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REVISTA DA

DEFENSORIA PÚBLICA

Ana Elisa Liberatore Silva Bechara./dez.sp. Bruno Shimizu Conselho Editorial Da Revista Da Edepe: Alvino Augusto De Sá.n. respeita a liberdade intelectual dos autores e publica integralmente os originais que lhe são entregues. 103 .500 exemplares Produção Gráfica: Gráfica e Editora Viena A EDEPE. 2011 Diretora da EDEPE: Elaine Moraes Ruas Souza Coordenação da Revista da Edepe Carlos Eduardo Afonso Rodrigues. Ingo Wolfgang Sarlet. Tiago Fensterseifer. . Luciana Jordão Da Motta Armiliato De Carvalho. Juliana Garcia Belloque.EDEPE Rua Boa Vista. necessariamente. Marco Antonio Corrêa Monteiro. concordar. Daniel Guimaraes Zveibil. 2 . com as opiniões expressas. Gustavo Octaviano Diniz Junqueira. Flávia Piovesan. com isso.13º andar CEP 01014-001 .Edição Especial Temática sobre PRINCÍPIOS E ATRIBUIÇÕES INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo .São Paulo-SP Tel.br Revista da Defensoria Pública Ano 4 . em suas revistas. Lilia Moritz Schwarcz Tiragem: 1.jul. Lucio Mota Do Nascimento.: 11-3101-8455 e-mail: escola@dpesp. Marcus Vinicius Ribeiro.gov. Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer. sem.

............................................................................................................................................................................167 .......................37 Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental Élida Lauris......º 132/09 Gustavo Augusto Soares dos Reis...................................................................................143 Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP na prestação de assistência judiciária Virgílio Afonso Da Silva..................................89 Educação em direitos e defensoria pública: reflexões a partir da lei complementar n............................................................................................................................55 A defensoria pública paulista: caminhando na contramão Eneida Gonçalves de Macedo Haddad........................ 111 Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública Ada Pellegrini Grinover.........................................................9 A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo Aluísio Lunes Monti Ruggeri Ré......................75 Educação republicana para os direitos humanos sua importância num estado democrático de direito Paulo Ferreira da Cunha...........................................7 Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes: modelos de organização e de prestação do serviço Roger Smith...................................................................................................................................Sumário Apresentação..........................................................

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sistematiza e analisa os modelos de assistência jurídica no direito comparado. . analisa a atuação da Defensoria sob a óptica do neoconstitucionalismo. contendo trabalhos que trazem reflexões profundas sobre os tópicos centrais que informam a atuação do Defensor e sobre o espaço ocupado pela instituição na sociedade. O Defensor Aluísio Iunes Monti Ruggeri Ré. com muito orgulho. não se percam de vista os fundamentos e princípios que nortearam a criação da Defensoria Paulista. nos períodos de maior crescimento e em meio à celebração de conquistas. É com base nesse pensamento que a EDEPE traz à luz. a seguir. Os textos da pesquisadora portuguesa Élida Lauris e da professora Eneida Gonçalves de Macedo Haddad versam cobre a interface necessária e sempre profícua com os movimentos sociais. concentrando-se o texto sobre o papel central da instituição na efetivação dos direitos fundamentais. o terceiro volume da nossa revista.Apresentação Recomenda a prudência que. abordagem necessária para que nós pensemos o nosso próprio modelo. construindo uma argumentação coerente a favor da demanda pelo modelo público. O artigo que abre essa edição da revista. escrito por Roger Smith e traduzido pelo Defensor Público Cléber Francisco Alves. do ponto de vista institucional. Este volume temático centra-se nos princípios e atribuições institucionais da Defensoria Pública. reconhecendo-se que o operador do direito que restringe-se ao seu gabinete faz pouco mais que manter o “status quo”. que deve sempre se recusar a enxergar na Constituição uma mera “carta de princípios”.

a revista traz o parecer consultivo da lavra da professora Ada Pellegrini Grinover. sobre o convênio firmado entre a Defensoria e a OAB/SP na prestação de assistência judiciária. esses são apenas alguns temas que consideramos centrais no necessário debate sobre nossa atuação e sobre o lugar que ocupamos e desejamos ocupar na transformação da sociedade atual em uma sociedade mais livre.Ano 4 n. catedrático da Universidade do Porto. e do Defensor Público Gustavo Augusto Soares dos Reis tratam da educação em direitos. dever da instituição e de cada Defensor Público. e o parecer do professor Virgílio Afonso da Silva. 2 jul. Desejamos a todos e a todas boas leituras e reflexões! A Diretoria da EDEPE . sobre a atuação coletiva da Defensoria Pública.8 Revista da Defensoria Pública . 2011 Os textos do professor Paulo Ferreira da Cunha. Enfim. justa e solidária./dez. Por fim.

preferimos traduzir tal expressão por “assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes custeada com recursos públicos”. todavia.com. entidade sediada na Inglaterra (Reino Unido) que se dedica ao estudo de reformas do Direito.: Este artigo foi escrito em 2002. Para contato com o tradutor: calves@compuland.br. para melhor fluidez do texto. Professor Adjunto da Universidade Federal Fluminense e da Universidade Católica de Petrópolis. optaremos por manter a expressão original em inglês: legal aid. graduanda em Direito pela UCP. Por conseguinte. realizada em Budapeste de 05 a 07 de dezembro de 2002. em muitas passagens.ASSISTÊNCIA JURÍDICA GRATUITA AOS HIPOSSUFICIENTES: MODELOS DE ORGANIZAÇÃO E DE PRESTAÇÃO DO SERVIÇO Roger Smith* Diretor da ONG “JUSTICE”.: a expressão legal aid. PRÓLOGO Este estudo1 analisa vários aspectos relativos aos modos de organização dos serviços de legal aid2 (assistência jurídica gratuita * Para contato com o autor: rsmith@justice.org. sendo certo que inevitavelmente está focado numa perspectiva europeia em que a Convenção Europeia dos Direitos Humanos desempenha um importante papel na garantia da prestação desses serviços. Mestre e Doutor em Direito. para uma conferência sobre Assistência Jurídica Gratuita na Europa Central e Oriental. de T. não estão considerados as mudanças ocorridas nos respectivos cenários desde então. N de T. 1 N. Tradução: Cleber Francisco Alves* Defensor Público do Estado do Rio de Janeiro. 2 . que em Portugal costuma ser traduzida como “suporte legal”. considerando o contexto jurídico do Brasil. ** O trabalho de tradução contou com a colaboração de Marilyn Filpo. 1. na verdade não possui um tradução adequada no vernáculo.uk.

Eis. que serviços se pretendem prestar. trata-se do conjunto de normas jurídicas destinadas à proteção social das pessoas que se encontram em estado de pobreza. que tipo de cobertura (abrangência) se deseja alcançar para questões no âmbito do direito de família. na tarefa de avaliar os variados modelos de organização da assistência jurídica gratuita nas suas respectivas jurisdições. então. (ii) Provisões sobre questões de “assistência mútua” – no âmbito dos países membros – emanadas da União Europeia. em seu país./dez. a um suspeito sendo formalmente indiciado/acusado ou quando de seu interrogatório pela polícia? (d) Em relação aos casos cíveis. 2 jul. de T.10 Revista da Defensoria Pública . tomando como referência a experiência verificada em diversos países. tendo como base normativa: (i) A Convenção Europeia de Direitos Humanos. do direito privado. (iii) As respectivas normas do direito público interno? (b) Que outros serviços. em caráter preliminar.: no original consta a expressão poverty law que não encontra tradução precisa no vernáculo. do direito público e do “direito da pobreza”3? (e) Como os serviços de assistência jurídica mantidos pelo poder público se inter-relacionam com outras formas de serviços mantidos por instituições privadas ou com outros sistemas alternativos de solução de conflitos? (f) Pretende-se que os serviços jurídicos sejam ampliados para além do patrocínio/representação de causas em Juízo e incluam também orientação e aconselhamento jurídico? (g) É reconhecida a necessidade de proporcionar informação e educação jurídica à comunidade? 3 N. notadamente benefícios assistenciais e garantia de direitos sociais que integram o “mínimo existencial”. 2011 aos hipossuficientes custeada com recursos públicos). As premissas subjacentes ao desenvolvimento deste estudo são as de que os tópicos abaixo configuram perguntas-chave a serem respondidas por gestores públicos. os tópicos a serem considerados: (a) Que tipos de serviços (e qual a respectiva abrangência) são reconhecidos como sendo de natureza obrigatória a serem prestados pelo poder público.Ano 4 n. . de caráter discricionário se desejam prestar? (c) Que serviços no âmbito de defesa criminal se desejam prestar? Particularmente. em caráter gratuito.

Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 11 (h) Pretende-se destinar recursos para ações coletivas de interesse público e para serviços de assistência social? Em caso afirmativo. a concepção de Defensoria Pública normalmente está associada à defesa na esfera criminal. alguma modalidade de organização de “defensoria pública” ou algum modelo misto/combinado de prestação dos serviços? Quais são as vantagens e desvantagens de cada sistema? (m) Quaisquer que sejam os métodos de prestação de serviços para casos criminais. como? (i) Que tipos de critérios para definição de carência econômica são previstos para elegibilidade nos casos criminais? (j) Que tipos de critérios para definição de carência econômica são previstos para elegibilidade nos casos cíveis? (k) Quem controlará a observância dos critérios de carência econômica e a avaliação do mérito da questão jurídica para cuja solução/ esclarecimento se busca assistência jurídica gratuita? Os próprios prestadores dos serviços serão confiáveis para realizar tais controles ou tal certificação ficará sob o encargo de terceiros? (l) Como é prevista a prestação dos serviços na esfera criminal? A opção é por advogados privados. que certamente não foi mencionada expressamente pelo autor visto que. .: nesta categoria estaria inserida a instituição da Defensoria Pública (tal como concebida no Brasil). de T. eles reúnem os determinantes caracterizadores de bons serviços propostos no presente estudo? (n) Como é prevista a prestação dos serviços na esfera cível? A opção é por advogados privados. organismos jurídicos comunitários. alguma modalidade de agência ou instituição pública estatal4 ou algum outro modelo? (o) Que órgão estatal gerenciará/administrará os serviços jurídicos gratuitos financiados com dinheiro público? (p) Como serão definidas as responsabilidades por gerenciamento e fixação das linhas e diretrizes políticas? (q) Qual departamento/órgão governamental será responsável pela fixação das diretrizes políticas dos serviços de assistência jurídica e como se garantirá que tal organismo disporá de informações sobre a eficácia da implementação dessas diretrizes na efetiva prestação dos serviços ao público destinatário? 4 N. no ambiente cultural anglo-saxão. profissionais assalariados.

/dez. Tenho consciência de que. os Estados Unidos e o Reino Unido têm diferentes experiências apesar de ambos serem países integrantes do sistema denominado de commom law. No Reino Unido os serviços são prestados. é largamente ausente no Reino Unido. em contrapartida. Os Estados Unidos têm utilizado majoritariamente o modelo de advogados assalariados. em diferentes países é influenciada pela cultura e pela história local. os serviços de assistência jurídica na área cível têm sido vistos. custeados com recursos públicos. Muitos países com sistemas bem desenvolvidos de serviços de assistência jurídica gratuita custeados com recursos públicos tendem a acreditar que eles têm o melhor modelo. 2 jul. pelo menos em parte. na Europa Central e Oriental. Por exemplo. por advogados privados. com vínculo empregatício junto a organizações não estatais de assistência jurídica e organizações estatais de defensoria pública. 2011 (r) Quais serão os mecanismos do órgão gestor para prestar contas à sociedade a respeito de sua atuação? (s) É considerada importante a cooperação dos integrantes das profissões jurídicas já existentes e. Um certo número deles talvez até possa ter . como se obterá isso? (t) Que medidas são previstas para garantir a qualidade na prestação dos serviços de assistência jurídica? (u) Como se assegurará que as diretrizes políticas dos serviços de assistência jurídica estejam integradas em uma mais ampla política de acesso à justiça? (v) Qual o tamanho do orçamento disponível? E como se demonstrará que o custo-benefício do serviço está sendo adequado? 2. Diferentes experiências geram diferentes preconceitos e. INTRODUÇÃO A organização dos serviços de assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes. Nos Estados Unidos. predominantemente.Ano 4 n. diferentes prioridades na prestação dos serviços e diferentes preferências no tipo de serviços a serem prestados. de certa forma. haverá diferentes tradições que ditam diferentes níveis de recursos disponíveis. em caso afirmativo.12 Revista da Defensoria Pública . São bastante diversificados os modelos adotados em cada parte do mundo. uma base de sustentação muito “paroquial” para o modelo local. dentro de um contexto altamente politizado que.

outrora. o que vem suscitando preocupação da entidade estatal responsável pelo gerenciamento do serviço – a LSC. recursos têm sido radicalmente cortados na Austrália. mas sim a possibilidade de maximização da relação de custo-benefício. como era o caso de New South Wales e Victoria. dadas as circunstâncias peculiares à realidade de cada país. Pode-se dizer. porém. ou seja.. a Suécia e outros. Nos anos de 1970. nos seguintes termos: Estamos colhendo informações (. A strategy for Justice.5 Por volta dos anos de 1990. os EUA. advogados ingleses têm feito ameaças de não mais autuar nos serviços de legal aid. Entre eles estariam a Holanda. 1992. .. a Escócia. infelizmente. a prática é muito diferente nessas jurisdições.) no sentido de que de cinquenta por cento dos escritórios de advocacia estão seriamente considerando a possibilidade de cessar ou de reduzir significativamente os serviços prestados para clientes beneficiários do legal aid (em que a remuneração 5 Ver: LEGAL ACTION GROUP.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 13 essa percepção com algum grau de razoabilidade – especialmente se eles dispõem de alguma folga de recursos destinados para tais despesas. eram considerados bem aquinhoados nesse aspecto. A lição que se pode extrair é que não há uma “resposta certa”. mesmo dentre os países que mantinham um bom nível de dotação de recursos para a assistência jurídica. o Estado canadense de Ontário. os critérios de elegibilidade para o cidadão se valer de tais serviços e os recursos estatais disponíveis para seu custeio tinham caído tanto que a cobertura era relativamente mínima. os advogados que atuam na assistência jurídica no Estado de Ontário (Canadá) têm estado recentemente em litígio com o governo por causa do problema da remuneração. o Estado canadense de Quebec provavelmente tinha o melhor sistema de assistência jurídica gratuita do mundo. Isso é. Legal Services Comission – circunstância que foi objeto de expressa referência em um de seus relatórios anuais. Todavia. Muitos. Advogados holandeses chegaram a entrar em greve. a Inglaterra e o País de Gales. que há apenas uma constante: bons serviços de assistência jurídica gratuita públicos correspondem sempre a níveis altos de disponibilização de recursos financeiros. tiveram de enfrentar a revolta de profissionais jurídicos prestadores dos serviços que reclamavam por considerarem que os níveis de sua remuneração tinham caído para níveis inaceitavelmente baixos. Do mesmo modo. impossível de se escapar. reduzindo a prestação do serviço mesmo em estados que.

Ano 4 n. parágrafo 2. Annual Report 2001/2002. N. p..14 Revista da Defensoria Pública . não existia uma instituição estatal específica para gerenciar o sistema de legal aid na Inglaterra.: o autor está se referindo ao evento no âmbito do qual foi apresentada a palestra cujo teor corresponde ao presente texto. ficando tal responsabilidade sob o encargo da Law Society. LEGALSERVICES COMMISSION. mais ou menos correspondente à OAB no Brasil. 2011 devida a tais escritórios é feita com recursos públicos custeados pela LSC). 6 7 8 9 .) barreiras de modo bastante amplo. suscitando questionamentos que atingem a completa gama de instituições. Uma Cf. Sijthoff and Noordhof. “acesso à justiça” foi desenvolvido como um conceito-chave no final dos anos de 1970 por aqueles que argumentaram que apenas destinar mais dinheiro para serviços de assistência jurídica seria uma resposta muito reducionista (estreita) para superação da injustiça..7./dez. originariamente. ACESSO À JUSTIÇA Há ainda outro ponto preliminar a ser considerado. 124. procedimentos e pessoas que caracterizam nosso sistemas judiciais”. Access to Justice: Volume 1. 1978. por muitos anos.6 O preço de manter bons serviços nesse campo é a eterna vigilância contra compreensíveis pressões do governo para reduzir ou manter custos. que é a entidade de classe dos advogados. N. 2 jul. O não atendimento desse requisito foi.: Durante muitos anos. Dois deles escreveram o prefácio de um importante livro contendo um estudo de âmbito mundial a respeito da garantia do acesso à justiça explicando: “O enfoque do acesso à justiça busca enfrentar (. Esse evento7 tem como temática de fundo a ideia de “acesso à justiça”.8 A ideia de uma abordagem de acesso à justiça tem uma lição concreta em termos da missão própria conferida ao órgão estatal responsável pelos serviços de legal aid. 3. CAPPELLETTI & GARTH. de T. de T. Deve ter uma perspectiva suficientemente ampla para encorajar uma visão o mais abrangente possível dos serviços que deve prover. uma deficiência no gerenciamento de serviço de legal aid que estava sob a responsabilidade da Law Society9 na Inglaterra e no País de Gales. House of Commons 949. É importante destacar que.

Isto foi. mudou as disposições administrativas dentro da delegacia de polícia. A ênfase na perspectiva de garantia de efetivo acesso à justiça relativamente aos serviços de legal aid é um modo de se ter presente que estes devem ser considerados sempre em conjunto com a questão processual e. Essa legislação regulamentou e delimitou os poderes da Polícia de manter preso um suspeito antes da instauração formal do processo penal. e também introduziu a obrigatoriedade de custeio de despesas com pagamento de advogados para prestar assistência jurídica aos indiciados nas delegacias de polícia na fase em que ainda não estivessem formalmente submetidos a processo judicial. 4. uma das leis mais importantes do direito britânico em relação à justiça criminal foi a Lei de Provas Criminais e Policiais. Por exemplo. por meio do estabelecimento de um “código de conduta” a ser observado pelos policiais. introduziu a obrigatoriedade de gravação das entrevistas para oitiva de pessoas (o que inicialmente sofreu oposição da polícia. do ano de 1984. de modo exemplar. quase que um “manual” de legislação.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 15 importante fonte de referências comparativas quanto à prestação de outros serviços governamentais pode ser obtida com monitoramento desse tipo de assunto relativamente a casos de financiamento (dos serviços de legal aid) custeado pelos cofres públicos. efetivamente. disciplinou ainda a realização de interrogatórios e o tratamento a ser dado aos suspeitos na fase pré-processual. tenha suscitado ampla e intensa controvérsia (na opinião pública). para administrar os serviços de assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes custeados com recursos públicos. mas posteriormente passou a ser positivamente apreciada). A vantagem de tal formato é que isso ajuda a preservar a independência da tomada de decisões nos casos individuais e assegura distanciamento do governo de ataques políticos em casos que são controversos. com o direito material. A Holanda foi uma das últimas grandes . GERENCIANDO O SERVIÇO DE LEGAL AID: A IMPORTÂNCIADA EXISTÊNCIA DE UMA COMISSÃO/CONSELHO/INSTITUIÇÃO Muitos governos têm considerado útil estabelecer um órgão intermediário. mas formalmente independente do governo. a concessão de assistência jurídica a uma pessoa acusada de uma série de assassinatos/crimes hediondos. no momento em que foi editada. que seguiu. na verdade. estreitamente relacionado. por exemplo. a abordagem holística de “acesso à justiça” – embora.

Muitas províncias no Canadá possuem dispositivos legais similares. 2 jul.10 Na composição do Conselho (Legal Aid Board) se incluíam assentos vinculados a várias categoriais diretamente envolvidas na atividade de assistência jurídica.millbanksystems. Uma comissão (Comission) ou conselho (Board) é um mecanismo largamente difundido para o gerenciamento dos serviços de legal aid. do Parlamento Britânico. na Inglaterra. O “modelo de comissão” supõe a existência de: um departamento governamental (da administração direta) responsável pela destinação de 10 Ver Hansards. o Conselho (Board) foi substituído pela Comissão de Serviços Jurídicos (Legal Services Commission) criada pela Lei de Acesso à Justiça do Ano de 1999. 2011 jurisdições a criar Conselhos Regionais autônomos (para gerenciamento dos serviços) de legal aid. de T. não criminais). Sucessivamente. o acesso ao conteúdo dos debates está disponível on-line./dez. A Província canadense do Quebec tem sua “Comissão de Serviços Jurídicos” (Commission des Services Juridiques) que segue o modelo da Corporação de Serviços Jurídicos norte-americana – a Legal Services Corporation (embora esse organismo somente atue no custeio de assistência jurídica gratuita em matérias cíveis. as três jurisdições nacionais internas (Inglaterra/País de Gales. Contudo. onde o serviço de legal aid era gerenciado pela corporação profissional dos advogados até ser transferido para a entidade pública Legal Aid Ontário. O mesmo se dá na Austrália. os órgãos de representação profissional (das carreiras jurídicas). A África do Sul possui um Conselho de Assistência Jurídica (Legal Aid Board). por meio da Lei de Serviços de Assistência Jurídica do ano de 1998. colection 607. Escócia e Irlanda do Norte) estavam entre as primeiras a estabelecerem esquemas nacionais de legal aid logo depois da Segunda Guerra Mundial: eles eram inicialmente administrados pelas Law Societies (as corporações profissionais que congregam os profissionais da advocacia) que tinham concebido a ideia.) . HL (House of Lords) Debates 15. a Law Society foi substituída por um Conselho de Assistência Jurídica (Legal Aid Board) pela Lei de Assistência Jurídica do ano de 1988 pela qual se pretendia “alcançar um papel estratégico central para os serviços de legal aid”. No Reino Unido. O Estado canadense de Ontário. no ano de 1994.: a referência do autor diz respeito aos debates ocorridos na “Casa dos Lordes”.Ano 4 n. particularmente. December 1987.16 Revista da Defensoria Pública . pode ter sido o último a mudar.com/lords/1987/dec/15/legal-aid-bill-hl. no seguinte endereço [consultado em 11 de janeiro de 2011]: http:// hansard. por ocasião da discussão do projeto de lei que criava o Legal Aid Board. (N. ou melhor.

o Lorde Chanceler deve ter em conta que é desejável que se assegure que a Comissão inclua membros que (dentre eles) tenham experiência em ou conhecimento a respeito de: (a) prestação dos serviços os quais cabe à Comissão custear como parte do Serviço Comunitário Jurídico [expressão que se refere especificamente à assistência jurídica em questões cíveis. . como foi o caso da Inglaterra. Mas o Lorde Chanceler [Ministro de Justiça] pode por ordem [mudar quaisquer desses números]. durante o período de existência do Legal Aid Board. (b) a atividade jurisdicional. que fica responsável pela implementação dessa política em um âmbito de extensão maior ou menor conforme as circunstâncias locais. civil legal aid] e do Serviço de Defesa Criminal [que corresponde à assistência jurídica em questões criminais. do ano de 1999 são bons exemplos de amplos poderes dados ao Ministro de Estado a quem compete a respectiva nomeação: A comissão deve ser composta de: (a) não menos que sete membros. de uma comissão independente. e o Lorde Chanceler nomeará um dos membros para presidir a Comissão. embora nomeada pelo ente governamental. pela referida comissão. de profissionais (encarregados da prestação dos serviços propriamente ditos) os quais serão pagos. As regras estabelecidas na Lei inglesa de Acesso à Justiça. (d) realidade das condições sociais. Outros países adotam critérios mais discricionários. ou seja. criminal legal aid].Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 17 recursos e definição das diretrizes políticas a serem seguidas. ou seja. direta ou indiretamente. Alguns estabelecem assentos reservados para grupos vinculados às profissões jurídicas ou à clientela específica envolvidas na prestação do serviço. Ao nomear pessoas para serem membros da Comissão. prestada pelos tribunais. Os países que adotam esse modelo possuem diferentes visões sobre o modo a ser observado para nomeação dos membros da comissão ou do conselho respectivo. (c) questões e problemáticas relativas ao consumidor. Os membros da Comissão serão nomeados pelo Lorde Chanceler. e (b) não mais que doze membros. e (e) gerenciamento.

Uma abordagem mais estrita é evidente no Conselho Israelense da Defensoria Pública o qual tem cinco membros: o Ministro de Justiça. 2. que será o presidente do conselho. 2 jul. para organizações de defesa de consumidores. um advogado criminal selecionado pela Associação Nacional de Advogados.18 Revista da Defensoria Pública . um Juiz aposentado da Suprema Corte.Ano 4 n. 2011 O ponto de maior destaque quanto à representação direta de categorias diretamente envolvidas nos serviços de assistência jurídica provavelmente se deu nas Comissões de Legal Aid dos Estados australianos de New South Wales e Victória. um advogado criminal nomeado pelo Ministro de Justiça com o consentimento do Presidente da Associação de Advogados e um professor universitário de direito criminal. em meados dos anos de 1990. Suas respectivas Constituições estabeleciam lugares para as corporações profissionais jurídicas. 3. Cinco pessoas selecionadas pelo Procurador Geral de uma lista de pessoas indicadas pela Law Society. com membros nomeados pelo governo com menores restrições (quanto à vinculação a determinadas categorias). Um modelo intermediário que conjuga a prerrogativa do poder executivo de nomeação (dos membros do conselho/comissão) com um certo grau de interveniência da entidade representativa dos profissionais jurídicos pode ser observado no caso do Conselho de Assistência Jurídica de Ontário. contudo. para centros comunitários de serviços jurídicos. conforme segue: 1. suprimidas e foram substituídas por organismos menores. Cinco pessoas indicadas (livremente) pelo Procurador Geral. Um dos membros. ou seja. o Tesoureiro da Law Society ou uma pessoa por ele(a) (livremente) designada e mais uma terceira pessoa cujo nome será definido em consenso pelo Procurador Geral e pelo Tesoureiro da Law Society ou por pessoas por eles designadas para tal mister. o Legal Aid Ontario (a Law Society da região do Alto Canadá é a entidade representativa dos advogados da província de Ontario): O Conselho de diretores da entidade responsável pela Assistência Jurídica (na Província de Ontário) será composto de pessoas nomeadas pelo Vice-Governador em regime de compartilhamento. será selecionado pelo Procurador Geral de Justiça (Attorney General) dentre uma lista de pessoas indicadas por um comitê instituído pelo Procurador Geral ou uma pessoa por ele(a) (livremente) designada. Ambas foram./dez. . etc.

O engajamento da entidade representativa dos advogados tem. Tem havido. Em segundo lugar. uma certa “rivalidade” na Inglaterra entre a Comissão/ Conselho de Assistência Jurídica (ou seja. de uma forma elementar de serviço de assistência .Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 19 5. pode haver circunstâncias quando os membros da comissão não tenham sido nomeados pela legislatura ou pelo governo vigente e isso pode gerar divergências. Há duas áreas potenciais de atrito. ao longo do tempo. genuinamente criativa. Primeiramente. Houve um momento difícil nos Estados Unidos quando os membros da Legal Services Corporation (que é responsável. MEMBRO (DO CONSELHO DE ASSISTÊNCIA JURÍDICA) SEM DIREITO A VOTO: O presidente do respectivo colegiado (Comissão ou Conselho de Assistência Jurídica) normalmente não terá direito a voto. O departamento governamental (Ministério ou Secretaria de Estado) tem uma visão ampla dos objetivos do governo. nunca chegou a atingir um nível tal em que não se pudesse legitimamente considerar como uma (saudável) tensão. em nível nacional pelos serviços de assistência jurídica na área cível) tinham sido nomeados pela administração do Presidente Clinton. ajudado muito na implantação. Tal “rivalidade”. qualquer que seja o arranjo institucional de divisão de poderes entre o departamento governamental a que esteja vinculada a comissão/ conselho (e que seja responsável pelo repasse das verbas orçamentárias respectivas). a Legal Services Comission/ Legal Aid Board) a qual realmente tem atuado como verdadeiro motor para o desenvolvimento/aprimoramento da política de assistência jurídica ao invés do Ministério da Justiça. por exemplo. mas menos conhecimento das especificidades da área. apesar da recente tendência que se verifica nos países que contam com sistemas considerados mais bem desenvolvidos de serviços legal aid no sentido de superação/rejeição desse modelo. O “modelo de (gerenciamento da assistência jurídica por meio de) comissão” funciona relativamente bem. pode haver um grau de rivalidade entre eles. pelo menos. mas tiveram que enfrentar o antagonismo do legislativo (que não comungava das diretrizes políticas do Presidente). Pode haver países onde seja considerado útil manter o envolvimento da entidade representativa dos profissionais jurídicos (especificamente a corporação dos advogados) no gerenciamento dos serviços de assistência jurídica. porém. A comissão sempre tem a vantagem de estar perto dos avanços e demandas da área específica da assistência jurídica gratuita porque é um sistema de microgerenciamento.

Nos Estados Unidos. Em outros Estados. no Estado de Oregon. tal encargo (inclusive com autonomia financeira) fica sob a responsabilidade da Defensoria Pública (Office of the Public Defense) vinculado ao Poder Executivo. responsabilidade para serviços de assistência jurídica na área criminal não se encaixa facilmente na doutrina de separação de poderes dentro do Legislativo. Por exemplo.20 Revista da Defensoria Pública . é a Chancelaria da Justiça (Lord Chancellor´s Department). Países que adotam o regime federativo. a questão fica na esfera do Judiciário. na província de Ontário e no governo federal canadense. no Estado de Washington. não fosse assim. 2011 jurídica num país em desenvolvimento como é o caso de Bangladesh. 6. enfrentam mais problemas relativamente a tais arranjos institucionais em virtude da divisão entre a esfera de responsabilidade pelo custeio orçamentário-financeiro e a esfera de responsabilidade pela definição das diretrizes políticas. 7. a Procuradoria-Geral de Justiça (Ministry of the Attorney-General). ambos são aproximadamente equivalentes ao Ministério de Justiça. concebendo-os como uma espécie de dever moral dos advogados. eles talvez não estivessem preparados para fazê-lo.Ano 4 n. Tal entidade tem encorajado os advogados a prestarem serviços (de assistência jurídica aos hipossuficientes) a um preço bastante baixo. 2 jul. ASSISTÊNCIA JURÍDICA: A QUE MINISTÉRIO/DEPARTAMENTO GOVERNAMENTAL VINCULÁ-LA? Esse é um dos pontos que suscita preocupação nos governos. Executivo e Judiciário e há alguma variação de prática. o quadro é diferente. como aquela que vigora em Seattle./dez. Na Inglaterra e no País de Gales. RESPONSABILIDADES GOVERNAMENTAIS (QUANTO À ASSISTÊNCIA JURÍDICA) DETERMINADAS PELA CONVENÇÃO EUROPEIA DE DIREITOS HUMANOS A prestação de serviços de assistência jurídica em matérias criminais e em matérias cíveis costuma suscitar diferenciadas questões de ordem . Por exemplo. como Canadá e Austrália. sendo certo que há uma variedade de arranjos institucionais relativamente à definição quanto a qual departamento governamental deve ter a seu encargo a responsabilidade de definição das diretrizes políticas para os serviços de assistência jurídica (legal aid).

na Convenção. STARMER. publicada pela Editora Lumen Juris. ainda que imaginária. indica-se ao leitor o artigo “Estudo de Caso: a decisão ‘Airey v. Destarte.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 21 política. 11 12 . de autoria de Cleber Francisco Alves. pelo menos em teoria. criação de um Serviço de Defensoria Criminal separado e um Serviço Legal Comunitário (Community Legal Service). Keir. particularmente.A assistência Jurídica Gratuita nos Estados Unidos. todos os países europeus devem ter sistemas de assistência jurídica gratuita para casos criminais. (b) Admite-se que haja uma verificação de efetiva situação de carência de recursos para dispor de assistência jurídica gratuita criminal. Ireland’ e sua importância na afirmação do Direito de Acesso à Justiça no continente europeu”. 2006)). Número 20. IRELAND (1979-1980) 2 EHRR 305 (N. embora isso tenha sido reconhecido como implícito pela Corte Europeia de Direitos Humanos. 1999. Não há dispositivo equivalente. a diferença é indicada pela. se a pessoa não tiver meios suficientes de pagar por tal assistência. Pode ser oportuno esclarecer as implicações dessa análise da Convenção Europeia: (a) Assistência Jurídica Gratuita Criminal deve estar disponível para a defesa de todas as infrações penais qualificadas efetivamente como crimes. de autoria de Cleber Francisco Alves. 365.: para melhor compreensão dessa dicotomia do modelo americano. Legal Action Group. a que lhe seja dada gratuitamente quando os interesses de justiça assim o indicarem. Nos Estados Unidos.11 No Reino Unido. p. de T. N. as exigências do seu Artigo 6(3) e. do item 6(3)(c). publicado na Revista de Direito da Defensoria Pública do Rio de Janeiro (Ano 19. quer por se tratar de caso em que a representação por advogado seja considerada compulsória (em que não se atribua à parte leiga capacidade postulatória) ou em razão da “complexidade do procedimento ou do caso”12. AIREY v. tais serviços geralmente são prestados de maneira completamente distinta e separada. Todos os países europeus que são signatários da Convenção Europeia de Direitos Humanos terão de respeitar e fazer cumprir. o leitor poderá consultar a obra “Justiça para todos! . de T.: sobre o célebre caso Airey. que já decidiu nesse sentido: nos casos em que a assistência de um advogado seja “indispensável para o efetivo acesso à prestação jurisdicional”. para casos cíveis. que assim dispõem: Todos os (que forem formalmente) acusados pela prática de crimes têm os seguintes direitos mínimos: defender-se pessoalmente ou através de assistência de advogado de sua própria escolha ou. na França e no Brasil”. European Human Rights Law.

(c) Um réu que não possuir meios suficientes receberá assistência jurídica criminal gratuitamente e sem pagamento de quaisquer espécies de contribuições (havia uma prática inglesa que foi. os que estudam esse tema têm dividido os modos de prestação dos serviços nessas três tradicionais modalidades: staff model. (c) profissionais empregados por uma organização independente de prestação de serviços de assistência jurídica gratuita. modelo que é conhecido como staff model. entretanto. países com avançados sistemas de legal aid. ser ela mesma a responsável pelo custeio do serviço (com recursos provenientes diretamente dos cofres públicos). 2011 de modo que é possível a recusa se um réu possuir meios econômicos suficientes. até recentemente. em questões criminais. uma violação a esse preceito). ou não. frequentemente referido como “advogado interno” (ou in-house duty counsel). Todavia. 8. inúmeras variações e combinações nesses três modelos. têm sido atraídos para um “modelo misto” de prestação . Primeiro. (d) Deve haver assistência jurídica gratuita em casos cíveis nos casos em que seja efetivamente indispensável. Há. de acordo com as realidades e especificidades culturais de cada país e disponibilidade de recursos. Historicamente. ASSISTÊNCIA JURÍDICA GRATUITA CRIMINAL: COMO PRESTAR ESSE SERVIÇO Serviços de assistência jurídica gratuita custeados com recursos públicos./dez. As principais alternativas são: (a) advogados privados – empregados na modalidade “caso a caso” e frequentemente conhecidos pela expressão norte-americana “judicare”. advogados assalariados e judicare.Ano 4 n. podem ser prestados de diferentes formas. 2 jul. crescentemente.22 Revista da Defensoria Pública . admitindo-se uma avaliação tanto de carência de recursos quanto a respeito do mérito (análise da viabilidade da pretensão jurídica do interessado em obter a assistência jurídica). isto vem se tornando mais complicado por duas razões específicas. como Canadá e Inglaterra/Gales. (b) advogados assalariados empregados pela autoridade/comissão/ entidade encarregada de prestar os serviços de legal aid. chamada de Defensoria Pública que pode.

digamos. há desvantagens em um modelo misto. “resposta certa” para a questão relativa ao modo de prestação desses serviços.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 23 dos serviços incorporando elementos de mais de um ou de todos os três (modelos tradicionais). os escritórios de defensores públicos receberam apenas uma pequena porção dos casos (por se tratar de projeto experimental). recentemente. Contudo. adicionalmente. Estas se estruturam em pequenos grupos de advogados assalariados. tem havido um crescente interesse em um modelo de contratação de serviços com uma variedade de diferentes entes prestadores. Isso também propicia elemento de competição entre prestadores do serviço. a Comissão Inglesa de serviços de assistência jurídica gratuita custeados com recursos públicos se vale de uma variedade de mecanismos de prestação de serviços na área de casos cíveis (não criminais). Efetivamente. Segundo. contrapondo custos e benefícios (quanto à efetividade). implementaram um projeto piloto de organização de Defensoria Pública. Nos locais onde o judicare (serviço prestado por advogados particulares) é bem estabelecido/consolidado a tentativa de implementação de outras formas de provimento do serviço pode ser politicamente conflituosa. Em ambas as jurisdições. . de dedicação integral. O fato é que não há uma. empregados diretamente pela Legal Services Commission (no caso da Inglaterra) ou pelo Legal Aid Board (no caso da Escócia). 9. Isso começou nos Estados Unidos que eram frequentemente (embora não sempre) criticados pelo fornecimento de serviços em um esquema de “baixo custo/baixa qualidade”. Nessas duas jurisdições. DIFERENTES MODELOS DE PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS: PRÓS E CONTRAS Cada modelo de prestação dos serviços de legal aid tem suas vantagens e. o modelo de contratação tem sido desenvolvido pela Comissão de serviços de assistência jurídica – Legal Services Commission – na Inglaterra e no País de Gales. mais precisamente como forma de aumentar a qualidade por incorporar critérios de garantia de qualidade nos respectivos contrato. (Apesar disso) tanto a Escócia quanto a Inglaterra. Isso dá aos governantes (especialmente legisladores) uma oportunidade de fazer uma checagem. tal iniciativa foi recebida com algum desdém e muita suspeita por parte dos advogados privados (que antes prestavam com exclusividade o serviço) relativamente a prestação dos serviços por defensores públicos.

pode ser difícil de controlar os custos. é geralmente a forma mais cara de prestação do serviço.13 efetivamente suscita maior envolvimento dos advogados privados no sistema de justiça criminal. . desse modo. Vantagens – a outorga do “benefício” (com a assunção da respectiva responsabilidade pelo custeio das despesas por parte do órgão gestor) é feita na base do caso a caso. reforça sua preocupação com as liberdades civis básicas e direitos humanos. encarregando-o de responder por um plantão junto a determinado 13 N.: parece que tal característica representa. 2 jul. na realidade. os quais assumem o encargo de representação.24 Revista da Defensoria Pública . pode viabilizar o direito de os réus escolherem seus próprios advogados e gerir a disponibilidade de representação. na base em caso a caso. tende a demandar uma grande burocracia para os procedimentos de aprovação e emissão dos certificados. de T. diretamente empregados pelo órgão gestor dos serviços de legal aid. 2011 As vantagens e desvantagens de diferentes tipos de provimento do serviço incluem: (a) JUDICARE Definição – o serviço é prestado por advogados privados (remunerados). (b) ADVOGADO INTERNO (In-house duty counsel) Definição – advogados integrantes de um staff./dez. o que permite um controle mais estrito (desses gastos). Vantagens – pode ser de bom “custo-benefício” nos casos em que um advogado possa ser designado para responder por um número significativo de casos de uma vez (em conjunto). sendo que frequentemente se emite (pelo órgão gestor dos serviços) uma espécie de certificado (atestando que o cliente faz jus à assistência jurídica gratuita) e mediante o qual se assegura ao advogado o direito de receber sua remuneração (junto ao órgão gestor respectivo) pelo serviço prestado.Ano 4 n. por exemplo. Desvantagens – pode haver problemas de controle de qualidade se isso for deixado ao critério exclusivo dos advogados privados prestadores dos serviços. uma desvantagem.

pode suscitar dificuldades para os clientes em virtude de acarretar segmentação da representação entre diferentes advogados. no contexto jurídico anglo-saxão a ideia de Defensoria Pública costuma sempre estar associada estritamente á defesa criminal.: uma espécie de “idealismo institucional”) e assegurar a prestação de excelentes serviços que vão além da dimensão estritamente judicial. Desvantagens – pode suscitar sentimento de baixa autoestima na atividade profissional.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 25 órgão jurisdicional onde haja uma sobrecarga (de casos patrocinados em regime de assistência jurídica gratuita). de modo repetitivo e acomodado) em lugar de uma representação de “alta qualidade” (ou seja. a uma postura burocrática. de T. (c) DEFENSORES PÚBLICOS Definição – a prestação de serviços é feita por advogados assalariados. de T. empregados pelo órgão gestor dos serviços de legal aid ou por outras agências/instituições (governamentais) os quais ficam incumbidos da representação completa/integral dos acusados. raramente atrai as verdadeiras “estrelas” (ou seja. em termos de “custo-benefício”. Desvantagens – pode suscitar problemas de qualidade por causa do “baixo status” e pouco interesse por esse tipo de trabalho (ou seja. de T. 4 supra. é difícil a atribuição de incentivos para rapidez e eficiência. pode levar à representação “rotineira” (ou seja. relativamente ao judicare. os profissionais de maior brilho/projeção) que atuam na área da defesa criminal os quais preferem trabalhar fora do ambiente burocrático (estatal). . pode ficar sujeito a destinação muito baixa de recursos financeiros.14 Vantagens – pode ser vantajoso. contratação para atuar em regime de “plantão”). a uma postura combativa e criativa). talvez não seja tão mais barato que o modelo do judicare se for devidamente financiado.: conforme esclarecido na N. (d) SERVIÇOS CONTRATADOS Definição – serviços prestados por profissionais advogados ou por organizações empregando advogados sob regime de contrato com 14 N. é capaz de desenvolver um elevado “estado de espírito” (N.

Estes últimos são geralmente mais baratos. pode ser usado para fomentar serviços que. desde então. ou revivendo um antigo. a uma postura acomodada/repetitiva).: atente-se para o fato de que este texto foi originariamente escrito em 2002. são mais convenientes para executar relativamente casos rotineiros/repetitivos ou previsíveis porque podem lidar melhor dentro da burocracia. de outro modo. que tem uma longa história de compromisso com assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes prestada por um grande número de advogados privados. . Aqueles países que estão estabelecendo um novo sistema interno de assistência jurídica na área criminal. podem cogitar empregar advogados privados ou advogados assalariados. o sistema inglês vem sofrendo ajustes e modificações. O grande número de casos de transação penal (plea bargains) nos Estados Unidos em comparação 15 N. Alguns modelos de prestação dos serviços são mais aceitos em um país do que em outro. O importante critério determinante de como prestar os serviços (de legal AID) é o contexto cultural local. pode encorajar representação “rotineira” (ou seja. em geral.Ano 4 n. Serviços de defesa criminal na Inglaterra e no País de Gales são agora15 prestados pela forma de contrato com escritórios de advocacia e outros prestadores de serviços de qualidade aprovada. estariam indisponíveis. exceto talvez em áreas rurais onde o número de casos seja relativamente baixo. Advogados assalariados. 2011 a entidade oficial/governamental responsável pelos serviços de assistência jurídica. pode levar a baixa qualidade. qualquer dos três modelos acima. Vantagens – tem sido usado para aumentar a qualidade. Desvantagens – pode ser usado para abaixar os custos. Contudo.26 Revista da Defensoria Pública . Esse modelo faz sentido para Inglaterra. mas baseado em um orçamento aberto e sem restrição quanto aos números. se computado o custo por caso. mas precisa explicitar critérios de garantia de qualidade. Isso provavelmente parece muito complicado para um país que esteja começando a desenvolver esse tipo de prestação de serviços./dez. de T. 2 jul. dá ao prestador de serviço alguma certeza de remuneração. pode ser interessante atentar para as áreas nas quais a comissão inglesa de serviços de assistência jurídica (a Legal Services Comission) tem desenvolvido critérios de controle de qualidade. isto é. torna o controle de custo mais fácil.

a instituição denominada Defensoria Pública contrata os serviços de advogados privados. Na Inglaterra e na Escócia. Eles têm sido concebidos para ser um método de prestação dos serviços totalmente diferente do que era feito pelos advogados privados (no regime judicare). contudo. Pode significar coisas diferentes. tal cargo é bastante prestigiado correspondendo apenas com a advocacia de mais alto nível. Em New South Wales (Austrália). . a agência denominada Defensoria Pública geralmente significa uma organização dotada de autonomia/ independência que emprega advogados criminalistas em regime assalariado (e de dedicação integral). o defensor público é eleito pelo povo. alguma vantagem na utilização do trabalho prestado por advogados privados com o propósito de obter deles cooperação e apoio para esse serviço. escritórios de defensoria pública são pequenos grupos experimentais de advogados assalariados empregados pelo Legal Aid Board (Escócia) e pela Legal Services Commission (Inglaterra). Pode haver. QUALQUER QUE SEJA O SISTEMA DE PRESTAÇÃO ADOTADO Qualquer que seja o sistema de prestação de serviços utilizado.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 27 com o Reino Unido parece ser uma razão pela qual as organizações de defensoria pública têm prosperado nos Estados Unidos. Em São Francisco (EUA). Em Israel. os seguintes critérios determinantes para configuração do que possa ser considerado bons serviços de defesa criminal podem ser deduzidos de uma observação dos diversos modelos adotados: (a) alta qualidade de serviços tem como pressuposto um alto nível de disponibilidade de recursos (ver acima). mas só recentemente têm sido experimentadas no Reino Unido (embora uma outra razão seja a relativa predominância da atuação dos advogados privados no serviço de legal aid inglês). SERVIÇOS DE DEFESA CRIMINAL: INDICADORES DE QUALIDADE. Em muitos Estados norte-americanos e no âmbito federal nos Estados Unidos. Uma certa cautela é necessária para o sentido da expressão “defensor público”. 10. (b) a opção pelo regime de contrato de prestação de serviços é mais conveniente para dar conta de casos rotineiros/repetitivos e apresenta a tendência de que os serviços sejam prestados quase que “mecanicamente”.

