Tenente-Coronel Sarmento (Alberfo Artur

)

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Batráqueos
Arquipélago da Madeira
Tenente-Coronel Sarmento (Alberfo Arfur)

Ptiiieh»l-Madei 1.2:
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'I'ip. «DIARIO DE NOTICIA Sn

.Tiragem de 150 exemplareb

Trabalhos pubiicadw t
As Uesertan--Monografia de um grupo de ilhotas. AR ~ v i ~ e n ~ - ~ o n o ~ r um i a de i f grupo de' ilhotas. O Ti'un~hrrl--(2.~ edição)- Publicação comemorativa do quadriczntenArio da Cidade. OIS alicerces para u Qistória niilitar da Madeira-conferencias no quartel do R. I. 27.

bscendêicia, natirralidadt4 & Mrrdanqa de nome he João Fernandes Vieira--Bosquejo histórico. As Migalhas- ( 2.' edição)- -Contos e esbocetos. Um ponto de História Pátria--Conferencia no quartel do R. I. 27. tlistórla Militar da Madeira-Rnsaio documentado. Corografia elementar do arquip6lago & ~addeira-NO* mínimas.- (2.' edição) Louvada pela Junta Geral ~ u t ó n o k a Distrito do Funcliol. do IIorneiiagein a João Femandes Vieira-Discurso na inauguração do seu monunieiito. ' * hf:~deira-1801-02; 1807-1814-~otas"e documentos sobre'a ocupação inglesa. Uiii auto na ~ r h a d a - ~ o n t Ó iegional.' Santo António de LisMa bosquejado na Madeira-No VI1 centenhrio d a sua ,glória, A Madeira e a s P r a w s de Africa-Esforço antigo madeirenae.

'1s Freguesias da RIadei<.a-CdecçBo de monografias.

apreientatla 6 Comissão de HistÓkia M:litar. 3 ICcs,,, d : ~ uMarij-tih Fonte» na hadeira-~istória local. Mric<las, SBlos, $&e1 Selado e Medalhas na ~adeiraLEleinentosWra ou cplecionadores. Vsquias da meira-Retalhos históricos. O s peixes dos mares da Maüeh-Em colaboração com Adolfo de Noronha. Au aves do arquib611ago da Madeirh-Indígenas e de passagem. RTalnífcros do ariuipblago da ~adeim-hdigsnas e introduzidos. ~iibsídiopara o &$tudo d a i Formigas ' da ~adeik-lntligenas e ' i'hLroduzidas. O s e;ci-avos na &&deira--~istória local. Leida de pedra2eminiscênc:as &e Vulcano, na Madeira. Ensaias h'i~-órico;da minha'~erra-Elementos para a História da Madeira. ILil~as Made&@-Retalhos históricos. da lI&litPis:<' '~athi~kicos-1ndi&nas e intímduzidos

Notícia liistórioo-militar sobre a Ifha do Parto Santo-Memória

T e d ,&do notácia dos Mamiferos, Aves e Peixes do Arquipélago da Madeira, em separadps trabalhos dc vulgarizqãu, faltava completar a lista dos Vertebrados, indicando os Repteis e Batráqueos que se cncontrwm nestas ilhas. Nüo tem êste trabalho pretensão científica. Moldado nos ante7.iomate publicados, sôbl-c ciêtlcias da Naturesa, restrktos ao nosso meio, é u m com.plemento necessário que se impunha, ligeiro, com o rcsultado de observações pessoak e o fundamento preciso na consulta dos livros &a especia.l&tde, embora nem sempre digam o que se procura saber, referente aos hábitos dos an$ma*.

Répteis

Na classificação de Lineu, achavam-se os vertebrados de corpo achegado á terra, movendo-se sobre o solo, ou ainda alguns, passando uma fase da vida no seio das águas, conglobados na classe dos Reptílioa. Laurenti chamou a lagartixa, u m réptil andante; e a rã, um répfiii saltante, mas as diferenças entre êstes animais são tão manifestas, quc para o segundo, foi necessário criar-se a classe dos Batráqueos.

E m todos os sistemas de classificação, se passa do maior agrupamento, sucessivamente dividido e subdividido, a outros menores, até ficar o indivíduo bem assinalado no último quadro de representação.
A lagartixa e a osga estão na ordem X a t ~ r i a ; cágado e a tar-taruo ga, na Chelonia. A rã, na Ecaudata.
A lagartixa pertence á família Lacertidae; a osga, á Gekonidae. O cágado á Testudinidae; a tartaruga, á Chelonidae. A rã, á Ranidae.

Vem assim descendo, separadamente pelos característicos mais afins, até chegar-se á família com os seus géneros e dos géneros ás es1)4cics,mas ainda se pode continuar esmiuçando variedades, etc.

A LAGARTIXA

A lagartixa tem o corpo coberto de escamas; unia ou iiiais placa:; sc notam na cabêqa, com o focinho aguçado e olhos pcqueninos; a boca. :ião dilatavel, e a língua extensível, bífida, isto é, terminando em duas pontas. Mo-ve-se com dois pares de patas, cada uma com cinco &dos. Na c1assificac:ão das iagartixas'são factores i m p r t m t e s o formato do corpo e da cab>ça, as placas que apresenta, a s fiadas de escamas no dorso, no pescko, c seu arranjo, o comprimento da caiida em relação ao corpo.

A lagartixa existente no arquipélago da Madeira C muito próxinia da Imerta rnura1i.r (Laur.) espécie europeia, e provavelniente, dela niodif icada. Diferenciações marcantes, obtidas no meio insular, levaram á criação duma separada espécie, por Milne Edwards que a dedicou a Dugks, coni o nome ciêntifico de Laccrta dugesii. Encontrada tambem nos Açores e Canárias, vê-sc que faz parte d-t fauna ,nacarcnésica que abrange estas ilhas, em conjunto.

Por ocasião do reconhecimento da Ilha da Madeira, não foram encontrados bichos pcçonhentos, como em outras partes, senão «humas lagartixas pequenas, tamanhas de hum dedo que não f;r.zem damno notavel nem são peçonhentaw. (1). No estado seini-fóssil, nos terrenos calcáreos e áridos da Piedade,
( 1 ) Sairdades du Terra

- L.o 2.0 Cap. XíII

-na Ponta de S . Lourenço,-de mistura com carapaças de moluscos, encontra-se, embora raramente, vértebras e maxilas de lagartixas quc cxistirarii anteriormente á colonização. Vem sendo dito que da Madeira foi obtida uma Lacerta galloti Dum., mas houve nisso uma certa confusão com a proveniência provavel das Canárias, ou troca de etiquetas nos exemplares submetidos a estudo. O primeiro naturalista que a menciona, refere já a opinião de UIII outro que a não examinou, in h o , mas sim, no i9eu gabinete. Godman, (1) baseando-se em Drouet, cita a L. dugesii, uma laga&iira por êste observada na Ilha Graciosa, que é espécie peculiar nos grupos atlânticos, sendo, até então, conhecida sómente na Madeira e Terierife. Acrescenta, porém, que a L. galloti é considerada pelo Dr. Gunther, como peculiar á Madeira, mas, o certo é, nunca ter sido colhido nesta. ilha, indivíduo algum dessa espécie. Johnson, (2) na. 3:' edição dum livro sobre a Madeira, em que introduz alguns capítulos sobre a fauna, referindo-se aos repteis, diz quc o único terrestre encontrado é a L. dugmii M. Edw, observada em to dos os muros onde bate o sol, tornando-se uina verdadeira praga na devastacão das uvas. Notou que a sua coloração varia bastante, aigumas vezes quási preta., outras, verde azulada, mas vulgarmente pardacemta. Na verdadé, o manto escamoso das lagartixas apresenta bem diSe rentes tonalidades, mas não são tão arbitrárias, como á primeira vista se pode supor. E' preciso atender, que, entre o bando, há juvenis e advltos, e unia certa fatiota é mais apropriada aos machos, os quais, quási sempre, apresentam maior desenvolvimento. Em pequenas, as lagartixinhas vestem-se com uma roupagem muito
( 1 ) Natural History of the Azores or Western Islands - Frederick du Cane Cotlman. London. 1870. ( 2 ) James Yate Johrison - Madeira Its Climate and Bmnery. London, 1885.

