ESTADO DE MINAS - SEGUNDA-FEIRA, 24 DE NOVEMBRO DE 2003

PÁGINA 15

GERAIS
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❚ RISCO EXPOSTO

COMBINAÇÃO DE PROBLEMAS NA PISTA, CHUVA E ÓLEO DERRAMADO POR VEÍCULOS PESADOS FAZ DOS 55 QUILÔMETROS ENTRE BELO HORIZONTE E NOVA UNIÃO UMA SUCESSÃO DE ARMADILHAS. EM MÉDIA, DOIS ACIDENTES POR DIA ACONTECEM NO LOCAL ONDE, EM APENAS UM ANO, FORAM REGISTRADAS 35 MORTES

Trecho minado na BR-381
LANDERCY HEMERSON

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A BR-381, que em 2002 respondeu por 32% dos acidentes com vítimas em toda a malha rodoviária federal que corta Minas Gerais, conforme dados da Polícia Rodoviária Federal, tem na Região Metropolitana de Belo Horizonte um de seus mais arriscados trechos. Nos 55 quilômetros entre a capital e Nova União, em que são contabilizados, pelo chefe do policiamento da PRF na Grande BH, inspetor Clóvis Cendon Junqueira, 21 pontos críticos – curvas acentuadas, ondulações na pista e falta de sinalização – morreram 35 pessoas, ou 13% do total de 270, registrado nos 760 quilômetros da rodovia em território mineiro. Apenas neste trecho, foram 709 acidentes ao longo do ano, beirando a média de dois desastres a cada dia. Das 3.054 pessoas feridas na 381, 459 (15%) foram vítimas de acidentes no curto percurso da Região Metropolitana de BH. Com a chegada das chuvas, um novo ingrediente contribui para tornar o trecho ainda mais sangrento: o asfalto escorregadio, resultado da mistura do óleo diesel – derramado nas curvas fechadas por caminhões, carretas e ônibus – com a água de chuva. Motoristas que trafegam com freqüência pela rodovia falam de situações de risco que viveram em derrapagens e rodadas na pista. “Por duas vezes, rodei em curvas da BR381. Em uma delas, abusei da velocidade, mas houve uma situação em que o carro derrapou na camada fina de óleo e água, mesmo em velocidade reduzida”, recorda o vendedor Alexandre Klein Fernandes, de 43 anos. Para ele, o trecho é dos mais perigosos, devido à pista sinuosa e ao elevado tráfego de caminhões que deixam a capital com o tanque cheio e derramam óleo no asfalto. Mas nem sempre o resultado é apenas um susto, como o vivido pelo vendedor Alexandre. Há uma semana, um trágico acidente com o Kadett GOM 4008 matou seis pessoas – cinco de uma mesma família – que seguiam para Guanhães, Vale do Rio Doce. O carro escapou numa das curvas do km 434, em Ravena, e foi parar debaixo de uma carreta. Mo-

mentos antes do acidente, um Vectra derrapou no mesmo ponto e saiu da pista. O inspetor Clóvis Cendon Junqueira confirma que no trecho do acidente, que já começa a ser chamado de “Curva do Kadett”, o óleo combustível e lubrificante se soma à sujeira, tornando o asfalto escorregadio. “A placa chama atenção para a curva, sem destacar que a pista é escorregadia. O asfalto é antigo, com remendos que formam ondulações e aumentam os riscos”, explica o policial. Clóvis Cendon lembra que o artigo 231 do Código Brasileiro de Trânsito estabelece como infração gravíssima o derramamento de óleo combustível ou lubrificante nas vias. A multa é de 180 Ufirs – cerca de R$ 190 –, com retenção do veículo até a regularização do problema. O motorista deveria ainda ser punido com sete pontos em seu prontuário. “O difícil é o policial configurar o vazamento do óleo. Manchas no tanque ou chassis podem ser justificadas como derramamento na hora de abastecer”, afirma o inspetor.

DIFICULDADES
FOTOS SIDNEY LOPES

O diretor-geral do Departamento Nacional de Infra-estrutura em Transporte (Dnit) em Minas, Alexandre Silveira, admite que o trecho está entre os mais críticos. Morador do Vale do Aço, Silveira destaca que também são precários os quase 50 quilômetros até João Monlevade. “A demanda é superior aos recursos. No trecho em questão, de imediato fizemos intervenções para conter as erosões e sinalizamos o asfalto. Nas curvas acentuadas foi instalada sinalização vertical e, em dezembro, será implantada a sinalização horizontal, com placas nos pontos de maior risco”, garante. Somente a partir de março de 2004, depois das chuvas, começa a recuperação do asfalto. “Serão 2,6 mil quilômetros em várias rodovias e já estamos em fase de licitação”, diz.

ÓLEO

Não só as impróprias condições da via, mas também a irresponsabilidade no abastecimento e manutenção dos veículos pode causar tragédias

