revolucionária do subconsciente. Não se pense que defendo o absurdo de negar cultura ao improvisador. Minhas premissas concluem pelo contrário, pois que só uma cultura profunda pode produzir uma subconsciente genial. O subconsciente do bruto é a treva, é o crime é a própria inconsciência. Em Ouintino Cunha, esse subconsciente é uma clarividência. É quase a "revelação" - aquela centelha que Krautzer atribuia à alma predestinada dos russos. Não se deve, tampouco, confundir o improvisador com o repentista. Este pode ser um bárbaro, como a maioria dos nossos cantadores de viola; ao passo que o outro tem, que ser sempre um erudito. A maior expressão do improviso é o discurso. O dis, curso não é a prosa que se escreve mas a eloqüência que se diz. São virtudes distintas: a do conferencista e a do orador.

-

--

"

Página 18

Anedotas

do Quintino

..

A beleza da oratória é irredutivel ao papel - e não se escreve, nem descreve. Ela é o Verbq nu, em carne, apolíne o e majestoso. ~ escultura e não desenho. ~ som, é música, também. Ao humorismo de Quintinho Cunha prefiro o lirismo empolgante, arrebatador, da sua oratoria. Porque Quintino é dos mais empolgantes oradores que tenho conhecido. Não há nele a falsa técnica dos discursadores mediocres, farmacêuticos de frases e conceitos manipulados em casa para uso externo. .. Nada disso. Em Quintino o fenômeno é oceâni::o: vai no crescendo cósmico dos elementos que se desencadeam. Vai da serenidade superficial dos igarapés aos impetos ciclópicos das pororócas. E o' Amazonas wagneriano, os acordãos com os seus grandiosos acordãos e cavalgatas das cachoeiras e as cavalgatas das águas em rio, espumando dessejos e vertigens, ânsias rebeldes e solilóquIos. Tenho-Ihe assistido, no juri, a momentos culminantes do seu formidável talento e da sua formidável espontaneidade verbal. Transfigurado, fica, pelos raios-violeta da espirltualidade, o mais belo dos homens - ele, que é o mais feio. Há, então, nos seus cabelos brancos uma irradiação de chispas. E todo o esplendor da natureza, desde. a fecundação subterranea das sementes, da reverberação' dos polens no fluído solar dos meio-dias, até, a fuzilaria das tempestades - tudo, flôres, pássaros e raios, tudo se transforma e se condensa na miste-

-

Eis o homem como eu vejo, e sinto, e admiro. É a alma mais sensível destes tempos. Não é o boêmio - palavra banal, refúgio vocabular dos vagabundos - mas o Bom, o Santo. E todo o seu gênio é um halo da sua santidade ingênita. Por isso mesmo, obra de um grande espírito, de uma men. talidade nobre. Saber admirar os gênios, e os santos e com preendê-ios, é interpretá-Ios no espaço e no tempo. É, pois, uma exaltação reflexa de si mesmo, das suas próprias idéias, dos seus próprios sentimentos, da sua própria mentalidade. através Conhecemos Sócrates pelos seus discípulos a inteligência daqueles que lhe ouviram os discursos e entenderam a filosofia. Platão surgiu assim. Só sabe admirar aquele que sabe criar. O que nega, já foi vencido. Plautos entendeu" Ouintino Cunha.

riosa palheta de seu Verbo.

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-

.. PJautus

Cunha

tismo humanos.

A Bíblia, o maior dos livros, a obra-mater da humanidade. foi trabalho de coletânea, ilumina-o e imortaliza-o em face de todos os séculos a fé apostólca dos pregoeros. Só as inteligêncas de escol são capazes de pesquisar as pepitas do gênio na caudal impetuosa do egoísmo e indiferen.
.

[Publicado no Jornal '0 UNITARIO", de 06-03-19511 DIREITO POR LINHAS TORTAS... Ouintino, antifacista por natureza, quando o Brasil entrou na guerra, contra o nazifacismo, descreveu assim: - O "Golpe Divino".

Ontem, a Rússia, sem crença, sem fé, sem moral, propensa aos grandes males da terra, era a desgraça de um povo, a forma de um antro nôvo entre a fome a peste e a guerra... II Hoje, frustrada acompanha que, às surrelfas, a Alemanha tramava de mundo afora, surge a pátria moscovita, imensa, forte, bendita, castigando a vil traidora. III E, como o sol que ilumina, cai a Justiça Divina sôbre as calúnias já mortas. . . Terminação clara e breve: di:'eito por linhas tortas... bem djzem que Deus escreve
Página 20 Anedotas do Quinth10 *

OS PRIMEIROS LAMPEJOS:... - Morava minha avós, Maminõ, Maria Maximina Ferreira Gomes da Cunha, na cidade aprazível da verde Baturité. Lá a professora criava seus filhos, José, João, Princesa e José era o mais peralta. Como era também vivo, acompanhava a professora em suas visitas sociais. Certa vez, Mamina, como a chamávamos foi visitar uma amiga que residia num lindo pomar e criava no quintal inúmeros pássaros em vive ii os. Levou Ouintino e este, logo que chegou, foi ao quintal, ver os passarinhos. Ao despedir-se, chegou, o pequeno con' o boné na cabeça. Mamina mandou que cumprimentasse aos donos da casa e ele estirou o braço trêmulo; Mamina tira-lhe o chapéu; espanto; então se vê, com surpresa, voar de dentro do chapéu do menino um pássaro que ele apanhara de uma gaiola. Mamina fica desapontada e ao chegar em casa aplir,a-Ihe o castigo de ficar em casa em trajes de mulher, para p.vitar a fuga. CAMINHO DO CÉU

o Padre Dantas foi transferido para Baturité, e chegando ia depositar umas cartas no correio. Encontrando o interessame menino, lhe pergunta onde fica a repartição. Ouintino diz: .. Entre à direita, dobre à esquerda; tem uma praça e um prédio bem grande. É lá. O Padre, vendo o pequeno tão sal bido, convidou-o para ir ao catecismo. O menino perguntou: - Para quê? E o bom vigário lhe disse 'que ia lhe ensinar o caminho do céu. Ao que Ouintino respondeu pronto: O Sr. não sabe nem o caminho do Correio! CAPAR GATO Ouintino, contrariando a vontade da vizinha, namorava uma menina, sua filha. Subia numa escada do quintal e o na.
<i Plautus Cunha

Página

21

moro era pelo muro. Apareceu uma conversa que esta vizinha havia capado um gato. Ouintino ouviu e calou. Um dia subi!.. a escada na esperança de ver a menina de sua idade (seis anos) e quando acabou de subir a dita encontrou o rosto da senhora. Espantado, no momento sem ter o que dizer, perguntou, rápido: - Da Mariquinha, a senhora sabe capar gato?

Só QUATRO?
o poeta, na sua :nfância, no Colégio sempre trocava mur ros com os colegas. Certa ocasião, depois de brigar com um seu primo este o ameaçou raivoso: Vou dar-te quatro bofetadas! - Só quatro? deixe de ser tão sovina, vais dar-me Quatro. quando eu te dei mais de vinte!

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DINHEIRO MOLHADO Ouando estudante, Ouintino, se encontrava numa esquina e vê um colega apanhar do chão uma cédula. O poeta diz: É minha! O outro diz: fui eu que achei, aqui no chão! -É minha! diz Ouintino, com naturalidade, deixei ali na calçada para enxugar. . .

FEIORA
Ouintino aos oito anos, frequentava a escola da D. Florzinha, uma velha solteirona, cheia de ilusões sobre o amor. E era de fato muito feia. Certa ocasião, a professora, ensinando tempos de verbo, perguntou ao garoto: M sou bonita" - que tempo de verbo é este, Ouintino? Eu Tempo perdido, professora, respondeu o peralta.

-

CORAÇÃO

DE OURO

QUANDO QUINTlNO morava em Baturité, Mamina, sem. pre cuidadosa com a alimentação dos filhos, costumava guardar frutas para as merendas dos escolares. Certa ocasião, nO. tando a falta de uma manga, pergunta ao Cazuza:
I
.

Página 22

Anedotas do Quintino

·

José, quem foi que apanhou uma manga que estava na fruteira? Eu, mamãe, "dei" ela a um pobre menino que estava com fome. - Filho querido, você tem um coração de ouro! E quem foi este menino, meu amor? Eu, mamãe!

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OS PÉS DA CADEIRA o professor Ana:;leto de Queiroz exigia que seus alunos lhe obedecessem sem tirar nem pôr uma vírgula nas suas ordens. O professor admirava o talento do poeta, e por isso Quintino ainda não tinha sido expulso do Ginásio Cearense. Grande número de tranquinadas colocova o poeta em primeiro plano. Em compensação, suas notas eram sempre as melhores, exclu~ sivamente pela sua inteligência. Certa ocasião, o pl'>ofessor, quando atravessava uma sala, encontro li Quintino lendo displicentemente, com os pés em cima de uma cadeira; o professor pigarreou e disse: Quintino, tire os pés da cadeira! Meia hora depois, compareceâ secretaria, conduzindo as peças que arrancara da cadeira.

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115 ANOS, MEU FILHO
Quando Jáder de Garvalho visitou o poeta em Acopiara, Antiga Afonso Pena, foi dar umas voltas e encontrou na cidade um grande mentiroso que não era outro senão um compadre do Quintino, que dizia ter morado em muitos países; vinte anos aqui, trinta ali, cinquenta acolá... Jáder voltou impressionado com o homem e perguntou ao poeta se o Garlos era pessoa para se dar crédito. Quintino deu uma gostosa gargalhada e perguntou lá prá dentro à sua esposa: - Terezinha, a última vez que nós fizemos a conta da idaae do compadre Garlos, quantos anos ele tinha? 115 anos, meu filho... QUADRA QUINAS E CENAS

Aqui o palavra do saudoso intelectual cearense Leonardo Mota, amigo e companheiro inseperável do Quintino:
11

Plautus Cunha

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"Logo que Matos Ibiapina fundou o jornal "A Nação", inaugurei neste a seção "Trovas Brasileiras". Toda edição trazia três quadrinhas de renomado$ poetas nacionais. Uma tarde, na esquina do "Glória", dou de cara com Quintino e peço-lhe que me forneça aos menos uma quadra de s,ua autoria. Ele reluta, diz que não se lembra de nenhuma. Não desanimo. Insisto. Por seu turno, ele se obstina em não me atender. Fecholhe a carranca, fingindo-me zangado, mas sou desarmado com este trocadilho: Era só o que faltava! Você, por causa de uma QUADRA, aqui nesta QUINA, quererá fazer uma CENA comigo?

-

PENSAMENTOS FilOSÓFICOS DE QUINTINO CUNHA Foi assim que surgiram, ditadas pelo poeta Quinina Cunha, entre outras as seguintes definições e pensamentos que, hoje. correm o Brasil inteiro: O cearense nasce na fé, cria-se na esperança e morre na caridade. - Escola - original prisão onde a criatura aprende a ser livre. Na oração da vida, a mulher é um simples adjunto adverbial. . . . .- Nós não precisamos de cultura... mas de agricultura - Freio de ouro não melhora o cavalo, mas exprime a riqueza do dono. - Para se ser feliz, no Brasil, é preciso nascer burro, viver ignorante e morrer de repente. - Ama-se a Liberdade por ser ela a cédula da insubmissão dentro do protoplasma-cativeiro. - A fome não respei ta virtude, quanto mais fronteiras. - Só um grande sentimento nos eleva - é um bem-querer doido a este céu, a este mar, a esta terra, amor de filho., que por mais estranhos são sempre filhos! -- Eu me sinto, às vezes, um grande revoluconário pelo grande amor que tenho à liberdade. Em rigor, eu seria um mau progressista, nunca um revolucionário destes comuns que brigmn para matar e morrer sem sentir.

-

- Estepovo não é

propriamente

ingrato; o que há nele é

muito nosso: é uma eiva de insubrriissão, rebeldia congênita de senzala extinta. - Todo respeito humano enxuga-se na toalha da covardié:.
Página 24 Anedotas do Quintinu *

Quando um governo não representa a vontade popular, o povo tem a Lei na soberania e o remédi'D na revolução.
DUQUE ESTRADA

Os crítioos brasileiros receberam, com aplausos, o livro Pelo Solimões, de Qui!1tino. Só Osório Duque Estrada não lhe fez lisonjeiras referências. Quintino, em despique, endereçou-lhe esta resposta: "Tu nada tens de OSÓRIO, e muito menos de DUQUE;só a ESTRADAte justifica os passos na literatura"...
UMA MULHER BONITA

Beni de Carvalho, poeta e interventor no Ceará, perguntou ao Quintino: Poeta, quanto vale uma mulher bonita.

- Depende. . . Se for como Maria, a formosa Maria da Judéia, Vale o céu, a terra, a noite e o dia, Vale o pensamento da mais nobre idéia. Mas, se for como Lais e Frinéia, Desde D'artapala à D'artanéia.

Se for bonita, rica, fútil e vaidosa,
Enfeitada como um manequim, Vale uma surra de "botão de rosa".

4.400
Reuniamos sempre ali na esquina da 4400, João Gaspar nosso primo. Edmar Urano de Carvalho, Audísio Mosca e Tei. xeirinha, que nos contou o seguinte: -- "Em 1919, no aniversário natalício do então ainda" Padre" José Raimundo da Costa, partiu de Fortaleza a Parangaba ruidos3 caravana alegre que ia levar parabéns ao sacerdote nata. liciante José Raimundo que fazia anos aos 12 de outubro. À mesa do almoço. Quintino brinda a torto e a direito. De repente. apercebendo.se de que a data gentilíaca do anfitrião já era,
* Plautus Cunha Página 25

antes de ser, uma etemeride notável, empunha o copo de vinlll; e exclama: --- "Deus, numa quadra piÍhérica, Fez, sem pensar, num segundo, A casa - que foi a América, E o dono -. o José Rallnundo!" Nessa reunião inesquecível. Quintino Cunha, Amadeu Xavier de Castro, Ré:lmosCotoco e Teixeira Mendes (Teixeirinha) - todos repentistas, ..pegaram-se" . .. Por algum tempo, o desafio foi secreto, pois improvisavam em voz baixa, num círculo de rapazes e, naturalmente, sobre assunto do gênero" só para homem"... A rima forçada era "vuco-vuco, vuco-vuco". Passa uma senhora e, implicando com a rima estribilhada, ingenuamente interroga: -- Sr. Quintino, que história é essa? Que é "vuco-vuco"? Correu um calafrio na assistência e não era o caso para menos. Só o poeta niio desconsertou e, de olhos taiscantes, i.lltcando a voz, atendeu: Maria em casa é "Maroca", POIuguês é cutruco", t Carne pisada é "passoca", "Vuco-vuco" e. .. ..vuco-vuco "! ARTIGO DE RUI Comentando um dia o assassinato de Pinheiro Machado. alguém perguntou interessado: - De que tamanho era a lâmina do punh.Jl? Quintino responde, com maldade: - A lãmina do punhal era do tamanho do último períoJa de um artigo de Rui Barbosa...
PREVID~NCIA SOCIAL

Numa roda de amigos, no Café Glória, quando surgiram as primeiras leis da previdência social, comentava-se a obrigação de os industriais possui rem capital de reserva para ga.
Página 26
Anedotas do Quintino ..

rantia de seus encargos, quando se aproxima um pedinte, que se dirige ao Ouintino: - Dr. me dê uma esmola, que eu tenho dez filhos e nãOJ tenho dinheiro para Ihes dar comida. - Falta de previdência. Montou uma indústria sem ter capital de reserva? PER(iA Certa vez, usando de um caminhão para viajar de Cascavel para Fortaleza, aonde tinha ido no exercicio de sua profissao de advogado, o poeta sentou-se na boléia, ao lado de um casal de jovens, que, não ligando ao terceiro passageiro. trocavam carícias e agrados. Quando a moça disse: coisa ruim é se viajar com peru! Quintino disse: - Engana-se, senhorita; pior é a gente viajar com perua! Um grito de espanto; a moça exasperou-se e foi bastante. O rapaz sacou de um revólver para atirar no audacioso. Quintino, abaixando-se, retirou um saco debaixo do banco e abriu para que vissem: , - É mesmli>muito ruim viajar com perúa! Dentro vinha uma perua, que lhe haviam presenteado em Cascavel. . .

.

POETA NASCE FEITO

O Dr. Solon Sobreira Neto, cearense de projeção no fôro do Rio, visitando Fortaleza, há dias, contou-me que: "Em 1923, quando existia na Praça do Ferreira o Café Riche, localizado onde é hoje a Farmácia Francesa, o poeta Ouintino Cunha, entre amigos conversava, quando o seu companheiro e colega de estudo no Liceu, Alcindo Oueiroz, aspi' rante a poeta, dirgindo-se a Ouintino, pediu que explicasse como se fazia uma poesia. - Você é muito jovem, respondeu o poeta, por que não principia com quadras? Mas o senhor não escreveu sua primeira poesia com dez anos?

-

* Plautus

Cunha

Página

27

-

Sim, replicou Quintino , mas não perguntei a ninguém. . . J. J. SEABRA

Em propaganda de sua candidatura à Vice-Presidência da

República,o Sr. José JoaC!uim Seabra perambula:vapelo Norte,
quando Ouintino Cunha lhe fez aqui os maiores rapa-pés. Anjmava-o esperança de que o velho baiano, se vencesse não es. queceria o preferenciador de suas arengas na terra dos verdes mares. Nunca dessas conferências, o venerando Seabra que não era nenhum João Ribeiro com matéria de gramática desando.u a dar cincadas no vernáculo. Alguém segredou ao Ouintino:
..;...

nomes? Ouintino bateu no peito em voz mais sumida: Eu quero que ele coloque bem os "sujeitos". . .

Estás reparando como o Dr. Seabra coloca malas pro-

-

TROVAS

OUINTINAS

Quem diz que a sabedoria sentiu na terra uma vez, foi sábio durante um dia e tolo durante um mês. Que os teus olhos ajuízem meu afeto ao teu querer, porque quando os olhos dizem não se tem mais que dizer. Bem moço, vai sem sentir na quadra da adolescência entre a loucura e a inocência, sem pensar, sem refletir. Bem velho, volta outra vez à quadra da meninice, a desdizer o que disse
.

e a desfazer o que fez.
Anedotas do Quintino .'

ALMOFADINHAS & MELINDROSAS Praça do Ferreira à tardinha. Ouintino e Cruz Filho estão sentados num banco do jardim. Passa um casal de jovens. um ~almofadinha" e uma" melinci:osa". cada qual mais espartilhado. Ouintlno chama a atenção do vate dos Poemas dos Belos Dias. - Aquele camaradinha teso. se quisesse comungar tinha que afrouxar o suspensório. - E a magricela que vai com ele?
A magricela é direito uma agulha. pílula. pareceria em ..estado i-nteressante..... QUINTlNO

-

Se engulisse

umil

EM QUIXERAMOBlM

Conta-se em Ouixeramobim. onde Ouintino viveu sete anOJo que o Dr. Alvaro Femandes. seu amigo. cuja amizade datava do Colégio de Anacleto de Oueiroz. pediu desafiando o poeta - Quintino rime quatro besLeiras grandes... - Alvaro Otacilio foi a resposta instantanea. Nogueira Femandes Certa vez em casa de João Belém no calor da discursão sobre religião. () autor dos ..Beija-Flores" revidando um ataque do clínico. disse: "- Burro é você que diz que é materialista! "- Digo e é verdade! "- Verdade? - rebate o poeta - Verdade é um substan.

-

't

tivo abstrato. Logovocê não é materialista!

.

No bilhar do Antonio Patrício os dois se engalfinharam numa "luta" sobre certa palavra. Dr. Alvaro. erguendo-se. exclama: ..- Espere vou já buscar um dos meus livros... .. Para mim não adianta. Você é um ..burro" cercado de livros e eu sou um livro cercado de burros" . Enquanto brigavam a amizade os ia ligando cada vez mais...

-

JURADOS
NUM JURI,em Vitória, Ouintino mostrou-se altamente maravilhado com o que vira.

·

Plautus

Cunha

Por quê? pe.-guntaram-Ihe. - Porque aqui falam os inteligente!:. e os ignorantes julgam, quando me parece que devia ser o contrário. . .
HIPINOSIS

-

NUM JURI em Fortaleza. um hipnotisador estava sendo julgado. são pelo exercício de suas faculdades hipnóticas. mas por ter surripiado alguns objetos de valor. Em dado momento, dirige-se aos jurados: -- Srs. jurados, se eu quisesse, poderia vos fazer dormir para obter a minha liberdadel Não é preciso. disse Ouintino. deixe isto a cargo do seu advogado.

-

UMA

CRUZ

DIFERENTE

OUINTINO, certa vez foi operado de hêrnia, e, ao retirar-se da Santa Casa, que era na época a única casa de saúde exstente em Fortaleza, saiu andando com o arrimo de sua segunda esposa. 1:..0descar do bonde Via Fórrea, na Praça do Ferreira, cachingando, tinha o braço em volta do pescoço de sua ajudadora. O cel. João Brígido, encontrando-o, volta.se para o poeta e diz para lhe provocar: - Vai carregando sua cruz, hein Ouintino? E o poeta respondeu: Mas uma cruz diferente: quando cansamos de carregá-Ia, carrega a gente...

-

IGNORANTES

UM opulento perguntou ao poeta Ouintino por que se encontravam sempre inteligentes nas ante-câmaras dos ricos e nunca ricos nas ante-câmaras dos sabidos. - É bem simples, respondeu o filósofo: os inteligentes conhecem o que pode o dinhero e os ricos ignoram o .qUE: vale o saber. ..
NOIVA GRÁVIDA

UM AMIGO dizia ao Ouintino, falando do recente mento. Página 30

casa-

·

Plautus

Cunha

Pobre homem, casou-se há seis semanas e a mulher está grávida há seis meses! Desagradável é supor ir habitar numa casa nova em folha e encontrar-se hospedado num hotel.

