“Share or be banned” - compartilhamento e

colaboratividade através da “Web 2.0” 1

Nicole Isabel dos Reis – PPGAS – UFRGS 2

Introdução
“Share or be banned” - compartilhe, ou será banido. Vi esta ameaça pela primeira vez no perfil de um usuário do Soulseek, um programa de compartilhamento de arquivos do tipo Peer-to-Peer 3 , quando procurava, entre os arquivos deste usuário, alguns sambas antigos. Tive a sorte de encontrar o que procurava e pedi para iniciar o download. Ao invés dos arquivos, recebi uma mensagem do usuário, em português mesmo. “Por que você não está compartilhando seus arquivos?” Sendo uma usuária nova daquele programa em específico, e sem saber direito utilizá-lo, me dei conta de que, realmente, as quase mil músicas que eu possuia no computador na época não estavam a disposição dos outros usuários. Pedi desculpas e tratei de imediatamente descobrir como colocar minha pasta de músicas para consulta pública. Falei que não sabia usar o programa direito, mas que já estava disponibilizando tudo o que tinha. O tal usuário de quem eu tentava pegar aqueles sambas disse que tudo bem, mas que eu não poderia esquecer de compartilhar. Que, se todo mundo “esquecesse”, o programa perdia a sua finalidade. Me desculpei novamente e finalmente consegui os tais sambas. Desde então, os programas e modalidades de compartilhamento de arquivos mudaram e se expandiram, o uso de banda larga na Internet se tornou mais barato e comum, e a Internet se tornou, mais do que um lugar de referência externo, um espaço de construção de conhecimento coletivo. Enquanto usuária e, de certo modo, entusiasta dessas possibilidades, procurei me manter sempre informada a respeito das possibilidades de “file-sharing” e, a partir da evolução dessas possibilidades, percebi alguns aspectos instigantes para serem discutidos do ponto
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Este texto consiste na monografia final da disciplina "Antropologia Econômica", ministrada pelos professores Ruben George Oliven e Arlei Sander Demo, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social / UFRGS, no primeiro semestre de 2007. 2 Aluna de Doutorado do PPGAS/ UFRGS. E-mail: nicolereis10@gmail.com

de vista da troca, da dádiva, da reciprocidade e do “desinteresse”, todos estes temas que tratamos na disciplina de Antropologia Econômica. O objetivo dessa monografia é, assim, traçar um esboço de análise antropológica sobre algumas formas de compartilhamento e colaboratividade na Internet, especialmente as novas formas surgidas na esteira do que tem sido comumente chamado de “Web 2.0” - um conceito surgido em 2004 e que, entre outras coisas, designa a Internet como um espaço de construção de conhecimento através do uso da inteligência coletiva.
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É comum encontrar na Internet manifestos que definem o compartilhamento como a própria essência da rede, e o não-uso deste como uma espécie de alienação das possibilidades de acesso a novos conhecimentos. 5 No entanto, para muitas pessoas, a prática de compartilhar arquivos vai de encontro a várias questões legais e morais, como o direito autoral, a pirataria, e a liberdade da realização de obras artísticas. Esse dilema tem gerado amplas discussões e inúmeros processos judiciais. De um lado, os adeptos do compartilhamento, do software livre, dos programas de código aberto, defendendo o uso da Internet para trocas de todos os tipos entre as pessoas; do outro, grandes corporações (não só produtoras de software, mas gravadoras multinacionais, estúdios e produtoras cinematográficas, e principalmente a MPAA – Motion Pictures Association of America) preocupadas com o impacto crescente da troca de arquivos pela Internet nos seus lucros. 6 Pretendo analisar três situações, que não são representativas da totalidade
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Explico a modalidade em mais detalhes a seguir. Este é um conceito polêmico e sobre o qual não há ainda muito consenso. Designa mais uma mudança de modalidades (e possibilidades) de uso da Internet (e de atitude dos seus usuários) do que uma mudança tecnológica ou estrutural na rede. A Wikipedia (ela própria um produto típico da “Web 2.0”, já que é uma enciclopédia livre e aberta, construída através da colaboração de usuários ao redor de todo o mundo) cita a definição de Tim O'Reilly, um dos maiores entusiastas pelos movimentos de apoio ao software livre: "Web 2.0 é a mudança para uma internet como plataforma, e um entendimento das regras para obter sucesso nesta nova plataforma. Entre outras, a regra mais importante é desenvolver aplicativos que aproveitem os efeitos de rede para se tornarem melhores quanto mais são usados pelas pessoas, aproveitando a inteligência coletiva." http://pt.wikipedia.org/wiki/Web_2.0