Ocorrências assustam até policiais
As estatísticas são assustadoras quando se comparam os números de acidentes nos quilômetros da BR-381 que separam Belo Horizonte de Nova União com outros percursos. No ano passado, foram 709 acidentes no trecho de 55 quilômetros da 381, ou 12,8 para cada quilômetro de rodovia. No mesmo período, nos 816 quilômetros da BR-116 (Rio/Bahia), foram registrados 1.849 acidentes, ou 2,2 para cada quilômetro de estrada. A policial rodoviária Alynne Leal Vale está na PRF há mais de dez anos, nove deles atuando em rodovias federais no Piauí, além de alguns meses em Brasília (DF). Em sete meses na Grande BH, trabalhando ao lado do marido, o inspetor Clóvis Cendon, ela se diz assustada com o número de acidentes no trecho até Nova União. “Em poucos quilômetros deu para perceber os pontos críticos. Mas foi só começar o período de chuvas e vi que a situação era ainda pior. Mesmo com mais de uma década de PRF, fiquei chocada com o acidente entre o Kadett e a carreta”, admite Alynne. Segundo ela, basta o tempo fechar e todos os policiais que atuam na área entram em estado de alerta. O caminhoneiro Rodrigo Gonçalves, de 22 anos, mesmo com indícios de vazamento no tanque de seu caminhão, reconhece que o óleo na pista aumenta o risco de acidentes nos dias de chuva, no sinuoso trecho da BR-381. “No asfalto escorregadio não há o que se fazer para evitar acidente. Sempre que possível evito que os frentistas encham o tanque até em cima. Mas é só descuidar para eles colocarem diesel até derramar no tanque”, defende-se Rodrigo. do ônibus para alertar sobre o risco do óleo na pista”, conta Adalton. Nos tanques dos veículos da empresa, suspiros e uma proteção com drenos em volta do bocal evitam o derramamento de diesel. Conforme o inspetor Clóvis Cendon, cuidados adotados pelas montadoras têm reduzido em muito o derramamento de combustível. “Os grandes frotistas são os mais interessados em evitar o desperdício e com isso contribuem para a segurança das estradas”, avalia. Cendon destaca, porém, que faltam ainda soluções para evitar os resíduos de óleo lubrificante, como o que sai dos suspiros de motor, e outras partes até mesmo de veículos de passeio.

INSTRUÇÃO
O instrutor de motoristas Adalton Zacarias Marques, da empresa de ônibus Pássaro Verde, foi destacado para treinar os funcionários, com enfoque sob os riscos de dirigir na chuva. “Além de aulas práticas, colocamos lembrete no painel

Uma coleção de histórias tristes
No trecho crítico da BR-381 na região metropolitana, não são poucos os testemunhos de pessoas que assistiram a cenas trágicas. Romero Fernandes Barreto, que há cinco anos trabalha com seu irmão no Socorro Sion, em Roças Novas, fala com naturalidade das ocorrências e lembra detalhes das de maior repercussão. “Em dias normais, a média é de dois acidentes por dia. Mas bastou chover e esse número aumenta em até dez vezes. Depois da estiagem de quatro meses, quando veio a primeira chuva, em outubro, foram 22 acidentes em 24 horas. A maioria, carros que saíram da pista”, conta Romero. No socorro são comuns as visitas de inspetores de seguradoras em busca de detalhes sobre os casos que envolvem seus clientes. “Quase sempre eles querem saber se a pista estava escorregadia”, afirma. A dona de casa Terezinha Anastácia de Freitas, de 42, é uma das muitas pessoas que moram às margens da rodovia e pela janela de seu barraco assistem aos acidentes. Foi assim com a tragédia do Kadett que matou seis pessoas no km 434. “Foi só começar a chuva e um Vectra saiu da pista. Não demorou e vi o Kadett rodando na pista até bater com a carreta. Chorei a noite toda e não consegui dormir”, conta, com lágrimas nos olhos.

ROTA DO PERIGO
BR-381/ BELO HORIZONTE - NOVA UNIÃO
Km 441 - “Curva da Igrejinha”,

acentuada e sem placa de sinalização
Km 437 - “Curva da Favelinha”, no

CAMINHO DA MORTE
Terezinha mora há dois anos no local com o marido, o operador de máquinas Alcebíades Sobrinho, de 44, e o filho, Paulo Henrique, de seis. A criança, entre seus brinquedos, tem algumas peças de carros acidentados na curva. “Aqui é o caminho da morte, mas não tenho para onde ir”, lamenta Alcebíades. A menos de um quilômetro, o caseiro Elton Paiva Santos, de 33, há sete anos trabalhando na região, se esforça para evitar os acidentes na “Curva da Globo”, junto com seu irmão. “Nos dias de chuva, nós ficamos cada um de um lado da estrada sinalizando com as mãos para os motoristas reduzirem a velocidade. Desde que eu e minha mulher fomos à igreja orar pelo fim das tragédias, Deus tem nos respondido e há tempos não se fala em acidentes aqui na curva”, comemora Elton.

AJUDA

O caseiro Elton costuma advertir motoristas nas curvas mais traiçoeiras

sentido BH/João Monlevade, pista escorregadia Km 436 - Seqüência de curvas em “s”, com pista inclinada sujeita a vazamento de combustível Km 435 - “Curva do Ferro-Velho”, no sentido João Monlevade/BH, pista escorregadia Km 434 - “Curva do Kadett “, derramamento de diesel, escorregadia nos dois sentidos Km 430 - “Curva da Ravena”, longa, com derramamento de combustível Km 425 ao 423 - Seqüência de seis curvas, declive em direção a BH, risco em ambos sentidos Km 419 - Ponte estreita em curva, sem sinalização de advertência Km 417 - “Curva da Coló”, acentuada inclinação no sentido João Monlevade, com derramamento de diesel Km 394 - “Curva do Japonês”, longa, derramamento de diesel, escorregadia nos dois sentidos BR-381 (Leste mineiro/São Paulo) 760 quilômetros em Minas 5.435 acidentes 270 mortos 3.054 feridos BR-381 (trecho de BH/Nova União) 55 quilômetros 709 acidentes 35 mortos 459 feridos
Fonte: Polícia Rodoviária Federal/MG

BR-040 (Rio/BH/Brasília) 814 quilômetros em Minas 2.933 acidentes 158 mortos 1.869 feridos BR-116 (Rio/Bahia) 816 quilômetros em Minas 1.849 acidentes 155 mortos 1.285 feridos

CYAN c m y k

ROTINA

Romero se acostumou com a escalada de acidentes no período chuvoso

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MAGENTA

AMARELO

PRETO

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AMARELO

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