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O Método

5. A humanidade da humanidade

Edgar Morin O Método 5. A humanidade da humanidade A identidade humana TRADUÇÃO DE JUREMIR MACHADO DA SILVA 5a edição .

Antropologia Filosófica 2.Silva. 101 Cep: 90035-190 Porto Alegre-RS Tel: (0xx51) 3311-4082 Fax: (0xx51) 3264-4194 www.Sociologia do Conhecimento I.com. Edgar O método 5:a humanidade da humanidade.Título original: La méthode 5. Juremir Machado da II.editorasulina. Pinto CRB 10/1204 M858m Morin.Ciências Sociais 3. trad. ISBN: 978. Av.85-205-0308-9 1.com. 440 cj.br {Abril/2012} IMPRESSO NO BRASIL/PRINTED IN BRAZIL . 2012. Juremir Machado da Silva. / Edgar Morin . 5a edição — Porto Alegre : Sulina.Título CDD:301-21 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA MERIDIONAL LTDA. Osvaldo Aranha. L’ humanitéde l’humanité © Editions du Seuil. 2002 Tradução: Juremir Machado da Silva Capa: Eduardo Miotto Foto contracapa: Ana Cláudia Rodrigues Projeto gráfico e editoração: Daniel Ferreira da Silva Revisão: Matheus Gazzola Tussi Editor: Luis Gomes Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Bibliotecária Responsável: Ginamara Lima J. 309 p.br e-mail: sulina@editorasulina. 2001 © Editora Meridional.

contou com a ajuda do Ministério francês das Relações Exteriores. de l’Ambassade de France au Brésil et de la Maison de France de Rio de Janeiro.“Cet ouvrage.” . publié dans le cadre du programme d’aide à la publication.” “Este livro. publicado no âmbito do Programa de Apoio à Publicação. da Embaixada da França no Brasil e da Maison de France no Rio de Janeiro. beneficie du soutien du Ministère français des Affaires Etrangères.

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Maurice Botton e Charlotte Bonello. amigo fiel e leitor atento. conferiu as referências bibliográficas. Jean Tellez. leitores atentos e críticos das minhas primeiras versões. com frequência aceitas. . Catherine Loridant. e que. Minha assistente. em Sitges. Agradeço também a JeanClaude Guillebaud pela leitura crítica do texto final. problemas. foram-me tão úteis. pontos obscuros. Christiane Peyron-Bonjan e Alfredo Pena Vega. queridos amigos que ofereceram. as melhores condições de residência e de amizade para que eu terminasse a redação deste livro. Agradeço a Pierre Bergé.Agradecimentos A Jean-Louis Le Moigne. cuidadosamente. cujo apoio foi indispensável para a finalização desta obra. cujas leituras minuciosas assinalaram-me erros. na bibliografia e no índice de definições. cuja contribuição pertinente e devotada ajudou-me na revisão. cujas objeções.

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55 PRIMEIRA PARTE . 43 A noosfera. 35 A humanidade da linguagem. O enraizamento biológico. A humanidade da humanidade. 25 Natureza e destino cosmofísico do humano. 48 3. 36 A revolução mental. 44 A humanidade e a desumanidade da morte. 46 Além das raízes. Do enraizamento cósmico à emergência humana. 25 I. 40 A grande evidência: racionalidade e técnica. 31 2.Sumário Preliminares. rito e sacrifício. 53 A solda epistemológica. 42 Magia. 51 Indivíduo/sociedade/espécie. 40 A abertura ao mundo. 15 Nota sobre os problemas bibliográficos. 29 III. A grande decolagem: a hominização. 27 II. 41 A evidência velada: o imaginário e o mito. A trindade humana. 51 A inseparabilidade. 38 O eros. O enraizamento cósmico. 35 A segunda natureza. 21 A trindade humana 1.

87 As duplicações e multipersonalidades. 73 1. A unidade genérica. 82 O paradoxo do feminino/masculino: a dualidade mais e menos profunda. 59 A unidade humana diante da morte. 80 Sujeito engraçado. 94 SEGUNDA PARTE . 86 A unidade plural da identidade pessoal. 74 A relação com o outro. 81 2. 56 I. A diversidade infinita. 79 O objetivo do subjetivo. 58 A identidade humana comum. 90 As cavernas interiores. 88 Papéis de vida. 79 O sujeito e a morte. mimese. vida de teatro. A identidade polimorfa.4. 61 A unidade cultural e sociológica. 77 A sujeição. 82 Os paradoxos da idade. 93 O cosmo secreto. O uno múltiplo. 65 A identidade individual Introdução. 62 O grande paradoxo. 59 II. O uno múltiplo: unidade diversidade. 85 A dualidade interior. 61 III. 93 O Eu contínuo e o Ego descontínuo. O âmago do sujeito. 86 Multiplicidades e dualidades internas.

