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AS TRAMAS DA IDENTIDADE

Tião Rocha

Todos têm cultura e trata-se de um bem universal porque é a rede de relações que define o desenho de uma comunidade Todo e qualquer ser humano tem cultura. Esta é uma das poucas "verdades" da Antropologia. Apesar disso, muita gente ainda pensa que alguns seres humanos não têm cultura. Uma minoria crê, firmemente, que sua cultura é superior à dos outros. Outros, por se julgarem superiores, resolveram eliminar e subjugar os diferentes, tratando-os como inferiores. E uma grande maioria acostumou-se a pensar que não tem cultura alguma, ficando à mercê das elites ditas "cultas". Outro equívoco que rodeia a cultura é quanto ao uso que se faz do conceito. As definições variam do extremamente amplo ("cultura é tudo aquilo que o homem acrescenta à natureza" ou "cultura é toda maneira de pensar, agir e sentir dos homens") ao extremamente específico ("cultura é erudição"). Com o uso indiscriminado ou interesseiro, a palavra cultura tornouse expressão esvaziada. Foi o que nos levou a construir um novo conceito, que fosse ao mesmo tempo operacional, palpável, mensurável, observável, ético e correto. Para isso, buscamos outra contribuição da Antropologia: em toda e qualquer comunidade humana existem e interagem diversos componentes substantivos (que nós denominamos "indicadores sociais") que podem ser identificados, medidos e observados e que, quando interagem entre si, constroem desenhos, padrões, símbolos e valores do grupo humano que aí vive e que podemos conceituar de Cultura. Encontramos os indicadores sociais em qualquer comunidade - rica ou pobre, urbana ou rural. No entanto, eles só se tornam um indicador cultural quando, em contato com outros indicadores, produzem um novo desenho, uma teia de relações dinâmicas, novas tramas e padrões de convivência, gerando novos valores ou sendo influenciados pelos valores universais presentes na comunidade. A cultura, este desenho, trama ou padrão dinâmico e interrelacional, é algo humano e social, público e visível, mas às vezes microscópico. Podemos, dentro de uma macrotrama, perceber microdesenhos simbólicos e repletos de significantes, como nas festas populares e de rua ou nos "rituais da ordem" que simbolizam e mantêm o sistema político. E é nesse mar de tramas, micro e macroscópicas, que navegamos durante nossa vida. A seguir, comentamos esses indicadores. As formas organizativas - Incluem a família, a vizinhança, os amigos, o grupo de oração, os companheiros de futebol, o pessoal do pagode, as comadres da esquina, os meninos da pelada, a galera do funk etc. Esse indicador é fundamental para o moderno conceito de "capital social". Estudos demonstram que quanto mais espaços ou oportunidades de convivência social forem oferecidos aos habitantes de uma comunidade, mais formas e possibilidades de participação estarão sendo geradas, ampliando os espaços e os momentos de protagonismo social e o acúmulo de capital social. Nossa experiência nos autoriza afirmar que onde não há oferta de formas organizativas em quantidade (e por isso há poucas oportunidades de participação e de protagonismo), o tempo de resposta aos problemas é muito lento. O tempo de rotinas aumenta e o tempo de desejos e desafios

