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O Código de Comandos da Equitação

Com a participação involuntária de Dr. James Rooney
Agora que analisamos a fusão neurofisiológica do cavalo e do cavaleiro, podemos começar a verificar como o equitador deve se comunicar com o cavalo. Como transmitir os seus comandos para o seu parceiro de forma mais sutil promovendo uma equitação de maior beleza e precisão. Uma equitação que envolva tanto a união da mente quanto do corpo do cavalo e do cavaleiro.Uma equitação em perfeita consonância com o desenvolvimento da ciência contemporânea.

O grande segredo da equitação de alta performance é induzir o cavalo a obedecer o cavaleiro com comandos que acionem automaticamente o seu sistema reflexo. Estes comandos devem ser lógicos (do ponto de vista da motricidade natural do cavalo) e sem propósitos conflitantes: isto é, não usar o mesmo comando para solicitar ações contrárias. Por exemplo: aplicar as esporas para executar um recuo (1) . Induzir significa, segundo o popular Aurélio: inspirar, incutir, instigar, incitar, sugerir ou persuadir — não significa usar força ou causar dor ao cavalo. A punição física aciona a ação cerebral do animal que poderá então reagir com corcoveios, aprumadas, disparadas ou outras reações negativas. Um espetáculo fantástico num rodeio, mas lamentável durante o treinamento para uma prova de equitação. É claro que o cavaleiro ‘chucro’, do tipo machão, vai recomendar, para os casos da rebeldia do animal, a velha receita de Grisone: uma boa surra de chicote para ‘exorcizar o diabo da desobediência do corpo do cavalo’ — o que, para uma preparação rudimentar e de baixa tecnologia do animal, pode até funcionar. O cavalo intimidado poderá tentar obedecer aos desejos do seu ‘senhor’. Mas nem este cavalo nem este cavaleiro (2) poderão se credenciar para uma equitação de tecnologia superior, a matéria que estamos tratando aqui. Lembremos o que escreveu Xenofonte há 2400 anos: “O que o cavalo faz sob coação é feito sem compreensão, e não há beleza nisto”. Na equitação clássica, que é um esporte de público e de mídia, a harmonia e beleza da apresentação é fundamental.

Para administrar a cadeia de reflexos automatizados do cavalo o cavaleiro, ao montar, deve acionar o seu código de comandos com toques, dicas, e sutis movimentos corporais que imitam os andamentos do cavalo e que nunca cessam, enquanto o cavaleiro e o cavalo estiverem em movimento. Esta ação é comparável a um pianista que se lança de corpo e alma em sua música alternando, repetindo e superpondo as notas musicais numa cascata de toques suaves nas teclas. Mais do que as mãos, ele usará na execução da sua música todos os sentidos que possui. Vou dar um exemplo: ao montar e se posicionar na sela, o cavaleiro provoca o primeiro elo da cadeia de reflexos automatizados do cavalo, quando o animal dorsiflexa, o que inicia uma série de contrações musculares que firmam as suas pernas e o predispõe para uma eventual ação. O cavaleiro então faz uma pressão com as pernas, indicando o cavalo para tomar o passo. Mais uma leve pressão inicia o trote ou a marcha. Para tomar o galope, o cavaleiro realiza uma combinação de movimentos: nova pressão das pernas, um leve deslocar do corpo para a frente indicando o aumento da velocidade, um discreto recolhimento das rédeas para se conectar com a boca do cavalo — e o animal (adestrado desta forma) tomará o galope. Você agora direciona o cavalo, com uma leve pressão da perna direita, em direção a uma baliza a sua esquerda; quando a baliza estiver na altura da sua perna esquerda o seu corpo se desloca sutilmente para este lado e a perna e a rédea direita pressionam levemente o costado e o pescoço e o cavalo (adestrado desta maneira) fará a curva para a esquerda com equilíbrio e naturalidade. As pressões de pernas e os toques de calcanhar são tão sutis que não serão notados pela platéia. Visualmente deve parecer que o cavalo comanda a ação. Nesta equitação hitec, as rédeas servem basicamente para flexionar e administrar a velocidade do animal e, sobretudo, para estabelecer uma conexão de entendimento neural entre as mãos do cavaleiro e a boca do seu cavalo. O que faz o bom equitador não é a boa mão, mas o bom cérebro: as mãos apenas obedecem. Veja o capítulo Embocadura, a Conexão Cerebral. As pernas do cavaleiro geram a impulsão e fazem as mudanças de direção, ou melhor, você solicita a energia da equitação ao cavalo com as pernas e administra a impulsão gerada com as mãos.

Mas, lembra Dr. Rooney: “Não é possível ensinar novos reflexos para o cavalo; só é possível se utilizar o repertório de reflexos já existente e para a qual a vida natural do cavalo foi programada”. Entretanto, dominar e executar todas as combinações reflexas possíveis da motricidade eqüina possibilitadas pelas mudanças de direção e velocidade, é uma arte complexa que dispensa inovações. “Leva mais tempo para se formar um bom equitador do que formar um bom médico”, lembra Gabby Hayes.

Podemos definir o grande equitador do futuro como tendo a vocação de Antoine de Pluvinel somada aos conhecimentos de psicologia e fisiologia humana e eqüina que estão à disposição do cavaleiro moderno.

No código da comunicação escrita, o alfabeto, as palavras, a sintaxe e os recursos lingüísticos devem ser utilizados de modo que dêem clareza à leitura. No código de comando da equitação o cavaleiro deve igualmente buscar a clareza dos seus comandos para que estes possam ser decodificados instantaneamente pelo cavalo. Para isto acontecer, é preciso compreender como os comandos atuam sobre a inteligência biológica do cavalo durante a equitação.

(1) As esporas, quando necessárias, devem ser utilizadas para induzir um reflexo de afastamento no cavalo. A espora do lado direito deve provocar o afastamento para o lado esquerdo e vice-versa. O uso das duas esporas deve induzir o deslocamento do cavalo para frente, mas nunca o contrário; isto é, para o recuo. (2) A origem da palavra portuguesa ‘peão’ vem do substantivo pé, acrescido do sufixo ão; ou seja, o peão era um empregado de fazenda que não sabia ou não estava autorizado a montar a cavalo e lidava com o gado bovino e eqüino a pé. No Brasil, por alguma razão misteriosa, peão virou sinônimo de cavaleiro.
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