16 11. delimitação de volume máximo de casos (sob o encargo de um determinado prestador de serviço. deve-se tomar cuidado para proteger os profissionais prestadores dos serviços de indevida interferência política ou exposição perante a mídia./dez. Roger. (d) desembolsos relativos a outras despesas e honorários de especialistas/peritos devem ser custeados por um fundo de financiamento distinto/separado daquele utilizado para custeio das despesas de com remuneração dos advogados. (i) existem diferentes visões/perspectivas sobre os direitos dos clientes de escolher seu advogado. 2 jul. compatível com suas possibilidades de responder pelo trabalho respectivo). (g) deve-se tomar cuidado para evitar/resolver situações relativas a possíveis conflitos/colidências de interesse (entre os acusados defendidos pelo mesmo prestador de serviços). talvez. Legal Aid Group. 2011 (c) os melhores sistemas incorporam “mecanismos de escape” para viabilizar o atendimento (com qualidade adequada) nos momentos em que se enfrente sobrecarga de trabalho. (f) deve haver padrões objetivos de controle de qualidade e. em particular. 1998. para atendimentos nas seguintes áreas: 16 SMITH.Ano 4 n.28 Revista da Defensoria Pública . CIVIL Os sistemas de assistência jurídica na área cível tendem a oferecer cobertura. . Legal Aid Contracting:lessons from North America. (h) igualmente. Essas são lições tiradas especialmente de um estudo de alguns sistemas de assistência jurídica na área criminal na América do Norte no final dos anos de 1990. (e) os melhores resultados requerem um ambiente cooperativo entre a agência estatal responsável pelo custeio dos serviços e os respectivos profissionais com o encargo de prestá-lo. (j) um forte apoio dos operadores jurídicos é indispensável para defender serviços de assistência jurídica gratuita contra cortes em recursos orçamentários/financeiros e contra indevida ingerência política.

pelo menos até recentemente. educação. historicamente não havia financiamento público para custeio de assistência jurídica para esse tipo de processos de “interesse público” – embora houvesse a possibilidade de um litigante individual ter um caso particular de significativo interesse público (com forte impacto/repercussão de ordem coletiva). encarregado de deliberar sobre pedidos de assistência jurídica especificamente para esse tipo de processos. o conjunto de leis. cujas decisões são publicadas no site da comissão. uma definição do que seria o chamado “poverty law” pode ser encontrada no site da Faculdade de Direito da Universidade Georgetown (www.17 Uma questão peculiar emerge relativamente aos processos judiciais de “interesse público” (‘public interest’ litigation). No Reino Unido. (b) questões/reclamações em matérias de direito público. (c) questões/reclamações em matérias de direito privado. habitação.: não temos. há um comitê especial da Legal Services Commission. certas situações pelas quais se toma um determinado caso individual (leading case) para criar um precedente de interpretação de determinadas normas jurídicas. de T. Nesse “ramo” estariam abrangidas questões jurídicas relativas a benefícios assistenciais e sociais na área da saúde. incluindo divórcio e violência doméstica. . direito do idoso. seguridade social. da infância e da juventude. ll. expressões equivalentes para designar tais “áreas” do direito. ou até para sua mudança. regulations and cases that apply particularly to the financially poor in this or her day-to-day life” (ou seja. 17 N.edu/guides/poverty. essa estratégia tem sido considerada. por causa da história de serviços de legal aid nos anos 1960. isto é. A Inglaterra agora possui regras que permitem a concessão de assistência jurídica especificamente voltada para casos de alto interesse público (questões de direito coletivo). como a função mais importante dos serviços de assistência jurídica na área cível (apesar de que tal postura tenha causado intenso e feroz debate político sobre o papel do Estado no financiamento desse tipo de causas). no Brasil. na sua vida cotidiana). de “direito administrativo” e de “direito do bem estar social”. especialmente o chamado “direito da pobreza”. (d) questões em matérias do chamado “direito da pobreza” (literalmente poverty law).cfm) nos seguintes termos: “the legal statutes. regulamentos e casos judiciais que se aplicam particularmente aos financeiramente pobres. a garantia de observância dos direitos assegurados pela Convenção Europeia de Direitos Humanos.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 29 (a) família. por exemplo. Nos Estados Unidos. para reparação de danos pessoais. com intuito de trazer benefícios especificamente para os mais pobres. etc. questões trabalhistas.georgetown. por exemplo.

uma das mais impressionantes organizações não governamentais especializadas nesse tipo de advocacia do mundo. 18 N. apesar de continuar sendo concedida para partes que estejam litigando sobre questões como guarda de menores e pensão alimentícia. esse tem sido o caso na Holanda. 2011 Uma forma muito eficiente de propiciar recursos financeiros para custear ações judiciais de interesse público (tutela coletiva) nos locais onde seja escassa a disponibilidade de fundos seria a destinação de tais recursos para determinada agência/entidade de significativa importância (key agency) que ficaria encarregada de desincumbir-se dessa função. Austrália e na província canadense de Ontário. Outros sistemas. 2 jul.30 Revista da Defensoria Pública . particularmente aqueles em que o serviço é prestado prioritariamente em centros jurídicos comunitários (community legal centres) de uma forma ou outra. por exemplo. nos casos em que for dispensável a assistência por advogado. os serviços de assistência jurídica na Inglaterra eram focados em questões de direito privado e de família. Contudo. Os tipos de casos judiciais de direito de família em que é exigida a representação das partes por advogado variam de acordo com a lei e com procedimentos locais18 Assim. nos últimos tempos. estão se reorientando em direção aos casos relativos a questões de benefícios sociais e direito público. no Conselho de Assistência Jurídica da África do Sul (South African Legal Aid Board) que repassa recursos financeiros para a ONG “Centro de Recursos Legais” (Legal Resources Centre).Ano 4 n. na Inglaterra e no País de Gales foi suprimida a assistência jurídica gratuita para os casos de divórcio no final dos anos de 1970. embora alguns tenham tentado transferir tais litígios (da jurisdição cível) para a jurisdição criminal. A necessidade por assistência jurídica relativamente a tais categorias será bem diversificada conforme as realidades locais e as circunstâncias do momento histórico. Assim. costuma-se dar mais atenção ao casos ligados aos direitos do bemestar social (social welfare law). convertendo esse tipo de casos em hipóteses de ação penal pública (mandatory prosecution). será difícil denegar representação legal. de T. Alguns países podem exigir a representação por advogado para um processo judicial de divórcio: outros não.: o que o autor parece querer indicar aqui é que. prestada por advogado. Tradicionalmente. poderá ser também dispensável a garantia de assistência jurídica gratuita. . custeada pelo poder público. Isto é o que ocorre. para casos de violência doméstica./dez. Em quase todos os países.

Como resultado. proibido. Alguns têm 19 N. assim. até recentemente.: nos Estados Unidos. Por isso. (diferentemente dos Estados Unidos) na Inglaterra se adota o sistema de imposição ao perdedor dos ônus sucumbenciais (ou seja. Um aspecto em que os casos cíveis se diferem bastante dos casos criminais é a circunstância de que um cidadão enfrentará maiores dificuldades para identificar/se dar conta de que tem direitos a serem efetivados/garantidos. Além disso. não terá que fazer qualquer desembolso financeiro. a parte que perde a causa tem que pagar ao vencedor todas as despesas gastas com o processo). sem recursos para contratar um advogado. é permitido na Inglaterra o regime de “cláusula de sucesso” (em que o advogado estabelece com o cliente que. em casos que envolvam danos pessoais. de T. terá direito a um percentual mais elevado do valor da causa a título de honorários). tem-se uma combinação dessa sistemática de “cláusula de sucesso” com a possibilidade de contratação de uma espécie de “seguro jurídico” pelo qual um litigante pode contratar a cobertura de potenciais despesas que venha a ter que arcar em decorrência de sucumbência em processo judicial (e em alguns casos abrange também a cobertura de despesas processuais e advocatícias custeadas pelo próprio contratante do seguro). Isso permite que – nas causas em que haja expectativa de retorno financeiro – as pessoas pobres. . não se impõe ao perdedor a obrigação de pagar ao vencedor as despesas que tenham sido gastas no processo. em geral. Os diversos países possuem diferentes formas de lidar com essa questão. pela qual se ajusta que os honorários somente serão pagos em caso de êxito na causa. Na Inglaterra.19 De qualquer modo. em caso de êxito. esse tipo de cláusula de fixação de honorários era. circunstância que desestimula/inviabiliza a utilização do sistema de contingency fee. tenham acesso ao Judiciário por meio de advogados particulares que se disponham a atuar sob esse regime. Essa nova conjuntura tem se tornado mais frequente e são agora uma importante fonte de renda para advogados particulares. visto que a parte que tiver ajustado com seu advogado a cláusula de contingency fee. por exemplo. Isso é muito comum nos Estados Unidos para causas judiciais em que haja perspectiva de condenação em dinheiro. os “riscos” de litigar são menores. se não obtiver o êxito esperado. há necessidade de se assegurar a prestação de serviços de informação e aconselhamento jurídicos além de representação/patrocínio em Juízo.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 31 Em alguns países se permite que os advogados particulares adotem o regime de contingency fee (espécie de “cláusula de quota litis” ou variações delas).

no ano de 1995. de autoria de Roger Smith. escrito por Gordon Hardy. o artigo “Pioneers in public legal education”. publicado pelo Legal Action Group. A referida “comissão” deve propiciar: (a) o provimento de informações gerais sobre os direitos e sobre o sistema jurídico e a disponibilidade de serviços de assistência judiciária gratuita. Uma tendência interessante. sobre esse assunto.20 Inglaterra e País de Gales apenas tardiamente se deram conta da necessidade desse tipo de atividade. (b) o provimento de auxílio/assistência fornecendo serviços de aconselhamento e orientação jurídica em certas circunstâncias. composição ou qualquer outro mecanismo de resolução de litígios e conflitos sobre direitos e obrigações. publicado no livro “Shaping the Future: new directions in legal services”. é a utilização da internet para que o público possa se informar sobre onde encontrar os prestadores de serviços de assistência jurídica gratuita e bem assim para obtenção de informações jurídicas preliminares básicas (para esclarecimento de dúvidas). 2 jul./dez. (c) o provimento de auxílio/assistência para prevenção. . recentemente. outra entidade – denominada People Law´s School (uma espécie de escola jurídica popular) – que é uma organização educacional independente. (d) o provimento de auxílio/assistência no efetivo cumprimento de decisões pelas quais tais conflitos tenham sido resolvidos.32 Revista da Defensoria Pública .Ano 4 n. e 20 Ver. além da Legal Services Society (que é a agência estatal responsável pelos serviços de assistência jurídica gratuita aos necessitados) que investe recursos financeiros em programas próprios de educação em direitos (public legal education) apesar de. de grande potencial para o futuro. Um destaque nessa área tem sido a província canadense de British Columbia onde existe uma entidade – denominada Law Courts Education Society – que tem como missão divulgar a atividade dos tribunais. 2011 investido considerável volume de recursos em programas de educação jurídica para o público em geral. A missão legalmente estabelecida para a agência pública inglesa que é responsável pelos serviços de assistência jurídica (a Legal Services Commission) vai muito além da mera garantia de assistência judiciária (patrocínio e representação dos necessitados em Juízo) e deixa patente a amplitude das tarefas cujo cumprimento é desejável. ter enfrentado cortes orçamentários para custeio desses programas.

Além disso. Um sistema de serviços de legal aid na área cível. N. onde é assegurado a qualquer pessoa o direito de uma consulta jurídica gratuita de até meia hora. Contudo. diferentemente da assistência jurídica na área criminal. O critério utilizado no passado era o “private paying client test” – ou seja. fazia-se uma avaliação em que se considerava se naquele tipo de causa a questão seria proposta por um cliente não carente de recursos o qual tivesse que arcar. a plausibilidade da pretensão a ser submetida ao Judiciário. com seu patrimônio pessoal. O pressuposto relativo ao mérito da causa tem sido apurado com certa “sofisticação” na Inglaterra. . o pressuposto de carência de recursos econômicos varia em cada local. do ano de 1999. então essa aferição poderá ficar sob o encargo deles. a entidade tem poder de planejar ou coordenar serviços sob seu encargo e estabelecer padrões (a serem observados pelos prestadores dos respectivos serviços). Em relação aos casos cíveis. precisa se ocupar de aferir a presença de dois pressupostos: carência de recursos e mérito22 da causa.21 Além disso. de acordo com a realidade específica de disponibilidade de recursos e necessidades a serem atendidas. então o tribunal pode apresentar um bom órgão para assumir a responsabilidade na medida em que tem um interesse em minimizar a demora. Nos casos em que há um exame de carência de recursos em casos criminais. Se há um grau de confiança nos próprios prestadores de serviços.: ou seja. de T. o órgão responsável pela gestão dos serviços de legal aid tem o encargo de prover o mecanismo apropriado para aferição dos pressupostos de carência de recursos e de mérito da causa. da Holanda.Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 33 (e) o provimento de auxílio/assistência inclusive em relação aos procedimentos jurídicos não litigiosos (assistência jurídica extrajudicial). esse tipo de aferição seria provavelmente bastante complicado para muitos países da Europa Central e Oriental. Muitos países consideram que as pessoas que estejam recebendo algum tipo de benefício assistencial público devem ser dispensadas de 21 22 Tais encargos estão definidos na “Lei do Acesso a Justiça” (Access to Justice Act). com o custeio de todas as despesas. Em muitos países há concordância de que um serviço básico de aconselhamento jurídico deve ser gratuito para que se possa aferir o atendimento de ambos os pressupostos acima – é o caso. por exemplo. medindo-se a porcentagem da probabilidade de sucesso em comparação com a estimativa de custo.

Adicionalmente. concordância quanto à observância de padrões mínimos (de . Esses foram os pontos inicialmente delineados no prólogo que se encontra no início deste estudo. CONCLUSÃO De tudo o que foi exposto acima. assim. 2011 comprovação de carência de recursos quando pleiteiam assistência jurídica gratuita. Austrália ou em Ontário. clínicas jurídicas (Ontário) ou centros de serviços jurídicos (Austrália) prestam um bom modelo de assistência jurídica para causas cíveis. como ocorre na África do Sul. 12. estes são compatibilizados com as (efetivas) necessidades de suas comunidades e maximizando-se o uso de seus recursos. A União Europeia vem estabelecendo exigências cada vez maiores para assistência jurídica estatal para representação e defesa em casos envolvendo situações transnacionais (cross-boarder cases) ou casos criminais em que a implementação de um Mandado de Prisão Europeia supõe o reconhecimento mútuo de procedimentos e. emerge um número de questões a serem respondidas por qualquer pessoa que pretenda criar/implantar um sistema de legal aid em um determinado país/região o que pode ser útil para explicitar (uma visão de conjunto) porque esse processo fomentará um debate./dez. eles podem operar como uma espécie de ímã para atrair recursos provenientes de outras fontes ou até mesmo para trabalho voluntário que possa ser prestado por advogados privados (que se disponham a atuar em regime caritativo ou pro bono). particularmente nos locais em que tais serviços são prestados em núcleos de atendimento jurídico comunitário ou em “clínicas” jurídicas (law clinics). Suas grandes vantagens na perspectiva das entidades responsáveis pelo financiamento desses serviços é que eles são custeados por subsídios previamente fixados e limitados (e assim as despesas são previsíveis e ficam dentro dos limites orçamentários). suscitam reflexão sobre o sentido dos serviços de legal aid.34 Revista da Defensoria Pública . O pagamento pelos serviços prestados não é compatível com a filosofia que rege esse tipo de clínicas ou centros comunitários. Um número de países/estados tem considerado que núcleos jurídicos comunitários (como no Reino Unido). Com a participação de representantes da própria comunidade na direção ou gerenciamento dos serviços.Ano 4 n. 2 jul. como em qualquer outro lugar. As pressões contraditórias da realidade contemporânea na Europa.

Todos os países europeus precisam de sistemas efetivos de legal aid. que estavam em certo momento bem à frente no que se refere à estrutura de efetiva prestação de serviços de assistência jurídica podem sofrer deterioração de seus serviços de tal forma que eles caiam significantemente. A má notícia é que a história mostra que estados. A forma pela qual podem atender essa exigência variará consideravelmente. todos os países são atingidos pela pressão (escassez) em seus recursos. . A boa notícia é que o contrário (também) pode acontecer. porque os tempos são de “mudanças”). como Quebec (no Canadá).Assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes 35 garantias de direitos). for the times they are a ‘changing’ (os últimos serão os primeiros. Como disse Bob Dylan: those that are last will later be first. em comparação com aqueles outros relativamente aos quais estavam na dianteira. sendo passados para trás. Por outro lado.

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que prevê um Estado Democrático e Social de Direito. CF): “erradicar a pobreza e marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais (III). Realmente.A ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA SOB O PRISMA DO NEOCONSTITUCIONALISMO Aluísio Lunes Monti Ruggeri Ré. sem preconceitos de origem. sexo. mestrando em Direito pela UNAERP. 1. de uma estrutura socioeconômica viável para seu progresso e desenvolvimento. raça. o mesmo não tem ocorrido no âmbito social. por outro lado. que estão inseridas em contextos sociais. Nossos . de justiça. as chamadas “minorias”. Defensor Público do Estado de São Paulo. Ocorre que. idade e quaisquer outras formas de discriminação (IV)”. promover o bem de todos. são objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil (art. cor. temos uma Constituição Federal “modelo”. mas que ainda carece de concretização e a devida força normativa. De fato. Se atualmente observamos um momento de êxito econômico brasileiro. ainda que o mundo atravesse momento de crise econômica. econômicos e jurídicos de contradições e demagogia. principalmente dos setores mais vulneráveis da sociedade. há uma sociedade carente de políticas públicas adequadas e efetivas. de planejamento social. INTRODUÇÃO E O NEOCONSTITUCIONALISMO A Defensoria Pública é a Instituição Democrática mais próxima da população. 3º. enfim.

na medida de suas possibilidades. não consegue se empregar com facilidade. um cidadão que tem seu nome negativado. Aliás. 2005. tido como fenômeno mundial de valorização das Constituições Estatais. A Defensoria Pública. em razão de cobrança indevida. assiste a essa triste realidade de total exclusão social. é um importante instrumento e fundamento indispensável à atuação da Defensoria Pública no cumprimento de sua nobre missão. De fato. De fato.Ano 4 n. além de outros aspectos. a doutrina neoconstitucional prega. Nesse diapasão. 134 da Constituição Federal. São Paulo. terá como efeito imediato a retirado de seu nome dos cadastros de proteção ao crédito. Segundo o Professor Luís Roberto Barroso. P 04). Não podemos olvidar que a inclusão jurídica acarreta a inclusão social/psicossocial e econômica. no sentido de concretizar os direitos fundamentais e fazer da nossa Constituição Federal (CF) um modelo não tão utópico como a realidade tem indicado. por sua vez. não é por acaso que a previsão de direitos e garantias fundamentais passa a integrar a parte inaugural da Constituição Federal de 1988 e não mais os dispositivos finais como ocorria nas Constituições anteriores. a declaração judicial de inexistência daquele débito. 2011 governantes não têm conseguido converter o progresso tecnológico em qualidade de vida. mormente quando se leva em consideração o dilema socioeconômico acima exposto. com a centralidade dos direitos fundamentais e a reaproximação entre Direito e ética” (Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil./dez. psicológico e econômico. a inclusão jurídica2 daqueles marginalizados pelo sistema. a solução de um problema jurídico daquela pessoa que procura pelos serviços da Defensoria Pública acaba repercutindo na sua vida como um todo. com sua missão constitucional de prestar assistência jurídica aos necessitados1. 3 . gerando ainda mais concentração de riquezas e desigualdades sociais. mas também o efeito mediato de viabilizar a obtenção do tão almejado vínculo empregatício. 1 2 Art.38 Revista da Defensoria Pública . Por exemplo. seja no aspecto social. em razão da recorrente consulta aos cadastros de inadimplentes feita pelos potenciais empregadores. 2 jul. o Neoconstitucionalismo3. mas não se rende ao sistema posto/ imposto e tem promovido. partindo do destaque destes direitos nas Constituições dos Estados Ocidentais. “o marco filosófico do fenômeno em questão é ’o pós-positivismo’. com a atribuição de efetiva força normativa aos seus dispositivos e colocação dos direitos fundamentais no topo do sistema jurídico. Nesse caso. a potencialização e efetivação dos direitos fundamentais.

como divisor de águas do Neoconstitucionalismo. com o estabelecimento da dignidade da pessoa humana como valor base de todo ordenamento jurídico. como a liberdade e a igualdade.5 4 Neste contexto. princípios que se incorporaram mais recentemente ou. Fundamentos teóricos e filosóficos do novo direito constitucional brasilei- 5 . uma reaproximação entre ética e Direito. ditando uma análise mais axiológica e menos matemática do fenômeno jurídico. podemos estabelecer como marco internacional o período pós-guerra. ao menos. com graves limitações aos direitos do homem. sem embargo da evolução de seus significados. uma volta aos valores. como a separação dos Poderes e o Estado democrático de direito. podemos estabelecer. quais sejam. sofreram releituras e revelaram novas sutilezas. cuja análise se faz por juízos de ponderação e razoabilidade. Teoricamente. o Neoconstitucionalismo tem como pressuposto a superação do Positivismo. o PósPositivismo apresenta-se como pressuposto para a efetivação dos direitos fundamentais. da solidariedade e da reserva da justiça. BARROSO. a universalidade. e não com simples subsunção do caso à lei estrita e fechada.4 O constitucionalismo moderno promove. esses valores compartilhados por toda a comunidade. sendo que os valores são resgatados como fatores de interpretação e aplicação da norma. bem como da consagração de novos paradigmas de análise desses direitos. materializam-se em princípios. não democrático. após um período político de ditadura. a promulgação da Constituição Federal de 1988. Outros.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 39 Em termos históricos. migrando da filosofia para o mundo jurídico. conquanto clássicos. ainda. mormente com a proclamação da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. assim. como o da dignidade da pessoa humana. que passam a estar abrigados na Constituição. da concepção puramente científica do Direito. cujo ideal humanitário renascia após tamanhas atrocidades e da grave banalização dos direitos humanos. No âmbito nacional. a indivisibilidade. Houve. explicita ou implicitamente. Aliás. o pós-positivismo representa a reaproximação entre Direito e o valor Justiça. tal momento coincide com o fenômeno da internacionalização dos direitos humanos. Para poderem compartilhar beneficiar-se do amplo instrumental do Direito. em dado momento e lugar. Alguns nela já se inscreviam de longa data. Luis Roberto. colocado em posição de indiferença aos valores e à ética. da razoabilidade. a interdependência e a transnacionalidade. passaram a ter uma nova dimensão. Assim.

6 CF. aos necessitados. ou discriminação positiva. 2 jul. em todos os graus. por ela afirmase uma fórmula jurídica para se provocar uma efetiva igualação social. histórica e culturalmente discriminados. tal como assegurado formal e materialmente no sistema constitucional democrático. LXXIV. almejando à igualdade de condições.40 Revista da Defensoria Pública .º 1060/50. na medida em que viabiliza a defesa jurídica daquela parcela da população menos favorecida. em observância ao disposto no artigo 5º. Por esta desigualação positiva promove a igualação jurídica efetiva.” . na forma do artigo 5º.º 80/94 assim dispõe: “A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado. da Constituição Federal. como instrumento de ação afirmativa. integral e gratuita. cujos titulares são aqueles que comprovarem insuficiência de recursos. por meio dela. artigo 134. Portanto. é concebida como forma de promover a igualdade daqueles que foram e são marginalizados por preconceitos encravados na cultura dominante da sociedade. incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa. a própria Defensoria Pública é um fato neoconstitucional. O artigo 1º da Lei Complementar n.6 Ela representa a forma pela qual o Estado Democrático de Direito promove a ação afirmativa. dos necessitados. trata desigualmente os desiguais (necessitados). assegurando a aplicação e concretização dos direitos fundamentais. São Paulo: Renovar./dez. Nas palavras da professora Carmen Lúcia Antunes Rocha. política e econômica no e segundo o Direito. teoria crítica e pós-positivismo). assim considerados na forma da lei. LXXIV. A DEFENSORIA PÚBLICA A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado. na medida em que o Estado. não se pode olvidar que a Defensoria Pública. 2011 Aliás. visa à concretização do princípio da isonomia ou igualdade. na forma prevista na Lei n. incumbindo-lhe prestar assistência jurídica. 2008. a definição jurídica objetiva e racional de desigualdade dos desiguais. In: A nova interpretação constitucional. que prevê o direito fundamental à assistência jurídica. visando à inclusão jurídica daqueles econômica e culturalmente hipossuficientes. A ação afirmativa ro (pós-modernidade. que estabelece o conceito jurídico de “necessitado”. em termos gerais. judicial e extrajudicial.Ano 4 n. 2.

A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo

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é, então, uma forma jurídica para se superar o isolamento ou a diminuição social a que se acham sujeitas as minorias.7

Em outras palavras, a Defensoria Pública é o instrumento pelo qual se garante o acesso à Justiça aos necessitados, desprovidos de recursos financeiros, para custear os serviços prestados por um Advogado particular. De fato,
não se adentram as portas do Judiciário sem o cumprimento de ritos e a obediência a procedimentos. Entre estes está a necessidade de defesa por profissionais especializados – os Advogados. Ora, o acesso aos advogados, por sua vez, depende de recursos que na maior parte das vezes os mais carentes não possuem. Assim, para que a desigualdade social não produza efeitos desastrosos sobre a titularidade de diretos, foi concebido um serviço de assistência jurídica gratuita – a Defensoria Pública.8

Entretanto, a Defensoria Pública não é apenas um órgão patrocinador de causas judiciais. É muito mais. É a Instituição Democrática que promove a inclusão social, cultural e jurídica das classes historicamente marginalizadas, visando à concretização e a efetivação dos direitos humanos, no âmbito nacional e internacional, à prevenção dos conflitos, em busca de uma sociedade livre, justa e solidária, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade, com a erradicação da pobreza e da marginalização, em atendimento aos objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, previstos no artigo 3º da Constituição Federal.9 Realmente, nas palavras de Marcio Thomaz Bastos10,
as instituições sólidas são os instrumentos que as democracias têm para se realizar enquanto tais. E as democracias, para abandonarem o

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ROCHA, Carmem Lúcia Antunes. Ação afirmativa – O conteúdo democrático do princípio da igualdade jurídica. Revista de Direito Público, n º 15/85. SADEK, Maria Tereza. Acesso à Justiça. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer, 2001. Aliás, o artigo 3º da Lei Complementar Estadual n.º 988/06 dispõe que “A Defensoria Pública do Estado, no desempenho de suas funções, terá como fundamentos de atuação a prevenção de conflitos e a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a erradicação da pobreza e da marginalidade, e a redução das desigualdades sociais e regionais.” II Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil promovido pelo Ministério da Justiça e pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento, em 2006.

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Revista da Defensoria Pública - Ano 4 n. 2 jul./dez. 2011

rótulo de democracias formais, se tornando verdadeiras democracias de massas, devem construir instituições que consigam garantir a todos, sem discriminações, os direitos previstos nas constituições democraticamente escritas. (...) Não mais podemos nos preocupar só com o Estado Julgador e com o Estado Acusador, em detrimento do Estado Defensor.

Outrossim, a atuação da Defensoria Pública se torna ainda mais relevante em um Estado como o Brasil, que possui uma Carta Magna de caráter social, mas que carece de efetividade e concretude, em razão das forças neoliberais, que fazem dos princípios constitucionais dispositivos meramente programáticos, despidos de normatividade. De fato,
a herança do neoliberalismo é uma sociedade profundamente desagregada e distorcida, com gravíssimas dificuldades em se construir, do ponto de vista da integração social, e com uma agressão permanente ao conceito e prática da cidadania. Talvez, a Defensoria Pública tenha vindo para ”organizar esta cidadania”.11

Segundo pondera o Ministro Celso de Mello,
vê-se, portanto, de um lado, a enorme relevância da Defensoria Pública, enquanto Instituição permanente da República e organismo essencial à função jurisdicional do Estado, e, de outro, o papel de grande responsabilidade do Defensor Público, em sua condição de agente incumbido de viabilizar o acesso dos necessitados à ordem jurídica justa, capaz de propiciar-lhes, mediante adequado patrocínio técnico, o gozo – pleno e efetivo – de seus direitos, superando-se, desse modo, a situação de injusta desigualdade sócio-econômica a que se acham lamentavelmente expostos largos segmentos de nossa sociedade.12

3. A MISSÃO E OS OBSTÁCULOS No entanto, por mais bela que pareça a atuação da Defensoria Pública, segundo a arquitetura teórica acima exposta, sua atuação

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BORÓN, Atílio. In: GALLIEZ, Paulo. A Defensoria Pública. O estado e a cidadania. 3. ed. Rio de Janeiro: Lúmem Júris, 2006. STF, ADI nº 2903.

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A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo

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prática é sobremodo complexa e exige elevado grau de compreensão e criatividade. De fato, o atendimento diário submete o Defensor Público aos mais variados problemas jurídicos, cujas soluções, muitas vezes, não decorrem de simples aplicação de subsunção da lei ao caso concreto, mas exige certo trabalho hermenêutico. Aliás, o grau de complexidade das demandas deve-se a variados fatores, de naturezas diversas, que fazem com que o sujeito se submeta a caminhos jurídicos simples, moderados, complexos ou impossíveis. Em geral, a população mais carente torna-se mais vulnerável às agressões aos seus direitos, cujas soluções administrativas mostram-se cada vez mais distantes. A burocracia, a desinformação e a inexperiência são fatores que submetem o indivíduo a situações juridicamente delicadas e até de impossível solução. Como se não bastasse, diferentemente do que ocorre nos países europeus, no Brasil a Instância Administrativa é quase nula, fazendo da via judicial a via única a ser obrigatoriamente percorrida, sob pena de perecimento do direito subjetivo violado. Além disso, o Brasil ainda sofre do que a doutrina chama de síndrome da ineficácia das normas constitucionais. Em muitos casos, utilizando de interpretações distorcidas e pretensiosas de princípios como o da separação dos poderes, da reserva do possível, da discricionariedade administrativa, o Poder Público acaba se omitindo e negligenciando na execução dos direitos fundamentais como o direito à saúde, à educação de qualidade, à moradia digna, dentre outros. Outro grave equívoco cometido por parcela da doutrina que trata do tema é taxar de meramente programáticas as normas constitucionais de direitos sociais. Ora, negar eficácia às regras que consagram direitos humanos é negar a própria essência da Constituição Federal de 1988, cujo âmago nucelar13 é composto pelo valor da dignidade da pessoa humana. Não se pode olvidar da concreta força normativa da Constituição, sob pena de corrompermos todo um sistema desenhado e lapidado após período histórico de extrema violência, autoritarismo e omissão estatal. Negar eficácia aos direitos fundamentais é negar a própria Constituição, é negar nossa história.

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Utilizamos da expressão “âmago nuclear”, embora pleonástica, mas propositadamente, para transmitirmos a ideia de absoluta primazia da dignidade humana.

44 Revista da Defensoria Pública . propomos uma atuação de potencialização dos direitos fundamentais à Defensoria Pública. como o implementado pelo Código de Defesa do Consumidor./dez. ao final. diante das mais complexas relações jurídicas que vêm se desenvolvendo na atualidade. não são capazes de fornecer soluções às demandas apresentadas ao Defensor Público. para o bem cumprimento de seu mister institucional. . pareça ela não solucionável. 2011 Somando a todo esse preocupante quadro. apenas auxiliará a análise da questão e a adoção da solução adequada. exigindo elevado grau de atenção e criação. com a concessão do benefício da assistência jurídica. diante de todas as possibilidades jurídicas levantadas. mas não afasta a possível elaboração de um caminho útil na condução dos trabalhos. que o arrolamento dessas possibilidades. Muitas vezes. para. Pois bem. Ocorre.Ano 4 n. 2 jul. exigindo do profissional muita criatividade e visão construtiva. cumpre advertirmos que a grande diversidade de casos submetidos ao crivo do Defensor Público torna quase inviável a elaboração de uma fórmula ou modelo padrão de atendimento. adotar aquela que melhor se adéqua aos fatos narrados. Diante desse contexto socioeconômico e jurídico. o Defensor Público passa a análise técnica da questão. muitas vezes. vale repetir. 4. até os mais protecionistas microssistemas jurídicos. acrescentaríamos que a falta de informação da população mais carente e sua relativa inexperiência. porém. sendo que a criatividade deverá incidir sobre o contexto fático para a adoção da medida mais adequada e satisfatória para a questão. Contratos de adesão. sob o prisma do Neoconstitucionalismo. Uma vez superada a fase de avaliação financeira. cujos critérios e fatores relevantes de análise passaremos a colocar sob a forma de uma fórmula que. em um primeiro momento. A APLICAÇÃO PRÁTICA E POTENCIALIZADA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS: A FÓRMULA Em primeiro lugar. ainda que. A atenção e a vontade de ouvir são importantes virtudes para a colheita do maior número de peculiaridades do caso concreto. contratos virtuais e serviços de televendas são apenas alguns exemplos que representam o risco da atual conjuntura comercial e obrigacional. pode não ser tarefa simples. acaba elevando ainda mais essa vulnerabilidade.

no plano horizontal. ao titular de um direito devem ser fornecidos todos os meios para sua adequada tutela judicial ou extrajudicial. quanto mais rico em peculiaridades for o caso em questão e mais nobre for o direito ameaçado. Uma vez presentes as condições da ação e os pressupostos processuais. Direitos são direitos que carecem de proteção. Se pudéssemos reduzir este raciocínio em simples fórmula matemática. exigindo do Defensor Público alto grau exegético e de construção técnica. No plano cartográfico. Isso não significa. No plano vertical teríamos a variante representante do nível de valoração do direito violado (NVD) e. Tal fórmula nos leva a uma série de conclusões e ditames para o bom desempenho da função da Defensoria Pública. teríamos uma reta oblíqua crescente que representa o desenvolvimento do índice de possibilidades (IP). pois possuem titulares/ sujeitos.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 45 Chamaremos de índice de possibilidades (IP) o número de alternativas possíveis. desenvolver e operacionalizar as mais variadas medidas jurídicas adequadas à satisfatória solução da questão ao seu crivo submetida. Agora o que não podemos negar é que a Defensoria Pública no Brasil ainda encontra-se em fase de construção e não dispõe de estrutura e pessoal suficientes para um atendimento ideal a qualquer tipo de direitos/interesses e a definição de prioridades passa a ser fase obrigatória na fixação de suas metas e de . É dizer. quando do atendimento aos necessitados e desenvolvimento dos seus trabalhos: é preciso alto grau de sensibilidade para a valoração do interesse supostamente violado ou ameaçado. maior deve ser o “cardápio” de possibilidades jurídicas. a violação aos direitos fundamentais exige que o Defensor Público se transforme em verdadeiro engenheiro ou arquiteto jurídico na elaboração de todas as alternativas possíveis e na escolha daquela que melhor satisfaça os interesses do sujeito atendido. que a Defensoria Pública não deve se empenhar na defesa efetiva de direitos não fundamentais. no contexto do Neoconstitucionalismo. tem o Defensor Público a responsabilidade de criar. que será diretamente proporcional ao número de peculiaridades do caso concreto (PCC) e ao nível valorativo do direito violado (NVD). por derradeiro. teríamos a presente equação: IP = PCC x NVD. objeto e uma função orgânica no sistema jurídico como um todo. e aqui vale uma ressalva. Em outras palavras. exigese atenção e paciência na colheita do maior número de dados conexos ao problema apresentado e. a variante das peculiaridades do caso concreto (PCC).

eficientes. há meses não quitava as contas de água e coleta de esgoto por total impossibilidade financeira e estava com o respectivo fornecimento do serviço interrompido. Nesse 15 . Segundo nos relatou.Ano 4 n. O Código de Defesa do Consumidor veda a cobrança vexatória e humilhante (art. cujos direitos fundamentais carecem da necessária efetividade e concretude. parecia de difícil ou de controvertida solução. a exposição de alguns casos práticos indica a possibilidade de se pensar uma forma concreta de efetiva concretização desses direitos no âmbito dessa Instituição Democrática e quebrar velhos e obsoletos conceitos e preconceitos do modelo de subsunção da modernidade. 5. em meados do ano passado. Como acima colocado. optamos por citar apenas o prenome. são obrigados a fornecer serviços adequados. por si ou suas empresas. É bem verdade que o Código de Defesa do Consumidor não cuidou de elencar quais são os serviços considerados essenciais. que estabeleceu quais os serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade. tal rol pode ser encontrado na Lei de Greve (Lei n. seguros e. sem referências aos sobrenomes. mormente no Brasil. no entanto. Porém. O primeiro caso que merece destaque ocorreu quando fazíamos o procedimento de avaliação financeira e análise inicial dos problemas.14 A atendida Marina nos apresentou sua questão que. 2011 seu plano de atuação.46 Revista da Defensoria Pública . o Defensor Público depara-se diariamente com as mais variadas e complexas questões jurídicas ou lides.783/89). Aliás. a própria definição de metas. 42) e prevê expressamente o princípio da continuidade do fornecimento de serviço público essencial (art. no sentido de priorizar a defesa dos direitos humanos. 2 jul. 22: “os órgãos públicos. contínuos”)./dez. Regional de Ribeirão Preto. ainda que não admitamos o corte aos serviços públicos essenciais. o arcabouço jurídico de tutela do consumidor impossibilita a interrupção à serviço público essencial. permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento. no caminho da aplicação do direito sob a óptica pós-moderna.º 7. Em tese. quanto aos essenciais. concessionárias.15 muitos juízes e 14 Para fins de preservar a intimidade das pessoas atendidas na Defensoria Pública do Estado. decorre do próprio conceito de ação afirmativa ou do conteúdo material do princípio da igualdade. Alguns exemplos práticos por nós atendidos podem ilustrar o presente estudo. EXEMPLOS PRÁTICOS Parece uma utopia a idealização e aplicação de uma fórmula quase que matemática para a potencialização dos direitos fundamentais na seara de atuação da Defensoria Pública. em um primeiro momento. Segundo entendemos.

a Lei n. produção e distribuição de energia elétrica. Vejam que elevamos as peculiaridades do caso concreto (PCC) para fins de aumentarmos o índice de possibilidades (IP). nos termos do artigo 196 da Constituição Federal de 1988. defendemos a impossibilidade do corte aos serviços públicos essenciais. Notem que. as possibilidades jurídicas se expandiram. Em suma. O direito à saúde.18 sentido dispõe o artigo 10 da mencionada lei: “São considerados serviços ou atividades essenciais: I . E foi exatamente o que ocorreu. com pedido de antecipação de tutela. §3º. Ester. inclusive judi- 17 18 . indispensável para o sucesso do tratamento. portadora de insuficiência renal crônica. cujo tratamento exigia a realização de. os quais. a questão envolve apenas direitos do consumidor e direitos civis obrigacionais. são legitimados a demandarem. para que fosse obrigado a custear aquele serviço àquela unidade consumidora. admite a interrupção em casos de inadimplemento. em seu artigo 6º.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 47 tribunais têm aceitado a interrupção sob argumento de que a inadimplência coloca em risco a continuidade do fornecimento à coletividade.. com base na tese ora proposta. Entretanto. Propusemos uma ação de obrigação de fazer. Marina nos informou que possuía uma filha.. com tutela antecipada. revela-se como direito público subjetivo dos cidadãos. Diante dessas circunstâncias. inclusive. uma vez que ao Estado se atribuiu constitucionalmente e legalmente a obrigação de garantir o direito à saúde dos cidadãos. 16 Aliás. pelo menos.)”. pensávamos em elevar a nobreza do direito violado (NDV) com o deslocamento da questão dos direito das obrigações para o direito fundamental à vida e à saúde para também aumentar as alternativas jurídicas. Além disso. na ocasião ainda despida de contornos mais precisos. cuja ausência da água potável prejudicaria seu tratamento ou sua cura. questionamos se sua residência abrigava alguém portadora de alguma enfermidade. (.º 8987/95.17 com água potável. gás e combustíveis.16 Diante disso. três sessões de hemodiálise por semana. em face da concessionária do serviço público (DAERP – Departamento de água e esgoto de Ribeirão Preto). sendo a limpeza e higienização da fístula. a primeira saída seria a propositura de uma precária e malfadada ao malogro ação de obrigação de fazer. até que se realizasse o transplante de rim na paciente com sua consequente cura. A fístula é o orifício por onde entra o tubo do aparelho de filtragem sanguínea. com a elevação das peculiaridades e do nível valorativo dos direitos envolvidos. que regulamenta a concessão e permissão da prestação de serviço público.tratamento e abastecimento de água. inicialmente. cumulada com ação condenatória em face do Município de Ribeirão Preto.

sabíamos das dificuldades na obtenção daquela tutela. segundo o profissional. além de obstáculos cialmente. §1° da CF/88).548). o juiz a quo não concedeu a tutela antecipada. reconheceu presentes os pressupostas para a antecipação da tutela. – Voto n. era a única droga que poderia conter a doença. face o Estado. 23.2007 – M. pois. mas cujo medicamento prescrito pelo seu médico não gozava de eficácia científica comprovada. Estados. inciso II da CF/88). do Distrito Federal e dos Municípios. sob argumento de que aquela substância não possuía eficácia comprovada para tratamento daquela enfermidade. em face do Poder Público. conforme disposição do art. No entendimento jurisprudencial: “MEDICAMENTOS – Fornecimento pelo Estado – Prestação de serviço público – Obrigação de Fazer – Pedido de medicamentos e insumos para tratamento de patologia que padece – Diabetes Mellitus tipo II – Extinção do feito sem exame de mérito em relação à Municipalidade de São Paulo – inadmissibilidade – Competência delineada na Lei n.7.8. em caso que também envolvia o direito à saúde e à sadia qualidade de vida. Outro exemplo prático que ilustra a “atuação neoconstitucional” da Defensoria Pública e a necessária atitude criativa/empreendedora. cujo Desembargador Relator atribuiu efeito ativo ao recurso. como direito subjetivo dos cidadãos. ocorreu quando atendemos um cidadão enfermo.Ano 4 n. cujo deferimento fora negado pelo juízo a quo. A legislação infraconstitucional aponta no mesmo sentido. criando uma espécie de obrigação solidária. cujos órgãos deverão se interagir para entendimento de determinação – Recurso provido” (Apelação Cível com Revisão n° 523. dos Estados. cuja doença progredia rapidamente.335-5/0 – São Paulo .7ª Câmara de Direito Público – Relator Coimbra Schimidt – 23.080/90 que atribui competência à União.48 Revista da Defensoria Pública . Diante disso. para o fornecimento do remédio. é de competência comum da União. A administração da saúde. determinando o imediato restabelecimento do fornecimento de água e coleta de esgoto à unidade consumidora em questão. . custeado pelo Poder Público Municipal até a cura da paciente com o futuro e eventual transplante de renal. Roselino. propusemos uma ação de obrigação de fazer. 2 jul. mas o Tribunal de Justiça de São Paulo. no sentido técnico-jurídico. com pedido de antecipação de tutela. à vida e à dignidade da pessoa humana que não pode ser relegado à mercê de toda sorte de inconvenientes provocados pelo Poder Público – Responsabilidade solidária entre Estado e Município para cumprimento da obrigação. mas. devendo o Estado prover as condições indispensáveis ao seu pleno exercício”.8.5°. conforme disposição constitucional (art. providências hábeis a concretizá-los./dez. 2° da Lei n°8.080/90 ao impor que “A saúde é um direito fundamental do ser humano. Ainda sob a égide constitucional.V. 2011 Na citada ação interposta. do Defensor Público. em sede de Agravo de Instrumento. o direito à saúde adquire contornos de aplicabilidade imediata e eficácia plena (art. Municípios e Distrito Federal – Direito à saúde. Cientificado da decisão.

19 O princípio da precaução.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 49 como o princípio da discricionariedade da Administração e o princípio da reserva do possível. o terceiro exemplo prático se deu quando atendemos um cidadão. 20 . no sentido de prevenir. e outras peculiaridades que continha. tínhamos a responsabilidade de bem fundamentar o recurso para reverter aquela situação jurídica totalmente desfavorável à autora. em razão de problemas de saúde do filho do casal. segundo o qual a não comprovação científica não pode ser óbice à concretização de direitos fundamentais como o direito ao meio ambiente sadio19 e. conforme acima exposto. a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”. inadimplente nas suas últimas contas de energia elétrica. Descobrimos que o inadimplemento decorreu de séria dificuldade financeira do usuário do serviço. E assim fizemos. Assim. o Ministro Gama Pellegrini. mas também aquele do qual não há prova irrefutável de que ocorrerá. resolvemos apurar o que realmente teria ocorrido naquele caso. Agravo de Instrumento n.468. que justificasse a inadimplência. Porém. conscientes da nobreza do interesse envolvido. foi-lhe concedido efeito ativo pelo Desembargador Relator.º 916. Edvaldo. trazendo para o âmbito da saúde o princípio da precaução do direito ambiental. não apenas o dano que irá inevitavelmente ocorrer. cujo fracionamento fora negado pela empresa concessionária. Por derradeiro. com a ampliação das possibilidades e da consistência na fundamentação do recurso de agravo de instrumento20. de acordo com suas capacidades.5/7. 1º Grupo de Câmaras de Direito Público. o débito era realmente devido e a reversão daquele quadro seria sobremodo trabalhoso. no princípio 15 da Declaração do Rio de Janeiro em Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992: “Com o fim de proteger o meio ambiente. ainda que o devedor se dispusesse a quitar em parcelas o total da dívida. visa a evitar a ocorrência de danos. Ainda que defendêssemos a impossibilidade do corte a serviço público essencial. Verifica-se. o direito à saúde. cujo fornecimento havia sido interrompido. no nosso caso. no sentido de conceder a tutela antecipada pleiteada para o imediato fornecimento da droga indicada. cujos gastos se elevaram com medicamentos e consultas médicas inesperadas. já consolidado no Direito Ambiental. o princípio da precaução deverá ser amplamente observado pelos Estados. Mas. Quando houver ameaça de danos graves ou irreversíveis. a dúvida científica não impede a tutela preventiva do meio ambiente. ao menos em tutela liminar. Ou seja. ainda tínhamos em nosso desfavor a questão da dúvida científica acerca da eficácia da droga. TJ/SP.

BAQUETA. o devedor. em tutela antecipada. Portanto. somente lhe cabe averiguar se presentes estão os requisitos ao exercício dessa faculdade. Nestes termos. dezembro/2008. ao apresentar a proposta de parcelamento deve justificar os motivos do não pagamento no tempo inicialmente fixado pelas partes. introduzido pela Lei nº 11.. quando saímos da relação obrigacional limitada entre credor e devedor e adentramos na seara constitucional que abarca princípios como o da dignidade da pessoa humana e da eticidade nas relações entre particulares. segundo os critérios da razoabilidade e verossimilhança das alegações. visando o locatário devedor à manutenção do contrato (artigo 62. do Decreto-lei nº 911/69). uma justificativa plausível acerca do não adimplemento da prestação no momento adequado.50 Revista da Defensoria Pública . (. em ação própria de consignação em pagamento (artigos 891 e seguintes do CPC).) Requer também. vedada a apresentação de embargos (§ 2º). reconhecendo o crédito e depositando a quantia inicial de 30% do valor executado.. II. no prazo para os embargos à execução. juízo semelhante ao realizado pelo juiz na execução de prestações alimentícias regida pelo rito do artigo 733 do Código de Processo Civil. incidindo multa de 10% sobre as prestações não pagas. O não pagamento das prestações implicará em vencimento antecipado do débito. diante de um contexto de inadimplência justificada. RT) . não podendo indeferi-la injustificadamente. § 2º.º 166. em defesa na ação de despejo por falta de pagamento nas locações urbanas. e em defesa na ação de busca e apreensão nos contratos de alienação fiduciária. Ao juiz. autoriza o devedor executado. que demonstra boa-fé do devedor. Estado do Mato Grosso. cujo exercício independe da anuência do credor. o direito ao pagamento parcelado pode ser exercido nas seguintes hipóteses: no prazo para embargos no bojo da ação de execução de título extrajudicial ou no prazo para impugnação na fase de cumprimento de sentença. n. ampliamos o leque de possibilidades ao passarmos do direito 21 Segundo defendemos.” (RÉ. cabendo ao magistrado apreciar o pleito.Ano 4 n. independentemente da anuência do credor. na cidade de Cuiabá. Daniela Furquim. Em outras palavras. com o fim de evitar que o credor fiduciário consolide sua propriedade sobre o bem. incluindo as custas e honorários advocatícios. por sua vez. a qual foi aprovada e concedida menção honrosa pela banca examinadora. (.382/06. após a defesa do executado alimentante. mas com resistência do credor. caso contrário. No caso prático. o legislador criou um verdadeiro direito subjetivo do devedor ao pagamento parcelado. “o artigo 745-A do Código de Processo Civil. pois./dez. como corolário da boa-fé objetiva. Tal proposta será apreciada pelo juiz que poderá deferi-la ou indeferi-la (§ 1º).. o juízo a quo acolheu a fundamentação exposta na petição inicial e autorizou o pagamento do débito em parcelas.) Como dissemos acima.. e do desejo no parcelamento da dívida. com correção monetária e juros de 1% ao mês. da Lei nº 8. objeto da avença” (artigo 3º. In: Revista de Processo. resolvemos defender a existência de um verdadeiro direito material ao pagamento parcelado. 2011 Portanto. Aluísio Iunes Monti Ruggeri. a pagar o restante do débito em 6 (seis) parcelas mensais. Artigo: O direito material ao pagamento parcelado. em outubro de 2008. cuja tese fora exposta no VII Congresso Nacional dos Defensores Públicos. estaríamos admitindo a má-fé e legitimando o “direito ao calote”. por sua vez.245/91).21 Observam que somente encontramos este caminho. 2 jul.

Revista de Processo. . ______________________. REFERÊNCIAS ARRUDA ALVIM. ______________________. direitos fundamentais e relações privadas. v 130. 2005. autorizando o Defensor Público a adotar uma postura criativa e inovadora diante dos mais variados casos e problemas jurídicos a ele diariamente submetidos. Curso de Direito Processual Civil. tem um importante papel a ser desenvolvido em nosso país. São Paulo: RT. 2009. Em suma. e muito menos pela ciência e consciência cidadã da grande parcela economicamente hipossuficiente da sociedade brasileira. Luis Roberto. mormente na luta pela efetivação e concretização dos direitos fundamentais. São Paulo: RT. Curso de direito constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. José Manoel de. A nova interpretação constitucional: ponderação. BARROSO. tais exemplos práticos ilustram o presente estudo. CONCLUSÃO A título de arremate. tendo em vista a grande variedade de direitos e relações jurídicas que se transformam com velocidade não absorvida pelo sistema jurídico posto. na medida em que demonstram que as possibilidades jurídicas se estendem na mesma proporção que elevamos a nobreza e a relevância dos direitos/ interesses ameaçados/violados.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 51 civil do credor de ter satisfeito seu crédito para o direito fundamental a uma vida digna ao devedor e à sua família. 6. A proteção coletiva dos direitos no Brasil e alguns aspectos da Class Action Norte-Americana. 1972. São Paulo: Renovar.). ainda que o arcabouço jurídico se mostre arcaico e obsoleto na previsão satisfatória de tutelas. exigindo do Defensor Público uma postura de criatividade/inovação para a inclusão e transformação social. concluímos que a Defensoria Pública. (Org. 2008. como fato neoconstitucional e também instrumento de sua efetivação. São Paulo: Saraiva.