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http://www.tecnocracia.com.br/arquivos/compartilhar-a-essencia-da-internet http://webinsider.uol.com.br/index.php/2005/11/12/explorar-conhecer-descobrir-com-o-soulseek/ E mesmo artistas – ao contrário de muitos outros músicos, que souberam usar a Internet para promover seu trabalho e alcançar o público de uma forma muito mais ampla, alguns resistem às possibilidades trazidas pela rede. O músico britânico Elton John, numa declaração recente, afirmou que a Internet está destruindo a cultura, e que seria bom "desligá-la" por uns 5 anos para que a produção artística do mundo voltasse a florescer. Seu comentário deve-se ao fato de seu último disco ter tido vendas menores que os anteriores, o que, segundo ele, é culpa do compartilhamento de arquivos pela Internet. http://g1.globo.com/Noticias/Musica/0,,MUL81315-7085,00.html
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das formas de compartilhamento e colaboratividade, mas “boas para pensar” algumas das peculiaridades e dos dilemas relacionados à troca e construção de informações existente na Internet. A primeira é a difusão de arquivos através de programas de

compartilhamento. Tomo como exemplo uma famosa “fontes” de arquivos na modalidade “Torrent” – o “ripper” 7 aXXo (seu codinome, ou”nickname”), célebre na web por fornecer muitos filmes e de grande qualidade. O segundo exemplo relaciona-se à questão do compartilhamento e colaboratividade. Trato da equipe “9th Wonders”, com quem consegui contato viaemail, um grupo de fãs de um seriado de TV norte-americano que se dedica a confeccionar um site e legendas em Português para os episódios do seriado. O terceiro tópico de discussão é o documentário “Good Copy, Bad Copy”, no qual convergem as questões de pirataria, direitos autorais, compartilhamento, colaboratividade, e a possobilidade de uma “cultura livre global”. Mais do que fechar uma análise sobre qualquer uma desses tópicos, pretendo justamente levantar questões que possam, talvez, ser exploradas futuramente através de um olhar antropológico. Dadas as limitações de tempo e espaço e o recorte da temática desta monografia, não pretendo entrar em discussões teóricas ou metodológicas a respeito da Internet em si ou das possibilidades de uma etnografia usando a Internet. 8 A rede mundial de computadores tem sido um objeto de investigação antropológica desde o seu início, e cada vez mais as etnografias se focam em aspectos peculiares da sua utilização e em perfis específicos de usuários. Minha proposta tem seu foco sobre os usuários e suas práticas. A partir destes que espero encontrar pistas para discutir os elementos de dádiva, troca, reciprocidade e interesse.

Novas Possibilidades Tecnológicas
As modalidades atuais de compartilhamento de arquivos e colaboratividade
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Explico o processo de “ripagem” mais adiante. Uma ótima referência para essa discussão teórica e metodológica é o livro de Christine Hine, “Virtual Ethnography” (2000), no qual a autora coloca e questiona as possibilidades de uma etnografia da Internet e apresenta um exemplo de “etnografia de conteúdo”, tratando do caso da au-pair britânica Louise Woodward, que foi julgada pelo suposto assassinato de um bebê nos Estados Unidos.

