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ESTADO DE MINAS - SÁBADO, 15 DE MARÇO DE 2003

VEÍCULOS

E N T R E V I S T A ALEXANDRE PINHEIRO DE OLIVEIRA

ALTA RODA
F E R N A N D O C A L M O N
f e r n a n d o c a l m o n @ u s a . n e t

“SOMOS TODOS VÍTIMAS DO SISTEMA”
JAIR AMARAL

UM CANTO NA HISTÓRIA
Amado por uns e detestado por outros, o carro popular completa 10 anos de vida. O atestado de batismo, sacramentado em um protocolo firmado um mês antes, foi publicado no Diário Oficial da União (DOU) em 4 de março de 1993. Tudo se originou no carismático Volkswagen Sedan, que numa tradução menos literal da palavra alemã, quer dizer isso mesmo: carro popular. Algumas lendas envolvem esse assunto. Itamar Franco teria pedido ao presidente da então Autolatina, Pierre-Alain De Smedt, a volta do Fusca, tirado de linha em 1986. Oficialmente, o presidente da República apenas manifestou sua sugestão de se fabricar um modelo resistente e barato como o Fusca, idéia imediatamente aceita. Smedt pediu menos impostos. Os desdobramentos vieram em cascata. Entre a assinatura do protocolo em fevereiro e a publicação no DOU, a Fiat conseguiu enquadrar o Uno Mille pelo mesmo preço de US$ 6.850,00. Seguiram-se Gol, Escort Hobby e Chevette Júnior, em 31 de março de 1993. E depois, Kombi e Fiorino. Cada fábrica se apresentou com o automóvel mais barato que produzia na época, com motor de 1.000 cm³ de cilindrada. O Fusca e a Kombi tinham motor 1.600, assim como o Chevette L, que substituiu logo depois o Júnior por causa do raquítico desempenho do motor 1.000. Descobriu-se que PIS e Cofins não podiam ser reduzidos por decreto, nem zerada a alíquota do IPI (ficou em 0,1%). Isso elevou o preço, na média do mês, a US$ 7.200,00 (Kombi, US$ 9.500,00). O suficiente para a demanda acelerar de verdade e incluir outros modelos como Fiorino furgão e picape, além do Corsa, em fevereiro de 1994 e do Fiesta, importado da Espanha um ano depois. Todos os protocolos previam o encerramento do programa em 31 de dezembro de 1996, mas em fevereiro de 1995 o IPI subiria para 8%, contrariando o compromissado. Há um equívoco generalizado associando o carro popular ao motor 1.000. Esta motorização surgiu de um rompante do presidente Fernando Collor de Mello, em setembro de 1990. A estrutura do IPI baseava-se erradamente na potência: até 100 cavalos (37%) e acima de 100 cavalos (42%), com menos 5 pontos porcentuais para motores a álcool. O motor 1.000 passou a ter IPI especial de 20%, sem incentivo para o álcool. Só a Fiat possuía o motor a gasolina prontinho na prateleira, por mera coincidência... As outras fábricas correram atrás, sem muita convicção. Quando da criação do popular, esta classe de cilindrada respondia por 27% das vendas totais de automóveis e stations. Alcançou inadmissíveis 71%, em 2001, graças às distorções bastante conhecidas. Nunca se entendeu bem porque não se fixou apenas no preço de US$ 7.200,00. Se a idéia era privilegiar modelos baratos, a fim de acelerar vendas e criar empregos, nada justificava o motor 1.000, lembrando ainda do Fusca, Kombi e Chevette L 1.600. Quatro episódios históricos, na primeira metade da década de 90 do século XX, levaram a indústria a dobrar de tamanho em apenas seis anos e atrair tantas marcas e investimentos: fim do controle de preços; acordos nas câmaras setoriais, repactuando a cadeia automobilística com a crucial diminuição de impostos; abertura do País às importações, trazendo concorrência e efeito demonstração; extinção da lei de informática, aquela do atraso tecnológico de processos e produtos. Apesar das decisões dúbias e efeitos colaterais, o carro popular merece também pelo menos um canto na história.