semelhante á das mães. Vão-se descamisando, por succssivas mudas, depojam-se do fato apertado pelo crescimento do corpo, tendo a fàculdade de o renovar ou modificar consoante a idade e a estação.
A L. dzcgesii não tem uma coloração uniforme, predominando a pardacenta, acastanhada ou de cambiantes terruscas, correndo-lhe no dorso uma tira longitudinal mais escura, alinhavada, aos lados, com pontuações claras ou esbranquicadas, nem sempre apresentanQo o cabeção ou semi-coleira que lhe orla o pescôço. O tipo marcante sofre, porém, profundas alterações, quer na cor. geral, que passa a verde, cinzenta ou negra: qiier no !.nanto. sarapintado, no todo ou em parte. Estas colordções ainda podem ser inixtas qu bipartidas, especialmente na época das mudas dos adultos, observandose uns de corpo pardo e cauda verde, etc. Os machos, atingindo uma maior corpuIência, têm a tiéstia mais gar rida, pardo-mármore ou pedrada, em verdemontanha e verdenegro, :1 esbater para as ancas. O ventre das lagartixas é sempre claro, branco, amarelento, róseo ou azulado, mais tinto, junto á fenda cloacal.

Percorrendo as zonas da sua distribuição, póde observar-se, de grosso modo, que : -as lagartixas negras vivem no litoral, pelo jusante das ribeiras e praias piscatórias, onde a principal alimentação é procurada nos debulhos de peixe e dejectos; -as pardas e as cinzentas encontram-se nas margens das ribeiras e terrenos da encosta e enxameiam pelos monturos, á caça de insectos e larvas ; -As mais variadamente coloridas aparecem' nas terras cultivadas, onde não lhes falta subsistência, á escolha. Do escalvado crú, á planície verdejante, variam as condições térmicas e os elementos duma flórula destribuida e escalonada em diferen-

tes recursos de alimentação, e assim, necessáriame1:te influem as condições do meio no revestimento da lagartixa. Desde o litoral pedregoso, até a montanha, onde se encontre uma habitação, êste lacertideo acompanha o homem, pr.ra se aproveitar de alguns frutos do pomar ou da horta e ainda dos reslos de comida e despojos da cosinha, lançados aos animais domésticos, furtivamente frequentando a s capoeiras e pocilgas. Fazem a sua morada, entre calhaus rolados na praia ou nas margens das ribeiras, onde normalmente a água não atinge; nas vedações de pedra solta, nos muros velhos, arregôas das paredes e agulheiros sêcos; nas fendas das rochas; ou nos troncos vetustos de lenho carcomido. As que vivem entre os pedregulhos das praia:: são algumas vczcs silrpreendidas por um mais alto preamar de levadia. Deslocam-se, então, a-seguro, para as rochas de cota dominante, longe dos salpicos salinos, e ficam-se, como a esperar que a fúria acalme e a habitação enxugue, para retomarem a sua proprie lade pedranceira. Associam-se em colónia ordeira, com certa organizeção no conjiinto. sendo notado, acarretarem para a s tácas, alimento de armazenagem. Nas moradas das lagartixas, encontra-se carapaças vasias de caracois, o que parece dar a entender ser repasto delas, durante o inverno. Em dias de sol, veem á entrada do abrigo, inostrando a cabêqa, (!e-fóra, num reconhecimento prévio antes de seguirem para a exploracão. Parece haver determinada obediência a um chefe que dá sinal do alarme, em ocasião própria, pois é seguido na mesnia correria, nas ocasiões de perigo. Em chegando, porem, o tempo dos amores, acabou-se a ordem cbservada. Cada macho, vestindo a jaqueta nupcial, verde-azulada, enfeita-se para a conquista e recrutamento das suas noivas. O cio torna-o feroz, e dão-se, então, cênas violentas, com mordeduras desenfreadas, entre êles, que se arremetem, estrebuxam e se enroscam, procurando, de preferência, ferir-se nas guelas.

AssiStem a s fémeas, sem pavor, e não distantes, estáticas, a esta pugna brutal, para premiarem depois o vencedor com o seu condescendeiite afecto. O vencido, sem alento, muitas vezes, deixando o rabo perdido 11% arena, - a s vértebras estorcidas em convulsões elacbnos, - afastasc meditabundo, e desiludido pelo azar da sorte. Procuram as lagartixas, na materriidade, um lugar escuto c dscuso, onde abandonam, entre os meses de abril a maio, os ovos, tehdo ali o calor necessário para a incubação. Rstes, teem a forma aIongada, frouxos, de revestimento perghminoso. brancos ou tendentes ao verde tenro desmaiado. As lagartixinhas, rompendo em pouco tempo, o invólucro brando, apresentam-se completamente formadas e de coloração indecisa e neutra, predominando a pardacenta. Pelo verãor, é o maior numem delas, acrescido p&s Últiirias postu- maduras 19% importantes, pela inras. Os estragos causadm nas a constante passagem no ataque de rim cacho para outro. Com a s maxilas s e r r i b d a s , em f ó m de pqueninos dentes, rompera a bago, e nesta operação, veem sendo perseguidas p@ outras que julgam ser êsse o mais saboroso e cedem a s primeiras 1-0 o seu lugar, visto haver muito ainda a escolher. Aproveitam-se, então, a s vêspas e abelhas, do bago ofendido, para o sugar mais facilmente. Nas culturas das hortas, a s lagartixas preferem o fruto maduro do tomateiro, e nos pomares, a s ameixas sazonadas. Para dar cabo delas, inventaram-se armadilhas, sendo a s mais vulgares os lagartixeiros, formados por vasilhas altas, quadrangulares, de folha de Flandres, em que se importa o petróleo. Depois de estaseadas e tirado o tampo, são queimadas no interior e beneficiadas com uma. la.,agem de água de cal, para Ihes anular o cheiro. Na abertura, fixai-il-se &das vergas opostas, ao meio das faces, enf-ianclo-se, em cada uma, dois canudos de cana, e no cruzamento das duas, ao cimo da abertura da vasilha, põe-se o engôdo-um tomate, um figo, etC. Os lagartixeiros são colocados de encosto a um muro, á estaca dii-

ma latada, a um tronco de arvore, por onde as lagartixas costumam transitar, e atraídas pela isca, tentam passar o canudo, em ponte, que sendo escorregadiça, balouça e rola, atirando com a lagartixa para o fundo da vasilha, de paredes lisas, donde não pode trepar para se evadira,;é-b:,-: E assim, sucessivamente, váo tombando mais outras. /A, -- f . Na Ilha do Porto Santo, os lagartixeiros ficam enterrados na areia, de boca-aberta, a9 nivél do sólo. Quando o numero das capturadas é já bastante grande, lança-se-lhes água fervente, e é vêr a dança macabra de saltos e o estrebuxamento, até sucumbirem. O odor emanado é repugnante. Os garotos, no campo, divertem-se com as lagartixas, armando-lhes um laço formado pelo caule flexivel e fino do balanco, Avena barbata Brot., pondo-lhe uma bolinha espumante de cuspo, no extremo, achegan

< . c: .