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na Internet são consequência da disseminação do uso da Internet, principalmente da Internet de banda larga (por telefone, cabo, satélite ou rádio, em sua maioria), que proporciona downloads e uploads de velocidade mais elevada, e da criação de programas através dos quais os usuários podem trocar não só arquivos, mas idéias e informações. O primeiro programa de compartilhamento de arquivos 9 e que, de certo modo, “inventou” a atual forma de compartilhamento chamava-se Napster, e surgiu em 1999. O Napster foi inventando por um estudante americano que queria uma forma rápida de compartilhar arquivos de MP3 (uma forma de compressão de arquivos de música sem perda de qualidade) com os amigos. Foi o primeiro programa amplamente difundido do tipo P2P – Peer-to-Peer, em que arquivos são compartilhados de computador a computador, usuário a usuário. Assim, os arquivos são copiados de pessoa a pessoa, tornando-se impossíveis de serem controlados. O Napster sofreu um processo judicial (perpetrado pelas grandes gravadoras) que o obrigou a impedir o compatilhamento de todas as músicas protegidas por direitos autorais. 10 Como, apesar de ser P2P, algumas de suas funções dependiam de um servidor central, quando este foi “fechado”, o programa sofreu restrições. Mas imediatamente outros programas semelhantes surgiram, executando o mesmo tipo de tarefa, como o Audiogalaxy (que também foi alvo de um processo e retirado do ar), Limewire, eMule, Gnutella, Kazaa ou Soulseek, para citar os mais comuns. Os programas mais recentes dispensam o uso de servidores centrais. Cada programa tem um “perfil” de usuário diferente, o que torna mais fácil encontrar um determinado tipo de arquivo. O Kazaa, por exemplo, é utilizado para músicas recentes, da moda, discos recém lançados. O Soulseek caracteriza-se por ser uma fonte de material raro e alternativo, e onde o usuário pode pesquisar nas pastas dos outros usuários e usar um chat. O eMule é considerado um bom

Essa frase provavelmente seria contestada por estudiosos da Internet, que salientariam que as trocas de arquivos sempre existiram, desde o início da rede, e a invenção do Napster apenas colocou a modalidade na mídia. Me refiro, assim, à troca de arquivos aberta e difundida, e disponível a qualquer um que quisesse baixar o programa (e não dentro de sistemas de universidades, como funcionava anteriormente). O programa Mirc, um dos primeiros tipos de "chat”, também era usado para a troca de arquivos, mas não era essa a sua função principal. 10 Sofri esse “bloqueio” do Napster na época, e foi interessante perceber como os usuários imediatamente arranjaram uma maneira de continuar as trocas apesar das restrições. Os arquivos "proibidos" e protegidos por direitos autorais eram rastreados pelo nome. Uma troca pequena de letras na nomeação do arquivo já era capaz de burlar todo o sistema. Músicas dos Beatles, por exemplo, eram facilmente encontradas nomeadas como Beetles ou Beattlles. Com o tempo, percebi que qualquer restrição a algo colocado na Internet era facilmente derrubada em pouco tempo por especialistas chamados de hackers ou crackers, que criam programas ou maneiras de "trapacear" as restrições.

