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ESTADO DE MINAS - TERÇA-FEIRA, 11 DE NOVEMBRO DE 2003

GERAIS

❚ VIOLÊNCIA

CORREGEDORIA COMEÇA A APURAR DENÚNCIA DE SUICÍDIOS FORÇADOS NO PRESÍDIO JOSÉ MARIA ALKIMIM, EM RIBEIRÃO DAS NEVES, REGIÃO METROPOLITANA DE BELO HORIZONTE, A PARTIR DE CARTAS DE INTERNOS ENVIADAS À SUBSECRETARIA DE ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA

‘Ciranda da morte’ é investigada
MARCELO PORTELA

A Corregedoria da Subsecretaria de Administração Penitenciária investiga denúncia de que uma reedição da “ciranda da morte” estaria ocorrendo na Penitenciária José Maria Alkimim, em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A denúncia foi encaminhada à secretaria por um dos detentos, que foi sorteado para morrer, mas que escapou da forca ao recorrer a funcionários da unidade. A “ciranda da morte” foi um movimento que presos fizeram na década de 80, para protestar contra a superlotação nas delegacias. O movimento, iniciado no Departamento de Investigações, conhecido na época como “Inferno da Lagoinha”, em referência ao bairro onde está localizado, consistia em um sorteio feito entre os presos para ver qual detento seria morto pelos colegas. No caso da Penitenciária José Maria Alkimim, segundo a de-

núncia, no entanto, há diferença do movimento da década de 80. Ao invés de ser morto pelos colegas, o preso que for sorteado para morrer é obrigado a se suicidar, e somente no caso de recusa, ele é morto pelos outros detentos. As denúncias estão em cartas enviadas ao subsecretário de Administração Penitenciária, Agílio Monteiro Filho, e das quais o ESTADO DE MINAS obteve cópias. Coincidência ou não, ontem, mais um preso “suicidou-se” na unidade. Wanderley Marinho foi encontrado enforcado em sua cela. Ele é o quarto preso a morrer da mesma forma desde agosto passado. No dia 11 daquele mês, Felipe Ronan Ferreira foi encontrado morto em sua cela. Três dias depois, foi a vez de Rondinelli Santos de Almeida “suicidarse”. Em 5 de outubro, mais um preso, Marco Aurélio da Paixão, é encontrado morto por suicídio em sua cela. As cartas com as denúncias sobre a “ciranda da morte” fo-

ram redigidas poucos dias depois. São escritas à mão e contêm a assinatura e a matrícula do preso, cujo nome é mantido em sigilo, por questão de segurança. Ele afirma que foi sorteado e deveria ser o próximo a morrer, mas pediu ajuda aos agentes penitenciários, que o transferiram de pavilhão e depois o levaram para a cela chamada “seguro”.

DEPOIMENTO
O preso confirmou as denúncias em depoimento prestado ao diretor de segurança da unidade, na presença de três testemunhas. “Estou no ‘seguro’ sem poder tomar banho de sol, pois os presos querem me pegar por eu ter falado o que está acontecendo”, diz, em uma das cartas. “Os suicídios que aconteceram aqui estão todos relacionados à ciranda”, diz, em outra. “A denúncia é grave e já a encaminhei para ser apurada pela corregedoria”, observa Agílio Monteiro.

MARCELO SANT’ANNA

PRISÃO

Detentos estariam fazendo sorteio entre eles para indicar quem deve morrer, segundo as denúncias

❚ TRÂNSITO

País desconhece o número de mortos
O Brasil desconhece as principais características dos acidentes e das vítimas de trânsito. O número de mortos no País pode ser seis vezes maior que as 20.039 vítimas fatais registradas pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) em 2001, de acordo com o diretor do Hospital João XXIII, Charles Simão Filho, estudioso do assunto. “No Brasil, morrem 130 mil pessoas todos os anos”, informa. O descompasso entre os números oficiais e as estimativas de pesquisadores está na forma de registrar os dados. Se uma vítima morrer no hospital, por exemplo, nenhum órgão de trânsito condiciona o óbito ao acidente. “Não sabemos o tamanho de nosso problema”, admitiu o diretor do Denatran, Ailton Pires, durante visita ao Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais, no início do mês. O órgão estuda formas de mudar a coleta de números e informações. “Estatística é sempre um drama porque sempre ignora o pós-acidente”, lamenta Rosana Antunes, coordenadora do Núcleo de Mobilização do Trânsito do Instituto Newton Paiva, que presta atendimento psicológico e jurídico à vítimas e parentes de quem se envolveu em acidentes. Ela diz que, além de serem falhas, as estatísticas não revelam o sofrimento nem a luta dos sobreviventes, dos mortos e de seus familiares. “Em muitos casos, pais adoecem e até morrem por não suportar a dor da perda”, diz Rosana. Foi o que ocorreu com o pai de Aleulebiretes Tadeu Brandão Lopes, de 14 anos, que engrossou os números de vítimas não fatais de 1999. Ele foi atropelado por um coletivo no bairro Padre Eustáquio, Noroeste de BH, mas perdeu as duas pernas e o braço esquerdo. “O pai dele já sofria do coração e não agüentou ver nosso menino assim”, conta Marinês Lopes, que espera indenização da empresa de ônibus para comprar uma cadeira de rodas motorizada para o filho.