-

ADVOGADOS
NUM momento de f!~tatensão. num júri, Ouintino diz em

segredo ao Desembargador P. Paulo Montenegro. - Se eles nos ; soubessem como nós os sabemos, ai
forca prá nós...
ENTERRO DE GENTE IMPORTANTE

.

CERTA vez, Quintino ia acompanhando o enterro de um vizinho e durante o tl'ajeto um sujeito lhe perguntou quem era o morto. - Ao que o poeta respondeu: É o que vai no caixão! ESTRADA DE FERRO DE BATURIT~

-

RVC
cercavam o . seu diretor com lisonjas e
NUMA época em que a nossa principal ferrovia se en contrava administrada por uma equipe de empregados que

subservivências.

Ouintino, ao deparar com uma sala onde adulavam ao Diretor, traduzia siglas como: E. F. B.: Empresa de Fiteiros de Bajuladores. NUMA roda de assunto variados, um amigo do poeta, recém-chegado dos Estados Unidos, dizia que na América tinha dentista prá cavalo e o Quintino respondeu logo: Aqui tem doutor prá b:uro!

-

* PlautU5 Cunha

Página 31

PRINCIPE DOS POETAS CEARENSES

DONA Maria Virgina, irmã de Ouintino, era chamada de ..Princesa" em família. Tendo uma revista de letras de Fortaleza procurando apu. rar, em inquérito literário, quem fosse o "Principe dos Poe. tas Cearenses", o pilhérico Ouintino achava que devia ser o eleito mesmo porque já nascera irmão de "Princesa". . .

.COMPADRES QUINTINO e leodardo Mota completaram-se às maravilhas, compadres, poeta e folclorista estimavam-se mutuamente. Certa ocasião, durante um almoço íntimo, em casa de leonardo, o. autor do Violeiros do Norte ..intimou" o poeta a escrever uma quadra numa fotografia da família reunida e Quintino escreveu num minuto o belo improviso: Família que, como a minha, Dentro do coração guardo, Minha comadre luizinha Seus filhos e o Leonardo.

RIMA PRA M...

TAVARES, antigo viajante da firma Leite Barbosa, gostava imensamente de viajar com o poeta. Por um motivo qualquer de .desmantelos o trem estava demorando demasiado em Sebastião de Lacerda. A convite de seu companheiro, Ouintino
desceu para tomarem um Anizete

e comprar

cigarros.

O

poeta, com seus pés cheios de calos, subia e descia as pe~ quenas ladeiras do povoação, sem encontrar nada do que procurava, nem fósforos. Voltam desolados. Oua.ndo vai entrando no vagão, lhe perguntam alguns filhos da terra: Poeta Ouintino, que achou de Lacerda? Sebastião de Lacerda! Uma boa rima para m...

-

-

Página ~2 .

Anedotas do Quintino

·

GORGUTUBA

aUINTINO, lhe dizia um amigo, aquele feijão que você me deu, dizendo que cozinhava como ovos, aquilo não amolece nem com um dia de fogo! Sim, disse o poeta, quanto mais cozinha mais duro fica! _..w

-

TR!:S COUSAS

GRANDES

EM QUIXERAMOBIM, dizia o poeta cansado de sua paisagem quotidiana, tem três coisas grandes: o nome, a ponte e a língua do povo. Acontece porém que Quintino foi acometido de uma in. sadiosa doença que o reteve no leito e o povo cercava o com o mais afetuoso carinho. Ozeas Martins, jornalista dos ..Assosociados ", foi entrevistá-I o e interrogou o poeta sobre as três coisas grandes de Quixeramobim. O poeta desfez a primeira seta com maestria: - Quixeramobim tem três coisas grandes, o tIlome, a ponte e o coração do povo. ASSIM vive o cearense, dizia Quintino: quando não está vendo se chove, está pedindo esmola.. COMISSÕES.. .

.l

I

QUINTlNO entra numa repartição do governo. Comissão de Estradas de Rodagem O tesoureiro, que no momento contava o dinheiro, quis barrar sua entrada. - Não pode entrar, aqui é uma Repartição. -- Cheguei em boa hora; reparta comigo, diz o poeta. - O tesoureiro insiste, -Dr. Quintino, isto aqui é um;:; Comissão! - Melhor ainda, diz o poeta, quero "comer" também. i DINHEIRO FALSO

:

~

\

CERTA ocasião, Quintino visitava a cadeia pública, quando um passador de dinhell'O falso. pediu ao poeta, do fundo

de sua cela, que o livrasse daquele sofrimento!
..

.

Plautus

Cunha

Página

33

- Eu tenho sofrido muito, fui transferido de prisão, estou doente, tenho passado tanta coisa. Dr. Quintino! -Tem sim, diz o poeta, irônico, mas o que você tem passado mais é dinheiro falso! QUINTINO. visitando a cadeia em companhia do seu amigo Governador do Estado, Benjamim Barroso, é abordado por um jovem presidiário" Dr. Quintino, eu fui condenado a quatro meses de prisão porque infelicitei uma donzela; me faltam dois meses, estou disposto a casar se perdoarem o resto. Quer um conselho? Tire o resto da pena!
MASGISTRADOS DÃO OURO AO QUINTINO QUINTlNO recebeu um escudo de ouro dos magistrados cearenses, ..OurO de lei e da lei. Regeitei para consegui-Io dez contos de réis. Olívio Câmara que o ateste". A medalha a que se referiu - diz João Jaques, traz escrito de um lado: MA Quintino Cunha pela memória de Augusto de Oliveira Amigos e Magistrados Cearenses", e no verso: ..Labor Omnia Vincet - 23.12.1920".Tem a forma de um escudo, encimado no alto por uma corrente delicada. A respeito da mesma, informou o deembagador Olívio Câmara. ..Oterecemos ao poeta essa lembrança em homenagem ao seu destemor, integridade e inteligência, por haver acusa dO num júri. em Russas, o assassino dr Dr. Ivlanuel Augusto de Oliveira, cronist@ e poeta alagoano, nessa época Juiz d;~ Direito' daquela cidade. Era um intelectual de têmpera e um homem de caráter. Quiseram subornar Quintino com dez contos de réis, mduzlndo-o a não ir trabalhar pela justa punição do criminoso. Mas não encontraram nele um fraco, porque o seu fraco é ser forte". OS CALOS DO POETA

,."...

QUINTINO era o mais descuidado possível no traje, não se importando de atravessar toda a cidade com um pé no chin610, por amor de certos calos, a que não bastava a folga de largos recortes a canivete no calçado. Enfrentava na tribuna um colega esmeradíssimo na indumentária. Vai daí no acesso dos debates, o Brumel indígena procura amesquinhar o outro, com a groseria desta indiscrição. Pâgína 34 Anedotas do Quintino ·

Eu tenho sofrido muito, fui transferido de prisão. estou doente. tenho passado tanta coisa. Dr. Quintino! -Tem sim, diz o poeta, irônico, mas o que você tem passado mais é dinheiro falso! QUINTINO, visitando a cadeia em companhia do seu amigo Governador do Estado. Benjamim Barroso, é abordado por um jovem presidiário"

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Dr. Quintino, eu fui condenado a quatro meses de

prisão porque infelicitei uma donzela; me faltam dois meses, estou disposto a casar se perdoarem o resto. Quer um conselho? Tire o resto da pena!
MASGISTRADOS DÃO OURO AO QUINTINO

QUINTlNO recebeu um escudo de ouro dos magistrados cearenses. "ouro de lei e da lei. Regeitei para consegui-Io dez contos de réis. Olívio Câmara que o ateste". A medalha a que se referiu - diz João Jaques, traz escrito de um lado: .. A Quintino Cunha pela memória de Augusto de Oliveira Amigos e Magistrados Cearenses". e no verso: "Labor Omnia Vincet - 23.12.1920". Tem a forma de um escudo, encimado no alto por uma corrente delicada. A respeito da mesma, informou o deembagador Olívio Câmara. ..Oterecemos ao poeta essa lembrança em homenagem ao seu destemor, integridade e inteligência, por haver acusa dO num júri, em Russas, o assassino dr LJr. Manuel AugustO de Oliveira, cronista e poeta aiagoano. nessa época JUIZ d,' Direito 'daquela cidade. Era um intelectual de têmpera e um homem de caráter. Quiseram subornar Quintino com dez contos de réis, II1duzlndo-o a não ir trabalhar pela justa punição do criminoso. Mas não encontraram nele um fraco. porque o seu fraco é ser forte". OS CALOS DO POETA

QUINTINOera o mais descuidado possível no traje, não se importando de atravessar toda a cidade com um pé no chin610, por amor de certos calos. a que não bastava a folga de largos recortes a canivete no calçado. Enfrentava na tribuna um colega esmeradíssimo na indumentária. Vai daí no acesso dos
debates. o Brumel indígena procura amesquinhar com a groseria desta indiscrição. Página 34 o outro, ·

Anedotas do Quintino

- V. S. vem para o tribunal de alpercatas. Isto até desmoraliza a profissão. Quintino , sem pestanejar, respondeu: - Eu a desmQralizo com os pés, mas V. S. a desmoraliza com a cabeça.
(Gomes de Matos)
LAGES Certa vez, Ouintino voltava de uma caçada em Acopiara. quando seu amigo comprador de peles. Pedro Alves de Oli. vf.ira, lhe perguntou se não "matou algum teú. Diz Ouintino: Vi na estrada um tejuassu que se pois de mãos postas e me Dr. pode me matar, perdôo a morte! mas não falou assim: venda minha pele ao Dr. Pedro Alves, porque ele vai espichal meu couro e fazer dois. Gostosas gargalhardas da roda composta de Chico Guilherme, Olegário, Paroara e Celso Castro. (a seta do poeta no pernõstico).

-

Em extrema afetivo, tendo o coração sempre aberto a todos as maguas alheias que tanto delas se possue, retratando-as por vezes nos seus olhos marejantes, fazendo vibrar a sua alma ao sabor do sentimento torturante, estranho dele tanto se possue, que externá-Io em meigo e delicado improviso fôra a outrem impossível quando lhe é o desafogo a alma sôfrega e sensivelmente delicada, que se compraz nas vibrantes e sutis mutações do senso afetivo. Senão, vejamos: entrando certa vez o poeta em casa de um amigo, encontrára a esposa deste a desenhar uma rosa exuberante, viçosa, da qual caiam, artisticamente, duas de suas melhores pétalas. Desti-

·

Plautus Cunha

Página 35

nav8-se esse delicado simbolismo a ser gravado na lápide fria de um pequenino escrinio mortuário que guardava os restos mortais de dois mimosos anjinhos que aos céu se alaram, deixando os seus amorosos pais, em cruciantes, saudades. Vi brando a alma do mavioso e delicado poeta, ao saber daquele sentimento, rápido escrevera por baixo do desenho:-

Eu vejo n6sta rosa duas vidas, que nem a própria morte as ceifará: são estas duas pétalas caídas: Aloísio e Leilah!...

.

Quem não se possuisse como ele da dor alheia, não vibrasse ao sabor da mesma emoção, jamais seria capaz de escrever versos tão delicados, dolentes, sentimentais, e que falassem de perto à alma dos pais estremosos, que reconhecidos, fizeram gravá-Io no mármore do pequeno túmulo existente em nossa necrópole, como um preito de amizade ao querido poeta que tão sutil e gentilmente se irmanava na interpretação dorida daquela magua. . (Neton de Alencar)

SOLDADO DE FRAQUE

AS IDÉIAS de Olavo Bllac, no sentido da militarização da da juventude patrícia, encontraram em Quintino Cunha um fervoroso adepto Anunciou uma conferênma (paga, já se vê) no Teatro José de Alencar, e foi fazê-Ia. Para a coisa se tornar mais impressionante, me'smo para dar descanço ao fraque préhistórico, vêde o que lhe ocorreu. Conseguiu que um rapaz do

fosse consigo para o camarim. Lá despiu o fraque surrado, encadernou-se na farda do atirador e, assm, marcialmente equipado surgiu no palco. Finda a conferência, porém, ganhou
Página 36 Anedotas do Quintino *

.Tiro

38", fardado

de branco e do seu tope e corpo,

a rua fadrado e deixou o Icauto sócio do Tiro,em cuecas, nos bastidores, a chamar desesperadamente por ele. O resultado foi que o jovem e infeliz patriota, a fim de não dormir no Teatro, teve de, pragueando, vestir a roupa de Quintino e ir de fraque para casa. . . (Leota)
MOLEQUE PARA APANHAR AS
FLEXAS

o POETA o encanto de bordo e as suas incessantes era pilhérias quebravam a monotonia da viagem ao longo do no mar. Quem mais achava graça nas facecias do poeta era seu irmão, João Qu"intino. Não hava dito espirituoso que não fosse saudado por gostosa gargalhada do mano. Um amazonense amulatado, que implicara com o cearense palrador, fez o reparo atrevido: - Um irmão faz a festa e o outro solta os foguetes. Diz o Quintino. - Faltava só um moleque para apanhar as flechas.
(Anonimo) ME EMPRESTE OS CASCOS

NESSA travessia fluvial. outro indivíduo cometeu a impru.

dência de ..assanhar" o Quintino. Estava debruçado na amura.
da da embarcação, quando o tal companheiro de viagem lhe foi pregar ao paletó um rabo de papel. O poeta deixou que o passageiro terminasse a brincadeira e quando os circunstante& começaram, risonhos, a balir como ovelhas, voltou-se para o autor da troça e pediu: - Você já me deu rabo, agora me empreste os casos para eu fingir que sou você. (Demõcrito Rocha)
* Plautus Cunha Página 37

ALGODAO

DEFENDIA O

GOVERNO

EM 1922, ao deflagar no Rio o movimento sedicioso, constou que o fuzuê se irradiaria pelos Estados. O presidente Serpa tratou de pôr as barbas de molho, coisa que ele, aliás nunca possuiu, imberbe que era a sua cara de tupiniquim. O Palácio da Luz foi guarnecido. Assentaram-se metralhadoras nas imediações e muitos fardos de algodão foram comprados para servirem de trincheira. Sabedor da ocorrência, Quintino observou: - As voltas que o mundo dá! Antigamente o governo custeava um "Serviço de Defesa do Algodão" .. . Hoje é o algodão que defende o governo... (Teixeirinha)
CRIME DE DEFLORAMENTO

NA PRAÇA do Ferreira, lado nascente há uns dez metros do Edifício da Sul América. localizava-se o Fôro. Estamos em 1928. Ali encontrava-se o poeta defendendo numa sessão do Jurí um homícida que havia morto um companheiro a punhaladas. O advogado da acusação. tentando documentar o instrumento do crime. mandou fazer um croquis do punhal: trabalho perfeito de desenhista. e, no momento em que terminou seu pedido de condenação do ré exibiu numa cartolina branca o desenho da arma assassina. dizendo: Vejam. meus senhores. o retrato perfeito da arma com que se serviu o criminoso! Vendo Ouintino o efeito que causava a exibição do croquis, pediu um aparte e perguntou: Nobre colega. permita-me um aparte: se se tratasse de um crime no artigo 217 do Código Penal (defloramento) qual seria o instrumento do crime que Vossa Senhoria estaria apresentando agora aos jurados? As gargalhadas escoaram nos outros salões. O público da rua subiu apressado as escadas do Fôro. Resultado: em poucos minutos o réu foi absolvido. (R. Soldon)

-

-

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LEIRIA

DE ANDRADE PROMOTOR OUINTINO ADVOGADO

-

A PALAVRA incontestavelmente
Página 88

certa

do ilustre
do Quintino

Prof.
"

Anedotas

com Ouintino no Júri.
M

Profissional do Júri, ampara-o privilegiada inteligência

repentina. Nunca naufragou 'nos momentos mais críticos das refregas forenses. Certa ocasião, vi-o derrotado, vencido, esmagado. Vi-o morto, incapaz de qualquer reação cerebral. Foi em 1915. no memorável Júri de Amaud Brígido, em Fortaleza. Éramos quatro advogados: Pompilio Cruz, Leonel Chaves. Ouintino ficou encaregado de encerrar os debates, fazer o patético do Júri, buscando a psicologia, a gênese do crime. Ouintino meteu-se pela seara alheia, perdeu-se nas brenhas das Escolas Penais. que nesse tempo eram somente três e, con fundido com Teorias penais, que acontece a muita gente boa, disse que sete eram as Escolas, enumerando-as. Na tréplica Leíra de Andrade, Promotor versadíssimo no assunto, mestre do vernáculo, com a palavra fácil, produziu oração magnífica.. dizendo que eram somente três as Escolas Penais: a de Becaria, Lombroso e Gabriel Tarde. Terminou dizendo que, para honra de sua carta de bacharel, o Dr. José Quintino Cunha, dissesse quais eram as outras quatro Escolas Penais, pois ele desconhecia e queria aprender. Quintino, como que movido magicamente, soltou um grande grito, àeu um pulo correu para,cima do Dr. Leiria, atravessando estrepitosamente o salão e gesticulando de modo descompassado. exclamou forte e enérgIco, com toda a força 60S pulmões: - Se você quiser aprender, estude como eu, que não estou aqui para ihe dar lição de graça! A mUltidão estourou vibrantíssima, numa formidável ovação, vivas e palmas a Quintino. O réu foi absolvido por unanimidade de votos. (Gomes de Matos)

JURI EM BELÉM
QUANDO Quintinoestava em Belém,deu-se seguinte fato: Três portugueses, empregados da limpeza pública, assassinaram pela madrugada, a cacetadas, um farmacêutico, homem que gozava estima popular. Horas depois, foram presos os criminosos. Não houve advogado qge quisesse defénder os monstros. Afrontando o povo, o poeta Quintino compareceu ao Tribunal do Júri, disposto a defender aquelas feras humanas. O terror dos advogados naquela época era o promotor Dr. Batista Moreira. Quando circulou a notícia de Que um 10ucoJa~~fender os réus,
" Plautas Cunha

o povo se agitou e queria retirar Ouintino do recinto do Júri. O Juiz, enérgico, restabelecE.u a ordem, mandando que os oficiais de justiça mantivessme o patrono. Minutos após, avulta a figura exótic~ do poeta nordestino, que insiste: "Desejo defender os réus Sr. Presidente. do Júri". Seu verbo admirável, sua belíssma entonação de. voz impressionaram. Lá fOra, a multidão continuava: Lincha lincha! Mata! Aos poucos, tudo vai mudando. A voz vibrante, simpática, do poeta fez com que ele sempre levasse a melhor. Ouando o promotor diz que Ouintino .havia entrado no Júri com dois dedos gramaticos na cabeça, este responde: E Vossa Excelência com dois dedos matemáticos igualmente no crânio! Começa a hilaridade. Ouintino leva a melhor, não tarda que seja pedida absolvição dos ré.us. Falara durante dez horas e quinze mnutos, produzindo a defesa .dos réus. Houve réplica. Ocupou depois a tribuna por mais quatro horas. Os monstros foram considerados inocentes criaturas e ganharam o olho da rua. Durante sua rápida permanência em Delém, consegue onze absorvições, pelas quais não reclama nenhum pagamento. Os réus absolvidos fazem uma subscrição, compram um anel de bacharel e oferecem-no ao poeta. (LEOTA)

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AS

LAGOSTAS

O INSIGNE jornalista H. Firmeza, compadre e amigo do Ouintino, contou na Gazeta de 6.6.943, que o seu jornal Folha do Povo foi o que mais explorou a famosa missão ictiológica do Ouintino, em 1916. Certo dia, perguntaram ao poeta quem escrevia aqueles comentários. O poeta respondeu incontinenti: Não sei, mas devem ser Ias duas lagostas da Folha aproveitando-se de duas ausência, a do Firmeza e de assuntos... Segundo Dr. Hermenegildo, referia-se o poeta a Rubens Monte, que tinha o cabelo vermelho e o Odorico de Mortais, que a esse tempo usava umas barbas avermelhadas que lhe valeram o apelido de "Coração de Jesus", quando andou pe. Ias bandas do Aracati.

-

PAPAS QUINTlNO formou-se em 1909, pela Faculdade de Direito
Página 40 Anedotas do Quintino *

do Ceará. No dia 9 de dezembro, naquela data vamos encontrar o poeta que não perdia oportundade de "vervear" com suas respostas repentinas que o tornavam sempre querido de todos, sendo examinado pelo erudito professor Dr. Tomaz Pompeu de Souza Brasil, que o arguia em Históra Universal sobre a civilização ital iana. Pergunta-lhe o professor: - Sr. José Ouintino, que deram aos romanos em sua adolescência? - Deram-Ihes papas, profesor. (A. Furtado) DE BESTA... Em Natal-RN, Ouintino acusa um réu, o advogado defensor fazia as maiores ginástcas mentais para provar sua inocência. Mas o constituinte com tal advogado estava em maus lençóis. Não suportando a cerrada argumentação de Ouintino, saiu-se com esta: - O nobre colega falou, falou muito mas eu não entendi nada.. . Ouintino em cima da bucha, em tom que não admitia réplica: - De besta! Gargalharda geral, cujos ecos repercutem por todos os salões do Fôro. Réu condenado e o poeta sendo carregado em triunfo. OS PALETÓS NA RUA...

Em Cajazeiras, na Paraíba, Ouintino foi o advogado da família Paletós, num célebre julgamento em que o velho Odilon e seu filho Zenon eram os réus. Ao lado da defesa, ainda estavam os Drs. Batista e João Jurema. Ouintino era o centro das atenções e os Paletós foram absolvidos pois o poeta deixou

a justiça" tonta". Ao chegar em Souza, um amigo lhe pergim- .
tou: Dr. como se foi de Júri? - Deixei a justiça de Cajazeiras em mangas de camisa. com os Paletós na rua. . .
MENTIRAS. . .