2008. Mauro. Ed. Gilmar Ferreira. Wálber Araújo. São Paulo: Malheiros. 2006. Manual do processo de conhecimento. habeas data.ed. n º 15/85. CARNEIRO. Revista latino-americana de estudos constitucionais. Atílio. BORÓN. Revista de Direito Público. 2003. 2001. 5. J./dez.Ano 4 n. Rio de Janeiro: Forense. MENDES. A Reforma da Reforma. Sérgio Antônio Fabris. Jorge. Manifestação sobre o II Diagnóstico da Defensoria Pública no Brasil promovido pelo Ministério da Justiça e pelo Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento. SARLET. Ação afirmativa – O conteúdo democrático do princípio da igualdade jurídica. Acesso à Justiça. Curso de direito constitucional. 2008. Coimbra: Coimbra editora. Salvador-BA: Editora Podivm. Luiz Guilherme. Paulo. Curso de direito constitucional positivo. Flávia. ROCHA. Bryant. O estado e a cidadania. São Paulo: Fundação Konrad Adenauer. José Carlos Barbosa. Inocêncio Mártires. Carmem Lúcia Antunes. 3. Ingo Wolfgang. Maria Tereza. Fredie. CAPPELLETI. DA SILVA. PIOVESAN. ARENHART.52 Revista da Defensoria Pública . DIDIER JUNIOR. CARTH. 2001. Curso de Direito Processual Civil. Malheiros. 2011 BASTOS. Comentários ao Código de Processo Civil. CALMON DE PASSOS. Sérgio. Tradução e revisão: Ellen Gracie Northfleet. DINAMARCO.ed. Manual de direito constitucional. 2006. 1998.ed. Mandado de segurança coletivo. 2007. São Paulo: Saraiva. 6. 1989. 1993. Artigo: Processo e hermenêutica: a produção do direito como compreensão. São Paulo: RT. SADEK. Cândido Rangel. Márcio Thomaz. Hermes. Paulo Gustavo Gonet. 30. Acesso à Justiça. A Defensoria Pública. 3. In: GALLIEZ. José Afonso. MARINONI. 1993. Del Rey. mandado de injunção. Rio de Janeiro: Forense. ZANETI JUNIOR. MOREIRA. J. Direitos humanos e jurisdição constitucional internacional. BRANCO. 2 jul.ed. Dignidade da pessoa humana e direitos . 2003. Rio de Janeiro: Lúmem Júris. COELHO. MIRANDA.

Direitos humanos contemporâneos. sistemas sociais e hermenêutica. Carlos. 2008. . São Paulo: Malheiros: 2006. Lênio Luiz. 6. Constituição. STRECK.A atuação da defensoria pública sob o prisma do neoconstitucionalismo 53 fundamentais. (Orgs). José Luis Bolzan de. Porto Alegre: Livraria do Advogado. WEIS. ed. 2007. MORAIS. Porto Alegre: Livraria do Advogado.

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Do ponto de vista da acção colectiva. A escolha do ambientalismo deve-se a razões específicas.MOBILIZAÇÃO JURÍDICA VERSUS MOBILIZAÇÃO SOCIAL: UMA ABORDAGEM A PARTIR DA JUSTIÇA AMBIENTAL Élida Lauris Pesquisadora da Universidade de Coimbra 1. tento indicar as peculiaridades que individualizam a questão ambiental e a justiça ambiental como desafio ao jurídico e à ação dos movimentos sociais. inicialmente a apresentar a mudança de paradigma da atuação dos tribunais e dos movimentos sociais. no fim. como também de intervenção. apresento as soluções institucionais e organizações de defesa do meio ambiente existentes no Brasil e em Portugal para. o ambientalismo enquanto movimento social enquadra-se em um novo paradigma. dados os recursos que os atores sociais têm mobilizado em sua luta pela defesa do meio ambiente. De seguida. O meio ambiente representa em si um desafio para proteção e concretização por parte Estado. Para tanto. Em seguida. concentrei-me na análise do aparato jurídico-institucional e de acção colectiva disponível aos movimentos ambientalistas presentes no estado português e brasileiro. não só identitário. dependendo em grande medida da acção social coletiva e de iniciativa por parte da política pública. Proponho-me. INTRODUÇÃO Neste artigo. pretendo investigar a utilização de ferramentas jurídicas como estratégia de luta dos movimentos sociais. apresentar as diferentes facetas da relação entre mobilização jurídica e mobilização social. .

da previsão de mecanismos de controlo entre os diferentes poderes do estado e. portanto. a crise do desenvolvimentista coincidiu com o processo de democratização. Em uma concepção liberal de Estado e de direito. o aparecimento de novas situações conflitivas. Como não cabe ao judiciário dizer o que é melhor para a sociedade ou qual a melhor sociedade. p. 25-57. 2001. como é o caso brasileiro. se estiverem de acordo com os procedimentos legais previamente estabelecidos. A neutralidade política do juiz residiria em sua passividade. influenciada pela ascensão do operariado e pelas reivindicações de expansão da cidadania interclasses. PODER JUDICIÁRIO E MOVIMENTOS SOCIAIS: UMA MUDANÇA DE PARADIGMA No Estado Moderno. o poder judiciário é concebido dentro de uma estrutura legal-racional típica do período liberal. . Hélcio. o judiciário desempenharia seu papel em uma sociedade separada do Estado. e adstrito à lei. Justiça e Democracia: Judicialização da Política e Controle Externo da Magistratura. a questão social enfatizava o papel da administração executiva na cobertura dos direitos económicos e sociais. a qual aplica silogisticamente aos fatos.Ano 4 n. o esgotamento dos mecanismos tradicionais de representação política. a ideia de representação política e a submissão do Estado à lei. ainda. em especial conflitos coletivos. As crises do sistema capitalista exasperaram a incapacidade de incorporação das demandas sociais por meio de políticas de promoção do Estado. Porto Alegre: Síntese. associados às dificuldades do Estado em institucionalizar as demandas sociais e o correlato desgaste da legitimidade dos mecanismos de distribuição de recursos do sistema político passaram a desafiar os tribunais a uma reformulação da função que tinham estado a desempenhar. no sentido de restaurar a ordem violada. este modelo implica uma neutralidade axiológica dos operadores do direito face aos problemas políticos e sociais. 2 jul. Inicialmente.1 O judiciário passa então a conjugar o legado da concepção 1 Cf. Essa estrutura e cultura jurídicas. 2011 2.56 Revista da Defensoria Pública . Neste contexto. pois atua apenas quando provocado. garantindo. de modo que as ações do Estado são legitimadas por meio do voto./dez. RIBEIRO. uma atuação retrospectiva. um conjunto de direitos individuais contra o Estado ou em detrimento de outros cidadãos. mostraram-se ineficazes para lidar com a crescente complexificação das sociedades. Nos países periféricos. contudo. transferindo para arena judicial demandas antes negociadas com a administração pública. Nesse esquema são valorizadas a separação de poderes. o que levou às portas do judiciário conflitos inéditos em conteúdo e forma de manifestação. quando acionado. cabendo-lhe.

Note-se aqui uma atuação prospectiva contrária à prevista na concepção liberal que se limitava à restauração da ordem violada. este novo contexto de consagração dos direitos convive com a intensa acção coletiva por parte da sociedade civil. Consequentemente. uma vez que. a consciência de direitos é ampliada numa consciência complexa em que a liberdade e a igualdade não são prerrogativas formais exercidas apenas individual e autonomamente. Boaventura. enfrenta as expectativas de assumir uma maior responsabilidade social. Corresponder às expectativas. ao decidir sobre a garantia direitos não instrumentalizados pela política pública. por sua vez. sob pena de colocar em causa a legitimidade do sistema jurídico e ainda tornar-se social e politicamente irrelevante. Porto: Afrontamento. reivindica um desempenho funcional distinto. em um quadro em que o raciocínio lógico de aplicação do direito. p. conduziu a uma atitude pró-ativa 2 SANTOS. A exigência de novos direitos. os tribunais facilmente entram em choque com as esferas de influência do executivo e legislativo.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 57 liberal de direito com um novo padrão de intervenção que lhe é requerido face às novas demandas sociais emergentes. Trata-se não só de direitos individuais como de direitos colectivos e difusos. não só de direito à igualdade como de direito à diferença. passando a ser reivindicadas como direitos materiais a serem garantidos pelo Estado. Esse padrão de intervenção judicial. por sua vez. 1996. O Judiciário.2 a ampliação das esferas de atuação do direito também refletiu no alargamento dos campos de litigação e da procura judiciária desembocando em uma consequente explosão de litigiosidade. Enquanto o modelo liberal é marcado pelo isolamento dos tribunais em relação à sociedade e aos demais poderes do Estado. 25-27. agora de caráter coletivo. em sua maior parte não regulamentados e dependentes de políticas públicas. impulsionou as decisões das cortes a interferir sobre suas condições de efetividade. denunciando não só as consequências da exploração de classes como também os diferentes contextos de opressão vividos pelas populações à margem do contrato social. Como afirma Santos. acarretará uma maior controvérsia política entre os diferentes poderes do Estado. é substituído pela máxima da justiça distributiva e do direito à diferença. Já a ampliação da titularidade dos direitos e dos efeitos das decisões. segundo a ideia de igualdade formal. et al. . Os Tribunais nas Sociedades Contemporâneas: O Caso Português.

O paradigma marxista deixa de ser a principal inspiração das formas de ação coletiva a partir da década de 1970. por pertencerem ao corpo teórico funcionalista – tais como raça. vizinhança etc. O poder deixa de ser visto apenas como componente da esfera do Estado e passa a ser visto como componente da esfera pública da sociedade civil. p. 4 . nacionalidade. como nota Gohn: Categorias que ficaram por duas décadas congeladas. que eram utilizadas como atributos básicos explicativos da ação dos indivíduos e grupos – foram retomadas de forma totalmente nova. Cria-se uma nova identidade coletiva que não se baseia mais nos códigos políticos binários tradicionais (direita/ 3) 3 GOHN.. Madalena. alargamento dos campos de litigação e demanda por um novo papel a ser cumprido pelos tribunais também podem ser explicados com a mudança de paradigma dos movimentos sociais e dos recursos dos quais lançam mão para a ação coletiva. com Duarte. 2-3. DUARTE. cor. 1997. reúnem as seguintes características: 1) A política tem uma centralidade na sua constituição epistemológica. Maria da Glória.4 esses movimentos. Oficina do Centro de Estudos Sociais. Novas e Velhas formas de protesto: o potencial emancipatório da lei nas lutas dos movimentos sociais./dez. Julho de 2004. empenhado em ampliar o grau de acesso aos bens da humanidade mas também extremamente crítico em relação a seus efeitos. p. 2) Os participantes da ação coletiva são vistos como atores sociais – substitui-se o padrão de um sujeito histórico determinado pelas condições do capitalismo por um novo sujeito difuso. Essa “explosão de litigiosidade”.3 De acordo.Ano 4 n. que deixam o adjetivo classista para nominarem-se transclassistas. língua. 2011 dos tribunais no controle do acesso à justiça e na solicitação da tutela de interesses coletivos e difusos. 2 jul. 121. São Paulo: Edições Loyola. De tal modo que campos antes considerados despolitizados (relações de género.58 Revista da Defensoria Pública . defesa do ambiente) são politizados. em esquemas que privilegiam a heterogeneidade sócio-econômica em detrimento da homogeneidade económica dada pela classe. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. não hierarquizado.

se formas de ação direta. além de conviver com a realidade de dispersão normativa dos diplomas que 5 6 DUARTE. p. não burocráticas ainda são vistas como atrativas.5 O raio de ação desses movimentos tanto vai ser maior quanto mais as diversas dimensões de direitos humanos estiverem compreendidas pelo ordenamento jurídico estatal. espontâneas. em si. população urbana/rural). desenvolvo as características da questão ambiental e do conceito de justiça ambiental bem como suas implicações para a ação do Estado e dos movimentos sociais. Ibid. AMBIENTALISMO E JUSTIÇA AMBIENTAL O meio ambiente como objeto a ser tutelado pelo direito traz consigo a predominância de interesses coletivos e difusos intergeracionais. pois envolve igualmente a consideração de direitos civis (como igualdade) exigindo atenção para as políticas oficiais de distribuição dos riscos e dos danos ambientais. p. à ciência e ao direito. pobre/rico. Henry. De tal modo que. 3.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 59 esquerda. a questão ambiental traz. Madalena. por exemplo. a verdade é que a expansão e aumento de força política dos movimentos. conduzindo-os para uma progressiva cooptação e enquadramento institucional. complexidade para o arcabouço jurídico institucional do Estado. várias ONGs e associações vêm substituindo ações mais radicais ou alternativas pelo recurso. Nesse conjunto de direitos. a tendência de constitucionalização e criação de mecanismos processuais para a proteção não só de direitos individuais como também de direitos coletivos e difusos traz uma nova agenda de reivindicações possíveis dos movimentos sociais junto ao Estado e é uma das razões para o aumento da procura dos tribunais. Assim.. No próximo item. a afirmação de suas lideranças. a estruturação dos seus programas de orientação ideológica e a sedimentação de sua base organizativa tendem a influenciar o aprimoramento da componente formal. Assim. 2/3 . 7. ACSERALD. liberal/conservador) ou baseado em categorias socioeconômicas (operariado/burguesia. Como demonstra Ascerald6 a construção de um conceito de justiça ambiental aumenta essa dificuldade. Justiça ambiental: novas articulações entre meio ambiente e democracia.

in dubio pro ambiente. FRAGA. a promoção ambiental. na incerteza sobre a lesividade do empreendimento. 2 jul. Jesús Jordano. 2011 se encarregam de discipliná-lo.60 Revista da Defensoria Pública . decide-se a favor do meio ambiente. impera o entendimento de que. 37 Cf.9 Para a defesa ambiental atuam os princípios como da correção na fonte./dez. A promoção ambiental envolve uma ação acauteladora. dada a multiplicidade dos interesses envolvidos e as pressões sociais. p.10 Além da precaução. Belo Horizonte: Del 8 9 10 . do poluidor pagador e da prevenção. Não à toa. obstando-os em sua origem (correção na fonte). COSTA NETO. o que torna raro que a solução de demandas de alta repercussão nessa área se operacionalize sob um ponto de vista estritamente jurídico. pp. Barcelona: José Maria Bosch Editor. A defesa do meio ambiente requer não só uma atitude preventiva.7 deve-se ter ainda em mente que o direito ambiental é um campo do conhecimento jurídico atravessado por diversos outros saberes (antropologia. Autogoverno e Controle do Judiciário no Brasil: A proposta do Conselho Nacional de Justiça. a promoção do meio ambiente 7 A multiplicidade de interesses em torno das questões ambientais é ainda reforçada pelo direito com a atuação dos princípios da informação e da participação comunitária Cf. pois se afasta daquele ideal civilista de aplicação de um código para solucionar um conflito entre partes individualmente consideradas. sociologia. Flávio Dino Castro e. dever de impedir a efetivação de danos certos e definidos ao meio ambiente. Brasília: Brasília Jurídica. COSTA. Nesse caso. La Protección del derecho a un Medio Ambiente Adecuado. por sua vez.Ano 4 n. Essas características do direito ambiental impedem que as decisões judiciais nessa matéria sejam absolutamente neutras e técnicas. 1995. Além de afastar o debate do terreno atomizado e estritamente formal. Nicolao Dino de Castro e. 2001. no sentido de rechaçar a ação em que há dúvida sobre a potencialidade agressiva. como também uma atitude reparadora. conta com o princípio da precaução ambiental. entre outros). biologia. procurando responsabilizar aquele que degrada o meio ambiente pelo ônus de sua atividade e pelos custos destinados a impedir a agressão e repará-la (poluidor-pagador). Proteção Jurídica do meio ambiente. como se vê nos estudos de impactos ambiental e nas considerações sobre desenvolvimento sustentável. economia.8 O papel do direito ambiental na instrumentalização de um meio ambiente ecologicamente equilibrado implica as tarefas de defesa (frear efeitos contrários ao meio ambiente e preservá-lo da degradação) e promoção ambiental. esse tema convoca a necessidade de acção transdisciplinar. 121-155.

11 ACSERALD. (5) proteger fauna e flora. ações afirmativas do Estado no sentido de implementar um ambiente ecologicamente equilibrado. 2-3. tem condições de concretizar o princípio da prevenção uma vez que tem poderes para frear a ação danosa ao meio ambiente. No mesmo sentido. pp. responsabilizando as partes e exigindo o ressarcimento do dano. territorial. (3) definir espaços territoriais a serem protegidas. . há um papel particular a ser desenvolvido pelas organizações de defesa ambiental. entre outras. Justiça ambiental: novas articulações entre meio ambiente e democracia. ambiental e de direitos civis. Uma noção mais alargada de justiça ambiental implica uma maior agenda de encargos para a ação e articulação política dos movimentos sociais. a interferência do judiciário na promoção e execução de políticas públicas é altamente controversa. vai depender muito mais da ação política e reivindicação dos movimentos sociais. (4) promover a educação ambiental. (2) preservar a diversidade e a integridade do patrimônio genético do País e fiscalizar as entidades dedicadas à pesquisa e manipulação do material genético. O sistema jurídico e judicial está mais afeito a garantir a reparação ambiental. órgãos administrativo encarregados da defesa do meio ambiente) e a realização efetiva de políticas ambientais e não se conta com uma última instância de força no quadro jurídico estatal para alcançar a promoção do meio ambiente. com as diretrizes previstas no art. 121-155. leia-se Legislativo e Executivo. Daí que a promoção de políticas públicas em prol do meio ambiente. O movimento constitui-se nos EUA a partir de reivindicações como a de equidade geográfica: configuração espacial e locacional de comunidades Rey. quando não executada voluntariamente pelo poder político. p. De acordo com Acserald. as políticas de promoção do meio ambiente dependem da ação voluntária de outros poderes do Estado. Henry. Face os limites da sua capacidade operativa. 225 da Constituição Federal brasileira para o poder público: (1) preservar e restaurar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas. Contudo. Nos casos em que há uma discrepância entre o quadro jurídicoinstitucional (leis.11 o movimento de justiça ambiental constitui-se a partir de uma interação criativa entre lutas de caráter social.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 61 exige a efetivação de políticas ambientais. o que se afina.

(c) elaborar apropriadamente uma classificação dos grupos sociais compatível com a posição diferencial dos indivíduos no espaço social. nos anos de 1970. p. ao revelar que há um caráter socialmente desigual nas condições de acesso à proteção ambiental. Henry. por exemplo. foi a reunião de reivindicações relacionadas a questões ambientais urbanas entre sindicatos preocupados com saúde ocupacional. instalações perigosas. A ação do movimento. Um outro exemplo de luta do movimento de justiça ambiental. foram feitas negociações destinadas a fazer entrar na pauta das associações ambientalistas tradicionais o combate à localização do lixo tóxico e perigoso predominantemente em áreas de concentração residencial da população negra. 12 . a existência de uma distribuição espacialmente desigual da poluição segundo a etinicidade das populações a elas mais expostas.Ano 4 n. recusa a ideia que a superação da crise ambiental pode ser feita utilizando as instituições da modernidade e sem abandonar o padrão de modernização ou o modo de produção capitalista em geral. criou uma concepção particular de bem público e ganhou força simbólica em suas ações por sua capacidade de: (a) estender a matriz dos direitos civis ao campo do meio ambiente. estações de tratamento de esgoto. usos do solo localmente indesejáveis como depósitos de lixo tóxico. quer por 12 ACSERALD. entre 1976 e 1977. quer por meio de estratégias de ação como a utilização de recursos multidisciplinares para fortalecer seus argumentos. O movimento por justiça ambiental contrapõe-se à visão hegemónica de modernização ecológica. o que resulta da capacidade que tem demonstrado em influenciar a agenda política. na verdade.12 Esse padrão de intervenção vem sendo apontado como aquele que possivelmente virá a liderar um novo ciclo de embate por transformação social. Justiça ambiental: novas articulações entre meio ambiente e democracia. refinarias.62 Revista da Defensoria Pública . fundando a noção de justiça ambiental como alternativa à oposição homem-natureza. 2 jul. etc. Na mesma direção. incineradores. nacionalizar e unificar uma multiplicidade de embates localizados. (b) politizar. A denúncia do movimento. existindo uma articulação perversa entre degradação ambiental e injustiça social. 2011 em sua proximidade a fontes de contaminação ambiental./dez. Estudos apontavam. Assim. grupos ambientalistas e organizações de minorias étnicas. evidencia que o padrão de modernização ecológica encobre existência de uma tendência da lógica política a orientar uma distribuição desigual dos danos ambientais.

a referência imediata é a Constituição da República Portuguesa de 1976 que traz o direito ao ambiente como um direito fundamental estabelecendo também deveres do Estado com a proteção ambiental. p. a única instituição estatal com destaque é a Comissão Nacional do Ambiente. A seguir. Na década de 1980. o movimento procurou internacionalizarse para construir uma oposição global às dimensões mundiais de reestruturação espacial da poluição. Globalização e Ambientalismo: atores e processos no caso da indineradora de Estarreja. . RODRIGUES. PORTUGAL E BRASIL: ARRANJOS INSTITUCIONAIS E ORGANIZAÇÕES DE DEFESA DO MEIO AMBIENTE O 25 de Abril de 1974 pode ser considerado um divisor de águas na organização institucional portuguesa sobre meio ambiente. tampouco apenas a ação coletiva institucionalmente arquitetada. Os marcos fundamentais de mudança na política oficial portuguesa do meio ambiente são lançados nos anos de 1986/87. o cenário português de proteção jurídica do meio ambiente é marcado por um certo vazio institucional.13 O movimento por justiça ambiental interessa aqui por sua ação em criar estratégias argumentativas que defendam a promoção ambiental contra as políticas oficiais de proteção do meio ambiente. Até a primeira metade da década de 1980. Antes dessa data.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 63 meio do recurso à solidariedade interlocal. faço um breve esboço dos arranjos institucionais e da acção social de defesa do meio ambiente em Portugal e no Brasil. Henry. pp. Em 13 14 ACSERALD. 52-77. são criadas a Reserva Agrícola Nacional e a Reserva Ecológica Nacional instrumentos jurídicos que só receberam regulamentação em 1989. 9 Cf. 4. de modo a evitar a exportação de injustiça ambiental para áreas com menor capacidade de organização e resistência. A atividade do movimento em alterar a pauta política de proteção do meio ambiente revelando suas iniquidades mostra que uma proteção ambiental alargada associada a outros direitos exige não só a proteção institucional. mas também a ação coletiva contra a política oficial das instituições. Maria Eugénia. Justiça ambiental e construção social do risco. criada em 1971. Nesse sentido. Universidade de Coimbra: Dissertação de Mestrado em Sociologia.14 Pós-25 de Abril.

. A questão que fica por responder é como essa dualidade e heterogeneidade da ação estatal portuguesa reflete-se na atuação das organizações ambientais. ao menos formalmente. Em Rodrigues (ano.Ano 4 n. Como expliquei acima. Em 1990 cria-se o Ministério do Ambiente e Recursos Naturais. não é uma garantia plena da proteção do bem ambiental. 1987 é o ano europeu do ambiente. vê-se a seguinte avaliação a política ambiental do Estado Português: O desenvolvimento da política de ambiente do Estado Português. Logo a seguir às leis. no que respeita à sua lentidão. como já foi dito acima. p. A evolução de um arranjo institucional. por si. 2011 1986. às suas ambiguidades. o funcionamento das instituições pode garantir eficácia em ações de controle e prevenção de danos ao meio ambiente.º 10/87). Portugal adere à então chamada Comunidade Económica Europeia e vê-se condicionado a consolidar as estruturas institucionais do Estado e proceder a harmonização de seu ordenamento jurídico com as diretivas europeias.º 11/87) e da Lei das Associações de Defesa do Ambiente (Lei n. e por vezes à clara contradição entre o campo das propostas e das iniciativas legaisinstitucionais. por um lado. por outro./dez. mas as políticas públicas referentes à questão ambiental ficam a cargo da boa vontade política dos governantes. A criação desse órgão é promissora pela concentração de competências face o anacronismo da separação administrativa das questões ambientais e territoriais. De maneira geral. o entendimento geral é da incompetência do judiciário para interferir em matérias dessa natureza. O auge do processo de consolidação jurídico-institucional da proteção ambiental dá-se com a criação do Ministério do Ambiente e do Ordenamento Territorial. evidenciam em alguns dos seus traços. e a eficácia das medidas de prevenção e controlo. 61). a própria natureza contraditória dual e heterogénea do estado português Usando os termos apresentados na citação acima.64 Revista da Defensoria Pública . é na cobrança por medidas de prevenção e controlo e na tentativa de superar o fosso entre iniciativas legais-institucionais e propostas que está o campo de ação dos movimentos e organizações de defesa do meio ambiente. 2 jul. é criado o Instituto Nacional do Ambiente encarregado da gestão dos fundos financeiros das organizações não governamentais de defesa do meio ambiente. Esse conjunto de fatores conduziu à promulgação da Lei de Bases do Ambiente (Lei n. Essas iniciativas mostram o peso das questões ambientais no âmbito do governo.

Madalena. De maneira geral. Julho de 2004. é comum uma descrença no uso do direito como uma estratégia exitosa para a ação dos movimentos sociais. Já no final da década de 1970 e início da década de 1980 ganham importância os movimentos de defesa das energias alternativas contra os projetos de instalação de centrais nucleares em Portugal. Nesse sentido. . 8-9. (b) a institucionalização pelo Estado da questão ambiental. havia uma tendência de integração das questões ecológicas à problemática mais ampla do movimento social popular. de tal modo que o mais forte protesto popular ocorreu em torno da luta antinuclear em Ferrel. o Movimento Ecológico Português. O impacto desta última em algumas associações representou o maior pragmatismo e ruptura com posições ideológicas mais radicais. A luta antinuclear foi um importante eixo de contestação que reuniu setores e militantes. unia em sua plataforma a preocupação ecológica e a causa política e social. nomeadamente após o ingresso de Portugal na União Europeia. inicia-se uma nova fase em torno da organização e autonomização de um movimento associativo que tivesse o problema do ambiente como central. duas vertentes têm impacto na atuação e identificação do movimento ambientalista português: (a) o contato internacional. A partir da década de 1980. alguns autores da corrente Critical Legal Studies argumentam que os tribunais como instrumentos hegemónicos não podem interferir significativamente em prol da transformação social. assim como o movimento pacifista de desarmamento.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 65 As organizações tendem para o recurso a formas mais imediatas de mobilização? A maior institucionalização da questão ambiental em Portugal provoca um maior grau de institucionalização da ação das organizações ambientais? A dualidade da ação do Estado gera dualidade na ação das organizações que intercalam medidas diretas com medidas institucionais? É no período pós-25 de Abril que aparecem as primeiras organizações de defesa do meio ambiente. Assim. p. Duarte15 enumera as principais vertentes desses argumentos: 15 DUARTE. Novas e Velhas formas de protesto: o potencial emancipatório da lei nas lutas dos movimentos sociais. Assim. a Associação Nacional de Conservação da Natureza – Quercus adquiriu maior projeção na luta contra as indústrias de celulose. Em meados dos anos de 1980. a mais destacada associação ambiental do período. Nesse contexto. Oficina do Centro de Estudos Sociais.

(2) (3) Dado o grau de abertura do direito. Madalena. 2011 (1) A justiça falha na sua componente redistributiva. o que pode ser defendido por meio das seguintes hipóteses: (a) O uso dos tribunais representa uma forma de exercício de democracia e cidadania. De outro modo. os direitos podem ser manipuláveis e utilizados para garantir qualquer tipo de decisão judicial.66 Revista da Defensoria Pública . indicando a consciência da existência de um direito e a afirmação da capacidade de reivindicá-lo. maior preocupação institucional com meio ambiente surge a partir da Constituição de 1988.Ano 4 n. cabendo ao executivo o papel de polícia ambiental através de órgãos como o Instituto Brasileiro 16 DUARTE. 2 jul.. (4) A estratégia judicial pode levar a que o Estado condicione a ação do movimento. cit. (c) Os tribunais têm uma função simbólica e. . Op./dez. O restrito acesso ou mesmo negação da justiça aos grupos minoritários é um fator de desmobilização legal. p. Os tribunais têm limites operacionais. 10-11. para além de emprestarem notoriedade à causa. o recurso aos tribunais pode criar ou reforçar a ideia de identidade coletiva.16 No caso brasileiro. enraízam concepções de justiça redistributiva e distributiva. A refutação desses argumentos depende da crença de que o uso do direito pode ser emancipatório. de modo que não têm capacidade operativa para fazer valer por si o enunciado de suas decisões. nem todos os grupos minoritários são tratados de forma idêntica pelas decisões judiciais. A Constituição declara o meio ambiente como bem de uso comum do povo e essencial à qualidade de vida. O sistema institucional de proteção do meio ambiente espraia-se na estrutura administrativa do Estado. impondo-se ao poder público e à comunidade o dever de protegê-los. independentemente da eficácia de suas decisões. (b) Para algumas minorias.

São Paulo: Fapesp. o Ministério Público e o judiciário têm um importante papel especialmente face à possibilidade de protecção do meio ambiente por meio de Ação Civil Pública. (d) (e) (f) (g) Ambientalismo dos artistas: artistas preocupados em produzir obras com consciência ambientalista. Ambientalismo dos educadores: professores de escolas que passaram a trabalhar com a questão ambiental. (a) (b) Ambientalismo dos cientistas: aqueles que se dirigem à opinião pública enquanto cientistas para fazer denúncias.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 67 de Meio Ambiente (IBAMA). 1999. p. cidadania e proteção do meio ambiente. Nesse sistema. sem necessariamente aderirem ao movimento ecológico. (c) Ambientalismo das ONGs de desenvolvimento social: entidades que trabalham com o desenvolvimento social e acabam por adotar preocupações ambientais. além de delegacias de meio ambiente estaduais. (h) Ambientalismo dos empresários: expressa-se em propagandas ou em empresário que por valores próprios tentam desenvolver tecnologias ambientalmente adequadas. Ambientalismo das religiões: no discurso de respeito ao meio ambiente presente nas várias religiões. Sua prática expressa-se em canais governamentais em vários níveis e limitações. 154-155. Furriela17 indica nove tipos de ambientalismo que têm se desenvolvido no Brasil ao longo das décadas de 1980/1990: Ambientalismo governamental: profissionais que assumiram um compromisso com os valores e práticas do ambientalismo e foram atuar na área governamental. AnnaBlume. (i) Ao se analisar mais detidamente o funcionamento da 17 FURRIELA. . Ambientalismo dos políticos profissionais: políticos que passaram a ser eleitos com discursos ambientalistas. pressionarem por mudanças. alertas. Democracia. Rachel Biderman.

REALIZAÇÃO DE FATOS CONCRETOS. A realização de fatos concretos pela Administração. 2. RELATOR: ARAKEN DE ASSIS. (APELAÇÃO CÍVEL Nº 70006898332. ainda. APELAÇÃO PROVIDA. Inexistência. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. IMPROCEDÊNCIA. 2011 proteção judicial brasileira. até em razão da previsão de despesas que devem ser dimensionadas na legislação reguladora. QUARTA CÂMARA CÍVEL. 1.º 70005972914. ou seja. RELATOR: HENRIQUE OSVALDO POETA ROENICK./dez. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RS. com a finalidade de despoluir bacias hidrográficas. 2 jul. A ação civil pública não é o meio processual adequado para constranger o Município a criar postos avançados de controle e fiscalização de transporte de cargas tóxicas. JULGADO EM 08/10/2003) . Precedente do STJ. INÉRCIA DO MUNICÍPIO. JULGADO EM 12/11/2003) EMENTA: ADMINISTRATIVO. PRIMEIRA CÂMARA CÍVEL. EXIGÊNCIA DE CRIAÇÃO DE POSTOS DE CONTROLE E FISCALIZAÇÃO DE TRANSPORTES DE CARGAS TÓXICAS NO MUNICÍPIO. Veja-se exemplificativamente a jurisprudência do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul. DESCABIMENTO DA AÇÃO. mas não conta com mecanismos que garantam a promoção ambiental por meio de políticas públicas. subordina-se à prévia previsão orçamentária. de prova de efetivo dano ao meio ambiente.68 Revista da Defensoria Pública . APELAÇÃO PROVIDA EM PARTE. INEXISTÊNCIA DE DANO AO MEIO AMBIENTE. NORMA DE EFICÁCIA REDUZIDA. LEI ORGÂNICA MUNICIPAL. POLÍTICAS PÚBLICAS.Ano 4 n. ver-se-á que o aparato jurídicoinstitucional construído tem maior eficácia no binómio prevenção-controle. ao princípio da realidade. No entanto. provado que a pessoa jurídica de direito público tudo faz ao seu alcance para proteger o meio ambiente e desenvolve políticas públicas concretas e objetivas com tal finalidade. Improcedência da ação. não cabendo ao órgão judiciário estabelecer prioridades e ordenar obras. com o fito de impedir que os particulares continuem com atividades poluidoras. cabe ordenar o exercício do poder de polícia. pressuposto para a condenação do poluidor. MEIO AMBIENTE. A ação não se presta a compelir a Municipalidade a regulamentar a norma genérica e de eficácia contida presente na Lei Orgânica do Município. (APELAÇÃO E REEXAME NECESSÁRIO N. MEIO AMBIENTE. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RS. EMENTA: AÇÃO CIVIL PÚBLICA.

os juízes não são eleitos pergunta-se: como pode se sustentar uma decisão judicial que contraria a maioria política ao interferir na atuação do Executivo ou do Legislativo. a despeito da eficiência do Ministério Público em solucionar não judicialmente as demandas de defesa do meio 18 SANTOS. ao sair da esfera de decisão sobre a defesa ambiental – em que lhe compete apenas evitar os danos certos e definidos. diz respeito aos limites estruturais para a efetivação das decisões judiciais. capacidade e independência. avaliá-los. condenar os responsáveis ou confrontar-se com o Executivo para evitar a atividade administrativa danosa – e. A independência é questionada pelo próprio judiciário pois. prejudicando seu desempenho funcional. o Ministério Público. Os Tribunais nas Sociedades Contemporâneas: O Caso Português. Como. Neste cenário. O desempenho judicial arrisca-se a uma perda de credibilidade em conflitos judiciais de grande repercussão cuja resolução fique pendente por não falta de execução.18 na dimensão da legitimidade.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 69 É na decisão sobre a promoção do meio ambiente pelo poder público que o judiciário encontra seu grande desafio. por sua vez. isso porque as decisões dos tribunais teriam maior impacto social se envolvessem a efetividade da promoção de políticas públicas em prol do meio ambiente. pode a qualquer momento sofrer retaliações que atentem contra sua independência. por exemplo. et al. . pois. 25-27. Porto: Afrontamento. é legítimo sustentar a hipótese de que a via judicial como alternativa para a solução de contendas envolvendo matéria ambiental seria automaticamente relegada para segundo plano. Boaventura. empenhar-se em ampliar sua atuação para fazer cumprir ações afirmativas de promoção ambiental. O judiciário depende da atuação de outros ramos do Estado para executar suas decisões. como. p. por estar vinculado financeiramente ao executivo e ao legislativo. 1996. os tribunais são questionados quanto ao conteúdo democrático de suas decisões. o judiciário arrisca-se a ter esse protagonismo questionado quanto à legitimidade. De acordo com Santos. A restrição da esfera de atuação do sistema judicial ainda pode implicar o risco de os tribunais tornarem-se socialmente irrelevantes. em grande parte do mundo. com a existência de outro órgão institucional que pode resolver extrajudicialmente conflitos relativos à defesa do meio ambiente e de forma mais célere. ambos eleitos democraticamente? O questionamento quanto à capacidade dos tribunais. Ainda no âmbito desta hipótese.

2011 ambiente. Vejam-se. ANANINDEUA. ainda que se verifique nalguns casos maior eficiência do Ministério Público no processamento das demandas relacionadas ao meio ambiente sobressaltando esse órgão para a solução de conflitos ambientais em detrimento do poder judiciário. a atuação do órgãos de administração da . no período de carga e descarga de botijões. casos existiriam em que a promoção ambiental dependeria de atuação concreta e voluntária das partes envolvidas. Ministério Público do Pará. a busca da solução vem sido obstada pela ausência das partes envolvidas nas audiências marcadas.70 Revista da Defensoria Pública . em determinados momentos. o impasse para a solução da questão reside na restrição da Funverde em assumir a atividade de licenciamento já que sua responsabilidade só se impõe em caso de vazamento significativo e constante que alterem as condições físico-químicas do ar e. ACONDICIONAMENTO DE GÁS NO MUNICÍPIO DE BELÉM A fiscalização da regularidade do acondicionamento de gás na cidade interessa pela possibilidade de dano ambiental em depósitos clandestinos. no período de 2000 a 2003. 2 jul./dez. dois Procedimentos Administrativos de Inquérito instaurados pela Promotoria de Meio Ambiental da Comarca de Belém.Ano 4 n. ainda que exista um órgão ativo na defesa de direitos. GESTÃO COMPARTILHADA DAS ÁREAS LIMÍTROFES ENTRE OS MUNICÍPIOS DE BELÉM. Estes dois exemplos interessam por demonstrarem empiricamente que. após uma audiência pública para tratar do assunto. a própria engenharia constitucional e os limites operacionais de cada organismo estatal servem de obstáculos para que os direitos sejam assegurados institucionalmente em sua plenitude. se os ruídos provocarem poluição sonora. Nesse sentido. Em audiência foi aventada a possibilidade de atuação conjunta da Delegacia de Meio Ambiente e a Funverde no sentido de obrigar ao licenciamento as atividades de depósito e comercialização do gás de cozinha. o primeiro impasse a ser resolvido para solucionar a questão estaria na fixação das obrigações de fazer de cada Município. onde o gás é acomodado de forma inadequada. SANTA BÁRBARA E MARITUBA NO TRATO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS Como o trato de resíduos sólidos se dá em área compartilhada por diversas municipalidades. a título de exemplo. BENEVIDES.

sobreleva-se o caráter individualista do direito e. p. Basicamente. Maurício. portanto. porque se for transferida ao judiciário. Rodrigo. debilitando a luta contra-hegemônica dos movimentos sociais. Boaventura de Sousa. legislação social para os trabalhadores. Retoma-se aqui a antiga discussão sobre os limites para que o direito possa ser utilizado como instrumento de emancipação social. nomeadamente o recurso judicial. GARCIA-VILLEGAS. esse poder também se debateria com o limite de sua competência previsto no esquema de separação de poderes para forçar o poder público a solucionar problema. nesse sentido. leis de assistência social para os pobres. ainda que persista no direito uma tendência à dominação. pode também haver caminhos de resistência que favoreçam os movimentos sociais e. Essa situação indica um cúmulo. campos em que o poder executivo tem constitucionalmente salvaguardado sua autonomia de ação. Nesse sentido. teria o condão de trivializar e individualizar as demandas. 253-254. pode o direito ser usado como meio eficaz para luta dos movimentos sociais? 5. entre outros. em que a solução depende ou de políticas públicas ou da delimitação de competências entre os executivos municipais. o debate está contido em duas posições. Tribunal constitucional e emancipação social na Colômbia. MOBILIZAÇÃO JURÍDICA E MOBILIZAÇÃO SOCIAL Adiscussão em torno do potencial emancipador do uso de instrumentos jurídicos para a obtenção de direitos remonta à década de 1980 com a avaliação feita por académicos americanos sobre o movimento de direitos civis.19 Para aqueles que defendem a ineficácia do uso do direito para a luta dos movimentos sociais. uma mais radical e outra moderada. o recurso ao direito. dependendo da ação voluntária dos responsáveis pela política pública. Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. 19 UPRIMNY.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 71 justiça paralisa-se. De outro lado. há os que veem que. In SANTOS. . podem ser citadas leis e a consagração jurídica de direitos das minorias. por exemplo: direito à igualdade para as mulheres. a ineficácia da resposta do direito no plano colectivo. Porto: Afrontamento. Basta pensar nos casos exemplificados. Dadas as restrições de atuação dos órgãos jurídicos para a garantia de direitos.

é possível reformular o debate em torno da mobilização legal: no lugar da pergunta sobre a contribuição do direito para a implementação e progresso da luta dos movimentos sociais. 2011 Já desde a década de 1990. CONCLUSÃO Neste artigo. de um campo aberto à investigação. traduzir. à sua capacidade de incorporar. portanto. assim.72 Revista da Defensoria Pública . não há cobertura institucional plena para todos os casos que afetam a questão ambiental. podendo lançar mão de manifestações mais diretas a manifestações mais institucionalizadas. subverter e contrariar esta realidade. alcance e eficácia. portanto. O feixe de opções liga-se às alternativas construídas no âmbito de cada movimento e intermovimento. propus-me a refletir sobre os mecanismos jurídicoinstitucionais colocados à disposição dos movimentos sociais. Isso remete às organizações de defesa ambiental portuguesas que têm que lidar com a eficácia da ação do Estado em algumas dimensões e a inércia em outras. as reformas jurídico-legais tanto podem reforçar o status quo quanto virem a contribuir para a luta política por transformação social. vem se consolidando nos críticos a visão de que a eficácia ou ineficácia do instrumental jurídico é um fenómeno complexo não passível de generalizações./dez. mesmo um instrumental jurídico progressista encontra limites operacionais. Nesse processo. Em . ressignificar. Trata-se. à realidade dos poderes e dos discursos dos locais e translocais em que os movimentos estão inseridos e. bem como as articulações com a legalidade em suas diferentes escalas. Dessa forma. 6. ainda. A acção colectiva liga-se. A análise feita neste artigo indicia que. os mecanismos à disposição dos movimentos sociais são heterogéneos. analisei a construção de alternativas jurídicas e institucionais e o ambientalismo em Portugal e Brasil. 2 jul. Para tanto. mesmo com uma legislação favorável à proteção do meio ambiente e a atuação positiva por parte de alguns órgãos responsáveis pela administração da justiça. deve-se indagar sobre a importância da luta dos movimentos sociais para a implementação e progresso do próprio direito. seu sentido. Defendo. que é a mobilização social a mola propulsora da aproximação do fosso abissal que acaba por existir entre o que a sociologia do direito convencionou chamar: law in books e law in action.Ano 4 n. ou seja. muitas vezes utilizando como vantagem o contexto europeu de aplicação do direito.

COSTA NETO. 2001. Barcelona: José Maria Bosch Editor. Brasília: Brasília Jurídica. a análise da atuação jurisdicional das demandas ambientais dá sinal de um vazio institucional nas políticas públicas afirmativas em prol do meio ambiente. Justiça e conflito: os juízes em face dos novos movimentos sociais. No caso brasileiro. Madalena. uma ação judicial. esses dois polos devem fortalecer-se reciprocamente. FRAGA. Justiça ambiental: novas articulações entre meio ambiente e democracia. São Paulo: Revista dos Tribunais. como. 2005. Henry. Rio de Janeiro: Relume-damará. DUARTE. FERREIRA. Conflitos ambientais no Brasil. Oficina do Centro de Estudos Sociais. 2004. Novas e Velhas formas de protesto: o potencial emancipatório da lei nas lutas dos movimentos sociais. Julho de 2004. Coimbra: Almedina. Justiça ambiental e construção social do risco COSTA.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 73 Portugal. seus limites ou fraqueza podem por em risco a acção colectiva agindo como obstáculos às lutas por efectividade dos direitos. Trabalho procura justiça: os tribunais na sociedade portuguesa. Autogoverno e Controle do Judiciário no Brasil: A proposta do Conselho Nacional de Justiça. o que destaca a importância dos atores coletivos para remediar o fosso existentes entre law in books X law in action. Flávio Dino Castro e. No percurso de uma margem para outra. La Protección del derecho a un Medio Ambiente Adecuado. Nicolao Dino de Castro e. António Manuel Carvalho. ______. Belo Horizonte: Del Rey. até a ação mais institucionalizada. FARIA. ______. desde a ação direta. José Eduardo. A efetiva proteção de direitos depende de um amálgama complexo de soluções institucionais e mobilização social. a presença de um Estado dual e heterogéneo dá aos movimentos ambientalistas duas margens: a inércia e a eficácia estatal. Proteção Jurídica do meio ambiente. REFERÊNCIAS ASCERALD. 1995. por exemplo. 1991. os movimentos podem lançar mão de um conjunto de estratégias de ação que vão. . Jesús Jordano.

Direitos humanos. A ambientalização dos conflitos sociais. Marisa. Sociology and the environment. Blackweel. 2004. 1999 GOHN. Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Boaventura. RODRIGUES. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. Porto: Afrontamento. et al. Rio de Janeiro: Relume-damará. . Justiça e Democracia: Judicialização da Política e Controle Externo da Magistratura.Ano 4 n. São Paulo: Fapesp. Poderá o direito ser emancipatório. cidadania e proteção do meio ambiente. GARCIA-VILLEGAS. São Paulo: Malheiros. In: Revista Crítica de Ciências Sociais. MATIAS. 2011 FURRIELA. 1989. LOPES. Rachel Biderman. direitos sociais e justiça. UPRIMNY. Hélcio. SANTOS. 1996. nº 65. O direito na economia globalizada.74 Revista da Defensoria Pública . Maurício. Maria Eugénia. 2001. AnnaBlume. 1994. 1999. Rodrigo. Boaventura de Sousa. Boaventura de Sousa./dez. ______. Não nos lixem: a luta contra a co-incineração de resíduos em Souselas ______. Maio de 2003. RIBEIRO. Tribunal constitucional e emancipação social na Colômbia. Porto Alegre: Síntese. São Paulo: Ática. Direito e justiça: a função social do judiciário. Alan. ______. São Paulo: Malheiros. Os Tribunais nas Sociedades Contemporâneas: O Caso Português. Democracia. Globalização e Ambientalismo: atores e processos no caso da indineradora de Estarreja. São Paulo: Edições Loyola. 1997. IRWIN. 2 jul. Porto: Afrontamento. Maria da Glória. SANTOS. José Sérgio Leite. Universidade de Coimbra: Dissertação de Mestrado em Sociologia. In SANTOS.

docentes do curso de direito da Universidade Nove de Julho. dispôs no Art. 5º.br 1. a Constituição. 134 da Constituição consolida a responsabilidade do Estado: “A Defensoria Pública é instituição essencial à função jurisdicional do Estado. promulgada em 05 de outubro de 1988. Atendendo a essa necessidade. na forma do art. os dados estão sendo analisados e interpretados para posterior publicação. compõem a equipe as Professoras Andréa Cristina Oliveira Gozetto.A DEFENSORIA PÚBLICA PAULISTA: CAMINHANDO NA CONTRAMÃO1 Eneida Gonçalves de Macedo Haddad Mestre em Antropologia Social e Doutora em Sociologia/USP. em todos os graus. Atualmente. se os cidadãos não se sentirem mais próximos da justiça. antes e durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte convocada em 1987. a garantia do acesso à justiça já constava da pauta de reivindicações dos movimentos organizados da sociedade civil. incumbindo-lhe a orientação jurídica e a defesa. docente e pesquisadora/UNINOVE enhaddad@uol. . 1 Este artigo corresponde a alguns resultados de uma investigação cujo objetivo é resgatar a história da Defensoria Pública no Estado de São Paulo.com. LXXIV”. A coleta de dados. realizada por quatro pesquisadoras. foi iniciada em agosto de 2007 e concluída em julho de 2009.” (Boaventura de Sousa Santos) Na década de 1980. O Art. Além da autora deste artigo. dos necessitados. Cibele Cristina Baldassa Muniz e Thaís Aparecida Soares. INTRODUÇÃO “Não haverá justiça mais próxima dos cidadãos. 5º LXXIV que “O Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”.

organizado por alguns membros da Procuradoria Geral do Estado/PGE. o Movimento. Criada em 1947.º 988 que criou a Defensoria Pública paulista. 2 jul. A Defensoria Pública da União2 e a do Distrito Federal subordinam-se ao Poder Executivo. a PGE e a seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil/OAB eram contrárias à criação de uma instituição que substituísse os serviços prestados pela Procuradoria da Assistência Judiciária (PAJ) e pelos advogados dativos. administrativa e financeira das defensorias públicas estatais. nas dependências da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. foi oficializado o Movimento pela Defensoria Pública/ MDPESP. dentre as quais o episódio da vídeoconferência: 2 Criada e organizada pela Lei Complementar n. 2011 Ao iniciar o século XXI. o Estado de São Paulo ainda não havia cumprido essa obrigação constitucional. de sorte que a Emenda n.Ano 4 n. 2. a PAJ teve uma longa vida. enfrentou as injunções políticas resistentes à existência dessa instituição.º 80 de 1994 e implantada com a Lei n. Em 9 de janeiro de 2006.º 9020 de 30/03/1995. . Acrescente-se ainda que a reforma constitucional do judiciário reconheceu a relevância das defensorias públicas. Em entrevista concedida em 2008. extinguindo-se após a criação da Defensoria Pública. em 2002. uma defensora pública que atuava como procuradora da assistência judiciária referiu-se a diversas situações paradoxais. Buscando alterar a cadência lenta da história. O MOVIMENTO POR UMA INSTITUIÇÃO DEMOCRÁTICA Além do descompromisso do Poder Executivo com os segmentos socioeconomicamente desfavorecidos. Deflagrado um amplo debate pela criação em São Paulo de uma defensoria democrática e independente.76 Revista da Defensoria Pública . Somente flexibilizaram suas posições quando o MDPESP ganhou força. foi sancionada a Lei Complementar n.º 45/2004 garantiu a autonomia funcional./dez. contando com o apoio de centenas de entidades. Os crescentes impasses gerados pela impossibilidade de conciliação das funções exercidas pela PAJ – defensora dos direitos da população desprovida de recursos – com as da PGE – defensora do Estado – anunciavam a necessidade de uma solução.

o parecer da PGE. de uma forma mais ou menos intensa. Mas. Petrópolis. por que o conflito se manifestou tão tarde? Nos limites dessas reflexões acerca da problemática. inclusive. uma dicotomia dentro da PGE porque. Foi o caso do episódio da vídeo-conferência que. por consequência. arrastou-se ao longo das décadas. Atualmente. pela própria natureza da atividade. Os Centros de Integração da Cidadania/CIC foram idealizados por um grupo de operadores da justiça da cidade de São Paulo. desde a criação da PAJ. Entretanto. O estranho hibridismo de funções no interior da PGE não era recente. fazendo parte do Plano de Segurança Nacional da Secretaria Nacional de Segurança Pública/SENASP. profissionais da PAJ cujas biografias tinham sido enriquecidas com a atuação no Centro de Integração da Cidadania/ CIC5 em funcionamento 3 4 Arquivo das autoras. O projeto que levou à criação dos CIC é expressão de um novo paradigma de justiça e segurança fundado na bus- 5 . em 1947. Eram funções que não podiam estar dentro de uma mesma instituição pela própria essência. 2002.4 a existência de defensorias públicas na grande maioria dos estados brasileiros – somou-se o “despertar” dos dois principais articuladores do MDPESP. participávamos de audiência. o anseio popular pelo acesso à justiça. Novos estudos sobre exclusão. recusando. A sociedade vista do abismo. compreende-se que às condições históricas favoráveis – dentre as quais se destacam o dispositivo constitucional. Quer dizer. O primeiro CIC foi implantado no distrito de Itaim Paulista. havia um parecer da PGE autorizando o governo do Estado a instalar e a implementar o sistema de vídeo-conferência. em 1996. cuja defesa dos hipossuficientes do processo criminal exigia que nos manifestássemos contra a vídeo-conferência. é de flagrante inconstitucionalidade. procuradores da PAJ. 2 ed. pobreza e classes sociais. nós.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 77 Sempre houve. no início de 1990. essa política pública funciona em várias regiões do município de São Paulo e do Estado de São Paulo e em outros estados brasileiros. no aspecto penal e processual penal. Vitore André Zílio Maximiano e Antonio José Maffezoli Leite. Dentre elas: MARTINS. José de Sousa. para fazer valer o direito dos cidadãos. exigindo a criação da Defensoria Pública e. a revisão da situação profissional dos que atuavam na PAJ. a PAJ acionava o Estado. RJ: Vozes.3 Alguns procuradores estavam conscientes de que a assistência à população socioeconomicamente desfavorecida não poderia continuar sendo realizada por um braço da PGE. Têm sido importantes as contribuições acerca da da situação das classes sociais desfavorecidas.