PAULA CAROLINA

O descaso do Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (Dnit) ficou evidente no último domingo, quando milhares de veículos que retornavam a Belo Horizonte pela BR-040 (sentido Rio de Janeiro/Belo Horizonte) enfrentaram o risco de ficar atolados no desvio próximo a Congonhas, a 89 quilômetros da capital, uma vez que durante os nove dias, que sucederam ao acidente que interrompeu a

rodovia, nenhuma providência foi tomada para evitar transtornos na volta do feriado do Carnaval. O fato reacende a polêmica em torno das péssimas condições em que estão as estradas que cortam o Estado. Durante o Carnaval, enormes buracos causavam a parada de veículos ao longo das vias, com pneus furados, rodas e suspensão danificadas. Na BR-381, trecho entre Belo Horizonte e Betim, enormes crateras ainda tomam conta da pista. Procuramos o chefe da delegacia 4/02, da Polícia

Rodoviária Federal, em Betim, inspetor Alexandre Pinheiro de Oliveira que, há seis meses administra uma região com grandes complicações. Segundo ele, tanto a população como a própria polícia, são vítimas não de uma única pessoa, mas de um sistema burocrático. Com relação ao novo governo, ele diz: “Temos que ter esperança. Senão vamos ter que começar a substituir os carros por carroças e cavalos. São mais resistentes e não há pagam impostos,