UM ADVOGADO rábula, conhecido por Dr. Miranda", era coxo e não muito amigo da verdade. Num júri em Crato,
* Plautus Cunha Pâgina 41

ese pobre mentiroso quis enfrentar Ouintino; a certa altura de uma afirmativa do poeta, ele respondeu: Dr. Ouintino, e\l não acredito na sua palavra; mais depressa se pega um men. Mais depressa, tiroso que um coxo. Ouintino respondeu muito mais depressa ainda, eu lhe peguei, por você reúne as "duas qualidades"... . . .é coxo e mentiroso!!

-

ÉGUA AMESTRADA EM NATAL,no Rio Grande do Norte, encontrava-se OC num formidável debate, no Tribunal, quando sua verve de humorista provocou uma gargalhada geral e transformou! o ambiente de solene em jocoso. O promotor, encolerizado com tanta gargalhada, pediu silêncio e bradou: Dr. Ouintino, o Sr. devia respeitar a dor das famílias enlutadas, pois transformou um Tribunal de Justiça num circo, no qual o Dr. Ouintina é o palhaço. Ouintino então respondeu: - Como disse V. Exa., o Tribunal é um circo, o Juiz deve ser a dona do circo, os jurados são os acrobatas e trapezistas, o seleto auditório é o público, ao qual eu agora, como palhaço, apresento 'uma égua amestrada que é V. Exa... Venha dance no picadeiro!!
FACfNORA

o DR. HENRIOUEGirão, advogado, foi o defensor de um conhecido valentão do Ceará: Liberato Barroso: Este facinora, que assassinou a própria esposa, era .um felino, e alguns o tinham como uma verdadeira onça. Os advogados lhe arrancaram" tudo. O homem ficou sem um tostão indo Ouintino à casa do Dr. Girão, espantou-se diante de couro de onça. Girão logo completou: - Ouintino, isto é simbólico; foi o Liberato que me deu! É simbólco! Simbólico, não diz! Ouintino... é autêntico. '. vOcÉ;S iiraram foi o couro do homem...
PROMOTOR DO ICÓ

O Dr. JOÃO Tomá nomeou OC para ser Promotor na longínqua cidade de Icó. Ouintino recebeu a ajuda e continuiu em Fortaleza. O secretário da Justiça, encontrando-o na rua, perguntou: - Não viajas? ,Como é isto.
Página 42 , ~-

Anedotas do Quintino

·

Calmamente,o poeta comunicou-lheque não iria ao Icó. Sua declaração foi recebida pelo secretáro como incabivel, ao que o poeta completou: - Você vai prestar-me um servço, informando ao senhÇ>f João Tomé que gastei o dinheiro e não embarquei porque aqui. 10 não era ajuda de custo, mas uma pequena indenização que lhe cobrei pelo insulto de me querer deportar para o Icó. . .
GRANDE JURISTA FILOMENO GOMES

CHAMADO a defender um réu, em Natal; viu-se o Pget~, no Júri às voltas com um promotor estreante" qu~ ,de um, só vez citou três grandes juristas franceses, que splidifiCElra'~ sua acusação. Ouintino, sem perder a oportunidade, pediu a pala\{ra, e

fez também suas "citações"...

Como dizia o grande Filomeno Gomes, "a lei não deve, ser flexível, e sim rígida, coesa, s,oberana é forte",... , Foi o ,bastante, o réu absolvido e o Tribunal vibrando, co~
as citações"... ", .

-

começando assim:

'

O advogado da acusação drigiu-se solene ao Ouintino: - Nobre colega e bom mestre! Por' favor, repita aque-

la citação do grande jurista FilomenoGomes. . .

Coisa nenhuma! respondeu Ouintino, Filomeno Gomes é um fabricante de cigarros lá no Ceará. . .

-

'

(Anonimo)

A MÃE DE JOSÉ GALDINO QUINTINOfoi certa ocasião defender um réu que não tinha ninguém por ele. O Promotor fez uma acusação tremenda ao acusado. Quando QC fez uso da palavra, notou logo a qualidade dos juri1dQs"~: começou assim: - Não olhem, senhores jurados, para os seus precedentes e nem o crime deste infeliz, e sim para sua pobre mãe, velhinha, doente, alquebrada pelos anos e pela tristeza, implorando a misericórdia dos homens, genuflexa diante da justiça, se desfazendo em lágrimas! Pedindo para o seu pobre filho a liberdade.
'/t

Plautus

Cunha

:rágina ~3

Nessa ocasião, um dos jurados aproximou-se do poeta e p€rguntou-Ihe, com voz embargada pela emoção: Dr. Quintino, disse com lágrimas nos olhos, me diga onde mora a progenitora do réu, fiquei tão sentido com a pobreza da velhinha! Aqui estão cinquenta mil réis prá ela. - A mãe de quem? insistiu o poeta. - Deste pobre homem! - Ora! eu sei lá se Zégaldnho algum dia teve mãe!

-

UM SUJEITOde muita há vida, certa ocasião, tinha agredido Ouintino, mandou chamá-Io para fazer o seu testamento. Como se tratava de serviços profissiona,is, Quint.no ate.ndeu

ao chamado.

Deixo minha alma a Deus, disse o moribundo. Duvido muito que ele aceite o legado exclamou Ouintino.

-

I

-

BACHAREL

DOENTE

EM QUIXERAMOBIM, por volta de 1932, existiam no lugar nada menos de seis advogados. o último tinha chegado da Paraíba era homem de pouca saúde, veio impaludado e tinha o sistema nervoso abalado pela doença que o transformou em arengueiro e agressivo. Já se dizia, à boca pequena, que a Or. era mal-educado, de uma dureza a toda prova. O bacharel de, maus bofes declarou no Cartório, quando o Tabelião exigia 05elo de Educação e Saúde, recém criado numa procuração, que não pagaria a taxa e ia abandonar a profissão. O poeta. ou,vindo a lengalenga, pregou esta seta no rude advogado: Um bacharel doente e rude, Abandonou por' desgosto, A arte que ao mundo ilude . Para não pagar o imposto De Educação e Saúde. FALA EM VOZ SUMIDA

NUM júri, no interior de Pernambuco, um promotor de Justiça, querendo atrair para si a benevolênca do Ouintino, Página 44

Anedotasdo Quintino ·

'disse, um tanto pálido, com voz em falcete: - Vejo no Dr. Ouintino um homem velho, mas comparo-o a um sol poente. - Pois devido à sua fala fina eu lhe comparo à lua em quarto minguante disse o poeta. PAGOU O MAL COM O BEM

reunião da presente sessão do júri.

"Com a presença de 23 jurados, realizou se uma seg!lrlCf;
,

Compareceram à barra do tribunal os réus .José Boa Ventura e José Correia Lima, acusado de roubo na-.casa de ..residência do Dr. Quintino Cunha, QUE OS DEFENDEU. mbos 'foA ram absolvidos por u.nanimidade de votos, sendo que já estavam detidos há cerca de dois anos. Ocupou a cadeira de Promotor o Dr. AlenCar Matos". ARMA DE CANO VIRADO O DR. NILO Soares, Juiz de Canindé e emérito ,conhe. cedor do idioma de Shakespeare, co.ntou-me Ique assistiu :do Ouintino esta passagem vibrante da vida do' poeta; no. TJiibLinal do Júri: : Certa ocasião, quando defendia um réu acusado de ho. micídio na pessoa de um seu companheiro, causado por um tiro de espingarda que disparou casualmente, Ouintino pediu .' a absolvição do réu, que julgava inocente. O promotor era um Jovem que não possuia sequer o curso secundário. O adjunto, que tinha a mania de estudar latim sem saber o caminho que palmilha:va, fez várias citações na língua de Ovídio, acusa do fortemente o réu. Ouintino, no auge de refrega jurídica,' notan. do que os jurados não compreendiam niquel daquele latinórió. pediu um dos I~vrosque o plumitivo sobraçava, abriu na Eneida de Virgilio e exclamou: Eis aqui a absolvição do meu constituinte, nos pró. - prios livros do Promotor "ad hoc". E leu para os jurados um trecho que nos faz lembrar o tempo do ginásio. .. Arma verumque cano troaje iqui primus ab oris vinit'...
'.

-

- Eis aqui as palavras de Cícero: "Arma de cano virado é um perigo. senhores:
Com esta, o réu foi absolvido.
Plautus Cunha Página 45

Em 1921, Nilo Peçanha, certa noite, no Teatro José de Alencar, entusiasmado com o improviso do poeta, ao felicitáIa, disse: "Orgulho.me de abraçar neste instante o maior orador do país". (Do Correio do Ceará", 11-01-1921). NA CAMPANHA política para Presidente da República de Nilo peçanha J. J. Seabra, Quintino, fazendo ..blague'. dizia: - O Brasil está despedaçado, precisamos uni.lo ainda que depois se abra. , .
FOGUETE

LéLlO lopes da Cruz, esse irrequieto homem de negócios, nos contou essa boa piada do QC: No tradicional Café Emídio, formava-se uma roda em torno do Ouintino. Um amigo do poeta. capitalista, pedia-lhe um parecer - Quintino, qual será o melhor emprego de capital? Imóveis. respondeu o poeta. - Não Ouintino, eu quero é coisa que suba logo! Foguete rematou o repentista. .

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NÃO

BEBO

"ARCO"

VIAJANDO a cavalo para S', Mateus, em companhia de um caboclo taciturno, no meio da viagem, sol a pino, o poeta convidou o seu guia para tomar um "trago". O caboclo parai. bano respondeu: Seu doutor eu não bebo "arco"! Pois do jeito que eu vou aqui, engulo até flecha... diz Quintino.

-

EM MANAUS, o Dr. Eduardo Ribeiro, político famoso. pertencia ao partido contrário ao Senador Machado, o qual estorçava-se para fazer as pazes com o seu adversário, tendo recorrido ao Ouintino, No dia imediato, o poeta encontrou-se com o Senador e disse, em trocadilho:

-

~outor

Machado,

sua esperança

foice!

TARTARUGAS DURANTE muito tempo, o poeta foi vítima das pilhérias em torno de seus peixes trazidos da Amazônia. Certa oCasião, Página 46 Anedotas do Quintino *

encontrando-se com o médico de sua intimidade Odorico de Morais, Diretor do Asilo de Alienados, foi por ele interpelado em tom de mofa: . , Ouintino, como vão de saúde as tuas tartarugas? Bem, Odorico respondeu o poeta, felizmente elas não precisam da tua assistência. . .

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TRABALHO

E CACHORRINHO

~UANDO Ouintino regressou de Recife, onde fôra recepcio. nar Ribeiro de Barros, trazia um cachorrinho que lhe deram em Pernambuco e uma pequena jangada que adquiriu em Ca. bedelo . Ao desembarcar em Fortaleza, alguém lhe disse que en. tregasse aquele trambolho ao carregador.. Mostrando desa. grado, Ouintino protestou: . Você é um tolo... São dois símbolos nacionais! ?! Sim senhor! A jangada representa o trabalho e oca. chorrinho a politicagem! (R. Soldon)

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BOCA

ENTRE ASPAS

HAVIA em Manaus um poeta, autor livro "Duas Ondas", Teodoro Rodrigues, que se tornou popular por ser figura estranha. Era o que se chama um

. crônico", não gostava de pa-

gar a gente viva. Restaurante que lhe servisse refeição, . pendurava" a despesa. Procurava os jantares da sociedaje paIa comer de graça. Além disso, ainda diziam que o tal poeta era também um glande plagiador. Para impressionar mais os incautos, passou a usar bigode de lhe dava um tipo japonês. Era' em 1905, época da guerra russo-japonesa. Certa tarde, numa roda de amigos, Teodoro Rodrigues, que chamava a atenção de todos com o seu bigode à Fu-Manchu, dirigiu-se ao Quintino: - Então, poeta, não me achas parecido com o grande General Kuroki?.. - Não, Teodoro, o teu bigode, em forma de aspas, está apenas revelando que tudo entra que e sai dessa tua boca pertence ao outros...
.. Plautus Cunha Página. 47

INFELIZMENTE PARA QUEM?

EM PERNAMBUCO, quando o poeta foi representar o Ceará por ocasião da chegada do "Jahu", tornou-se conhecido na capital do Capibaribe. Não chegava para as encomendas e, dentro de dois dias, era uma figura popular nas ruas da "Veneza Americana" . Abordado por um repórter, rapazola bisonho mas com fumaças de homens de letras. iSairam conversando. - Dr. Quintino, o senhor é mesmo cearense? Graças a Deus! E você é pernambucano?

- Infelizmente. Dr. Infelizmente... - Infelizmentepara quem? Para você ou para Pernambuco? (R. Soldon) O MELHOR PAROARA

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LOGO que recebeu a missão ictiológica tosando o presidente Benjamim Barroso é o melhor paroara que já apareceu no Ceará... Dizia assim porque ser gastador ou pródigo - próprio de todo "paroara", isto é, de todo cearense endinheirado e recém-chegado das terras da borracha. A propósito da propalada "missão ictiológica": entre os peixes que o poeta nos trouxe do extremo-norte, havia alguns cágados e umas tartarugas que tiveram por destino as águas escasas do açude do Cedro. Inventou-se que os tristes quelônos estranharam o novo habital e deram para emigrar no seco, subindo as ladeiras da Serra do Estêvão. O humorista e médico Odorico de Morais procurou tirar isso a limpo: - Quintino, quais as últmas? Tens tido noticias dos teus cágados? - E você por que só pergunta pelos cágados? Por que não se interessa também pelas minhas cágadas?
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Anedotas do Quintino *

DESAFORO

QUINTINO viajavam de trem com destino a Cariús. Quendo o comboio chegou em Iguatu, vários amigos lhe pediram que demorasse para assistir à inauguração do Fôro. O poeta desculpando-se, perguntou: - Quem é o Juiz? - Dr. Rolim, lhe informaram _ - O promotor? - Orlando Cidrão. E os advogados? Terêncio Guedes e Carlile Martins. - Pois isso não é Fôro; é desaforo_. .

EXCESSOS DE FUNDOS

NUM banco da Praça do Ferreira, encontrava,.seo poeta senassolava noss,os estabelecimentos bancários, pela falta de ditado com vários amigos que comentavam a crise bancária que nheiro. A discussão era fluente e o banco, não suportando tanta gente, rebentou e todos cairam sentados no chão. Quintino levantou-se e disse bem alto: - É a primera vez que vejo um banco "quebrar" por excesso de fundos". . . JUIZ EM LAGES
EM LAGES, vil8 que hoje chama-se Acopiara, Quintino, cumprindo ordens do Tribunal de Justiça, tornou-se Juiz substituto. Numa sessão, logo no início dos trabalhos, o advogado Dr. Terêncio Guedes. irritando-se com o promotor Orlando Cidrão, grita: - O senhor é um mentiroso! E o outro, indignado: - E o senhor é calunladorl Quintino então intervem: - Agora. que os senhores já se identificaram. continuar os debates... podemos

* Plautus

Cunha

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CUS-CUS OUINTINO ;no calor dos seus 23 anos, esteve em Espírito Santo, como jornalista. Os rapazes e as moças capixabas adoravam os repentes do cearense. Para um domingo cheio de sol, combinaram um piquenique numa pequena ilha de Vitória, Todos levaram seus sanduiches e comidas regionais, churrasco, queijo de Minas, p.resunto. O poeta mandou preparar um suculento pão-de-milhão, por família cearense. Na hora do "break-fast", umas moças que se faziam notar pelas asneiras, vendo o pão-de-milho, por anarquia, perguntaram ao Ouintino: É verdade que na sua terra se come cus-cus? - Não, respondeu Ouintino... na minha terra se come com a boca!,..

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ADULAÇAO

&

PREPOTENCIA

Do abuso do poder vindo da essência, da força bruta e mais pelo interesse, a adulação matreira fortalece, o ofensivo vigor da prepotência, Entretanto, uma antitese ressalta, desse conceito que o bom-senso exprime: a prepotência exalta quando oprime, e a adulação deprime quando exalta. PREVENDO a queda de um "beócio" que galgou o poder à força bruta Ouintino profetizou a sua queda nesta quadra:

Ouem se eleva por ventura, dizendo aos outros "arreda"! fica com noção da altura mas perdeu a noção da queda. . .
SABER NADAR NUMA barbearia do centro, :I palestra lavrara entre fregueses e fígaros. O assunto era sobre mulheres infiéis. Um barbeiro que
Página

5.

Anedotas do Quintino

*

usava chifres por direito adquirido, disse em tom categórico: - Dr. Qui.ntino, se eu fosse governo, mandava pegar todos estes li cornélios,convencidos botavadentro de um navio man", dava pô-Io a pique em alto mar. O poeta, então, olha bem a fisonomia do fígaro e diz: - Você diz isso porque sabe nadar. . .
PRESTAÇÕES

CONHECIDOagente vendedor de automóveis em Fortaleza, certa ocasião, procurou o poeta para tentar lhe vender um automóvel. Expondo o plano, ficou explicado q,ue o pagamento seria em prestações mensais de dois contos de réis. Ouintino, com um sorriso, rematou: Sim, mas eu quero pagar as prestações em prestações...
PINTOR AZARADO NO ANTIGO Café Riche, desta capital, Antônio Furtado. autor do "Besouro Azul", apresentou ao Quintino um pintor fracassado de nome pomposo, que sobraçava uma enorme COl6Çãode quadros, cada qual o pior e que ninguém os queria comprar. Diz Antônio Furtado: este é o "grande" fulano, rapaz muito trabalhador! Quintino, olhando uma das pinturas. bateu no ombro do pintor e disse: - Você vai ter muito trabalho para vender suas pinturas. . . SE DIZ FURTADO

NO "ART-NOVEAU", o autor destas linhas foi testemunha de outra muito interessante do genioso e i'nspirado poeta. P. lestravam numa mesa: Ouintino, Meton de Alencar, Elias Malmann e Antônio Furtado, ainda parente do poeta. Em dado momento, Elias pediu a Antônio Furtado que lhe devolvesse o seu maço de cigarros. Ouintino também reclamou: e a minha caixa de fósforos! Não tenho cigarros de ninguém, nem fósforos; vocês é que me levaram meus cigarros. Assim é a vida desse Al1!I:ônio: furta de todo mundo e se diz "FURTADO"...

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* Plautus Cunha

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CARA

DE GATO

A Sra. Anizia Castro, viuva do nosso querido e inesquecível amigo Dr. Celso de Oliveira Castro, revendo antigos papéis dos amigos do Dr. Gelso, encontrou estas trovas do Quintino Cunha, farpeando um destista que o compadre Celso, acolheu

num compartimento da .. Farmácia das Sete Portas".
Este prático dentista, teve aaudacia de bulir na dentadura do poeta, colocando uns dentes que saiam da boca, e os outros eram quebradiços e levou esta flexa do Quintino. Quem entra aqui num segundo Tratando da dentadura Perde a esperança no mundo De mastigar rapadura. Quem entra aqui é um fato Sai corcunda num instante Entra com cara de gato Sai com cara de elefante. BAILANDO NUM SALÃO de baile, em Baturité, uma dama que. trajava cinzento, diz com voz fina em falsete ao poeta: Ainda não lhe tinha visto. Quintino, porque à noite todos os gatos são pardos... - E as gatas também. senhorita, disse o poeta, provocando uma gargalhada geral.

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PULGAS

TODOS que conheceram lambram-se bem da predileção que o poeta dispensava aos cães. Ouando apareceram em Fortaleza os "Fox-Terrier", um vendedor destes cachorrinhos convidou o poeta para ver o seu estoque. Lá Ouintino constatou serem os cães caríssimos e cheios de pulgas. Despediu-se o poeta; quando saia insistiu 'o proprietário:
Página 52 Anedotas do Quintino *

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Dr. o Sr. não .Ieva nada? Levo sim, disse o poeta, se coçando, umas dez pulgas...
DEVIA SER

NUM bonde. viajava OC, q:.:ando duas moças faziam graças para um pretenso namorado. Uma delas disse. dando 200 réis ao Ouintino: As nossas passagens. .. O poeta respondeu, dizendo que não era condutor, e a moça rematou com um dito Mas devia ser". Ouintino não se perturbou; as da moda: moças desceram ele desceu atrás;. acompanhou-as dois quarterôes; as moças entraram em casa e o poeta bateu na porta: Uma saiu e disse ao Ouintino: Não sou quem o senhor está pensando... - Mas devia ser. .. completou Ouintino.

-

N

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NEM NEGRA !

SENHORA

CONTOU-ME Femandes, antigo condutor de bonde, 5.11 Fortaleza, que certa ocasião viajava o poeta nulP dos primeiros bancos do Fernemles Vieira. quando o veílulo parou em frente da "Palmeira". StIbiraiD no estribo do carro duas pretas baiana~ que procuravam lugares; uma delas interpelou Quintino, em tolO de censura:

Ao que respondeu: - Nem oarápoetaverbo, nem negra é bonde.
Arás. _ _ Lugar paI'8 uma

senhora?

é senhora...

toque o

CANHOES

NA ESCOLAde Guerra, o comandante dizia: Ouiotino, faz de conta que em nossa frente surge um poderoso inimigo. que farias então? Manobra este grande canhão e mato todos est.elLmes~__ quinhos inimigos!

-

Anedotasdo Quintino ·

VENUS Numa exposição de pintura e escultt:ras, realizada no Rio, entre os presentes, encontrava-se Q.uintino. Uma jovem carioca, modelo das esculturas, querendo fazer graça, perguntou ao poeta, enquanto roia as unhas, se no Ceará existiam esculturas.._ Existem, meninas, e você tenha cuidado: Vênus De Milo começouassim. . . roendoas unhas. E ficou sem um braço!