A lagarlina
Lacerta dugesii
rediizide ; i iiietade do tainanlio nntiiri11.

do-a Q lagartixas, quando repimpadas ao sol, a latejar o coracão. Na. ocasião da lambeílela, enfiam-lhe o laço na cabêça e o animal fica práticamente na forca, obtendo destarte uma cambulhada, nilaudido, jubiloso, aquele que caqou um maior número. Considerada a lagartixa um animal daninho, as correições recomen davam se lhe désse caça. Antigas posturas camarárias obrigavam os moradores a apresentar em certo dia, pelo verão, u n ~determinado numero de rabos de lagartixas, sob pena de multa. No Porto Santo passaram a construir-se os muros, de vedação, com pedras dispostas em xadrez, deixando aiternadamente espaços ou olheiros sem protecção para as lagartixas. Este dispositivo pítoresco recebeu o nome popular de muros & crochet.

A lagartixa é um animal inofensivo. Certos preconceitos a fazem temida, especialmcnte das mulheres, mas não existe nela maldade manifesta, nem a s intenções que lhe querem atribuir. As pequeninas unhas, em forma de ganchetas, no extremo dos dedos, podem causar um certo arrepio, em contacto com a pele, sem nenhum dâno, mas há pessoas que se temem duma lagartixa, como do diabo. Não podem conter-se, quando julgam que este animal se lhes introduziu sob o fato. Saltam, guincham, sacodem-se, esperneam, e se realmente, a têm consigo,-chegam a desabotoar-se, com tal pressa, que arrebentam casas c botões da vestimenta.

Em certa ocasião,-já lá vão bastantes anos-festejando-se um aniversário em casa duma família cerimoniosa,dançava-se «lanceiros» quando a meio dos cumprimentos, uma menina divizou uma ininúscula lagartixa, impassível, num cortinado da sala. Instintivamente, começou a gritar, pálida e trémula, apontando para a janela. Estabeleceu-se uma enorme confusão e no dispersar da dança, subiram senhoras para os sofás, aqanhando as saias, um encontrão num contador fez tombar uma estatueta, em cacos. Acudiu a criadagein, a mordida de riso, até que o cosinheiro, trepando b baiiqueta do piano, agarrou a pobre lagartixinha atónita, que mal adivinhava ter sido a causa de tamanho borborinho. E' uma questão de educação e temperamento. Observêmos, agora, uma cêna oposta : Numa das nossas praias basálticas, uma estrangeira original, costumava depois do banho salgado, estender-se num abandono sobre as pedras, buscando na hélioterápia dolente, o calor reconfortante do enxugo. Para matar o tempo da exposição luminosa, ia triturando bolachinhas e espargindo migalhas ás lagartixas que se aproximavam, e de tão familarizadas atreveram-se, a mais de contacto, fazer-se agradecidas. Estremecendo, em cocegasinhas ligeiras, habituou-se ao devaneio, de sensibilidades flagrantes, sem rebuço de deixar-se fotografar, com pretensões a domesticadora,

Mas antes, o compo&amento das pudibundas, assustadiças, em excesso de recato. Esgarafunhando costumes, foi já simbolizada a leviandade, na figura duma lagartixa; espreguiçada ao sol. Aparecem lagartixas com o rabo poido, sem ser no tempo da muda o que indica terem andado em briga de pouca monta, perdendo apenas as escamas mais frageis que são longas e verticiladas, ao passo que, as do ventre, largas e quadrangulares, oferecem maior resistencia. Nota-se tambem, haver lagartixas com dois rabos, ou mais ainda. Pouco vulgar, a multiplicidade, pode ser bem definida, desde a base da primeira vértebra caudal, quando bifida, ou ter a aparência de excrescências cartilagíneas, fenómeno teratológico, brotado depois da amputação ou esmagamento por uma pedra certeira, observando-se, então, uma ebpdcie de cicdttii ou costura no ponto de forquilhamento. As lagartixas sem cauda são mais corredoras, pela diminuicão do atrito, e parece oscilarem na direcção, por falta do leme regulador do arrasto. No 5." vblume do importante tratado «The Royal Natural History» onde colaborhtam os maiores mestres de zoologia, lê-se no Capitulo dos Lacertideos, uma referência á nossa lagartixa:

It was observed some years ago oin a certain road in Madeira, aE Z the lixards belonging to a nearly allied species (L. duyesi) were iwithout tails. The circunstante was explained by the spot being the favourite resort of the midshipmen 1andin.g from the ships visiting the idand, U I ~ amused themselves b y knocking off the lixard's tails. O
E' um pouco forçado tirar conclusões desta natureza, pois induz, em êrro, supor-se que as 'lagartixas,, numa determinada zona da Madeira, só se apresentam sem cauda, e a explicação é mais ingenua vindo acusando os guarda-marinhas que visitam a ilha, de andar a entreter-se, á pancada no rabo das lagartixas. Êste, é considerado um talisman precioso no domínio da bruxaria, com a-virtude de provocar a atracção entre os sexos. E assim, diz-se que basta com êle ser tocada, uma pessoa, embora imperccptivelmente, numa

mão, para operar-se o magnetismo animal. E se a cauda é bífida, dobrada é a descarga de provocação.. . !
A camisa da lagartixa,-ou seja a pele da muda, que o animal, interrompendo a operação, traz as vezes, entrouxada sobre o dorso, a-laiade mochila,-é um elemento de grande valor, disputado pelas mè-eiras, em virtude ~ : L S propriedades psíquico-terapeuticas, que influem na alma e no corpo, 3s quais, seria longo enumerar. Não se desvendam a s receitas, para não provocar maravilhas, a que a lua não é estranha com as suas carêtas estremunhadas. Uma lagartixa metida num canudo de cana, em que um tabique é substituido por uma rolha e amarrado com um cadarqo, como se fosse um bentinho, suspenso ao pescôço, rente ao peito, é considerado remidio eficaz contra a asma e outras doenças respiratórias, só ficando curado o padecente quando a lagartixa definha, o que leva alguns meses, pela grande vitalidade do animal, embora naquele recinto fechado.

As lagartixas passam, em alguns países, recolhidas nas suas tócas, durante o inverno, num estado de entorpecimento, facto que na Madeira se não dá, devido 5 benignidade do clima, sendo vistas durante tódos os meses do ano, lagartixas ao sol reconfortante. Procuram, no inverno, de preferência, os troncos das arvores, â procura de luz alta, ou uma pedra que fosse aquecida pelo sol, para pousar durante algum tempo e receber calor por conductibilidade, aquecendo. o ventre. Levantam, então, a s patas dianteiras e nesta curiosa posição de mãos estendidas, ficam-se como a dizer-Orate fmtres. Irmã lagartixa lhe chamaria S. Francisco de Assis, se a tivesse visto. «Todos os animais louvam o Senhor». Uma delas, mais caritativa vimo-la, numa ocasião, regressar á toca, trazendo atravessada na boca, sem a molestar, uma IagartJxinha, para a livrar de algum perigg, talvez.. .

