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Televisão - Digo sempre a verdade, não toda, porque dizê-la toda não se consegue.

Dizê-la toda é materialmente impossível: faltam as palavras. É justamente por esse impossível que a verdade toca no real. - Aqui, estamos na televisão. - Não há diferença entre a televisão e o público diante do qual falo há algum tempo, ao que chamam o meu seminário. Não há diferença nos dois casos. Trata-se de um olhar. Um olhar a que não me dirijo em nenhum dos dois casos, mas em nome do qual falo. Não creiam, no entanto, que falo a esmo. Falo para aqueles que conhecem algo, aos não-idiotas, aos analistas que suponho estarem na assistência. A experiência prova, mesmo limitando-nos ao facto do tropel, prova que o que eu digo interessa a bem mais gente do que àqueles que, com alguma razão suponho analistas. Porque é que, então, falaria eu aqui num tom distinto do meu seminário? O Inconsciente -O inconsciente – que palavra esquisita! - Sim estou de acordo, mas Freud não encontrou outra melhor, e agora está feito, não se deve voltar a isso. Esta palavra tem o inconveniente de ser negativa, o que permite supor nela seja o que for, sem contar com o resto. Eu não aprovo, mas enfim, contudo, coisa até então despercebida, o termo «em toda a parte» convém tanto como o de «em parte nenhuma». É, no entanto, coisa extremamente precisa. Vejamos. Só há inconsciente no ser falante. Nos outros, nos animais, que só têm ser no sentido próprio por serem nomeados, embora se imponham a partir do real, nesses outros, existe o instinto, ou seja, o saber que a sua sobrevivência implica. É isso o instinto. Ainda que seja apenas para o nosso pensamento, e talvez que chamar a isso instinto seja aqui inadequado. Sobram os animais que carecem de homem, por isso ditos d’homésticos e que, por essa razão muito provavelmente, são percorridos por sismos, aliás curtos, relacionados com o inconsciente. O inconsciente, isso fala, o que o faz depender da linguagem. A Alma e o Inconsciente - Interrompo-o, o senhor diz que o animal dado não falar, não tem inconsciente. Descartes dizia que o animal não tem alma, o que torna necessário provar que o inconsciente que não passa de uma hipótese, de uma suposição. - A alma é também uma suposição, suposição da soma das funções do corpo – e já não é mau que se possa fazer a soma. Pelo que é uma suposição bem mais problemática do que a do inconsciente, - mas suponhamos, porque não deixa de ser razoável supô-la -, embora sempre suposta pela mesma via a que vem de Aristóteles

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como o filósofo imagina. é para se sentirem melhor nesse mundo que o senhor reduz ao fantasma. uma complacência que seria conforme com o mundo. tenha acertado no alvo através das palavras. Ora esse mundo. introduzindo pelo corpo o pensamento. vem também à alma – em jeito de consequência . é sem dúvida uma «realidade». digo eu. basta lê-lo para o perceber. o que prova que uma prática não tem necessidade de ser esclarecida para operar. é apenas o fantasma com que se sustenta um certo tipo de pensamento. numa certa suposição da alma. Surpreendente é haver resposta e que esta resposta desde sempre. apesar de tudo que isto não é estranho a alguns. O homem pensa porque uma estrutura corta o seu corpo em rodelas que nada têm a ver com a anatomia. de alguém que sofre do seu corpo ou do seu pensamento. Que nos despeja sentido aos montes em vagas na mentira sexual. A vertente do sentido. mundo (Umwelt. é aquela que se julgaria ser a vertente da análise. os fisiologistas. que esse sentido se reduza ao sem sentido: ao sem sentido da relação sexual que está sempre patente nos ditos do amor.Mas o senhor. Assim. é uma demanda que parte da voz do sofredor. ou seja. Estejam bem atentos aqui porque não se trata do que imaginam. claro: o pensamento é desarmónico em relação à alma E o nous grego é o mito de uma complacência do pensamento com a alma. A Cura . Como era antes de o inconsciente ser discernido? Era igual. Patente ao ponto de ser gritante: o que dá uma estranha ideia do pensamento humano. digo que o sujeito do inconsciente só toca na alma pelo corpo. claro. . e que é o que ainda supõem. Acho. primeira vertente. com palavras. mas que não merece que se lhe dê um tal privilégio essa palavra realidade que mostra uma tal ondulação que só podemos apresentá-lo como um esgar do real. pelo que desta vez contradigo Aristóteles: o homem não pensa com a sua alma. É necessário partir do facto do inconsciente. e o que é mais duro.com o que espero que alguns tenham uma ideia. quando o procuram como psicanalista. 2 . é tida por reflexo.É com efeito uma questão a que temos de responder. Mas existe um contratempo.A cura.e fica-se estupefacto que tenha sido necessário para o dizer aquilo que toda a gente já sabe. Na medida em que o Inconsciente é aqui chamado. A cura é também um fantasma? . a medicina acertou no alvo numa grande parte do seu campo. A estrutura é a linguagem. É surpreendente. quer eles o queiram ou não. o sintoma obsessivo. Testemunha: a histérica. o Inconsciente tal como eu o formulo tem nele duas vertentes disponibilizadas pela estrutura. Psicanálise e Psicoterapia . os biólogos. É aqui que surge a diferença entre o pensamento e a alma porque temos de dizer que este pensamento não deixa de embaraçar a alma que não sabe o que fazer com ele. Que ele imagina. Essa cisalha. para dizer como o Von Uexküll de quem vos falava à pouco) mundo de que a alma.Mas o que é que faz então a diferença entre a psicanálise e a psicoterapia se ambas actuam com palavras? . Donde resulta. na medicina antiga pelo menos. e Freud insistiu nisso.ao chamado Von Uexküll (não sei se já ouviram falar).