TEODORO. O trabalho tem parceria com o Instituto São Paulo Contra a Violência.6 políticas sociais alternativas que começaram a ser implementadas na década de 1990. buscando uma abordagem integrada do problema.br/ praticas/cravi-centro-de-referencia-e-apoio-a-vitima. de um lado. Dentre seus objetivos. psicólogos e assistentes sociais compõem a equipe de atendimento. Jacqueline. proporcionar. Não bastasse./dez. http://www. Portanto. Secretaria de Estado de Direitos Humanos da Presidência da República e Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social de São Paulo. MIMEO.2009. Acesso em 21 de setembro de 2009). cuja participação tem sido significativa na construção de políticas públicas voltadas à ampliação do acesso à justiça. oferecendo-lhe os instrumentos necessários para o exercício político da cidadania e transformando-as em sujeito de deveres e direitos. A respeito. A “Lenda” ou história da borboleta: os movimentos sociais e a educação . 2006. 2 jul. foram eleitos para os cargos de presidente e de secretário-geral no Sindicato dos Procuradores do Estado. SINHORETTO. garantindo-lhes o direito de serem ouvidas. destacam-se: “dar visibilidade à questão dos homicídios nos centros urbanos e às suas vítimas indiretas. Ir aonde o povo está: etnografia de uma reforma da justiça. SINHORETTO. nº 1. 193-207. 2006. Advogados. o campo hegemônico reclama ca da concretização dos direitos humanos. Se. às vítimas. In: São Paulo: ECCOS . Ana Maria. Jacqueline. São Paulo: IBCCRIM. A respeito.org. 6 Em 1998. 2003. Jacqueline. atribuir unicamente à solução de problemas institucionais a iniciativa de procuradores da PAJ de organizar o MDPESP é desconsiderar suas percepções de justiça e de “direito” e seus compromissos democráticos com a população que atendiam e com os movimentos sociais. Liana de. das Autarquias. reposicionar socialmente as vítimas de violência. Justiça e Segurança na periferia de São Paulo: os centros de integração da cidadania. Tese de Doutoramento. a Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo criou o programa Centro de Referência e Apoio à Vítima/CRAVI para atender as vítimas diretas e indiretas de violência contra a vida na Região Metropolitana de São Paulo. das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo/Sindiproesp.forumseguranca. Luci Gati. jan/ jun. condições para que identifiquem e impeçam novas situações de violência” (Cf. Instituto Therapon Adolescência. António. ALMEIDA. SINHORETTO.Ano 4 n. Eneida Gonçalves de Macedo. podem ser identificados dois grandes campos. em relação ao judiciário. 11.7 Concorda-se que. Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia. 2011 no Itaim Paulista e no Centro de Referência e Apoio à Vítima (CRAVI). Eneida Gonçalves de Macedo. PAULA. ALVARENGA.78 Revista da Defensoria Pública .o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e a educação do Campo. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Frederico de. PIETROCOLLA. o que exigiu a ampliação dos contatos com defensores públicos de outros estados e com as entidades organizadas da sociedade civil.Revista Científica. Desenho e Implantação da Política Pública (2003-2005). Centros Integrados de Cidadania. HADDAD. 7 . p. consultar: HADDAD. SÃO PAULO: IBCCRIM. v.

2008. moradia. p. lazer. movimentos voltados à melhoria das condições de vida e de trabalho. saúde. via fóruns. (SANTOS.”. alimentação. dentre outros. salário etc. por outro. emprego. a luta pelo direito da população historicamente desfavorecida contar com uma instituição a lhe garantir uma assistência jurídica de qualidade. algumas vezes elas se misturam. isto é. dê segurança jurídica e garanta a salvaguarda dos direitos de propriedade” (SANTOS. rápido. p. transportes. em encontros promovidos pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa . a previsibilidade dos negócios. “não tem a pretensão de criar uma tipologia de formas únicas e excludentes. “que demandam acesso e condições para terra. dentre outros). nos quais podem ser incluídas as lutas das mulheres. A organização do MDPESP. Maria da Glória Gohn classifica os movimentos sociais em movimentos identitários (os que lutam por direitos sociais.” e. dos idosos. finalmente. idosos. desde o anteprojeto de lei de sua criação. na prática. 2008. um sistema que permita. o anteprojeto foi aprimorado por entidades da sociedade civil organizada. políticos e culturais. foi possível devido à parceria com diferentes movimentos sociais e entidades organizadas da sociedade civil. 23). direitos humanos. por isso.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 79 por “um sistema judiciário eficiente. no meio urbano ou rural. 2008: 29) Assim. efectivamente. Essa subdivisão. movimentos globais ou globalizantes. Os serviços oferecidos pela Defensoria Pública paulista refletem a presença e o peso dos movimentos sociais identitários e daqueles que lutam por melhores condições de vida – mulheres. Neste último. plenárias. conselhos etc. o campo contra-hegemônico é o campo dos cidadãos que tomaram consciência de que os processos de mudança constitucional lhes deram direitos significativos – direitos sociais e econômicos – e que. colegiados. moradia. e alguns movimentos assumem mais de uma frente de ação” (GOHN. explica a autora. é inegável o significado dos movimentos sociais no processo democrático. educação. Inicialmente elaborado pelo Sindiproesp. até porque. estão incluídas as “lutas que atuam em redes sociopolíticas e culturais. 439-440). vêem no direito e nos tribunais um instrumento importante para reivindicar os seus direitos e as suas justas aspirações e serem incluídos no contrato social. dos afrodescendentes. econômicos.

80 Revista da Defensoria Pública . 2 jul. especialmente aquelas de defesa dos direitos humanos. a cidadania e o ordenamento jurídico. no campo judicial e extrajudicial. 2011 Humana (Condepe) e pela Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos (CTV). das mulheres.Ano 4 n. propostas pelo anteprojeto. das Fundações e das Universidades Públicas do Estado de São Paulo – SINDIPROESP. da raça negra. 6 . divulgado pelo Movimento. por meio de conferências abertas à participação de todas as pessoas.Ter autonomia administrativa. entidades e organizações não governamentais. dos povos indígenas.Prestar atendimento interdisciplinar realizado por defensores.Promover a participação da sociedade civil na formulação do seu Plano Anual de Atuação. dos idosos. grupos. Esses profissionais também devem ser responsáveis pelo assessoramento técnico aos defensores. utilizando-se dos recursos do FAJ. Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da USP. das minorias sexuais e de luta pela moradia e pela terra. Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos – CTV. realizado durante todo o estágio confirmatório. garantam a seleção de profissionais vocacionados para o atendimento qualificado às pessoas carentes. das crianças e adolescentes.Estabelecer critérios que. com representação no Conselho Superior. das Autarquias. bem como pelo acompanhamento jurídico e psicossocial das vítimas de violência. Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher – CLADEM-Brasil. das pessoas portadoras de deficiência. 1 – Prestar. 3 .Assessorar juridicamente. 7 .Promover a difusão do conhecimento sobre os direitos humanos. por meio de núcleos especializados.8 Cabe observar a composição do comitê organizado quando da deflagração do MDPESP: Comitê de Organização: Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – CONDEPE. de forma descentralizada. psicólogos e assistentes sociais. do direito das vítimas de violência. com a eleição do Defensor Público Geral para mandato por tempo determinado. n. 8 . Sindicato dos Procuradores do Estado. em julho de 2002. Cf. Fala Preta Organização das Mulheres Negras e Centro de Direitos Humanos do Sapopemba – CDHS. 4 . (BOLETIM ELETRÔNICO. Arquivo da autora . no concurso de ingresso e no treinamento dos defensores. 10 .Ter autonomia orçamentária e financeira. 2 .Defender os interesses difusos e coletivos das pessoas carentes. assistência jurídica integral às pessoas carentes. 5 .º 1) O MDPESP congregou as demandas dos sujeitos coletivos articulando-as em torno de um interesse comum: a criação de um órgão 8 Vale registrar as principais características da Defensoria Pública a ser criada./dez. como mecanismo de controle e participação da sociedade civil na gestão da Instituição. 9 . Boletim eletrônico n° 1.Implantar Ouvidoria independente.

é um modelo a ser seguido pela administração pública. a orientação jurídica.º 80.10  Garantindo assistência jurídica a todos os cidadãos que recebem até três salários mínimos. atuando de forma ampla e organizada. Por isso o Movimento espera que ele seja usado pelo Governo Estadual como subsídio para a elaboração de um eventual projeto de Defensoria Pública para o Estado. “há diferentes paradigmas teóricos na atualidade para o estudo da ação dos sujeitos coletivos que produzem e reproduzem as demandas. a promoção 9 Conforme Maria da Glória Gohn. como expressão e instrumento do regime democrático. as redes poderão estar mais ou menos institucionalizadas. porque essa qualificação incorreria num erro de confusão entre estado. (BOLETIM ELETRÔNICO n. ações. que só pode ser enviado à Assembléia por iniciativa do Governador Geraldo Alckmin. operando na sociedade civil. do Distrito Federal e territórios e a Defensoria Pública dos estados. que organiza a Defensoria Pública da União. 2008. e dá outras providências. governo e instituição de qualquer natureza. nas dependências da Faculdade de Direito da USP: Após as falas iniciais e a leitura do Manifesto do Movimento foi entregue ao Procurador Geral do Estado o anteprojeto para a criação da Defensoria Pública. incumbindo-lhe. Segundo o Art. (…) Como há diversidade entre os sujeitos. de 5 de fevereiro de 1950. que foi elaborado em reuniões abertas com intensa participação da sociedade civil. segundo a sua composição. esse novo dispositivo legal contemplará 78% dos brasileiros. Criando espaços de participação da sociedade civil na sua gestão e fiscalização. 1º desse dispositivo legal. uma vez criada. fundamentalmente. essencial à função jurisdicional do Estado.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 81 público voltado à defesa do acesso à justiça.º1) A Defensoria Pública paulista nasceu como uma instituição democrática. a Defensoria Pública funcione como efetivo instrumento de acesso à Justiça. Em 07 de outubro de 2009. Isso não significa que sejam redes estatais ou governamentais. p.060. 10 . com alguma forma de juridização que normatiza suas ações. de 12 de janeiro de 1994. inovações ou até mesmo retrocesso nas ações coletivas organizadas.º 1. Esse anteprojeto possui importantes características para que. 439-440). Altera dispositivos da Lei Complementar n. do Distrito Federal e dos Territórios e prescreve normas gerais para sua organização nos Estados. em 2002. A Defensoria Pública é instituição permanente.9 A citação abaixo corresponde a um trecho do documento divulgado quando da oficialização do MDPESP. com ou sem algum tipo de articulação ou parceria com os órgãos governamentais” (GOHN.º 132 que organiza a Defensoria Pública da União. e da Lei n. Sua criação teve impacto inegável no sistema de justiça. foi sancionada a Lei Complementar n.

Cabe destacar que a Defensoria Pública paulista já vinha realizando as atividades de solução extrajudicial dos litígios e foi o primeiro órgão jurídico do Brasil a ter um cargo de ouvidor ocupado por um membro fora da carreira. Ante o exposto. judicial e extrajudicial. arbitragem e demais técnicas de composição e administração de conflitos. O Art. assim considerados na forma do inciso LXXIV do art. CAMINHANDO NA CONTRAMÃO Alguns obstáculos vêm impedindo a extensão a todas as comarcas dos serviços já implantados na Grande São Paulo e a criação de novas formas de atendimento que garantam a passagem da assistência judiciária para a assistência jurídica. canal de participação da sociedade na fiscalização do órgão. de mera promoção judicial de .Ano 4 n. de forma integral e gratuita. 2011 dos direitos humanos e a defesa. dos direitos individuais e coletivos. 2 jul. 105-A determina que as defensorias públicas deverão ter como órgão auxiliar a Ouvidoria-Geral. a solução extrajudicial dos litígios. por meio de mediação. Com a assistência jurídica há uma evidente transmutação./dez. prioritariamente.II. não poderá ser um integrante dos quadros da Defensoria. indicado por entidades de direitos humanos. de extensão da Advocacia privada aos financeiramente carentes à promoção dos direitos humanos. O Art 4º. 3. pode-se concluir que a Defensoria Pública do Estado de São Paulo é modelo para as defensorias públicas do país. de assistencialismo público para serviço público essencial. cuja implementação exige uma gama de serviços. O ouvidor. Merecem destaque dois outros artigos. aos necessitados. escolhido pelo Conselho Superior dentre cidadãos de reputação ilibada a partir de uma lista tríplice apresentada pela sociedade civil.82 Revista da Defensoria Pública . inexistentes quando a finalidade é unicamente a litigância. Passa-se da idéia de assistência judiciária para o de acesso à justiça. reza que as defensorias públicas deverão promover. em todos os graus. conciliação. 5º da Constituição Federal. visando à composição entre as pessoas em conflito de interesses.

São Paulo. incluindo a atuação nos tribunais superiores. a Conferência Estadual13 e o Momento 11 Cf Art. devendo participar da gestão e fiscalização da instituição e de seu membros e servidores”. constitucionalmente desenhada. 13 . Direito das pessoas que buscam a Defensoria Pública e definição das propostas e melhorias no atendimento. Legislação da Defensoria Pública. II. debates e grupos de trabalho que permitam a formulação de propostas pelos delegados. painéis. São Paulo. “a Ouvidoria-Geral é órgão superior da Defensoria Pública do Estado. prot´ção e prevenção dos direitos (…)”. 12 “A Conferência Estadual e as pré-conferências regionais poderão desenvolver-se sob a forma de palestras. 39 reza que “O Conselho Consultivo da Ouvidoria-Geral. Apresentando uma concepção moderna de administração pública. promoção. 2002. terá como finalidades precípuas acompanhar os trabalhos do órgão e formular críticas e sugestões para o aprimoramento de seus serviços. Legislação da Defensoria Pública. Da Organização e Desenvolvimento. (Capítulo IV. soluções alternativas de conflitos. com 60% de representantes da sociedade civil (totalizando 300) e 40% indicados por membros da área pública (totalizando200)” (Capítulo V. Legislação da Defensoria Pública. as PréConferências Regionais12. em comparação com os serviços de assistência judiciária antes existentes (ainda que nomeados defensorias públicas). Além de prestar assistência em todas as áreas do Direito de competência da Justiça Estadual. eventualmente pela via judicial. (WEIS. p. 2007). Atuação da Defensoria Pública com vistas à garantoia. em especial de representantes de todos os conselhos estaduais. O Art. 2007. composto por 11 (onze) membros e presidido pelo Ouvidor-Geral. constituindo canal permanente de comunicação com a sociedade civil”. municipais e comunitários. observadores e convidados e deverão abordar os seguintes temas e subtemas a serem discutidos: I. intervenção multidisciplinar.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 83 demandas privadas à identificação dos direitos fundamentais da população e sua instrumentalização. promove a cidadania por meio da educação em direitos. a fim de que se organize o novo serviço público em razão de sua real finalidade. possui canais de participação popular – a Ouvidoria-Geral11. III. “A Conferência Estadual deverá garantir ampla participação popular. 2007). 5) É significativo o papel desempenhado pela Defensoria Pública paulista. Daí porque é essencial a compreensão da natureza distinta das defensorias públicas. São Paulo. eleitos nas pré-conferências regionais. Prioridades no desempenho das atribuições institucionais da Defensoria Pública. mediação de conflitos e nas demandas sociais coletivas. Artigos 25 e 26. 36 da Legislação da Defensoria Pública. de entidades. Terá a participação de delegados eleitos nas pré-conferências regionais. organizações não-governamentais e movimentos populares.

84 Revista da Defensoria Pública .CONDEPE.Ano 4 n. ainda. O modelo de Defensoria construído para São Paulo conta ainda com a Escola da Defensoria (EDEPE)./dez. São Paulo. Infância e Juventude. São Paulo. quais sejam o Ministério Público e a Magistratura. bem como da regularidade do serviço (Capítulo I. Segunda Instância e Tribunais Superiores. O ouvidor-geral é nomeado pelo Governador do Estado. a Defensoria Pública paulista estava atendendo a capital e mais 25 comarcas da Grande São 14 O Conselho Superior é o órgão deliberativo máximo da Defensoria Pública. Subseção VI. Habitação e Urbanismo. Acrescente-se. há menos de 400 defensores para atender às necessidades da população socioeconomicamente desfavorecida. dentre os indicados em lista tríplice organizada pelo Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da pessoa Humana . a importância que vêm assumindo os núcleos especializados por receberem as reivindicações das comunidades. prestada por entidades conveniadas dentre as quais.16 Todavia. em outubro de 2009. quando ocorre a violação de direitos. Não bastasse o pequeno número de defensores e da precária infraestrutura. Subseção VII. A Corregedoria-Geral é órgão da administração superior encarregado da orientação e fiscalização da atividade funcional e da conduta pública dos membros da instituição. 2 jul. e majoritariamente. a Ouvidoria15 e a Corregedoria. uma espécie de Poder Legislativo interno. têm sido propostas ações civis públicas. estão em funcionamento os seguintes núcleos: Direitos Humanos e Cidadania. Assim sendo. O Momento Aberto ocorre em todas as sessões. muito inferior às demais carreiras jurídicas com o mesmo status constitucional. a grande maioria daqueles que não dispõem de recursos e informações continua recebendo apenas assistência judiciária. 2007) 15 16 . Daí a Defensoria estar sendo apontada como uma “carreira de passagem”. No momento. Qualquer pessoa pode se dirigir livremente aos conselheiros para expor um assunto que julgue relevante para a instituição (Artigo 29. Assim. Situação Carcerária e Direito do Consumidor. Legislação da Defensoria Pública. outro entrave para que a Defensoria paulista atinja seu objetivo – prestar assistência jurídica à população desfavorecida – é a remuneração da carreira. para mandato de dois anos. atualmente. Deve participar da gestão e fiscalização da instituição e de seus membros e servidores. 2007). Cabe observar que. Lei nº 988/2006). Legislação da Defensoria Pública. 2011 Aberto nas reuniões do Conselho Superior da Defensoria Pública14 – que viabilizam a participação da sociedade civil na elaboração do seu Plano Anual de Atuação. parágrafo 4º. pela OAB. permitida a recondução (Capítulo I.

para servir de subsídio aos militantes no diálogo com a Instituição. participaram de 180 mil audiências. o Ouvidor fez diversas proposições às lideranças. 2008. promovendo uma aproximação com a instituição. ao fazer um balanço das dificuldades vividas nos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte (ANC) em decorrência do poder exercido pelas forças reacionárias e conservadoras. políticos. . as classes populares estão aprendendo a utilizar o direito e os tribunais como arma (SANTOS. permite apreender os limites do acesso à justiça impostos pela forma como a sociedade está organizada. entre elas a elaboração de um documento que contenha os principais problemas. (BOLETIM DA OUVIDORIA. 31). 2009. Lamentavelmente. em 2008. de um lado. de outro lado. da qual fazem parte entidades de 11 estados brasileiros. o que representa menos de 10% das comarcas do estado. 2009) Assim. atuaram em 50 mil ações cíveis e impetraram 14 mil habeas corpus. culturais e difusos e coletivos. No Superior Tribunal de Justiça (STJ). sociais. De fato. 73% dos pedidos de habeas corpus ajuizados pelos defensores paulistas foram concedidos. a classe dominante regula seu exercício pelas demais classes sociais. e propostas de ações às Defensorias Públicas. Willian Fernandes. questões e dificuldades vivenciadas pelos integrantes do referido movimento social. out. Florestan Fernandes. São Paulo está assistindo à terceirização da prestação jurisdicional. anunciava.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 85 Paulo e interior. A reunião objetivou levantar as demandas do Movimento e identificar aquelas em que a Defensoria Pública pode atuar. reuniu-se com representantes da Frente Nacional de Movimentos Urbanos. Concebendo e conservando a cidadania como privilégio de classe. p. o ouvidorgeral da Defensoria Pública de São Paulo. Em 8 de setembro de 2009. a experiência de São Paulo. (APADEP. a Constituição de 1988 é responsável pela ampliação dos direitos civis. p.   Os defensores públicos paulistas realizam em média 850 mil atendimentos por ano sendo que. O exemplo que segue é emblemático. 11) Conforme Boaventura de Sousa Santos. (…) Diante do que foi exposto na reunião. a experiência de São Paulo aponta o significado histórico do modelo singular da Defensoria Pública paulista na defesa dos direitos da população socioeconomicamente desfavorecida. amparadas na Constituição. Contudo.

elitista e tecnoburocrática. nos próximos anos. dos baixos salários que recebem e da pequenez de sua infraestrutura.www. Ao revés. As formas alternativas de práticas democráticas da Defensoria Pública paulista. 2 jul. apesar do número insuficiente de defensores públicos para atender às demandas de todas as comarcas.br. 2007. (FERNANDES.86 Revista da Defensoria Pública . os mecanismos de participação da sociedade civil na sua gestão e fiscalização. de pé – e não se afirma como uma peça conservadora. as possibilidades abertas pela Constituição então promulgada: A Constituição está aí. 361) 4. Lei Complementar nº 132. 2011 ao findar a década de 1980. 2009. inovadores no cenário jurídico. obscurantista ou reacionária. abre espaço para o questionamento do padrão homogêneo do aparato de justiça construído no passado e reatualizado ao longo da história brasileira. Entrevista com defensor público: arquivo da autora. CONSIDERAÇÕES FINAIS A Defensoria Pública do Estado de São Paulo.Ano 4 n. sempre na contramão. p. abre múltiplos caminhos. as reformas estruturais reprimidas serão soltas. vêm desafiando a cultura jurídica dominante – normativista. que conferem peso e voz ao trabalhador na sociedade civil e contém uma promessa clara de que. de 7 de outubro de 2009 Legislação da Defensoria Pública. continua seu percurso. Fontes APADEP-Imprensa. fundada em outra concepção de justiça.apadep. O perfil diferenciado de administração da justiça – expresso nos instrumentos de acesso ao direito e à justiça por ela implementados – anuncia a possibilidade de construção de uma cultura jurídica democrática que poderá se tornar ainda mais sólida se vencer os impasses que lhe vêm sendo postos./dez. São Paulo: Escola da Defensoria Pública do Estado. . 1989. São Paulo: Saraiva. Contudo. Constituição da República Federativa do Brasil.org.

Petrópolis. 1º de agosto a 15 de setembro de 2009. Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Abordagens teóricas no estudo dos movimentos sociais na América Latina.115.sp. 2009. Eneida Gonçalves de Macedo.br/. A Constituição inacabada. SINHORETTO. HADDAD. 21. São Paulo: IBCCRIM. 2008. Boletim IBCCRIM. São Paulo.. FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. António. 2006.gov. Justiça e Segurança na periferia de São Paulo: os centros de integração da cidadania. Eneida Gonçalves de Macedo. Jacqueline. Acesso em 21 set. 193-207. Tese de Doutoramento.º 10. p. ASSOCIAÇÃO PAULISTA DOS DEFENSORES PÚBLICOS. BOLETIM DA OUVIDORIA GERAL DA DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO. Ano 1. 2008. WEIS. 2 ed. 2002. Luci Gati. 11. n. São Paulo: Estação Liberdade. v. ALMEIDA. Carlos. Boaventura de Sousa.Mobilização jurídica versus mobilização social: uma abordagem a partir da justiça ambiental 87 Referências ALVARENGA. nº 1./Boletim%20 da%20Ouvidoria%20nº%2010 . jun. Ir aonde o povo está: etnografia de uma reforma da justiça. MARTINS.. FERNANDES.defensoria. p. p. In: São Paulo: ECCOS. jan/jun. Desenho e Implantação da Política Pública (2003-2005). Cadernos CRH (online). Para uma revolução democrática da justiça. .apadep. GOHN. A “Lenda” ou história da borboleta: os movimentos sociais e a educação. Maria da Glória. 2009.o caso do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e a educação do Campo. PAULA. 5-6. Centros Integrados de Cidadania. Florestan.org.br/praticas/cravi-centro-de-referencia-eapoio-a-vitima>. Disponível em: <http://www.org.Revista Científica. pobreza e classes sociais. 2002. Acesso em 09 out. Disponível em: <http://www. MIMEO. nº 54./. SANTOS. SINHORETTO. 2003. 2 ed.forumseguranca. 1989. Acesso em 21 set. Jacqueline e PIETROCOLLA. Liana de. A sociedade vista do abismo. Frederico de. Jacqueline. SINHORETTO. V. 439455. 2009.10. V. Disponível em: <http://www. Novos estudos sobre exclusão.2009. José de Sousa. Ana Maria e TEODORO.br. Direitos humanos e defensoria pública.pdf>. RJ: Vozes. HADDAD. n. SÃO PAULO: IBCCRIM. São Paulo: Cortez. 2006.

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na verdade. entre colegas. Crise e Cidadania (Porto Alegre. no âmbito do I Curso de Educação em Direitos Humanos. e cruza-se com matérias dos nossos livros Constituição. ou seja. Livraria do Advogado). MAGISTÉRIO E MAGISTRATURA Estou feliz de estar hoje entre Magistrados da Defensoria Pública. nova Magistratura utilíssima e nobilíssima. este estudo parece-nos importar sobretudo pelo reunir dos fios dispersos e apontar caminhos a partir dessa unificação e síntese de dados e reflexões. porque. Agregado em Ciências Jurídicas Públicas. Catedrático convidado de Estudos Brasileiros da Universidade Lusófona do Porto. . Direito Constitucional Aplicado.. Professores e Magistrados judiciais de todos os tipos detêm uma 1 O presente texto. em 7 de Abril de 2010. Magistério e Magistratura são palavras com a mesma raiz. Pensar o Estado. preparado para servir de base escrita a uma conferência na Defensoria Pública de São Paulo. além de jurista de formação académica. 1. contém em palimpsesto ecos de vários outros. Estou. exerço o magistério. se me permitem. pela Forum). sobretudo de artigos publicados na nossa coluna “M@ils do meu Moinho”. além de materiais novos que obviamente convoca. Associado ao Departamento de Direito e Justiça da Universidade Laurentienne. Contudo.EDUCAÇÃO REPUBLICANA PARA OS DIREITOS HUMANOS SUA IMPORTÂNCIA NUM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO1 Paulo Ferreira da Cunha Professor Catedrático de Direito Constitucional e Filosofia do Direito e Diretor do Instituto Jurídico Interdisciplinar da Faculdade de Direito da Universidade do Porto. pela Quid Juris e o último também em Belo Horizonte. Doutor em Direito das Universidades de Coimbra e Paris II. etc. para maiores desenvolvimentos. a minha profissão é a de professor de Direito. Filosofia Jurídica Prática (todos editados em Lisboa. para que remetemos.

90 Revista da Defensoria Pública . Muito do mal de hoje já vem do enviesamento das vocações. assim como no domínio da chamada “medicina da cultura”. e. e na da alta cultura. Shakespeare coloca na boca de um tirano inglês: “A primeira coisa a fazer é matar todos os causídicos”. Que os juristas eram sacerdotes da Justiça. antes de mais. A tão falada crise da justiça não é apenas uma crise de instituições. O jacobinismo guilhotinou Lavoisier. têm obrigação de o transmitir. obreiros de património simbólico. 2./dez. É. Do mesmo modo. a Universidade. que será de nós? E se não prezamos e acarinhamos quem ensina e quem faz justiça. Juristas e Professores também já foram prestigiados. Temos. a Comuna de Paris proclamaria o fim dos advogados. Um autocrata espanhol deploraria: “Todo o mal nos vem dos togados”. por isso. afirmando não precisar da revolução de cientistas. o Direito. Uns e outros não são entre nós eleitos. como se diria . a Escola. antes de mais. os juristas. condutores dos destinos dos países. sem respeito e sem admiração. pois. Contudo. Os juristas. um diagnóstico sobre a própria crise dos formadores nessa educação. Esse é aliás o seu grande crime aos olhos de alguns… Na oficina preparadora da cultura. que deveriam ser.Ano 4 n. como sacerdotes. que seriam. Se não tivermos uma escola capaz de formar e magistraturas de contribuir eficazmente para que se faça justiça. os Professores têm a autoridade (auctoritas) de quem detém saber. CRISE DA JUSTIÇA E CULTURA DOS JURISTAS O nosso tema de hoje é a Educação Republicana para os Direitos Humanos. acabarão por só ir para essas profissões precisamente aqueles que lá nunca deveriam estar. 2 jul. mas isso – como deveria ser óbvio – em nada colide com a democracia. Tal como os Magistrados judiciais. que começar por falar da crise da justiça. que infelizmente nem sempre é entendida em sociedades sem cultura política e jurídica. Ela só é possível se fizermos. 2011 legitimidade social especial. reina a demagogia. cultivar e mesmo venerar. já o diziam os Romanos. que não vive sem elites dela amigas. uma crise dos próprios juristas. até quando resistirá o sentido de dever de quem se não vê valorizado? Com Professores e Juristas sem prestígio e consideração social.

e. Mas mais. Já o grande jurista alemão Rudolf von Jhering (1818-1892) se queixava amargamente deste perder de qualidade e de qualidades do Direito. por outro. A tribo dos juristas não aguenta o teste do espelho: como vermo-nos sem de nós nos rirmos ou sobre nós chorarmos? Evitamos ver-nos. sem alma e qualidade – coisa de mangas-dealpaca. Só a Cultura – obviamente em uma dimensão interdisciplinar. mero verbo de aluguer. por exemplo.. por exemplo. pela fraternidade. o detentor apenas de um saber-fazer. figuras das Ordens dos Advogados lançam o alerta. Hoje deve revolver-se na tumba. embalsamadas na História. torna o Direito aquela matéria entediante. pelo conhecimento histórico e sociológico da injustiça. para fazer o nosso futuro. como o programa deste I Curso de Educação em Direitos Humanos o é. de uma longínqua revolução. e este na sua imagem e consideração sociais. como lhes chamaria já Tomás de Aquino – em um tempo em que. aos interesses. Porque o interesse pela cultura é sinal do interesse pelo Homem. porque . ao dizerem-lhe que o povo não comia pão recomendou (cremos que sem ironia) que nesse caso comesse brioche. enfim. todavia. O jurista como simples burocrata da coacção. até para a falta de conhecimentos da língua de candidatos a advogados. Está a começar a haver o que antes seria uma contradição nos próprios termos: juristas incultos. São vectores incumpridos (como sublinha.Educação republicana para os direitos humanos 91 da tradição. A autossuficiência pedante e triunfante desses juristas incultos (ou ignorantes. e pior. A falta de cultura (assim como a falta de educação) navegam no oceano da indiferença. E isso reflecte-se no seu comportamento. deixa de estar vocacionado para comandar Homens. Eligio Resta). Só o interesse pela cultura redimirá o direito. e magnificamente – poderá ser a base de uma Educação para os Direitos Humanos. De vez em quando. Desde logo. em um reino cuja rainha. Que não são palavras vãs.. das lutas pela liberdade. Enleamo-nos frequentemente em charadas extrínsecas a nós e ao Direito. Têm-se verificado mudanças preocupantes no recrutamento dos juristas. sabiam bem mais do que mais importa) mata por um lado o seu prestígio junto das gentes de cultura. dessas áreas e também. E é apenas um exemplo. pela igualdade. começam a não ser já o que eram. especialista em uma técnica e não mais que em uma técnica. o saber filosófico. subordinado ao poder e aos poderes. faz definhar o Direito enquanto filosofia prática (como lhe chamavam os Romanos). maçadora. e o conhecimento. Não são palavras no passado.

Mas no cerne das suas funções. naturalmente. É a moda e é a necessidade. Logo. os oprimidos (de todas as classes. em que o sucesso se mede pela conta bancária e pelos cadáveres dos adversários como troféus de caça.. pelo mundo fora. Contam-se até as duas versões alternativas do seu erro: em um caso. como sublinhou Paolo Ottonello. não atrás. preferindo adquirir alta tecnologia e alta ciência ao preço barato que os apesar de tudo sempre um tanto distraídos “cientistas” estão ávidos por lhe oferecer.. as quais. julgar um grupo de rapazotes que furtaram as galinhas da capoeira do padre da terra. subalternize e discrimine tudo o que não seja rentável e passível de ser adquirível pelas empresas.. 2 jul. E o Estado deve dotar as suas universidades de meios para que não estejam dependentes do . esqueça. fascinada com os ganhos da sua ligação com o mundo empresarial. já o ousaram colocar em causa.Ano 4 n./dez. mas principalmente. como Michel Bastit. o ignorantia legis non excusat é totalmente contrário ao senso comum e aos valores comuns. e de barbárie civilizada. em outro por laxismo.. tem de ir à frente das empresas. que são de defender os fracos. E mesmo porque nem sempre dotado de conhecimentos e de sabedoria (desde logo sabedoria da vida e dos homens – elementos fulcrais de Prudentia!). por rigorismo. E muito. 2011 não mais os compreendendo pelo seu universalismo (como salientava o romanista Sebastião Cruz. Essas situações revelam uma décalage significativa entre a sociedade e o direito – com regras que não são mutuamente compreendidas. de que falava Duvigneau. jamais oferecem “almoços grátis”. como é óbvio. Por exemplo. o jurista de hoje acaba por ser pouco prestável para múltiplas tarefas de outrora. porém. a verdade é que grandes autores. como exaltava o jurisfilósofo Francisco Puy). Mas mesmo que se reconheça que sem esse princípio seria o caos processual.92 Revista da Defensoria Pública . e máquinas também nunca saberá dominar. das menos favorecidas) contra a injustiça. A Universidade. Conta-se uma história de um juiz novato que nunca tinha visto uma galinha e o primeiro caso que teve foi precisamente. esse papel ainda o faz bem? Infelizmente nem sempre. Responsável é uma Universidade que. Responsável por essa situação de aprofundado divórcio é a presente sociedade de cretinismo tecnológico. por natureza. os humilhados. Porque nem sempre interessado pela sua própria ética e deontologia em colocar a defesa da justiça acima dos seus próprios interesses pessoais. Asneou. os injustiçados. numa comarca do interior mais profundo.

de novo. que têm carro melhor.Educação republicana para os direitos humanos 93 capitalismo e dos seus interesses. com a globalização. desde logo. minicursos. o serial killer do direito. E aí se regalarem. e mais ainda na Educação para o Ser e não para o ter. e da Justiça relembram vagamente uma estátua vendada. mestrado e até doutoramento. ou o especialista em chicana. Responsável é. que de cinema conhece os enlatados com muito sangue e barulho. o acesso a um diploma de pós-graduação. finalmente. acha-se um Senhor. uma errónea visão tecnocrática do processo de Bolonha. pelo menos em alguns lugares do mundo. Maus doutores baptizarão novos doutores péssimos: a reprodução da má qualidade faz-se em progressão geométrica. menos bons juristas conseguissem chegar até à docência. e depois pelas janelas e telhados… . pelo mundo fora. apenas para uns tantos. da liberdade. esse vero primitivo actual a quem pode ser dada licença para andar à solta a discutir da fazenda. E apenas inveja os de sucesso: os que ganham mais que ele. a proliferação de cursos de Direito fez com que. tornou-se fácil como nunca. para ganhar dinheiro com o seu infortúnio. E despreza do alto da sua ignorância todos os que não inveja. Hoje (vemos isso em alguns filmes – na vida real é mais preocupante ainda) o decorador de leis. Além do mais. que se demite das funções de qualquer Estado e sistematicamente desinveste na Educação. que se ri das Humanidades e puxa logo da calculadora quando ouve falar de cultura. da vida e da honra das pessoas. que nunca entendeu para que servia a filosofia do Direito e outras matérias jurídico-humanísticas. para que o Estado pague menos. Será que. colocando títulos pomposos nos cartões de visita… Do mesmo modo. o Direito tem tudo a ver com coacção. E nem sempre as famas das universidades correspondem ao valor real de todos os seus diplomados. pretendendo fazer de todas as cadeiras cursos breves e transformar as licenciaturas em cursos profissionalizantes. na Europa. Para esses. que desconhece as coisas mais elementares. não se compreende que não há mesmo “almoços grátis”. que se ri de quem leu um romance. com posses para tal. sempre de faca nos dentes. nesse contexto. primeiro. redundando em que a Universidade seja. pronto a apunhalar o vizinho. a governação de timbre anarco-capitalista (ou neoliberal). nem mesmo para as venerandas e beneméritas Universidades? Responsável é. etc. Pobre Direito se não souber defender-se desse tropel de bárbaros que entram pela porta grande.

que sempre pegaram na pistola contra a cultura. Esss duas tarefas exigem sobretudo têmpera e preparação ética. o “jeitinho”. inserção social. a que não vou. porém. a crise da educação e da cultura em geral – onde toda a questão começa. e certamente perecerá às mãos dos seus contrários. Se a Democracia não conseguir dotar-se de uma escola para a Cidadania e os Direitos Humanos em todos os seus sentidos – e desde logo o mais elementar. que foram apanágio das nossas Repúblicas velhas. e sempre a acharam um luxo para os comuns mortais. como se fala em crise da razão. a crise das instituições jurídicas. e compreensão do universo nos seus dados mais elementares – terá falhado. e da educação republicana para os direitos do homem. 2011 Várias crises. sublinharia Santo Agostinho). sem agentes jurídicos cultos. A montante. não pode haver bom Direito. adaptando à pós-modernidade. e já compreendemos o que é estar em crise permanente. Se os próprios juristas se converterem à superficialidade. se não pode haver Justiça sem homens justos (como. sentido do mundo. Direito de qualidade. sendo o Direito autêntica “medicina da cultura”. mesmo no Natal… Os juristas têm que estar na primeira linha do combate pela justiça. a corrupção? Em Portugal fala-se agora de considerar como sendo corrupção presentear-se qualquer funcionário público – desde a faxineira ao Presidente da república. se imbricam e se implicam em cadeia. e que hoje deveríamos reviver. a degradação e deriva tecnocrática da aprendizagem do Direito e da formação cultural dos juristas. A crise e a crítica andam de par. de severidade mesmo para consigo mesmo. quem segurará as águas do dique? Se os juristas se alhearem dos direitos humanos. Querem saber? Acho muito bem.Ano 4 n. cultural e jurídica. na decorrência destas. etc./dez. CRISE E IMPORTÂNCIA DO ESTADO É um lugar comum falar-se na Crise do Estado. Além de me eximir de escolher a caixa de bombons que sempre envio para a festa de fim de ano dos professores e funcionários. Porque. A habitualidade da . 3. E. porque não me sinto bem com almoços grátis de entidades públicas. assim. Mais especificamente. que é o de uma Escola de ordem.94 Revista da Defensoria Pública . não grassará o laxismo. 2 jul. da civilização. como poderão ser seus paladinos e promover a sua educação? Se ignorarem os princípios de imparcialidade. entre outros.

Mas há que reconhecer que o Estado. qualquer a forma política. quelle crise? Vive la crise!”. que deve preparar Mulheres e Homens livres. Mas sob a capa de modernização – nunca são de mais os gritos de alerta – a escola. E há mais vida. talvez façam mal em se preocuparem em excesso com a sua bela criação. até. parece. rupturas que se podem revelar redentoras. além do Castelo. Assim se tivesse mantido. por vezes. É a formação não para . É um problema não só de actualidade. gente dócil.. por todo o mundo. à empresa). Não seu obreiro.Educação republicana para os direitos humanos 95 crise leva ao instalarmo-nos nela. dessa alteração de paradigma. e não bons robots. e os constitucionalistas em especial. O que não implica o individualismo feroz e a privatização em massa em prol de uns tantos hoje já mais aptos a agir. com uma profunda reforma de mentalidades. O Estado. só até ao ponto permitido pelas cartilhas críticas toleradas. permite que as silvas da desordem e da desigualdade enlacem o belo castelo da princesa Aurora. domesticado. mas no Cidadão. Apercebemonos também de que crises são janelas de oportunidade para novos desenvolvimentos. mesmo. Mas. Estamos muito longe. está a transformar professores e alunos em cobaias amestradas. o Estado. que nos permita a todos ser sujeitos activos. nem existiu sempre. ao ponto de perguntarmos primeiro. Deus nos livre de dizer mal do Estado. tomando nas nossas mãos os nossos destinos. com medo. acríticos ou críticos. Importa mudar. e destinatário do Poder. aqui e ali.. o Império. dócil. sabemos. E está a colocarse muito em dúvida se é sempre pessoa de bem. nem o Estado é a única forma ou sociedade política. como de deontologia: a política (e os saberes sobre ela) não deve centrar-se no Estado. que é o que nos tem separado da barbárie dos gangs e da barbárie dos trusts – enquanto for ainda regulador e defensor do interesse público. contribuinte. claudica. como se sabe. mas um lento e profundo trabalho de alargamento da cidadania real: que passa por uma outra atitude do Estado e por um profundo investimento na Educação. E contudo os juspublicitas. deve estar ao serviço das Pessoas. protagonistas da governação (que se faz a tantos níveis já: desde o local territorial à escola. com o necessário engenho. e proclamarmos depois: “Crise. Mas por quê? Porque no castelo do Estado muita gente dorme. sem tempo. a Polis. e não o contrário. seu participe de pleno direito. Jacob Burckardt chamou-lhe obra de arte. Não age. O cidadão é ainda encarado como passivo. pagador.

. mas a acção não . mas na legitimidade de exercício do poder. Todos estaremos de acordo que política deve responder muito mais directamente aos problemas reais das Pessoas. cremos urgente reforçar a confiança dos cidadãos nas instituições: pela eticização da política geral. mas para o trabalho servil.96 Revista da Defensoria Pública .. com medo da perda do lugar. nunca a subserviência foi tão grande no mundo laboral. sem subserviência e com sentido crítico construtivo. como sucede em países muito diferentes. Exige-se mais imaginação. pela facilitação da vida a quem pretende trabalhar honestamente ou empreender para o benefício social. uma vigilância sem tréguas à corrupção. única forma de a cidadania activa e responsável poder corresponder uma autoridade das instituições. pela acção justa e oportuna dos tribunais./dez. Reforma dos sistemas políticos pela sua abertura. para a mobilidade laboral. E mais concretização do que é consabido. sem direitos. Sim. etc. pela desburocratização da administração pública. à corrupção? São normais? Nenhuma comunidade política pode subsistir sem que a sociedade recobre o respeito por si mesma e a atenção vigilante pelos poderes instituídos. E longe de pensar que a solução se encontra em medidas autoritárias e voluntaristas. o aprofundamento da responsabilidade dos titulares dos cargos políticos e a limitação da duração de todos os mandatos. quando pertinente. em diversos continentes. mas não praticado. a federalização e a regionalização. não para a liberdade. 2 jul. pela desburocratização.Ano 4 n. a descentralização e até. Já nos habituamos à miséria. E a par disso. pela técnica do choque. Nunca como agora sentimos tanto o peso da ameaça da fome pelo desemprego. pela sua permeabilização aos temas e aos especialistas das sociedade civil.. não simplesmente fundada na coercibilidade. Já se comparou essa forma de tratamento a choques eléctricos. são rumos desejáveis e possíveis. Que vão até embotando e cauterizando as consciências. para a indiferenciação. Mas não tenhamos ilusões quanto a medidas já muito apregoadas. as cobaias não têm descanso. mensageira permanente de péssimas notícias. nos prepara para uma nova catástrofe. E. os escândalos. pela intervenção protectora da polícia. à exploração. Por isso são preocupantes alguns sinais de debilidade dos poderes públicos e de crescente incumprimento do Direito. todos os dias a comunicação social. 2011 o empreendimento.

se quisermos viver em um Mundo mais respirável. O Direito. dificilmente contém em si (só por si) os vectores de dinamismo suficientes para as grandes mudanças. “erradas”) fazem perigar a dignidade da reputação constitucional. Assim. ou o mal da política. Mas alguns dos participantes. que visivelmente nunca tinham lido o texto constitucional. A falta de força normativa de um preceito constitucional inefectivo (como diria Jean Cabonnier) põe em perigo o todo da Constituição. O mais normal é as grandes reformas ficarem no papel. 4. E quando se proclama. a nossa existência colectiva. EDUCAÇÃO PARA OS DIREITOS HUMANOS A solução das angústias jurídico-políticas do presente pode implicar. fomos um dos promotores de uma iniciativa inédita em Portugal: um movimento para dar a conhecer a Constituição. por seu turno. a transcreverem artigos da nossa Constituição. do político ao homem da rua. convicções que queremos ter como mínimo denominador comum. teremos de pensar quais os valores. Contudo. o fim da política. como essa letra morta que só pode mesmo matar. e muito em particular o Direito Constitucional. apesar de todo o “pluralismo”. A adesão foi muito animada. maravilharam-se e escandalizaram-se como era possível terem no papel tantos direitos. de que efectivamente se viam privados na prática… E a ideia de que a Constituição é uma cornucópia de promessas não cumpridas (errada interpretação. nova legislação. Além de tal vaticínio constituir nada mais do que uma péssima análise. Mesmo soluções hermenêuticas temerárias (e a que não deveríamos ter pejo de considerar. que consistiu em convidar cidadãos. a nossa situação de homens e mulheres no Mundo. naturalmente implicará. apesar de tudo) pode pôr em perigo a sua sacralidade de Bíblia da República. . este choque por estranhamento pode ser o principium sapientiae para uma frutuosa discussão e para incentivar o conhecimento cidadão das Constitituições e dos Direitos que reconhecem. e o fim das ideologias – são maus ventos para a democracia que se conjuram. Aquando das últimas eleições presidenciais.Educação republicana para os direitos humanos 97 se justifica a si própria. Mas ela será liminarmente inconcebível se não repensarmos a nossa vida. antes se baseia em ideias e ideais. quer de forma intelectual quer agressiva. princípios.