-

-

CADA

QUAL

DA

O

QUE TEM

LOGO que o poeta casou-se pela última vez, um amigo, querendo fazer-se de engraçado. mandou-lhe de presente, num~ bandeja, um chifre de bOi coberto com uma toalha. Quintino não se deu por achado e pelo mesmo portador devolveu a bandeja cheia de flores, com um cartãozinho escrito: - "Cada qual dá o que tem. . . "

IGNORANCIA QUINTINO, como se vê, era também filósofo que queimava com a sua sábia ironia os ignorantes que só acreditavam na força brutal dos seus caprichos grosseros: Na história da teimosia, Entre a rudez e a arrogância, ~ tão forte a ignorância, Tão cruenta e tão mendaz, Que a própria sabedoria; De tudo sabendo tanto, Não sabe dizer de quanto O ignorante é capaz.
Página 54
Anedotas do Quintino ...

o

CACHORRO

Em Lages, hoje Acopiara, Quintino tinha um cachorro, que o acompanhava sempre. Um dia porém, o Éolo nos abandonando seguiu um homem que levava pendurado no dedo um peso de carne e foi-se embora atrás deste novo senhor. Não escapou porém de ser flexado pelo poeta. Sai do mercado um popular, levando Um pedaço de carne, pendurado, No dedo indicador Perto um cachorro, ao dono abandonando, Vai todo alegre e farejando ao lado Deste novo senhor, Neste caso, o rafeiro dá-nos ciência, De que a traição moldada no interesse, É coisa natural. Quanto mais quando é moda de excelência Encontrar-se no povo um caso desses, Perfetamente igual.

O RISO O riso é um sentimento privativo Do ser humano que a existência afora Corpo de um pensamento quase vivo, Almas da graça que no rosto aflora. No entanto, há homens de caráter mudo, Que julgam que ser sério é ser sisudo.
A MEDICINA

A Medicina, hoje em dia, Tristonha chegou a termo,

·

Plautu

Cunha

Página 55

Sem que sequer enfermo, Por gratidão a consagre,

Pois se urrt doente se trata,
Por seu simples intermédio, Quando morre, é do remédio, Quando escapa, é por milagre.

o

CAVALO

não usando cangalha para carregar cargas, usavam títulos e se ma tal que a nossa capital estava cheia de doutores semianalfabetos verdadeiros que se aproveitaram de "decretos!> e não usando cangalha para carregar cargas, usavam títulos e se diziam doutores. Os jornais anunciavam até diplomas compraaos. Ouintino aproveitou para atirar-Ihes esta boa" seta" . O mérito em declínio é sempre oriundo. Oe um suposto valor.

O cavalo foi tudo neste mundo, Desde escravo a senhor. Na Arába foi herói, na Grécia trono. Em Roma senador, Hoje, no mais humílimo abandono, Mal chega a ser Doutor... \ . .... O GATO

Antes das el,eições anunciadas para 1934, os candidatos traiçoeiros ficavam adulando os eleitores como sempre, com voz mansa, pancadinhas nos ombros, verdadeiros gatos prím!3iro com afagos, depois rosnando entre os dentes querendq mordê-Ios. Ouintino publicou este poema maravilhoso ao gato com a ironia de um Descartes e a filosofia de um Dió. géns:
Página 56 Anedotas do Quintino ..

o gato, se tem fome, Todo brandura.

é assim, procura,

o dono seu, pedindo-lhecomida. Mas de uma forma tão enternecida.
Que nos pareoe o gato, A sombra quase fiel de um candidato, Pedindo votos para s-er eleito; Quando o bocado apanha.

o próprio dono ferozmente estranha... - Agora é que o retrato está perfeito!. . .
TROVAS DE a. O HOMEM que se sujeita, A caprichos de mulher, É um zero posto à direita, De uma unidade qualquer
ESPERANÇAS

C.

o Senador Machado, em Manaus, sofria tremenda oposição do dr. Eduardo Ribeiro e para solucionar os embaraços dessa campanha tenaz e impertinente, tratou de por todos os meios, fazer um acordo. Pediu ao Quintino para 'falar com o governador e fazer élS pazes. Encontrando-se com o poeta, o velho senador perguntoulhe como era de hábito: - Que há de novo Quintino? . . Este, que já sabia do fracasso do conchavo, trocadilhou prosaict'mente: - "Dr. Machado, sua esperança foi-se!"

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Plautus

Cunha

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5'7

VESTIDO PRA MAMÃE

fORTALEZA dos tempos passados tinha suas tradições e seu sabor provinciano. Farmácias que reuniam políticos, Lojas que serviram para tertúlias intelectuais. A Casa Holanda era uma delas ,onde o poeta do "Solimões" fazia ponto. O seu proprietário, Raimundo Holanda, embora muito jovem, não perdia, a mania de implicar com o poeta. Entra um matuto na Loja com um pedaç.o de fazenda na mão e pergunta ao Ouintino: O senhor tem desta fazenda? Ouintino, para o freguês não desconfiar, diz: - Não temos. Tem sim papai o Nisto, o Holanda vem de lá e diz: Sr. já está velho caduco e não sabe. . . - Não tem não, repete o poeta; a que tinha ai eu mandei fazer um vestido para tua mãe!

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-

ESCAPOU DE SER SEU IRMAO

CERTAvez no Café Globo o poeta, numa roda de amigos e admiradores, falava em sua família, seus filhos, suas esposas etc. Nisto chega o caçula do poeta, menino de dez anos, muito ativo, dando um recado de casa ao Ouintino. Então, um sujeito muito popular, chamado Chiquinho, filho de uma senhora de muitos encantos, dona de uma pens,ão em Itapipoca, não respeitando os cabelos brancos do poeta, lhe diz: - Mas Ouintino! Você tão velho, será que este menino Ó mesmo seu filho? Boca prá que falaste! QuinHno olhou bem o atrevido e disse: --É meu filho e escapou de ser teu irmão...
Página 58

Anedotasdo Quintino ·

ANTOLOGIA :ILUSTRADAS DOS-CANTADORES' (De Francisco Unhares e Otacílló 'Batista) Cleanto Cunha, filho, ào 'saudoso .Ouintino'. ,coritoü-iloS que, estando QÜiritíno, Leõta' e Dantas QuesadO; num' dos bares de Fortaleza, uma pessoa curiosa perguntou a outra i "Quem será aquele que palestra com o Dr. 'Quintino e o Dr.

Leonardo? li Luiz Dantas ouviu a indagação satisfez a ,curiosj:----dade do ouvintel '

,-

Carro Dãv anda sem boi

Gato não briga sem unha:
Luiz Dantas Leonardo é poeta, é testemunha

.-

~

Se quer saber mais de algo

--

Pergunta

a Quintino

Cunha.

Raimundo Viana de Sousa, cearense, não vive exclusiva.
mente da viola mais é bom repermstá.

Numa peleia com um

paraibano que exaltava os grandes vultos' de suá terra e Raimundo Viana, também exaltou os grandes do Ceará o companheiro diz: PARAíBA DE AUGUSTO,,, DE INACIO E PIRAG'iBEr' .' - .
Viana em resposta, fez tão oportuna afirmativa: CEARA DE JAGUA~laE, ,:.: , E DOUTOR QUINTINO -'CUNHA. UM BRILHANTE ADVOGADO QUE ONDE BOTAVA A UNHA, DEFENDIA OUAOUER UM RJ:U SEM pRECISAR TESTEMUNHAl

Nota do Autor P. C.
* Plaums Cunha

Página_ 59,

Se estes 'dois rios fossemos, Maria. Todas às vezes que nos encontramos, Que ,A.mazonas de amor não sairia D.e mim, de ti, de nós que nos amamosll. . .

"

REALISMO

UQUIDO tesouro do alto desce. Avigorando as plantas de cultivo; Sertões e serras são banhados desses Récurso precursos e lucrativo. o ânmo alegre nesse quadro vivo. Ao mais fácil dos seres fortalece, Embora o espesso matagal nocivo. Venha entravar a marcha do que cresce. Centenas de homens do Brasil moderno ::)erena turma de aproveitadores, Lembram plantas daninhas pelo inverno. Homens cujo ideal não tem raízes, Mas que vivem, vivendo entre os valor~,

Inúteis, vigorosos e felizes. . .
Página 60
..

'

Plautus

Cunha

Este poema saiu no livro Humorismode Ouintino.,con-

tendo erro grave, faltando os primeiros versos tindo - corregindo, inclusive o português.
ENCONTRO. DAS ÁGUAS

.

-

estou repe-

Rios:' Negro e""$olimõ8s

__~ê

bem, Maria, aq~i se cruzam, este, Vê o Rio_aquele é o Solimões Vê bem como este contra aquele investe Como as saudades, com as reccJrdações.
Vê como se separam duas águas,

Que se querem reunir, mas visualmente; É um coração que quer reunir as mágoas
°

De um passado, às venturas de um presente. É um simulâcro SÓ,que as °águas donas, Desta terra não seguem cúrso adverso, Todas convergem para o Amazonas, O real rei dos rios do Univer~; Para o velho Amazonas, Soberano Que, no solo brasilio, tem o Paço; Para o Amazonas, que nasceu humano, Porque afinal é filho de um abraço! Olha esta água, que é negra como tinta,
,0

Posta ,.as mãos é alva que faz gosto;

,

,

,~pá por visto o nanquim com que se pinta. ,0''Nos Qlh~,' a paisagem de um desgosto. Aquela outra parece amarelaça, Muitó, no entanto é também limpa, engana É'direito a o,virtudequando passa Pela flexível porta da choupana. Que profundeza extraordinária, imensa, Que profundeza, mais que desconforme!
.

Este navoê;.uma estrela suspensa
Neste céu d'água brutalmente enorme.
Anedotas

-Página. 1 8

---

do .

OUINTtNO' teve uma "rixá com ó comerciante. Furtado de Mendonça, que o enganou. Uma vez, falando com um amigo,

disse Ouintino, ao ver passar o negociante:

-

.

É

interessante.

...Furtado"

.

Nunca vi um Mendonça que não tive!se

ETERNA BESTA

SOL de sertão perto de uma

..bebida"

Tempo de inverno agora ressequida. Sem sombra" a calorenata de matar, Vê-se uma besta exânime,. caída_ A fome e à sede sem poder 1;!ndar_ Riscando o azul de preto em curvos voares, Uns urubus adejam pelos ares, Agoirando a existência do animal, Helembrando os corífeus de altos lugares, Doidos pela carniça nacional_ _. Toda besta, se de fato Que há de ter sempre um-des-graçado fim,
E, com franqueza. é o mas fiel retrato, De um povo que eu conheço como a mim. __

OUTRO RATO

UMA ocasião, Ouintno pediu a beca de um colega em. prestada para "fazer uma defesa. O proprietário da beca era o Dr. Meio, antigo advogado da Justiça Militar. Recebendo o recado do poeta, atendeu prontamente. Tirou a beca rwm com. partimento do Fôro, dobrou.~,passou um papel e mandou-apara o poeta. Este recebeu a beca e com muito medo começou a abrir o embrulho. Outro advogado, vendo tais precauções, per~

- Oue é isso, Ouintino? abra logo o embrulho! Ao que o poeta logo a~alhou: - É cuidado, meu amigo, já saiu "rato" daqui outro. . _
:Pàg-híâ.- 62.

guntou:"

..

J

e pode ter

Anedotas

do. Qulritino

LAGES

-

AFONSO

PENA

-

ACOPIARA

A ANTIGA Vila de Lages, hoje Acopiara, onde ocupol o lugar pe p~queno secretário do p,oeta, era um reduto de In. trépidos narradores de estórias fantásticas, cada q,ual queren. do se elevar mais alto, numa imaglinária corrida de mentiras brancas. O ponto central das reuniões variava sempre, às ve. zes, na Farmácia Castro, do Dr. Celso, amigo íntimo do Quin. tino, desde o tempo do Amazonas; no bilhar de Ambrózio Fer. reira Lima ou no comércio, nas lojas de Pedro Alves, paulino Félix Teixeira, Zezinho da Malhada, Tó, Chiquinho Henrique e, finalmente, no Cartório do seu amigo e compadre Zémarques. A célebre Farmácia das Sete Portas foi na época cantada em versos fluentes pela verve incomparável de Quintino. Vers")s que trago no pensamento como uma velha saudade embala:!a na música da "Cabocla de Caxangá": Lages por cima desagrada Afonso Pena. Pois se de longe é pequena, Bem de perto é colossal, Lages tem tudo, tem justiça de valia, Justiça de mês em mês, E bodega sem fre;guês. " (bis) Comerciante nesta terra não se apruma Porque quando compra a pluma, Desapruma o vendedor... E nos negócos rola tanta barafunda! Todo couro é de segunda, Toda lá é inferior. . . Ainda o bilhar cai por cima De Ambrózio Ferreira Lima (bis) Vai na frente tro-Io-Ió, Francisco Guilherme e o fó. . . Tem sete portas a farmácia da terrinha, Uma é do Celso, outra é minha.
* Plautus Cunha Pálttna t!3

Só lhe falta a moradia do Juiz Municipal(Dr. Ho.im)

Do Zémarques outra mais, As outras quatro divididas pelo meio São dois tipos de permeio Dando língua por detrás.. . EXEMPLO DE TENACIDADE
Osmundo Pontefi

As anedotas póstumas de Ouintino Cunha projetam-se, de fato, a perspectivas indevassadas. Congênito dom de espírito, a piada irrompeu nele em impetuoso fluxo de seiva. Como poeta, pressente-se nas suas inspirações, resignados solilóquios, trêmulo esvoaçar de abelhas de ouro. O sentimento ascende-lhe a atmosferas fúlgidas e radiosas, tudo espiritualizando além de nós, o real e o fictício, a natureza e o sonho. a inteligência e a alma, a amargura e o júbilo, a neblina e o sol, o arco-iris da cor, a música no perfume, o aroma do som, o próprio enigma do silêncio tornado audível. Foi igualmente, orador incomparável advogado brlilanti&5i. mo de nomeada. As pilhérias de Quintino, o maior humorista e repentista de todos os tempos no Ceará. segundo Raimundo Girão, vão deleitar a milhares de leitores, mercê da publicação da 25." edi-

ção de Anedotasdo Ouintino", a cargode seu taientoso e dedi.
~

cado filho, este admirável Plautus Cunha. Trata-se de uma obra de grande interesse. que será leitura obrigatória para todos aqueles que quiserem conh6cer os notáveis repentes de Ouintino e porque ganhou tanta fama na boca do povo, de tal maneira que ainda hoje se fala muito dele, apesar de se ter passado quase meio século sobre a sua época. Plautus Cunha afirmou-se na vida e na cultura cearense, não apenas nos domínios do jornalismo, como também através de um louvável trabalho de condição sistematizada em torno da figura extraordnária de seu genial pai, o inesquecível Quintino Cunha. Graças ao seu esforço à sua própria custa, lutando contra todos os obstáculos, vencendo inúmeras dificuldades. vem lançando, anos segudos, edições e mais edições das "Anedota", do Ouintino". Não fora ele, sem dúvida a obra esPágina 64

Anedotas do Quintino

*

doradotempo.

parsa de Quintino já teria desaparecido na voragem destrui(Presidente do Tribunal Regional do Trabalho PENSANDO BEM...

. .. .....
Ce.)

Creio na força eterna, também creio Na existência do bem que a vida eleva, No contraste visual que, de permeio, Faz a luz mundial visando a terra. Na moral, a Justiça pondo um freio: Mas. ., tudo isso antes de, Adão e Eva. . .

o

VELHO

Em geral faz-se um velho venerando. De um moço, de caráter impoluto, Pela verdade de ser o produto, Da mesma espécie do multiplicando. Por exceção, a dor,de quando em quando, Faz um velho de bem de um moço bruto, Ninguém alcança o rastro resoluto. Da velha experiência caminhando. Velho ruim, moço ruim, forte conceito, O mais firme, o mais forte, o mais perfeito, Que o bem-senso extraiu da humanidade,

· Plautus Cunha

Página 65

Lição proveota aos insensatos de hoje: Quando a vergonha na velhice foge, De há muito já fugiu na mocidade. SPES ÚNICA NUMA tarde, em Acopiara em 1926, estava o poeta fazendo a sesta, deitado numa rede de cordas. Sua esposa dizia o que sentiria depois de sua morte, ao vê-Io num caixão etc. O poeta, valendo-se de muita ironia, escreveu de improviso estes versos: Morto, dentro de fria sepultura, Sem ,te poder falar? E tu que amas, boa criatura, indo me visitar. . . Banhada de suspiros e soluços, desmaiada talvez... Muita vez reclinada até de bruços, na altura de meus pés... Pedindo junto às que me e a a Deus o meu viver eterno glórias suas, livre das penas do inferno, chorar continuas. . .

lembrando nossa vida a todo instante repassado de dor, a lembrar-te que fui teu amante, o teu único amor.

o

Mal pensando na horrifera caveira em que me transformei exausta de fadiga, de canseira, imaginar não sei... Para evitar essa hora amargurada, esse quadro de dor tão verdadeiro DeUs há-de ser servido, minha amada, Que tu morras primeiro.
Página 66 * Plautus Cunha

RELÓGIO QUE ATRAZA

POR VOLTA de 1922, comprou o poeta, num leilão, uni enorme relógio de parede que só vMa atrasado. Não havia jeito. .o velho relógio atrasava sempre. Aconteceu que veio do .,Sítio Cajueiro" um seu cunhado. com os intestinos desma. telados. Vinha esse hóspede de uns purgantes inconsequentes. Repetiram-se os tais e o Cavalcante há duas noites que não deixava nínguém dormir, passando por baixo da rede do poeta para filar um cigarrinho. Ao passar pela porta onde estava o relógo, este caiu, espatifando-se no solo, por um triz não caindo em cima do hosp&de Então diz o poeta se lamentando: Até nisso este diabo anda atrasado!!

-

O BURRO NÃO RIU... Chega à feira um sertanejo Montado num burro arisco. E, sem pensar nalgum risco, daquele canto não sai. Perto , apita um trem, e o burro salta com tanta ligeireza, que o pobre homem, de surpresa,( ~esequilibra-se e cai! ., Nesse momento, a assistência, um tanto ou quanto educada, prorrompeu em forte assua~--quando o mat'.rto caiu! E, apenas como protesto, àquela cena, tão séria, vendo tamanha miséria, somente o burro não riu...

~

*

Piautus

Cunha

Página.67
)

CASCAVEL NUMA RODA de amigos, no Café Globo. o assunto era a ruindade das sogras. Cada um dizia qualquer coisa de sua sogra. Quintino então explicava: - Casei três vezes. A primeira sogra foi um cordeí:-o ( era casada com o Cel. Carneiro). A segunda era um anjo! (A sogra do segundo matrimônio era casada com o maestro Ângelo Accetti). Mas a terceira, meus amigos, é uma serpente! Surpresa geral espanto de todos. Quando o poeta completou maravilhosamente: - Porque é filha de Cascavel! MANOS JOÃO Ouintino, irmão do poeta, a quem este dedicava grande amizade, era metódico, vestia-se bem, tinha sempre roupas novas, era o contrário do poeta que não ligava a essa questão de indumentária. O irmão do poeta não gostava que Quintino vestisse suas roupas. Um dia, pressentindo a chegada do irmão, advertiu-o assim: - Mas que audácia a tua, Cazuza! Saires com a minha capaz de borracha! Ouintino logo respondeu: Então João, você queria que eu deixasse a chuva encharcar o seu terno novo?

-

LARANJINHA NUMA MESA do Café Riche, seus amigos gritavam ao "garçón" Um "cock-tail", uma vodka", um "cognac", um "wisky"! Ouintino chamou o "garçon" e pediu simplemente: - Traga-me uma "Laranjinha do Rodolfo Teófilo"... Vendo que os amigos estranhavam aquele fraco pedido, Quintino então completa: Essas bebidas estrangeiras, além de caras, são muito tortes. Eu prefiro a "Laranjinha" do Rodolfo Teófilo, mais barata e ao mesmo tempo é fraca como a literatura do autor.u

-

-

Página 68

* Plautus

Cunha

MACACO

DO

MUSEU GOELD

.-

--

QUINTINO, quando esteve em Belém, foi sucesso no TrIbunal do Júri. Ocorreu com a sua chegada a fuga de enorme gorila do "Museu Goeld" e o governo estadual .tudo fazia para capturar o macaco. Para isso, instituiu um prêmio a quem o devolvesse ao zoo.
O poeta ouvia sempre falar em Eliseu César, orador es. palhafatoso, cheio de demagogia e respeitado nos debates do Júri. Era esse Eliseu um êmulo de Paulo e Souza, um gigante 6e ébano, poderiamos dizer, com sua possante mandíbula inferior e suas feições de "King Kong". No momento em que foi apresentado ao Quintino, disse que não via no poeta nenhum repenUsta nem homem inteligente. Boca prá que falaste? No primeiro aperto de mão, Quintino disse-lhe na "bucha": Tu não tens nada de César, Muito menos de Eliseu; Só parece com o macaco Que fugiu lá do museu!... * Plautus
Cunha ..' J.!ãgina69

QUINTlNO

X

PADRE C(CERO

.P"..r~ . ,
C'C'CRC ---...-..

o Padre Cícero ,gostava imensamente do poeta, a ponto de pedir-lhe para pernoitar em sua casa em Juazeiro. Contoume Gomes de Matos que cert"l vez, quando fazia uma visita ao Padre encontrou lá o Ouintinc como hóspede do Patriarca, estavam em animada palestra. O Padre comentava que quand, o Ouintino chegou ele tinhé perguntado ao poeta: Ouintino como passou? E o ,poeta respondeu simplesmente.

-

- Pela porta. Na ocasião chega um romero pede licença e diz:

- Meu Padim me abençõe está aqui dez mil réis para o senhor.
O Padre meteu no bolso e agradeceu. Daí a pouco acercou-se um pedinte e solicitou uma esmola. O Padre tirou do outro bolso da batina uma moeda de um cruzado e deu ao esmoler, dizendo ao poeta: Está vendo Ouintino o dinheiro entra por um bolso e sal pelo outro.