. que Freud evoca uma substância.lembra-nos que relativamente à vertente do sentido. numa repercussão que na série que acabo de nomear vai muito longe: neurose. não traçou por aí a via? Como é que foi necessário Freud.E ainda existe sentido que se toma pelo bom senso. estanca.c’est pas moi qu’il aime » . os lapsos e os chistes como deciframos uma mensagem cifrada. qualquer que ela seja. ou seja. o estudo da linguagem. O bom senso representa o que opera na sugestão. ou ainda a repetição do que aí se demanda. E que depois. lapsos. a comédia representa o riso. mas temporário e reconduz ao pior. j’aime elle » «c’est pas lui qui m’aime. chistes ingenuamente articulado: articulado quer dizer verbalizado. ingenuamente verbalizado segundo a lógica vulgar. c’est elle qui m’aime». de metáforas. É por aí que passa Freud. segundo o emprego da língua recebido. A saber que se começa sempre por um desses fenómenos – sonhos.O que o Senhor acaba de dizer: ler os sonhos. Witz –e verá que se não trata de nada mais do que de uma decifragem de dimensão (dita-menção) significante pura. j’aime pas lui. sensível em que ele enuncia o saber da não relação que há no que se passa no sexo. a Psicopatologia da Vida Quotidiana e. os lapsos e até mesmo os chistes. É onde a divindade vem tomar o seu relevo. para que chegasse a ler os sonhos. repartidos em três livros. partir de “je ne l’aime pas» e fazendo um jogo gramatical : “c’est pas moi qui l’aime . a Ciência dos Sonhos. é Freud quem o diz ou Lacan? . Como é que o próprio sintoma. consiste nos desfiares lógicos em que ele com tanta arte nos conduz. não que ela não faça algum bem. ainda que o cómico não aparece sem o saber. perversão. psicose. Mas o que ele realmente opera. É o expoente máximo do cómico. sob os nossos olhos fixos no texto. a insistência com a qual se manifesta o desejo. é ao progredir através de um tecido de equívocos. de metonímias. O que Freud descobre no Inconsciente 3 .Vá aos textos de Freud. um mito fluídico que ele intitula a libido. pouco a pouco. sensível. concluo. opõe a vertente do signo. A Vertente da Análise O inconsciente. que além do mais é considerado como senso comum. como quando deciframos uma mensagem cifrada? . Quer dizer que são suficiente para além de serem pouco compatíveis? É aí que a psicoterapia. mesmo a sua continuidade. é uma tradução em que se demonstra que o gozo que Freud supõe no termo de processo primário. Exemplo O que permite a Freud. ao ser simplesmente dócil à histérica. o que chamamos como tal na análise.