Adquiriram, &é hábitos nocturnos. Nos muros iluminardos fortemente por um fóco eléctrico, atraídas as falenas e outras borboletinhss da noite, pela claridade da luz intensa projectada, rodopiando, e pousadas em seguida aos intervalos do volteio, dão-lhe caça as lagartixas que andavam á espreita, para uma ceia apetitosa. O sentido da vista é agudo, mas ainda mais o do olfacto. Na Deserta Grande, quando os pescadores ali preparam uma caldeirada de peixe, numa fornalha improvisda entre duas pedras da praia, é sabido, que, logs, acodem as lagartixas em coluna cerrada, em avanqo, de bem longe, para cpmgartilharem dos despojos da greparaqãi, do refogado, dando-se lutas de tracção, curiosas, com casc,as de tomate, e brigas de esfomeadas pelos restos dumi petisco cheiroso.. . Numa excursão á Ponta de S Lourenço, onde moram lagartixas c dum pardacento i~resoluto, a m b h d o para a côr do terreno, foi notado que, logo ao abrir-se a casta das comedorias, bandos delas s e aproximaram a cumprimehtar os ,exgloradores, homenagem intencional subordinada ao seu olfacto. Nas pedreiras do Ilheu da Cal, a horas certas, os trabalhadores se reunem, acudindo as lagartixas, em assembleia mendicante, a um pedacinho da rosquilha rija, que esmoem agradecidas, a lamber o focinho.

E' interessante registar que, sendo os Lacertideos, insectívoros, por condição, além doutras evoluções mesológicas provocadas pelas condiqões especiais de adaptação, tornaram-se a s lagartixas predominantedos animais que mente, frugivoras, podendo até transitar para o são considerados omnívoros. Não possuem a propriedade do mimetismo que provoca a s variacões momentâneas de colaboração, mas sabem procurar um pousío, de espera, assente sobre um fundo que niais se coadune, diluido no tom predominante da sua vestimenta. Houve tempo em que a medicina chegou a aconselhar o sangue da lagartixa para a cura da lepra, mas os gafos zombaram do remédio, com desapêgo e descrença. O nosso povo, cheio de preconceitos, não arredou de opinião, temendo manchar-se, com bich,o imundo, quando pela mente lhe corre que um

salpieb.de sangue de lagartixa, pelos olhos, lhe póde, até, causar a cegueirat. Como se mutilam ideas, ao coice de concepções opostas e tão mal engendradas-pró e contra.. . Ainda no comêl;o do século passado o Dr. Adams (") que exerceu clínica fia Madeira, preconisava a ingestão de pedacinhos da carne d% lagartixa, tomados em pilulas, para a cura da tuberculose pulmonar. A. ância doutros tempos, em pretender-se recuperar a saùde, á-pressai por palpite em droga nova e prescrições da moda, deve ter dado um ror de ricaços e uma boa lista! de mártires desconhecidos. 1nimigos.da lagartixa são, nomeadamente, os gatos e os francelhos, já citados nos nossos trabalhos sobre os Mamíferos e a s Aves. ~ e l i n o se dâne, á caça de lagartixa, é gato perdido, com palaque dár depravado, emagrentando súbito, perdendo a pelagem, rancento de pele. A-modo-de comparação, ou imagem ingénua de gente campesina, em vendo uma rapariga triste, a breve tempo desarmada de carnes e esmaecida de cores, sem causa notória determinante, a quem pregunta, por graça: - se comeu lagartixa, - o troco se não demora, numa resposta torta.
( * ) ,Dr. Joseph Admns-Observations on Pulmonary Consumption and on the Uti~ litity o€ the Climate of Madeira for Phthisic-11 Patients--London 3801.

A LAGARTIXA DAS DESERTAS

A revista científica alemã cSenckenbergiana» no 20." volurxie1938, ,publicou um desenvolvido artigo da.aqtoria dum naturalista especializado no estudo dos Lacertídeos, referente ás lagartixas colhidas na Ilha Deserta Grande, pelo conceituado derrnoplasticista e conservador do Museu Municipal do Funchal, Sr. Maul, dedicanda-lhe uma nova subespécie : Lacertu dugesii rnauli Martens

Sem descermos a minúsculos detalhes comparativos, a observação de atenta dum g u ~ d r o mensurações feitas nos exemplares obtidos, indica'que, devido ao seu habitat, isto é, ás condições do meio, acha-se sensivelmente diminuido o desenvolvimento dêste réptil, o que aliás, é o facto constatado de nanismo, nos vertebrados insulares, tanto mais pronunciado, quanto mais pequena a área a que se achem restringidos.

A lagartixa mauli tem, em média, o macho, de comprimento 67 mm. (cabeça e tronco) e a fémea 57 mm. A cauda 'excede, quasi sempre, em ambos os sexos, o comprimento,do corpo. A côi! generalisada, da lagartixa do litoral das Desertas é dum negro retinto, parecendo uniforme, á primeira vista. Uma observação, mais cuidada, mostra pontuações verduscas, salpicadas, ao meio da linha dorsal, rareando para os lados e ainda de cor cinzenta escurh, matizando a garganta. As escamas ventrais, geralmente, são, ao-de-leve, orladas dum esverdeado fusco e o baixo ventre apresenta, algumas vezes, manchàs esbranquiçadas, tépidas, puxando para o azul-sujo-marinho,

Nalgumas lagartixas faltarri as unhas, talvez limada:; pelo desgaste!, nas pedras, noutras, ausência da ponta dos dêdos, mas isro então, denota doença para ser estudada por especialistas. Vinte e oito exemplarés da L. d. ma2110 figuram no Museu de História Natural de F'rancfort. Além da pequenez desta lagartixa e da disposicão das escamas, dispostas em fileiras de adorno, com sistemático arranjo, a-dentro-dum limite iiumérico estabelecido para a sub-espécie; a relativa uniformidade da coloração negra, patenteada em todos os exempltwes que foram sujeibs'a exâme; levaram o naturalista Dr. Martens, á-dedhçãsde que êste L a c d d e o , tinha caracteristicos para cieritificamentx poder &r apartado do tipo comum. Ha um exemplo semelhante: Nas Ilhas Berlengas e F'arilhões, na costa de Portugal, os naturalistas Daveau e Girard, notando tambem uma certa uniformidade de tipo na lagartixa ali- encontrada, apartando-se um tanto da Lncerta muralis, continental, publicaram uma monografia, no boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, em 1883, dando-lhes as honras da nova variedade fusca. Todos êstes estudos são interessantes,-claro está, para quem por 6les se possa interessar. A subdivisão das espécies, em vez de esclarecer, confunde, pois raramente possuem um tipo acentuado, definitivo, apartado do quadro anterior e que se possa perpetuar, quando transferidas para outra região. Um desenvolvido estudo, puramente de caracter científico e comparativo dos diferentes Lacertideos de Portugal, Espanha, Madeira, Aqores e Canárias, foi publicado, na língua alemã, pelo naturalista sueco, DP, Qtto Cyrén: - eZur Kenntnis der Lacertiden der Iberischen Halbinsel und Makaronesiens-Goteborg. 1934%.

A

O S G A

A osga, apenas no arquipélago madeirense, é encontrada no grupo das Ilhas Selvagens, què fica situado entre a s Desertas e as Canárias. Eerii diferente da lagartixa, pelo aspecto, no entanto o seu talhc apresenta algumas semelhanças.

A O S G A
Tarentola d slalandii
i.c.tliizid;i

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do t i i i i : + n l i o

11ai 11vi4 I .

Tem o corpo deprimido, a cabeça larga e achatada, os olhos grandes, salientes, os maxilares serrilhados com pequeninos dentes contíguos, a língua grossa e romba no extremo, o corpo coberto de grânulos escamiformes e pequenos tubérculos. Os membros são desenvolvidos e possantes, os posteriores mais escanchados. Cada pata, disposta em leque, com cinco dedos espalmados, terminando em pequenos discos, adesivos, com refolhos cutâneos na parte inferior, dá-lhe segurança, numa marcha lenta e com êles se apéga ás superfícies lisas de subida ou suspensão. A cauda grossa na base, ligeiramente se afunilha, toda revestida de aneis bem definidos. O seu comprimento regula pelo tamanho do corpo.