-

- É. diz o Ouintino lrocado. .

mui:o interessante porque já sal

Página 70

Anedotas do Quintino

·

auintino visto por Santa Rosa -

1942

CONTOU-ME o Dr. Pedro Sampaio que, no antigo Café Emídio, um corretor de títulos insistia com o poeta para vender-lhe umas ações de importantes companhia pois no dia anterior Quintino tinha prometido: - Doutor, fique, o Senhor não deu sua palavra? - Sim, disse o poeta é ,por isso mesmo. Eu sou um homem de palavras e não de ações"... TROVAS aUINTINAS

o vento bateu na porta,

Eu cuidei que era Joana, Valha-meNossa Senhora, Até o vento me engana.
Cunha

a. C.
Página 71

* Plautus

MEDALHA DE OURO DO REI DE PORTUGAL

. QUANDO QUINTINO foi à Europa publicar o seu livro, chegando a Portugal. declarou achar-se. possuido de verdadei. ra satisfação. Estava como que no Brasil entre irmãos que fa. lavam a mesma língua. Foi convidado a fazer uma conferência no então Tea.

tro Dona Amélia, hoje" República".
Um acontecimento notável.

Usboa teceu hinos de glória ao poeta. De tal maneira re. percutiu no mundo ofical, na imprensa, na sociedade e entre os homens de letras a palestra do vate cearense, que Dom Carlos manifestou o desejo de ouvi-Io, quando regressou da :=rança. Meses depois. Quintino repetiu a conferência no mesn~o local para Sua Majestade o Rei de Portugal!. . .
Página 72 Anedotas do Quintino ·

Isso valeu ao cantor a cunhagem de uma medalha especial, com os seguintes dizeres:
..

Ao grande poeta brasileiro, Dr. Quintino Cunha, Dom

Carlos Rei e as Armas de Portugal". Quando Quintino voltou a Fortaleza, o Dr. Meton de Alencar, oculista de nomeada e amigo íntimo do poeta, tomou o valioso objeto e colocou-o na própria corrente do relógio, num momento em que o poeta se dispunha a empenhá-Ia.

UM BURRO DO SEU TAMANHO
CERTA VEZ, estava Quintino conversando com amigo3, na calçada do Café Art-Noveau, quando vem passando umé:J moça magra, porém bonita, com um belo vestido verde. O poeta cumprimentou-a. Pedrão, gerente do Bar Majestic, que estava ao lado de Quintino. disse: - Que pena! Tão pouca carne para tanta alface! Quintino olhou para o homenzarrão e disse: - Não acho. Eu vejo é que ali tem muito pouco capim para um burro do seu tamanho!...
PENTE PRA 8URRO

,
~UANDO viajava, certa vez, para Baturité, ia Ouintinonum Carl'lDrepleto de passageiros, na sua maioria do sexo frágil. Eram as alunas dos diversos colégios da cidade serrana, que voltavam às aulas depois das férias. Ouviam-se chistes e gos. tosas gargalhadas das moças. Um camarada metido a engra. çado, por se encontrar no meio das alunas, dizia graçolas. Vi. rando-se para o poeta, pediu-lhe o pente emprestado, no que foi prontamente atendido. Com o pente na mão, mostrava às moças dizendo: "Ouintino, isto é pente para pentear burro"! - "Foi por isto que lhe emprestei", rematou o poeta.
OUIXADÁ

OUINTINO viajava para o interior do Estado, quandoo trem parou em Ouixadá. O poeta procurou comprar umas curimatãs do Cedro e não encontrou nada. Nem queijo. Indagou de um
* Plautus Cunha Página 73

popular este disse então que o povo não queria mais trabaIhar. Nisso chega-se ao Ouintino um sujeito enfatuado e pergunta ao poeta se ele sabia o que queria dizer aquele monumento de bronze de um homem empunhando um martelo em frente da estação. Ouintino respondeu: Ele está dizendo - Aquele que trabalhar nesta terra eu mato!!

-

CRIOSOTO

viagens ao Amazonas. Sua esposa lhe pergunta:

EM 1911, Ouintino preparava-se para fazer uma das suas - OUintino, vais viajar e que nome daremos ao nosso filhinho, que vai nascer?

- Criosoto. .. respondeu o poeta. - Meu filho, não brinque, e se morrer? suspirou com tristeza. Cri os ato... diz fazendo um belo trocadilho.

.....
O DR. ODORICO de Morais, velho amigo da família do poeta, perguntou certa ocasião à mãe do Ouintino. D. Maximína, senhora muto esprituosa, de quem o poeta possuia a veja humorística: - D. Maximina, a Senhora não se sente demasiadamente só depois da morte de seu marido? - De modo algum, respondeu. - Tenho um papagaio que grita todo dia, um macaco que masca fumo e um gato que passa as noites fora de casa. O SAUDOSO crítico brasileiro Agripino Griero, num trabalho de grande fôlego sobre Ouintino, considerou o maoir humorista do Ceará de todos os tempos. Pe. Assis Memória: "tenho pra mim que ele veio à terra com a missão de suavisar o infortúnio de seus semelhantes. Ainda me lembro como o conheci. Humberto de Campos, com q.uem se acama,radara fraternalmente na evocativa serra de Baturité, no Ceará, veio uma tarde ao jornal em que trabalhávamos em Belém, em companhia do precioso amigo, havia pouco chegado de Paris. Trazia ainda quentes as mãos, que apertaram as dos maiores vultos em voga das finas letras gaulesas. Ouintino era também portador do seu célebre poema
.. Pelo

Solimães", editado na capital francesa. Aquela inesqueAnedotas do Quintino '"

Página 74

cí,-,p.1 visit~ que Humberto

nos proporcionar

constituiu

umo

tertúlia memorável".

A. O. N. F.
QUINTINOconversava horas a fio em rimas fluentes, para gaudio de todos aqueles que o ouviam. Numa destas palestras aproximou-se da mesa um velho amigo de infância do poeta, o Ur. Alvaro Fernandes, que, como sempre liperseguIndo - o seu amigo, disse-lhe, de manera desafiadora: - QuintinO, diZ ai quatro grandes besteiras! Alvaro Otacílo Nogueira Fernandes... são quatro Desteiras grandes!

-

BOCA aUINTINO

ASPEADA NO AMAZONAS

Frequentava com assiduidade a porta da Farmácia Stuautor de "Duas Ondas", o qual tinha fama de comer à custa oe um expedente singular: procurava nos jornais onde havia uma festa e, na ho"ra, apresentava-se como convidado, filando graciosamente o jantar. Uma outra qualidade se lhe atribuía, .lIenos graciosa, talvez: a de fazer plágios. Usava uns bigodes <Jrientais,que ele vivia cofiando . Nesse dia, dirigiu-se a Quintino, retorcendo os bigodes: - Então, poeta, não me achas parecido com o grande .<uroki? Não, Teouoro, o teu bigode em forma de aspas está apenas revelando que, 'tudo que entra e sai daí, dessa boca, pertenoe aos outros.

aart, em Manaus, onde se encontrava com alguns literatos e amigos. Certa tarde, ali chegava o poeto Teodoro Rodrigues,

-

LOUCOS aUINTINO foi despertado, certa noite, sentindo os ladrões .emexendo as gavetas da secretária e bradou-lhe com toda placidez: - Loucos! Buscai de noite o que não encontro de dia!
* Plautus Cunha Página 75

PACt~NCIA CONTRA IRA

Em Afonso Pena, atual Acopiara onde, no seu dizer, demorou uns dez anos, seus lazeres eram as mais simples distrações da vida: caçar e pescar. Certa ocasião, quando peso'cava no açude do Paroara em dado momento, depois da fisgada, escapou do anzol, na U mucica", uma. enorme traíra. Vinha pela parede o propnetáro do açude, Almerindo Guilherme, que, emocionado com a cena, e vendo a calma do poeta, perguntou: .,...... Mas, Dr. o senhor não fica desesperado quando perde um '" peixe assim? - Não! Almerindo; Devemos ter paciência contra...ira", foi o admirável e feliz trocadilho.
o

U

QUIXERAMOBIM

.

UM MÉDICO amigo do poeta, não tinha sorte com seus 'clientes e nos últimos tempos todos que lhe cairam às mãos ele os transferiu para o cemitério.. Passando por sua porta, Quintino notou que o médico estava colocando sua placa. Como o poeta não enxergava bem, perguntou ao esculápio: Que é isso, fulano?

-

Todo orgulhoso,

o amigo respondeu:

-

É minha

placa

de

médico; não sou poeta! Mas você está enganado, fulano, está placa você devia

-

pregar no portão do cemitério.

.o

PARTEIRO DE SUA

MÃE

NICOLAU Romcy, figura muito conhecida nas rodas populares, encontrando-se com Quintino na rua, cumprimentou-o. g2llhofeiramente, com estas palavras: "ilustre poeta, médico, e parteiro! " - "Poeta do "Solimões", médico de sua alma e parteiro de sua mãe". . Foj o repente "Iiquidante"...
Página 76 Anedotas do Quintino *

SALVA

TEU PAI

EM MANAUS, o poeta era habituá das corridas de cavalos. Certa ocasião, na hora dos páreos, caiu uma chuva torrencial, encharcando toda a pista. O azar era o cavalo Nero. 'Ouem jogasse no Nero era chamado de burro. Tratava.se de animal pesadão. Ouitino jogou tudo o que possuia no Nero. E deu.se o que não se esperava: muito robusto, Nero resistiu à pista lamacenta e, ao disputar o primeiro lugar, passou na última volta pela arquibancada na frente dos concorrentes. Antes disso, o governador Silvério Nery, amigo do poeta, chamou-o de burro por ter jogado no Nero. Ouintino quando viu Nero passar a última volta à frente, grita a toda força: Nero, t'.1 que matasse tua mãe, salva teu pai!

-

OUINTINO

X

SEVERO PIRES

NOMEADOSecretário de Intendência de Canutama, no Alto Purus, na Amazônia, o poeta Quintino Cunha recebeu logo do chefe a incumbência de redigir um edital proibindo a vagabundagem dos cães pelas ruas. Esquecendo.se de cumprir a tal ordem, foi o notável humorista interpelado a respeito do as. sunto pelo amanuense e trovero Severo Pires, que lhe endereçou estes versos: Senhora dona intendência, Meus sentimentos profundos, Cadê a tal providência Para os tais cães vagabundos? Sem perda de tempo. Quintino deu a resposta nesta qua. dra piramidal e fulminante: Para que você não pense Que a providência não vem, Esteja preso, amanuense, POr andar solta também. . .

z

* Plautus

Cunha

Página

.,.,

DEFUNDO PRA CAIXAO

FALECENDOuma pessoa da famítia, Ouintino .mandou seu filho Osmar à Empresa Funeraria, encomendar um caixão; horas depois, voltou o estudante, dizendo que não a tinha encontrado. Naquele tempo, a seção funerária da Santa Casa de Misericórdia funcionava atrás do estabelecimento de caridade. Ouintino, esquecendo as tristeza do momento, explicou Volte à Santa Casa e procure saber lá, no lado ao rapaz: em que se faz defunto para caixão, onde se faz caixão para defunto. SEMPRE JOVEM

-

as mágoas de suas semelhantes, não tinha vaidades; .seus cabelos brancos para ele eram satisfação, era mesmo' superoi- a esta coisas. Ao entrar no "Globo", um velho ad\(ogado, rico de tolice e pobre, de inteligência, levantou-se de sua mesa, todo enfatuado, e dirgiu-se ao Quintino: - Mas -ouintino, você está muito mais velho do que eu!
..:...
J I

de suavisar

.

ÓUINTINO, a sua filosofia, trazendo do alto a missão n

Mais velho e menos besta, porque não tenho tempo de
'..'
;

pensar na idade!... ..FALANDO,

certa vez, sobre seu compadre, Dr. Leonardo

Mola, que tinha dois filhos colocados no Banco do Brasil, coNão há mesmo quem possa mo escriturários, diz Quintino: com esse meu compadre Leonardo: porque não tem dinheiro, contenta-se em colocar os filhos no Banco.

-

SÃO CORNÉLlO
UMA das grandes facetas do espírito humorístico de Quintino, era a propriedade de dar respostas certas e imediatas a determinadas perguntas. Uma vez. um sujeito perguntou ao Quintioflo, tentando visar a alguém: .

-

Quintino.

você

conhece

a irmandade

de S.

Cornélio?

Havia alguém próximo, a quem queria ofender indiretamente. O poeta, apiedando-se, respondeu: - Conheço bastante!. .. Teu pai foi até um dos fundadores principais. . . Página 78
Anedotas do Quintino ·

CONTOU.ME Teixeirinha que esava com Ouintinoe mais o três amigos, quando se aproximou do poeta um lindo cão policial que lhe seguia. . Teixeira Mendes, poeta também e re. pentista, entrou em discussão com Ouintino, achando que o poeta do "Solimões" não era dono do cachorro. O.uintino pro. testou que o cão era seu há muitos anos. Teixeirinha, então, desafia-o com este começo de verso:

Eu nunca vi o Ouintino, Andando com um cão atrás!

o poeta, apontando a roda de amigos, completa:
Pois olhe, eu desde meniino, Oue ando com um cão ou mais.. . CUNHA X CUNHA... C0NTOLJ-MEo escritor amazonense Heme:tério Cabrinha, que, no encontro havido entre Quintino Cunha e Euclides da Cunha, no Amazonas, o poeta do "Solimões" estava num dos seus lazeres favoritos, pescando num dos igapós da Amazô' nia, dentro de uma canoa indígena, quando se aproximou o vapor, entrando no igapó. A canoa do Quintino saía apertada. Deu-se. então, esse célebre diálogo que foi repetido na imprensa de toao o pais, pelo próprio autor de ..Os Sertões" . Euclides da Cunha, vendo aquele quadro de pescaria, perguntou do vapor: - Que fazes aí, caboclo? - Estou pescando a vida, disse Quintino. - Tu sabes eu quem sou? Sou o Euclides da Cunha. - Eu sou Quintino Cunha. E difícil, num lugar tão estreito, passarem as nossas cunhas.

-

A CERTAaltura de um julgamento, .um advogado rábula investe contra Ouintino: - Dr. Ouintino, eu estou montado na lei! Fazes. muito mal montar num animal que não conhe. cesl

-

'

..

Plautus

Cunha

~ágin$l,

79

CONTOU-ME o popularíssimo advogado cearense, Dr. Wagner Barreira, um entusiasta do Quintino, que: Chico Parente era conhecido como mentiroso e frequentava as melhores rodas de Fortaleza daqueles tempos. Certa ocasião, perguntaram o poeta: Quintino, quem mente no Ceará? Ao que o repentista respondeu, interrogando: - Botando ou tirando o Chico Parente" A PEQUENA vila de Mulungu, vizinha de Guaramiranga, na época das festas de S. Sebastião, enchia-se de gentes das circunvizinhanças. João irmão do poeta, mantinha um romance com Cristina Gondim, moça muito devota e delicada aos princípios religiosos, que pediu ao poeta que escrevesse ao menos uma palavra num álbum seu. Quintino escreveu de improviso, na primeira página, acompanhado de uma rica ilustração a bico de pena:

uma palavra? O verso da minha lavra, Nenhum efeito, produz, Mas, corno a idéia é sagrada, Cristina, sei que te agrada, Va'i uma apenas - JESUS!" MANOEL MONTEIRO, num de seus trabalhos poeta, diz:

-

.. Apenas

sobre o

"O cérebro deQ Quintino é como a "pedra de fogo" das ao espingardas sertanejas e dos isqueiros dos comboieiros: menor choque, saltam-lhe mil faiscas".

-

Página80~

Anedotas do Quintino

·

TROCADILHOS

ABfLlO Martins, primoroso poeta humorista, de saudosa memória, encontra-se com Quintino e lhe interroga se não sabe alguns trocadilhos. ABfLlO Martins, primoroso -poeta humorista, de saudosa Quintino, quando o via. - Antes de mais nada, Abílio, me informe como vai a política. . - Não é mas candidato à presidênca do Estado o seuamigo Belisário Távora; agora é o Justiniano de Serp.a... E o Quk1tino: _- Que trocadilho besta! CERTO amigo, chegado do Rio, em palestra com Quintino, disse-lhe: "Conheci no Rio um seu filho (o autor destas páginas), que está no Exército, mas é muito diferente do pai, todo encabulado.. - Recebi uma carta dele dizendo que tinha ífigressado no Curso de Sargento. Quando você o encontrar agora ele não

estará mais encabulado, estará ..ensargentado" . " disse Quintino. DE UMA feita, um amigo perguntou-lhe, a~damente, tr.ocando o sentido da pergunta:

-

Ouintino, tem relógo ai. Faltam mil pra comprar um...
JOAO TOMa!

respondeu o poeta.

COMa saída de seu amigo do Governo do Ceará, Dr. João Tomé, andava Quintino muito triste. Chega um "serpista" e lhe diz:

-

Então, Ouintino, acabou-se o "café ~~~te:!_JApeAnedotasdo Quintino .

lido de João Tomé).

- Acabou.se,disse o poeta, e vocês, que não quiseram
tomar "café com leite", bebam, agora "café de Mangirioba amargoso. . ." (referia-se o poeta a Justiano de Serpa, que era bem moreno).
CAVALGADURA NUM ônibus em que viajava o poeta, todos os bancos estavam ocupados, e logo que o veículo iniciou sua marcha, entrou uma dona dessas bem gordas, de cara fechada e gestos bruscos. Vendo que não havia lugar e ninguém lhe oferecia um, exclamou em voz alta: Será possível que neste auto não tenha nem um "ca. valeiro"!! - ,Tem sim, o que está faltando é uma cavalgadura! Diz o poeta.

-

CINZAS. . . FALAVA~SE numa ocasião sobre político já falecido. Quintino adiantou-se e descreveu-lhe os erros com vários adjetivos. Nisto, alguém, que era seu parente, voltou-se para Quintino, dizendo: Quintino. você deve respeitar as cinzas de quem morre!... - Ladrão' não tem cinzas!

CADI: O POLDRINHO?

CERiA vez, quando voltava da Europa,onde observava que o chie era montar égua, o poeta resolveu lançar a moda no Ceará. Em Baturté, onde resida, ia ele todo garboso em sua equi. tação, quando de uma roda um e'ngraçado atreveu.se: - Cadê o poldrinho?!. . . . Sem perder um minuto, Quintino respondeu: - Aoompanhe-me, que ninguém mais me perguntará por ele.
QUANDO Quintino ficou viuvo pela segunda vez, pediu à
Da. Francisquinha Accetti, sua sogra, a cunhada Maria de
Anedotas do Quintino " Página 82

aUINTINO

DEPUTADO

Ouintino viveu êsses momentos de exaltação revoluciolIária. Estava no seu elemento. Sua popularici'ade era enorme. Com a deposição do Comendador Acioli da presidência do Estado, continuaram os atentados, violências e agitações de tôda espécie. Em 14 citejulho de 1912, toma posse no govêrno o Coronel Franco Rabelo, que por sua vez é deposto, dois anos t"epois. pelos rebeldes armados de Juazeiro do Pe. Cícero. época em que foi decretado o estado de sítio e em seguida a intervenção tederat, entregues os destinos do Geará ao Coronel Fernando Setembrino de Carvalho, Comandante da Região. _ Nêsse períoo'o crítico da vici'a cearense foi que Ouintino esteve na Assembléia Legislativa, lutando pelos interesses do povo e produzindo notáveis argumentações em tôrno dos tra' balhos apresentados pelos seus colgeas, além de contribuir com alguns outros de sua autoria. Não havia segurança contra os adversários, nem meios de confiar plenamente na suposta garantia da lei. Assim é que, em 8 de novembro de 1912. logo no início do govêno rabelista. foram os deputados agredidos a pedradas e dispersados, não obstante a ordem de "habeas corpus" do Supremo Tribunal e a presença de um contingente de fôrça do Exército (V. João Brígido - Ceará - Homens e Fatos, pág. 519).

EM UMA reunião de celebridade, no Rio de Janeiro, Ouintino disse que tinha nascido em Itapajé. no Ceará. - Oue pena! observou uma rica senhora paulista. -- Por que haveria o senhor de nascer lá? , - A razão é tão simples como a sua pergunta, minha senhora, replicou Ouintino. - Eu queria estar junto de minha mãe.. .

* Plautus Cunha

UMA vez, no júri, lembra o Dr. Irineo Filho, o promotor, sem conhecimento, fez uma acusação tola e demorada. Quintino pediu licença ao juiz, fez a acusação do réu e depois a defesa e ganhou a causa. . . VI MAS NÃO ACREDITO
CERTA ocasião, no Grêmio Literáro de Belém, trataram de socorrer um sócio enfermo. Sentado ao lado do Ouintino, sócio fundador da instituição literária, estava o comendador Filgueiredo, sócio riquíssimo mas inoapaz de dar um níquel de esmola. O tesoureiro, com uma bandeja, sai recolhendo os donativos. Todós depositaram seu óbulo. O solicitador, desconfiado. volta-se para o Figueiredo e este protestou. dizendo que já tinha dado. O tesoureiro então diz: - Acredito. mas não vi. E o Ouint;no trocadilhou: - Vi mas não acredito. . .
PROPRIEDADES

MUNDINHOMartins, de Canindé, que estudou com Quintino no Colégio do professor Anacleto~ em Baturité contava que um dia, durante uma aula de direitos individuais, dizendo que o cidadão não podia ser agredito dentro de sua propriedade. Quintino fazia travessuras. O professor Anacleto, com uma régua, partiu para disciplinar o aluno. Quintino correu, perseguido pelo mestre, no dormitório, trepou-se em cima de sua pequena mala de roupas e gritou: Alto lá, professor, estou em cima de minha propriedade.

