ESTADO DE MINAS - TERÇA-FEIRA, 6 DE MAIO DE 2003

PÁGINA 21

GERAIS

❚ FATALIDADE

DUAS PESSOAS QUE ACOMPANHAVAM UM SEPULTAMENTO, ALÉM DE UM FUNCIONÁRIO DO CEMITÉRIO, MORREM EM VERSPASIANO, ATINGIDOS PELA CARROCERIA DE UM CAMINHÃO, QUE SE SOLTOU DA CABINE. UMA DAS VÍTIMAS É UM GAROTO DE 13 ANOS, QUE SEGUIA O ENTERRO DA AVÓ

Acidente multiplica dor
EDUARDO HYBNER

c m y k

O coveiro Geraldo Magela Soares, de 44 anos, funcionário do cemitério Parque da Ressureição, em Vespasiano, sempre teve a morte como companheira de profissão. Depois de 30 dias de férias, ele havia retornado ao trabalho ontem e teve um reencontro trágico com a realidade com a qual convive há mais de 20 anos. O coveiro, que inicialmente faria a poda de árvores do cemitério, foi chamado à última hora para fazer um sepultamento marcado para as 10h. Tornou-se uma das vítimas de uma fatalidade. Ele e mais duas pessoas que acompanhavam um enterro morreram quando a carroceria do caminhão placa GTP 0759,

de Vespasiano, que subia a rua São Paulo, no bairro Sélvia, soltou-se do veículo, invadiu o cemitério e foi em direção às 60 pessoas que compareceram ao sepultamento da aposentada Maria Perpétua Neves, de 64 anos, falecida no domingo. O acidente matou ainda o neto da aposentada, Jefferson da Silva Guimarães, de 13, e uma amiga da família, Dercila Peixoto de Carvalho Diniz, de 40. A irmã de Jefferson, Gislane da Silva Guimarães, de 20, o primo Lucas Henrique da Silva, de 14, e Miguel Cardoso dos Santos, de 45, foram socorridos nos hospitais João XXIII e de Venda Nova, em Belo Horizonte. Uma quarta sobrevivente, Luiza Realina Alfredo, de 11, fraturou um dos pés e teria sido socorrida por parentes.

O acidente aumentou o clima de desespero entre os amigos e parentes de Maria Perpétua . O caixão da aposentada foi quase destruído e teve que ficar no chão por horas, até que os peritos da Polícia Civil recolhessem dados técnicos para avaliar as causas do acidente. O motorista do caminhão, Adão Teófilo de Almeida, de 45, foi conduzido à delegacia de Vespasiano, mas não prestou depoimento porque estaria em estado de choque. Segundo o cabo Marcos Vital, da 6ª Companhia Independente da Polícia Militar, ele afirmou que subia a rua do cemitério quando ouviu um barulho e pediu ao ajudante para verificar o que ocorria. “Assustado, o ajudante disse que a carroceria havia se soltado e invadira o cemitério”, completou o policial.

Túmulo salva coveiro
PRETO
SIDNEY LOPES

Mesmo nome, mesma profissão, mas sorte diferente. O coveiro Geraldo Eustáquio Correia de Melo, de 50 anos, também estava trabalhando no cemitério na hora do acidente que matou o colega. Ele preparava as covas dos sepultamentos programados para a tarde, quando ouviu o barulho da carroceria arrebentando parte da tela de arame que

cerca o cemitério. Não pensou duas vezes e pulou dentro da cova que tinha acabado de abrir. “Trabalho há 12 anos como coveiro e nunca havia passado por uma coisa assim. Foi tudo muito rápido. Ouvi o barulho, a carreta entrando no cemitério e, quando vi, já estava dentro do buraco”, afirmou. O funcionário público Eli

Luiz da Silva, filho da aposentada que teve o sepultamento interrompido por causa do acidente, disse que a maior parte das pessoas que acompanhavam o enterro conseguiu escapar por pura sorte. “Não tivemos tempo de fazer muita coisa. Quando percebemos, a carreta já estava entrando no cemitério, levando tudo pela frente”, completou.

q A carroceria atravessou a tela de arame q Ãs 9h30 de ontem, o caminhão subia a

rua do cemitério Parque da Ressureição, em Vespasiano, quando a carroceria se desprendeu.

q Cerca de 60 pessoas que acompanhavam

o enterro ouviram um estrondo.

do cemitério e atingiu em cheio o cortejo. Matou três pessoas e feriu três. Só parou 50 metros depois, pouco antes de uma linha férrea que passa atrás do terreno.