A osga, como a sua parenta, a lagartixa, é um animal tímido e iiio fensivo, porém, com hábitos nocturnos. Pela disposição das suas garras apreensoras e a mobilidade de pupila, vertical, contratil com o excesso da luz, tem certas particularidades de gato, mas nutre-se, ao que parece, apenas de insectos e aracnídeos.
Numa 'caixa envidraçada, onde observámos algumas osgas prêsas, conservavam-se imoveis durante o dia, apesar-das moscas, a dentro lançadas, para seu alimento, que esvoaçavam e lhes pilssavam, sem receio, pelo focinho; pois tinham a disciplina necessária para a s paparem, só ás escuras. Em liberdade, durante o claro dia, acolhem-se nos buracos e fendas das rochas ou se ncobertam debaixo das pedrqs soltas. A osga das Ilhas Selvagens tem afinidades com a Lacerta mauritunica L., espécie mediterrânea e ainda com a Tarentola delalaqzdii Duin. e Bib., das Canárias, com certas modificações estructurais, adquiridas num meio mais acanhado, notoriamente, a diminuição de corpulência. O professor Mgrtens, nqtur&lista de Francfort, aproxima-a das visinhas osgas 'espanholas, especialmente da Gran Cankia, onde existx: a subespécie boettgeri. A coloração da osga das Selvagens é cinzento-pardncenta, com cairibiantes de tom qiie chega a aproximar-se do verdoengo e tonalidades ventrais mais pálidas, como aconteee com a s lagartixas que nestas pequenas ilhas se encontram, formando uma sociedade apartada, com moradia pela meia encosta.

No Ilheu Grande e Ilheu de Fóra tambem habita111 a s osgas ilurn;r quietação absoluta, aonde foram parar, naturalmente, em tempos geológicos quando estas ilhas formavam um só todo.

CAGADOS

AQUÃTICOS

A ordem dos Quelónios abrange os repteis, com o dorso coberto por uma concha rija que vem unir-se na parte inferior do corpo, a uma placa extensa, tambem resistente. A concha ou carapaça que lhe tapa as costas está mais ou menos ligada com as vértebras dorsais e a placa ou peitilho representa o esterno achatado e desenvolvido. A aproximação destas duas peças, porém, deixa aberturas necessárias para a passagem da cabeça, patas e cauda do animal. Classificam-se consoante o formato do corpo, a consistencia da caraparaça, o número dos escudetes córneos e a configuração das patas. Os quelónios reproduzem-se por meio de ovos, esferoides, brancos, contendo clara e gema como os das aves, porém de casca frouxa, abandoiiados num só10 quente. O focinho termina em bico córneo, desprovido de dentes. Conforme o meio em que habitualmente vivem, tomam a designacão de tartarugas fluviais, terrestres e marítimas. Podem ser, de certo modo, incluidas na fauna madeirense, embora aqui não procriem. As tartarugas terrestre e fluviais são mais conhecidas pelo nome de cágados e houve delas antigamente, importadas para comércio, adorno nos jardins e ainda como utilização para fins terapeuticos. A carne das cágados é comestivel e foi preconizada para a cura da tisica, muito antes das «pilulas de lagartixa, do Dr. Adams. Da gordura, fizeram-se unguentos de certa fama na medicina marroquina.

No século XV andaram madeirenses, volta-e-meia, a acudir ás praças de Africa c por lá se demoravam por vezes, na consolidação da conquista, repelinclo novos ataques dos mouros, internando-se em exploraqões e tomaiido conhecimento dos usos e costurnes dessa gente com quem lidavam. Uma narrativa picaresca duma caqada aos cágados, num r i a c k ~ dos arredores de Arzila, sucedida no ano de 1520, mereceu ser contada, pelo inesperado da situacão: «Andando El-Rei de Fez por aquelles campos fazendo contínua guerra aos nossos, e estando então bem juntos de Arzila, com muitz gente toda encoberta, esperando alguma boa ocasião: acaso viu sahir da Vila vinte cavalleiros, e cuidando serem Almogaraves, mandou que os esperassem quatro centos de cavallos, que bastavão, segundo seu parecer, para os tomarem ás mãos. Mas assim como nisto se enganoc em o mais; porque elles eram cavalleiros moradores em Arzila, que para a saude de unl soldado velho seu amigo, e estava doente de Phtisica hião ao rio doce buscar kágados. Os quais andando na pesca muito entretidos, por ser o dia de muita calma, e fazerem grande grita nadando, e pescando, não sentirão os Mouros, senão a tempo, que o não tiverão para mais, que para se porem a cavallo, sem mais vestidos, nem armas, nem sellas, nem freios, e sómente com algumas lanças, em que os cavallos estavão atados; assim nús remetterão aos Mouros, com tanto esforço, que passarão por entre elles, dando, e recebendo golpes; mas nenhum delles sahio ferido, com espanto de todos, a que tamanha oiisadia, e tão estranho acommettimento parece tolher a s mãos, para lhe não poderem tolher que não passassem, e chegassem a Arzila a tempo, que Dom João Coutinho estava fóra da porta vendo o que era, pelos ter a elles já por mortos, ou cativos: e de tamanha novidade com razão confundido, quando mais se chegarão, mais se desfazião em rizo; porque assim nús vinhão com tanto fervor, como se vierão armados; e da mesma maneira quasi todos entrárão na Villa publicamente, e outros mal cubertos, com que a vista das pessoas dobravão o rizo e 1 contentamento. Dom João lhes fez mercê; e E Rei de Fez, quando soube o caso, o festejou muito, e louvou o esforço, sobre todos oa que s e u

olhos tinhão visto: e não vos espanteis de assim fazer, porque era especial cavalleiro e prezava-se muito disso.» (") ;Que genero de cágados seriam êsses que deram causa a uma es earamuça com gente tão pouco armada? Está-se a ver pela caçada feita em água doce, que eram cágados aquáticos, passando a maior parte do dia pelos charcos e ribeiros. São de cor negrusca, variadamente marcados de amarelo com traços e pontuações, numa distkibuição irregular, notando-se uma placa sobre a nuca e duas sobre a cauda. A cabeça, cauda e patas dêstes quelónios fluviais estão mais de senvolvidas em comparação dos terrestres, e entre as unhas,-que são cinco nos membros anteriores e quatro nos posteriores - aparecem membranas de ligação, proprias para nadar. De noite, saem da água para dormir em enxuto, e nutrem-se dtt insectos aquáticos, caracois e rãs. A fémea escava no sólo, com a cauda e patas t~azeiras, uma pequcna eira, onde deposita os ovos pergaminhosos, cobrindo-os com uma ligeira camada de terra ou areia, e o calor do só10 é suficiente para a incubação. Alguns autores separam já êstes cágados, de água doce, formancl,~; a família Emididae e á-parte da Testudinidaei. Entre outros caracteristicos, apresentam a carapaça pouco abobodada, o peitilho curto e a cabêça nua. No Catálogo dos Vertebrados de Portugal, de Ferreira e Seabra. vem mencionados apenas, dois, dêstes cágados ou sapos-conchos: n Clemmys leprosa (Schw.) e o orbicularis (L). Os cágados aquhticos desapareceram, há muito, dos tanques da M a deira.
Pedrp gc Mariz-Dialogo

IV de Historia Varia. Edição de 1806 pg. 749.