-

BRIGA DE POETAS
CARLOS Gondim, poeta ge.nioso e violento. jurou um dia

que mataria o Ouintino, depois de procurar apunhalar o poeta no Café ..Art-Noveau" e ser posto a nocaute pela poderosa canhota do Ouintino, informou esse precioso amigo,cel. Francisco Bento, da Polícia Militar do Ceará. Ouintino foi contido em casa por seus filhos que queriam evitar uma tragédia. Gondim também desapareceu. Não saindo de casa para trabaPágina 84
Anedotas do Qulntino -.

Ihar, faltou-lhe recursos e o poeta saiu à rua, encontrando-se com o Dr. Meton de Alencar, que lhe diz, entregando-lhe um

revólver Smith Wesson", cabo de madrepérola:
U

-

'.

o poeta guardou a arma e entrando no

Quintino, ele anda aí, mate-o.

Bar Majestic an.

controü o 'inimigo desconsolado e sem coragem, que lhe diz: - Quintino, meu irmão poeta, perdoe o que andei dizendo. Vivo faminto, todos me evitam. Quintino diz: Há dias que -não saio de rcasa para ganhar dinheiro, nossos destinos são iguais. Abraçaram-se os poetas. Quintino, então, teve uma idéia heróica, dante da fome do, Uinimigo". Botou o revólver' no "prego" e comeram e beberam à vontade. Depois da comemoração, o poeta sai, encontra-se com Meton, que lhe pergunto, emocioné:ldo: Quintino, que houve na briga? E o poeta responde: O único sacrificado na luta foi o seu revól"~r.. .

-

-

COISA

IMPOSS.VEL

QUANDO Quintino esteve no Amazonas, dois poetas lhe privaram da intimidade: Taumaturgo Vaz, secretário da Intendência, e Artur Catingueira, capitão de polícia, que, numa oscilação do governo, perderam o emprego e o posto e ficaram "na mão", sem esperanças de reaveram seus cargos. Quintino, nessa época, produzia versos e mais versos, preparando seu livro "Pelo SoIimões". Certa vez, dois vares deram com Quitino num café. Um deles, o Taumaturgo Vaz, aproximou'se do' poeta e escreveu estes versos ferinos: Quando será que o Quintino deixará de fazer versos?! Quintino vendo a maneira irônica dos dois, respondeu assim: Responde-se na ocasião: Deus, não mandando o contrário, é quando um for capitão e o outro for secretário!

.I

fi

PlautusCunha'

..-

Pâgina

85

CAPIM VERDE
ADAUTO Fernandes, brilhante escritor cearense, anunciou ao Ouintino o lançamento de seu próximo livro com o título de "Terra Verde". Ouintino não perdeu tempo para fazer pilhéria, dizendo: - Adauto, se o seu livro vai ser engolido por estes ignorantes, você devia mudar o nome para "Capim Verde". .. NOIVA PAMPA

OS CRIADOHES no Ceará chamam o cavalo de duas core~ " pampo " . Certo amigo do poeta queria gabar-se de que sua noiva era muito bOfilta dizia ao poeta - Eu sou muito feliz, minha noiva é linda, olhos azuis, cabelos pretos e pele muito alva. Todos ficam deslumbrados

diante dela.

.-

-

-

Como foi 4ue você disse que ela é? Olhos azuis, cabelos negros e muito alva. . . E o poeta completou: Se é assim, meu caro amigo, como você pinta a estampa... Olho azul, cabelo negro, alva. . .a sua noiva é ..pampa "! FALE MAIS BAIXO

..

QUINTlNO fazia, no Teatro José de Alencar, uma conteferência sobre sua viagem à França. No teatro, completamente lotado, um gaiato gritou bem alto: Fale mais alto, que não se ouve nada!! Ao que prontamente respondeu o poeta: E você fale mais baixo!

-

STELA PAULA Ney, encontrando-se com Quintino, é sabedor de seu desgosto em ser forçado a acabar o namoro com Dona SteJa. de Sobral, desafiou-o assim:
Página 86
Anedot&s do Quintino ~.

Quintino, me diz agora, Como vai tua Stela? E o poeta, incontinenti, completou: Ney, por Nossa Senhora, Não fale no nome dela!

... .. .
Fortaleza, 06 de Outubro de 1984 Meu Caro Plautus Cunha Li o seu livro, não de um fôlego, mas calma e religiosamente, não só pelas boutades do seu conhecidissimo e ilustre pai Dr. QUINTINO CUNHA, cuja verve ainda hoje faz rir e pensar em tão fulgurante inteligência.. . . .. Mas falando sério, sua dedicação, seu amor filial não deixanao que se apague a chama divi. na que ilumina a alma do poeta. Fazendo as suas custas edições seguidas do livro "Anedotas do Quintino" sabe Deus com que sacrifício,' além dos seus poucos recursos financeiros. sua própria saúde comprometido com uma carga pesada de miopia. Você já fez. tuc)o que podia fazer para preservElr a memória de seu ilustre pai, entregue a um biógrafo de renome nacional. o resto da tareta, que será tacililada com os subsídios que você fornecerá. E o &mor construirá o resto para a eternidade. Que o Todo Poderoso lhe ilumine, guie e guarde. Um abraço fraternal do Luiz Crescêncio
* PJautus Cunha

Pereira

PálPla. 87

o

GATO E O CANÁRIO

Ouintino, quando esteve na Europa, foi a Paris, a cidade onde mais se demorou. Residia no terceiro apartamento do "Boulmiche". Uma francezita, linda filha do gerente de'sse hotel, de quando em vez procurava pilheriar com o nosso poeta. Certa manhã, quando ele contelílplava na janela do seu quarto, parte de um lindo trecho da cidade, ouviu uns griti nho nervosos lá em baixo. Com muito esforço, apertando os seus olhos de míope, ele pode distinguir no meio de dezenas de transeuntes, a figurinha esbelta da moça que dizia irônica: - "Venez, de bas en haut comme un oiseau!. . . " E o poeta respondeu: "Venez, de bas enhaut comme un oiseau!.. . " Imaginem os leitores que seria de um pássaro nas unhas de gato!...

-

CRÉDITO

ABALADO

c.erto dia, num leilão, o poeta conseguiu adquirir um relógio de parede. Levando-o para casa, onde, perante a esposa, fez preleção sobre as vantagens daquele marcador de tempo, acres centou: "Ainda mais fiz um grande negócio! Saiu-me ele por
1~$OOO! "

Alguns dias depois, no entanto, o Ouintino demorou-se um pouquinho na cidade, perdendo o último bonde. Chegando à casa, entrou muito devagar, para não inco' modar os que repousavam. Nesse momento, o seu precioso relógio dizia fanhoso que eram duas horas. A esposa do poeta, ,desperta, observanco (j seu tardio regresso .inusitado, apontou o pouco cordato mostrador. O OUintino, então, indignou-se com o instrumento, vasan. do assim toda a sua tnsteza: .. Minha filha, então você vai acreditar mais num troço que nos custou 15 mil réis do que na palavra do seu marido?!...

-

Página 88

Anedotas

do Quir.tino

..

o

QUE

É UM

SANTO?

... .
Logo que os padres jesuitas demonstraram suas simpatias peal cidade Óa Baturité, trouxeram da Europa uns vitrais de santos e colocaram nas janelas da igreja Matriz da cidade. Foi um sucesso pela manhã, do lado do solos santos brilhavam. Maximina levou o seu filho Ouinitno à igreja para ver a novidade. Dias depois na aula Óe catecismo o padre Manuel Cândido, perguntou ao Ouintino, menino de quatro anos. - Ouintino o que é um Santo? Ao que o futuro poeta respondeu logo:

-

São pessoas de vidro que com a luz do sol ficam

bonitas!

ESTAVA SEMPRE CERTO QUANDO Quintino Cunha era jovem advogado, defendeu uma vez dois casos no mesmo dia, perante o mesmo juiz. Ambos os casos envolviam o mesmo princípio legal. Mas em um deles Quintino falava em nome do queixoso e, no outro, em nome do acusado. Pela manhã fez uma eloquente defesa do queixoso e ganhou a causa. Durante a tarde, com a mesma eloquência, ele defendia o acusado e o juiz, sorrindo, pergun. tou.lhe por que razãa havia mudado de atitude. Senhor juiz, disse Quintino, "é possível que eu me tarde'"

·

Plautus Cunha.

Pã~ina 89

"QUINTINO CUNHA NO CONCEITO DE SEUS CONTEMPORANEOS " . (Da escritora Lourdith Cunha, filha do poeta)

1 9 O5 Este ano veio encontrar Quintino ainda no Amazonas. Parecia que uma força oculta o retinha naquela terra. Suas atividades eram múltiplas e variadas, mas sempre demonstrou o gôsto pelo trabalho de imprensa. No Rio, colaborara em "O País" e ..A Noticia" e agora. no Amazo_

nas, começara a exercer as funções de redator de .. O Comércio do Amazonas". de Manaus, assinando também crônicas socIais com pseudônimo de "TRIZ-_
LOURDITH

Aos poucos se refazia do golpe de sofrera com a morte dos dois entes mais caros. E voltava à forma o seu espírito rutilante. seu insuperável senso de humor, em nova frase de

...

seu viver irrequieto.

AQUI A DOR AMARGA DE SUA VIUVEZ VELHO NINHO

Deserto és, pobre ninho, e triste e antigo. Mal de penas, apenas habitado. Como um tristonho lar abandonado. Um lar, não sendo um sêr, mas sendo amigo. No tempo em que eras um risonho abrigo Aos afetos dos outros, fôste amado, Hoje, não! Nem se lembram do passado Os que son-iam por viver contigo!
~ãgina 90

Anedotasdo QuintiDo ·

DADOS

PARA

O

FUTURO BIÓGRAFO

Famílias de Quintino Cunha e seus três casamentos: 1.0 Matrimônio: 5 de Janeliro de 1895, em Guaramiranga com D. Ana Magalhães Carneiro. Ela com 18 e ele com .22 anos. Filhos: Osmar e Lourdith.

2.° Matrimônio: 17 de Julho de 1909, em 'Parangaba, com Dona Francisca Fialho Accetti, ela com 16 anos (feitos no dia anterior) e ele com 35 anos; Flilhos do casal: Virgininha Plautus - Cleant.oe lanê.

-

3.0 Matrimônio: em 8 de Outubro de 1917, em 'Cascavel, com Da. Tereza Pires de Araújo, ela com 19 anos de idade s ele com 43 anos. Filhos: Tais, Nelda, Elitel, Rosemari, Dalô,

Zir e Maria do Carmo.

.

PENSAMENTOS DE aUINTINO CUNHA As salas dos Tribunais são lojas: com efeito a dona do negócio, a Justiça, é sempre apresentada com a balança na mão.

" Plautus

Cunha

página

91

..

~ interessante, sab autra panta de vista, pracurar vis-

lumbrar, através da abra paética de Ouintina Cunha, a penmenta mais íntima da paeta, os princípias marais au filasóficas que a animavam, a que jamais se paderia fazer através da farta anedatária, sátiras, epigramas, quadras, de ":juesua vida na Ceará, fai fértil. U em Pela Salimões" frequentemente surpreendemas Já a paeta que acredita em Deus e na virtude e na patriatisma, sentindO' a amandO' da farma cama esses sentimentas faram expressa em quase tada a fase ramântica na Brasil. Nada há aí de imprevista e nãO' nas deixamas admirar quandO' lemas: ..Há, algumas vezes, um tam alta, quase épica, em muitas das seus paemas, e IstO'faz na livra um contraste agradável cam a simplicidade desativada da maiaria de suas paesias de amar, que a amar valta cam a insistência de refrãO'em quase tada a abra. A Pátria é a munda?! Mentira. Nem a Amar tal me canvença Se tal fôra a nassa crença O mundO' eu nãO' preferia. A Pátria que entenda e chama, É a canta abscura que ama, Que me prende e me seduz; Assim, nãO' sau de;> UniversO', Que a minha Pálria é a meu berçO', Meu berçO'- a Terra da Luz".
..

"Lango seria, neste passa, citar as versas ande a paeta estampa a sua crença em Deus, a sua fé nas virtudes simples e tradicianais, a sua canflança na bandade humana, se bem que tais sentimentas em Ouintina revistam, cares antes de um panteisma lírica da que de um cristianismO' lúcida".
.. Eu sempre vi a Céu cama um prólaga à Natureza... sempre vi a Juv,entude cama um prólaga à Vida" - escreve, à guisa da prólaga, a paeta. ..Assim campreendi dais Céus: um que é da hamem que pertence à Vida, e a autra, da vida que pertence aO' Hamem. Dai fai que me nasceu a lembrança de dar um firmamenta, à guisa de prólaga às minhas litanias amazônicas; e esse firmamenta é a retrata fiel da minha ada. lescência literária".

Página 92

Anedotasdo Quintino ·

SOCORROS

URGENTES

(Minha Vida de Menino com Papai Ouintlno) Chegou certo tempo em Lages, um médico pernambucano, morrido em suas mãos, dois á.Jentes em quinze dias. chamado Dr. Cirílo, trajava sempre roupa preta e já tinham Na porta cie sua casa tinha uma placa: SOCORROS URGENTES Papai Ouintino, adoeceu de reumatismo e ficou preso no leito. enquanto não se arranjava uma muleta. Manciaram que eu fosse chamar o Dr. Cirílo, protestei que não ia. - Por que não vai? Perguntou Didi. - Por que ele só anda vestido de preto. Aí o Papai Ouintino deu uma risada gostosa. Depois eu arranjei este versinho: Doutor de Socorros Urgentes" Pra não perÓer um minuto Vai visitar os doentes Logo vestido de luto!...

.

P. C.

* Plautus Cunha

Pâgina

93

IANE
..

ACCEnl

.CUNHA cielos dejandonos

Nuestra Dulce Madre, alou-se aios

ninitos" (Evita Peron). Quando papai Quintino chegava d? Praça, todo de preto, cabeleira de prata, frondosa e bela. Saudava a mais novinha como os rndios do Solimões: - lanê Cuêma - lanê Caroka - lanê Pituna e dizia que o nome dela - lanê. Queria dizer: Bom dia - Boa tarde e Boa noite. Ela tinha um ano e meio. Num desenho que fiz de memoria de minha querida irmã, lanê, que foi sempre minha incentivadora permanente em todas edições que publiquei dos repentes e anedotas do nosso querido pai. Quintino Cunha, rogo a Deus que a tenha entre os anjos. Seu falecimento em Recife em 1975, nos deixou muita falta. lanê gostava muito de adivinhações populares, uma que não posso esquecer e de duas moças numa janela, vem sé aproximando dois homens, elas dizem:

I,., .. lAwi

f\tc.e'1~'1CONftt

Mana lá vem nossos pais, maridos, de nossas mães, pais. de nossos filhos, nossos maridos são... Resposta dois viuvos, casaram cada um com a filha do outro. Como disse, lanê gostava muito de adivinhações e adivinhava sempre as necessidades dos seus pobres e tmha mãos prodigas para todos; Uma fisionomia muito linda e um sorriso que ninguém esquece. Seu esposo, Artur Mensch, alemão de nascimento, faleceu também dois meses d&POIS,que lanê "como los angeles se alou hasta" el cielo".

"Vencido ou vencedor, terás a perpetuidade no meu coração". (Trecho de uma carta de Quintino Cunha ao seu filho Plautus Cunha)
Pág!n.~94':.. ' . . 0'0 Anedotas do Quintino *

MÉDICOS DE OLHOS Um popular perguntava ao Ouintlno se ele conhecia aque. le médico de olhos (tencionava uma consulta grátis com o Dr. Meton de Alencar) ao que o poeta respondeu: - Conheço de vistas.. .
CACHORRINHAS

e disse:

Atravessando a Rua o poeta caminhava pela calçada do antigo Forum e passou entre duas moçlnhas que conversavam

Vou passar aqui no meio destas duas cachorrinhas. As mocinhas se ofenderam com o insulto e o pai de uma pediu saUsfações ao Oulntino, Ele então mostra duas cachorrinhas fox-terrle . que o Edlbel'to Gols, tinha lhe presenteadono Café Globo e levava lima de cada lado.

-

'

.

.

SAPATOS FURADOS Em Lagas, hoje Acoplara, o Boaven~ura do MateUt~, ra. paz um tanto Ingenuo, também vivia lá por Cé1S0 s:,>mpreque podia, era um destas pessoas simples e sem maldade uma espécie de Manezlnho 'do Bispo, lá de Afonso Pena. Vendo o Oulntino usar sapatos furados por amor aos calos. Pediu:' - Dr, me dê estes sapatos prá eu botar água? Não servem Boaventura. não servem porque são fu. I'ados. ., Respondeu o poeta,

-

ARMANDO COM FLORES
Armando Sales e Flôres da Cunha faziam propaganda po. lítlca pela democracia contra Vargas, Ouintlno os apoiava, O poeta foi chamado a Recife para receber Batista Luza"do outro poUtlco gaucho, contrário a Vargas, No Ceará esperava-se Al'mando Sales e Flores da Cunha. E o Qulntlno respodeu ao chamadode Recife com este trocadilho genial, - Aqüf' fico armando com flores o braço da democracia...

" Pluutus Cunha

CHAMADO A DEFENDER UM RÉU NO INTERIOR

Ouintino foi e deixou-se absorver pela vida plácida e serena dos sertões, onde as fogueiras de S. João e o perfume anestesiante dos mangeromes lembram viços de cabocla bonita. A floração virente das matas, o vôo inquieto de asas riscando ao céus escampos em procura do azul infinito, as lagoas serenas, os riachos murmurejantes, a alegria dos ninhos, tudo que constitui, afinal, a vida dos campos penetrou e seduziu a ahr.a do poeta, prendendo-a aos encantos da terra. Afastá-Ia dali é matá-Ia num desencanto de saudade que sera uma amargura para a sensibilidade artística de Ouintino. Ouintino é um simples, uma criatura feita de sonhos e de renúncias. Outro dia, um negócio de família aqui na capital obrigou Ouintino a vir até nós. A viagem de trem, no Ceará, é uma coisa enfandonha, quase martirizante. O poeta vinha fatigado, com os pés machucados em batinas grosseiras, feitas na cadeia da localidade. Ouintino nunca foi homem para se apertar com pequenas coisas. Os pés estavam a doer e o poeta arrancou as botas, pondoas em cima da cadeira vizinha. Em Pacatuba, entrou no comboio o Dr. Otávio Campelo, conhecido advogado em nosso meio, homem educado e fino, cheio de preconceitos sociais. Ao ver Ouintino, filosóficamente, cam os pés nus sóbre o banco do trem, revoltou-se: - Você,Q,:!int1.no, é um homem sem compostura. Como é que você não se acanha de tirar os sapatos no trem! Você assim pr,acedendo, envergonha nossa classe. . . - É,Otávio. . . - disse o poeta,sem tirar os olhos dos pés magros - Eu envergonho s classe com os pés; em contrapartida, você o faz com a cabeça!. . .

.

Página

96

Anedotas

dó Quintino

*

U

Certa ocasião, o poeta Djalma Viana, estando em casa

do Coletor Federal, Virgí/io Barbosa, avistando o repentista, que se dirigia para lá, preparou-se para saudá-Io:
U

Sr. Dr. Quintino Cunha

A lira que me pertence Saúda-o, dando-lhe a alcunha De Patativa Cearense.
U

A resposta veio. imediata: UE eu quero que você pense Que pode me dar alcunha Eu sou o Quintino Cunha

Um máu poeta cearense!...

U

U

Havia em Quixerambodim um barbeiro, conhecido por

Cardovão, e célebre pela cegueira quase fatal das suas navalhas. .. Um dia, quando o poeta acabava de ser supliciado e se dispunha a deixar a barbearia, ouviu o U Figaro" lhe pedir. . . u_ Doutor, me dê um nome para a minha barbearia...
U

queixo, que ainda lhe ardia, respondeu: U Bote o nome de. .. Patíbulo.

_

O poeta não se fez de rogado. Passando a mão pelo

«

Plautus Cunha

Autor do pensamento - "No Ceará, o sujei to nasce na Fé, cria-se na Esperança e morre na Caridade", o poeta, a meu pedido, versiticou:

o Cearense, em criança, nasce na Fé, c-omverdade, Cresce e vive na Esperança. . . e morre na Caridade!
AOS quatorze anos, em Baturité, Quintino publicava os seus primeiros versos. Nos enterros de indigentes, nos transportes de feridos, bêbados ou doentes usavam-se rêdes, naqueles tempos. E foi num ..cromo" que registrou a cena que vira na es. trada: Por um rancho aonde está

reunida muita gente, passa uma rêde... e se sente
que coisa de novo há. Um molecote de lá. do rancho, tomando a frente, pergunta, curiosamente, aos carregantes: - "Olá!...

Vai morto ou vivo"? - E o doente,
que vinha, pela aguardente, toldado de cabo a rabo, Bota a cabeça e responde: Ergue o lençol que o esconde -" Vai e bebo como o diabo!"
Página 98

Anedotas do Quintino

..

o

MENTIROSO E O IGNORANTE

o mentiroso é consciente da mentira que êle expiora. Mas o ignorante ignora, ignora o que fizer... De onde supunho, com acêrto. ser natural que prefiras um soltador de mentiras a um ignorante qualquer. . .
..

No Colégio do professor Anacléto, em Fortaleza Quintino

e Meton de Alencar, eram colegas de classe. Meton guardou esta passagem do poeta, Quintino escreveu certa vez no quadro negro, antes da aula de Português: Na oração da vida, a mulher, sem função relativa. é um simples adjunto adverbial de tempo. . .