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programa para se conseguir discos ou DVDs inteiros e funciona numa espécie de “sistema de bônus”. Quanto mais arquivos o usuário compartilhar, mais uploads fornecer, mais rápido será seu acesso aos arquivos alheios. Ele pula lugares nas filas para determinado arquivo e oferece maior velocidade no download. Nos últimos tempos, o compartilhamento de arquivos foi revolucionado por uma modalidade chamada “Torrent”. No modo de compartilhamento feito pelos programas citados acima, como o Soulseek ou o eMule, quando se “baixa” um arquivo, ele é copiado por inteiro, na ordem em que se apresenta. Caso outra pessoa queria baixar o mesmo arquivo, deve esperar que o usuário que está baixando no momento termine seu download. Para os arquivos mais disputados, as filas de espera são longas. Se o fornecedor do arquivo tiver uma Internet de velocidade baixa, as trocas demoram ainda mais. Pelos programas de Torrent, o arquivo a ser baixado é “quebrado em pedaços” que podem variam entre os tamanhos de, por exemplo, 128kb, 512kb, 1mb, 4 mb, e estes pedaços podem ser baixados em qualquer ordem. O programa quebra e refaz o arquivo ao final do download. Ao mesmo tempo em que baixa o arquivo, o usuário vai compartilhando com outros usuários os pedaços que já possui. Assim, não existem filas, pelo contrário. Quanto mais usuários baixando o mesmo arquivo, mais rápido é o download, pois mais pedaços podem ser enviados. Existem sites indexadores nos quais os usuários pegam o link para o arquivo e o programa de Torrent se encarrega de baixá-lo. Esse tipo de compartilhamento possibilita que filmes, programas de tv, cds inteiros, jogos de video-game, software, e até mesmo DVDs inteiros estejam a disposição dos internautas. O Torrent funciona com uma divisão entre Seeds (os fornecedores, que já tem o arquivo completo) e Leechers, usuários que estão fazendo o download e só possuem pedaços para fornecer. Quanto mais arquivos o usuário oferecer, mais rápidos os seus downloads. Assim, o programa possui uma “resistência a sugadores”, já que, automaticamente, torna difícil, para quem não se coloca como Seed, o acesso a qualquer arquivo. Se o usuário limitar a sua taxa de uploads, automaticamente sua taxa de download é diminuída. 11 Após o download, é recomendado, como uma espécie de “boas maneiras”, que o usuário deixe o arquivo somente como Seed por algum tempo, "semeando" para que outros possam baixar.

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As últimas versões do eMule também realizam esse processo para arquivos maiores que 10Mb.

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O uso do Torrent aumentou bastante as possibilidades de download. Se antes conseguia-se principalmente músicas e softwares, pode-se baixar, no mesmo dia em que estréiam nos Estados Unidos, séries de TV e programas aos quais não se tem acesso, e que provavelmente só serão veiculados no Brasil daqui muito tempo, e pela TV a cabo. Também filmes raros, inéditos, inexistentes no Brasil. Nada ficou impossível com o Torrent, principalmente porque a maioria do material se encontra disponível no formato “.divx”, uma maneira de compressão de arquivos de vídeo sem perda da qualidade, e que pode ser assistido no computador ou mesmo em alguns aparelhos de DVD. O sistema tem também suas limitações. Os sites indexadores podem ser retirados do ar, o que torna impossível iniciar os downloads de Torrents. Além disso, alguns provedores podem, propositadamente, bloquear portas de acesso aos Torrent, para dificultar o download. Foi o uso do Torrent como meio de troca virtual que possibilitou o surgimento de usuários como “aXXo” e de grupos como o “9th Wonders”, que discuto a seguir.

aXXo, o "rei" do Torrent
“This file has been brought to you by aXXo and it's absolutely for free. I have been sharing with you for a long time and I have never asked for anything in return. NOW I NEED YOUR HELP ! ! ! PLEASE DON'T VISIT, REGISTER, BOOKMARK or POST ANY LINK to the bogus sites that have my nickname included in their names. You can't be sure that the torrents listed there ARE the REAL deal. BE AWARE ! Don't believe in liars and conmens like some site Admins and his crews. They bring shame to the file sharing world. Find me through my accounts or on reliable sites. PURE P2P always FOR YOU. aXXo”

aXXo é um dos mais famosos personagens do mundo Torrent. Não há um consenso sobre quem ele é, sua idade (a maioria das fontes indica para um adolescente), onde está, e nem mesmo sobre o que ele faz. Alguns sites trazem