EDUARDO ROCHA/RR

JAIR AMARAL

BR-381

Em quatro meses (de 13 de novembro de 2002 a 12 de março de 2003), o que era um início de erosão tornou-se uma enorme cratera
ESTADO DE MINAS: No final de 2002, havia muitos trechos com buracos e risco de erosão na BR381 e 262. A PRF havia, inclusive, feito um acordo com a Prefeitura de Betim para o recapeamento, uma vez que o Dnit não tomou providências. Como está a situação, hoje? ALEXANDRE PINHEIRO: A mesma coisa. A Prefeitura de Betim tapou alguns buracos. Mas, com as chuvas, eles abriram de novo. Inclusive, eu estive para interditar a BR-381, em janeiro. Mas a Prefeitura de Betim providenciou um laudo técnico, apontando que ainda havia jeito do trânsito continuar. Eles disponibilizaram cinco caminhões, uma máquina (pá-carregadeira) e 60 homens, para que eu não interditasse a pista. Entre as piores erosões, havia uma próxima à Petrobras, que ainda era um filhote. Com a chuva, o buraco tornou-se adulto, aumentando cerca de 500% a 600%. Comeu a pista, levando uma faixa inteira. Outro problema está no KM 479, no sentido BH/Betim, e no KM 478,6, do outro lado. Ali havia uma canaleta e o pessoal veio desobstruindo. O problema é que agora formou um degrau na pista. E quem passa não tem noção do perigo. E o que fez o Dnit? AP: (Silêncio) Ah, o que fez o Dnit… Como surgiu o acordo com a Prefeitura de Betim? AP: Quando assumi a delegacia, vim com o propósito claro de atender a sociedade. E quando vi a pista, ainda em outubro, toda cheia de buracos, fui conversar com todos os prefeitos dos 22 municípios envolvidos. O prefeito de Betim se dispôs a auxiliar no que fosse necessário. Acho importante esse tipo de parceria, entre governos federal, estadual e municípios. No caso de Betim, vi uma grande preocupação da prefeitura em relação à saúde. E a PRF tinha equipamento e viatura de resgate que estavam ociosos por falta de pessoal, enquanto a prefeitura estava com um sistema avançado na área de socorro e precisando de equipamento. Então fizemos um contrato de comodato, em que cedemos quatro resgates, um desencarcerador e um desfibrilador. Passei para eles uma relação dos buracos e trechos mais críticos e eles cederam, de imediato, uma equipe de 120 homens para limpeza da rodovia, desobstrução de canaletas e para tapar buracos que já existiam. Só que depois vieram as chuvas… Mas a pavimentação da rodovia federal é obrigação do Dnit. Vocês chegaram a notificá-los? AP: Fizemos vários ofícios (mostra documentos). Desde novembro do ano passado até hoje (quarta-feira) foram dez e estamos encaminhando mais um, reforçando o problema das erosões que, atualmente, estão nos seguintes pontos: BR-381(sentido São Paulo/BH e BH/São Paulo) – uma próxima à Petrobras, duas no Km 479 (dois sentidos da rodovia), uma próxima ao antigo posto da PRF – e outras três na BR-262, entre Betim e Juatuba, sentido BH/Triângulo Mineiro. Em uma dessas, há um mês, caiu uma Blazer. E qual foi a resposta do Dnit? AP: Nem resposta deram. Após um dos ofícios, o chefe do distrito me ligou, dizendo que não tinha dinheiro. Ainda na BR-381, também em Betim, parece que há muita água na rodovia, próximo à fábrica da Niquini? AP: Sim. O Dnit deu autorização, por escrito, para a Niquini jogar essa água na pista. Eles alegavam que do outro lado existem construções, que poderiam ser afetadas, se a água fosse jogada lá. Só que eles esquecem do risco que existe da água ser jogada na rodovia. Você passa de carro, só vê água. Eu mesmo, para ajudar a socorrer um carro que havia molhado o distribuidor e estava com o sistema de alimentação prejudicado, fiquei com água nos joelhos. Imagine um carro passando… E ainda danifica a pista… AP: Além disso. Hoje você paga um IPVA caríssimo para não ter estrada para rodar. Existe o recolhimento e todo mundo tem que pagar. Eu mesmo fiscalizo. Agora, por que esse dinheiro não é usado na manutenção das estradas, é um mistério. Só para ter uma noção, estou trocando todas as viaturas, que são Fiat Marea, por Chevrolet C-20 e Blazer. Os Fiat Marea estão encostados porque não agüentam. De 15 em 15 dias estavam na oficina, com pneu furado, roda e suspensão quebradas. Então troquei com o 1º Distrito de Brasília, porque lá eles têm estrada para rodar com Marea. Aqui não temos. Se as viaturas, utilizadas por nós, que conhecemos a estrada e os buracos, não agüentam, imagine um carro particular. Um usuário que sai do Mato Grosso, sem conhecer nada, e vem parar aqui. Neste domingo, após o feriado do Carnaval, próximo ao KM 479, onde há um buraco na faixa central, com 15 cm de profundidade por 1 m de diâmetro, havia 11 veículos com pneu estourado em um único instante. Pedi uma viatura para fazer ocorrências no local para que esse pessoal possa entrar na Justiça. É um direito deles. Há pouco tempo, publicamos matéria mostrando o que é necessário fazer, nesses casos, para entrar na justiça. A PRF faz esse tipo de ocorrência com “boa vontade”, mesmo que não tenha havido nada sério? AP: Sim. As viaturas são do povo. Se o usuário está necessitando de auxílio, de documentação, é obrigação da PRF prestar socorro, independente do que for. Acho que o grande problema do nosso País é esse, a falta de informação. Ainda que demore cinco anos para receber um pneu, é um direito. Sem falar que aparentemente o problema é só o pneu, mas depois você percebe que também foram danificadas rodas, suspensão e até direção. E a ocorrência tem que ser solicitada no local, na hora. É preciso chamar a polícia e ter paciência porque, como o efetivo é reduzido, pode ser que demore em virtude de uma ocorrência mais grave. Ou o policial pode pedir ao motorista para levar o veículo até o posto. Somente neste caso é permitido retirar o veículo. Mas não se pode deixar de fazer a ocorrência na hora. Voltar à polícia dois dias depois não adianta. Tem havido muitos acidentes por causa dos buracos? AP: Tem havido, inclusive com vítima fatal. No KM 391 (BR-262), região próxima a Pará de Minas, houve vários. Havia um desvio e os carros estavam precisando entrar na contramão. E os acidentes também acontecem conosco. Em dezembro, duas viaturas, que estavam indo atender um acidente, rodaram. Por isso falo que somos todos vítimas. O pessoal do Dnit também. Eles também utilizam as rodovias. Também são vítimas. Agora, tem gente que agüenta mais dor do que outros. Um fato curioso aconteceu na sexta-feira, véspera de Carnaval. Estava marcada uma manifestação, na BR262, município de Pará de Minas, para o sábado. Na sexta, o Dnit tapou os buracos. Inclusive, trabalhamos, dando apoio à operação tapa-buracos. O Dnit só tapou porque haveria a manifestação? AP: Tudo leva a crer, pois, até então, não tinham feito nada. O que pode ser feito, de imediato, para amenizar os problemas? AP: A minha preocupação maior é com as erosões. Se não houver uma medida urgentíssima para contê-las, na próxima chuva forte que der, a BR-262 e 381 serão interditadas. Prefeituras e governo federal precisam se sensibilizar no sentido de tapar os buracos. Não tem outro jeito. Acho que, dentro do possível, o governo federal poderia fazer parcerias com as prefeituras. Se cada um fizer um pouquinho… Se o Dnit empregasse o dinheiro arrecadado com os radares para consertar as estradas… AP: Ah, meu Deus. Nem fala nisso. Acho que falta sensibilidade. Falta respeito... Se tantos estragos são causados nos automóveis, imagine os carreteiros. É verdade que eles ajudam a estragar as vias porque andam com excesso de peso. Mas por que andam com excesso de peso? Porque não há fiscalização. Não há balanças nem efetivo.