CAGADOS

TERRESTRES

Os cágados terrestres distinguem-se logo, pela convexidade mais anaiilada da carapaca, a cabeça pequena e pela configuração dos membros dispostos para andar sobre o sólo, com dêdos curtos, arredondados em forma de coutos, providos de unhas. Deslocam-se vagarosamente e teem a faculdade'de retrair a cabeça, as patas e cauda, eilcobrindo-as sob a carapaça. O peitilho, nos machos apresenta-se achatado e nas fémeas, ligeirainente côncavo. Antigamente, eram frequentes nas quintas, dando urna nota alegre nos relvados. Divertiam as crianças, assentadas numa almofada sobre êles, á espera que se movessem, escapando-se ao pêso, a libertar-se daquela posição asfixiante. Eram uteis nos jardins, para exterminação dos caracois, minhocas e lurvas. Gostavam de comer falhas de rosa e rebentos tenros,
A adaptação a um diferente clima, alterou-lhes os hábitos e soubemos dum, que fraternizando com um gato, compartilhava da refeição de sopas de leite. Desaparecem durante algum tempo, escavando galerias subterrâneas, para depois, j& julgados perdidos, regressarem de surpresa.

Encontra-se ainda, a Testudo graeca L., de bem marcados escudetes estriados de amarelo com uma mancha negra ao centro, repetida em t ~ ã a orla marginal da carapaça que se fende, posteriormente, sobre u cauda.

Esta espécie é própria da Europa meridional e atinge o comprimcnto de 30 cm. De Marrocos são trazidos os cágados escuros Tcvtudo muzcritatlica L. Antigamente eram aplicadas as carapaças pa7-a acunhar as pipas nos armazens de vinho ou ainda a-bordo, no transpwte.

!I'ARTARUGAS DO

MAR

As tartarugas marinhas teem a carapaça cordiforme, aguçando para a parte posterior. Os membros destinados, mais pvopriamente, á natacão, tomam o dispositivo dum remo para melhor bater a água. A mais vulgar das tartarugas oceânicas que aparece nêstes mares é u ThaEassochelys coauanu Daud., á quai Lineu havia chamado Testudo caretta tendo vária sinonímia, conforme os autores, o que acontece sempre nos diferentes métodos de classificação. &ta tartaruga aparece, com frequencia, á venda no Mercado de S. Pedro, onde é exposta, em companhia do peixe para o consumo, sendo apanhada, & noite, pelos pescadores, em mar bon\ançoso. Aproximam então o barco, de-mansinho, remando cautelosamente e sem ruido, par a onde as avistaram e há o costume de deitar água no tolête, afim de evitar a rangência no fulcro dos remos. Surpreendidas no seu sono, á-flor d'água, apanham-nas á-mão, sendo pequenas, ou de laço atirado ao pescoço das maiores. Por vezes, se encontram, achegadas numa colónia de descanço, despreocupadamente, ao abandono. Relata, o capitão inglês J. Tuckey, chefe de uma expedição científica ao Atlântico, que, em 31 de Março de 1816, passando pela Madeira,

encontrou nêstes mares, grande numero de tartarugas dorminhôcas, a boiar. Não menciona o género delas, mas com certeza, tratava-se duma excursão de talassas vindas da costa marroquina. Há delas, que chegam a ter mais de um metro de comprimento. As pequeninas, são interessantes. Corre-lhes uni cspigão ou casení bem distinta a meio do dorso, separando os escudetes, cinco de cada lado e simétricos, tomando a cor pardacenta, com tonalidades mais carregadas, conformd a idade. Quando a s caçam, voltam-nas de costas, posição em que não podem volver-se, esperneando, incessantemente, com a s patas no ar. E' assim, que a s vemos, barafustando, arreliadas, na posse dos vendedores. No andar, são pesadas, pois os seus membros, bastante desiguais, muito maiores os anteriores, batem espalmados o sólo, em solavancos, para poder deslocar o corpo. As tartarugas do mar teem dêdos, mas ficam ocultos dentro duma membrana grosseira, e nalgumas, espigam pequeninas unhas que são consideradas função da idade. A caretta adulta apresenta, em geral, duas unhas em cada membro. Para respirarem - como os pulmões não arfam, o a r é deglutido, c nesta operação, parece que o animal está bochechando. A carne desta tartaruga é escura e um tanto filamentosa e rija, mas apreciada na culinária, para sopa e ensopados, a que não faltem os condimentos necessários. Faz até lembrar o caso da sôpade-pedra. Matam êstes animais, cortando-lhes a cabêça, mas mêsmo depois de decepada, o bico córneo, é trancante, mordendo com força decrescente durante mais de uma semana. Um cão que deparou com uma cabeça solta duma tartaruga, já morta há dias, apanhou tal dentada no focinho, que veiu a ganir para perto do dono, pedindo que o livrasse daquele martírio, o que não foi sem custo, pelo afêrro dominante. Segundo Cuvier, a vida duma tartaruga orça por 200 anos. Escudos de tartaruga, e tartaruguinhas dessecadas encontram-se á venda com brilho do verniz aplicado, atraindo a atenção do turista.

A tartaruga careta, quanto mais pequenina, co~venieiitementeprcparada, para colecções, tem mais procura do que a adulta, por ser tamonde há pclcs bem um interessailte adorno para o recanto duma si~ieta, especialmente dc carnivoros, esticadas pelo chão. O juvenil aspecto da. tart:rriiga, 6 nliiito diierclitc, 1)cla color.aorto tenra, acastanhada, lelêvo iiiais saliente dos escudctcs c seu arranjo, fazendo até supor tratar-se duma espécie apartada. O niotivo disso, vem da imbricação ou seu dispositivo se assimilhar a um retelhamento com

Uma juvenil careta dessecada,transparecendo nos membros anteriores a ossificação

dos dedos,

abas escoantes, sobrepostos os extremos dos escudctes, uns sobre os outros. Com o crescimento do animal, vão os discos do rilosaico se afastando, diminuindo a convexidade da cobertura e ajustam-se, por fim, de contacto numa superfície, sem o ressalto de telha, que os caracterizava anteriormente. Os membros anteriores adquirem, bem cedo, um grande desenvolvimento e o formato da carapaça, transita pela fase sub-cordiforme. A maior das caretas observada nestes mares excedia o comprimento de um metro. Sendo o mar, o seu meio próprio, teem as tartarugas de aflorar, á tona de água, para respirar, nadando com a cabeqa esgiiida. Quando siib-

mersas, fecham as narinas com uma membrana que impede a entrada da água pelo focinho. Fazendo as tartarugas a postura em terra, esta circunstância parece indicar serem elas, em boa suposição, representantes doutros repteis de afastadas eras. rastejantes sobre o só10 visinho das águas. Conservam ainda o hábito, mesmo fóra do tempo da reproduqão, de vir espairecer nas costas arenosas, em noites calmas de luar. E' voz do po-JO, que trazendo-se uma destas tartarugas, para um local distante da praia, embora dali o animal não possa ver o mar, nem ouvir o seu ruído, inicia logo a marcha na direcção do litoral marítimo. As tartarugas de escudo ósseo, aparecidas nos mares da Madeira, não são propriamente as utilizadas para fins industriais, pela pequena espessura do seu revestimento, no entanto, houve antigamente um pequeno ensaio, aproveitado o casco destes quelónios para a confecção de resumidos objectos de arte, especialmente marcas para jogos de cartas, palhetas de leques, etc. As tartarugas de espesso revestimento pertencem á fauna dos mares quentes. Pela compressão e calor, podem soldar-se as diferentes partes do seu revestimento, constituindo placas para a mão de obra.