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supostas “entrevistas” 12 com o “ripper” 13 , mas as informações contraditórias de cada entrevista fazem supor que, ou muitas pessoas diferentes usam o nome aXXo para se proteger de processos, ou ele realmente toma cuidado para não ser encontrado. É impossível saber até se aXXo é uma só pessoa ou o nome de um grupo de pessoas. Tanto segredo tem suas razões. aXXo é literamente caçado por uma quantidade enorme de instituições, principalmente a Motion Picture Association of America. Seu “crime” é pegar filmes logo que são lançados em DVD (ou mesmo antes, o que é um mistério para seus fãs), copiar para o computador, e comprimir o filme para que fique com, no máximo 700Mb – o tamanho de um CD gravável. Depois disso, aXXo distribui sua obra para sites indexadores, possibilitando que pessoas localizem o filme e o baixem com seus programas de Torrent. Segundo alguns sites, uma média de um milhão de pessoas em todo o mundo baixa filmes fornecidos por aXXo a cada mês. Seus feitos lhe garantem uma multidão de fãs - com direito a camiseta própria, 14 milhares de elogios em comunidades e fóruns de discussão do mundo “Torrent”, e mesmo uma oração. Adaptada do Pai-Nosso, a oração de agradecimento a aXXo usa termos familiares para os usuários de Torrent, mas é praticamente impossível de compreender para quem domina o jargão.
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Our Ripper, who art on mininova, aXXo be thy name, Thy torrents come, Seeding will be done, Here as it was on supernova. Give us this day our latest rips. And forgive us our leeching, As we forgive those that leech from us. And lead us not on to private tracker, but deliver us from the MPAA: For thine is the ripping, the seeding, and the glory, for ever and ever. Amen…

Outros rippers criticam aXXo furiosamente, acusando-o de somente fornecer blockbusters Hollywoodianos, de prejudicar a qualidade de imagem e som dos filmes ao comprimí-los tanto, e de ser alguém que somente "quer aparecer". A MPAA o tem
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Coladas no Anexo 1 http://torrentfreak.com/interview-axxo-the-most-popular-dvd-ripper-on-bittorrent/ http://www.mistershare.org/home/modules/news/article.php?storyid=105&keywords=aXXo Ripper é como são chamados os usuários que copiam um CD ou DVD original e o colocam na rede (fazem um “upload”, geralmente num formato comprimido, para que possam ser baixados por outras pessoas. Os ripper são o alvo mais comum dos processos de quebra de copyright. Eles se eximem dessa culpa dizendo que quem quebra a lei é, na verdade, quem baixa o filme. 14 http://www.luckythreadz.com/product_info.php?cPath=22&products_id=453&name=AXXO 15 http://torrentfreak.com/axxo-prayer/
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na sua lista de “mais procurados”. No início de 2007, foram distribuídos arquivos falsos com seu nome que continham um vírus (chamado de malware) capaz de identificar o IP 16 das pessoas que o baixavam em suas máquinas, e instaurando a possibilidade de punições por pirataria para estes usuários. Nas comunidades, os rumores apontavam para dois prováveis suspeitos de tal ação: outros rippers ciumentos da popularidade de aXXo e aproveitadores; ou a própria MPAA, num esforço para restringir os downloads de filmes. Foi assim que se originou o “manifesto” de aXXo, distribuído com cada um dos filmes que ele compartilha, e que se encontra no início desta sessão. Além desse manifesto, as opiniões de aXXo são encontradas nas entrevistas, cuja autenticidade é impossível garantir.

Em uma destas entrevistas, ele afirma que sua

motivação para compartilhar os filmes é que nem todos podem gastar $ 8,50 para assistir um filme, e por causa disso, não deveriam ser

privados de entretenimento. Ele não considera errado o que faz porque as perdas para a indústria seriam

ínfimas, e se coloca como presente para a comunidade,
Elogios e apoio a aXXo no site TorrentFreak.

sem pedir nada em troca. Em outra entrevista, ele

coloca que, no início de seu trabalho, as cópias eram feitas só para ele e alguns amigos. E que no país onde está não se acredita em quebra de copyright, e sim em compartilhar o entretenimento (o que daria uma pista de que ele não estaria nos Estados Unidos).