. legíveis no contexto social. sinceramente ou não. Os estudantes adolescentes tribalizam-se de forma jamais vista. ou cumprimentar na rua um colega… O debate faz-se cada vez mais entre tribos. com clamor e escândalo. 2011 E antes de irmos ao mínimo denominador internacional. Professa-se como garantia da total liberdade a demissão completa do Estado enquanto educador político (mesmo a formação para a Cidadania e os Direitos Humanos é quase nula. A tese da procura dos consensos é estigmatizada. reconhecidamente saudável. As nossas sociedades pluralistas estão longe de ter chegado a acordos básicos. Todos somos vítimas dessa sedimentação de irracionalidades e sentimentos. Só se tivéssemos uma linguagem comum de racionalidade e de civismo é que poderíamos realmente dialogar. Tudo isso é muito interessante para o colorido de um mundo visto da estrela Sirius. O laxismo vai em cadeia: ninguém já se sente com autoridade para corrigir ninguém. em países democráticos – pelo menos é muito menor do que deveria ser). que uma espécie de mão invisível democrática da anarquia cultural e espiritual de uma comunidade política faria nascer. apesar de tudo. a cidadania democrática. Mas não têm conseguido desempenhar esse papel. comecemos pelo nacional. Sempre foi tribalista o círculo elegante e snob. a comunhão e a harmonia. recordando Álvaro Ribeiro). os valores democráticos. A senha e contrassenha dos nomes de família. pelos que proclamam. E como o Esperanto foi em geral um fracasso (apesar de algumas bolsas de resistência).. sendo duvidoso que caiba a um instrumento jurídico fazer muitos dos consensos./dez. mas problemática no mundo sublunar. Alguns pensam que as Constituições deveriam teoricamente sê-lo. como por milagre.Ano 4 n. com a preocupação. estarem ao Deus-dará da sorte. que dá receios destes. Mesmo as normas da mais elementar urbanidade e civilidade deixam de ser óbvias e necessárias: como responder a uma carta. para mais caluniadas pelas desventuras que a “República real” causa à República dos sonhos (diríamos. sabemos bem… Mas este laissez faire tem tido o catastrófico resultado de que a democracia. de não doutrinar..98 Revista da Defensoria Pública . 2 jul. Hoje há cada vez mais grupos que criam os seus próprios guetos. É o espectro totalitário. E mesmo a sociedade toda se tribaliza. Mas eram.

ditada pelo temor reverencial face a quem sobre si manda de facto. Se de um lado a escola não eleva o nível da doméstica de 40 anos. baseado em uma péssima imagem do consumidor corrente. E não será para as próximas gerações. de insatisfação geral. até que a alma nos seja trocada por um sistema de algoritmos. . circulava literatura clandestina.. e para nossa utilidade espiritual.. designadamente a criação de grandes monopólios e monopsónios (ou oligopólios e oligopsónios. o romancista que escreve para a gaveta decide escrever um blog. Não é verdade. O grave é que. E o curioso é que a democracia global também serve para adormecer iniciativas alternativas. e que o triste panorama das nossas livrarias decorre de falta de autores. em geral. pelo dinheiro ou pela convicção. Aquilo a que o grande jornalista de cultura Bernard Pivot chamou o recua até à doméstica de 40 anos – seria ela o alvo da televisão.Educação republicana para os direitos humanos 99 presumimos que as dificuldades de conotação e denotação.. o compositor passa a dar lições de piano a crianças ricas.. e. uma nuvem sobre a sociedade. no limite. para vender.. mesmo ideologia. para sobreviver.. Nesse particular é perigosíssima a concentração capitalista das empresas de cultura. O Estado tem de defender os cidadãos contra a ignorância e a colonização de ideias de grupos activistas – quer os arautos miúdos do politicamente correcto. cultural e material. quer as grandes máquinas de marketing. jamais a Lei poderá deixar de ser simplesmente a expressão do mais forte – pelos votos. não serão os media a fazê-lo. da massa da propaganda. se quisermos ser mais exactos) do livro – que. É uma decadência. Há muito quem queira (e mereça) um lugar ao sol e não o consegue.. sem um espaço de comunidade de convicções. estritamente pensadas naquilo que convier à nossa índole. mas encontrar um ganha-pão entediante que lhe pague as contas. Mas também é certo o círculo vicioso: um dia o pintor converte-se a contabilista. expressão e sentido nos acompanharão irremediavelmente. Quando tínhamos ditadura. que inventam o que for preciso. E todos nós teremos que consumir os produtos que os grandes técnicos de marketing acham que ela vai comprar. com consequências de falta de tubos de escape sociais. achamos que há democracia. fazem com que só seja publicado e só seja consumido pouco mais que o lixo dos enlatados sensacionalistas. certamente. Agora. pela força ou pela sedução.. É a degradação da cultura e o espezinhamento do nosso comum direito à cultura pelo interesse do lucro.

E as democracias têm que não ser ingénuas. e a termo será substituída por uma autocracia. se preferirmos. Mas requer muito rigor. Mas deixar de o fazer platonicamente. seriam precisamente o melhor dos mundos às avessas: pura distopia.100 Revista da Defensoria Pública . Contudo. que está na base de tudo..Ano 4 n. Mas os amigos da liberdade. Outrora esta regra era clara: vinha um ditador que duramente reclamava a ordem perdida. da liberdade.. Levemos a sério a Educação. e fazê-lo activamente. como as mãos à cabeça. Não basta uma disciplina escolar de educação cívica. E fáceis adeptos de ditaduras. 2011 Ora a única forma de o travar e inverter é uma revolução mental. para os Direitos Humanos. É o assumir-se ele como Estado de Educação para a Liberdade. que procuram fazer mais duramente ainda que um mais distante déspota. parece ser a que mais teme exprimir-se. pelo contrário. E. têm a grave responsabilidade de dar alma e ser sinal de alarme num momento de viragem como o presente. Stupid scientists são ainda piores que ignorantes. de posse de um grão de poder. da autonomia. pode a sociedade ser minada por esses espíritos tacanhos. Os inimigos da liberdade devem ter liberdade. para mais arcando com o ónus de gerir um Estado democrático. que. E sem que deixe de haver eleições para os órgãos de democracia superficial geral. o fazem multiplicar por milhares. De todas as vozes. Podem tranquilamente deixar-se na sua posição confortável de áugures das crises políticas e elaboradores de pareceres a pedido. representantes dignos do direito nos livros. etc. têm direito e têm obrigação de fazer cultura e educação de Liberdade. a democracia degenera. como no tabuleiro de xadrez do grão-vizir. usando-a. Os juristas. sem dúvida – ao contrário do que dizia Lenine. Desde logo. mesquinhos. na própria concepção do Estado de Direito Democrático. que lhes parecem mais eficientes./dez. que são a sua tradução actual. Sem a virtude republicana. a voz da democracia. educando na democracia e sublinhando a excelência da democracia. Montesquieu disse tudo: o princípio da democracia é a virtude. O que implica ainda o fim dos mitos tecnicistas. 2 jul. Ou. que nada tem a ver com facilidade. mais e melhor: mas subordinadas às Humanidades. e em especial os constitucionalistas. com anarquia. com Lenine devemos aprender que os inimigos da liberdade tudo farão. É preciso saber técnicas. e mais “matemáticas”… Logo. o melhor dos mundos. Ou podem . para a tirar aos demais. Toda a educação deve prosseguir esse fim. Hoje a situação é mais subtil: pode haver mil e um ditadores a nível local.

antes de mais.Educação republicana para os direitos humanos 101 ser principais obreiros do direito em acção. III. simplicíssima. II. as virtudes republicanas poderiam enumerar-se num breve decálogo: I. os sempre argutos anarquistas pintaram nos muros do País este alerta que deveríamos considerar sempre: “Pedimos desculpa por esta Democracia. a Ditadura segue dentro de momentos”. o programa segue dentro de momentos”. . A televisão portuguesa tinha. que a Democracia e os Direitos Humanos não são dados adquiridos. Igualdade e Justiça. E se pode ocorrer um apagão geral na democracia. Ela é pressuposto da educação para os direitos humanos e pode identificar-se com a educação para a cidadania. a Atenção e a Solidariedade. Serve dedicadamente a Coisa Pública. e sobre o seu legado. Contra a licenciosidade. Contra o Privilégio. mais difíceis de sistematizar. além das clássicas virtudes ditas cardeais. Sê no serviço público frugal. comedido. Ninguém o fará por nós. IV. Ora é imperioso saber educar – multidimensionalmente – para a ética republicana. e usa-as sempre para a Justiça e não para a burocracia V. que passam pela adesão das gerações mais novas. a ética republicana tem uma dimensão objectiva. que já não conheceram o que é viver em ditadura. a caminho da Fraternidade. Esperemos que jamais. após a revolução dos cravos. mas adapta-te de forma inteligente e coerente. Mas temos que fazer por isso. Em síntese. acrescenta virtudes tipicamente políticas. Inspirados nesse texto. que começam nos valores políticos da Liberdade. explicando. o certo é que também pode ela entrar em degenerescência pela falta de ética republicana. rigoroso. uma “mira” para os casos de avaria. VI. a dos valores. despojado. mas que. e dizia apenas: “Pedimos desculpa por esta interrupção. Respeita às leis como garantes da liberdade e dos direitos. mas conquistas quotidianas. Era de fundo negro. Como se sabe. nada atractiva. e a das virtudes. nos seus primeiros anos. à Imparcialidade e à Equidade. Pratica a Constância. prativa o Amor à Racionalidade e à Ordem. cultiva a Delicadeza.

a democracia ainda não entendeu. Sendo um ideal. VIII. DEFESA DA DEMOCRACIA E EDUCAÇÃO “Quem seus inimigos poupa. ao rigor. Rosa Luxemburgo replicou: “A liberdade é sempre a liberdade de quem pensa de maneira diferente” (cito ambos de cor)./dez. 5. e o obscurantismo que com ela sempre vem (com sorriso de veludo ou mão de ferro). eleva o amor ao diálogo. a democracia tem inimigos-ideias. Contra os Lobos e as Raposas da Política e do Direito. mas tem de combater os seus inimigos ideológicos: não só ditaduras de figurino. Age sempre segundo uma consciência bem formada. 2 jul. Compreende-se que é o espectro ditatorial e totalitário que dá receios destes. IX. mas age depressa e bem quando for mesmo urgente. como mais subtis amarras que prendem as consciências e enleiam os espíritos. Professa-se a demissão completa do Estado enquanto educador político (formação para a Cidadania e Direitos Humanos é quase nula). A ditadura. espreita sempre à esquina do descuido democrático. com todos os que se dizem democratas. Infelizmente muito verdadeira. Mas um tal laissez faire tem tido o catastrófico resultado . Terrível máxima. Aprende o bom uso da lentidão. Deverá então a democracia cruzar os braços face às agressões e sedições dos que a querem perder? A democracia não se identifica.Ano 4 n. Deve garantir a todos a liberdade. ao pluralismo. é a de Lenine: “Nenhuma liberdade para os inimigos da liberdade”. Ingénua e enredada nas suas estafadas guerrilhas internas. obviamente. mas totalitária.102 Revista da Defensoria Pública . antes de ser ela mesma exterminada? Uma clássica resposta. Contra o abuso do poder e a corrupção. à transparência. Confundindo-se uma opção de silêncio suicida com a saudável preocupação de não doutrinar. e aplica o controlo e separação dos poderes. 2011 VII. cria Pombas-Serpentes X. Será que a democracia tem inimigos? Será que deveria liquidar os seus inimigos. às suas mãos morre”.

parece ser a que mais receia exprimir-se. que não temem normalmente um Estado em que. Onde o ditador dá uma ordem. da autonomia. É o assumir-se ele como Estado de Educação para os Direitos Humanos. pelo temor da punição sem freio da parte dos súbditos. ou pela convicção. pelo contrário. e sempre sujeito às subtis deformações dos diversos intervenientes. e as possibilidades de refrangência escassas. complexo. da liberdade. preconceito. desde que nasceu no seu coração até à prática. De todas as vozes. ditada pelo temor reverencial face a quem manda de facto. prontamente obedecida por sequazes acríticos e temida por multidões sufocadas. muitas vezes caprichosa. para mais caluniados pelas desventuras que a “República real” sempre causa à República dos sonhos. se as garantias protegem até criminosos. O Estado tem de defender os cidadãos contra a ignorância e a colonização de ideias atiçadas por grupos activistas – arautos miúdos do politicamente correcto. o vice-rei. E súbditos são já o ajudante de campo. Liberdade para quem pensa de forma diferente? Sem dúvida. ou sedução. mesmo ideologia. A única forma de o fazer é uma alteração na própria concepção do Estado. discussão pública. avaliação dos problemas. ou grandes máquinas de poder e marketing. . devido processo legal (due processo of law). O caminho das decisões democráticas é. Impossível a sobrevivência do Estado democrático sem tal dimensão formativa. que configura – além de outras – uma legitimação pelo procedimento (Legitimation duerch Verfaheren). o lugar-tenente. Em sociedades sem comunidade de convicções (cada um pensa como mais julga convir à sua índole ou utilidade). pela força. convocação de peritos. a democracia tem de empreender um desgastante trabalho de estudo. elaboração das propostas. que inventam o que for preciso. percorre inevitavelmente o caminho mais longo e difícil. Mas os amigos da liberdade têm direito e obrigação de promover Educação de Liberdade.Educação republicana para os direitos humanos 103 de os valores democráticos estarem ao Deus-dará da sorte. a Lei parece votada a ser expressão da pura vontade do mais forte – pelos votos. consulta dos interessados. é curto.: procedimentos legislativo ou administrativo. O caminho da vontade do ditador. como não hão-de acautelar servidores públicos? E o saudável pluralismo tem o seu preço. a voz da democracia. pelo dinheiro. É óbvio que a democracia real tem sempre dificuldades: desde logo. etc.

da capacidade reflexiva. do treino dialéctico. Não bastaria uma única disciplina escolar. o inglês. Tomemos uma disciplina ainda menos prezada: a Filosofia. saboreado. deve prosseguir esse fim. as ciências biológicas e médicas. etc. o prazer hedonístico e a competitividade. que é do conhecimento formalizado. o egoísmo./dez. e agora também com o ensino da língua franca. é esta. Toda a educação. do conhecimento histórico-filosófico das correntes de pensamento. toda a sociedade. Quando perderão os democratas os seus complexos e entenderão que. a ensinar (dolorosamente e por contraste) o valor da liberdade. o substituir do conhecimento sapiente. o conhecimento da experiência anterior. 6.. tudo é imprescindível. mas quando se vive em democracia. 2 jul.Ano 4 n. o amor ao Bem. a imparcialidade. Não compreendemos que hoje seja possível o acesso ao curso de Direito sem um profundo conhecimento curricular da Filosofia.explicitamente? Para que não ocorra como com a saúde.. Precisamos de todas as disciplinas. a história. que tantos só estimam quando perdem. É na verdade muito pouco. votada a tão decorativa e maltratada como a clássica “Moral”. abstracto mas discursivo ainda. Sem Filosofia.104 Revista da Defensoria Pública . é preciso recordar e formar . EDUCAÇÃO PARA O DIREITO E PARA A JUSTIÇA Há uma mania pedagogista em expansão de que tudo se resolveria na escola e na sociedade com melhores classificações (não se diz que com melhor aprendizagem) na língua materna. na matemática.? A Filosofia tem de preparar para o Direito ensinando o amor à Verdade. Falta uma educação para a Justiça. da perspectivação e ponderação hermenêutica. Não nos ensinam a ponderação. De pequenos ensinam-nos hoje a avidez. O papel da Filosofia para um jurista é essencial. quando há ditadura. etc. a nossa localização no espaço impõe a geografia. 2011 Levemos a sério a educação. e o próprio amor à Justiça. pela sua própria existência. por um saber decorado que nem sequer é feito com o coração. a capacidade de decidir pelo .. da sapida scientia. além das físico-químicas. O resultado é sempre o mesmo: uma incompreensão profunda das coisas essenciais. formal e informal. a prevenção da doença. A nossa responsabilidade ambiental obriga-nos a saber as ciências da vida e da terra.

. enleia. Antigamente. como sabemos. mesmo civicamente. Mas não é só o Estado como grande máquina. Resta saber como quem sabe. ao casual. E demasiadas vezes se verifica que quem suscita entusiasmo passa a gerar desilusão depois de eleito: e nem sempre por sua culpa.. a ocupar os estudantes. O dito amargo de Heródoto não pode valer em uma democracia. nos programas de TV cada vez de pior qualidade. Tomam-nos nas revistas mundanas... sem dogmatismos. comunistas. mas com o pretexto da sua neutralidade demitiram-se de educar. é autoridade. Porque saber.. manieta… Falta educação para a Justiça porque falta educação em geral e educação ética. nos Liceus de França. acharam por bem demitirse de formar. movendo-se portanto lentamente. mas poder sobre nada. os adolescentes e os jovens (assim como os adultos... O Estado tem de voltar a não ter complexos e educar. na droga. Já nem o comum dos políticos consegue qualquer popularidade real.. Saber deveria ser poder. O resultado são gerações perdidas. Limitam-se a informar. como um todo. os seus concidadãos.. Não falámos já no altruísmo… Há hoje uma persistente e bastarda ideia de que a justiça é uma espécie de permanente “venha a nós”. E esse alguém pode ser apenas quem sabe mais. Cada magistrado. de educar. no sem sentido do mundo. Os Estados.. e menos ainda se optarmos pelo modelo da democracia dialogante.. em uma sociedade que promove a ignorância. ao banal.. por exemplo. independentemente do poder. fascistas... a deixar rédea livre a quem os queira intoxicar de correcção política.. cada um que exerce o magistério. mas para aquele núcleo de valores e adquiridos comuns sobre que há até socialmente (ainda) largo consenso. queixava-se de se ter saber sobre muito. cívica. deveria sentir-se investido (e não desautorizado depois) dessa função de educar. E dizemos ainda porque a escalada avalorativa e antivalorativa poderá subverter as coisas no futuro.. nos tops da música. estética. mas.Educação republicana para os direitos humanos 105 bem comum. Os exemplos deixam de existir.. de resto) não têm a quem tomar por modelos.. deliberativa. E tem de acabar a mania de cada “señorito”.. Agora. as crianças.. a própria literatura se rebaixa ao não literário. no desespero. O “sistema” enreda.. com o peso da sua enorme burocracia. sem ideologismos. é um posto. pelo menos. vacinados em excesso pelas doutrinações nazis. Heródoto. de achar que já sabe tudo – recusando e até ofendendo-se quando alguém lhe diz umas verdades. como diria Ortega Y Gassett. havia difíceis e argutas dissertações sobre a Justiça e seus temas.

VENCER OS OBSTÁCULOS Falávamos de inimigos da democracia. Nas escolas começa a fazer-se sentir uma educação para os Direitos Humanos. muito difícil será resolver o resto. deve integrar-se em uma mais geral Educação para a Justiça. E a educação para os Direitos Humanos. 2011 vai fazer valer o seu título. sentenças justas. Mas enquanto não se resolver essa questão. Como aquele operário referido nos Propos de Alain. como nós próprio. Tal como a educação artística. Infelizmente. E nela plenamente se harmonizarão os contributos propriamente jurídicos e os propriamente filosóficos. que ia todos os dias ao Museu do Louvre para se embriagar de arte e aprender a sua essência.. A Educação para a Justiça não consome toda a Educação. históricos. Mas ao falar-se de “inimigos da República” nem sequer se está. que é vital para a formação integral. Mas há que fazer um esforço. de posições. a falar de pessoas em concreto. a grande maioria dos republicanos (para não ousar dizer a totalidade) poderia subscrever estas palavras que Albert Camus dirigiu a François Mauriac: .Ano 4 n. Contacto com exemplos de leis. perspectivas e de realidades que a contrariam. que farão ainda apelo a outros: literários. como é óbvio.. reabilitam-se as ideias de educação cívica. a educação para a Justiça necessita de diuturno contacto com as obras de arte do sector – as obras da justiça.. Também poderíamos falar de inimigos da república. nem sempre a Justiça está assim tão disponível para que a possamos mostrar. etc. como a justiça social ou política. Mas. Mas é preciso encarar a questão com frontalidade e sem complexos.. timidamente embora./dez. Há muito mais coisas a ensinar. e deve contribuir e colher contributos da para e da Filosofia e do Direito. 7. viva ainda que emoldurada. 2 jul. Toda a Justiça: quer o suum cuique. A manutenção da teoria da neutralidade absoluta é incompatível já com essas reticentes abordagens.106 Revista da Defensoria Pública . Estamos persuadido de que. o dar o seu a seu dono. aos nossos estudantes. decisões. aqui. e. Mas é uma vertente a não descurar. se podemos ir facilmente à Avenida Paulista e tomar banho diário de arte no MASP (Museu de Arte de São Paulo).

de novo rola a pedra para o sopé da montanha da História. Paris. Gallimard. nenhum inimigo invencível. 1965. La Plêiade. o preconceito.2 A sociedade contemporânea tem ainda não poucos inimigos da República. A homogeneização cultural da globalização. A desvalorização da cultura de serviço público e do papel do Estado. do dinheiro fácil. hoje como ontem. Albert — Artigo em « Combat ». 5. Gallimard. porque nela se encontram as forças para os vencer ou ir vencendo. La seule idée d’avoir des ennemis me paraît la chose la plus lassante du monde. et il nous a fallu. o lobiismo e o populismo. 2 CAMUS. in Oeuvres. a fim de que o Sísifo republicano volte à luta. le plus grand effort pour supporter d’en avoir. Com a devida vénia. em clara oposição ao sentimento comunitário da “res publica” e ao sentido individual da honradez e do mérito pelo trabalho. é importante citá-lo mais detidamente: A educação para a cidadania é tanto mais urgente quanto sabemos os perigos que hoje ameaçam os valores republicanos. à escalada. Essais. in Oeuvres. embora não militante. A verdade é que não se deve pensar que haja. com a sua ameaça à identidade cultural nacional. como dizem os aliás muito belos versos da Internacional. Albert — Le mythe de Sisyphe.3 O historiador António Reis enuncia não inimigos. 1965. Apesar do consensualismo. a servidão. p. O laxismo. La Plêiade. são lutas de todos os dias. 3 . col. CAMUS. E quando esperávamos que estivesse ganha. o privilégio. com as consequências negativas que tal acarreta para o valor da igualdade e da justiça. 11 de Janeiro de 1945. uma “luta final”. 89 ss. Mas não há. mas perigos para os valores republicanos. A luta contra o obscurantismo. mes camarades et moi. A cultura do individualismo egotista e dos valores do sucesso pessoal. do ideal republicano. O corporativismo.Educação republicana para os direitos humanos 107 Je n’ai aucun goût pour la haine. em oposição ao corajoso exercício da autoridade democrática. Sem procurarmos ser exaustivos. 2. elenquemos alguns deles: 1. 286. p. Essais. em oposição a uma cultura de interesse público e nacional. 4. Paris. 3. col.

. p. em síntese. certamente. E desta dependente. são os não pouco importantes e necessários tópicos valorativos do Universalismo. procurando reforçar a identidade cultural nacional. e que ignora a necessidade das mediações da participação organizada em instituições. A pseudodemocracia de opinião ou teledemocracia. 28. em oposição ao sentido universal da Humanidade. do salutar internacionalismo… c) Firmitas .g. 5 . ou pseudoconhecimento. alguns dos quais podem mesmo ser hauridos dos respectivos valores romanos : a) Honor et Labor. os antídotos necessários. SHERWIN-WHITE. com a concomitante exaltação do económico. org. não para fazer de cada cidadão um caricatural aprendiz de jurista. através de sondagens ou depoimentos. reimp.. 8. facilmente confundida com a totalidade da opinião.autoridade democrática – não só auctoritas.. O indiferentismo ou mesmo o desprezo pela política e pelos políticos. in A República Ontem e Hoje.108 Revista da Defensoria Pública . vinculada à auctoritas. com uma cultura de serviço público e de (sentido de) Estado. e mesmo uma muito alargada educação jurídica. porém./dez. Honradez e do mérito pelo trabalho – de novo a dignitas. a industria. A. de António Reis. d) Um tanto menos romanos. Cf.. Oxford. obviamente. Oxford University Press. Colibri. possa funcionar como discurso 4 REIS. não custará enunciar. Res Publica – cultura de interesse público e nacional.. mas uma potestas actuante.ª ed.Ano 4 n. 7. v. — The Roman Citizenship. para os Direitos Humanos. António — Os Valores Republicanos Ontem e Hoje. II Curso Livre de História Contemporânea. 2001. 2 jul. com o privilégio concedido à opinião espontânea e individual.. em oposição à cidadania participativa.. Lisboa.. 2011 6. nem para formatar cidadãos obedientes às leis (ninguém obecede por conhecer apenas – embora algum conhecimento. a reflexão pessoal e o exercício do espírito crítico. Todos esses vectores têm de ser enquadrados e promovidos por uma educação para a cidadania.)4. A xenofobia e o racismo. 2. N. 2002. b) Patria. (. prejudicando o debate. A partir desses tópicos. Sem prejuízo. da Cidadania participativa5 e da Democracia não populista e não mediática.

de André Trindade. Não vemos como sem a assunção clara da democracia. E não sã milagrosas. p. Idem — Pedagogia. 425-507 7 . in Direito Universitário e Educação Contemporânea. o Estado de democrático de Direito. Mas que soluções propomos. pp. « são os outros ». E são esses parasitismo e assistencialismo que colocam em risco – caricaturados e agigantados pelo teólogos do mercado. v. antes querem um Estado vigoroso (ainda que flexível e naturalmente democrático. = Idem — Filosofia Jurídica Prática. Sem ela. cf. Todas as suas funções. Desenvolvendo a fulcral importância da educação para a República. Há por vezes atavismos em certas sociedades que se tornam especialmente prejudiciais à República. afinal? Elas já foram sendo esboçadas. E um dos instrumentos essenciais dessa renovação do Estado (não estatalista nem estadualizante. Poder e Direito. Essa mentalidade redunda no parasitismo e no assistencialismo. são pilares da República. convenientemente). com o Estado de cultura e de Educação. Quid Juris. FERREIRA DA CUNHA. mas sobretudo para os fazer conscientes dos seus direitos e deveres e da sua íntima interligação. não totalitária nem colectivista – como é óbvio) é precisamente a explicação da sua importância. para a qual o Estado. são males mais recentes. capaz de assumir a plenitude das suas funções. já antes. é preciso que mudemos nós.6 que. Sistemas Juspolíticos e Globalização. pela Educação. Porto Alegre. Como se vê.7 e. Um autor como Norberto Bobbio já se dava conta de que as democracias poderão vir a pagar o preço de não educarem (suficientemente. Em outros casos. as ideias republicanas não pactuam com o laxismo institucional e legal. 2009. da sociedade de massas e de deseducação. apostados no desmantelamento do Estado e avessos a todas as políticas sociais – o Estado social. tal como o inferno de Sartre. 85 ss. Paulo — Geografia Constitucional. por todos. Lisboa. coord. nem com o desmantelamento neoliberal do Estado. de direito e de cultura). sem nada dar em troca. p.Educação republicana para os direitos humanos 109 legitimador).. ao longo da nossa exposição. E para que estas mudem. em relação ao qual e aos quais se não reconhece nem afinidade nem deveres.. 2009. da república e dos direitos humanos se consigam defendê-los. Livraria do Advogado. para uma 6 Sobre o Estado Social e a Constituição Social. Não vemos que nada se consiga mudar sem mudar as mentalidades. 55 ss. que clama sempre subsídios e benesses do Estado. que se lhe opõem. Não vemos que essa defesa se faça sem pena e sem luta. cresce uma mentalidade passiva. desde logo jurídica. cada um de nós.

/dez.110 Revista da Defensoria Pública . 2009. Quid Juris. in Oeuvres. para nós. 2011 atitude de maior militância democrática. 286. reimp. Porto Alegre. É um Direito e é. professores e magistrados um Dever. 2 jul.. Le mythe de Sisyphe. col. REFERÊNCIAS CAMUS. A.ª ed. SHERWIN-WHITE. António. — The Roman Citizenship. La Plêiade. N. Lisboa. Oxford. Sistemas Juspolíticos e Globalização. 11 de Janeiro de 1945. Albert. E pelo nosso exemplo. in Oeuvres. Oxford University Press. Lisboa. coord. Paris. Livraria do Advogado. La Plêiade. mas também pela descomplexada educação formal. Albert — Artigo em «Combat».Ano 4 n. col. in A República Ontem e Hoje. Gallimard. Paulo — Geografia Constitucional. Essais. Paris. 2001. REIS. FERREIRA DA CUNHA. p. Poder e Direito. consigamos educar para a cidadania e para os Direitos Humanos. Gallimard. 2002. Colibri. . CAMUS. 2009. Essais. 2.. 1965. de André Trindade. in Direito Universitário e Educação Contemporânea. antropodikeia e republicana. Os Valores Republicanos Ontem e Hoje. Pedagogia. de António Reis. II Curso Livre de História Contemporânea. org. 1965.

A experiência de a instituição contar com uma Ouvidoria externa foi inaugurada pelo Estado de São Paulo. Assistente de Direção da Escola da Defensoria Pública para a área de Educação em Direitos. Carlos Drummond de Andrade1 1. a LC 132 disse o mínimo.º 988) após intensa mobilização social. p. nesse ponto. assim.2 a lei explicitou a legitimidade da Defensoria Pública 1 2 O Avesso das Coisas [aforismos]. de que é exemplo a ouvidoria externa. que altera consideravelmente o regime jurídico nacional da Defensoria Pública. Nesse Estado a Defensoria Pública foi criada apenas no ano de 2006 (o que se deu pela Lei Complementar n. Dessa gênese democrática culminou uma lei moderna que prevê importantes mecanismos de participação social.º 132. ”a”) até aqueles atrelados à própria substância do que é e do que deve ser a Defensoria Pública (por exemplo. 5º.º 132/09 Gustavo Augusto Soares dos Reis Defensor Público do Estado de São Paulo. INTRODUÇÃO Em 7 de outubro de 2009 foi aprovada a Lei Complementar n. 105-A. 2007. nada obstando. os antes defensores públicos da União agora se denominam defensores públicos federais – art. no altiplano dos Estados a Ouvidoria externa passa a ser uma exigência mínima – art. As alterações vão desde aspectos ligados à nomenclatura (por exemplo. essa exigência não vinculou a Defensoria Pública da União e a Defensoria Pública do Distrito Federal e Territórios). Record: Rio de Janeiro. Nem todo homem tem direito a conhecer os seus direitos. 5ª edição. a LC 80/94 traz normas gerais voltadas aos Estados que determinam que as respectivas Defensorias contem com uma Ouvidoria externa (infelizmente. 65. Deve-se enfatizar que. que os . Agora. II.EDUCAÇÃO EM DIREITOS E DEFENSORIA PÚBLICA: REFLEXÕES A PARTIR DA LEI COMPLEMENTAR N.

4º. Lumen Juris. Sobre o assunto: Eurico Ferraresi (Ação popular. que agora assume tal compromisso. LXXIV. por ser uma instituição nova no Brasil e na América Latina. E certamente o movimento feminista da América Latina é dos mais relevantes 4 5 . Boitempo. 2008. ou se educa contra os setores populares e para perpetuar sistemas de opressão” (Enciclopédia contemporânea da América Latina e do Caribe. 3 O que era de todo prescindível. e é por isso que a Defensoria Pública. 3ª edição). p. vol. inclusive na sua versão emancipadora. sobretudo p. Emir Sader e Ivana Jinkings. A educação em direitos (que às vezes se apresenta com o nome educação jurídica popular ou educação em direitos humanos) é uma modalidade de educação popular. verbete: educação popular). VII c/c XXII). jamais poderá ousar realizar uma educação em direitos não emancipadora (expressão esta.112 Revista da Defensoria Pública . que consiste em “um modelo de intervenção educativa heterogêneo. Porto Alegre. E o tema de nosso artigo é este: analisar quais foram as mudanças na nova lei no que tange a educação em direitos. não surge em diplomas relacionados à atuação da Defensoria Pública. A EDUCAÇÃO EM DIREITOS4 EM OUTROS PLANOS. a propósito. CF88). (Curso de direito processual civil. A educação em direitos. Além dessas e de outras substanciais modificações. 2006. 236-239 ) e José Augusto Garcia de Sousa (org. 2. Forense. Rio de Janeiro. 449. talvez seja uma das pioneiras5 a consagrar normativamente a Estados democratizem ainda mais a sua Ouvidoria. 2008. Fredie Didier Jr e Hermes Zaneti Jr. que se constitui como um movimento pedagógico e social ao estabelecer um horizonte utópico e formular um imperativo ético: ou se educa a favor dos setores populares e da transformação social. Observe-se que dissemos “consagrar normativamente”. 5º. 205-210). contraditória). OU DOS PORQUÊS DE A DEFENSORIA PÚBLICA TER DE APRENDER A INSPIRAR A SUA IMPORTÂNCIA Um pouco mais a frente exporemos nosso pensamento que entende a educação em direitos como uma das perspectivas do direito de acesso à justiça.) (A Defensoria Pública e os processos coletivos. 108-10). sobretudo p. 2 jul. além de estabelecer a necessidade de que o manejo desse importante instrumento de concretização de direitos humanos seja submetido a audiências públicas – art. Na verdade. nasce da prática./dez. ação civil pública e mandado de segurança coletivo. Livraria do Advogado. 4. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. a nova lei de regência da Instituição Defensoria Pública deu nova disciplina à educação em direitos. haja vista que a educação em direitos há muito vem sendo praticada no Brasil e na América Latina. 2011 para propor ação civil pública3. 2009. ao menos se almejamos levar a sério a expressão “assistência jurídica integral” (art. Já neste tópico nossas atenções serão voltadas para o seguinte: a educação em direitos. sobretudo p. a Defensoria Pública. Tiago Fensterseifer (Direitos fundamentais e proteção do ambiente. 2008). a nosso sentir. JusPodivm (Bahia.Ano 4 n. Coord.

Edusp.br/sedh. De qualquer modo. O Plano traz inúmeras metas que giram em torno da importância da educação em direitos humanos para o Estado Democrático de Direito e direciona a sua execução em cinco esferas: educação básica. Japão e China (. Itália. O documento pode ser obtido no site www.: Richard P. XX. sobretudo após as atrocidades da Segunda Guerra6.. Assim. 1995. educação não formal. 7 8 . são palpites (. educação e mídia. para os fins deste trabalho. em que não havia ninguém a postos para contar. e mesmo estimativas aproximadas se mostram impossíveis. Trazendo a discussão para o plano nacional.. 2009). em outros termos..gov. diz: “Suas perdas são literalmente incalculáveis. Um respeitável livro que trata da educação em direitos humanos (não apenas a educação não formal voltada à população) deve ser consultado: Educação em direitos humanos para o século XXI (Orgs. ou se importar. o maior historiador do séc. Mesmo assim. entre 10% e 20% da população total da URSS. das Letras. educação dos profissionais dos sistemas de justiça e segurança e. 2009).).Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. 6 Eric Hobsbawn. As mortes diretamente causadas por essa guerra foram estimadas entre três e quatro vezes o número (estimado) da Primeira Guerra Mundial (. Áustria. Mas. São Paulo. de Fernanda Castro Fernandes (Luminária Academia. Polônia e Iugoslávia. que significa exatidão estatística com ordens de grandeza tão astronômicas?” (Era dos extremos – o breve século XX..planalto. documento subscrito pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos. e grande parte da pior matança se deu em regiões. Hungria. Após a Guerra Fria a educação em direitos humanos tem merecido atenção da ONU.).o 132/09 113 educação em direitos como uma atividade inerente ao ideal de justiça social.. em dezembro de 1994 a Assembleia Geral da ONU proclamou 1995-2005 como a Década das Nações Unidas para a Educação em Direitos Humanos7. ou momentos. expõe com profundas palavras aquilo que nunca devemos esquecer. vale consultar a obra Quando o direito encontra a rua: o curso de formação de Promotoras Legais Populares. pois a guerra (ao contrário da Primeira Guerra) matou prontamente civis quanto pessoas de uniforme. Há documentos internacionais de meados do século XX que já propugnavam pela educação em direitos humanos. 50). educação superior. por fim. Sobre essa temática. Cia.. Ministério da Educação e Ministério da Justiça8. Claude e George Andreopoulos. Nas obras que tratam de experiências concretas de educação jurídica popular raramente não é feita menção a algum exemplo de curso sobre a questão de gênero.) e. Em passagem em que se refere à catástrofe humana que foi a Segunda Guerra. em 10 de dezembro de 2006 foi anunciado o Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos. São Paulo. faremos referência a documentos mais recentes. quando o assunto é educação popular em direitos. p. e entre 4% e 6% da Alemanha. São Paulo.

a difusão e a conscientização dos direitos humanos não é atribuição constitucional da Defensoria Pública e.12 (!) 9 Por tratar-se de um Plano nacional. todos eles supostamente em nome da defesa dos direitos humanos. defendem o interesse público primário – têm de atuar conjuntamente. Certamente essa postura do Ministério Público foi infeliz e deve ser superada.. em um dos pontos combatidos estava o inconformismo quanto ao art. De qualquer forma. como já dito. quando a Constituição Federal de 1988 (CF/88) imputou à Defensoria Pública e ao Ministério Público (além de outros entes) o caráter de funções essenciais à justiça. há uma única conclusão: (iii) 10 11 12 . é feita referência à Defensoria Pública da União e ao Ministério Público da União. curiosamente. em verdade.) a promoção. não impede (como impõe) parcerias com tais entidades das esferas estaduais. é porque essas instituições – que. infelizmente. nele não consta o timbre da respeitável instituição e nem sequer a assinatura de seu presidente. que posteriormente passou a viger na LC 132/09. se (i) por um lado há elevado número de pobres no Brasil. III.114 Revista da Defensoria Pública ./dez. 4º. não tem amparo nos arts. onde o estudo afirmou. convenhamos. ambos da CF/88”. Trata-se do PLC 137/07. isso se dá por meio do voluntarismo de alguns de seus membros e por meio de entidades associativas como o Ministério Público Democrático – este sim um compromissado pela educação jurídica popular). no ano de 2009. LXXIV e 134. quando o faz. O maior problema dessa monopolização da educação em direitos pelo Ministério Público é que. Isso dá a entender que nem mesmo o CNPG acredita piamente no que lá estava escrito.. pois sugere que. 2011 Embora tanto Defensoria Pública como Ministério Público estejam elencados no rol de parceiros para a implementação do Plano9. Inúmeros pontos do projeto de lei foram desafiados pelo CNPG. o que é bom. certamente. que “(. Assim. o Conselho Nacional dos Procuradores Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG) enviou um estudo11 acerca do referido projeto de lei complementar e que foi entregue aos senadores quando lá se passou a discutir o projeto recentemente aprovado na Câmara dos Deputados.Ano 4 n. 5º. e se (ii) o Ministério Público (que se proclama o educador em direitos humanos) não vem realizando essa tarefa. ele não vem dando cumprimento a isso (e. o que. pois. Defensoria Pública e Ministério Público devem trabalhar juntos. 2 jul. O mencionado estudo. no fundo. ao contrário da Advocacia Pública. quando. quando se discutia o projeto de lei complementar10 que culminou na LC 132/09 e em uma época em que já tanto se falava em máxima efetividade dos direitos humanos. assim. foi entregue aos senadores por volta do mês de setembro de 2009 e. inacreditavelmente. tratava-se de uma postura visando ao monopólio da defesa dos direitos humanos.

1999. arbitragem e demais técnicas de composição e administração de conflitos.patrocinar os direitos e interesses do consumidor lesado.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. a solução extrajudicial dos litígios. Porto Alegre.patrocinar ação penal privada e a subsidiária da pública.atuar como Curador Especial.atuar junto aos Juizados Especiais de Pequenas Causas. a conciliação entre as partes em conflito de interesses. nos casos previstos em lei. é claro. E assim dispõe a LC 80/94 pós LC 132/09: Art. XI . sob quaisquer circunstâncias.atuar junto aos estabelecimentos policiais e penitenciários. em todos os graus. IV .13 Já após a LC 132/09 o rol de atribuições quase dobrou (os incisos XII e XII foram vetados). 4º São funções institucionais da Defensoria Pública. prioritariamente.assegurar aos seus assistidos. V . 3. mostra-se imprescindível apontar os principais dispositivos da LC 80/94 que tratavam e que agora tratam da educação em direitos.patrocinar ação civil. 8ª edição. o exercício dos direitos e garantias individuais. e aos acusados em geral.o 132/09 115 Tudo isso demonstra que a Defensoria Pública ainda está na fase de refletir sobre a educação jurídica popular. II . A EDUCAÇÃO EM DIREITOS EM ANÁLISE COMPARATIVA: A LC 80/94 ANTES E DEPOIS DA ALTERAÇÃO PELA LC 132/09 A fim de construir o nosso raciocínio e de talvez chegar a algumas conclusões. A educação em direitos não é uma invenção sua e. L&PM. VII . 4º: Art. o art. não pode ser deixada no plano do voluntarismo do defensor público. II – promover. passando a perfazer vinte missões republicanas.14 De qualquer sorte. extrajudicialmente. No regime jurídico anterior. 222). X . com recursos e meios a ela inerentes. visando à composição entre as pessoas em conflito de interesses. o caput é “que se fodam os de sempre”.exercer a defesa da criança e do adolescente. dentre outras: I – prestar orientação jurídica e exercer a defesa dos necessitados. IX . 13 Assim dispunha o antigo art. em processo judicial ou administrativo. visando assegurar à pessoa. III – promover a difusão e a conscientização dos direitos humanos. por meio de mediação. da cidadania e do ordenamento 14 .patrocinar defesa em ação civil e reconvir. 4º consagrava onze atribuições institucionais da Defensoria Pública. o contraditório e a ampla defesa. III . na expressão de Eduardo Galeano (De pernas pro ar – a escola do mundo ao avesso. sem. deixar de colocá-la em prática. p. VI .patrocinar defesa em ação penal. conciliação.promover. dentre outras: I . VIII . dada a sua importância. 4º São funções institucionais da Defensoria Pública.

2011 explícito ao dizer que esse rol não obsta o reconhecimento de outras atribuições. postulando perante seus órgãos. XVI – exercer a curadoria especial nos casos previstos em lei. em processos administrativos e judiciais. mas talvez fosse prescindível. na forma do inciso LXXIV do art. VII – promover ação civil pública e todas as espécies de ações capazes de propiciar a adequada tutela dos direitos difusos. IX – impetrar habeas corpus. do idoso. destinando-as a fundos geridos pela Defensoria Pública e destinados. 2 jul. coletivos. penitenciários e de internação de adolescentes. inclusive quando devidas por quaisquer entes públicos. XVIII – atuar na preservação e reparação dos direitos de pessoas vítimas de tortura. propiciando o acompanhamento e o atendimento interdisciplinar das vítimas. XII – (vetado) XIII – (vetado) XIV – acompanhar inquérito policial. XV – patrocinar ação penal privada e a subsidiária da pública. utilizando todas as medidas capazes de propiciar a adequada e efetiva defesa de seus interesses. ordinárias ou extraordinárias. habeas data e mandado de segurança ou qualquer outra ação em defesa das funções institucionais e prerrogativas de seus órgãos de execução. estaduais e municipais afetos às funções institucionais da Defensoria Pública. 5º da Constituição Federal. inclusive com a comunicação imediata da prisão em flagrante pela autoridade policial. sendo admissíveis todas as espécies de ações capazes de propiciar sua adequada e efetiva tutela. econômicos. XXII – convocar audiências públicas para discutir matérias relacionadas às suas funções institucionais. dos conselhos federais.Ano 4 n. respeitadas as atribuições de seus ramos. abrangendo seus direitos individuais. XIX – atuar nos Juizados Especiais.116 Revista da Defensoria Pública . exclusivamente. XI – exercer a defesa dos interesses individuais e coletivos da criança e do adolescente. . culturais e ambientais. quando tiver assento. VI – representar aos sistemas internacionais de proteção dos direitos humanos. V – exercer. o exercício pleno de seus direitos e garantias fundamentais. coletivos ou individuais homogêneos quando o resultado da demanda puder beneficiar grupo de pessoas hipossuficientes. difusos. quando o preso não constituir advogado. XVII – atuar nos estabelecimentos policiais. sob quaisquer circunstâncias. da pessoa portadora de necessidades especiais. X – promover a mais ampla defesa dos direitos fundamentais dos necessitados. sociais. discriminação ou qualquer outra forma de opressão ou violência. mediante o recebimento dos autos com vista. a ampla defesa e o contraditório em favor de pessoas naturais e jurídicas. da mulher vítima de violência doméstica e familiar e de outros grupos sociais vulneráveis que mereçam proteção especial do Estado. XXI – executar e receber as verbas sucumbenciais decorrentes de sua atuação. coletivos e individuais homogêneos e dos direitos do consumidor. visando a assegurar às pessoas. por meio de órgãos ou de servidores de suas Carreiras de apoio para o exercício de suas atribuições. IV – prestar atendimento interdisciplinar. mandado de injunção./dez. Essa cláusula aberta é salutar. ao aparelhamento da Defensoria Pública e à capacitação profissional de seus membros e servidores. VIII – exercer a defesa dos direitos e interesses individuais. abusos sexuais. perante todos os órgãos e em todas as instâncias. jurídico. XX – participar.

Do ponto de vista da literalidade legislativa – o que para alguns “intérpretes” se afigura uma mudança copernicana15 – a nova normatização é que consagra nacionalmente a educação em direitos como expressão16 do acesso à justiça. O papel da ideologia no preenchimento das lacunas no direito. 16 . ou seja. 4º. o art. é no mínimo mais poético falar em difusão e conscientização dos direitos humanos. nota 14). A despeito das considerações acima expendidas – que aparentam falta de euforia com as mudanças ocorridas ex lege –. também explicita o dever da orientação jurídica – possui alguma relevância. 1º haverão de ser tuteladas pela Defensoria Pública. porque. essa relevância é a de ter instado o intérprete da lei a diferençar orientação jurídica de educação em direitos. São Paulo. Assim. 67. p. diferentemente do regramento pretérito. que traça as normas-objetivo da Defensoria. ao menos explicitamente. A propósito. Como já mencionado. assim como a Defensoria Pública é uma manifestação da Democracia. o importante a apontar é que. 4º que restem desafiadas pelo princípio do art. manifestação”. possui como um de seus significados “representação. Para as finalidades deste texto. no mínimo. Isso será melhor desenvolvido em breve. guia a Defensoria Pública nacionalmente considerada para um norte de 15 Embora trate da situação inversa. a educação em direitos se afigura como uma manifestação do acesso à justiça. principais e principiais artigos da lei há de ser ovacionada. A palavra “expressão”. 1993. 3º. segundo o dicionário Aurélio. até porque o art. III. distinção que tentaremos trabalhar logo adiante. Sim. todas as situações não previstas no art. a LC 80/94 não consagrava a ideia da educação em direitos como expressão do acesso à justiça.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. da cidadania e do ordenamento jurídico do que falar em orientação jurídica. da revogação de lei. esse raciocínio de máxima efetividade dos direitos humanos encontra guarida na própria lei e no alto do pódio: o art.o 132/09 117 pois se o art. ou seja. diversamente do que prevê a atual lei no art. 1º da nova lei – que. na verdade a consagração da educação em direitos nos primeiros. 1º da lei consagra a Defensoria Pública como expressão e instrumento do regime democrático. RT. se o art. Luiz Sérgio Fernandes de Souza. 1º da nova lei consagra a Defensoria Pública como expressão e como instrumento do regime democrático. para início de conversa. 134 da Constituição Federal já incumbia à Defensoria Pública a tarefa da orientação jurídica. esse apego exacerbado à lei é mais ou menos parecido com famosa frase de Kirchmann: “três palavras retificadoras do legislador são suficientes para converter bibliotecas inteiras em tiras de papel” (apud. Isso porque.

até essa modificação legislativa a lei era omissa quanto ao dever de educação em direitos. Rio de Janeiro. nem bem defino conceitos de esquerda e direita. Lumen Juris. um dos maiores estudiosos brasileiros do tema acesso à justiça e Defensoria Pública. Realmente. espontaneamente soltou o seguinte pensamento: “Não sou teórico. Mas prefiro citar um trecho de uma entrevista concedida por um grande Defensor Público paulista. O Defensor Público carioca Cléber Francisco Alves. p. porém. inclusive aquelas decorrentes de uma ação do Estado” (Justiça para quem precisa. o que enseja consequências práticas consideráveis20. mas podemos dizer – e tais palavras representam opiniões pessoais – que só se pode interpretar o direito na linha da transformação social se o defensor público for educado a se despir do dogmatismo jurídico a que foi submetido na faculdade de direito. a educação em direitos não deve se limitar a . Sobre o papel do defensor público. difere da orientação jurídica – consubstanciava algo acidental nas realidades das diversas Defensorias. poderia citar aqui belos trechos de grandes pensadores como José Afonso da Silva. ressalte-se. 17 E talvez isso já tenha começado a render frutos.Ano 4 n. traz as seguintes palavras. ela era vista pelo defensor público como algo caritativo. em grande medida. 2 jul. filosófico ou religioso. a educação em direitos – que. 2006. houve a destinação de uma mesa para discutir a atuação do defensor público na educação em direitos. p. Revista do Brasil. da conscientização dos próprios membros da carreira. agosto. 261). 38. com a qual concordamos: “O futuro da Defensoria Pública depende. consequentemente. no sentido de que a eles cabe uma responsabilidade decisiva na edificação permanente da instituição” (Justiça para todos! – assistência jurídica gratuita nos Estados Unidos.18 Seu ideal deve ser dar voz a quem não costuma ter19 e sua meta deve ser a transformação social. Ademais disso. Agora. promovido pela Associação Nacional dos Defensores Públicos (ANADEP). 20). Boaventura de Sousa Santos ou Paulo Galliez. 2009. 2011 diálogo. ao lado de outros combativos Defensores e em um momento de tensão vivido em um despejo coletivo. Assim.118 Revista da Defensoria Pública . n. mas no contexto da lei ele se entremostra uma afronta a sua missão republicana. na França e no Brasil. vemos como fundamental a existência de uma escola (sem querer discutir aqui qual o melhor regime jurídico) destinada aos defensores públicos que zele pelo olhar crítico e multidisciplinar do mundo (nessa linha dispõem os atuais arts. Rio Grande do Sul. intelectual. de caminhos comuns que devem ser percorridos por todas as Defensorias do Brasil17. O Defensor Público (as iniciais maiúsculas são propositais) jamais deve assumir-se como um agente público que promove o assistencialismo./dez. minha missão constitucional é defender o cidadão pobre e garantir a afirmação de seus direitos contra toda a violação injusta. que. pois no VIII Congresso Nacional dos Defensores Públicos realizado em Porto Alegre. em 2009. Rafael de Morais Português. 26-A e 112-A da LC 80/04). e. o olhar caritativo pelo defensor público pode até ser elogiado em algum plano ético. 18 19 20 Desenvolveremos melhor essa ligação entre educação em direitos e transformação social um pouco mais a frente. Assim. Sou Tribuno da Plebe.