podemos dar um sentido sexual a tudo o que se sabe. . eu faço ex-sistir essa resposta que é a interpretação. É o real que permite desatar efectivamente aquilo em que consiste o sintoma. ou seja um nó de significantes. ele nunca disse que o recalcamento provinha da repressão. mas toda uma outra coisa.. Digamos que à medida que progredia.Mas se há recalcamento é porque há repressão. Atar e desatar não sendo aqui metáforas. é bem diferente de darmo-nos conta de que. Foi o que Jung pensou que Freud anunciava. mas «mal-estar. . uma voz que não ex-siste.Há hoje um rumor que corre: se gozamos tão mal é porque há repressão sobre o sexo e. Não é simplesmente eliminar a sexualidade da descoberta de Freud? . Eis.O senhor repete Dimensão Significante. se o que digo está certo. a voz. que a castração era devida ao pai que. Ele não disse. mas não nos nossos dias. pois falo a partir das suas questões –. se recomeças». não efeito da civilização. isso sabemo-lo desde sempre pelo facto de que a palavra “conhecer” se presta à metáfora bem conhecida. no caso. A censura não é nada disso. Existiram outros. brada: «Seguro que t’a vão cortar. O senhor sabe que tenho resposta para tudo. Para dizer cruamente. a báscula da segunda tópica. em nome da qual. A gulodice com que ele marca o supereu é estrutural. no conjunto. que isto lhe tenha vindo à cabeça. a culpa é primeiro da família e depois da sociedade. Isto é: se ela lhe fosse colocada por uma voz mais do que por uma pessoa. em grosso. Com razão. uma questão que poderíamos ouvir a partir do seu desejo de saber. a Freud. É natural. justamente por nada dizer. .tomemos isto como imagem -. mas ele limitou-se a partir daí como experiência. no entanto. no entanto. O Gozo . e particularmente do capitalismo. ele tendia mais para a ideia de que o recalcamento existia primeiro. Desfiar Lógico. [não são de sens mas de jouis-sens] . como lhe responder você mesmo. Recalcamento → Repressão . – a ser entendida pelo que a define no discurso analítico. uma voz que só se conceberia como vinda da televisão.pude há pouco convidá-los a irem ver nos seus escritos -.O que Freud descobre no inconsciente. sintoma-na- 4 . Jogo Gramatical. mas são antes para ser tomados como esses nós que se constroem realmente ao fazer cadeia da matéria significante. a escrever como quiserem.Eis uma questão – sou levado a dizer. em conformidade com o equívoco que faz a lei do significante. Penso ter dado um alcance distinto daquele que a confusão corrente acarreta ao recurso qualificado da psicanálise. . ao seu garoto que brinca com a pilinha. Quem não sabe que foi com o discurso analítico que fiz fortuna? Pelo qual sou um self made man. mediante o que o senhor me empresta a questão: o senhor fia-se no provérbio que diz que só se empresta ao rico. Porque essas cadeias não têm sentido mas gozo.Freud nunca disse isso. É um erro.

que não se tenha de a saborear porque está estabelecida. em quem encontram motivação. o que o senhor aí diz Há apesar de tudo um certo nome que tenta saír… . e mesmo neste caso. não me parece nada surpreendente que se pareçam com as outras sociedades. insucesso desse caso. Confiança que ele confessa ser gratuita. o que é pior para esse homem. sim. a partir do facto de ser o recalcamento que produz a repressão. e que a Mãe continua. porque é que a família. não levantará o que ele atesta ser uma maldição sobre o sexo. não é ao próprio discurso analítico como instituição que se deva atribuir? Pode também pensar-se que isso pode ter um resultado de maior alcance. Não digo que sejam imaginadas. a ficarmo-nos por aqui não há outro recurso senão o projecto da ciência para resolver a sexualidade. Projecto no qual. não vejo inconveniente -. que Freud seguramente evoca no seu «Mal-estar na Civilização». Porque o discurso analítico que não está inocente. mas que pareçe estar muito perto do seu êxito: o de estabelecer o real dos factos. a sociedade não seriam efeitos assaz edificados do recalcamento? Porque não? A sociedade. a contaminar a mulher para sempre: o resto segue-se. como Freud. Não é que eu aprecie o gosto da ordem que existe nesse pequeno que diz: «pessoalmente tenho horror à anarquia». lhes oponham desinterêsse. e é para a reconfortar que ele se encarniça sobre o caso do “Homem dos lobos”.Não é muito alegre. leio nelas. a sexologia mantem-se estritamente em estado de projecto. O mito é isso. e pode conceber-se.Sim. Freud tinha confiança. 5 .civilização». efeitos do recalcamento. porque. De forma que é possível voltar à experiência. como desconhecer que esses dois afectos se denunciam claramente em dizeres e em actos nos jovens que – e porque não. e não deixamos de o fazer. o que diz muito sobre a sua ética. permaneça enigmático.Sim. a família. a própria sociedade são. penso no entanto que é um pouco forte que os analistas. não se estabeleça a partir de um único caso. o convite a encontrar o real que responde por elas. ainda que as recordações da repressão familiar não fossem verdadeiras. é um projecto porque enfim. seria necessário inventá-las. se entregam a relações sem repressão. A ordem familiar apenas traduz que o Pai não é o genitor. quer dizer que a família. as ficções de que se trata. evidentemente que é necessário colocar a questão de saber se afinal este enigma. Sim. . a tentativa de dar forma épica ao que se opera na estrutura. É próprio da ordem. É específico desse ser falante que o inconsciente exista. mas para responder. O impasse sexual segrega as ficções que racionalizam o impossível que elas demonstram. para si. e até mesmo de morosidade a respeito da abordagem «divina» do amor. e se motive da estrutura. Efervescência. e ele insiste nisso. no filho d’homem. onde ela existe minimamente. Poderia bem ser. Em relação à família. no ser falante. Ainda que esse real. Família. Sociedade . ou seja. . aos outros animais. É um insucesso.Se compreendo bem o que o Senhor diz. da linguagem Freud não elimina esta solução. Se falei de tédio.