Um conjunto de números que identifica o local de um determinado computador dentro de uma rede privada ou pública. Torna possível que se rastreie a origem de determinados arquivos e usuários. http://pt.wikipedia.org/wiki/Endere%C3%A7o_IP

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Essas entrevistas, somadas ao manifesto, fornecem boas pistas para interpretar as ações do “personagem" aXXo. Bourdieu (1996) trata do “desinteresse” - um elemento que aparece tanto no manifesto quanto nas entrevistas de aXXo, quando ele afirma que “nunca pediu nada em troca.” Para o autor, há uma razão para os agentes fazerem o que fazem – quando se sabe desta, transforma-se uma série de condutas incoerentes em uma série coerente, que se pode compreender a partir de um conjunto de princípios. Não há atos gratuitos, portanto. Os agentes que lutam por objetivos específicos podem estar possuídos por tais objetivos. Podem estar prontos para morrer por estes objetivos, independentemente de qualquer consideração em relação aos lucros específicos, lucrativos, da carreira ou outros. Eles tem o sentido de jogo, e se isso implica demonstrar desinteresse para ter êxito, eles farão várias ações de maneira completamente desinteressada. Não se sabe se aXXo “ganha” algo com o que faz. Pensar na possibilidade de ganho econômico como sua maior motivação, no entanto, é aplicar ao mundo do compartilhamento na Internet uma lógica externa, própria do campo econômico. Não sei se é possível falar da Internet como um “campo” próprio de relações (a própria questão da autonomia seria algo a se questionar nessa definição), mas fica evidente que, para os participantes do universo de trocas de arquivos, existem interesses específicos diferentes dos interesses econômicos. Cada campo cria uma forma de interesse que, visto de fora, pode parecer desinteressante (ou absurdo, ou loucura). No mundo Torrent, assim como em outros campos (Bourdieu menciona o campo artístico), existe o interesse pelo desinteresse. O capital em jogo é o capital simbólico, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento. Segundo Bourdieu,
“Chamo de capital simbólico qualquer tipo de capital (econômico, cultural, escolar ou social) percebido de acordo com as categorias de percepção, os princípios de visão e de divisão, os sistemas de classificação, os esquemas classificatórios, os esquemas cognitivos, que são, em parte, produto da incorporação das estruturas objetivas do campo considerado, isto é, da estrutura de distribuição do capital no campo considerado.” Bourdieu, 1996, p. 149

aXXo ganha reconhecimento não só através dos elogios de seus fãs e das muitas manifestações de carinho e apoio que recebe, mas pelo próprio fato de ser um elemento "visado" judicialmente pela MPAA. Mesmo os que não gostam da qualidade do seu trabalho ou acham exageradas as demonstrações a favor do ripper concordam que ele é "corajoso", pois se for pego, pode sofrer um processo judicial 9

de grandes consequências. Sua fama se constrói, assim, não só pelo que faz, mas pelos supostos riscos que isto implica. No "manifesto”, aXXo finalmente pede algo em troca. O que ele pede, no entanto, é um benefício direto para quem está baixando. Ele adverte as pessoas a tomarem cuidado e não utilizarem sites falsos que usam o seu nome, pois não há garantias de que o que se encontra lá sejam seus arquivos autênticos. Ele pede que as pessoas não acreditem em mentirosos e trapeceiros como os administradores de alguns sites e suas equipes. Para ele, estas pessoas trazem vergonha ao mundo do compartilhamento de arquivos. Ele assina afirmando “Pure P2P, always FOR YOU". O P2P puro é aquele que não cobra nada e não danifica nada. Com sua postura semelhante a um “Robin Hood” do compartilhamento, aXXo garante popularidade e fama no mundo Torrent, além de ser um tópico frequente de discussões e polêmica. O intrigante é que ele não pode desfrutar plenamente dessa fama e popularidade, pois revelar sua identidade verdadeira poderia significar uma sentença de prisão. Seja quem aXXo for, o único contradom do qual ele pode aproveitar sem riscos são os elogios das pessoas que se utilizam do seu trabalho para o entretenimento sem gastar nada. Como irei colocar a seguir, as equipes que trabalham na confecção de legendas no Brasil também tem no reconhecimento entre os pares seu principal interesse e motivação, e também acabam muitas vezes tendo problemas com as leis de direito autoral.