TARTARUGA ESVERDERDA

A tartaruga esverdeada, Chelone viridk Schn., tem a carapaça deprimida, oval, o pescôço curto, forte, bico rombo, e uma unha no primeiro dedo de cada pata. Distingue-se pelos quatro escudetes laterais, não imbricados e pela coloração da carapaça, num pardacento variavel, que roça pelo esverdeado, com reflexos irizados, de oleoso brilho. O roda-pé ou fiada das placas, sensivelmente iguais da orla, forma um redente mais pronunciado para a parte posterior da carapaça, onde se encontra a concorrência, que vem fechar dos lados, talhada em caudade-andorinha.
Vive esta tartaruga nos fundos subniersos, achanados c vales nrarinhos, onde abundam as algas, de que especialmente se nutre. Quando juvenis, são pardaças, com ligeiras manchas alouradas de transicão, umas vezes mais claras, outras, fuscando para o tom da azeitona nova. Embora, noutros mares excedam o tamanho da careta, atingindo o comprimento de 2 metros, os exemplares colhidos pelos nossos pescadores, teem sido até agora, muito menores e nenhum chega á metade déssa diniensão.

A tartaruga de couro, Demnocheiys co~iucea é o maior quelónio, L., que teni aparecido nos mares da ~ a d e i r a raramente observado nos de e Portugal, citado pelo naturalista madeirense Dr. J. V. Barbosa du Bo-

Uma tarlaruqa d e coiro, notando-se
na carapaça branda o s enrugarnen-

t o s caracteristiCOS

cabe, em 1863, na «Liste des Mammifères et Reptiles observés en Portugal» publicado na «Revue et Magazin de Zoologie. Vol. XV-Paris». A cabeça grande, globosa, semi-nua, termina num focinho roriibo c rioduloso. A bôcp retraída, trancante, é munida de maxilarei: em talhe trinngular. Os membros não teem unhas. Os anteriores bastante conipridos e relativamente estreitados, sofrem um certo retraimento quando o snitiial cliega a adulto. Os membros posteriores em contraste, são bastante c!urtos, truncadoa, espalmaiido-se cm fórnia de leque.

Este animal é considerado, como o representante duma série de queiónios doutras eras, já extintos ou tendendo ao desaparecimento.
A principal evolução sofrida manifesta-se na carapaça, gradualmente modificada no desintegramento da coluna dorsal de suporte, evolucionando os escudos do revestimento a formar discos ósseos, longitudinaes, espaçados, que lhe enrugam o dorso, coberto por uma pele rija, e se manifestam tambem no peitilho ou parte inferior do corpo. São 7 as rugas marcantes, mais em relêvo a média e três laterais, contando-se coiii a do rebordo. A carapaça termina num saliente sobre a cauda. Embora, encontrada em todos os Oceanos e no Mar Mediterrâneo, refugia-se mais no Atlântico Meridional. A Úitima manifestada na Madeira, em Janeiro de 1937, colhida pelos pescadores do Porto do Moniz, era um belo exemplar, pesando 190 quilos. Pelas dificuldades do transporte, não poude ser trazida ao Funchal e estragou-se, apesar das tentativas ali feitas papa a poderem conservar. Destinava-se ao Museii Municipal.

Nestes d a anos atraz, foram observadas mais irinas seis tartarugas de couro, nas visinhanças da costa. Possue o Museu do Seminario uma magnifica Dermuchelys coreacea, a tartaruga de couro, chamada, pelas circunstancias do seu revestimento.

Batraqueos

A Ltà D O S C H A R C O k ;

Levou muito tempo a acertar no quadro em que dcveriam ser ínclixidas ss rãs. Ainda .no meado do século XVIII, era-lhes dada cm Portugal, a (:ategoria de insecto, como se vê no: Dicc. Portuguez de plantas & reptis - Lisboa 1765.» Dedicado ao conde de Oeiras, por José Monteiro de Carvalho. Rã-Insecto anfibio, porém mais aquatico que terrestre, o qual ten! quatro pés, com que nada, ou salta; dous dentes dian'eiros moveis, que se levantam, quando quer morder, e o macho se distingue da femea em ter perto da cabeça trez bexiguinhas, e a parte interior da perna deanteir a quatro vezes maior; sustenta-se de hervas, e de alguns insectos mais pequenos. As Ciências Naturais andavam ainda atrasadas, nessa época, carecendo de mais cuidada observação que o tempo vem mrrigindo. .39qmi%de demoradas na classe dos Reptilideos, as rãs e os raniformes p m a r a m para a classe dos Batráqueos, apartados, principalmente, p e h t m d o r m a ç õ e s que nelas se operam na primeira fase da vida na água dtjce, com respiração branquial, até que, em chegando a adultos passam á iranca respiração, ao a r livre. Primeiramente, apresentam a fórma globosa, e eni duas semanas de crescimento se lhes nota já um aspecto de cabêça e a cauda a imprimir movimentos de natação. Mostram depois, a s pernas desenvolvendo-se, ao passo que a caud&

vai sucessivamente retraindo, até desaparecer sem deixar vestígios, operando-se continuas mudas, com largados mucos que se esfarrapam e si dissolvem. Desenvolvido o sistema interno, êste vertebrado, sem costelas, chegou ao estado perfeito, apto a uma nova manifestação $a vida, podendo saltar em terra, expandir-se e cantar. No tempo dos amores, estreitam-se os pares, por6m a fecundacão' dos ovos, efectua-se fóra do corpo da fémea que os expele em fórma diiiri cordão gelatinoso, contendo na sua massa os germes, envoltos numa substância que os alimenta em pequeninos, enquanto vivem dentro de água. As rãs s5o animais de temperatura variavel, a que antigamente se chamavam animais de sangue-frio. Gostam do calor do sol e nutrem-se de larvas, vermes, e pequenos caracois. Corre entre a nossa gente pouco observadora, que as rãs fazem estragos nas hortas, comendo alfaces etc., mas os ranideos não são herbivoros e em vez de prejudiciais, causam beneficio á agricultura, pelos ir?sectos que devoram, entre os quais, as moscas nocivas aos pomares. A sua maior actividade manifesta-se durante a primavera 'e verão. E' incômodo o seu canto gregoriano, salmejado num ronquenho renponsório, quando gorgolejam os machos, vibrando as vesiculas dos cantos da boca como a preguntar: --Quere qualquõr rex? (desejando indiferentemente um rei) Expressam-se mal. A lingua está presa na frente c na parte postcrior, forquilhada. E a s fémeas, em tom maia brando, porque lhes falta a vesicula bocal, gargarejam em coro, respondendo brandamente:

O verbo coaxar derivou assim desta onomatopeia, num ambiehte Ce água e lama. Pelos frios de outono e no decorrer do inverno, os ranideos desapa-

recem, dissolve-se a orquestra-pagã. Escondem-se nos charcos ou por debaixo das pedras, não tanto entorpecidos como em outros climas que lhes paralisam os movimentos. Na apanha dos inhames,-as nossas Arólceas coinestiveis - xinda saltam por vezes, em Janeiro fóra, á procura de abrigos nos terrenos encharcadiços. Duas r ã s diferentes, pertencentes cada uma a sua família própria, foram introduzidas na Madeira: a Rana escuienta L. e a Hyla arbmea L A primeira é a r ã vulgar das ribeiras, charcos e tanques, representante da família RanZdae. Tem o formato da cabêça, triangular, olhos grandes, focinho rombo. . Trouxe-a da Europa, por 1834, o 1 " conde de Carvalhal, para a sua quinta do Palheiro do Ferreiro. E r a uma novidade que podia ser util, pois lá fóra, no estrangeiro, apreciára um prato de coxas panadas de rã, exquisitice culinária, tendendo em sabor para a perna de frango, embora com muito menos fêvera, a mastigar. Enfastiou-se depressa. As rãs aumentavam exetraordináriamente e o que se torna vulgar não é tão apetecido. Fugidas da sua quinta para as levadas, as águas em curso distribiiiram-nas pelas terras visinhas, e dai, saltarani, ás reprêsas do vale, avassalando, em progressão, paùes e nateiros. Era um gláudio de conquista, entoando o canto bárbaro, da posse sem resistência.