não é impensável. mas necessário. como no sonho. se bem o compreendi que o escutamos. isso implica. Sem a prática analítica para a nomear. dado haver aí toda a espécie de sintomas. que afinal só nos serviu para revestir os nossos abusos. do outro lado do sexo. no fim de contas. em guisa de adeus que o disse no meu seminário. Ele não implica que o avaliemos como diria Freud. nem calcula.Já ocorreu nalgum lugar. aquele que Marx considerou a flor da economia capitalista na esperança de o ver tomar continuidade do discurso do mestre. Racismo . ou seja. para que as pessoas sejam advertidas. mas a coisa está já decidida. A única coisa que seria interessante. É melhor sabermos o que nos espera. Que seja avaliado como saber se não pensa. naturalmente. esse Outro que de qualquer forma existe. Sublinho assim. Trata-se do capitalismo reordenado. apenas terminei o meu último seminário sobre esse tema. embora de forma inesperada. é em que é que isso me parece não somente previsível. bastante funesto. é o facto característico do inconsciente. na Traümdeutung. Sobre essa base que mesmo assim nos especifica na relação com o gozo. que só o Outro. Mas ele só implica no discurso sem o qual não existe. porque é que o disse? . o que quer dizer que do Outro. o Outro radical situa esse gozo.fim do capítulo sobre o trabalho do sonho. que designo como a de mais-degozo. só o poderíamos fazer se desde há muito não lhe tivéssemos imposto o nosso. o que para nós não é impensável. justamente como sendo o Outro. É necessário pelo extravio do nosso gozo. sobre a posição a que chamo. E como! Digamos que é o trabalhador ideal. fantasmas completamente inéditos de que não se poderia falar de outro modo. em boa hora e é justamente o bom momento para demonstrar que não é favorável mesmo a um esboço de uma liberdade. 6 . Há surpresas nessas questões de discurso.O senhor disse que o racismo tem futuro.O Senhor diz que o Inconsciente fala. No entanto não faço disso um grande rebuliço. Nem também para o sexo. Se mesmo Deus retomasse força disto tudo. Foi assim. A surpresa. O Inconsciente a Cru . só o Outro absoluto. só o poderíamos fazer se as coisas não estivessem num ponto em que só o pudemos tomar por um subdesenvolvido. . È uma forma de dramatizar esse Outro. algo que não deixamos de fazer. sim. nem julga. de pô-lo de lado. a precariedade do nosso modo pretensioso de gozo. digo-o porque isso não me parece cómico. se ele acabasse por ex-sistir. A não ser que a esse Outro lhe deixássemos o seu modo de gozo. E a partir do momento em que estamos implicados nisto. e que o situa. e o qual esperamos que se mantenha. o que não o impede de trabalhar. Foi o que acentuei. já que foi de onde o capitalismo partiu.Sim. existem fantasmas. mas não pressagiaria nada melhor de que um retorno do seu passado. mas será que o escutávamos antes de Freud inventar a psicanálise? -A meu ver. Esse mais-de-gozo que se enuncia correntemente de mais-valia. até aí vou. Acrescenta-se a tudo isso. o que com efeito aconteceu. estamos separados. vem essa humanitarite de encomenda. se não existe relação sexual é porque o Outro é de uma outra raça. é isso. especifica o nosso modo.