ANIVERSÁRIO

“Carro popular” comemora dez anos de história no mercado brasileiro

DIVULGAÇÃO

RODA VIVA
BALANÇO do primeiro bimestre mostrou aumento de 8% nas vendas e 45% nas exportações em relação a 2002, segundo a Anfavea. Pouco entusiasmou a entidade dos fabricantes, pois no ano passado o Carnaval foi em fevereiro. Otimismo em 2003, só com as exportações: crescimento final de 20%. Desta forma a produção subiria 5%, diminuindo a elevada capacidade ociosa em 3 pontos porcentuais. ESTOQUES voltaram a ser divulgados pela Anfavea, incluindo pátios de fábricas e concessionárias: 41 dias, em janeiro; 39 dias, em fevereiro. Ainda são elevados, contribuindo para promoções, ofertas e brindes. Fiat/Alfa e GM, nesta ordem, disputam a liderança carro a carro, nos segmentos de automóveis e comerciais leves, enquanto a VW/Audi não consegue descolar da terceira posição. Teremos ainda 10 meses de fortes emoções nesta briga pela liderança. APROVEITANDO a visita do presidente Lula da Silva na cerimônia de comemoração dos 50 anos da empresa no Brasil, em 24 de março próximo, a Volkswagen vai lançar o primeiro carro com flexibilidade álcool/gasolina. Nesta corrida, o Gol deve derrotar o Astra, a Fiat está um pouco atrasada e a Ford, que foi a primeira a exibir o Fiesta, foi ultrapassada por fora, nas curvas do circuito. ENQUANTO não recebe os retoques estilísticos esperados para o segundo semestre, o Vectra voltou ao mercado com motor 2.000/110 cv para aproveitar o IPI mais baixo. Na avaliação da coluna, a perda de desempenho em relação ao motor 2.200 ficou bem nítida, no limite estreito do aceitável para as condições atuais do mercado, na faixa de R$ 40 mil. Modelo maduro, já sem defeitos de nascença, mas cercado por baixo pelo Astra sedã, além do Corolla e Civic.