-

A TRIBUNA Fortaleza, mantinha, com pontualidade,uma de seção de EfemérlidesNacionais. Pela manhã de 5 de novembro de 1921, o Quintino,redator daquele jornal-,perguntou, à guisa de assunto, quais os fatos do dia. - Não sabe, poeta, as efemérides de hoje? - Nãoas recordo. . . - Ouça-as, então: assassino do marechal Bittencourt, aniversário de Rui Barbosa e promulgação da Constituição do Ceará.. . Comentou o humorista: - Isso é mesmo que uma virtude entre dois crimes. . .

" Plautus Cunha

Pápna

99

o ESCUDO DO INSUBORNÁVEL (1920)

É João Jacques; o magistral articulista de "O Povo", que vai prestar o primeirodepoimento'sôbre um dos fatos mais admiráveis da vida profissional de Ouintino na redação do jornal e relembra as seguintes palavras do poeta: - Não tenho nada neste mundo, seu Jacques, e ando agora assim curtindo horas amargas, porque nunca sujei minhas mãos com dinheiros. De ouro, só .possuo em casa os meninos, a esposa, os passarinhos e uma relíquia para a qual eu olho com orgulho e na c:jl:lalencontro fôrças para a minha velhice. Presente de alguns amigos. Ouro de lei e da lei. Rejeitei., para 'consegui-Ia, dez contos de réis. Olívio Câmara que o ateste..." "As últimas palavras explicativas de Ouintino se confundiam com o pranto que lhe jorrava das pálpebras, numa mágua imensa contra a vida, numa queixa dolorosa contra os homens. REVOLUÇÃO DE 30 E S~CA DE 32

A revolução vitorosa de 30 veio encontrar o denodado Ouintno a postos na campanha pela democracia. Socialista no mais alto sentido da expressão, sua bandera foi sempre a das reivindicações do povo. Enaltecendo os postulados dos revolucionários, êle que nunca suportou viver às escuras, escreveu o" Memorial de 30", do qual citamos a seguir alguns versos, com o objetivo também de arrançar-Ihe, de uma por tôdas, essa ridículo roupagem comooista com que o quiseram cobrir cepois de morto:
"Agora vêm os chefetes dos vencidos falando às masas para serem criados, que o comunismo aí vem aos trambulhões para nos dar as últimas lições... E mil uotras patranhas, no arremedo dos que não podem mais subir tão cêdo" . E, ainda:

Anedotas do Quintino

*

"A morte vil do grande João pessôa pôs na fronte da Pátria uma corôa, feita das rosas rubras da Vingança, com a aparência do Arco da Aliança! "E estimula: C cer~o é desfrutal"mos o confôrto de um morto vivo, contra um vivo morto.. Na verdade, há dois males de parelha. na vanguarda da flãmula vermelha: um. é o zêlo excessivo pela causa, o outro é a vindita sôfrega, sem pausa. A nossa granúe cura está traçada: Nada de seleção prec.pitada; que o tempo aí vem, sentencioso e mudo,.. fazendo, calmo, a correção em tudo. Agora , os grandes da Revolução queiram fazer o bem, senão... senão"! Meses depois, já em 1931, no dia 17 de setembro, nasc:alhe o primeiro neto, filho de seu primogênito Osmer. que lhe lhe participara por telegrama o feliz acontecimento. Tão sincero e profundo foi o júbilo do poeta que, imediatamente, pôs-se a trabalhar para arranjar uma nomeação para o filho na Coletoda de Afonso Pena, o que efetivamente realizou. Seu intuito . d.e ter perto de si o netinho Luiz Eduardo. Sua nora, Honorina,
.

vinéulada à família por ser prima do marido de Princesa, foi recebida com grande solicitude por Quintino. Mas, Csmar não demoroll no exerclco do cargo - ele voltou ao exército, como tenente comissionado, fazendo parte do batalhão daqueles valorosos soldados na campanha do Flôres, e depois em São Paulo, nas hostes legalistas, onde contraiu a molestia Que em 1946 o vítimou. ~~-.
-.fI.. 'Plautus Cunha

A RESPEITO Meio Viana e de Borges de Medeiros, ambos de acoimados transfugas do movimento aliancista-liberal, outro sonêto do Ouintino foi igualmente publicado: SAFRA DE JUDAS

Judas era, no tempo da realeza heródica, um mortal de estirte rara. No Apostolado de Jesus formara sem ter da sorte a mínima certeza. Assim predestinado, com a surprêsa do mal, vende a Jesus. Mas teve a rara virtude do arrependimento para dar-se à morte, punindo a vil fraqueza. Entretanto, na língua dêste povo, todo dia aparece um Judas nôvo, sem Jesus Cristo e sem trinta dinheiros.. . Mas um Judas que ao próprio Deus enga!1a! Não é assim, hem, Doutor Meio Viana? Não acha, Doutor Borges de Medeiros?

OFERTÓRIO: A Natureza amiga das pinturas, que, do nosso viver, são minaturas oferece êste quadro pastoriil a quarenta milhões de criaturas

-

-

A HUMANIDADE, até hoje, não se libertou de duas despesas fatais: a do nascimento e a do entêrro. E o Ouintino, que em tudo metia o bedelho, comentou: No drama da nossa vida, há esta coisa engraçada: quem o quer ver, paga entrada. quem não o quer, paga saída...
Página 102

Anedotas

do Quintino

*

NÓS NO CEARÁ SÓ RECEBEMOS. . .

.**

***

NUMA roda de boêmia, aí por volta de 1898, no Rio, da qual faziam parte Guimarães Passos, Emílio de Menezes, Paulr Nei e Quintino Cunha, falava-se sôbre o Ceará. Guimarães Passos achou o assunto enfandonho. E propôs, sem se aperc8ber que estava na presença de dois cabeçaschatas: - Vamos mudar de conversa. Falemos de coisas grandes! O Ceará é muito pequenino. . . Paula Nei não se conteve. E, com aspereza repeliu: - Tão grande é o Ceará, como pequeninos são os que o desmerecem! - Emílio de Menezes, temendo piores conseqüências, PIIheriou: - Mas o diabo é que a gente, quando desce lá, tem de primeiro tomar um banho!. . . Emílio, evidentemente, aludia ao desconfôrto do desembarque em Fortaleza, naqueles recuados tempos da famosa
..

Ponte Metálica".

E Quintino, que, havia pouco, tinha sido apresentado aos dois sulistas, pelo cearense Paula Nei, não se contêve" - Isso é verdade!. .. Nós, no Ceará, só recebemos hóspedes lavados!...

NO Café Art.Nouveau de Fortaleza, Antônio Furtado, professor de Direito e intelectual dos mais festejados do Ceará, quis medir os dotes repentistas do Quintino:

-

Poeta, você seria capaz de dar três erros numa palavra

sem que ela deixasse de ser compreendida?

- Conforme a "cerconstança". . .
· Plautus Cunha
Página 103

o TEATRÓLOGORenato Viana, amigo e companheiro do Ouintino nos dias que antecederam a revolução de 1930, nQ Ceará, escreveu, prefaceando um dos meus livros:
..

De OuinUno Cunha não seria exagêro dizer-se aquilo

mesmo que se disse de Oscar Wilde: - Que a sua maior a mais bela obra é aquela que êle não escreveu. Ninguém mas ignora que o maravilhoso cnador de Dorian Gray foi um causeur genial. (Renato Sóldon) NA SEÇÃO Diáriias, que mantinha no "Jornal do Comércio" Manaus, assinando-se "Triz", Ouintmo felicitou, poeticamente, o seu amigo e conterrâneo dr. Carlos Studart, então Prefeito da Capital, e autor da fórmula do vitorioso" Leite Colônia", por motivo do seu aniversário: Meu 'aro 'arl'os, 'uero, 'om esta 'uadra 'ue fiz, 'umprimentá-Io. Des'ulpe. Do 'olega e amigo - Triz. Mas para prevenir os leitores da tal quadra, isso porque o natalíciante, gago, combatia oes "c" e "q", Oui,ntino após ~sta advertência, em grifo: "Os apóstrofos devem ter o som de
hk" chumpado...

Página

104

Anedotasdo Quintino ·

EM MEIO de forte discussão num júri, em Belém, o Dr. Batista Moreira, promotor de Justiça, disse, replicando umas insinuações que o advogado-poeta lhe fizera: - Eu não preciso mais aprender! Eu não preciso mais aprender! Ouintino, sem perder o fio da meada, engendrou um fato histórico, visando a confundir o seu opositor: - Chocampton VII desabaratou, nos montes Geblaufs, setenta mil Sándeus. Atravessou a Etiópia, a Líbia e parte da Mesopotânia. .. Depois dos louros dessa conquista, voltando à casa, encontrou a morte que lhe dera a espôsa, porque dizia ela: - "Espírito, como o de tão afortunado Rei, não devia continuar materalizado!". A essa capciosa invencionice do Ouintino, o Dr. Batist3 Moreira retrucou: - Nobre advogado, pedôe-me a ignorância: sou também professor de História há mais de dez anos, e nunca, em livro algum. vi essa passagem... - Há poucos V. Exc. dizia que era professor de História, há dez anos e que não precisava aprender nada comigo! Pois estude como eu, que não estou aqui para lhe dá lição de graça. . . RECÉM-CHEGADOdo Rio, para ocupar destacado cargo federal em Fortaleza. o dr. Alberto Franco Moreira, orador eloqüente e jornalista. teve oportunidade de indagar ao poeta como iam as coisas políticas no Ceará, desejando saber de que lado sopravam os ventos... - Aqui, colega - explicou o Ouintino - não há própriamente partidos políticos. Há legiões, pequenas famílias morando parede-e-meia. o. Como vizinhos, brigam por c:ma do muro. no quintal, e vão abraar-se na porta da rua... O único partido, realmente sólido, é o Presidente do Estado... - É uma amálgama. o. - atalhei. - Mas forma um todo filarmônica? - indagou o visitante. - Não! - Retrucou Ouintino - filam harmônicamente. . .
Plautus Cunha

Página

105

ITAPAJÉ, PÁTRIA DE OUINTlNO

CUNHA

Meton de Alencar

JOSÉ Quintino da Cunha nasceu como águias, no cimo das cordilheiras, no ano de 1875, aos 24 de julho em São Francisco de Uruburetama, Estado do Ceará. Vira ali naquela região ubérrima os primeiros lampejos de sol ardente e vivificante que, ao amanhecer daquele dia festivo. quebrava as brumas com que se vestira a serrania, onde nuvens espessas, diluidas em múltiplas espirais de fumo. irrisadas a se elevarem aos céus, em capricrosas volutas, vo. lu~asque em mística saudação ao naciturno, como lufadas daquele gigantesco turibulo, se partissem perfumando o vasto ambiente. Foram seus pais o conhecido latinista João Quinti no Cunha e a distinta e ilustrada professora pública em Baturité, Dona Maria Maximina Ferreira Gomes, estimadíssima de toda aquela gente pelos belos dotes de espírito que sobe javam. Sobrevivera esta ao marido muitos anos e, com adml' rável estoicismo e invulgar enesgia, educara os filhos órfãos pequeninos, sem emprego da pobreza digna em que sempre vivera. Foi uma heroina; lutou até os últimos dias de sua vida. Faleceu em Fortaleza, à Rua Padre Mororó, 215, no dia 23 de agos~o de 1923. Houve do casal mais dois filhos: João Quintino, poeta d~ muita verve e humorismo e músico inspirado, que falecera em plena mocidade, e Dona Maria Virgínia, senhora de grande clutura e inteligência esclarecida, professora de francês. esposa do' contabilista cearense, Manoel Albuquerque Soldon.
Página 106
Anedotas do Quintino *

GONÇALINHO

ERA o Gonçalinho, em Afonso Pena, no Ceará, um pobre homem que vivia da caridade pública, sozinho no mundo, sem E:ira nem beira. Ao morrer, encheu de tlijsteza a pouplação da cidade. E o Quintino, que sempre o ajudava, comentou-lhe a desventurada história: o pobe do Gonça1inho. Todo amor, todo inocência, Envelheceu na indigência, Por falta de proteção, Andando continuamente Da igreja para a cidade, $em lar, sem luz, sem pão! Vivenpo na terra a esmo!. . . A humaniadde é assim mesmo!!! Depois do mísero morto, Muita gente entristecida, Chorou-lhe a falta da vida, Num instante escarcéu, Havendo até quem dissesse Com os olhos de pranto, Que Gonçalinho era um santo, Que iria direto ao céu. . . Vida cativa, alma forra. Quem quiser ser bom que morra!!!
* Plautus Cunha Pá~lna 187

QUINTINO CUNHA

-

O HOMEM DO POVO

Renato Soldon A consagração nacional de OUINTINO CUNHA, como poeta e or.ador, fez-se acompanhada, sempre, das facetas de humorista do melhor quilate e revolucionário no sentido humanístco da palavra. Em OUINTINO, a poesia, a oratória, o "humor" e a rebeldia, eram o intrínseco da sua psiché, o código de honra e a própria razão de ser da sua existência. Orador dos mais completos que tenho conhecido até hoje a sua palavra cheia de fulgor e de coragem, só se articulava em defesa dos fracos contra os opressores de todos os matizes.

Humorista que podia formar ao lado de Rivarol, Chamfort, Bernard Shaw, Ouevedo e Aurelien Scholl, as suas "bou. tades ,. tinham o sabor delicioso dos frutos amaC:'urecidos,sem travo nem azedume. Não era, nunca foi, o fabricante de pornografia, nem tão pouco o canalha bifão das piadas repelentes. Evolucionista a seu moÔo, sem chefe e sem partido, era humanista e utópico ao mesmo tempo. Conhecia os clássicos revolucionários, de Epicuro a Lenine, passando por Cristo e Karl Marx... Aplaudia-os, corajosa e insubmissamente. E fazia, com a mais prodigiosa versatilidade intelectual, a triagem nos princípios de cada doutrina repudiando tudo quanto vislumbrasse opressão, quer no plano material, quer no espiritual. A sua vida toda, da mocidade à velhice, foi de luta franca e aberta contra os filibusteios e os tiranos. OUINTINO CUNHA fixou..se na memória do povo nordestino como intimorato glau'iador do Bem contra as forças do mal.

(Do Livro Página 108

-

"Quintino Cunha no ceito de

seus contemporâneos")
Anedotas do Quintino ·

CEGO ADERALDO LOUVA O
JS".

QUINTINO

~~

Em Lages. hoje Acopiara. o inspirado poeta cantador. Cego Aderaldo, em 1924 na casa do Prefeito Celso Castro, fez esse improviso ao Dr. Ouintino Cunha. Afinou a rabequinha fi mandou:

Ouintino nunca exigiu Dinheiro de preso pobre Foi Deus quem deu a ele Esse pensamento nobre.

Só de uma vez no Pará Botou onze presos na rua Não perguntou quanto dá? Tudo foi por conta sua.

Os presos se cotizaram Compraram um anel de d'Outor E colocaram em Ouintino No seu dedo indicador.
..

Plautus

Cunha

Pá~ina

109

" Dicionário
da Literatura Cearense"
Do Escritor
Ra imundo Girão

CUNHA (PLAUTUS) Filho do festejado poeta e repentista José Ouintino da Cunha e Francisca Accetti Cunha, nasceu no dia 15 de março de 1922, em Fortaleza, em cujo Colégio São Luís, dirigido pelo profo Francisco de Meneses Pimentel, fez o primário, indo cursar o ginasial no Colégio Anglo-Brasileiro,
o

Escrivão de Coletoria Federal, Controlador de Rendas Federais, Auditor Fiscal do Tesouro Nacional. English Teacher da Louisiana State University, dos Estados Unidos e do IBEU. Colaborador de "Unitário", "Correio do Ceará" e "O Estado", de Fortaleza; e do "Jornal de Jundiaí", de São Paulo, de 1964 a 1965. Pertence ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo. Já publicou: "Anedotas d'O,Ouintino", com 20 edições, de 1951 a 1981; "Massacre" (histórico religioso), 2a. edição, 1957; "Obra Prima de Literatura de Cordel", 1983; "Ceará Moleque", "Ceará Gaiato", "Ceará AI'egre", seis edições, 1958-1960; "Flagrantes da Vida Genial de Ouintino Cunha", 2a. eCÍ'ição,1985. Em preparo "Cabra da Peste", em homenagem ao Instituto Histórico do Ceará.
Pagina' 110 Anedotas do Quintino ·

Rio de Janeiro Diplomado em Farmácia, compondo a Turma diplomada em 15 de abril de 1968 Possui Diplomadto DASP
o o o

MERITISSIMO

-

EXECELENT'SSIMOI

Este caso se reveste de uma estranha comparação. Qulntlno foi aóvogado em Sobral em 1919. de um sapateiro que todos os dias ouvia de um Implacavelinimigo,o Insultuoso e feio nome de corno. Dia após dia esse sujeito passava na porta de seu quarto de trabalho e mandava-lheo nome bem alto. S6 por que a mulher do sapateiro o tinha abandonado, fugindo com outro. Depois c;'a20 anos ele abateu, o Inimigo, estava sendo Julgado. O promotor fez uma carga tremenda contra o réu. O Juiz deu a palavra ao Qulntlno ele e entrou firme:
'

ExcelentíssornoSenhor Juiz. Nobre órgão da',Justiça Pública.- Honradoscorpo de jurados. Tomouum pouco,~gua e continuou Merltrsslmo, Excelentrsslmo, Nobre ,Promotor, Excelentrssimo,Merltfsslmo,fez uma pausa e continuou:-, ,Ex' celentísSimo, Merltrsslmo,honrado.digno sábio, fez outra pau sa. e mandou mais Merltrsslmos era só o que dizia, aquilo era zombar demais, um zum, zum. pelo lado do,Juiz e do,:Promotol" e 00 outro aÓI/ogado dos jurados também estavam todos ree voltados. com aqueles excelentrssimo, que não saiam,disso. Todosse levantaramcontra o poeta e o Juiz bradou: Par,ece, m u louco, só diz Issol Vou mandar a guarda lhe botal' para ,fora,

-

-

você não é advogado!

muitu bem aos senhores por meia hora somente. ,toC:'.:>s re. se voltaram contra mim e agol'a reflitam. este pobre homem honrado pelo seu trabalho, era chamado diariamente de corno, pelo seu inimigo há vinte anosI O resto foi fácil e o réu foi absol. vida por muitos votos.
* Plantas Cunha

-

Vejam senhores. eu estou trat~ndo

o

SAPO

SALVADOR

De uma feita, Quintino tecia varanda, sentado num sofá junto à janela. Subito, na rua uma algazarra o atrái. Era a momento.

lecada acompanhando um palhaço . Óe circo, montado num ju-

o Cazuza não pode resistir: atira o trabalho ,e prepara-se para saltar a janela. Mas no mesmo momento, ouve os pas. sos da professora e volta. Cái deajustadamente sôbre o sofá e a agulha se introduz no seu joelho, quebrando-se. 'Solta um grito agudo e é socorrido pela mãe, que não consegue retira o pedaço de ferro. Dai veio sua primeira enfermi.dade grave. Foi acometido de febre alta., sinal de perigosa infecção. A professora, sem recursos,. custou a levá-Io ao médico, e este afinal desenganou o menino. I: aí que surge em cena um caboclo velho, pai de uma sua Óescípula antiga, que se propôe a ensinar uma MI:IZINHA para curar o Cazuza. Por mais incrível que pareça a quem de perto privou com Da. Maximina, ela acede e assiste o bom homem abrir um sapo vivo e colocá-Ia, estremecendo ainda, sôbre o joelho edemaciado do menin.o. Dentro de 12 horas o corpo do bicho entra em decomposição e, ao ser retirado, trás consigo o pedaço Óe agulha, junto com grande quantidade de pús. Estava salvo o Cazuza. Naquela éppca não se falava em sôro de cavalo nem se pensava em ailtibióticos, usava-se era mesmo PICUMÃe sapo vivo, nos cortes e inflamações. Andou ainda de muleta por muitos meses. Até que certo dia fuginÓo de um touro bravio, ao tentar pular uma cerca sentiu um estálo no joelho e desandou a correr, desprezando as~irn o uso da muleta. Milagres do mêdo!
Página 112
Anedotas do Quintino *

(Continuação

da Página

90)

Céde ninho, à tristeza. Na floresta Da nossa vida há também muita desta Dor, a que, por saudade, te condenas: Pois, como tu és, em nossa natureza, Há corações magoados de tristezas, Esvaziados de amor,' cheios de penas! PROFEssonTElES DA CRUZ (Conferência proferida a 16 de Março de 1944), em homenagem póstuma da CASA JUVENAL GALENO ao saudoso poeta cearense).

. Sente-se, não raro, que em momentos de inspiração, a composição poética se apura sob sua pena em rítmo fácil e ductil. Veja-se o começo desta poesia:
.Vêde a Aldeia: Uns casebres uniformes, De uma siimplicidade encantadora, Casebres naturais, emparelhados De caranãs, de ubis e de paxiúbas, De urucuris ou de uauassús cobertas, Muitas vezes de táipa simplesmente. Com a cobertura hermética de zinco! Nessas modestas moradias nascem, r.rescem, vivem, progridem, morrem, .passam Proles imensas de caboclos simples Mal diferentes dos que vestem tanga, Que o vestuário só de abril conhecem H! . Aldeia, ó maga filha da floresta, Dá-me o teu tauári cheio de diamba Que em tua crença é a chama da poesia! Acende-o e dá-mo, que procuro há muito Inspiração com que te endeuse em versos, Que me não falta amor para querer-te"!

·

Plautus

Cunha

Página

113

A

ÉGUA DO

MEU

VOTO

o ADVOGADO cearense Francisco Prado, depois de longq permanência em Minas Gerais, veio ao Ceará, canclidatandose à deputação federal. Convencido, já em tão recuada época, dos efeitos publicitários na política, o candidato não se es-

queceu de trazer de lá vistosos cartazes litografados, enchendo com êles as paredes da capital e de outras cidades do interior. Eram, ainda recordo, aspectos rurais, com gado pastando,

vegetação luxuriante, muita água, tudo, enfim, que punha
eleitor cearense em atitude contemplativa.