VIOLÊNCIA NO TRÂNSITO EM BH
Total de acidentes: Vítimas fatais Vítimas não fatais Atropelamentos Colisão Capotamento Choque com objeto fixo Outros
Fonte: BHTrans/Detran/Denatran

JAIR AMARAL

VÍTIMA

2001 10.911 315 12.778 3.902 904 745 904 523

2002 9.734 155 11.657 3.267 não informado não informado não informado não informado

VARIAÇÃO - 10,78% - 50,7% - 8,7% - 16,2%

Estagiários de medicina farão plantão 24 horas em hospitais para identificar locais onde ocorrem acidentes

Pesquisa indica pontos críticos
MARIANA RAMOS E FERNANDA ODILLA

Atropelamentos são maiores ocorrências
Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo acumularam 52,6% do total das mortes registradas em acidentes de trânsito nas capitais brasileiras em 2001. O atropelamento é o grande vilão das ocorrências na capital mineira, que registrou no ano passado três vezes mais vítimas fatais que em 2001. Foram 224 óbitos contra 73 no ano anterior. Mas levantamentos da BHTrans revelam que os motoristas da capital mineira foram mais cautelosos no ano passado. Em 2002, BH registrou queda de 10,78% no número de acidentes e de 50,7% na quantidade de mortes contabilizadas no ano anterior. Apesar da redução significativa, condicionada principalmente à agilidade das equipes de resgate, o número de feridos e de acidentes não caiu tanto quanto se esperava. Os atropelamentos continuam engrossando as estatísticas. Em 2001 e 2002, foram responsáveis por mais de 60% das ocorrências registradas. Para os departamentos de trânsito, culpa de pedestres e de motoristas. E, na maioria dos casos, quem estava à frente do volante eram homens entre 18 e 29 anos com carteira de motorista. Em 2001, 13.469 homens e 329 mulheres conduziam veículos na hora dos acidentes. Em Belo Horizonte, mais da metade dos acidentes acontecem à noite.

A Prefeitura de Belo Horizonte começou ontem, em parceria com três hospitais, a coleta de dados para a Pesquisa em Acidentes de Trânsito. Quarenta e três estagiários de medicina farão plantão 24 horas, durante 30 dias, no Pronto-Socorro João XXIII, Pronto-Socorro de Venda Nova e Hospital Municipal Odilon Behrens. Com as informações, técnicos da BHTrans farão estudos para modificar o trânsito nos locais mais perigosos da cidade. O último levantamento deta-

lhado dos acidentes de trânsito na capital foi feito em 1994, em cinco hospitais. Desta vez, o número de unidades foi reduzido, mas o secretário municipal de Saúde, Helvécio Magalhães, afirma que não haverá problema, pois os hospitais escolhidos atendem mais de 90% das vítimas de acidentes. A prefeitura está investindo R$ 60 mil na pesquisa, que poderá receber verbas do Ministério da Saúde, depois de consolidadas as informações para realizar campanhas de conscientização. Em 1994, durante um mês de pesquisa, foram registradas 1.133 vítimas, com 33 mortes.

Em 54% dos casos, as vítimas foram levadas a hospitais em carros particulares. Um índice que pode ter alterações na pesquisa deste ano devido à implantação do serviço de resgate da prefeitura. Atualmente, a administração municipal tem seis ambulâncias. Até junho de 2004, deverá contar com 25, com Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, do governo federal. Com os dados consolidados, a BHTrans vai projetar mudanças no trânsito da capital. Por mês, são investidos cerca de R$ 2 milhões em sinalização na cidade.

ACIDENTE
Um acidente no km 441 da BR-381, em Sabará, Região Metropolitana de Belo Horizonte, deixou um morto e mais de dez feridos, ontem. Segundo a Polícia Rodoviária Federal, o motorista do Fiat Ducato placa GZW 9622, Dennis Soares Fio, de 27 anos, teria dormido no volante e invadido a pista contrária, batendo de frente com a Kombi placa GUJ 3062, que transportava 13 pessoas. O motorista do veículo, Herbert Magno dos Santos, de 39, morreu na hora. O motorista da Ducato teve ferimentos graves e foi levado para o Hospital João XXIII.

❚ MISTÉRIO

Ex-prefeito assassinado com três tiros
O ex-prefeito de Igarapé José Gabriel Resende, o Zinho, foi assassinado, na noite de domingo, em sua casa em São Joaquim de Bicas, a 39 quilômetros da capital, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Ele levou três tiros durante suposta tentativa de assalto. Dois homens, ainda não identificados pela polícia, entraram em sua casa, às margens da BR-381, por volta das 21h, renderam cinco parentes que estavam na varanda e anunciaram o assalto. Zinho reagiu, os ladrões o balearam e fugiram, sem levar nada. Apesar da suspeita de vingança política, pois nada foi levado, o delegado de homicídios de Betim, João Bosco Rodrigues Silva, descarta a possibilidade. Ele assumiu as investigações, já que o delegado local, Marco Túlio Fabel, está preso no Departamento Estadual de Operações Especiais (Deoesp). Silva trabalha com a hipótese de tentativa de assalto seguida de assassinato. Outra tentativa da assalto, na avenida Antônio Gabriel Resende, onde está a casa de Zinho, sustenta a tese do delegado. Ele informa que dois homens, com as mesmas características dos suspeitos de matar o ex-prefeito, tentaram assaltar um carro, por volta das 18h. De acordo com Silva, os suspeitos queriam levar o carro de Zinho, que estava na garagem. O filho da vítima, Sérgio Resende, também reagiu e levou dois tiros, mas passa bem. Foi decretado luto oficial, ontem, em São Joaquim de Bicas, pelo prefeito Antônio Carlos Resende (PMDB), filho de Zinho. O ex-prefeito foi responsável pela formação da cidade. O município, que até 1996 era distrito de Igarapé, surgiu do loteamento de uma fazenda da família de Zinho. Ele era dono de vários estabelecimentos comerciais. Ele foi prefeito duas vezes, uma na década de 70 e outra nos anos 80.
EULER JÚNIOR

ZINHO

José Gabriel Resende (detalhe) foi velado e sepultado ontem