HORROR

Caixão da aposentada ficou no chão por horas, ao lado dos corpos, até a chegada da Polícia Civil

❚ ANEL RODOVIÁRIO / PRIMEIROS OUVIDOS SOBRE ENGAVETAMENTO SEGUIDO DE EXPLOSÃO CONFIRMAM TRAPALHADA

❚ BR-381

Testemunhas complicam policiais militares
TELMA GOMES

A situação dos dois policiais militares apontados como responsáveis pelo acidente no Anel Rodoviário, durante a perseguição a três suspeitos, na manhã de sexta-feira, em frente ao Shopping Del Rey, ficou ainda mais complicada, a partir de ontem. Durante depoimento prestado na Delegacia Especializada em Acidentes de Veículos (Deave), cinco testemunhas foram unânimes em atribuir a responsabilidade pelo engavetamento de quatro caminhões – um deles explodiu e causou a morte de três pessoas – à ação desastrada dos militares. De acordo com o delegado Anderson Alcântara Silva Melo, uma vítima sobrevivente e outras duas testemunhas deverão ser ouvidas hoje. O sargento Alexandre Cláudio de Souza e o cabo Marcelo Antônio Ferreira, lotados na 8ª Companhia do 34º Batalhão, participavam de uma perseguição na avenida Pedro II, região Noroeste da capital, e teriam fechado a pista no sentido Rio de Janeiro-Vitória para evitar a fuga de três suspeitos armados que ocupavam um Escort cinza sem placas. Como o Anel Rodoviário seria a principal opção de fuga, os dois militares interromperam o tráfego na altura do Km 17, provocando o choque entre os caminhões, de acordo com as testemunhas. Os militares serão ouvidos somente na fase conclusiva do inquérito. Eles estão passando também por sindicância interna da PM.

Empreiteira dá início à recuperação
Já começaram as obras para recuperar o trecho do km 395 da BR-381, engolido por uma erosão de 15 metros de profundidade há nove dias. Desde ontem, a empreiteira contratada pelo Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes (Dnit) retira o entulho e se prepara para fazer a drenagem, colocar manilhas e aterrar a cratera. O trecho deve ficar pronto em 45 dias e os motoristas já podem trafegar sem problemas pelo desvio de 300 metros às margens da rodovia. Depois de dias caóticos, com longas filas, protestos e desvios interrompidos, o tráfego na rodovia voltou ao normal. O desvio aberto às pressas pela prefeitura de Bom Jesus do Amparo foi inutilizado. Agora, carros e caminhões usam as duas mãos do caminho alternativo aberto pelo Dnit. São apenas 300 metros de terra cobertos com minério às margens da rodovia, no sentido Belo Horizonte/Vitória. Apenas as carretas mais pesados, com mais de 45 toneladas, não devem passar pelo desvio, que não suporta tamanha carga. No final de semana, muitos caminhões precisaram ser puxados por tratores. A Polícia Rodoviária Federal recomenda aos motoristas dessas carretas que viajem pela BR-356, passando por Ouro Preto, Mariana e Barão de Cocais.

LETÍCIA ABRAS / 02/05/2003

CHOQUE

Desastre começou com perseguição a suspeitos e terminou com três mortos em incêndio que se seguiu à batida entre quatro caminhões
Ontem, o motorista do caminhão GXK-9654, Roberto Márcio dos Santos, de 36 anos, disse que estava no primeiro veículo a ser interceptado pelos militares. Ele contou que um dos PMs apontou a arma em sua direção e deu ordem para parar o veículo. “Fiquei surpreso. Não sei como consegui parar, já que o trecho era uma reta onde os carros trafegam em alta velocidade. Cheguei a pensar que ele ia atirar em mim”, relatou. Como o caminhão estava na pista central do Anel Rodoviário e a viatura, parada na lateral, os motoristas que seguiam atrás de Roberto não tiveram condições de perceber que ele tinha sido parado pelos policiais. “Notei que houve um baque no caminhão, seguido de outros e da explosão. A porta se abriu e eu pulei com meus dois ajudantes. Foi isso o que nos salvou.” O delegado Anderson Melo conta que os ajudantes Márcio Fernandes dos Santos, de 33 anos, e Antônio César dos Anjos, de 34, também ouvidos pela manhã, apresentaram versão semelhante, assim como o vendedor ambulante Célio Dias do Nascimento, de 39 anos. À tarde, foi a vez do policial civil aposentado Manoel Inácio de Souza, de 61 anos, que dirigia uma Belina e também foi parado no Anel. Ele acrescentou que os militares fugiram após perceber que tinham provocado o acidente. “Cheguei a ser levado ao quartel para reconhecer os responsáveis, mas fui liberado antes de ser colocado frente a frente com eles.”

c m y k

CYAN

MAGENTA

AMARELO

PRETO

CYAN

MAGENTA

AMARELO

COMO FOI