A Defensoria Pública do Piauí também determina como função institucional a de “informar. As Defensorias do Rio de Janeiro. cabe ao defensor público refletir junto à população se não seria o caso de revê-la. Educar em direitos significa educar as pessoas para que saibam e tentem resolver racionalmente seus conflitos. Em outros Estados. Por exemplo. Mato Grosso do Sul. Quando a lei for injusta ou mesmo conservadora. da cidadania e do ordenamento jurídico (e. ou seja. mas. vale citar que alguns Estados se anteciparam ao regramento nacional e incumbiram as suas Defensorias na missão da educação em direitos. Rio Grande do Sul. evitando-se a justiça com as próprias mãos. dessa vez isso está perdoado. mobilização social que se vale das regras do jogo democrático. 6º da Lei Complementar n. pois. onde o inciso III do art. . a educação em direitos não passou despercebida. No plano nacional nada se previa em tema de educação em direitos. 7º da Lei Complementar n. Assim também ocorre com a Defensoria Pública da Bahia. Para um exemplo do que não é lutar pela justiça social mediante o uso do direito. Alagoas e Espírito Santo não têm dispositivo similar no que atina à educação em direitos (este artigo está sendo escrito no final do ano de 2009). inclusive em situações de violação de direitos humanos. XIII que a legislação sobre defensoria pública e assistência jurídica compete à União no que atina às normas gerais. 24. mas isso não obstava que os Estados normatizassem à luz de suas realidades e vontades de Defensoria Pública.o 132/09 119 Deve-se destacar que a Constituição Federal previu a Defensoria Pública como instituição una. como contraponto seu.º 26/06 estabelece a promoção da difusão e da conscientização dos direitos humanos. Assim. cabendo aos Estados legislar concorrentemente a partir delas. E. seja no plano político ou judicial. foram estas as palavras que inspiraram o legislador da LC 132/09. 4º). Sergipe. ter conteúdo de exposição literal da Constituição e das leis para o conhecimento da população. Pois bem. porém. no plano da organização administrativa. vale a pena ver o filme V de Vingança (que exorta uma “solução” para os problemas da democracia representativa). como já dito.º 54/06 estabelece como função institucional a de manter ações preventivas e educacionais visando à conscientização dos direitos e deveres da pessoa humana. ainda que isso seja feito mediante uma linguagem adequada. essa é uma das poéticas atribuições institucionais do art. ao que tudo indica. e sem querer cometer injustiças.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. Ceará. consagrou em seu art. vale assistir ao documentário Viva Zapatero!. Se resolveram plagiar. conscientizar e motivar a população carente. na Defensoria Pública do Estado do Pará o inciso XII do art.

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inclusive por intermédio dos diferentes meios de comunicação a respeito de seus direitos e garantias” (art. 5º, inciso II da Lei Complementar n.º 59/05). Por fim, não podemos deixar de citar a Defensoria Pública de São Paulo, onde o art. 5º da Lei Complementar n.º 988/06 foi elogiosamente pleonástico. Com efeito, o mencionado dispositivo prevê em seu inciso I caber à instituição prestar aos necessitados orientação permanente sobre seus direitos e garantias, ao passo que o inciso II diz competir-lhe informar, conscientizar e motivar a população carente, inclusive por intermédio dos diferentes meios de comunicação, a respeito de seus direitos e garantias fundamentais.21 Em síntese: agora – isto é, deixando de lado que sua fundamentação é constitucional, como veremos em breve – a educação em direitos consubstancia norma geral, competindo a todas as Defensorias Públicas colocá-la em prática, embora seus métodos e seus conteúdos sejam assuntos a serem tratados localmente. Por fim, e embora essa novidade que é a educação em direitos exija reflexões sobre vários aspectos e até mesmo sobre o peso que deve possuir em uma política institucional de atuação, que fique claro que ela é tão atribuição ordinária quanto o é o dever de propor ação e fazer defesa. Tudo isso é atribuição ordinária e o é para que a atuação da Defensoria seja extraordinária, inovadora. O que está em jogo é o acesso à justiça universal e transformador. 4. DISTINÇÃO ENTRE EDUCAÇÃO EM DIREITOS E ORIENTAÇÃO JURÍDICA ”Não se presumem, na lei, palavras inúteis”,22 costuma-se ensinar nos cursos de direito. Conquanto concordemos que a tradição não deve

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A Defensoria Pública do Estado de São Paulo possui uma peculiaridade, talvez existente em outras Defensorias. É que o art. 65 da LC 988/06 prevê que cabe à Coordenadoria de Comunicação auxiliar a Escola da Defensoria Pública na realização da educação em direitos e orientação jurídica, ou seja, a lei definiu (talvez o mínimo) a quem cabe realizar a educação em direitos. A vantagem desse modelo é que, sendo órgãos da instituição, recursos públicos devem ser-lhes destinados, o que possibilita pôr em prática o cumprimento de seu dever-poder (no caso, a educação em direitos). Ou seja, a educação em direitos passa a ser algo a ser considerado no planejamento orçamentário da instituição e, pois, dos órgãos. Carlos Maximiliano, Hermenêutica e Aplicação do Direito, 12ª edição, Forense, Rio de Janeiro, 1992, p. 250.

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significar o governo dos vivos pelos mortos (Rui Barbosa), a distinção entre orientação jurídica e educação em direitos partirá dessa premissa. Para tanto, utilizaremos como esteio de argumentação apenas o regramento contido na LC 80/94 (pós-LC 132/09), deixando de lado qualquer menção às normatizações estaduais. Ao final, porém, tentaremos proceder a uma fundamentação de ordem material. Analisando a LC80/94, vemos que já em seu início ela se vale de expressões diferentes para indicar uma nova atribuição institucional da Defensoria Pública. No art. 1º faz-se referência como missão da Defensoria a ”orientação jurídica”. Não trabalharemos aqui eventual relação entre a educação em direitos e a expressão “promoção dos direitos humanos”, também contida nesse dispositivo. De qualquer forma, educar as pessoas em seus direitos é promover os direitos humanos23 e, nesse sentido, já no art. 1º encontraríamos a distinção formal entre orientação jurídica e educação em direitos. Mas é no art. 4º que a distinção formal fica mais visível. Enquanto o inciso I diz caber à Defensoria prestar orientação jurídica, o inciso III lhe atribui a missão de promover a difusão e a conscientização dos direitos humanos, da cidadania e do ordenamento jurídico. Portanto, negar a existência de uma diferença entre orientação jurídica e educação em direitos – qualquer que seja ela – é ter de enfrentar o ônus de assumir que a lei contém palavras inúteis24.
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Esse é o ensinamento de Flávia Schilling quando trata do assunto educação em direitos humanos: “A primeira constatação a ser feita é a de que a educação é um direito humano. É um direito humano em si e, como tal, fundamental para a realização de uma outra série de direitos” (O direito à educação: um longo caminho, In Educação e metodologia para os direitos humanos, Coord. Eduardo Bittar, Quartier Latin, São Paulo, 2008, p. 273). Note-se que podemos chegar a essa conclusão até mesmo com uma simples leitura da CF88, que em seu art. 205 estabelece que a educação deve possuir como uma de suas metas a de preparar para o exercício da cidadania. E já antecipamos que essa postura teria a solidariedade de um dos maiores juristas brasileiros da atualidade: Celso Antônio Bandeira de Mello. No ponto, o insigne doutrinador critica o parágrafo 8º do art. 37 da CF que, dentre outras coisas, prevê a possibilidade de realização de contratos entre órgãos da Administração Pública. Para ele, essa prática contratual seria fática e juridicamente impossível. Os argumentos vão desde o fato de os órgãos não possuírem autonomia (e um contrato não poderia ampliá-la) até a inexequibilidade dos referidos contratos, pois os órgãos são apenas repartições internas de competência do Estado, ou seja, são o próprio Estado. E sendo o próprio Estado, o contrato entre os órgãos seria um contrato consigo mesmo, configurando, assim, uma ilogicidade jurídica. Ante tais reflexões sobre o art. 37, parágrafo 8º da CF, o jurista lança a sua opinião sobre a existência de palavras inúteis no direito positivo com os seguintes dizeres: “Assim, tal dispositivo constitucional – no que concerne a contratos entre órgãos – haverá de ser conside-

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Revista da Defensoria Pública - Ano 4 n. 2 jul./dez. 2011

Desse modo, se orientação jurídica e educação em direitos são fenômenos diferentes – e cabe a todas as Defensorias Públicas admitir essa norma geral – devemos agora explorar qual seria essa diferença. De antemão, que fique claro que as conclusões a seguir não têm a pretensão de impor qualquer verdade, mas apenas estimular um debate. A orientação jurídica é um discurso que enfatiza a dogmática, em que o defensor atua como agente de aconselhamento jurídico e como técnico para a solução de controvérsia. Aqui, assim, cabe ao defensor agir como um profissional que, diante de uma situação-problema (que não necessariamente seja um litígio), esclarece para a pessoa (o assistido) a melhor solução jurídica para o seu caso. Como leciona o Defensor Público carioca Rogério Nunes de Oliveira, quando a Constituição de 1988 alterou a expressão “assistência judiciária” pela expressão “assistência jurídica”, talvez o primeiro intento do constituinte “foi o de tornar os mais amplos possíveis os serviços de assistência jurídica gratuita, que vão desde a orientação jurídica – inclusive aconselhamento voltado à consecução de acordos entre potenciais litigantes para prevenir ou excluir uma demanda – até a defesa em juízo do cidadão hipossuficiente...”.25 Observe-se que o inciso II do art. 4º - como decorrência direta do ideal de assistência jurídica integral – exorta a Defensoria Pública a assumir o seu papel de indutora de solução extrajudicial dos conflitos. Ora, para que a composição pacífica, que pressupõe o diálogo, seja eficaz, o mínimo que se requer é que as partes tenham algum conhecimento acerca do papel socializador do direito. Se o conhecimento dos direitos não é uma condição absoluta para a solução pacífica do litígio, ao menos ele é um detalhe que, como todo detalhe, é pequeno mas relevante. A orientação jurídica, assim, é casuística – pois que abordada em um contexto de situação-problema – e possui tripla função: prevenir conflitos ou solucioná-los pacificamente, ou encorajar o litígio mediante a jurisdição. Nos três casos isso só é possível devido ao esclarecimento (orientação jurídica), pois, como já ensinavam Mauro Cappelletti e Bryant Garth,
rado como não escrito e tido como um momento de supina infelicidade em nossa história jurídica, pela vergonha que atrai sobre nossa cultura, pois não há acrobacia exegética que permita salvá-lo e lhe atribuir um sentido compatível com o que está na própria essência do Direito e das relações jurídicas”. Curso de Direito Administrativo, 20ª edição, Malheiros, São Paulo, 2006, p. 216-7.
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Assistência jurídica gratuita. Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2006, p. 74.

só raramente se dão conta de que sua assinatura num contrato não significa que precisem. esse conteúdo da orientação jurídica é que nos faz entender o quão relevante é a educação em direitos para o próprio acesso à justiça na perspectiva da orientação jurídica.. carrega consigo um caso concreto que já é ou potencializa um litígio. No Brasil o acesso à informação de qualidade e útil (como as noções sobre os direitos) é extremamente debilitado – razões de ordem neoliberal explicam melhor o porquê disso27 – e isso gera uma consequência: por 26 Acesso à justiça. Jorge Zahar editor. vale assistir ao filme de comédia Idiocracy. a qual se encontraria excessivamente burra devido à ideologia do consumo e à manipulação pelos meios de comunicação de massa. Mesmo consumidores bem informados. Falta-lhes o conhecimento jurídico básico não apenas para fazer objeção a esses contratos.o 132/09 123 num primeiro nível está a questão de reconhecer a existência de um direito juridicamente exigível. seu conteúdo deve ser refletido e projetado a partir da realidade brasileira.. é preciso tornar as crianças consumidores e tornar os consumidores crianças” (Consumido – como o mercado corrompe crianças. Rio de Janeiro. Record. mas não afeta apenas os pobres (. que faz uma crítica à sociedade imaginária do ano de 2505. no sentido de que é a pessoa atendida pela Defensoria que traz o problema a ser esclarecido. mas. Sérgio Antonio Fabris Editor. em 27 . obrigatoriamente. em quaisquer circunstâncias.: Ellen Gracie Northfleet.26 Há ainda outro aspecto a considerar sobre a orientação jurídica e que a difere da educação em direitos. 22-23. como o faz Cléber Francisco Alves de forma distinta. p. Quanto à fome pelo lucro desmesurado. mas até mesmo para perceber que sejam passíveis de objeção. Uma das explicações é que vivemos em uma sociedade de consumo. Trad. Globalização – as consequências humanas. e “a cultura da sociedade de consumo envolve sobretudo o esquecimento. no Brasil. infantiliza adultos e engole cidadãos. 2009. Porto Alegre. o conteúdo da orientação jurídica é essencialmente casuístico. isto é. Essa barreira fundamental é especialmente séria para os despossuídos. sujeitarse a seus termos. segundo pensamos. E nem poderia ser diferente. Para ilustrar isso. É que na orientação jurídica o defensor público é um ator passivo. Rio de Janeiro. 1999. não o aprendizado” (Zygmunt Bauman. 32). 1988. Aliás.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. por exemplo. p. p. Mais enfático é o escritor estadunidense Benjamin Barber: “para o capitalismo de consumo prevalecer. pois. o direito de acesso à justiça necessita ser estudado com o auxílio do direito comparado.). Com efeito – e permitimo-nos antecipar algo que será dito em breve –. 90).

os principais livros vários momentos mostra-se alguém idiotizado que manifesta a célebre frase: “eu gosto de dinheiro”.30 Apenas para exemplificar. A maioria ou desconhece seus direitos. O jardim e a praça – ensaio sobre o lado privado e o lado público da vida social e histórica.124 Revista da Defensoria Pública . ou. p. UFSC. esta teria como meta o espaço público. In: Educação em direitos humanos – discursos críticos contemporâneos. Quando se fala em educação em direitos.28 Por fim.29 Em outras palavras. de tal sorte que a orientação jurídica por vezes só será exigida da Defensoria Pública se a pessoa tiver um mínimo de noção a respeito disso. só os militantes de partidos – estarão dispostos a tanto” (Os direitos humanos poderão ameaçar a democracia?. 22. porque pouquíssimos – basicamente. mas talvez haja outra distinção a ser notada entre a orientação jurídica e a educação em direitos. se os conhece. 29 30 . logo adiante o intelectual critica o insuficiente número de defensores públicos mesmo após o mandamento da Constituição de 1988. o livro certamente é uma leitura obrigatória para o defensor público. Florianópolis. 2011 vezes as pessoas só podem usufruir de seus direitos se souberem que os possuem. um grupo de defensores tira dúvidas jurídicas pessoais da população. Civilização Brasileira. no que toca a esta última consideração. o culto filósofo Renato Janine Ribeiro sugere a reflexão sobre alguns problemas dos direitos humanos para a democracia: “Nas raras democracias e repúblicas da Antigüidade. 2 jul. 214-215. ao passo que a segunda ensina-lhes a importância de cuidar da praça. sentencia que “o acesso à justiça é limitado a pequena parcela da população. Org: Theophilos Rifiotis e Tiago Hyra Rodrigues. 2006. a primeira contribui para que as pessoas saibam cuidar de seu jardim. e sem querer chegar a conclusões. porém. se for essa a exigência para ter cidadãos.Ano 4 n. não tem condições de os fazer valer” – e. é comum as Defensorias Públicas do Brasil periodicamente se dirigirem a locais onde não existem instalações da instituição e. para usar o título de uma obra de Nelson Saldanha. Nesse ponto. 2008. não os terá. José Murilo de Carvalho. É que enquanto aquela se atrelaria mais aos assuntos privados. A modernidade. o estatuto de cidadão estava ligado à disposição de colocar o bem comum à frente do privado. Diga-se de passagem. p. O contexto em que a frase é dita leva o telespectador mais atento a enxergar verdadeira crítica à prática do lucro excessivo./dez. quando revive a democracia. Sérgio Fabris editor. nota 1). constata que. mediante a utilização de espaços de alta visibilidade (como barracas em ruas movimentadas). É por isso que um dos mais respeitáveis historiadores brasileiros. dado que esse assunto merece um estudo mais aprofundado. 1986. Rio de Janeiro. 28 Cidadania no Brasil – o longo caminho. Porto Alegre.

desde a sua edição a Lei n. In Práticas de cidadania. Tanto num como noutro caso a não aplicação da lei decorre do desconhecimento que “de cada 100 mulheres assassinadas no Brasil. 3ª edição. 2007. que. Por exemplo. por vezes o defensor público – que não é dono da verdade.33 Como ensinava Paulo Freire. Ademais. Jaime Pinski. por si só. 5ª edição. As idéias fora do lugar e o lugar fora das idéias. Note-se: para isso o conteúdo da educação em direitos é diverso. 32 33 . 2004). ao verem colocadas em causa as políticas sociais ou de desenvolvimento do Estado. conhecida como Lei Maria da Penha. Temas de Direitos Humanos.. São Paulo: Galeno Amorim. sobretudo a Parte IV). se não são profundos como os livros. a sugestão é de filmes. São Paulo. às vezes sob o argumento da inconstitucionalidade por ofensa à isonomia e às vezes por simples descumprimento (como quando se aplicam institutos benéficos ao agressor contra a literalidade da lei). nenhum dos dois mil casos do RJ terminou com a punição dos acusados”. São Paulo. tradução de Álvaro Lorencini. dado que “as pessoas. Brasiliense. A globalização da natureza e a natureza da globalização. Ou se a população urbana não possui moradia devido à falta de locais habitáveis nos centros urbanos (sobre isso. Para uma revolução democrática da justiça. Assim. p. Brasiliense. uma contingência irremovível como a morte? Ou será a fome uma praga social criada pelo próprio homem?” (Geopolítica da fome. de Viviane Forrester [Unesp. 228). sendo 66% dos autores parceiros delas. assumam-se como um ser social. Org. 4ª edição. 1994] e O horror econômico. In A cidade do pensamento único.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. 1997]. diga-se de passagem – pode e deve refletir com a população carente se estar em liberdade é somente não estar em um presídio (sobre essa reflexão acerca do direito à liberdade. Saraiva. 1º vol. 70 o são em relações domésticas. Civilização Brasileira. São Paulo. O que está em jogo é a educação para a ação. Por fim. 1959. a mais instigante indagação a respeito disso tenha sido feita por Josué de Castro: “Será a calamidade da fome um fenômeno natural. p. 2006. estima-se que. que visa a contribuir para que as pessoas se sintam cidadãs e. 45). Ou se a população carente não lê livros porque não quer ou se não o faz devido à falta de políticas públicas (sobre um exitoso exemplo de Ribeirão Preto. Cortez. posto que a lista seria imensa. São Paulo. além do filme italiano Onde está a Liberdade?).o 132/09 125 sobre o assunto demonstram que não é esse discurso que está em jogo. que têm consciência dos seus direitos. Ermínia Maricato. O Expresso da Meia-Noite. Contudo. Injustiçados. isso seria “direito de bandidos” (sobre isso. pois nem mesmo visa apenas a apresentar as leis para as pessoas. Rio de Janeiro. responsável pela sociedade. recorrem aos tribunais para as protegerem ou exigirem a sua efectiva execução” (Boaventura de Sousa Santos.31 e sim por vezes ajudá-las a entender as razões do surgimento da lei32 e até mesmo colocá-la em questão. já seria transformador. tem enfrentado muita resistência pelos próprios profissionais do direito na sua aplicação. Vozes. certamente têm mais poder de sensibilização do que eles: Assassinato em primeiro grau. 2007). Ou se perguntar por que milhares de seres humanos morrem de fome todos os dias se as forças produtivas agrícolas modernas são capazes de alimentar o dobro da população do planeta (sobre isso. com isso. se a atuação do defensor público na área criminal corresponde à preocupação com os direitos humanos ou se. em 1990. Rio de Janeiro. de Caio Prado Jr. segundo constatação da Human Rights Watch (In Flávia Piovesan. Ônibus 174.º 11340/06. p. como nos dizem os sensacionalistas da grande mídia. Contexto. [15ª edição. “Pobre do 31 O que. vide Carlos Walter Porto-Gonçalves. São Paulo. 19). vale a leitura de ao menos dois livros: O que é liberdade – capitalismo X socialismo. Livros para todos. 2009. inerente à própria vida.

34 Para finalizar esse raciocínio. com a acomodação dos órgãos de promoção do Direito e a preocupação de poucos. em defesa de seus interesses. O Quarto Poder. urge agora debruçarmo-nos sobre o conteúdo e a abrangência da educação em direitos. Inspeção Geral.. passivamente. e sob algumas das quais vivem. 2007. Citando S. 17. federação. 40. A atualização da obra coube a Rosolea Miranda Folgosi.. etc). mal-cumpridas. Este é um problema cultural. São Paulo. E esta ensinança é tarefa que não se esgota num gesto. 2 jul. nem consciente –.35. nas terças-feiras. demonstraremos que a educação em direitos possui uma fundamentação constitucional e. incessante. Tendo sido feitas as definições acerca do que seria a orientação jurídica.. ‘fica decretado que. a notícia segundo a qual. Malheiros. desprezadas. diuturno. A Outra História Americana.). desse ponto de vista. República e constituição. autonomia municipal. E. 34ª edição. Zona do Crime. São Paulo. sem o mais mínimo sinal de inquietação. a complacência de muitos. p. que será tanto mais eficaz quanto mais traduzido em comportamentos exemplares. E isto com a aquiescência de uns. (.. entretanto.126 Revista da Defensoria Pública .) à sua Pátria é contribuir para que tenham seus concidadãos idéias claras das instituições políticas. tripartição do poder e legalidade. . as regras. 34 35 A importância do ato de ler.. que lhes asseguram a eficácia são ignoradas. 1997.Ano 4 n.) Mas a responsabilidade maior cabe aos homens do Direito (. se começa a dizer boa-noite a partir das duas horas da tarde’”. Cortez. a normatização atual da LC 80/94 não se mostra tão O Processo. ou terão de viver”. Justiça. A nós incumbe a responsabilidade de ensinar as virtudes do Direito e as vantagens de sua observância. Vive-se uma só vez. espalhadas pelo mundo. 2ª edição.. como é o caso da república. Dória: “o serviço mais prestante que pode um cidadão prestar (./dez. p. a indiferença de outros. é imperioso transcrever o seguinte pensamento do saudoso Geraldo Ataliba: Se é verdade que os princípios fundamentais têm da comunidade nacional razoável adesão – embora não explícita. 12 Homens e uma Sentença. nem numa pregação. É um múnus constante. ao longo desse discurso. 2011 povo que aceita.

1991. nomeadamente seu caráter analítico. 3ª edição. 8º edição.37 Diante desse contexto. Rio de Janeiro. Livraria do Advogado. permitindo aos indicados pelos subscritores das mesmas. p.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. Pode-se afirmar que essa participação não resultou em adoção de propostas populares.) foi a de 1987 a que obteve maior participação popular.Saraiva.. História constitucional do Brasil. 77. A eficácia dos direito fundamentais.. Após elogiar o fato de a CF88 ter dado aos direitos fundamentais o tratamento merecido. Paz e Terra. 2009. Ingo Wolfgang Sarlet destaca que “três características consensualmente atribuídas à Constituição de 1988 podem ser consideradas (ao menos em parte) como extensiva ao título dos direitos fundamentais.o 132/09 127 revolucionária – o que não nega a sua importância simbólica e até mesmo jurídica. p.38 Linhas atrás dissemos que as inovações trazidas pela LC 132/09 hão de ser louvadas. EDUCAÇÃO EM DIREITOS COMO DECORRÊNCIA DO ESPÍRITO DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988: A FUNDAMENTAÇÃO CONSTITUCIONAL DA EDUCAÇÃO EM DIREITOS É inquestionável que a Constituição Federal de 1988 trouxe inúmeros avanços no Brasil.. Em seguida. Paulo Bonavides e Paes de Andrade dizem que “(. 475.. mas o fato é que as sugestões e emendas com milhões de assinaturas chegaram ao Congresso (. 5. 2007. pela redescoberta da cidadania e pela conscientização das pessoas em relação aos próprios direitos. e já em seu nascimento se lhe atribuía a designação de “Constituição-Cidadã”. Em primeiro lugar. seu pluralismo e seu forte cunho programático e dirigente”. Essas proposições que fazemos têm a ousadia de sugerir uma 36 Comparando a constituinte de 1987 com as constituintes pretéritas da história constitucional do Brasil. São Paulo. Curso de direito constitucional contemporâneo. 37 38 . Luís Roberto Barroso diz que sob a Constituição de 1988. o direito de palavra no plenário”. Porto Alegre. pela circunstância de haver o texto constitucional criado novos direitos.. 383.. p. aumentou de maneira significativa a demanda por justiça na sociedade brasileira. não apenas devido à intensa participação popular em sua gênese.). embora não mereçam ser concebidas como algo novo na missão da Defensoria Pública quanto ao direito de acesso à justiça.36 mas também por causa do enaltecimento dos direitos fundamentais ao longo de todo o texto. introduzido novas ações e ampliado a legitimação ativa para a tutela de interesses.

Almedina. Rio de Janeiro. o que “(. 497).. 40 . se nos afigura um direito de cunho prestacional. Evidentemente. significa que “(. temos de partir da seguinte premissa: o direito de acesso à justiça até pode figurar como um direito de primeira dimensão. direito à educação). E atribuir o status de supremacia constitucional à educação em direitos pela Defensoria Pública é reconhecer (i) que. no fundo. Isso porque quando trata do direito de acesso à justiça (que denomina acesso aos tribunais) o jurista lança as seguintes considerações: “Desta imbricação entre o direito de acesso aos tribunais e direitos fundamentais resultam dimensões inelimináveis do núcleo essencial da garantia institucional da via judiciária.40E a prova de que 39 E possivelmente o autor inclui na expressão “direito à assistência” o direito à assistência jurídica. Cit. uma garantia institucional e um direito subjetivo”. 2008./dez. para concluirmos que eventual simples revogação da lei incorreria em retrocesso social. Portugal. Renovar.” (Direito constitucional e teoria da constituição. 7ª edição. pois que no mínimo isso afrontaria a cláusula da vedação ao retrocesso. que encara o direito de acesso à justiça como um mínimo existencial capaz de otimizar a concretização de direito: A eficácia jurídica dos princípios constitucionais – o princípio da dignidade da pessoa humana. mas a inovação da CF88. p... mas também de um ´princípio geral (‘de direito’. pois. 2011 fundamentação constitucional da educação em direitos ao menos quando se trata de Defensoria Pública. uma vez obtido um determinado grau de realização.) os direitos sociais e econômicos (ex. além de (ii) isso impedir que a referida lei seja pontualmente revogada visando retirar-lhe tal mister. p. Coimbra. p.. das ‘nações civilizadas’) que impõe um dever de protecção através dos tribunais como um corolário lógico: (1) do monopólio de coacção física legítima por parte do Estado. direito à assistência39. Como é sabido. a LC 80/94 não precisava explicitá-la como uma atribuição constitucional sua. sujeito à cláusula da vedação ao retrocesso. A garantia institucional conexiona-se com o dever de uma garantia jurisdicional a cargo do Estado... a cláusula da vedação ao retrocesso social. No mesmo sentido é o pensamento de Ana Paula de Barcellos. Este dever resulta não apenas do texto da constituição. a tutela da população carente por meio de um órgão público (Defensoria Pública).. 2003. fundamentar constitucionalmente alguma coisa é muito mais do que reconhecer o seu estar no mundo do jurídico.Ano 4 n. passam a constituir. 2 jul. também denominada por ele de contrarrevolução social ou vedação à evolução reacionária.). e. 339. 2ª edição. (3) da proibição de autodefesa a não ser em circunstâncias excepcionais definidas na Constituição e na lei (. é conferirlhe supremacia.) limita a reversibilidade dos direitos adquiridos (. qual seja. simultaneamente..)”. (2) do dever de manutenção da paz jurídica num determinado território.: direito dos trabalhadores..128 Revista da Defensoria Pública . 325-33. Op. Segundo Canotilho.

Malheiros. como adverte José Afonso da Silva. E assim já ensinava Konrad Hesse: “(. 27ª edição. sobretudo a pobre. p. Porto Alegre. cor. diferença e direitos humanos. urge sintetizarmos nossa ideia no seguinte raciocínio: educação em direitos + objetivos da República + Defensoria Pública + Assistência jurídica integral = acesso à justiça. por parte do poder público. uma certa localidade daquele país sofria com altíssimo índice de tensão étnico-racial. idade e quaisquer formas de discriminação. do desenvolvimento e da paz” (Silvia Pimentel. E já que é notório que a população. especificamente. procurarmos manifestações de aplicação do art. até mesmo em uma escola. Igualdade e Cidadania – a contribuição da Convenção Cedaw/Onu. 42 . Daniel Sarmento. 1991. não só a vontade de poder (Wille zur Macht). Em suma. 311). embora sem qualquer exclusividade. 3º da Carta. profissionais do direito. sexo. por outro lado. diferentemente da LC 80/94. p. trad. Uma coisa é certa: se por um lado a CF88.: Gilmar Ferreira Mendes. Rio de Janeiro. objetivos do Estado brasileiro” (Curso de direito constitucional positivo.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. p. À vista disso. que traça objetivos da República41. representada pela premiada Hilary Swank) faz seus alunos compreenderem o significado da tolerância e da recusa à justiça com as próprias mãos. Sérgio Fabris editor. pois. “O direito à educação para todos – mulheres e homens – tem sido crescentemente reconhecido pela comunidade internacional como uma questão estratégica para a consecução da igualdade. sem preconceitos de origem. 105).. 2008. que se baseia em fatos reais ocorridos nos EUA. como imaginar a realização da meta do art. na consciência geral – particularmente. não definiu quem. Até que uma professora abnegada (Erin Gruwell. mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)” (A força normativa da constituição.. basta mencionar que o inciso III do mencionado artigo determina a promoção do bem de todos. III. São Paulo. sem que o Estado difunda junto à sociedade as noções básicas de sociabilidade por meio do direito?42 Por se nos afigurar clara essa imbricação. sugerimos ao leitor o belíssimo e inspirador filme Escritores da Liberdade. In: Igualdade. 3º da CF88. 41 Cabe a nós. deveria incumbir-se do mister da educação em direitos. Lumen Juris. 19). Apenas para expor a argumentação. 2006.) a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes. carece de saber seus direitos. “é a primeira vez que uma Constituição assinala. 205 da Constituição. Educação. Daniel Ikawa e Flávia Piovesan (orgs.). a exigência. 3º como do art. na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional –. raça.o 132/09 129 a educação em direitos encontra arrimo constitucional está exposta já no art. 3º. da educação em direitos decorre não apenas do art.

). 43 Aliás. Coord.). já citado anteriormente? A jurista Ana Paula de Barcellos vê o esclarecimento da população quanto aos direitos como conditio sine qua non para o efetivo acesso à justiça. mas à família. Como se vê. 135... In: Educação em direitos humanos para o século XXI. Op. onde o autor elenca cinco vantagens). assumam a sua responsabilidade de educar as pessoas nas noções jurídicas básicas. ver Vera Candau (Educação em direitos humanos: questões pedagógicas. p. Garth Meintjes (Educação em direitos humanos para o pleno exercício para a cidadania. muitos estudiosos-ativistas veem inúmeras vantagens da educação não formal sobre a formal. Vale transcrever um trecho: O segundo obstáculo fático que se identifica no caminho do acesso à justiça é a questão da informação (. 2 jul. as Faculdades de Direito – promoverem a informação acerca de suas atividades em especial. o Poder Judiciário. Quartier Latin. A médio e longo prazo. Conquanto não se lhes afigure um monopólio. especialmente a de mais baixa renda e escolaridade (. que exige a educação em direitos. passa pela educação formal.43 Pois bem. Cit. isto é.Ano 4 n. 2011 No que toca ao art. Mas a educação certamente não se esgota no plano formal e. por que não exigir que as instituições do sistema de justiça. Quanto ao Estado.. 291). e exorta as instituições jurídicas a terem essa compreensão. Enquanto isso. os bancos escolares. é de uma obviedade agressiva que a educação para a cidadania.. no que toca à educação para a cidadania. a Defensoria Pública. cabe a toda a sociedade e às instituições diretamente envolvidas – como o Ministério Público. terá como uma de suas metas o preparo das pessoas para a cidadania..). a educação não formal também se impõe. .. que é direito de todos e dever do Estado e da família. e da estrutura do acesso à justiça em geral. como pregava Geraldo Ataliba. 2008. Eduardo Bittar. o correlato sujeito a quem cabe o dever é definido: essa missão cabe não apenas ao Estado. São Paulo.. a generalização do ensino fundamental por toda a população brasileira e a inclusão em seu conteúdo curricular de noções sobre o Judiciário e seu papel. norma-matriz do direito educacional constitucional./dez. Nesse sentido. enquanto o detentor do direito subjetivo constitucional é universal (todos). ele consigna que a educação. nessa medida. In: Educação e metodologia para os direitos humanos. em um esforço de esclarecimento da população.130 Revista da Defensoria Pública . p. o acesso à justiça e os mecanismos postos à disposição do cidadão (. que detêm o monopólio de um dos poderes do Estado (o Judiciário). 205.

Assim também Paulo Freire. 333. São Paulo.). a globalização da cidadania. 37). Rio de Janeiro. e sim de dever republicano.. 67.. E esse é o motivo de o saudoso. Estas agem torpemente. 2008. ver Por uma outra globalização. 2003. reitere-se. campanhas de divulgação implementadas voluntariamente pelas instituições referidas serão muito mais eficientes na construção desse aspecto da dignidade humana (. porém. dirigido pelo cineasta Silvio Tendler. E se cabe à família. Isso deve estar no espírito de todo o defensor público.o 132/09 131 Neste ponto. tratando especificamente da educação fulcrada na pedagogia do oprimido: “As massas (. p. ou melhor.. que a respeitável jurista atrela essa iniciativa por parte dos membros das instituições jurídicas como algo atinente ao mundo do voluntarismo.46 No que tange à Defensoria Pública.. o que é uma forma de colonialismo. saudosíssimo. O único problema desse entendimento é que caridade é uma noção antitética à de direito (subjetivo). e não no Terceiro Setor.Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n. Record. As massas querem participar mais na sociedade. 13ª edição.. Paz e Terra. a educação para a cidadania – que. Edipro.45 como já anotara Norberto Bobbio. 164).). Assim. no entanto. que alterou a antiga expressão assistência judiciária pela expressão assistência jurídica integral e gratuita. p. tal como a orientação jurídica. Procura-se tratá-las como crianças para que continuem sendo crianças” (Educação e mudança. 46 . raríssimas 44 45 Barcellos. pressupõe a educação em direitos – também cabe à família. 30ª edição. As elites acham que isto é um absurdo e criam instituições de assistência social para domesticá-las. da caridade. uma condição para uma outra globalização.. seria tão diferente dos ordenamentos históricos que costumamos chamar de jurídicos que ninguém ousaria ver ali realizada a idéia de direito: sinal evidente que a adesão espontânea acompanha a formação e a perduração de um ordenamento jurídico. bem como exortamos que o leitor deve assistir ao documentário Encontro com Milton Santos. já encontrou a resposta na CF88. 2007. 2006. Não prestam serviços. 2ª edição. mas não o caracteriza” (Teoria da norma jurídica. atuam paternalisticamente. Sobre isso. p. Começam a exigir e a criar problemas para as elites. Por fim. inconstitucionalmente.) descobrem que a educação lhes abre uma perspectiva (. “Um ordenamento normativo em que não houvesse nunca a necessidade de recorrer à sanção e fosse sempre seguido espontaneamente. pensador-humanista Milton Santos enxergar no Estado. urge fazermos a seguinte indagação: se (i) a educação formal no Brasil não garante o ensinamento das noções básicas acerca do Direito (e de sua função socializadora). Rio de Janeiro. p. se (ii).44 Note-se. em face dessa nova instituição não se há de excogitar de voluntarismos ou caridades. vemos que a educação em direitos. esmagando as massas e acusando-as de comunismo.

Zahar editor. 9). têm de ter acesso à internet ou aos livros (algo que não corresponde à realidade da imensa população pobre).Ano 4 n. para não ingressarem na faculdade de direito. Sylvia Moretzsohn. Pierre Bourdieu chega a constatar que a televisão tem o poder de. Rio de Janeiro. Necessária porque “a história nada ensina. pergunta-se: como exigir. 48 49 . Revan. E se a família está imbuída no dever de educar para a cidadania. apenas castiga quem não aprende suas lições”. O documentário foi lançado no final do ano de 2009 e é dirigido pelo cineasta-sonhador Silvio Tendler. ou ainda porque a televisão (a grande mídia) continua 47 Feliz e profundo é o pensamento de Luís Fernando Veríssimo: “Vivemos num tempo maluco em que a informação é tão rápida que exige explicação instantânea e tão superficial que qualquer explicação serve” (apud Jornalismo em tempo real. as pessoas. Olhar estrangeiro sobre o Brasil e o famoso Cidadão Kane. Jorge Zahar editor. 6. Felizmente a LC 132/09 captou essa mensagem constitucional. 2002. cabe aos defensores públicos se inspirarem nesse abençoado fardo que lhe impôs a CF88. 119). 2011 são as vezes em que os meios de comunicação dão cumprimento ao disposto no art. Ofensiva porque qualquer resposta é suficiente com a simples indagação ”por que não se educar para os direitos humanos?”. 1997. 1994. Não compreender isso significará para a Instituição o início do fim. Frase de Vladimir Smelev e Nicolai Popov (apud O capitalismo do século XXI. “paradoxalmente. de forma legítima. p. 205 também casa com o dever estatal de promover a educação em direitos. Três filmes ilustram muito bem esse poder que detêm os meios de comunicação: 1984 (da obra de George Orwell). 2 jul. p. p. por meio da Defensoria Pública) educar tais educadores. PARA QUÊ A EDUCAÇÃO EM DIREITOS? A indagação “para quê a educação em direitos?” consegue ser ao mesmo tempo ofensiva e necessária.132 Revista da Defensoria Pública .47 se (iii). para terem acesso à informação sobre seus direitos. cabe ao Estado (por exemplo.48 Assim. 24). Rio de Janeiro. Robert Heilbroner. ocultar mostrando” (Sobre e televisão./dez. Assim. 221 da CF/88. basta assistir ao brilhante documentário brasileiro Utopia e Barbárie49 para concluir que a história exige a linguagem dos direitos humanos. Rio de Janeiro. e é isso que gradativamente vem legitimando a Defensoria Pública perante a sociedade. o art. que a família se incumba de educar para a cidadania? Portanto.

Educação em direitos e defensoria pública: Reflexões a partir da lei complementar n.o 132/09

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mascarando inúmeras violações de direitos humanos e isso às vezes nos faz enxergar as coisas como algo normal.50 Podemos nos indagar quais são os motivos de educar a população carente para os direitos humanos. A resposta é simples. Primeiro, porque os direitos e a justiça social surgem de baixo pra cima, e não de cima pra baixo.51 Segundo, porque, como decorrência do primeiro – e esse é um diferencial da Defensoria, que diariamente convive com a pobreza e, por isso, gradativamente aprende a entender as principais necessidades da população, que é algo relevante para a própria interpretação do direito –, é no espírito de solidariedade e de vontade de mudança vistos na população carente que entendemos a importância de que ela possua o conhecimento mínimo de seus direitos.52 Assim sendo, a Defensoria Pública – que, segundo pensamos, só poderá crescer e realizar um efetivo e diferençado acesso à justiça se mantiver o espírito de participação social – possui o dever de contribuir para que a população saiba de seus direitos e, mais que isso, para que saiba lutar pelos direitos, pois direito é conquista, e não um dado. A Defensoria Pública deve contribuir para que a população aprenda a se defender com ela, e não apenas que seja defendida por ela (que consubstancia uma
“Quando o escravo era acorrentado com grilhões de ferro era fácil perceber a escravidão. Quando agora desfila acorrentado a algemas semânticas torna-se difícil perceber a escravidão do homem”, já advertiu o pensador Albert Camus (apud Carlos Roberto Siqueira Castro, 20 anos da Constituição democrática de 1988, In Vinte Anos da Constituição Federal de 1988, Cooord. Cláudio Pereira de Souza Neto e outros, Lumen Juris, Rio de Janeiro, 2009, p. 23). Milton Santos, que era daqueles intelectuais sonhadores que fazem falta nos dias atuais e que servem de referência para os jovens, já averberou: “Uma coisa parece certa: as mudanças a serem introduzidas, no sentido de alcançarmos uma outra globalização, não virão do centro do sistema, como em outras fases de ruptura na marcha do capitalismo. As mudanças sairão dos países subdesenvolvidos” (Por uma outra globalização, Op.Cit., p. 153-154). A propósito, reiteramos valer a pena ver o documentário Encontro com Milton Santos – o mundo global visto do lado de cá, também dirigido pelo premiado cineasta Silvio Tendler. Em um livro-testamento destinado aos jovens, Ernesto Sabato – que abandonou uma renomada vida científica para viver na árdua simplicidade da luta pelos direitos humanos – lançou as seguintes palavras a fim de demonstrar por que ainda temos de acreditar em algo: “E não só por meio das inocentes criaturas da natureza, mas também encarnada em heróis anônimos, como aquele pobre homem que, no incêndio de uma favela, entrou três vezes no barraco de chapas de metal onde umas crianças estavam trancadas – ali deixadas pelos pais, que haviam ido trabalhar –, até morrer, na última tentativa. Mostrando-nos que nem tudo é miserável, sórdido e sujo nesta vida, e que este pobre ser anônimo, como aquelas florezinhas, é uma prova do Absoluto” (Antes do fim – memórias, Companhia das Letras, São Paulo, 2000, p. 12).

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visão paternalista e, pois, historicamente questionável do ponto de vista da justiça social).53

7. OS CONTEÚDOS DA EDUCAÇÃO EM DIREITOS Optamos por falar em “conteúdos” (plural) da educação em direitos, e não em “conteúdo” (singular), para que fique nítido que tudo o que disser respeito à educação em direitos não deve ousar ser definitivo.54 A educação em direitos, tanto no conteúdo como no método ou no destinatário, deve ser pensada a partir da criatividade.55 Isso, porém, não impede que alguns nortes sejam estabelecidos. O importante é o constante diálogo entre as Defensorias. Antes de tudo, o papel da Defensoria Pública é a educação em direitos, isto é, a educação jurídica popular. Assim, o defensor público deve ser estimulado a protagonizar com mais intensidade as aulas jurídicas, o que certamente não impede a abordagem crítica.

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De abril a novembro de 2009 a Defensoria Pública do Estado de São Paulo realizou, por meio de sua Escola, um curso de educação em direitos denominado Curso de Defensores Populares, nome este criado a partir da inspiração do curso de Promotoras Legais Populares. Conquanto os recursos públicos para a realização do curso tenham cabido à Escola da Defensoria Pública de São Paulo, sua realização só foi possível devido à coordenação conjunta com outros parceiros da sociedade civil e um ente público: União dos Movimentos de Moradia (UMM), Escritório Modelo Dom Paulo Evaristo Arns (PUC-SP), Associação Paulista dos Defensores Públicos (APADEP), Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos e Defensoria Pública da União em São Paulo. Diga-se de passagem, a ideia de realização do curso não partiu da Defensoria de São Paulo, mas da sociedade civil, mais especificamente da UMM, na época representada pelo inspirador ativista Benedito Barbosa, o “Dito”. O Curso de Defensores Populares teve o êxito de formar cerca de 50 pessoas ligadas a movimentos sociais e possuía uma grade curricular que enfatizava a educação em direitos em sua perspectiva freireana. As aulas (quinze ao todo) foram quinzenais e aos sábados de manhã (das 9h às 13h), posto que esse horário era condizente com as possibilidades da população. Para mais informações, cf. www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/Conteudos/Materia/MaterialMostra. aspx?idItem=4575&idModulo=5278, Acesso em 30 nov. 2009. “(...) a EDH [educação em direitos humanos] não deve jamais ser um conjunto estático de determinados conhecimentos de enunciados de direitos, mas deve preservar sempre um envolvimento dinâmico com esses conhecimentos” (Upendra Baxi, Educação em direitos humanos: promessa do terceiro milênio?, In: Educação em direitos humanos para o século XXI, Op.Cit., p. 236). Por exemplo, promover cursos mais longos ou mais curtos; utilizar ou não recursos audiovisuais (como o cinema) ou grupos teatrais (como o Teatro do Oprimido); definir o grau de participação dos alunos; realizar curso voltado para certo perfil de aluno (mulher, criança, idoso, pessoa com deficiência) ou mesclar os perfis; tornar o curso mais jurídico ou, por meio de parcerias com outros atores, deixá-lo multidisciplinar; centralizar a atuação junto à educação formal ou informal, etc.

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Não basta, porém, a mera apresentação das leis, embora seja o mínimo exigível (e note-se que o art. 4º, III, da lei diz caber à Defensoria a promoção da difusão do ordenamento jurídico).56 Aliás, a abordagem puramente jurídica – como se isso fosse possível... – não deveria jamais ser o cerne dos cursos de direito, como têm advertido inúmeros estudiosos. No que tange à apresentação das leis, é imprescindível o estímulo à leitura da Constituição, e o estímulo passa por vezes por fornecer um exemplar do texto para cada aluno. Fazer isso é fazer cumprir a Constituição ao menos no que atina ao art. 64 dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias, que de transitório nada pode ter.57 A linguagem deve ser adequada, além de não precisar se preocupar em focar demasiadamente os termos técnicos. Como diz o maior historiador do século XX, Eric Hobsbawm, citando Rutherford acerca de outra área do conhecimento, “nenhuma física podia ser boa se não pudesse ser explicada a uma garçonete de bar”.58 O mesmo se dá com a educação jurídica popular, que não deve se ocupar com
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“La historia de los derechos humanos es la historia de los esfuerzos que se han hecho para definir la dignidad y valor básicos del ser humano y sus derechos más fundamentales. Esos esfuerzos prosiguen em la actualidad. Conviene que el profesor incluya uma exposición de esa historia como parte esencial de la enseñanza de los derechos humanos, que puede ir haciéndose más detallada em los grados superiores” (La enseñanza de los derechos humanos – actividades prácticas para escuelas primarias y secundarias, Naciones Unidas, Nueva York y Ginebra, 2004, p. 19). O mencionado dispositivo diz que “A Imprensa Nacional e demais gráficas da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, da Administração direta ou indireta, inclusive fundações instituídas e mantidas pelo Poder Público, promoverão edição popular do texto integral da Constituição, que será posta a disposição das escolas e dos cartórios, dos sindicatos, dos quartéis, das igrejas e de outras instituições representativas da comunidade, gratuitamente, de modo que cada cidadão brasileiro possa receber do Estado um exemplar da Constituição do Brasil”. Para alguns doutrinadores não se deve interpretar o dispositivo como disposição transitória. Confira-se Rodrigo Costa Vidal Rangel, Educação constitucional, cidadania e estado democrático de direito, Nuria Fabris, Porto Alegre, 2008. O autor toma essa posição e cita o mesmo entendimento de José Afonso da Silva (p. 96). Era dos extremos – o breve século XX, Op.Cit., p. 519. E como conhecimento é poder e o direito não deixa de ser uma tecnologia (cf. Tercio Sampaio Ferraz Jr., Introdução ao estudo do direito, Atlas, São Paulo, 1989, p. 87), neste capítulo do imprescindível livro, em que o historiador aborda a ciência no (breve) século XX, urge transcrever a seguinte passagem: “O problema dessas tecnologias é que se baseavam em descobertas e teorias tão distantes do mundo do cidadão comum, mesmo nos países desenvolvidos mais sofisticados, que só algumas dezenas ou, no máximo, algumas centenas de pessoas no mundo podiam captar inicialmente que elas tinham implicações práticas” (p. 507).