Ele merece ser elevado à altura dos laços fundamentais que permanecem para nós em actividade. dita internacional. eu ainda a conheci nas mãos da descendência directa de Freud: se eu ousasse – mas previno-o. embora isso seja meio fictício. No conjunto. pela meu lado.É certo que aguentar a miséria como o senhor está a dizer. Os Trabalhadores de Saúde Mental . portanto eles satisfazem. é para eles que há riscos. digam: intelectualismo. não têm de protestar mas sim de colaborar. talvez seja a certa. E tanto menos quanto. O que eu considero.A Sociedade. É muito cómoda – podem-me retorquir facilmente – muito cómoda essa ideia de discurso para reduzir o julgamento ao que o determina. que se dedicam a esse suposto aguentar. Mas isso não os exclui dele: longe disso. o que não deixo de fazer.O discurso a que chamo analítico é o laço social determinado pela prática de uma análise.O Discurso Analítico .O que é que o senhor entende por discurso analítico? . a prudência não lhes falta.Mas o Senhor foi excomungado da sociedade. O que me surpreende é que. A esse discurso. quando se trata de saber quem tem razão. o que quer dizer que há pessoas que se analisam com eles. mesmo que alguns dos seus efeitos não sejam por eles reconhecidos. é entrar no discurso que a condiciona. é o que fazem. A Sociedade Internacional de Psicanálise . Além do mais. os psiquiatras. ao que eu ensino. todos eles trabalhadores da saúde mental – são eles. que na base e na dureza aguentam toda a miséria do mundo. eu aqui sou partidário – diria que é actualmente uma sociedade de assistência mútua contra o discurso analítico. E o analista enquanto isso? . pois ao denunciá-lo estou a reforçálo. Sabendo ou não. excluído para quem quer que seja.Os psicólogos. nem que seja apenas na qualidade de protestar contra ela. ao relacionar essa miséria com o discurso capitalista. O analista 7 . Dizer isto já me confere uma posição – que alguns situarão como reprovação da política. tendo a questão há muito se reduzido a ser familiar –. quaisquer que sejam. eu a denuncio. por não encontrarem nada de melhor a me opor. aperfeiçoando-o. A SAMCDA. e mesmo que não seja verdadeira. os psi. . os psicoterapeutas. Danada SAMCDA! Esses analistas não querem saber do discurso que os condiciona. dado que funcionam como analistas. O que não tem o menor peso. Além do mais. Indico apenas que não o posso fazer seriamente.

Ele espalha-se por toda a parte. mas imagino que. é um vento que gela quando sopre muito forte. Respondam-me apenas a respeito deste ponto: um afecto. Choca aqueles que dele se aproximam e se não enganam: o santo é o dejecto do gozo No entanto. em que é que concerne o corpo? Uma descarga de adrenalina. Os espertinhos. o que não quer dizer. como o senhor sabe. Então. cogito loucamente para que haja novos santos assim. ou seja. . Quanto mais santos. mas que também não protesta. para que me compreendam. com a qual ele não se contenta mais do que qualquer um. as pessoas fingem serem donas do património. isto recobre bem as estranhezas dos efeitos de santo. tomá-lo por causa do seu desejo.Como situar segundo o seu ponto de vista. Faz des-caridade. senão por aquilo que no passado se chamava ser um santo. Um santo. É isso que choca nesta história. -Não se poderia melhor situá-lo objectivamente. ter acreditado no que escrevia acerca do cortesão. durante a sua vida não impõe o respeito que por vezes o faz merecer uma auréola. Certamente por eu próprio não ter chegado lá. pelo menos na estrutura. o que não constituirá um progresso se só se passar com alguns. não deixam de o espreitar para tirar conclusões e proveito próprio. às vezes. Com efeito. o santo não se considera a partir de méritos. e do que não fala. Efeito de santo faz gozo. não faz caridade. e até mesmo a saída para o discurso capitalista.. É de partir o coco. na televisão. é verdade. Isto para realizar o que a estrutura impõe. Durante esse tempo ele não está a operar. existe uma folga. para alguns ouvintes.Nesta questão. seu tradutor. por exemplo. é o meu princípio. Um santo. os únicos elementos com os quais as pessoas se sustentam provêm dos meus ensinamentos. Tanto mais que estar-se nas tintas para a justiça distributiva foi o seu ponto de partida. que ele não tenha moral. que o sujeito em questão tem a oportunidade de se referenciar. eles voltam aos velhos gestos. então. Os Afectos . Mas em que é que isso viria da alma? É pensamento que isso descarrega. É condição para se referenciar também noutros campos – se o inconsciente é o que eu digo -. Eu. mais rimos.Existe uma objecção que o senhor faz desde há muito sob diversas formas. e aquecem-se amontoando-se no Congresso. a de não fazer estardalhaço. O único problema para os outros é que não vêem onde isso o leva. quem não apreende o seu sentido com gozar? Só o santo para permanecer impávido. e suportar essa abjecção não é divertido para o santo. Mas ele não se rala como aqueles que crêem estar aí a sua recompensa. Pois. o analista que não colabora. Antes do mais toma o papel do dejecto. pelo menos na SAMCDA em Paris. 8 . Ninguém o nota quando ele segue a via de Baltasar Graciàn. trata-se ou não do corpo? Que isso altere as suas funções. é devido à abjecção dessa causa. das emoções. daí Amelot de la Houssaye. o senhor imita os gestos com os quais na SAMCDA. permitir ao sujeito do inconsciente. o que é que o senhor faz. Mas o santo está por cima de tudo isso. Na verdade.