125 O circuito sapiens demens. Sapiens-demens. 106 O espírito criador. oposição e dialógica dos dois pensamentos. 115 Homo demens. 126 5. 132 O estado poético. 148 As duas vontades de domínio. 108 II. 120 A trindade psíquica. Poderes e fraquezas da consciência. Além da razão e da loucura. 124 O gênio e o crime. Espírito e consciência. 152 Oásis?. 117 A afetividade. 142 O compromisso “neurótico. 131 O estado estético. 123 A dialógica racionalidade. 145 A cooperação realista. 135 Homo complexus. 96 O cérebro e o computador. afetividade e mito. 96 I. 129 Homo consumans. 153 Conclusão. 143 O pacto surrealista. 107 A alma. 129 Homo ludens. 96 O erro é humano. A realidade suportável. 104 As aventuras do espírito. Poderes e fraquezas do espírito.3. encruzilhada. 97 O pensamento uno e plural. 102 O pensamento duplo. 140 6. 130 A realidade do imaginário. 155 . O complexo de Adão. 103 Unidade. 109 4.

187 A espontaneidade eco-organizadora. 192 O Estado-nação moderno. 180 O Estado civilizador. 217 O jogo duplo da história. 210 O jogo do devir. 181 A civilização democrática. 215 A hipótese do progresso. agente da história. agente da história. 193 Os dez preceitos do complexo social. 197 O ser do terceiro tipo. 212 A técnica. 176 O Estado dominador. 199 3. 163 Cultura: o patrimônio organizador.As grandes identidades 1. 224 TERCEIRA PARTE . 206 Os pilotos e os inspiradores. 213 O mito. 220 O revelador histórico. A identidade social (2): Leviatã. 208 O jogo do devir: do desvio à tendência. 174 2. 165 Indivíduos sociedade. 177 O despotismo. A identidade social (1): o núcleo arcaico. 163 O núcleo arcaico. 202 A avalancha histórica. amor e ódio. A identidade histórica. 183 As estruturas da megamáquina. 170 Família. 171 Novo curso?. 167 Organização sexual da sociedade Organização social da sexualidade. 222 Fim ou recomeço. 203 O acontecimento. 182 A megamáquina.

249 Rumo à demortalidade?. 241 O avanço à sombra da morte. 236 As grandes carências. 229 A segunda hélice. 258 O complexo humano 1.4. 253 Metamorfose. demasiado super-humano. 225 A grande diáspora. 228 O indivíduo hologramático. super-humanidade?. 277 QUARTA PARTE . A identidade futura. 250 Meta-humano. 226 Trocas e comunicações. 272 A influência da história. 244 I. Rumo a uma sociedade-mundo?. 245 A alternativa. O futuro da identidade humana: meta-humanidade. 255 A mente todo-poderosa e frágil. 267 O império do meio. 248 O controle da mente pela mente: cérebro-piano. 235 Rumo ao Leviatã planetário. 225 I. A incerteza do caos. Rumo às metamáquinas. 239 III. 269 O império dos genes. A dupla hélice da era planetária. A identidade planetária. 242 5. 246 II. 256 A outra via. 270 A influência sociológica. 252 Mortal amortalidade. 277 A influência das ideias. 226 A primeira hélice. 238 A comunidade de destino. 231 II. Despertos e sonâmbulos.

287 A existência. 287 I. O mistério humano. O complexo humano. 290 III. 283 Entre vigília e sonambulismo. Retorno ao original. 295 Definições. 297 . O retorno ao homem “genérico”. 282 Possessão. 279 A máquina não trivial. 289 II. 293 IV. 279 As liberdades do espírito.Os caminhos da liberdade. 284 2. A segunda pré-história.

Ortega y Gasset Se alguém quer realmente buscar a verdade. então. que objeto de contradição. glória e dejeto do universo. depositário do verdadeiro. cloaca da incerteza e do erro. não deve escolher uma ciência particular. que caos. elas estão todas unidas e dependem umas das outras. Marc Bloch Trata-se de ensinar a humanidade à humanidade.Preliminares Que quimera é. que prodígio! Juiz de todas as coisas. Woçjciechowski Uma palavra ilumina a minha pesquisa: compreender. que monstro. Descartes A adequação do método analítico é inversamente proporcional à complexidade estudada. Rodrigo de Zayas 15 . verme imbecil. Montaigne O homem compõe-se do que tem e do que lhe falta. o homem? Que novidade. Quem resolverá essa confusão? Pascal Cada homem carrega a forma inteira da condição humana.