ti;slcreve um jornalista, mal humorado, numa crónica madeirense, em 1840, que não pudera pregar Ôlho, numa noite inteira, com os engasga. dos trinos dos rcvuxinois do sr. Conde.
Com pouco mais de um século de permanência na Madeira e Porto Santo, a s modificações sofridas são caracteristicas, quer na vestimenta ou tamanho. O colorido inicial passou a um tom mais neutro, pardaço predomlnsnle, sem as malhas amarelentas e as verruguinhas pronunciadas nos

flancos, marcantes da espécie;+ comprimento médio da Rana esculentu, entre a ponta do focinho e a fenda cloacal, anda por 76 mm., o que reduz, sensivelmente o tipo. Como regra geral, os juvenis e as fémeas irmanam-se na coloração do terreno e das lamas, aquietando-se imoveis, em qualquer perigo, neste fundo de protecção. Os machos metaliaam-se de bronze, num verdete alistado ou total de vestimenta, O tipo mais robusto encontra-se na Levada da Negra e o mais garrido, pela Levada da Serra do Faial. A r ã é um animal estúpido. Deixa-se enganar facilmente, por sei muito vorax. Os garotos a caçam com um cordel, tendo rio extremo um alfinete gancheado em fórma de anzol, onde prendem um pedacinho de trapo 'vermelho. De noite, são apanhadas á luz duma lanterna, pois ofuscadas, se não movem de susto, e o brilho do dorso a s denuncia. Na orla dos tanques conservam-se por vezes, á espi eita, aquietadas, do focinho fóra do água, aguardando a eaça dos insectos, mas muitos dêsses que pousam á tona líquida, lhes escapam, ao aperceberem a ondulação provocada por qualquer movimento. Quando conseguem apanhar algum, reviram a lingua fóra da boca, numa chicotada dextra, contribuindo para a agarra, a goma que segregam na parte forquilhada. Caiu uma abelha num tanque, sem poder levantar voo. Veiu uma rã, apressada e papou-a, mas logo andou como doida, aos mergulhos curtos e a bater com o focinho pelas paredes. E' de supôr que a abelha a picasse com o ferrão, mas causa extranhesa que o instinto a não precavesse. Os membros posteriores, muito rriais-desenvolvidos que os da frente, s5o providos de músculos-pahntes e-.são êstes, os mais dispostos para a natação, por serem providos de uma rriemerana desenvolvida entre os cinco dedos.

Em terra, a s rãs caçam ao salto. Em carreira, os pulos são alternados de intensidade, até o que a dirige para a água ser o mais possante.

O mergulho é efectuado de cabeça abaixo, e na trajectória esticam as patas trazeiras para minorar o atrito do ar. Ao mergulharem as rãs num charco, descem ao ftindo, a refugiar-se no depósito terroso que revolvem, provocando um turbilhão de lama que conspurca a água, numa opacidade de proteoçh, indicado, porém, o ponto de esconderijo, pelas bolhas de a r que sobem á superfície. Nos tanques onde vejeta a pastinha, em colcha verde de cobertura, granulada de folhitas ovoides, que se acamarn pelo entrelaço das suas raizes brancas, filiforme&,-as rãs chapinam-se no mergulho, aos rasgões pelo lençol que deixa ver a água mansa, pelas claraboias qbertas. A Lemna gibba, L., da família das Lemnáceas, é a nossa pmtinha mais vulgar, tapando os charcos em tão completo, que outro animal se atola, não sabendo nadar. Em águas assim, escaceam as larvas das melgas e outros dipteros da noite, pela falta de arejamento no sifão recurvo, vibditil, dando-lhes o movimento constante de subida e descida no seu meio próprio. Em compensação, a pródiga Natureza, sempre atenta ás condições de vida e suas modificações necessárias, deu guarida, na trança da pastinha, a pequenims moluscos aquáticos, interessantes na fórma;-uns, bivalves, outros espiralados. As rãs os trincam e mastigam com os dentes breves do maxilar inferior.

A ICÃSINHA V E R D E

A outra rã, ranêta ou rãsinha das arvores, pertence á familia Hylidae, classíficada Hyla arborea L., espécie significativa do seu comportamento, apta a trepar pela vegetação ribeirinha, arbustos e árvores das terras húmidas. A rãsinha verde apareceu na Madeira pelo meado do passado século. Não se sabe por quem foi introduzida, mas provavelmente por algum ejicêntrico proprietário, como se deu o caso, com a R. escuíenta, do conde de Oarvalhal. Antes de ser construido o Caminho de Berro do Monte, havia, por êsse vale acima, represas de água, charcos e cultivo imenso de vimeiros. Habitava por ali, a.Hyía arborea, gracil, pequenina, atirando-se á águá, logo que pressentia a aproximação de qualquer pessoa. Vimo-la tambem em algumas quintas, na encosta de Santa Luzia. A área da sua destribuição não foi muito longe. Existiu nas pequenas lagoas do Jardim Municipal, donde se escoa a água para o lago maior. Ainda há poucos anos, se conservava na Quinta Santana, com tendência a desaparecer. Tem apenas a metade da corpulência da anterior, muito semelhante no aspecto e nos costumes, porém, ostológicamente, com diferenciações a considerar. O corpo é mais lanç~n@~,c~lleqa pdueiia, um tanto aguçada para o focinho, ólhos menos salientes, a pele do crâiieo descolada, dentes na maxila superior, a língua distinta, elíptica, os membros esguios terminam eni dedos longos, providos com discos, firmando as patas, ligeiramente espalmadas.

O seu manto é verde franco, harmonizado coni a vegetação farta, poluido em claro, escorrido a branco, pelo abdomen. E' tal a porosidade da pele, que absorve a humidade do ar, aumentando em volume variavel. Nutre-se igualmente de insectos, larvas terrestres e aquáticas. Busca as águas tranquilas, as poças limosas e pouco profundas. Gasta o tempo, mórmente, pelas visinhanças, intrometida nas culturas, ascende ás ramagens, procurando o sol, aquietada numa tal mansidão sonolenta, que se deixa apanhar á-mão. O seu domicílio preferido é pela ramarla. Pachorrenta, em vendo um insecto parado, espera que.êle se mova, para então caçá-lo, aos saltos curtos na perseguição. . A rãsinha verde tem um coaxar mais agudo, oitava-alta da maior,-2 R. esculenta, que se aprofunda nos baixos chqcarrejros, a pedir um rei. Na sua estulticia gritadeira, movida de inveja pela sua pequenez, inflata-se pelo entrefôrro da garganta, entumescendo o bócio, esticado ao máximo, que lhe dobra a corpulência, para gritar:

-Há por lá, boi?
Os sons da natureza admitem letra, e quanta se aplica ao tanger do sino, á marcha do comboio, etc. A fábula pôs os animais a falar, tirando conceito moralizador. O velho Fedro, em sonoros versos, fê-la rebentar em castigo da sua prosápia, querendo equiparar-se ao boi, muito mais graduado na escala zoológica. A cada qual, o que lhe compete, para sobressair harmonia na grandc obra da Criação, mas não h a treguas na luta insana pela vida. A linda rãsinha verde carecia do que hoje se chama protecção a Na-

turesa.
Os patos e os gatos veem dando cabo dela. Um exemplar para estudo figura entre as colecões do Museu do Selilinario: Yate Johnson na 3."edição do livro-«Hand book for MadeiraLondon 1885» a menciona na lista dos batráqueos, e tambem se acha incluida nas duas edições da nossa «Corografia elementar do Arquipelago da Madeira. Funchal 1912 e 1936.»

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