Só que demonstrei. ou a tensão psicológica do filósofo Pierre Janet. que em última instância. o que traz felicidade. porque dela só pode obter o olhar. o qual é uma virtude. por exemplo. E o que daí resulta – por pouco que essa cobardia. Felizmente temos o poeta a dar o mote. permite verificar mais seriamente o afecto. mas explico-o a partir do seu ponto de vista. o que implica no final. Oposto à tristeza há o saber alegre. que o alegre saber faça dela. dado reconhecer que também lido com o mesmo. – do que a ideia de que se trate de uma agitação. em todo o caso. só se situa a partir do pensamento. e noutros que se seguem sobre o recalcamento: o afecto é deslocado. a sua dependência da estrutura. para os abordar é necessário passar por esse corpo que digo ser afectado pela estrutura? Exemplos A tristeza. na estrutura. É a definição. O surpreendente é que ele tome a ideia da beatitude. deve ser julgado é se a minha ideia. A simples ressecção das paixões da alma. Não se trata de um estado de alma. a queda. para como ele esgravatar. cobardia moral. a que Dante não pode satisfazer. O surpreendente. o que quer dizer. Não é compreender. Uma virtude não absolve ninguém do pecado. à fortuna. o retorno ao pecado. para que dela ele se sinta exilado. que a tal representação. através de um recurso à sua correspondência com Fliess. ou sobre coração. como S. tomado à letra. não fiz mais do que recuperar o que Freud enuncia num artigo de 1915. e que qualquer sorte lhe é boa. 9 . ao ser-lhe conferida a alma como suporte. vá até à psicose – é o retorno ao real do que é rejeitado. é a excitação maníaca através da qual esse retorno se torna mortal. mas raspá-lo o máximo possível. o objecto. um pequeno batimento de pálpebras e o dejecto delicado que daí resulta: e eis que surge o Outro que devemos identificar tão-somente como o gozo dela. dito de outra forma. não é já testemunho suficiente de que. A virtude que designo como alegre saber. coração. não é ele ser feliz sem suspeitar ao que o reduz. e até mesmo. é qualificada de depressão. para o que o mantêm. Reconsiderar o afecto a partir do que digo reconduz. do dever de bem dizer. dado que ele tudo deve à sorte. não é nada menos do que a estrutura e precisamente enquanto vinculada ao postulado do significante. Um olhar. O sujeito está feliz. Aonde está em tudo isto. mas simplesmente uma falta moral. sendo rejeição do inconsciente. ou seja. epitumia.O que. a ressecção desde Platão dessas paixões segundo o corpo: cabeça. se não fosse pelo facto de que o sujeito que se supõe não poder ocorrer senão através da representação? Não saberia dizer melhor. para que se repita. para através disso gozar da decifragem. como se exprimia Dante e até mesmo Spinoza: um pecado. Como é que se poderia avaliar esse deslocamento. por se manifestar. – Original. uma ideia que vai suficientemente longe. Quanto a mim. sem que ele se torne um engodo para essa virtude. Reportem-se à carta 52 e encontram aí esse postulado. pela linguagem. como sabe. do qual resultaria uma melhor arrumação. portanto. Dante que acabo de citar e outros. Pois é isso que me opõem. ao que deles é dito com segurança. o de Beatriz. ou de se encontrar no inconsciente. é disso exemplo. ou seja. de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem. Tomás nomeia de modo mais justo esses afectos. Longe daqueles que encaram hipocritamente o classicíssimo. a boa sorte? Exactamente por todo o lado. como ele diz.