o fenômeno humano. sobre nosso enraizamento na vida e na animalidade (biologia). e a unidade complexa da nossa identidade escapa-nos. Precisamos reaprender a questioná- 16 . os princípios da redução e da separação. Ao desintegrar o homem. sobre a origem e a formação da espécie humana (pré-história). Assim. separado do mundo vivo (mesmo sendo um animal). entretanto. a partir de ângulos específicos. nas ciências humanas. elimina-se a surpresa e a interrogação sobre a identidade humana. sobre nosso enraizamento na biosfera (ecologia) e sobre nosso destino social e histórico. De fato. na pintura e na escultura outras tantas mensagens sobre a profundeza de nossos seres. A era estruturalista transformou esse obstáculo em virtude e Lévi-Strauss pôde até mesmo enunciar que o objetivo das ciências humanas não era revelar o homem. Assim. entre os dois infinitos (cosmologia. todas as ciências e todas as artes iluminam. mais por malciência do que por ignorância. Mas esses focos de luz estão separados por profundas zonas de sombra. A frase de Pascal. hoje. Podemos encontrar na literatura. citada como epígrafe. Deram-se. progressos extraordinários de conhecimento sobre nossa situação no universo. é mais do que nunca atual. microfísica).. O homem permanece “esse desconhecido”. Ausente das ciências do mundo físico (embora também seja uma máquina térmica). o homem é. sobre nossa matriz terrestre (ciências da Terra). dividido em fragmentos isolados. menos compreendemos o ser humano. mas dissolvê-lo.EDGAR MORIN Permanecemos um mistério para nós mesmos. Mas nenhuma época tampouco soube menos o que é o homem” (Heidegger). inclusive nas humanas (tornadas assim inumanas) impedem que se pense o humano. Daí o paradoxo: quanto mais conhecemos.. é o modo de conhecimento que inibe nossa possibilidade de conceber o complexo humano. que reinaram nas ciências. A contribuição inestimável das ciências não produz os seus frutos: “Nenhuma época acumulou sobre o homem tão numerosos e diversos conhecimentos como a nossa (. A convergência necessária das ciências e das humanidades para restituir a condição humana não se realiza. na poesia e na música (linguagem da alma humana).) Nenhuma época conseguiu tornar esse saber tão pronta e facilmente acessível.

Aubier-Montaigne. Precisamos de um pensamento que tente juntar e organizar os componentes (biológicos. a psique. a mulher. o sexo. Vrin. a poesia e as artes não são apenas meios de expressão estética. a velhice. alimentando-a com as descobertas científicas. reaprender a concepção de “homem genérico”. mas também meios de conhecimento. que perpassa toda a sua obra. a juventude. articulá-los e interpretá-los. Como dizia Romain Gary. o termo “humano” é rico. pois “elas estão todas unidas e dependem umas das outras”. ambivalente. Règles pour la direction de l’esprit. o nascimento. “a palavra humanidade contém a desumanidade: a desumanidade é uma característica profundamente humana”. à qual faltava o ser corporal. Não se quer limitar o conhecimento do humano somente às ciências. Significa. Heidegger. p. Há plena vontade de integrar a reflexão filosófica sobre o ser humano. 17 . é demasiado complexo para os espíritos formados no culto das ideias claras e distintas. mas complexificando e aprofundando essa noção. Em consequência. “escolher uma ciência particular”. Para operar o questionamento. como disse Heidegger.O MÉTODO 5 la. ao mesmo tempo. “questionar estilhaça a separação das ciências em disciplinas compartimentadas”. conforme a indicação de Descartes. Não se trata de somá-los. a morte. 1988. mas de ligá-los. in Lettre sur l’humanisme. A literatura. contraditório. individuais) da complexidade humana e injetar as contribuições científicas na antropologia. Precisamos. o que foi negligenciado por Heidegger. ao êxtase. de fato. É preciso não se “pensar muito pobremente a humanidade do homem”2 . Meu empreendimento é concebido como integração reflexiva dos diversos saberes relativos ao ser humano. Paris. Como veremos. M. a agressão. 4. sociais. 1 2 R. Também a integração recíproca da filosofia e da ciência deve ser repensada. não se deve. Descartes. do jovem Marx. Não se deve nem mesmo reduzir o humano ao humano. à dor. Paris. de uma abordagem existencial aberta à angústia. citada em epígrafe. ao gozo. no sentido do pensamento alemão do século XIX (reflexão filosófica centrada no ser humano). culturais. deve-se “acrescentar a luz natural da razão”1. o amor. nesse sentido. 1983.