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Um exemplo pode ser ilustrado na letra ‘Saudosa Maloca’. Como se vê. na letra é feita referência a um “defensor”.. Cit. e por aí vai59. III.Ano 4 n. é possível (e recomendável) concluir que a educação em direitos possui três metas:60 1ª) Formação de sujeitos de direito: pois a maior parte dos cidadãos não tem consciência de seus direitos e “consideram que os direitos são dádivas de determinados políticos ou governos”. deve a Defensoria preocuparse em “promover a difusão e a conscientização dos direitos humanos. da cidadania e do ordenamento jurídico”. e felizmente o discurso abaixo pode partir da comodidade da dogmática jurídica. para resgatar a memória. e possivelmente o compositor se referia ao defensor público./dez.. ao mesmo tempo em que se menciona “desembargador” em um contexto que deixa entender tratar-se de uma crítica ao tradicional formalismo do Judiciário. Diante disso. à transformação social. deve visar à ação. ela diz que é “de cujus”/Não agüento mais essa Felicidade/Doutor defensor/(só mesmo um Desembargador). um dia/nois nem pode se alembrá/Veio os home cas ferramentas/O dono mandô derrubá/Peguemos tudo as nossas coisa/E fumos pro meio da rua/Preciá a demolição/ Que tristeza que nóis sentia/Cada táuba que caía/Duia no coração/Mato Grosso quis gritá/Mas em cima eu falei:/Os homi tá cá razão/Nós arranja outro lugá/Só se conformemos quando o Joca falou:/”Deus dá o frio conforme o cobertô”. 289-290. “intervenção de terceiros”..”. é necessário que a educação em direitos se preocupe que essa camada social entenda minimamente os porquês da opressão. 2011 “vícios redibitórios”. Confira-se um trecho: “Felicidade passou no vestibular/E agora tá ruim de aturar/Mudou-se pra Faculdade de Direito/E só fala com a gente de um jeito/Cheio de preliminar (é de amargar)/Casal abriu. romper a cultura do silêncio e da impunidade. p. ela diz que é divórcio/Parceria é litisconsórcio/Sacanagem é libidinagem e atentado ao pudor/Só fala cheia de subterfúgios/Nego morreu. Educação em direitos humanos: questões pedagógicas. 4º. Nessa linha.136 Revista da Defensoria Pública . a educação em direitos. 60 61 . de Adoniran Barbosa: “Mais.61 3ª) Processos de transformação necessários para a construção de sociedades verdadeiramente democráticas e humanas: “educar para o nunca mais”. Segundo o art. o foco da EDH deve ser principalmente aos atores sociais que tiveram menos poder na sociedade. “lucros cessantes”. tal como toda e qualquer educação. e para tanto nos valeremos das lições da pedagoga Vera Candau. Op. “arguição de descumprimento de preceito fundamental”. 2ª) Favorecer o processo de empoderamento: aqui. da LC 80/94. 2 jul. Mas há outro ponto a destacar. O nome da música é Justiça Gratuita. E esse assunto não 59 O carioca Nei Lopes resume essa necessidade em um samba engraçado e que tem tudo a ver com o papel do defensor público no que toca à linguagem. Aliás.

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pode ser abordado deixando de lado o seu maior expoente, Paulo Freire. Nas lições do Mestre,
É importante ter sempre claro que faz parte do poder ideológico dominante a inculcação nos dominados da responsabilidade por sua situação (...). A alfabetização, por exemplo, numa área de miséria só ganha sentido na dimensão humana se, com ela, se realiza uma espécie de psico-análise histórico-político-social de que vá resultando a extrojeção da culpa indevida.62

O mais curioso é que o exemplo de Humanista que foi não impediu Paulo Freire de exortar um direito que talvez falte nas Constituições mundiais: o direito à raiva. O mais fantástico é que ele nos convence, nem poderia ser diferente. Após visitar um certo local do Nordeste, Paulo Freire ouviu de um morador o seguinte: “Os moradores de toda esta redondeza ‘pesquisam’ no lixo o que comer, o que vestir, o que os mantenha vivos”. E refletiu: “Foi desse horrendo aterro que há dois anos uma família retirou de lixo hospitalar pedaços de seio amputado com que preparou seu almoço domingueiro”, e por isso pregou:
Tenho direito de ter raiva, de manifestá-la, de tê-la como motivação para minha briga tal qual tenho o direito de amar, de expressar meu amor ao mundo, de tê-lo como motivação de minha briga (...). Não posso, por isso, cruzar os braços fatalistamente diante da miséria, esvaziando, desta maneira, minha responsabilidade no discurso cínico e ”morno”, que fala da impossibilidade de mudar porque a realidade é mesmo assim.63

Para finalizar este tópico, nada melhor do que citar dois pensamentos que bem resumem a necessidade da educação em direitos humanos: “No primeiro dia do novo ano letivo, todos os professores de uma escola particular receberam uma nota do diretor.” “Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos viram o que nenhum homem devera ver; Câmaras de gás construídas por engenheiros formados; Crianças envenenadas por médicos diplomados.

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Pedagogia da indignação – cartas pedagógicas e outros escritos, Unesp, São Paulo, 2000, p. 84-5. Idem, p. 78-9.

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Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas. Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados em colégios e universidades. Assim, tenho minhas dúvidas a respeito da Educação. Meu pedido é este: ajudem seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados. Aprender a ler, a escrever, aprender aritmética só são importantes quando servem para fazer nossos jovens mais humanos’”.64 Por fim, vale citar o belo pensamento de Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender; e, se podem aprender a odiar, podem aprender a amar”.65 Portanto, em um tempo em que inúmeros documentos nacionais e internacionais consagram a tutela dos direitos humanos e que ainda assim não obstam a sua violação, urge que as instituições jurídicas assumam o seu papel de agentes de transformação social. E esse papel compete, sobretudo, à Defensoria Pública, que pioneiramente foi agraciada com imposições legislativas que explicitam esse dever-poder e que possui contato diário com a população carente. Nesse aspecto a LC 80/94, com sua redação pós-LC 132/09, deve ser concebida como algo inovador posto que escancara algo que decorre de uma leitura progressista da Constituição. Cabe agora às Defensorias Públicas dar cumprimento a esse mandamento, assim como cabe aos defensores públicos inspirar sua Profissão como algo além dos gabinetes e dos processos judiciais, até porque isso até hoje não favoreceu qualquer mudança social considerável.

8. ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES A educação em direitos, sobretudo em um país tão desigual como o nosso, figura como condição de um efetivo e transformador acesso à

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Haim Ginott, O professor e a Criança, Bloch Editores, 1973, p. 215. É importante dizer que o livro é de autoria de um psicólogo e traz relatos de professores, ou seja, todas as situações de fato ocorreram. Essa frase foi extraída de um documentário denominado Diversidade religiosa e direitos humanos, realizado no ano de 2006 pelo Centro Popular de Formação da Juventude, com apoio da Secretaria Especial dos Direitos Humanos. Para mais informações, consulte www.entec.com.br.

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justiça, e por isso ele deve ser encarado pela Defensoria Pública como uma atribuição ordinária sua, e não como algo sujeito ao voluntarismo. Nessa perspectiva, a Lei Complementar Nacional n.º 132/09 merece elogios, posto que reconhece cabalmente esse instrumento de afirmação republicana da Defensoria Pública, além de ter o condão de explicitar tal tarefa como norma geral vinculante para todas as Defensorias. Além disso, a lei consagra uma distinção entre orientação jurídica e educação em direitos, distinção esta que também decorre de uma vontade constitucional de acesso à justiça. Assim, a fundamentação da educação em direitos é de ordem constitucional. Cabe agora às Defensorias assumir essa tarefa, e embora a educação em direitos seja alçada ao plano de dever jurídico do defensor público, esse mister só será eficazmente cumprido se o defensor compreender a importância da educação em direitos. Portanto, pensar em cumprir o dever de educar em direitos educando os defensores é dar um grande passo. Mais uma vez citando Eric Hobsbawm,
não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto e (...) por quê. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão.66

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Era dos extremos – o breve século XX, Op.Cit., p. 562

Saraiva.140 Revista da Defensoria Pública . Fernanda. Eurico. Ferraresi. Coord. 2008. 3ª edição. 2003. Luís Roberto. Claude. In: Educação e metodologia para os direitos humanos. Fredie e Hermes Zaneti Jr. 2011 – o princípio da dignidade da pessoa humana. Edusp. São Paulo. Castro. História constitucional do Brasil. Rio de Janeiro. Almedina.: Ellen Gracie Northfleet.). ‘Quando o direito encontra a rua: o curso de formação de Promotoras Legais Populares’. 2008. São Paulo. Geopolítica da fome. Globalização – as conseqüências humanas. Educação em direitos humanos: promessa do terceiro milênio?. Renovar. São Paulo. 2009. O papel da ideologia no preenchimento das lacunas no direito. Carlos. 2009. Bittar. Educação e metodologia para os direitos humanos. 1993.Ano 4 n. Tiago. São Paulo. Sérgio Antonio Fabris Editor. Luiz Sérgio. vol.). Ação popular. 2 jul. Eduardo (Org. Fernandes de Souza. ação civil pública e mandado de segurança . Mauro e Bryant Garth. RT. Baxi. Paz e Terra. 2008. Rio de Janeiro. Jorge Zahar editor. 1º vol. Bonavides. Curso de direito processual civil. Educação em direitos humanos para o século XXI. Porto Alegre. Canotilho. Didier Jr. Castro Fernandes. Fensterseifer. Zygmunt. Bahia. Direitos fundamentais e proteção do ambiente. 2008. In: Educação em direitos humanos para o século XXI. Paulo e Amador Paes de Almeida. Candau. Coimbra. São Paulo. Brasiliense. Richard P. 2008. Eduardo Bittar. O Avesso das Coisas [aforismos]. 5ª edição. Drummond de Andrade. Livraria do Advogado. José Joaquim Gomes. Portugal. São Paulo. 1959. 2009. Josué de. 1988. 3ª edição. Porto Alegre. Quartier Latin. 1999./dez. 4. Acesso à justiça. Rio de Janeiro. 2ª edição.. Record. e George Andreopoulos (Orgs. Barroso. São Paulo. Upendra. Trad. Direito constitucional e teoria da constituição. Quartier Latin. Bauman. 7ª edição. 5ª edição. JusPodivm. 2007. Vera. Luminária Academia. Cappelletti. 1991. Rio de Janeiro. Educação em direitos humanos: questões pedagógicas. Curso de direito constitucional contemporâneo.

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inciso LXXIV. e 134. em nome da Associação Nacional de Defensores Públicos – ANADEP.º 7. Das cópias do processo encaminhadas pela Consulente. ao atribuir legitimação à Defensoria Pública para a ação civil pública. caput. carência financeira. Alega a Associação requerente que a norma impugnada.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública Ada Pellegrini Grinover Professora Titular da Universidade de São Paulo A CONSULTA Honram-me os ilustres advogados. individualmente.347/85 -. 3943.347/85 -. da Constituição Federal. com pedido de parecer.488/2007. Afirma. impedindo-lhe de exercer plenamente as atividades que a Constituição lhe confere. Doutores Pierpaolo Cruz Bottini e Igor Tamasauskas. . alegando violação aos artigos 5º. verifica-se que a Associação Nacional dos Membros do Ministério Público-CONAMP ajuizou ação direta de inconstitucionalidade em relação ao inciso II do artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública – Lei n. Relatora Ministra Cármen Lúcia). afetaria a atribuição do Ministério Público. que conferiu legitimação ampla à Defensoria Pública para ajuizar a demanda.º 11. formulando consulta.º 7. ainda. a respeito da arguição de inconstitucionalidade do inciso II do artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública – Lei n. com a redação dada pela Lei n.º 11. em discussão na Ação Direta de Inconstitucionalidade promovida pela Associação Nacional dos Membros do Ministério PúblicoCONAMP (ADIN n.488/2007. que a Defensoria Pública tem como objetivo institucional atender aos necessitados que comprovem. com a redação dada pela Lei n. que conferiu legitimação ampla à Defensoria Pública para ajuizar a demanda.

º 11. Foram juntadas razões e documentos e. o Instituto Brasileiro de Advocacia Pública – IBAP – também requereu o ingresso no processo como amicus curiae. No mesmo diapasão.Ano 4 n. a manifestação do Advogado Geral da União. 2 jul. afirmando que a adequada exegese do art.488/07. que também se refere à ausência de pertinência temática em relação à requerente.º 11. em suas informações. de forma indireta e eventual. na redação da Lei n. O Presidente da República destacou. preliminarmente. finalmente. 134 da CF deve ser pautada pela assistência incondicional aos necessitados. na redação da Lei n.º 7.º 7. suscitou.347/85. alternativamente. impossibilitando a aferição de sua carência financeira. Manifestaram-se a seguir a Advocacia do Senado Federal. O Congresso Nacional. uma vez que. bem como a Advocacia Geral da União – AGU. ainda que. quer em relação à ausência de pertinência temática em relação à requerente. esposando a mesma tese a favor da legitimação irrestrita da Defensoria Pública à ação civil pública.347/85. ao prestar suas informações. A Associação Nacional de Defensores Públicos – ANADEP – ingressou no processo como amicus curiae. . pela constitucionalidade do dispositivo guerreado e pela legitimação irrestrita da Defensoria. inexistir no bojo da lei hostilizada ofensa às atribuições do Ministério Público. a CONAMP a declaração da inconstitucionalidade do inciso II do artigo 5º da Lei n. pela constitucionalidade do dispositivo guerreado e pela legitimação irrestrita da Defensoria. a Associação Nacional de Defensores Públicos da União – ANDPU. seus titulares são pessoas indeterminadas. cuja individualização e identificação é impossível.488/07 e defendendo a legitimação irrestrita da Defensoria Pública à ação civil pública. consequentemente. defendendo a legitimação irrestrita da Defensoria Pública. 2011 Requer. Também obteve sua participação no processo como amicus curiae. ou. manifestando-se pela constitucionalidade do inciso II do artigo 5º da Lei n. seja excluída da referida legitimação a tutela dos interesses ou direitos difusos. quer no que toca ao mérito./dez. sem redução do texto. por disposição legal. sendo que ambas opinaram. sua interpretação conforme a Constituição. no mérito. a ausência de pertinência temática em relação à requerente. para que. secundando as razões da Defensoria Pública.144 Revista da Defensoria Pública . essa atuação promova a defesa de direitos de indivíduos bem estabelecidos.

se entenda que necessitados são apenas os economicamente carentes. sua atuação se estenda à defesa de direitos de indivíduos bem estabelecidos? 6 – Qual o histórico da atuação da Defensoria Pública na defesa dos interesses ou direitos difusos? 7 – Infringe a Constituição o inciso II do artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública – Lei n. de forma indireta e eventual. a Consulente apresenta os seguintes quesitos.488/2007. que conferiu legitimação à Defensoria Pública? 8 – Deve-se dar ao dispositivo interpretação conforme a Constituição.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 145 Finalmente. que atribui à Defensoria Pública a assistência jurídica e a defesa.º 7. PARECER 1. QUESITOS 1 – A legitimação do Ministério Público à ação civil pública é exclusiva. ad argumentandum. com um amplo debate sobre sua tutela processual. passo a proferir meu parecer. a função precípua da Defensoria Pública impede que. com a redação dada pela Lei n. para que seja excluída da referida legitimação a tutela dos interesses ou direitos difusos? Bem examinados os documentos encaminhados e analisada a questão submetida à minha apreciação. que empenhou . RETROSPECTO HISTÓRICO Nos anos de 1970. em todos os graus.º 11. a doutrina jurídica italiana introduzia no mundo de civil law a preocupação com a conceituação e a defesa dos direitos difusos. nos termos da Constituição e da lei? 2 – A legitimação da Defensoria Pública para a ação civil pública afeta as atribuições do Ministério Público? 3 – A abertura da legitimação às ações coletivas significa um maior acesso à Justiça? 4 – Como deve ser interpretado o artigo 134 da CF. dos necessitados? 5 – Ainda que.347/85 -.

034/84. sobretudo por parte do membro do grupo. Vittorio Denti. coordenado por Ada Pellegrini Grinover. o n. O grupo. Em 1982. no Congresso Nacional. 1978) e Ada Pellegrini Grinover (“A tutela jurisdicional dos interesses difusos”. Andrea Proto Pisani. M. O projeto de lei tomou.146 Revista da Defensoria Pública . integrantes do Ministério Público também discutiam o assunto. realizou-se na Faculdade de Direito da USP o primeiro seminário sobre a tutela dos interesses difusos.º 3.Ano 4 n. No encerramento. ao longo do ano de 1983. fixados pelo artigo 6º do CPC. Os primeiros estudos publicados no Brasil sobre a matéria foram os de José Carlos Barbosa Moreira (A ação popular no direito brasileiro como instrumento de tutela jurisdicional dos chamados interesses difusos. Também se começou a entender que a indivisibilidade do objeto dos interesses difusos permitiria o acesso à justiça. acompanhado de uma justificativa assinada pelos próprios autores do anteprojeto. que os juristas ali reunidos formasse um grupo de estudos objetivando a apresentação de um anteprojeto de lei relativo à matéria. Esses estudos motivaram o debate que se instaurou no Brasil sobre a tutelabilidade judicial dos interesses supraindividuais. Waldemar Mariz de Oliveira Junior (“Tutela jurisdicional dos interesses coletivos”. de Camargo Ferraz. Vincenzo Vigoriti. formulada por A. No início de 1984. do PMDB paulista. o resultado foi uma proposta que resultava no fortalecimento do MP (à . centrado sobretudo no problema da titularidade da ação. preparou um anteprojeto que. formado por Ada Pellegrini Grinover. 1979). Paralelamente. 1977). foi discutido em vários congressos e seminários jurídicos. 2011 autores como Mauro Cappelletti. em nome da Associação Paulista de Magistrados. realizado em 1983 em São Lourenço. Nicolò Trocker. No XI Seminário Jurídico dos Grupos do Ministério Público de Estado de São Paulo. no sentido da elaboração de uma proposta de lei sobre a ação civil pública. Embora os autores tenham declaradamente tomado como ponto de partida o anteprojeto do grupo constituído pela APAMAGIS. depois de apresentado à APAMAGIS. o Projeto foi levado ao Congresso Nacional pelo Deputado Flávio Bierrenbach. Edis Milaré e Nelson Nery Junior. o desembargador Weiss de Andrade propôs. tendo sido apresentadas propostas concretas capazes de superar os esquemas rígidos da legitimação para agir. Cândido Dinamarco. 2 jul. Kazuo Watanabe e Waldemar Mariz de Oliveira Junior. foi aprovada a proposta./dez.

à época. sendo seguida pela Lei Orgânica do Ministério Público estadual n. criando o inquérito civil. Vale a pena lembrar que. assim. Dada a ligação do MP com o executivo.º 7347/85. dos controles sobre o exercício da ação. expressamente. Luiz Antonio Fleury Filho. admitindo a cotitularidade das associações. apesar de ter chegado ao Congresso depois. prevista no projeto original. sendo que o veto presidencial recaiu sobre a proteção de “qualquer outro interesse difuso”. antes da promulgação da Lei n.º 7347/85. 1 Assim. que instituiu a Política Nacional do Meio Ambiente. bem como prevendo a tipificação do crime consistente na recusa. o Procurador Geral da Justiça de São Paulo. tendo sido aprovado em meados de 1985. retirando a titularidade de outros entes públicos. prevendo o monopólio do MP para a ação de responsabilidade civil e criminal. transformando-se na Lei n.º 6938/81. mas ampliando o requisito da pré-constituição de seis meses (projeto original) para um ano. andou mais rapidamente do que o do Deputado Flávio Bierrenbach. viera a lume a Lei n. após alguns estudos. de 1982. encaminhou o projeto elaborado pelo MP ao Presidente da Confederação Nacional do Ministério Público.1 Em junho de 1984. Fleury encaminhou o projeto ao Ministro da Justiça do Governo Figueiredo. exames e perícias de qualquer organismo público ou particular. parte integrante do Poder Executivo). informações. Logo após.º 7347/85.º 40 definiu como uma das funções institucionais do MP “promover a ação civil pública. Segundo afirmação constante de Edis Milaré. Paulo Salvador Frontini. a lei aprovada manteve 90% do anteprojeto elaborado pelo grupo de trabalho da APAMAGIS. O minissistema brasileiro de processos coletivos. exclusivo do MP. p. da coisa julgada. Rogério Bastos Arantes (Ministério Público e Política no Brasil. depois reintroduzida pelo Ministério da Justiça. sancionada em julho pelo Presidente Sarney. não havia regras sobre o regime processual da “ação civil pública” – privativa do MP – nem tratamento da legitimação concorrente.º 304. com mensagem do Executivo. com poderes de requisição de certidões. a Lei Complementar n. em detrimento da sociedade civil. complementada pelo Código de Defesa do Consumidor.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 147 época. Mas. 51-76.) analisa as posições do MP paulista. pela influência de Nelson Nery Junior.º 7347/85. depois. enviou o projeto ao Congresso Nacional. Ibrahim Abi-Ackel que. inicialmente pleiteando a titularidade exclusiva da ACP. O projeto do Executivo. contida no projeto do MP. para encaminhamento ao Congresso Nacional. nos termos da lei”. antes da Lei n. que ampliou significativamente o leque de direitos difusos passíveis de defesa pela instituição. 2002. foi moldado pela Lei n. . retardamento ou omissão de dados técnicos requisitados pelo MP. Editora Sumaré-IDESP-EDUC.

com o objetivo de apresentar Anteprojeto de Código de Defesa do Consumidor. e a comissão contou com a assessoria de Antonio Herman de Vasconcellos e Benjamin.º 1330/88). que havia contado com a colaboração de Fábio Konder Comparato. já a partir da publicação da primeira proposta. com fundamento no art. pelo Deputado Michel Temer (Projeto de Lei n. Waldemar Mariz de Oliveira Junior e Cândido Dinamarco. o relator da comissão . o Deputado Geraldo Alkmin apresentou um substitutivo a um seu primeiro Projeto. diversos projetos legislativos haviam sido apresentados por vários parlamentares – aliás. resultou a reformulação do anteprojeto. Mariângela Sarrubo. O projeto final foi finalmente apresentado. Também contribuíram com valiosos diversos promotores de Justiça de São Paulo. justificando o acolhimento ou a rejeição das propostas recebidas. com essa denominação. longo e ponderado. Desse trabalho conjunto. Daniel Roberto Fink. Ainda em 1988. Foi então que o Congresso Nacional. José Geraldo Brito Filomeno. a pedido da comissão. espelhando as diversas fases de amadurecimento pelas quais passou o trabalho. por intermédio de Ada Pellegrini Grinover. Nesse ínterim. Marcelo Gomes Sodré. constituiu Comissão Mista destinada a elaborar Projeto do Código do Consumidor. constituiu comissão. Nelson Nery Júnior e Régis Rodrigues Bonvicino. 2011 Antes mesmo da promulgação da Constituição de 1988. Eliana Cáceres.Ano 4 n. que trazia algumas novidades com relação ao trabalho da comissão. no âmbito do referido Conselho. Distinguindo com sua confiança os membros da Comissão do CNDC. Durante os trabalhos de elaboração do anteprojeto. 48 do Ato das Disposições Transitórias. A Comissão foi composta pelos seguintes juristas: Ada Pellegrini Grinover (coordenadora). A comissão ainda levou em consideração trabalhos anteriores do CNDC. Presidiu a Comissão Mista o Senador José Agripino Maia. recebendo críticas e sugestões./dez. Kazuo Watanabe e Zelmo Denari. sendo seu VicePresidente o Senador Carlos Patrocínio e Relator o Deputado Joaci Góes. previsto. Flávio Bierrenbach. a coordenação foi dividida com José Geraldo Brito Filomeno. Antonio Herman de Vasconcelos e Benjamin e Nelson Nery Júnior. em 1989. Finalmente a comissão apresentou ao ministro Paulo Brossard o primeiro anteprojeto. 2 jul. o então Presidente do Conselho Nacional de Defesa do Consumidor. pelos trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. que veio a ser publicado no Diário Oficial (DO) de 4 de janeiro de 1989. acompanhado do parecer da comissão.148 Revista da Defensoria Pública . que foi amplamente divulgado e debatido em diversas capitais.

comércio. de 11 de setembro de 1990. o Projeto da Comissão Mista. e criando uma nova categoria de direitos ou interesses. Finalmente. 2. que oferecia algumas novidades interessantes. que tomou essencialmente por base o Projeto Michel Temer – que espelhava a fase mais adiantada dos trabalhos da comissão – e o Substitutivo Alkmin. até ser aprovado pela própria comissão e. A POSTURA DO MP: DO MONOPÓLIO DA ACÃO CIVIL PÚBLICA À SUPRESSÃO DA LEGITIMAÇÃO DE OUTROS ÓRGÃOS PÚBLICOS Conforme visto na nota n. mas conduzíveis coletivamente perante a justiça civil. 2002. com o apoio de documentos. a seguir.º 1 supra.078. e publicado a 12 de setembro de 1990. ao determinar sua aplicação a todos os interesses difusos e coletivos. . os pontos de convergência. Verificados. colhendo o depoimento e as sugestões de representantes dos mais variados segmentos da sociedade: indústria. que denominou direitos individuais homogêneos. p. Ministério Público e Política no Brasil. Rogério Bastos. O Projeto acabou sendo sancionado. com vetos parciais. no recesso de julho de 1990. serviços.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 149 incumbiu-os de preparar uma consolidação dos trabalhos legislativos existentes. a postura do MP 2 ARANTES. Foi assim que o Código de Defesa do Consumidor veio coroar o trabalho legislativo. governo. a partir do quadro comparativo organizado pela PRODASEN. pelo Plenário durante a convocação extraordinária do Congresso. a Comissão Mista realizou ampla audiência pública. consumidores. cidadãos. ampliando o âmbito de incidência da Lei da Ação Civil Pública. Para debate dos pontos polêmicos do Código e apresentação de sugestões. recebeu novas emendas. Rogério Bastos Arantes2 descreve minuciosamente. individuais por natureza e tradicionalmente tratados apenas a título pessoal. 51-76. assim. em função de sua homogeneidade e da origem comum.º 8. Editora Sumaré-IDESP-EDUC. como Lei n. pudemos preparar um novo texto consolidado. publicado a 4 de dezembro de 1989.

.... p. caso o projeto viesse a ser convertido em lei.. “viria coroar as recentes conquistas alcançadas pelo Parquet com a edição da Lei Complementar 40..... teve a oportunidade de... quase todas no sentido de atribuir-se legitimação extraordinária às associações... em documento encaminhado ao DAL (Departamento de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça)....... de 14 de dezembro de 1981. cit..... considerações estas que...347/85”. FIORILLO...3 (grifei) E o autor relata4: Nos documentos de apresentação e justificativa dos respectivos projetos é possível perceber as diferentes intenções quanto à regulamentação da defesa dos direitos coletivos.. mostra claramente que o Ministério Público estava disposto a se transformar no defensor desses novos direitos.. .. que descreveremos a seguir..... na qual os 3 4 5 ARANTES.347/75. 2011 paulista quando da preparação do projeto de lei ministerial que resultaria na promulgação da Lei n. Enquanto os juristas salientavam que “a crescente conscientização quanto à necessária tutela jurisdicional dos interesses difusos tem estimulado diversas iniciativas.... op. (... foram incorporadas à Lei 7. Ouça-se o autor: O processo que levou à promulgação da Lei da ação civil pública em 1985...... citando documentos do arquivo pessoal de Nelson Nery Jr... ARANTES. para a defesa dos interesses coletivos”............. nem que para isso tivesse que afastar a própria sociedade civil. cit. (integrante do Ministério Público paulista e um dos autores do anteprojeto)........ 59-63.... menciona a ocorrência de uma reunião em Brasília.º 7... 2 jul. op. conforme se verá. que mais reafirma o seu papel de legítimo tutor dos interesses indisponíveis da sociedade”. a carta de Fleury ao ministro da Justiça afirmava que.. fazer algumas observações visando ao aprimoramento do anteprojeto revisto e adaptado pelo Ministério da Justiça.197.. 54... E mais: Segundo Fiorillo5.... cit. “em 5 de setembro de 1984 o prof. descrita por Fiorillo..... op..... p.150 Revista da Defensoria Pública ..Ano 4 n... p../dez.) Uma outra passagem importante do documento. Nelson Nery Jr.

introduzido para incentivar a participação das associações civis na defesa judicial de direitos difusos e coletivos. Ao contrário. fundações e sociedades de economia mista. é simplesmente o de evitar a concorrência da Defensoria 6 ARANTES. evitou o que seria uma afronta aos defensores da proposta associativista. (grifei) Fica claro. pode-se imaginar que a criação desses organismos públicos altamente especializados introduziria uma indesejável concorrência para o Ministério Público. municípios. ameaçando sua posição de poder duramente conquistada ao longo dos anos. É provável que aqui tenha pesado. da parte do Ministério Público. na linha do que preconizava Mauro Cappelletti em seu famoso artigo. op. Como o projeto da comissão de juristas vinculava a participação desses órgãos à existência de finalidade institucional específica. o Parquet se constituiria no único órgão público capaz de ajuizar ações coletivas se a legitimidade de agir fosse estendida apenas às associações civis. p. (–grifei) E finalmente. No final. ao propor a presente ADIN.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 151 participantes teriam retirado do projeto um dos pontos mais caros aos juristas. empresas públicas. pode-se afirmar que a intenção era abrir terreno para organismos estatais especializados na defesa de certos direitos difusos. que o verdadeiro intuito da requerente. o Ministério da Justiça fez retomar ao projeto os legitimados que o Ministério Público havia suprimido. 71. Nery Jr. com relação à retirada de legitimação de outros órgãos públicos. autarquias. assim. contrariando sua intenção de ser o único órgão estatal a ter legitimidade para usar a ação civil pública.. complementa Rogério Bastos Arantes6: O Ministério Público foi audacioso também ao propor a retirada da legitimação para agir da União. o receio da concorrência com outras entidades públicas. tal como constava do seu anteprojeto de lei. maior do que a que ocorreu depois da votação da lei no Congresso (veremos esse ponto adiante). cit. Evidentemente. num contexto em que soluções como a do Ombudsman sueco ganhavam cada vez mais simpatia. Corrigindo-se a tempo. estados. . mas o Ministério da Justiça tratou de reincorporá-los ao projeto que foi encaminhado ao Congresso Nacional.

8.. que continua a detê-las. impedindo ao parquet exercer plenamente suas atividades. 2011 Pública. E tanto assim é que diversos órgãos públicos que se manifestaram sobre essa demanda chegam à conclusão de falta de pertinência temática em relação à requerente. Assim sendo. as funções institucionais do MP – dentre as quais a de “promover (.347/85 – legitimou à ação civil pública a União. (grifei) E a lei – exatamente a Lei n. 54. inc. A inclusão desta no rol dos diversos legitimados em nada interfere com o pleno exercício das atribuições do MP.º 11. como se no manejo de tão importante instrumento de acesso à justiça e de exercício da cidadania pudesse haver reserva de mercado. concorrente e autônoma. poderia afetar aquela do MP. III) – o legislador constitucional teve o cuidado de destacar expressamente. a teor da Lei n. A essa lista ainda adiciona-se a legitimidade da Ordem dos Advogados do Brasil. fundações. empresas públicas. segundo o disposto nesta Constituição e na lei.906/94 (art. para a proteção do patrimônio público e social. 2 jul. simplesmente. no art.) a ação civil pública. 129.. que a Defensoria Pública venha somar esforços na conquista dos interesses ou direitos difusos. no sentido de que cada órgão ou entidade legitimados podem mover a demanda coletiva.488/2007. a Defensoria Pública. 5º. 1º do mesmo artigo: Par. A nova norma legal permite./dez.Ano 4 n.º 7. A LEGITIMAÇÃO CONCORRENTE DO MP À AÇÃO CIVIL PÚBLICA A Constituição Federal não prevê exclusividade do Ministério Público para a propositura da ação civil pública. Após enumerar. Por outro lado. autarquias. do meio ambiente e de outros interesses difusos e coletivos” (inc. conforme alega a requerente em relação à Defensoria Pública. mas concorrente e autônoma. o Distrito Federal e o Município. 1º: A legitimação do Ministério Público para as ações civis previstas neste artigo não impede a de terceiros. e agora. sociedades de economia mista e associações (art. não se percebe como essa legitimação. independentemente da ordem de indicação. XIV). 3. no par. pela Lei n.152 Revista da Defensoria Pública . . o Estado. caput). a legitimação do MP não é exclusiva.

de Ellen Gracie Northfleet. 14. 1988. aqui. referência obrigatória na matéria. advertindo sobre a dispersão e a tendência à sub-representação dos interesses difusos e coletivos: As opções relativas à legitimidade para defesa dos interesses difusos e coletivos devem ter por norte a maior ampliação possível do acesso à 7 . Trad. que inseriu a defesa dos direitos difusos na segunda onda renovatória do acesso à justiça7. Parece não haver discrepância em torno dessa exigência. articulada. porém. coletivos e individuais homogêneos seja ampliada ao maior número possível de legitimados.º 123. p. 1º). 31 . Por outro lado. GARTH. do que já vinha estampado na Exposição de Motivos anexada à Mensagem n. encaminhando o Projeto de Lei que resultaria na Lei n. que disciplinou a política nacional do meio ambiente (art. de 31 de agosto de 1981. Porto Alegre: Fabris. e concedendo exclusividade ao Ministério Público como titular da ação. Estendendo-se a legitimação a outras entidades. A lei. Mauro. como Carlos Alberto de Salles.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 153 coletivos e individuais homogêneos da sociedade. Lembre-se. Não se pode olvidar.347/85: A ação civil pública para defesa de interesses coletivos encontra-se regulada apenas na Lei n. podendo inclusive agir em litisconsórcio com o Ministério Público. de 25/02/85. composta para as ações em defesa de interesses ou direitos difusos. aqueles interesses serão defendidos com a eficácia exigida pela sua importância.938. 6. coletivos e individuais homogêneos. a ampliação da legitimação à ação civil pública representa poderoso instrumento de acesso à justiça.º 7. a propósito. a lição clássica de Mauro Cappelletti. a fim de que os chamados direitos fundamentais de terceira geração – os direitos de solidariedade – recebam efetiva e adequada tutela. (grifei) Acesso à justiça: este é o fundamento para uma legitimação ampla. par.CAPPELLETTI. Acesso à Justiça. Bryan. sendo louvável que a iniciativa das demandas que objetivam tutelar interesses ou direitos difusos. deixando de lado os demais interesses difusos. E é oportuno lembrar as palavras de processualistas contemporâneos. só regulamenta a proteção jurisdicional do meio ambiente.

8 . 2006. O legislador constitucional não usou o termo exclusivamente. utilizado pela Constituição.º 80/94). I). como. em todos os graus.154 Revista da Defensoria Pública . na forma da lei” (art. logo se pensa na assistência aos necessitados. clássico e tradicional. 129.8 (grifei) 4. Revista de Processo. 134 da CF indica. em sede doutrinária. dessa forma. como fez. a respeito da assistência judiciária (na terminologia da Constituição de 1988. dos necessitados. Deve-se ter em mente que. a ação penal pública. é a incumbência necessária e precípua da Defensoria Pública./dez. e não sua tarefa exclusiva. defesa) aos necessitados: Pois é nesse amplo quadro. 2 jul. inc. Mas. Cabe. n. mesmo que se pretenda ver nas atribuições da Defensoria Pública tarefas exclusivas – o que se diz apenas para argumentar -. VI. ECONOMICAMENTE NECESSITADOS E NECESSITADOS DO PONTO DE VISTA ORGANIZACIONAL O art. 121. 134 da CF não coloca limites às atribuições da Defensoria Pública. delineado pela necessidade de o Estado propiciar condições. consistente na orientação jurídica e na defesa. 4º. de amplo acesso à justiça que eu vejo situada a garantia da assistência judiciária. aos economicamente fracos. que transcende o seu sentido primeiro. privativamente. ainda. Desse modo. mar. o problema será sempre de sub-representação.SALLES. aliás. a todos. Políticas Públicas e legitimidade para defesa de interesses difusos e coletivos. inc. não o de um número exacerbado de litígios jurisdicionalizados. criar mecanismos de incentivo para sua defesa judicial. por exemplo. E ela também toma uma dimensão mais ampla. tendo em vista a anatomia social dos interesses em questão. portanto. 50 . 2011 justiça. O que o art. AS FUNÇÕES INSTITUCIONAIS DA DEFENSORIA PÚBLICA. aos “minus habentes”. da Lei Complementar n. quando atribuiu ao Ministério Público a função institucional de “promover. Já tive oportunidade de escrever. Carlos Alberto. ainda será preciso interpretar o termo necessitados. as atribuições da Defensoria podem ser ampliadas por lei. já ocorreu com o exercício da curadoria especial.Ano 4 n. p. ampliar ao máximo a porta de acesso desses interesses à justiça e. mesmo em relação a pessoas não economicamente necessitadas (art. Quando se pensa em assistência judiciária.

Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 155 É este. 2ª ed. abrangendo recursos organizacionais. assistência aos necessitados. 246. p. LXXIV do art. in O Processo em Evolução. GRINOVER. mas também existem os necessitados do ponto de vista organizacional. ou seja. Ou seja. 10 11 . quer se trate de economicamente necessitados. ao saneamento básico. Assistência Judiciária e Acesso à Justiça. Dizia eu: Não cabe ao Estado indagar se há ricos ou pobres. culturais. à moradia. assim. 1996. mas não o único. que a assistência judiciária deve compreender a defesa penal. 1990. Ada Pellegrini. Surge. 5º da CF: “O Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos” (grifei). O acusado está sempre em uma posição de vulnerabilidade frente à acusação. in Novas Tendências do Direito Processual.9 (grifei) Isso porque existem os que são necessitados no plano econômico. mas no sentido de que o Estado lhes deve assegurar as garantias do contraditório e da ampla defesa. p. Acesso à justiça e o Código de Defesa do Consumidor. não no sentido econômico. Rio de Janeiro: Forense Universitária. em que o Estado é tido a assegurar a todos o contraditório e a ampla defesa. ao meio ambiente. ainda afirmei surgir. uma nova categoria de hipossuficientes. Ada Pellegrini.. 116-117. o primeiro aspecto da assistência judiciária: o mais premente. GRINOVER. como as atinentes à saúde. quer não. cit. A exegese do termo constitucional não deve limitar-se aos recursos econômicos. não dispondo de advogados. os usuários de serviços públicos.11 Da mesma maneira deve ser interpretado o inc. em razão da própria estruturação da sociedade de massa. porque o que existe são acusados que. ainda que ricos sejam. no mesmo estudo. op. etc. todos aqueles que são socialmente vulneráveis: os consumidores. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 245.. ligada à questão da vulnerabilidade das pessoas em face das relações sociojurídicas existentes na sociedade contemporânea. sociais.10 (grifei) Em estudo posterior. não poderão ser condenados sem uma defesa efetiva. 9 GRINOVER. talvez. os que queiram implementar ou contestar políticas públicas. mais uma faceta da assistência judiciária. p. a que se referiu Mauro Cappelletti. a dos carentes organizacionais. sem dúvida. os usuários de planos de saúde. E tanto assim é que se afirmava.

Ano 4 n. coletivos e individuais homogêneos.00. daí surge “a necessidade de a Defensoria Pública. 37. III. Seria até mesmo um contrassenso a existência de um órgão que só pudesse defender necessitados individualmente./dez. confere legitimação para agir às entidades e órgãos da administração pública. deixando à margem a defesa de lesões coletivas. conforme já decidiu o TRF da 2ª Região. categorias ou classes de pessoas na tutela de seus interesses ou direitos difusos. Com efeito. São Paulo. n.º 7.005202-7/AM. o inciso III do art. que 12 13 Apelação cível n. 21 da Lei da Ação Civil Pública. 1985. A ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA NA TUTELA DOS INTERESSES OU DIREITOS DIFUSOS Mesmo antes da edição da Lei n. 2004. jan-mar. ainda que sem personalidade jurídica. com fundamento no art. nada há nos artigos 5º. 5. mesmo que se queira enquadrar as funções da Defensoria Pública no campo da defesa dos necessitados e dos que comprovarem insuficiência de recursos.488/07. nas ações coletivas. cada vez mais. desprender-se de um modelo marcadamente individualista de atuação”. Boaventura de Souza. 82. SANTOS. 2 jul. Conforme bem observou Boaventura de Souza Santos. abrangendo portanto os componentes de grupos. 150. os conceitos indeterminados da Constituição autorizam o entendimento – aderente à ideia generosa do amplo acesso à justiça – de que compete à instituição a defesa dos necessitados do ponto de vista organizacional. inserido em seu Título III. ainda. p.347/85). a Defensoria Pública vinha ajuizando demandas coletivas.º 11. Revista de Processo. 2011 Saliente-se. E. que atribuiu expressamente legitimação à Defensoria Pública para a ação civil pública (inciso II do artigo 5º da Lei n.32. c/c o art. esse requisito resultará naturalmente do objeto da demanda – o pedido formulado. que a necessidade de comprovação da insuficiência de recursos se aplica exclusivamente às demandas individuais. LXXIV e 134 da CF que indique que a defesa dos necessitados só possa ser individual12. Introdução à sociologia da administração da justiça. .156 Revista da Defensoria Pública . do Código de Defesa do Consumidor. 82 do CDC. socialmente muito mais graves. Bastará que haja indícios de que parte ou boa parte dos assistidos sejam necessitados. direta ou indireta. porquanto.13 Assim.

o próprio Ministério Público já defendeu a legitimação da Defensoria Pública às ações coletivas: assim o fez o Ministério Público Federal. Agravo de Instrumento. Crédito Educativo.038978-5. Legitimidade ativa da Defensoria Pública para propô-la. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LEGITIMIDADE ATIVA DA DEFENSORIA PÚBLICA. julgado pelo TRF da 1ª Região. julgado em 20/04/2006. sendo sua legitimação reconhecida pelos tribunais.01. Acórdão n. a Defensoria Pública ajuizou diversas demandas coletivas. INTERESSE COLETIVO DOS CONSUMIDORES. Cível.14 AÇÃO CIVIL PÚBLICA – DEFENSORIA PÚBLICA – LEGITIMIDADE ATIVA – CRÉDITO EDUCATIVO. 70014401784/2006. sendo a Defensoria Pública o órgão estatal destinado à promoção do direito fundamental à inafastabilidade da jurisdição (CF. 15 . os dispositivos do Título III da Lei n. Rel. sendo..TJRJ – AI 3274/96 – Vassouras – 2ª Câm. coletivos e individuais homogêneos dos consumidores necessitados. (grifei) Assim. 21 da LACP prescreve: Art. coletivos e individuais. da Lei 8. julgado aos 6/07/2006. 25. E. no RESP 555. Apel. in verbis: Ora. Min. 4a Câm..97. art. para propor ação coletiva visando à defesa dos interesses difusos.111. 8. 21: Aplicam-se à defesa dos direitos e interesses difusos. pois. de Defesa do Consumidor).15 Aliás.078/90 (Cód. 1 – A Defensoria tem legitimidade.078. 82.º 2006. que instituiu o Código de Defesa do Consumidor. j. . em prol dos estudantes carentes. o art. j. beneficiados pelo Programa do Crédito Educativo. Como órgão essencial à função jurisdicional do Estado.00. XXXV) em 14 TJRS.06. nos termos do parecer favorável do MP. relator Araken de Assis. de 11 de setembro de 1990. Castro Filho. integrante da Administração Pública.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 157 incluam entre seus fins a defesa de interesses e direitos protegidos por este Código. relator Luiz Odilon Bandeira. no que for cabível. tem a Assistência Judiciária legitimidade autônoma e concorrente para propor ação civil pública. a teor do art. Ação Civil Pública. no Agravo de Instrumento n. III.02. E. 5º.12. Citem-se as seguintes decisões: PROCESSO CIVIL.04. por sua vez.

rel. Castro Filho. na ADIN n. Castro Filho. se a Constituição impõe. Finalmente. art. 5º. LXXIV) e. j. sob pena de não se dar máxima efetividade aos referidos preceitos constitucionais. havia afirmado: De fato. que então exercia as funções de Defensoria Pública. órgão especializado. 3ª Turma. REsp. em voto proferido no Recurso Especial n. 134). por um lado. 555.Ano 4 n. proposta contra a Constituição do Estado do Rio de Janeiro. por outro. destacou. (O itálico é do texto. Sepúlveda Pertence: 16 17 STJ. LXXIV. vinculado à Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. podendo. 5º. (grifei) O Superior Tribunal de Justiça manifestou-se no mesmo sentido: O NUDECON. certamente a ela é permitido valer-se de quaisquer medidas judiciais adequadas à defesa dos direitos metaindividuais das pessoas carentes. o âmbito de atuação desta não pode ficar restrito. os grifos são nossos). o Supremo Tribunal Federal.º 555./dez. c/c art. 134 da CF c/c o art. pela vedação ao manejo de tão importante instrumento de tutela do direito do consumidor e de fortalecimento da democracia e da cidadania como a ação civil pública. que a execução de tal tarefa cabe à Defensoria Pública (cfr. 5º.158 Revista da Defensoria Pública .111. pelo voto do Min. da Lei Complementar n. REsp. dispor da ação civil pública como legítimo instrumento de atuação. tem legitimidade ativa para propor ação civil pública objetivando a defesa dos interesses da coletividade de consumidores que assumiram contratos de arrendamento mercantil.580/SP. 2011 relação aos necessitados (CF. STJ. .16 Outro precedente do STJ diz respeito à legitimação da Procuradoria de Assistência Judiciária do Estado de São Paulo.111/RJ. Art. 3ª Turma.º 558/RJ. 80/94). rel. E a Ministra Nancy Andrighi.06/09/06. criada só em 200617. com cláusula de indexação monetária atrelada à variação cambial. ao Estado o dever de promover a defesa dos consumidores (art. 2 jul. inciso XI. LXXIV) e de prestar assistência jurídica integral (e aqui repiso o integral) aos que comprovarem insuficiência de recursos (art. assim. 4º. j.09/12/03. 181.