G

Mas o Quintino, que anteviu o malõgro eleitoral do cand!dato, escreveu, num dos policrõmicos cartazes, esta zombaria:

-

A égua do meu voto não corre nesse prado R. S.

HORIZONTES

OUTRA do poeta: pastor pro:estante

Encontrando-se com Natanael Cortez,

que se dirigia ao culto, diz Ouintino:

-

Vamos ao Bar Politeama? Não, responde o pastor, apontando com o braço diE eu, diz Ouitino, vou para o I~do oposto. . .
Anedotas do Quintino *

-

reito o templo protestante, vou para o meu apostolado.

Página. 114

MANDE

A CARNE

Em Guaramiranga, anos atrás, Quintino pediu um cavalo emprestado a seu amigo Alfredo Dutra. Este lhe enviara um animal tão magro que parecia mais um esqueleto. O prestimoso cidadão, porém, mandou-Ih~ uma aJoimária que parecia ter passado estoicamente dez anos de sêca, pilhéria que o Quintino retrucou no bilhete: Alfredinho. Recebi os ossos do cavalo que você mandou. Peço enviar a carne".

.

EPEMERDINA

WILSON G'ondim, meu antigo companheiro de viagens pela zona sul do Estado, contou-me que o farmacêutico floy Fernandes da Costa havi~ pedido ao QUtntinoque lhe fizesse uma quadra para propaganda de sua fórmula da discutida pomada Epedermina, que foi tema de gozação em Fortaleza muito tempo. O poeta fez esta jóia:
A Epedermina. " Pum!!! De Eloy Femandes da Costa Põe um frescol de bosta No rosto de qualquer um. . .

Q. C.
* Plautus Cunha

Página ~15

"ANEDOTAS' DO QUINTINO" 12a. Edição

- O jornalista Plautus Cunha presta comovida homenagem ao pai famoso, Ouintino Cunha, .reunindo em volume alentado um belo rol de anedotas do poeta, do inesquecível repentista ceare.nse Além áas anedotas, muitas inéditas, de conhecimento restrito, o livro contém quádras, sonêtos, o imortal poema .. Encontro das Águas", uma carta do Ouintino ao seu filho Plautus,um substancial prefácio de Raimundo Girão e a genealogia do grande humorista que vive ao coração da terra alencarina.
_

Plautus Cuilha herdou do pai a verve, e para melhor comprovação, pespegou ao livro das ..Anedotas Óo Ouintino" o seu ..Ceará Gaiato", onde faz um levantamento honesto dos nssos melhores repentistas e trovadores do passado. Plautus tem, em verdade, bossa para o ofício, não fôra elesangue das veias de Ouintino - plasma positivo, pronto a ser xecaáo e à toda prova. Minha admiração por Ouintino Cunha não vem de hoje. Sempre admirei nele a boa poesia de .. Pelo Solimões" sua integridade moral sua filosofia de, vida existencial (não confundir esta filosofia com vida vivencial). Ele não viveu ~enas cumprincio sua destinação Óa homem e de poeta. Mas participou da vida em seus lances dramáticos e conflitantes. E é isso que faz de Ouintino um pensador e um sábio. Foi também Ouintino Cunha um aventureiro? Sem dúvida. Um pirata de coragem, um ladrão de pérolas das estrêlas das cintilações profundas do Solimões. Este gênito-irreversível irreVdlado precisa ser devastado em sua coragem, em sua riqueza interior, em sua aventura amorosa, em sua humanidade e até em sua fé nos destinos do homem: que não era pouca. O livro que Plautus oferece ao público é uma fonte segura para a pesquisa da obra e áa vida deste inteligente gigante da esta. tura à média de Rui - o Águia de Haia. "Unitário de março de 1970"
JOSI! ALCIDES PINTO

Página

116

Anedotas do Quintino

·

("REVISTA DA SEMANA", 14.8.1943. "MORREU O POETA DE PELO SOLlMÕES" He.-man Lima)

-

..Perpassam

nas suas poesias,

como vistas

de Uín filme

colorido, todos êsses sonoros nomes indigenas de magoaris,
oeranas, marupearas, japins, botos, igaras, jacis, pagés e pa.' ranãs, todos êles valorizados, não como simples enfeites para rimas, porém envolvendo imagens, onde o poeta desfia as fibras de sentimentos comuns de uma alma comungada dia su. gestão unissona das coisas.

.. Quintino não é um simples descritivo. As suas poesias têm quase sempre uma ressonância pura de alma humana. Veja-se por exemplo, esta descrição da vazante do grande rio no mês de julho:

O mês de julho mostra um tempo novo Em tudo: à margem pousa alegre bando De borboletas, côr de gema de ovo, O declive das águas anunciando.
..

Da floresta central, de lá Óa ignotas Matas, voltam da imensa arribação, Os magoaris, as garças e as gaivotas. - A beleza das praias no verão"!

..A descrição viva prossegue ,por seis estrofes seguintes, . cantando a transformação que se sucede à .. alagação extraordinária". Por fim, na última estrofe, falando Ó.:>..rio calmo, o rio manso, o rio mudo", o poeta encontra a nota humana:

E não se altera e segue num profundo Dolente, calmo e dúlcido marulho; É que êle vê que todos têm no mundo Nas enchentes da vida um mês de julho"!
..

* Plautus

Çunha

Lourdes em casamento. Houve um certo silêncio na resposta. Pf;)rguntaram-Ihe. então. por que queria casar-se com uma cunhada, ao que o poeta respondeu:

-

Para fazer -economia de sogra!... GOVERNAR I! DIRIGIR

-ANTES

os desmandos de um governo absolutista, que

obrigou O povo a seguir seus caprichos grosseros, Quintino 'pregou-lhe estas ~tas: Governar é dirigir, Uni"mandato popular.;. É- orientar. presidir, É tudo. menos mandar. En~ nós. pelo cOntrário, Ser mandatário ~o-' andante. m Ser mandante.o mandatário! Oa~s.:-'-umcaSO lftterés~_ant8
oo SÓ LA.VADO

QUANDO regressava do Extremo-Norte, de uma das suas viagens, o poeta travou. a bordo, conhecimento, com todos. Entre as novas relações, contavam-se vários portugueses que se destinavam ao Rio de Janeiro. Durannte as.palestras. aqueles lusitanos sempre duvIdavam que o Ceará fosse a terra
cantada pelo Quin~ino.
_

que afirmava sempre: .0 Ceará é um

pedaço d~ céu" Quando o ,navio ancorou; vieram em lanchas, enfrentando os verdes mares, muitos passageiros curiosos de conhecer o Ceará tão encantador, entre os quais Quintino, que Mo-se calava. Tudo nele era alegria. Regressa feliz :à terra da luz: Quando menos se espera, veio uma onda forte que sacudiu a lancha e molhou alguns passageiros. Um dos portugueses encharcou-se com o banho que lhe deu a onda bravia
e

protestou furioso: - Isto é lá tem~ que se apresente, este tal de Cearâ!
Cale-se, ordenou I~vado.. . Quintino. O Ceará só recebe por-

tugués

Página

118

Anedotas

do \luintino

ESSA

BOlA

o Dr. Eduardo Tomé de Saboia, era lente da cadeira dé Direito-Criminal, Ouintino, aluno acadêmico ía ser arguído no último exame para conquistar o título de bacharel em Direito: Professor exigente e grosso. Ouis testar ou redicularisar o preparo do poeta que estava sempre fazendo rir os colegas, pregunta o Dr. Saboia: Seu Ouintino que se diz inteligente, me responda o que é inteligência? - Ouintino diz: A intel'igência é como a Pérola que está nas profundezas de,> oceano. E a inteligência nos reconditos do cerebro humano. - Saboia . querendo levá-Io ao red'ículo per9unta: - E a ignorâância? - A ignorância? Repete o poeta - ESSABOlA:..

-

..
~.:

.,

Gustavo Barroso''EM BATURITÉ, no Ceará, Ouintino; rapazola,

dãnçava Com

uma moça muito inteligente que, mais tarde,'setornaria conhecida escritora. . o.;. .' _ Colega, em letras, no meio do. salão a jovem observou
ao seu par, com intimidade: - Interessante, Ouintino:

-

.

você é primoroso

poeta! Mas...

como dança ruim... . -É simples a explicação - retrucou o lisonjeado, jus' tificando-se depois de uma pausa - ." É que a minha inteligência está na cabeça.. . DE OUTRA feita, no Riche, o humorista, que era sinceramente católico, d'iscutia religião com um pastor protestante, Nisto, àprorimou-se um mend~o, estendendo as magras mãos a um e aoutro. Ninguém o favorece. E Ouintino, cheio de dedos, cascavilha um niquel nos bolsos, passando-o ao desgraçado. . Deus lhe favoreça, seu doutô... Vou suplicá a Nossi-

nnô.. .

Horrisado, ou assim se fingindo, retruca o Ouintino: . . - Não senhor!. .. Não peça naáa a Deus por mim!. . . E, mais acalmado, como a esclarecer tão inesperada atitude de sua parte: - Se você tivesse importância, para Ele, não estaria nessas condições!. . .

*

Plautus Cunha

Página p9

NINGUEM se livrava da mordacidade sempre engatilhaaa do humorista. Nem mesmo as pessoas mais intimamente chegadas a êle escapavam (.te suas zombarias. Certa ocasião, lá em casa, o nosso parente Walfrido Ferreira Gomes resolveu provocá-Io" - Quintino, diga uma besteira bem grande! A resposta foi pronta:

Walfrido Ferreira Gomes, Gomes, Walfrido, Ferreira... a inversão desses três nomes produz uma grande besteira!
QUINTlNO, em Manaus, baforava esplêndido charuto. com entôno de um paroara em época Óe fartura. Soares Bulção e Solon Pinheiro. ambos cearenses, perguntaram:

-

Poeta, quem te deu êsse charuto?!

Com certeza foi um bruto. . . porque um cabra inteligente não dá mais charuto à gente!...
10 ESCOLAS E UMA CADEIA

Quando o poeta Quintino Cunha era Deputado Estadual em 1912 o Líder do Partido Conservador apresentou um projeto contra a política de Juazeiro. querendo prenÓer os ami, gos cio Padre Cícero. Mandava construir dez cadeias e uma escola, só faltava a assinatura do Quintino, que era conhecido como amigo do Pé1dreCícero. Antes de pôr sua assinatura. Escreveu no projeto -" Bem compreenÓjdo: São 10 escolas primarias e uma cadeia". Foi aprovado o projeto e só depois de publicado é que notaram a esperteza do amigo do "Meu Padim Cícero".. . ele trocou o mal pelo bem.
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Anedotas do Quintino "

NA PRIMEIRAcampanho em prol da divulgação do Livro, no Ceará, Qulntlno escreveu esta trova e pedido de estudan" tes nlversltárlos: O Livro é a côr azul apareclda no céu da Idéia que nos esclarece; história escrita que se guarda nesse cofre de dor e luz chamado Vida!
Plautus Cunha

iPágina 121

INSTALANDO-SE, no Geará, mais um govêrno de intervenção federal, alg'uns oportunistas que nada poderiam aspirar democràticamente foram elevados a altos postos adminstrativos. E o Quintino, que os conhecia bem de perto, inspirou-se na pulga" à maneira de la Fontaine. A PULGA

Muito dava aos insetos tudo quanto me falasse de afeto e de conceito; mas, francamente, odiava a pulga, e tanto, que cheguei, satisfeito, a lánçar-Ihe, com arrôjo, de quem fala do íntimo do peito, verdadeiras hipérboles de nojo. Um dia, modifica-se o cenário da rude peça do meu pensamento. Vendo-a, senti um meio extraordinário par cujas malhas tento, de manera sucinta, sentí-Ia fenos cruel, que é mero invento pin.ar-se o diabo assim como se pinta! Nós estávamos próxmos, na calma

de uma tristeza figura, à toa; contraditada e boa,
.

....

cheios de vida a que chamamos de alma: vida alegre. e tristonha, que só sabe viver qu~m se povoa do amor, e sofre; do s9frer, e sonha!

Num dos instantes de silêncio, vejo o róseo azul do céu testemunhando a nossa indiferença, por gracejo, " exatamente quando prendo todo o sentido numa pequenina pulga, que saltando, lhe sobe o claro campo do vestido.

Páglna.J22

Anedotas

do Quintino

·

EHa à altura do colo e, ampJ.iando a vista, vejo-a em forma de um ser que se demora, com a paciênca de naturalista classifcando a flora desa pasagem linda, acidentalmente encantadora, perto da vista; mas inculta ainda... Como é feliz quem sai assim, durante' uma ocasião de afeto e de consôlo, do rés do chão, novivo e repugante, para os altos de um colol E eu pensava que a sina da pulga fôsse a de viver no $01'0, eternamente feia e pequenina! Quem a ,fêz portadora de bactérias cruel e nociva, repugnante e impura?
É

a mis~ria de tôdas as misérias I

Com que tênue ternura ela desliza, num salto, como o Belo Ideal, buscando a altura de uns seios virgens que residem no alto! Depois, ao rosto alteia-se, sem pouso procurando a face, onde se aquieta como um sinal sutil, leve, gracioso,
como diria
Q poeta!

I

I I

-,

Um tênue ponto, pôsto no fim da frase simples e direta: a graça de um sinal cativa o rosto! Que diferença do lugar de outrora, que ao minúsculo sêr graça det~ve; dos pés acima, superfície afora,
· Plautus Cunha

Página

123

.'

que diferença, em breve, dêste nôvo horizonte, vindo. por um caminho alvo de neve,

dos pés ao corpo, ao colo, ao rosto, à fronte

o

o,,

Foi nessa linha ,curva, imaginária, da guarda"pisa morta à fronte dela, 'qüe a' ~equenina pulga. extraãrdinária. deu-me a prova mais bela do" descritério. Eu próprio, que ontem não podia vê-Ia. cheguei ao cimó de nvejá-Ia ao sério...

Da fronte dá um pulo a mais, caindo serenamente, como por poesia, na negra noite de um cabelo lindo. Curioso é que fug.ia' o sol também da face da terra, por graciosa analogia, como se a pulga inveja lhe causasse o. .

Aqui, um ponto final, dando por findo, o acidente amoral, jocoso e vero da pulga, como o sol, também fugindo. Agora. apenas quero traduzí-Io em verdade nestes versos, dum senso que não julga, do modo sóbrio, lídimo, correto, homens de hoje, vocês são como a pulga banalíssimo inseto de mérito desnudo, fora do rés-do-chão, altos do afeto,
passam de zeros a valer em tudo!.

..
do Quintino ..

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124

Anedotas

E

R R

A

T A

Página 53 faltam duas linhas: - Mas aqui não tem nenhum canhão!' Lá também não tem nenhum inimigo! (Responde o Quintino).

-

Repetido,por falta "de 5 linhas:

.

.

Quando Quintino Cunha ficol,lviúvo pela segunda vez, pediu . a Da. Fransquinha Accetti sua sogra, a cunhada Maria de Lo'ur- .

des, em casamento. Ouve um certo silêl')cOpor parte de minha
avó. Perguntaram ao Quintino, por que queria casar com uma cunhada. Ele respondeu logo.

.

.- Para fazer economia de sogra.
Página 85 em vez dante
Leia-se dia-nte.

Pcigina 88 falta uma linha em francê§. Leia-se Venez de bas come le oiseau . Página 90 faltam os últimos tercêtos. Leia-se na Página 113.
Página 118 'falta um verso. LeIa-se Da.se um caso interesante, (é o sexto verso) Onde se ler Página 12, Pintos Página 37, Pragueando Página 31, Casos Págma 61, Final do ..Encontro das Aguas",

está

Leia-se Pinto Praguejando Cascos na página 60.

Humorísmo é a arte cle fazer concegas no Raciocínio dos outros.

P. C
· Plautus Cunha

Página

125

MILTON DIAS ENTREVISTA O POETA OUINTINO CUNHA

Alq!lns livros já foram escrito sobre Ouintino Cunha, mas ? ainda muito a estudar e a escrever. Além duma coletânea completa dO:3seus ditos, estórias e sátiras, espera-se um estudo crítico em profundidade de sua obra poética. Falar nisto. "Pelo Solimões", precisa com urgência, ser reeditado. Não é sátria que aqui interesa, é o predestinado da poesia o poeta dos largos voos, de grande força lírica, que sempre se encanto:! di:ante da beleza da terra: e se magoou com o sofrimento de sua gen~e, sobretudo do emigrante, que ia tentar a víd&.nonorte, como disse nosso Jáder de Carvalho, ia surpreender a puberdade na Amazônia".

Eu -

Poeta do ..Solimões". veja que bonita manhã. O Poeta: Manhã de inverno friorenta a serra Toda involvida em delicadas brumas Eu - Compreendes a vida Poeta? O Poeta: Eu compreendo. a vida É um sonho mal sonhado E bem principiado E ruim de se acabar Eu - Quer dizer que bom e a morte? O Poeta: Não me venhas. morte Tão cedo. eu te agradeço Não venhas eu te peço Em breve me acordar!. . . Milton Dias

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Anedotasdo Quintino ·

Lá no Cemitério de São João BatisM, na Alameda !da Saudade, lado esquerdo o túmulo do inesquível QUINTINO CUNHA. Sua família mandou Clravar em mármore Carrara o epitáfio do que o poeta deixou: o Padre Etemo, segundo, Refere a História Sagrada, Tirou o mundo do Nada E eu nada, tirei do mundo. (Quintino Cunha)

Suas últimas palavras: Perguntado pelo repórter se ainda enxergava, disse:
"ESTOU EM CONTEMPLAÇÃO DE COISAS LINDAS!"

/O Plautus

Cunha

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127

RUA QUINTINO CUNHA, EM FRENTEAO JOQUEI CLUBE NO RIO

Pequenina, pitoresca mesmo, mais propriamente uma praça, ondel se lê em quatro placas à Rua Ou~ntino Cunha. Encontramos a página 511 do guia Rex registro desta rua, que começa a Praça Santos Dumont e vai até a Rua Major Rubens VazoSituada num dos bairros mais elegantes do Rio - no Joquei Clube - Gávea, ela representa uma das mais signica. ivas homnagens que já se prestou a um provi,nciano pobre. Homenagem anônima e por isso mesmo grandiosa, aconteceu na gestão do Prefeito Embaixad.or. Negrão de Lima e até hoje ignoramos quem fêz a indicação. Deixamos aqui o nosso reconhecimento em nome áõ Ceará. Na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro encontra-mos a ficha de Ouintino, que é a segiunte: Josá Ouintino da Cunha. Pelo Solimões - 11I310, 5, 16 sjd - Enc. 8.e.
A Morte do Cabeleira 11I

-

187, 3,4,

n9 1

-

Folhetim

40 páginas.

OUANDOO Ouintino passou por Lisboa, em 1906 prestou homenagem à memória de Eça d eOueirós, visitando o monumento ao cinzelador de "A Cidade e as Serras" . E, inspirado na legenda Sôbre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia, ali aposta, repruduzida do frontispício de .. A Relíquia", o poeta deixou ficar em mãos de um jornalista português, que a divul'Qou depois, em "O Século",

esta quadra: Conhecia a humanidade, como ninguém conhecia! Por cima desta verdade. O manto da fantasia. . .

Página

128

Anedotas do Quintino ·

ANEDOTAS DO

QUINTINO

o QUE t: BOM DURA POUCO

Um Conselho: Não empreste jamais este

livro a ninguém! Você não receberá de volta.

·

Plautus

Cunha

Página

129

EDITORA MICHELANGELO ACCEnl

"

\o. ..

..

Fundad.a em 24 de Julho de 1967. Recebeu o nome do meu avô materno, por ter sido este um incentivador das letras, das artes e dos ofícios. O Maestro Michelangelo Accetti, além de músico, companheiro de Henrique Jorge, era também pintor sendo autor com outro pintor alemão, das pinturas de BasHica de São Francisco de Canindé. Simples homenagem a um artista laureado pelo valor do .seu trabalho que serã sempre lembrado pelos seus descendentes e pelo povo de São Francisco que ele tanto amava. Nossa Editora completa 25 anos de trabalho, independente. amparada nos ideais de servir ao próximo,

Página

130

Anedotas do Quintino ·

r

-

a do Rib
:ESSA BOlA

o Dr. Eduardo Tomé de Sabola. era lente da cadeira de Dlreito-(;riminal, Quintino, aluno acadêmi co ía se.r arg~ído no último exame para conquistar o título de bacharel em Dire.ito. Professor exigente e grosso. Quis testar ou redicularizar o preparo do poeta que estava -sempre fazendo rir os colegas. pergunta o Dr. Saboia: - Seu Quintino que se diz inteligente.

me responda o que.é inteligência?

-

Quintino

diz:

A

inteligên-

cia é como a Pérola que está nas profundezas do oceano. E a inteligência1:. reconditos do ce.rebro humano nos Saboia querendo

-

-

levá-Io ao re.cJículo pergunta: E a ignorância?

A ignorância?Repete o poeta

-

ESSA BOlA...

10 ESCOLAS E UMA CADEIA
Quando o poeta Quintino Cunha era Deputado Estadual 1912 o Líder do Partido Conservador apre.sentou um pro-

em

jeto contra a política de Juazeiro. querendo prender os amigos do Padre Cícero. Mandava construir de.z cadeias e uma escola. só faltava a assinatura do Quintino, que era conhecido como amigo do Padre Cícero. Antes de pôr sua assinatura. Escreve-u no projeto "Be.m compreendido. São 10 escolas primárias e uma cadela". Foi aprovado o projeto e só depois de publicado é que notaram a esperteza do amigo do "Meu Padim CíceroN... Ouintino trocou o mal pelo bem.

Gustavo Barroso

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