Mas todas as verdades adquiridas a partir de fontes objetivas e da fonte subjetiva devem sofrer o exame epistemológico. biológicos. no seu passado. todas as desumanidades são reveladores de humanidade. com seus documentos humanos que começam há seis milhões de anos. permitem compreender melhor o ser humano.EDGAR MORIN O conhecimento do homem deve incluir uma parte introspectiva. finalmente. inclusive o autor destas linhas. – porque concebe homo não apenas como sapiens. e o único que considera possibilidades e limites do conhecimento humano. que cada indivíduo singular “carrega a forma inteira da condição humana”. a verificação dos dados. no tempo e no espaço. – porque alia a dimensão científica (ou seja. sociais: todas as variações são significativas. como Buda. O conhecimento do humano deve ser. culturais. sociais. – porque concebe toda as dimensões ou aspectos. A Terra constitui um laboratório único onde. no seu futuro e também na sua finitude. mas também como demens. da realidade humana. faber e economicus. que são físicos. na sua totalidade. – porque junta verdades separadas e que se excluem. manifestaram-se as constantes e as variações humanas –individuais. muito mais poético do que é. o campo de concentração. ele deve estimular cada um. O conhecimento que propomos é complexo: – porque reconhece que o sujeito humano estudado está incluído no objeto. Hitler e Stalin. o genocídio e. como diz Montaigne. A escravidão. Seu campo de observação e de reflexão é um laboratório muito amplo. inseparavelmente. o espírito de hipótese e a aceitação da refutabilidade) e as dimensões epistemológica e reflexiva (filosóficas). históricos. ludens e consumans. 18 . sociológicos. todas as constantes são fundamentais. muito mais científico. inclusive o seu. a encontrar em si verdades de valor universalmente humano. mitológicos. econômicos. o planeta Terra. enfim. atualmente separados e compartimentados. psicológicos. o único que olha os pressupostos dos diversos modos de conhecimento. ao mesmo tempo. – porque concebe. Os casos extremos. muito mais filosófico e. a unidade e a diversidade humanas. se é verdade. Jesus e Maomé.

na realidade. que são. O problema humano. Só se pode enfrentar o desconhecido a partir daí. Faz 30 anos que comecei o trabalho. 19 . um problema de vida e/ou morte. em 1963-1964. n° 18. Enfim. Tenho 3 Arguments. na era da disseminação nuclear e da degradação da biosfera. como há 30 anos. O paradigma perdido. Este trabalho também nos liga ao destino da humanidade. não na margem toscana. e a noção de pensamento complexo se afirma em 1990 (Introdução ao pensamento complexo). espírito. Por que me entreguei a este livro? A obsessão principal da minha obra diz respeito à condição humana. Le vif du sujet. Deixei a O Método e ao seu final um longo tempo de maturação. tornamo-nos. hoje. Para sair do século XX (1981). que tratam das possibilidades e dos limites do nosso conhecimento. “Levar a humanidade ao conhecimento das suas próprias realidades complexas é realmente possível. o primeiro (1977) e o segundo (1981) tomos de O Método atrelam a interrogação do humano à do mundo físico e do mundo vivo. em Arguments (1960)3. inclusive cognitivas: alma. que. por conta própria. Efetivamente.” Essa frase de Rodrigo de Zayas resume minha intenção. L’Homme-problème. e 12 anos que abri o canteiro deA Humanidade da humanidade. Depois. Escrevi O homem e a morte de 1948 a 1951. tratei dos problemas e do destino da humanidade. ligam antropologia e epistemologia. ensaios de antropologia complexa. 1999). O sentido da complexidade (ainda sem essa palavra) já se manifesta em O homem e a morte e Le vif du sujet. “Fragmentos para uma antropologia”. mas de destino.O MÉTODO 5 – porque dá novamente sentido às palavras perdidas e esvaziadas nas ciências. cada um na sua ótica. Paris. Terra-Pátria (1993). mas na margem catalã. em nossa era planetária. Decidi isolar-me em 2001 para terminar a redação deste texto. 1960. se remetem uma à outra. em 1972. pensamento. deixado em repouso durante anos. O terceiro e o quarto. Vim para o Mediterrâneo. não é somente de conhecimento. para mim. a palavra torna-se essencial em O paradigma perdido. O Método é elaborado para enfrentar as complexidades. em Introdução a uma política do homem (1965.

20 .EDGAR MORIN sopros de entusiasmo renovado seguidos de sopros de melancolia. de Richard Strauss. É que. Eis-me em Sitges. dominando de uma grande área envidraçada o mar que me nutre. parto no ardor de um recomeço e no langor crepuscular expresso no último Lied. ao mesmo tempo.