e como! Daí. cujo real nos chega através desse discurso? Assim se traduz a sua pergunta no meu contexto. Palavra com a qual.Por exemplo. Só repito quanto à descoberta do sujeito do inconsciente. Será preciso que eu volte ao facto de que ele só se situa verdadeiramente a partir de um discurso.Será que pode ou não ensinar o que o discurso analítico nos ensina sobre a relação entre os sexos? . O próprio sujeito do inconsciente age sobre o corpo. no Banquete de Platão. ou seja. dado a ciência ter trilhado a sua via a partir desse postulado? Eu não digo que está verificado.com o qual ele nos anuncia que Deus a satisfaz plenamente. uniano.Aí. mas que um só discurso articula. e tanto mais quanto. esperar . científico. É o que passo o meu tempo a enunciar. Donde o resultado. afora uma curta coiteração. O afecto. justamente da sua boca. o que se pode dizer do saber que ex-siste para nós no inconsciente. um grão de loucura. recompus o termo: unien. nos fornece o equivalente cru do animal de duas bossas cuja bissecção ele imputa a Júpiter que nada tem a ver com isso – é muito vil. digo que é ensinável. Pelo contrário. pelo menos a não encontrá-lo a seu gosto. Digo. Freud também o escolheu: pois o que ele imputa a Eros enquanto oposição a Tanatos. E primeiro. malgrado a referência à lógica. nada que não seja a estrutura da linguagem. Em todo o caso. o Um místico. quer dizer parece louca. será ensinável a todo o mundo. Assim o afecto chega a um corpo. . daquilo cujo artifício constitui o concreto. Mas o facto dela não ex-sistir não exclui que dela se faça o objecto do seu desejo. Os dois sexos . cuja propriedade seria a de habitar a linguagem. ou um verdadeiro toque do real? Saber. em que Aristófanes. “Que posso eu saber?” -Aí. o que é que se pode dizer dele. fazer. Com o qual designo a identificação do Outro com o Um. como se. Chama-se a isso morosidade. a resposta é simples. como princípio de “vida”. ele só a atinge quando encalha no campo da perversão? É o que se formula a partir da experiência instituída pelo discurso psicanalítico. 10 . que isso não tenha consequência alguma. responder às três perguntas de Kant. mau humor também. é de unir. já disse que isso não se faz. poderemos nós dizer que se O Homem quer A Mulher.Proponho-lhe como exercício. isto é. Se isto se verifica. Não se coloca o Pai real em tais inconvenientes. dado que A Mulher não ex-siste. tédio. e é bem o caso. como aspirava Renan para o «advir da ciência». sempre se tivesse visto dois corpos unirem-se num só. o senhor repete-se… . Ao que em nós responde como: ennui. Será isso um pecado. e é de onde ele nos provoca ao recebermos segurança. ao fazer dançar as letras como no cinematógrafo até se ressituarem numa linha. digo. por não encontrar alojamento.Não repito nada.

lhe imputam. -A mulher não ex-siste. em que o seu saber de nada lhes serve. esse é o caso d’A mulher. Mas é por isso que a verdade se recusa mais frequentemente do que devia. dos seus bens. nem que seja simples de compreender. Aí.Mediante o que. Assim o universal do que elas desejam é simplesmente loucura: por isso todas as mulheres são loucas. Se houvesse o Outro do Outro. ou toda dizível. Fenouillard não é válido e que. O homem. Mas duvido. Pois da “vida” eles só têm noção através do animal. encontra uma mulher. “a vida”. ao ser tomado por um só lado. não se pode dizer que isso nos torne a vida fácil. com a qual tudo acontece:. o seguinte axioma. porque o Outro do Outro reagiria. Estabeleçamos então. o homem. não se sabe muito bem porquê. tenho pena com efeito que pareça um pouco complicado. eu que vos falo como por todo o lado. E a resposta é simples. É antes.Que devo fazer? -Sobre isso. o se preparar para que o fantasma d’O homem encontre nela a sua hora de verdade. como diz a lenda. enganando-se. eis o ratage. da sua alma. . pois a verdade já é mulher por não ser toda. ou seja. É o que faço: da minha prática extrair a ética do Bem – dizer que já acentuei. ela presta-se à perversão. o leque do que é produzido em palco. colocando-a para mim. que sustento ser a d’O homem. não porque seja o Outro. como em todo o lado. como toda a gente. vulgarmente o fracasso em que consiste o êxito do acto sexual. mas de que uma mulher não pode senão proibir-se-o. ele ex-siste. -Sim. por traduzir pelo discurso analítico. em suma. pois a ética é relativa ao discurso. Eis o drama justamente. antes conciliadoras: a tal ponto que não há limites às concessões que cada uma faz a um homem: do seu corpo. Calculado milimetricamente È justamente para a mulher que não é fiável que o célebre axioma do Sr. mas não é certo. eu me furte. só posso retomar a pergunta. E não se dirá que. ao produzir os fantasmas com os quais os seres de fala subsistem no que denominam. como o sabemos pelo teatro. 11 . A ideia kantiana da máxima a ser colocada à prova da universalidade da sua aplicação é apenas o esgar com o qual o real se apresenta. Mas nada podendo fazer pelos seus fantasmas. onde isso é exibido -. alguém de outro se encarregou. Ao nível do Outro. o trágico. Sirva-se disto se acredita que noutros discursos possa prosperar. no amor não é o sentido que conta mas justamente o sinal. haveria a garantia de dizermos sempre a verdade. É justamente por isso que elas não são todas. o que se diz passa por ser verdade. os actores são capazes dos mais elevados feitos. nem o homem. não que O homem não ex-sista. nem a mulher. o cómico. Não é exagero. O homem. colados a O homem. diz-se. exigindo do acto ares de sexo. passados os marcos há o limite: a não esquecer. O nobre. o que ele não pode sustentar. não são loucas de todo. (do Outro não sabemos nada) mas porque não há Outro do Outro. aquele leque que cliva os assuntos de amor de todo o laço social – realiza-se portanto. isto é. o bufão (se os pontuarmos numa curva de Gauss). O que a conduz à mascarada que se conhece e que não é de todo a mentira que os ingratos. Ele não reage. para o que der e vier. mas não fui eu que os fiz. Por isso. Não recomecemos.