Daí decorre a atribuição mínima compulsória da Defensoria Pública. da 7ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo. sendo posteriormente suspensa sua execução pela Presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. que a atuação da Defensoria Pública tem sido intensa no campo da defesa dos interesses difusos.61. que analisa a ausência de previsão de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos do Agência Nacional de Saúde Suplementar.001723-8.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 159 (. Não. incumbindo-a da orientação jurídica e da defesa. Processo n..61. foi parcialmente concedida a liminar. conforme se viu. o pedido alternativo da requerente refere-se à exclusão da tutela dos interesses ou direitos difusos da legitimação da Defensoria Pública. dos necessitados.” (grifei). .. Na ação civil pública ajuizada pela DPU. em todos os graus. coletivos e individuais homogêneos.61. Observe-se.° 2007.) a própria Constituição da República giza o raio de atuação institucional da Defensoria Pública. contudo. inclusive de que inúmeros candidatos conseguiram inscrever-se graças à liminar obtida. que analisa a ausência de previsão 18 Isso porque.) coletivos dos necessitados. Daí. da 23ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo. ainda. porém. que sejam necessitados os membros da coletividade... que analisa a ausência de previsão de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos do Ministério Público da União. foi concedida a liminar.00.° 2007. da 7ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo.027802-9. havendo notícias. Selecionamos algumas ações civis públicas para a tutela de interesses difusos promovidas pela Defensoria Pública:18 Processo n° 2006. não se segue a vedação de que o âmbito da assistência judiciária da Defensoria Pública se estenda aos patrocínio dos ‘direitos e interesses (. Na ação civil pública ajuizada pela DPU. o impedimento a que os seus serviços se estendam ao patrocínio de outras iniciativas processuais em que se vislumbre interesse social que justifique esse subsídio estatal.00. por si só.000433-5. Processo n.00. a que alude o art. 176 da Constituição do Estado: é óbvio que o serem direitos e interesses coletivos não afasta.

mandado de segurança coletivo em que se pleiteia a isenção da taxa de expedição do Registro Nacional de Estrangeiro para os hipossuficientes. Processo n. que analisa a ausência de previsão de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos da Câmara dos Deputados. Processo n. foi concedida a liminar.51. da 1ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo.03010-3.º 2007. 2011 de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos do Agência Nacional de Vigilância Sanitária.01. Processo n.61.° 2007. Na ação civil pública ajuizada pela DPU.º 2007. que analisa a ausência de previsão de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos da Câmara dos Deputados.010539-5.011093-7.017691-7. O juízo entendeu que o pedido liminar perdeu o objeto.00. . visando a impedir que os bancos se desfaçam dos documentos comprobatórios dos valores depositados pelos consumidores entre junho/ julho 1987. da 15ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo.° 2007.00.00.Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo. O pedido liminar foi deferido. que analisa a ausência de previsão de isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para provimento de cargos da Agência Nacional de Aviação Civil. visando à isenção de taxa de inscrição para hipossuficientes no concurso público para Procurador da Fazenda Nacional. sendo posteriormente suspensa sua execução pela Presidente do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Processo n. Processo n. Pedido liminar indeferido. sobre os expurgos inflacionários do Plano Bresser. O pedido liminar foi deferido. em que se pleiteia leite materno para as pessoas hipossuficientes.001722-6. Processo n. Pedido liminar indeferido.61.° 2007.020475-5.002795-5.160 Revista da Defensoria Pública .61.01. com efeitos em todo o território nacional.00. 2 jul. da 13ª Vara Federal Cível Subseção Judiciária de São Paulo./dez. Liminar parcialmente deferida.° 2007.61.61. da 10ª Vara. da 9ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro. da 25ª Vara Federal Cível da Subseção Judiciária de São Paulo.° 2007. da 11ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro.00.Ano 4 n. Processo n.51.

em conjunto.01.19 DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO CEARÁ Licenciamento ambiental: Pedido principal: declaração de nulidade do licenciamento ambiental para construção da termelétrica a carvão mineral MPX no complexo do Pecém. Juízo: comarca de Icapui-CE. Requerida: Prefeitura do Município de Tianguá. Requeridos: Município de Tabuleiro do Norte e estado do Ceará. industrial. Fornecimento de medicamentos: Pedido: fornecimento de medicamento para tratamento de insuficiência pulmonar a todos os pacientes que necessitem desta medicação. conjuntamente. Requerido: Município de Iguatu. Observação: ação proposta. da 8ª Vara Federal da Subseção Judiciária do Rio de Janeiro. da 6ª Vara Federal da Seção Judiciária do Distrito Federal. Juízo: comarca de Tabuleiro do Norte-CE. com fornecimento de alimentos e aquisição de infra-estrutura adequada para o acolhimento de crianças e adolescentes que necessitem do serviço (com pedido liminar). Acesso aos deficientes físicos no sistema de transporte público: Pedido: obrigação das empresas de transporte de garantir acesso livre e irrestrito.º 2007. especialmente o remédio Excelon 1. Pedido liminar: obrigação de que a empresa requerida se abstenha de dar início às obras até o desfecho da causa (liminar concedida). hospitalar ou similar. intentadas pela Defensoria Pública. sobre a correção das provas de redação de todos os candidatos às vagas reservadas a deficientes fisicos no 4° concurso para provimento de cargos para o Tribunal Regional Federal e Justiça Federal da 1ª Região.003387-9. Pedido: previsão de verba orçamentária para criação e manutenção de um abrigo para crianças e adolescentes em situação de risco no município. Requerido: prefeitura municipal de Fortaleza e empresas Concessionárias e/ou permissionárias de serviço de transporte urbano coletivo de Fortaleza. Observação: ação proposta.º 2007. que não conta com estabelecimento desta natureza. Juízo: comarca de São Gonçalo do Amarante-CE. em conjunto. de Água e Esgoto do Ceará. Observação: ação proposta. visando ao conserto de aparelhos em hospitais públicos.00.34. Juízo: comarca de Fortaleza. Muitas outras demandas existem. Juízo: comarca de Tianguá-CE. Regularização do fornecimento de água: Pedido: obrigação de realizar a captação da água fornecida à população em mananciais adequados. realizar a adução da água por adutoras tecnicamente adequadas. Concessão de tutela antecipada Juízo: comarca de Crato-CE. Juízo: comarca de Fortaleza-Ceará. sem cobrança de tarifa. consistente na abstenção de cobrança de tarifa irregular pela coleta e tratamento de esgoto domiciliar. Requerido: serviço autônomo de água e esgoto – autarquia municipal – e Município de Icapui. Juízo: comarca de Iguatu-CE. Processo n. Alimentação de menores: Pedido: obrigação ao município de prestação do serviço de abrigo domiciliar. em defesa de interesses difusos. tornando-a inadequado ao uso humano. devidamente isolados de toda atividade que possa contaminar a água.0171051. Idem: Pedido: obrigação de fornecer medicamentos relativos ao mal de Alzheimer a todos os cidadãos residentes em Tabuleiro do Norte-CE.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 161 Processo n. Requerida: Cia. pela Defensoria 19 . pela Defensoria Pública e pelo Ministério Público do Estado do Ceará.5 mg (com pedido de antecipação de tutela). pela Defensoria Pública e pelo Ministério Público do Estado do Ceará.51. Ilegalidade de cobrança de tarifa de coleta de esgoto: Pedido: obrigação de não fazer. construir uma estação de tratamento de água e construir reservatórios de água. aos deficientes físicos (com pedido liminar).

em substituição aos previstos na Resolução ANEEL 456/00. declarar a nulidade dos termos de confissão de dívida assinados pelos consumidores nessas condições e contemplá-los com a devolução em dobro dos valores eventualmente pagos (art. Liminar concedida e confirmada pelo Tribunal de Justiça. Meio ambiente: Termo de ajustamento de conduta entre a Defensoria Pública e o Ministério Público e a empresa Cialne (Companhia de Alimentos do Nordeste) através do qual a empresa assumiu a obrigação de desenvolver projeto técnico para tratamento de resíduos denominados “cama de frango” visando à eliminação de odores e a não contaminação do solo e água.162 Revista da Defensoria Pública . recomposição da floresta nativa atingida pela expansão da monocultura de eucalipto. Coleta seletiva de lixo: obrigação à Prefeitura de prestar assistência jurídica. com relatórios de impacto ambiental (EIA/RIMA) e audiências públicas. administrativa e operacional para a constituição de associações de catadores de material reciclável não organizadas regularmente em cooperativas. Interdição de cadeia pública: Pedido: interdição da cadeia pública de Tianguá-CE até a realização de reforma que permita a sua utilização de forma compatível com a finalidade a que se destina. obrigação de cortarem todas as árvores exóticas plantadas em áreas de preservação permanente – APPs ou em áreas de preservação ambiental – APAs. Financiamento público: Pedido: Inscrição dos ocupantes do imóvel em linhas de financiamento . Juízo: 29ª Vara Cível de Fortaleza. Juízo: Vara da Fazenda Pública da comarca de São Paulo-SP. assegurando-se o reassentamento definitivo das famílias atingidas por obras (complexo viário) previstas para o local (liminar concedida).Ano 4 n. declarar a inexistência de dívida em caso de não comprovação da existência ou autoria da fraude. Direito à moradia: Pedido: obrigação de construir unidades de habitação de Interesse Social – HIS no Jardim Edith. CDC). Juízo: comarca de Tianguá-CE. Requerido: COELCE – Companhia Energética do Ceará. confirmação do Tribunal). sob pena de multa diária. de aferição unilateral da fraude e de uso dos critérios de cálculos ilegais previstos na Resolução 456/00 da ANEEL. 2 jul. garantindo-se a segurança e a integridade física dos presos e policiais militares. Observação: ação proposta em conjunto com a Associação de Moradores do Jardim Edith. DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO Meio ambiente. proceder a concessão especial de uso individual ou coletiva em favor dos ocupantes do imóvel (liminar concedida e juntada. para os plantios já consumados e para os projetos a serem implantados./dez. Observação: ação proposta em conjunto com o Instituto GEA – Ética e Meio Ambiente. PÓLIS – Instituto de Estudos. Liminar concedida e mantida pelo Tribunal de Justiça. Requeridos: Companhia de Tecnologia Ambiental – CETESB e particulares Idem: Cultivo de eucaliptos pelas empresas de papel e celulose e meio ambiente: Pedido: obrigação das empresas de reflorestamento ambiental demandadas de confeccionarem estudos de impacto ambiental. 2011 Pública e pelo Ministério Público do Estado do Ceará. anulação do licenciamento ambiental realizado junto à CETESB. condenação do município de Paraitinga de instituição de zoneamento agroflorestal (dentre outros). 42. Pedido: obrigação de fazer consistente em não construir um cemitério em área de preservação permanente (APP). Requerido: Estado do Ceará. em caso de acusação unilateral de fraude pela concessionária. condenar a concessionária à utilização dos critérios delineados na petição inicial para o cálculo da dívida pertinente ao período de consumo irregular. Corte do fornecimento de energia elétrica: Pedido: declarar a ilegalidade do corte de energia. criar um plano de implementação progressiva de coleta seletiva de resíduos sólidos (dentre outros). Formação e Assessoria em Políticas Sociais e Centro Gaspar Garcia de Direitos Humanos Regularização fundiária e urbanística: edição de normas simplificadas e especiais da ZEIS em que a Favela o Tanque está inserida (140 famílias).

Juízo: comarca da capital. Observação: ação proposta em conjunto com a Associação de Pais e Amigos de Pessoas Autistas – Mão Amiga. segura e contínua. Igualdade de condições em concurso público: Pedido: realização de novo teste de aptidão física às candidatas reprovadas na respectiva etapa do concurso do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro com aplicação de índices e tempos específicos para o sexo feminino. Requeridos: Estado e Município do Rio de Janeiro. Requeridos: Light Serviço de Eletricidade S. Defensoria Pública de Jundiaí: pedido de não interrupção do fornecimento de água de esgoto no condomínio de baixa renda denominado Morada das Vinhas. Requerida: Companhia estadual de águas e esgotos – CEDAE. Juízo: comarca da capital. realização de exame de sorologia nos pacientes da rede pública e privada. assim como da que autoriza o cálculo da dívida dos consumidores com base em estimativa de consumo e período retroativo em até 24 meses. Juízo: Vara da Fazenda Pública da Capital. Requeridos: Município e Estado do Rio de Janeiro. Observação: ação proposta em conjunto com a Associação de Moradores do Porto de Caxias Vítimas dos danos causados por derramamento de óleo da empresa Ferrovia Centro Atlântico S. Direito à saúde: epidemia de dengue: Contratação de agentes de endemia até o fim da epidemia de dengue no município do Rio de Janeiro. desenvolvimento de programas de conscientização da população para não jogarem lixo no rio. DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO Meio ambiente e direito a saúde: derramamento de óleo: Pedido: obrigação da empresa de arcar com os procedimentos necessários para o restabelecimento da saúde das vítimas. Fornecimento de água e esgoto: Pedido: individualização da cobrança dos serviços prestados com a instalação de hidrômetros individuais nas casas da comunidade pobre identificada. fornecimento de repelentes à população nos postos de saúde. Juízo: Vara da Fazenda Pública da Capital. intensificação da política de controle da dengue. Fornecimento de energia elétrica: Pedido: declaração de ilegalidade de norma regulamentar que autoriza a suspensão do fornecimento de energia elétrica como forma de compelir o usuário no pagamento de dívidas. Requerido: Estado do Rio de Janeiro.A. educacional e assistencial aos autistas. Observação: ação proposta em conjunto com a Associação dos Sofredores do Loteamento de Curicica Direitos sociais: saúde e assistência a autistas: Pedido: criação pelo Estado de unidades especializadas para tratamento de saúde. Juízo: comarca de Itaboraí. eliminação dos focos da dengue. eficiente. realização de dragagem no rio. Juízo: Vara da Fazenda Pública da capital. pagamento de pensão para a garantia da sobrevivência. Requeridos: Estado do Rio de Janeiro e FUNRIO. Pedido: reassentamento das famílias que se encontram em situação de risco (casas construídas sobre o rio e na sua margem). mantendo-se o serviço público essencial de forma adequada.A. declaração de inconstitucionalidade de item do edital do concurso que previa iguais exigências físicas para homens e mulheres.. Requerida: Ferrovia Centro Atlântica S.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 163 público para aquisição de imóveis que se possam caracterizar como de interesse social.A. evitando a exposição dos moradores da região a doenças e contaminações. garantindo-se a igualdade substancial entre homens e mulheres (pedido liminar). DEFENSORIA PÚBLICA DA UNIÃO Direito à saúde: abertura dos postos de saúde nos fins de semana: Pedido: abertura dos Postos de Assistência Médica – PAM e dos postos de saúde municipais nos fins de semana. instalação de rede de esgoto. e CERJ – Companhia de Eletricidade do Rio de Janeiro. com funciona- .. Juízo: Vara empresarial da comarca da capital. Idem: Poluição de rio: objetivo de conter as enchentes do rio Pavuninha.

Requerida: União. Conclui-se. RESPOSTA AOS QUESITOS 1 – A legitimação do Ministério Público à ação civil pública é exclusiva. 2 – A legitimação da Defensoria Pública para a ação civil pública afeta as atribuições do Ministério Público? R. Por essa razão. conforme visto no parecer. Assim examinadas as questões submetidas à consulta. nos termos da lei (liminar concedida). contribuindo para ampliar consideravelmente o acesso à justiça e para a maior efetividade das normas constitucionais. Juízo: vara federal cível da capital. foi levantada no processo a questão de falta de pertinência temática em relação à requerente. Direitos sociais: Pedido: expedição gratuita das vias da carteira do Registro Nacional de Estrangeiro em todo o território nacional. Conforme visto no parecer. Não. que a atuação da instituição na defesa de interesses difusos tem sido de grande relevância. Como se disse no parecer. desde que se trate de pessoa pobre. que atribui à Defensoria Pública a assistência jurídica e a defesa. nos termos da Constituição e da lei? R. é ela concorrente e autônoma. 2011 Importante ressaltar que em nenhuma dessas ações o Poder Judiciário se manifestou pela ilegitimidade da Defensoria Pública.164 Revista da Defensoria Pública . dos necessitados? mento 24 horas. De modo algum. Sim.Ano 4 n. 4 – Como deve ser interpretado o art. 134 da CF. 2 jul. devendo a segurança pública ser efetuada pela Polícia Militar (antecipação da tutela concedida). para o atendimento dos pacientes vítimas da dengue enquanto perdurar a epidemia com o objetivo de se minimizar as longas filas para atendimento nos hospitais públicos (antecipação de tutela concedida). aliás./dez. . Requeridos: Estado e Município do Rio de Janeiro. em todos os graus. passo a responder aos quesitos oferecidos pela Consulente. Juízo: vara federal cível da capital. assim. Juízo: vara federal cível da capital. Direito à segurança: Pedido: retirada das tropas do exército do morro da Providência na cidade do Rio de Janeiro. a legitimação da Defensoria Pública em nada altera o pleno exercício das atribuições do MP. Requerido: União. 3 – A abertura da legitimação às ações coletivas significa um maior acesso à Justiça? R.

de forma indireta e eventual. Não. contribuir para a máxima eficácia das normas constitucionais. A exegese do texto constitucional. com a redação dada pela Lei n. Ainda que se entenda que função obrigatória e precípua da Defensoria Pública seja a defesa dos economicamente carentes. os socialmente vulneráveis. 5 – Ainda que. ligadas ao procuratório. que conferiu legitimação à Defensoria Pública? R. A atuação da Defensoria Pública na defesa dos interesses ou direitos difusos tem sido intensa. conforme exposto no parecer. se entenda que necessitados são apenas os economicamente carentes. autoriza o entendimento de que o termo necessitados abrange não apenas os economicamente necessitados. ad argumentandum.347/85 -. para que seja excluída da referida legitimação a tutela dos interesses ou direitos difusos? R. 6 – Qual o histórico da atuação da Defensoria Pública na defesa dos interesses ou direitos difusos? R. a função precípua da Defensoria Pública impede que. É o parecer. de outro. conforme exposto no parecer.º 7. Não. ou seja. sua atuação se estenda à defesa de direitos de indivíduos bem estabelecidos? R.Parecer sobre a legitimidade da Defensoria Pública para o ajuizamento de ação civil pública 165 R. que adota um conceito jurídico indeterminado. estabelecidas em lei. ampliar o acesso à justiça e. Não. 16 de setembro de 2008 Ada Pellegrini Grinover Professora Titular da Universidade de São Paulo .º 11. São Paulo. mas também os necessitados do ponto de vista organizacional. significando.488/2007. de um lado. 8 – Deve-se dar ao dispositivo interpretação conforme a Constituição. 7 – Infringe a Constituição o inciso II do artigo 5º da Lei da Ação Civil Pública – Lei n. o texto constitucional não impede que a Defensoria Pública exerça outras funções.

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234. 109 da Constituição do Estado de São Paulo e do art. e parágrafos. proposta pelo Procurador Geral da República. a inconstitucionalidade de expressões do art. da Lei Complementar Estadual 988/2006SP. violam os arts. 5°. Diante dessa situação. No entendimento da consulente e de diversas outras associações civis também signatárias do amicus curiae. e no intuito de fortalecer os argumentos apresentados ao Supremo Tribunal Federal. LXXIV. que se manifestou na qualidade de amicus curiae na Ação Direta de Inconstitucionalidade 4163.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/ SP na prestação de assistência judiciária Virgílio Afonso Da Silva Professor titular de direito constitucional da USP A CONSULTA A Conectas Direitos Humanos. que dispõem sobre a Defensoria Pública e convênios com a Ordem dos Advogados do Brasil. mediante a apresentação dos seguintes quesitos: 1. 134 e 135 da Constituição Federal de 1988. associação civil sem fins lucrativos. O art. elaborou consulta acerca do objeto da referida ação. 109 da Constituição do Estado de São Paulo é constitucional? . os referidos artigos. que dispõem sobre o direito fundamental à assistência jurídica gratuita aos necessitados e sobre a autonomia funcional e administrativa das defensorias públicas. a Conectas Direitos Humanos formula a presente consulta. Secção São Paulo (OABSP).

criado em 1919 e mantido pelos alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo./dez. INTRODUÇÃO Embora a ideia de assistência jurídica aos necessitados esteja presente. 1. sendo pioneiro o trabalho do Departamento Jurídico XI de Agosto. 104 e ss. no Brasil. nesta 1 2 Cf.Ano 4 n. 113. foram alguns setores da sociedade civil que. dentre outras. . É o que será feito a seguir. 32). 2 jul. 988/06 (Lei Orgânica da Defensoria Pública do Estado de São Paulo) é constitucional? 3. Cássio Schubsky (coord. quando a Lei Imperial 261/1841 estabeleceu a possibilidade de isenção de custas processuais. tendo a Constituição de 1934 transformado esse serviço em um direito fundamental (arts. Para um histórico dessa evolução. assumiram essa tarefa. acrescentando a possibilidade de designação de advogado ex officio à já existente possibilidade de isenção de custas. também o tópico II do amicus curiae proposto pela consulente. Cf. e 134 é cabível a celebração de convênios pelo Estado com particulares para o estabelecimento de sistemas alternativos para a prestação do serviço público em relevo? A resposta sintética. a esses quesitos exige. cf. especialmente no Estado de São Paulo. ao final.2 Mas ressalte-se. considerações acerca do conceito de autonomia das defensorias públicas e da ideia de liberdade que subjaz ao conceito de convênio. No início. inciso LXXIV. art. O art. Pouco depois. 234 da Lei Complementar estadual n. além de uma breve análise acerca da eficácia e da restrição a direitos fundamentais.1 Durante todo o século XX. em grande parte. No modelo de assistência jurídica gratuita desenhado na Constituição Federal precisamente nos arts. São Paulo: CEPGE/Imprensa Oficial. Advocacia pública. 2011 2. o Estado de São Paulo passa a se preocupar também com a questão.168 Revista da Defensoria Pública . 2008. desde o Império. Não é a intenção deste parecer fazer um histórico dos antecedentes da criação da Defensoria Pública no Brasil. é só a partir do início do século XX que essa ideia desenvolve-se na direção da necessidade de uma instituição responsável por essa assistência. 5º. diversas foram as leis e constituições que reforçaram a necessidade da prestação do serviço de assistência jurídica gratuita.). envolvido na questão. 2° da Lei Estadual 1763/1920. p.

3 Especificamente sobre a autonomia funcional e administrativa. Como se verá ao longo deste parecer. 6. 2. 109 da Constituição do Estado de São Paulo e do art. têm efeitos inconstitucionais também na realização do direito fundamental à assistência jurídica gratuita aos necessitados (art. praticar atos de gestão. José Afonso da Silva aponta que. que a Constituição de 1988. ed. 4 5 .4 autonomia administrativa significa “que cabe à Instituição organizar sua administração. Ao comentar o mencionado § 2° do art. para além de seus efeitos inconstitucionais na autonomia das defensorias públicas. em seu art. ou parte de outra instituição. Comentário contextual à Constituição. em um segundo momento. Idem. suas unidades administrativas.. a Defensoria Pública “não pode ser órgão subordinado. José Afonso da. A AUTONOMIA DAS DEFENSORIAS PÚBLICAS ESTADUAIS A Constituição Federal. 2009. Idem. ao estabelecer a criação de defensorias públicas autônomas. 234 da Lei Complementar Estadual 988/2006SP. 5°. essencial à função jurisdicional. p.. 616. p.. operou mudança substancial no conceito de assistência jurídica aos necessitados. que não ao próprio Estado”.. 234 da Lei Complementar Estadual 988/2006SP são incompatíveis com essa previsão constitucional de autonomia das defensorias públicas. em primeiro lugar. § 2°. 109 da Constituição do Estado de São Paulo e o art. Além disso. são os seguintes os comentários do autor: autonomia funcional significa “o exercício de suas funções livre de ingerência”. a precisa compreensão desse conceito tem reflexos importantes na análise da constitucionalidade do art. Os textos dos artigos impugnados são os seguintes: 3 SILVA. 134.] estabelecer a política remuneratória [. que o art. LXXIV). será demonstrado que esses artigos. decidir sobre a situação funcional de seu pessoal [.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 169 introdução. São Paulo: Malheiros. garante autonomia funcional e administrativa às defensorias públicas estaduais. 615.. enquanto instituição autônoma.]”. 134 da Constituição Federal. especialmente com as mudanças introduzidas pela EC 45/2004.5 O que se pretenderá demonstrar neste parecer é.

A remuneração dos advogados credenciados na forma deste artigo. Lei Complementar Estadual 988/2006SP: Art. Para efeito do disposto no art.170 Revista da Defensoria Pública . A Defensoria Pública do Estado manterá convênio com a Seccional de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil. 3. 2. § 2º. 3º desta Constituição. visando implementar. da Constituição Federal. 134. em função do convênio previsto neste artigo. § 2°. credenciar os advogados participantes do convênio./dez. definidas no convênio. § 3º. definindo as condições para seu credenciamento. custeada com as receitas previstas no artigo 8º. de forma suplementar. A Defensoria Pública do Estado promoverá o ressarcimento à Seccional Paulista da Ordem dos Advogados do Brasil das despesas e dos investimentos necessários à efetivação de sua atuação no convênio. o Poder Executivo manterá quadros fixos de defensores públicos em cada juizado e. 234. e observando as respectivas Comarcas e especialidades de atuação. mediante convênio. será definida pela Defensoria Pública do Estado e pela Seccional Paulista da Ordem dos Advogados do Brasil. podendo o advogado constar em mais de uma área de atuação. manter rodízio nas nomeações entre os advogados inscritos no convênio. será demonstrada a incompatibilidade desses dispositivos com o art. manter nas suas Subsecções postos de atendimento aos cidadãos que pretendam utilizar dos serviços objeto do convênio. 2 jul. advogados designados pela Ordem dos Advogados do Brasil SP. No . Nos próximos tópicos (3 a 5). devendo analisar o preenchimento das condições de carência exigidas para obtenção dos serviços. 109. 2011 Constituição do Estado de São Paulo: Art. bem como a designação do advogado que prestará a respectiva assistência. § 1º. quando necessário. as atribuições institucionais definidas no artigo 5º desta lei. mediante prestação de contas apresentada trimestralmente. salvo quando a natureza do feito requerer a atuação do mesmo profissional. deverá: 1.Ano 4 n. A Seccional Paulista da Ordem dos Advogados do Brasil.

em números absolutos. amicus curiae.6 estima-se que mais de 70% da população economicamente ativa no Brasil sejam potenciais usuários dos serviços das defensorias públicas nos estados da federação. essa é a razão pela qual a Constituição do Estado de São Paulo previu a possibilidade de convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil. dados os seus elevados custos. para atuar de forma complementar na prestação desse serviço público. A ATUAL SITUAÇÃO DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA NO ESTADO DE SÃO PAULO Conforme se pode perceber a partir do quadro apresentado no texto do amicus curiae ao qual esse parecer diz respeito.7 A criação de uma estrutura capaz de dar conta dessa demanda não é possível no curto ou no médio prazo. A manutenção desse convênio. tem sido mais lento do que deveria. Em razão dessa disparidade. um cenário em que toda a população-alvo possa ser atendida por defensores públicos de carreira. dentre outras. LXXIV. Dados de 2007. . será demonstrada a sua incompatibilidade com o art. No Estado de São Paulo. também da Constituição Federal.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 171 tópico seguinte (6). com a criação de novos cargos. mesmo que esse ritmo possa (e deva) ser acelerado nos próximos anos. 6 7 8 Cf. pp. não há como se imaginar. p. Como se sabe. algo em torno de 130 milhões de pessoas. Ao contrário do que ocorre com os defensores públicos. amicus curiae. Mas. 18. 26. atualmente são apenas 400 defensores públicos para atender a mais de 20 milhões de pessoas. Por razões que não precisam ser abordadas neste parecer. Isso significa. o aumento do efetivo de defensores públicos. são gastos hoje8 no Estado de São Paulo quase 4 vezes mais com o convênio com a OAB (R$ 272 milhões) do que com toda a infraestrutura (e não apenas os salários) da Defensoria Pública (R$ 75 milhões). p. Idem. nem no curto nem no médio prazo. que têm remuneração mensal fixa. 5°. 17 e ss. 3. no entanto. os advogados que prestam serviço por meio do convênio com a OAB recebem por processo ou audiência. Cf. mostra-se cada vez mais insustentável.

5°. A AÇÃO NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO O interesse dessa ação para o presente parecer é sobretudo o de tornar claros os argumentos que./dez. E é justamente a negação desses argumentos. Para tentar sair desse impasse. 2 jul. sobretudo. para o bem da prestação desse serviço público e.172 Revista da Defensoria Pública . Esse é. dadas as situações fáticas existentes. Essa ação e seus argumentos serão analisados a seguir. esbarra no texto do art. exigiria. no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. no curto e no médio prazo. 4. Se. nenhum desses argumentos. 2011 A associação das duas variáveis apontadas acima. 234 e §§ da Lei Complementar 988/2006SP. a defensoria dar conta da demanda pelo serviço de assistência judiciária. No mesmo mês. para a maior eficácia na realização do direito fundamental previsto no art. que dispunha sobre novas regras gerais de prestação de assistência judiciária complementar no Estado. A busca por outra solução. portanto. a OABSP ajuizou ação direta de inconstitucionalidade contra esse ato. embasam a constitucionalidade do art. 109 da Constituição do Estado de São Paulo e no art. que disciplina o convênio entre Defensoria e Ordem dos Advogados do Brasil. segundo a Secção São Paulo da OAB. e (2) a situação cada vez mais insustentável do convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil. um primeiro argumento. LXXIV (“o Estado prestará assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos”). que outra solução fosse encontrada. que constitui um dos alicerces da . a Defensoria Pública do Estado de São Paulo editou o ato normativo DPG 10/2008. resiste a um escrutínio mais detalhado. contudo. as exigências desses artigos (exclusividade de convênio com a OAB) impedem ou dificultam sobremaneira a realização de um direito fundamental sem que haja motivo relevante ou proporcional para tanto parece claro que não há como aceitar a sua constitucionalidade. Como se perceberá mais adiante. Esse ato normativo foi uma reação da Defensoria em face das dificuldades financeiras na renovação do convênio com a OABSP.Ano 4 n. e no qual se fazia uma chamada aos advogados de São Paulo para se cadastrar diretamente para a prestação desse serviço. para a inconstitucionalidade de ambos os dispositivos. em julho de 2008. 109 da Constituição Estadual. um a um. de caráter substancial. que são pouquíssimos. (1) impossibilidade de.

como regra geral. 234. a ação ajuizada pela OAB faz menção aos seguintes dispositivos: arts. esse argumento de nada serve. Passo a analisar esses três grupos de argumentos a seguir. 22 estipule. para sustentar a inconstitucionalidade da convocação direta pretendida pela Defensoria Pública). Parece ser difícil encontrar motivo mais justificado do que a efetiva realização de um direito fundamental. 39. Na mencionada ação. da Constituição do Estado de São Paulo. por ser circular. e arts. 44. Como esses são justamente os dispositivos que estão sendo impugnados na ADI 4163. Mas a ação faz também referência à legislação ordinária para sustentar a constitucionalidade do convênio exclusivo (ou. ambos da Lei 8906/1994. e (3) aqueles baseados em precedentes do Supremo Tribunal Federal sobre o assunto. segundo a qual a competência para fixar honorários conferiria à OAB a palavra final sobre as condições do convênio e impediria qualquer acordo acerca desses honorários que não respeitasse essas condições. Ainda que o art. 22 e 58. o art. 109.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 173 tese oposta. do Código de Ética e Disciplina. V. ou seja. e arts. a leitura conjunta desses dispositivos parece apontar em direção diversa daquela pretendida pela Secção São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil. do Código de Ética e Disciplina). 40 e 41. ambos da Lei 8906/1994. também da Lei 8906/1994). É possível identificar três grupos argumentos: (1) aqueles baseados na competência privativa da OAB para fixar tabelas de honorários advocatícios (arts. O primeiro argumento invoca o próprio art. que os honorários serão baseados em tabela organizada pela OAB e que o art. na verdade. como é o caso em questão. Contudo. a da inconstitucionalidade da exigência de convênio exclusivo com a OAB.1 A fixação de tabelas de honorários No que diz respeito à competência exclusiva para a fixação da tabela de honorários. V. 22 e 58. 58. (2) aqueles que fazem referência à exclusividade da OAB na promoção da representação dos advogados no Brasil (art. 40 e 41. V disponha que é o Conselho Seccional o órgão competente para tanto. e o art. 41 do Código de Ética e Disciplina claramente faz menção a “motivo plenamente justificável” como fundamento da possibilidade de fixação de valores diversos daqueles pretendidos pela OAB. da Lei Complementar 988/2006SP. . todas as justificativas invocadas são ou baseadas em legislação infraconstitucional ou na própria Constituição do Estado de São Paulo. 4. 39.

seria uma forma de captação de clientes ou causa. como não tem motivos para fazê-lo. Em primeiro lugar. O que ela pretende é. na forma proposta pela Defensoria Pública. como quer fazer crer a OAB. impossível) imaginar a captação de clientes de baixíssima renda (para outras causas que não aquela para a qual o advogado já foi designado como substituto do defensor público). imaginar que a aceitação de outra tabela de honorários. Ora. e essa prestação. advogados inscritos na OAB e se submetem. pretendida pela Defensoria Pública. pura e simplesmente. também por razões óbvias. porque é difícil (pode-se dizer./dez.3 A decisão no RMS 4884: um falso precedente A ação ajuizada pela Ordem dos Advogados do Brasil. que demonstraria a impossibilidade de que a Defensoria Pública selecione advogados por conta própria. 2011 Além disso. no modelo desejado pela Defensoria. seria em forma de rodízio. 44. em primeiro lugar. Os advogados selecionados deverão ser.174 Revista da Defensoria Pública . 2 jul. Neste ponto como em tantos outros a tese da OAB não parece fazer nenhum sentido. O Estado não pretende burlar isso. em regime de rodízio? 4. da Lei 8906/1994. porque quem ganha menos de três salários mínimos não só não tem condições de pagar um advogado. por razões óbvias. Secção São Paulo. selecioná-los diretamente. Cumpre ressaltar. é simplesmente querer fechar os olhos para a realidade. porque todos os advogados inscritos na OAB podem se apresentar para a prestação de serviços de defensoria pública. A OAB e o exercício da advocacia A OAB alega que a contratação direta de advogados. que confere à Ordem dos Advogados do Brasil a exclusividade de representação dos advogados em todo o território nacional. apoia-se ainda em um suposto precedente do Supremo Tribunal Federal. já que pode sempre procurar a defensoria pública. Que captação desleal poderia ser essa que está aberta a todos. Por duas razões. Em segundo lugar. à disciplina desse órgão de classe. .Ano 4 n.2. violaria também o disposto no art. II. 4. em nenhum momento a Defensoria Pública pretendeu representar os advogados.

Recursos providos. Ao usar a decisão mencionada. Independentemente disso. em primeiro lugar. Assistência judiciária gratuita. que. a indicação dos advogados dativos. o que a OAB pode afirmar é. 1024]. e isso desmistifica ainda mais o precedente como argumento. enquanto perdurar a delegação. Delegação do Estado. do Supremo Tribunal Federal. 67 [Rep. de outros profissionais fora da lista indicada pela OAB. o argumento. o argumento da OAB é circular. DJU de 19. e que ela está em vigor porque é constitucional. 5. Como não é essa a possibilidade que aqui se discute. no entanto. Diz a ementa da decisão: Processual civil. Ora. a decisão faz menção à impossibilidade de que o juiz indique profissionais de fora da lista.10 9 STJ. por sua vez. que. Rafael Mayer. como já se afirmou acima. ela deve ser respeitada. enquanto perdurar tal delegação. que já era circular e. é justamente a possibilidade de que essa delegação perdure o que está aqui em jogo. Ele afirma. pelo juiz. O CONCEITO DE CONVÊNIO Como já afirmava o Min. por isso. 10 .Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 175 que o precedente (RMS 4884) não é do STF. no máximo. “convênio não é palavra de sentido unívoco no campo do Direito Administrativo”. que a delegação é constitucional porque essa delegação está em vigor. cai definitivamente por terra. RMS 48845. Advogados designados pela OAB.1995. RDA 140 (1980). Em segundo lugar. Observância da lista elaborada. mas do Superior Tribunal de Justiça. Uma leitura atenta da decisão demonstra que o Superior Tribunal de Justiça foi mais cuidadoso. sendo ofensivo ao seu direito líquido e certo a indicação. um raciocínio circular. delegou essa incumbência à OAB. Tendo a legislação do Estado de São Paulo cometido ao Poder Executivo o encargo de oferecer profissionais da advocacia para os pobres e revéis. p. é a esta que compete. Usá-la para defender a ela própria é.06. o que importa é que ele não se presta a sustentar os argumentos da OAB. de novo.9 Aqui. sem valor.

Odete Medauar. “[a] liberdade de ingresso e retirada dos partícipes do convênio é traço característico dessa cooperação associativa. não admite cláusula obrigatória [de] permanência”. Essa é. 24. pp. Hely Lopes. neste ponto. ainda segundo essa interpretação.13 É claro que. aquele que diz respeito à possibilidade ou impossibilidade. ed. “[d]iante [da] igualdade jurídica de todos os signatários do convênio e da ausência de vinculação contratual entre eles. embora não seja a intenção aqui. p. aliás. e. Assim. parece ser necessária uma breve digressão sobre alguns aspectos desse conceito. Op. Segundo ele. já que não contém nenhuma cláusula obrigatória de permanência.. p. 362. ed. 2004. embora não interessem aqui todas as possíveis distinções conceituais que cercam esse termo. especialmente para o argumento aqui desenvolvido.. neste tópico. Direito administrativo moderno.11 Mas.. A Administração Pública. MEIRELLES. por exemplo./dez. 109 da Constituição do Estado de São Paulo é compatível com essa conceituação. 1999. é identificar uma característica acerca da qual todos parecem estar de acordo quando se fala em convênio no âmbito da Administração Pública. 270 e ss. estaria inteiramente livre para fazer ou não o convênio com a OAB.12 Ainda mais importante. 8. 12 13 . ou seja. contudo. fazer uma espécie de “doutrina do convênio”. neste parecer. Em outras palavras: a permissão 11 Para uma análise mais aprofundada desse e de outros debates conceituais em torno do conceito de convênio. A simples leitura de um texto não é suficiente para compreender a norma que ele contém. 2011 Há uma série de debates que aqui interessam pouco. como.Ano 4 n. são as consequências que Hely Lopes Meirelles tira da característica mencionada acima. utilizarei a conceituação mais difundida nesse âmbito. por isso mesmo. típicos dos contratos de direito privado. O que interessa aqui. por todos. de existência de interesses divergentes e opostos. o que a própria OAB argumenta. 361. Direito administrativo brasileiro. segundo ele. São Paulo: RT. Para tanto. 2 jul. cit. a de Hely Lopes Meirelles. É isso.176 Revista da Defensoria Pública . uma equivocada interpretação das condições fáticas e jurídicas que subjazem à interpretação desse dispositivo da constituição estadual. em suma. qualquer partícipe pode denunciá-lo e retirar sua cooperação quando o desejar”. alguém poderia contestar e afirmar que o art. cf. São Paulo: Malheiros. nos casos de convênio.

autônoma. facultada a denúncia unilateral a qualquer tempo”. Cf. conclui-se. de fato. o mencionado art. também no início deste parecer. Secção São Paulo. 1994. isso implicaria uma paralisação de um serviço que tem como finalidade realizar um direito fundamental. que.. que detém a última palavra a esse respeito.. como a prestação de certo serviço ou a execução de obra. 14 15 José Afonso da Silva. §2°. como se viu. p. que não ao próprio Estado”. sim. 615.14 Na medida em que à Defensoria Pública do Estado de São Paulo não é garantida uma real autonomia para definir quem. a Constituição Federal. E se há exigência fática de celebração de convênio. 109 da Constituição Estadual não permite que ela celebre convênio com outras instituições que não a OAB. já que é a Ordem dos Advogados do Brasil. uma exigência de permanência.. 198-199: “Denominase convênio o ato bilateral por meio do qual pessoas de direito público ou privado ajustam a conjugação de esforços para o atingimento de objetivo comum. o que isso significa. Em suma. parece não haver outra alternativa que não a de concluir que essa Defensoria não é. Carlos Ari Sundfeld. desempenhará as atividades supletivas de defesa judicial dos necessitados. na medida em que a Defensoria Pública do Estado de São Paulo não tem a real faculdade de denunciar o convênio a qualquer tempo. no sentido de que essa é uma característica essencial do conceito de convênio. como o art. por mais que não haja cláusula formal que exija a permanência no convênio. p. de fato.15 pois. 109 da Constituição do Estado de São Paulo com os ditames da Constituição Federal. e sob que condições.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 177 constitucional estadual para se celebrar ou não um convênio só é uma permissão real se essa liberdade puder ser. Às Defensorias Públicas Estaduais são asseguradas autonomia funcional e administrativa [.]”. Já foi visto. Como foi visto logo no início deste parecer. a previsão constitucional estadual de que o convênio possa ser feito única e exclusivamente com a OAB e a impossibilidade fática de que a Defensoria Pública dê conta sozinha da demanda por assistência jurídica gratuita tem como consequência exatamente essa: um convênio em que há. então. ou parte de outra instituição. 134. São Paulo: Malheiros. não parece ser possível não concluir pela incompatibilidade do art. exercida. Comentário contextual à Constituição. . Licitação e contrato administrativo. determinou: “Art. Ora. Em primeiro lugar. o status de instituição autônoma significaria que ela “não pode ser órgão subordinado. nesse aspecto. ao criar e definir as bases gerais das defensorias estaduais. Mas não custa retomar a questão aqui.

5°. a despeito de desempenhar importante atividade social. sabendo de antemão da impossibilidade de uma organização ideal da Defensoria Pública. 6 A LIBERDADE NA CONFIGURAÇÃO DA ASSISTÊNCIA JURÍDICA GRATUITA E A GARANTIA DE DIREITOS FUNDAMENTAIS A realização dos direitos fundamentais pode sofrer dois tipos de condicionantes principais: jurídicas e fáticas.. por todos. Com isso.. 46. Em diversos momentos deste parecer. 2 jul. Frankfurt am Main: Suhrkamp. p. 1994. ainda que essa alternativa possa ter funcionado a contento durante as últimas décadas. 75 [há tradução brasileira. 17 . 2. As condicionantes fáticas referem-se às medidas existentes para a realização desses direitos. ed. o seu custo cada vez mais elevado demonstrou que a realização mais eficiente do 16 Sobre isso. uma condicionante fática relevante pode ser a insuficiência de recursos para realizar esse direito fundamental na medida ideal. Direitos fundamentais: conteúdo essencial. Theorie der Grundrechte. a possibilidade de que o serviço público17 de assistência jurídica pudesse ser realizado por meio de convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil. Toda forma de acordo entre as defensorias públicas e outras entidades. Mas. publicada pela editora Malheiros] e Virgílio Afonso da Silva. Secção São Paulo.16 As condicionantes jurídicas dizem respeito sobretudo às colisões entre direitos fundamentais. 2009. a realização do direito fundamental garantido pelo art. a advocacia probono. o que é incompatível com a autonomia constitucional garantida às defensorias. da Constituição Federal (assistência jurídica aos necessitados) seria tão mais efetiva quanto maior fosse a dotação orçamentária destinada às defensorias públicas. Fora desse âmbito encontram-se outras iniciativas de assistência jurídica. Robert Alexy. restrições e eficácia. que. Nesse sentido. a Constituição Estadual previu. especialmente no caso dos direitos que exigem uma ação estatal para a sua realização. como já se repetiu várias vezes ao longo deste parecer. Assim. São Paulo: Malheiros./dez. não ocorre por meio de acordos ou convênios com órgãos estatais. fala-se em serviço público de assistência jurídica.178 Revista da Defensoria Pública . e na esteira da experiência anterior à própria Constituição Federal de 1988. ao mesmo tempo. como.Ano 4 n. salientar que essa assistência pode também ser realizada fora desse âmbito. p. cf. por exemplo. mesmo que privadas. 2011 109 coloca a Defensoria Pública em uma posição de clara submissão à Ordem dos Advogados do Brasil. LXXIV. quer-se fazer referência à assistência jurídica prestada pelas defensorias públicas e. No caso de São Paulo. inserem-se nesse conceito de serviço público.

o segundo. como também na definição dos termos de eventuais convênios com particulares (indivíduos ou associações) para o estabelecimento de sistemas alternativos para a prestação desse serviço público. prevista no art. dois são os parâmetros constitucionais mais importantes. que (2) garanta o maior grau de realização do direito fundamental em questão. a despeito de todos os bons serviços por ela prestados nessa área desde antes mesmo da promulgação da Constituição de 1988. O primeiro é o direito fundamental do art. A experiência demonstrou que a possibilidade de convênio com apenas uma única instituição (a Ordem dos Advogados do Brasil). por meio do já mencionado ato normativo DPG 10/2008. a Defensoria Pública do Estado de São Paulo. 19 . § 2°. então este artigo constitucional impõe restrições fáticas e jurídicas desproporcionais. As exigências 18 O convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil baseava-se. sobretudo. já mencionados ao longo do texto. prevista pelo art. e. não é a forma mais eficiente de realização do serviço. na Lei Estadual 4476/84 e no Decreto Estadual 23. fazendo uma chamada aos advogados de São Paulo para se cadastrar diretamente na Defensoria Pública para a prestação desse serviço.18 Ora. LXXIV. e se não há nenhum fundamento plausível para a exigência de convênio exclusivo com a OAB. Diante desses parâmetros claros. portanto. 5°. em seu início. se direitos fundamentais devem ser realizados na maior medida possível. 134. procurou dispor sobre novas regras gerais de prestação de assistência judiciária complementar no Estado. 109 da Constituição do Estado de São Paulo.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 179 direito fundamental à assistência jurídica poderia ocorrer por meio de outras formas de cooperação da Defensoria Pública e atores de sociedade civil.19 sendo. a garantia de autonomia para as defensorias públicas. inconstitucional. Na definição do modelo desejável de cooperação.703/85. o modelo ideal é aquele que (1) confira às defensorias autonomia e liberdade não apenas na organização de sua estrutura interna. que garante essa assistência aos que comprovarem insuficiência de recursos. Não por outra razão. sofrendo apenas as restrições estritamente necessárias dos pontos de vista fático e jurídico. Desproporcionais porque há formas mais eficientes de realização desse direito e que implicam menos restrições à autonomia da Defensoria Pública do Estado de São Paulo.

não atendem a essas exigências são aquelas baseadas em modelos rígidos e exclusivistas. é precisa a conclusão a que os autores do amicus curiae chegam: O modelo público de assistência jurídica gratuita pode ser complementado com iniciativas privadas de assistência jurídica. e de máxima realização possível do direito fundamental à assistência jurídica aos necessitados. Os argumentos aqui defendidos basearam-se nos dois seguintes pilares: (1) O conceito de autonomia não é compatível com uma situação em que a Defensoria Pública do Estado de São Paulo não apenas está compelida a se conveniar com a OAB. Quanto mais as formas públicas e privadas de prestação desse serviço puderem ser combinadas de forma eficiente e garantidora de autonomia para as defensorias públicas. de outro. mas também com uma situação na qual a última palavra sobre os termos dos convênios. 2011 de garantia de autonomia das defensorias. a Defensoria deve ter autonomia para escolher como e com quem conveniar. 2 jul. As únicas que. No entanto. podem ser combinadas de várias formas.Ano 4 n. é exclusivamente desta última. com certeza. Secção São Paulo./dez.180 Revista da Defensoria Pública .20 Quem ganha com isso são os destinatários do serviço: os necessitados. SÍNTESE DOS ARGUMENTOS Antes de responder aos quesitos formulados. especialmente os honorários. 14. p. Nesse sentido. como iniciativas pro bono. em respeito ao modelo constitucional elaborado. mais as exigências constitucionais poderão ser atendidas com eficiência. é importante retomar os argumentos desenvolvidos ao longo deste parecer. 7. de um lado. . que pretendeu demonstrar a inconstitucionalidade dos dispositivos legais e constitucionais estaduais que exigem que qualquer forma de contratação de serviços suplementares de assistência jurídica aos necessitados seja feita por meio de convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil. 20 Amicus curiae.

este parecer demonstrou que a Defensoria Pública. A exigência de convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil é uma forma menos eficiente (em razão dos atuais custos) de realizar esse direito e não há nenhuma justificativa para que essa opção de convênio exclusivo seja preferida às outras. por razões óbvias. Além disso. RESPOSTA AOS QUESITOS À vista de todo o exposto. Como o próprio Código de Ética da Advocacia estabelece. como é o caso em questão. passo agora a responder sinteticamente aos quesitos da consulta. Isso. o que o art. . diante das condições fáticas existentes. no curto e no médio prazo. como se demonstrou ao longo deste parecer. 109 da Constituição do Estado de São Paulo limita a ação da Defensoria Pública a uma alternativa binária: ou não celebra convênio nenhum. diante das condições fáticas e jurídicas existentes. a Defensoria Pública do Estado de São Paulo possa. ou o faz com a OAB. porque a Defensoria não pretende. Como se percebeu. 109 realmente prevê é a imposição de um convênio com uma determinada instituição (a Ordem dos Advogados do Brasil). não apenas é incompatível com a garantia constitucional de autonomia para as defensorias públicas. e porque não pretende burlar a regra geral que determina que a tabela de honorários em cada estado da federação seja definida pelo conselho seccional. sozinha. não viola nenhum dos dispositivos do estatuto da advocacia. não existe nenhuma possibilidade de que. ao pretender selecionar diretamente os advogados dispostos a prestar o serviço complementar de assistência jurídica aos necessitados. Parece ser difícil encontrar motivo mais justificado do que a efetiva realização de um direito fundamental. Ao 1º quesito O artigo 109 da Constituição do Estado de São Paulo é constitucional? Não. O art. selecionar profissionais não inscritos na OAB. dar conta de prover todo o serviço de defesa e orientação aos necessitados.Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 181 (2) O direito fundamental à assistência jurídica gratuita aos necessitados deve ser realizado da forma mais ampla possível. Como a primeira opção é faticamente impossível. 8. a fixação de valores diversos daqueles pretendidos pela OAB pode ocorrer se houver “motivo plenamente justificável”.

109 da Constituição do Estado de São Paulo. Ao 3º quesito No modelo de assistência jurídica gratuita desenhado na Constituição Federal precisamente nos arts. exercido pelas defensorias públicas./dez. 234 da Lei Complementar estadual 988/06 é uma espécie de regulamentação do art. nada impede. 109 da Constituição Estadual. que tem a exclusividade na representação dos advogados em todo o território nacional. por parte da OAB. Embora seja desejável que o serviço público de assistência jurídica gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos. Ao 2º quesito O artigo 234 da Lei Complementar Estadual n. 234. A imposição. A Defensoria Pública do Estado manterá convênio com a Seccional de São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil”). Some-se a isso o fato de que o mencionado art. que elas procurem as alternativas que forem mais eficientes em cada situação concreta.182 Revista da Defensoria Pública . . 234 é ainda mais explícito na imposição do convênio. sem que haja motivo relevante ou proporcional para tanto.Ano 4 n. e 134 é cabível a celebração de convênios pelo Estado com particulares para o estabelecimento de sistemas alternativos para a prestação do serviço público em relevo? Sim. a constitucionalidade deste último atinge também o primeiro. dada a real impossibilidade de que isso ocorra no curto ou médio prazo. Isso reforça ainda mais o caráter inconstitucional do art. seja realizado por profissionais dos quadros de carreira dessas instituições. 2011 como também implica a realização menos eficiente do serviço público de assistência jurídica gratuita. ao exigir que a Defensoria Pública do Estado mantenha convênio com a OAB (“Art. A única exigência é a de que os profissionais que prestarem esse serviço sejam advogados regularmente inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil. 988/06 (Lei Orgânica da Defensoria Pública do Estado de São Paulo) é constitucional? Na medida em que o art. de condições irrealizáveis (em razão de seus custos) faz com que a implementação desse direito fundamental seja restringida. inciso LXXIV. 5º. 2 jul.

Parecer sobre o convênio entre a Defensoria Pública do Estado e a OAB/SP 183 É o meu parecer. São Paulo. 30 de abril de 2009 Virgílio Afonso da Silva Professor Titular de Direito Constitucional Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo O conteúdo e as conclusões aqui apresentados são de exclusiva responsabilidade do autor e não refletem necessariamente as opiniões da Universidade de São Paulo. .