seja de essência artística (porque atende a valores estéticos. na baixa estima social da coletividade.É o religioso. dominar. Quem não consegue ligá-lo de forma coerente ao seu presente. sentimentais e não-tangíveis da humanidade. marca registrada do fazer e do saber fazer de uma comunidade ou de um povo. Os sistemas de decisão . o ecológico. como um elemento substantivo na constituição das expressões simbólicas. ou seja. relações e processos humanos que serão o pano de fundo sobre o qual se construirá o desenho cultural de uma comunidade. Aparecem ostensiva (como nos caso das lideranças políticas. soluções e técnicas facilitadoras). equilíbrio e coerência entre o ontem e o amanhã. biblioteca. no comodismo e atraso em relação a outras comunidades. o filosófico. É observável nas formas convencionais de relações de produção e de trabalho. grupos de jovens. É movido pela idéia do porvir que o homem investe seu tempo e energia para aprender.Refere-se ao passado. A visão de mundo . "porque já passaram da época". o sonho. seja de cunho científico (porque usa métodos para a compreensão de variados objetos). na percepção delas.) ou subliminarmente. há um crescente processo de terceirização do desejo e alienação da vontade. parte integrante do ecossistema. remunerados ou não. uma das marcas de uma coletividade.Ou o contexto. pintura etc. por meio de música. Assim surge o "uso" que. grupo de teatro. Elas vivem em cidades que não têm cinema. uma carga de informações sobre o nosso passado recente ou remoto. poesia. aos 17 ou 18 anos. repletos de elementos simbólicos perpetuadores dos vínculos e das matrizes geradoras desta comunidade. O meio ambiente . constitui a base da produção do conhecimento. o tempo de juventude e de sonho já se realizou. sistemáticas e sempre atualizadas (porque contemporâneas). de caráter pessoal. das forças produtivas quem produz o que e para quem . passa a ser um "hábito" ao tornar-se de domínio de um grupo maior. A permanência do costume no tempo cria a "tradição". o futuro.São as respostas produzidas pelos homens às múltiplas necessidades humanas. e em todas as esferas da rede produtiva e reprodutiva de bens e serviços. seja de caráter tecnológico (porque produz materiais.Trata-se do econômico. Existe uma ligação entre a memória e a visão de mundo: quanto mais pudermos voltar no passado e na memória. guardado pela história ou pelo inconsciente coletivo ou pela tradição familiar. teatro. militares etc. Mas é preciso cuidado para não se ficar preso ao passado. gerando a não-participação e o não-protagonismo. As relações de produção . aos poderes de decisão macro e microinstitucionais e não institucionalizados. Uma resposta bem-sucedida significa incorporação de um resultado. A memória de um grupo social se expressa em seus rituais sacros e profanos. transformar e se apropriar do mundo à sua volta. à liderança. A prática de um hábito cria o "costume". mais longe poderemos chegar em direção ao futuro. o entorno. Todos nós recebemos. Isso explica por que as jovens do "sertão das gerais". à origem. Esse processo de acumulações sucessivas. ao estabelecermos links e passagens de força. locadora de vídeos. O homem é produtor e produto. festas populares. em que pai e mãe têm poderes de decisão. É que. assalariadas ou formais. Por isso a maioria tem na própria TV (ou rádio) o seu instrumento de formação de "capital social". A lentidão é observada na falta de vontade e ambição das pessoas.Referem-se ao político. começam a ficar "desesperadas" porque ainda não se casaram. . As formas do fazer .de um grupo social. do mundo do trabalho. desde o nascimento. à autoridade.decresce. A memória . como no ambiente familiar. Não acontece nada nos fins de semana e muito menos no meio da semana. jurídicas. o depois. principalmente dos jovens.). O mundo externo entra filtrado pela tela da TV ou pelas ondas do rádio. processo e resultado do meio onde vive. não consegue construir uma perspectiva de futuro de seu próprio mundo. coral ou banca de jornais. Considerar o meio ambiente como um indicador social é compreendê-lo além de sua face meramente física e natural.

Assim.Com esses indicadores construímos o "nosso" modelo de Cultura: esta rede e trama de relações que forma um padrão ou um desenho definidor da identidade da comunidade ou grupo social.torna-se uma das tarefas dos educadores. possibilitando leituras mais densas. deveria ter então como premissa e ênfase a heterogeneidade e a diversidade culturais.seja local. pode ser o principal trabalho da escola. mais abrangentes e mais humanas da nossa "travessia". Percebê-las em seus microcosmos . que constitui o cerne das propostas e políticas de desenvolvimento. geradores de "oportunidades-e-de-opções". que de fato constituem a marca de nossa nacionalidade. É presidente do CPCD . Foi professor da PUC-MG. educador e folclorista. entendemos que um "projeto de desenvolvimento" (de qualquer natureza) é uma açãointervenção planejada no desenho cultural (e suas relações) de uma comunidade. nessa busca permanente e vocação natural para ser feliz. que fundou em 1984. em Minas Gerais. Esta é. mais sábias. família e comunidade . a finalidade da cultura: ser instrumento eficaz do conhecimento. Sobre o autor Tião Rocha é antropólogo. Canalizá-las para construções pedagógicas que favoreçam novos processos de apropriação de conhecimentos.escola. mais ricas. cremos nós. o caráter de nosso país e sua verdade histórica. E podemos pensar em processo cultural como a interação e as dinâmicas que afetam o padrão ou desenho.Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento. da Universidade Federal de Ouro Preto e membro do Conselho Universitário da Universidade Federal de Minas Gerais. regional ou nacional -. . O planejamento de um desenho cultural brasileiro .