Estilo . A psicanálise seguramente permitir-lhe ia esperar clarificar o inconsciente do qual o senhor é sujeito. E isso esclarece-nos acerca da história que “claramente” Boileau deixava correr acerca disso. uma vez que. é porque ele procede do parti-pris de nada saber. claramente se enuncia”. acabou. mais perto de nós. e se ouso articular que a análise deve ser recusada aos canalhas é porque os canalhas se tornam burros. ou qualquer um a quem eu diga você – é a esse vós que respondo -. Isso far-nos-ia sentir o peso da neurose através da qual se mantém o que Freud nos recorda: que não é o mal. para retomar a sua expressão. o académico tem a boa sorte de ter tão-somente de titilar a verdade. mas o que aí se revela é um chiste que. O seu estilo etc.Comente a verdade que Boileau versifica da seguinte forma: “ O que bem se concebe. Responda-me à terceira questão. já a respondi. é a partir de outros discursos que eles podem se julgar. o que é certamente uma melhoria. os chamados amanhãs que cantam. para que nos enganemos. eu transformá-la. Quanto a mim. Os critérios da ética infelizmente já não são seguros. pelo menos sucesso de venda. Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro para todos. o senhor gostaria de saber o que o discurso analítico lhe pode prometer. é certamente isso que Freud disfarçava com um pretenso critério de cultura. Saiba apenas que vi várias vezes a esperança. Mais: penso que é preciso recusar o discurso analítico aos canalhas. como constatei com a minha tese onde. Possa o meu amigo Claude Lévi-Strauss estruturar o seu exemplo no discurso de recepção na Academia. ao suicídio. Para que a pergunta de Kant tenha um sentido. Eis o que lastimo atribuir ao autor do verso que humoriza tão bem esse termo. porque para mim. espera o que quiser. Inclusivamente é desesperadora essa promessa de sucesso. . O denegrido medi instalado no seu reputado ocre. levar pessoas que eu estimava tanto quanto o estimo a si. ninguém cujo desejo não esteja decidido.Uma ética de celibatário. Seja como for. entendo-a desta vez como vinda de si. Não existe gradação entre o mediocre e o pior. encarnou. em suma. o meu estilo ainda não era cristalino. “O que me é permitido esperar? . para honrar a sua posição.Respondo-lhe taco a taco. mas o bem que engendra a culpa. ninguém vê. mas sem esperança.ei em: de onde o senhor espera? Logo.. É fácil a minha rectificação.Essa. É um facto da experiência. ou seja. ao contrário da precedente não a adopto. Porque não? O suicídio é o único acto que pode ter êxito sem falha. ou seja. para o rigor de uma ética. por ofuscar todos. 12 .. Restabeleço que o que bem se enuncia. É impossível orientarmo-nos aí sem pelo menos termos uma suspeita do que quer dizer castração. que não encorajo ninguém. claramente se concebe – claramente quer dizer que faz caminho no Outro. Mas todos sabem. no entanto. Como é que me diria respeito sem me dizer o que esperar? O senhor imagina a esperança sem objecto? Você. devolvo-lhe a pergunta. Se ninguém nada sabe sobre ele. aquela que um Montherlant. talvez mesmo grosseira. para acreditarmos nisso.

Mas não sabemos que o chiste é lapso calculado. ganho obtido sobre o inconsciente? Lê-se isso sobre o chiste em Freud. Do que perdura de perda pura ao que só aposta em do pai ao pior. Envio A interpretação deve ser pronta para satisfazer a sedução. 13 .