Os “heróis” brasileiros de “Heroes”
Como mencionei anteriormente, uma das possibilidades abertas pelo uso do Torrent foi da difusão de programas de TV americanos que, ou são exibidos no Brasil com meses de atraso (e mesmo assim, só pela TV a cabo), ou nem chegam a estrear no país. Com o Torrent, os episódios são disponibilizados logo após sua estréia na TV americana ou canadense e é possível assistí-los aqui no mesmo dia. As equipes resposáveis por colocar os programas de TV na rede (uma prática chamada “Capture”, ou somente “cap”) praticamente competem entre si, tentando ver qual delas é capaz de fornecer o programa com a melhor qualidade de imagem e som e maior rapidez. Quem ganha a corrida anuncia nas comunidades de fãs e

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iniciam os downloads. Muitas pessoas baixam o arquivo e ficam “semeando" para outros, o que garante um download rápido. Com isso, proliferaram-se nos últimos tempos as equipes de voluntários (um “crescente e obscuro exército de internautas”, segundo a Revista Galileu) 17 que se encarregam de baixar os seriados e confeccionar legendas em Português – auto entitulados “Legenders”. As legendas em português são distribuídas em vários sites, como o www.legendas.tv, e também há uma espécie de competição interna entre as várias equipes, para ver quem consegue fazer a melhor legenda em menos tempo. Recordes de tempo são comemorados. Algumas equipes de Legenders, como a 9th Wonders, não se encarregam só da tradução das legendas, mas da elaboração de sites de fã com todas as informações possíveis sobre o seriado com o qual "trabalham". Mas, segundo a ADEPI (Associação de Defesa da Propriedade Intelectual, ligada à MPAA), confeccionar legendas também fere os direitos autorais e é crime. Isso fez com que vários sites de fãs que disponibilizavam esse material fossem fechados ou sofressem restrições. O site LostBrasil, por exemplo, sofreu uma sanção judicial que o impediu de fornecer as legendas. A equipe do site parou de confecioná-las, mas outras equipes tomaram o seu lugar e seguiram realizando o trabalho, divulgando as legendas em outros sites. O portal do grupo “9th Wonders”, além de disponibilizar as legendas, feitas pelo próprio grupo, fornece informações sobre cada episódio da série Heroes, sobre os personagens da série, sobre os episódios futuros, a trilha sonora, os detalhes da produção, além de manterem notícias rigorosamente atualizadas e um fórum permanente de discussão. “Heroes” é um seriado da rede de TV americana NBC que estreou em setembro de 2006. Conta a história de pessoas “normais” que começam a descobrir que possuem poderes extraordinários – como a capacidade de voar, de autoregeneração, de controle do tempo/espaço, de ler pensamentos e começam a se encontrar, descobrindo que possuem também uma “missão” em comum. É uma série que mistura ficção, fantasia e drama, e que imediatamente ganhou inúmeros fãs no Brasil. Como a equipe 9thWonders possui um endereço de contato no site, me

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http://revistagalileu.globo.com/Galileu/0,6993,ECT1445384-1719-1,00.html

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utilizei deste e-mail para entrar em contato com eles e propor algumas perguntas para a monografia. Recebi uma resposta positiva e quase que imediata. Enviei, então, uma série de perguntas, que foram respondidas por Duilio, um dos coordenadores da equipe. Duas coisas me interessavam especialmente: como era feito o trabalho e sua divisão, e qual o interesse das pessoas ao realizar o tipo de trabalho que faziam na 9thWonders. Segundo Duilio, a equipe é formada por cerca de vinte pessoas, todos na faixa dos vinte aos trinta anos. A maioria tem formação na área da Comunicação, mas também há engenheiros, médicos, advogados e administradores na equipe, além de profissionais de informática. O que os uniu foi, principalmente, o gosto pelo seriado. Alguns se conheciam pessoalmente, outros se juntaram ao grupo através do contato em comunidades de fãs e fóruns de discussão. A união de interesses fez com que fosse lançado um blog sobre o seriado, que posteriormente virou um portal. O fato interessante é que ninguém da equipe tinha feito o trabalho de legendagem de seriados antes, e segundo Duilio, foram aprendendo conforme faziam.

“Como todas as equipes, ficamos a noite esperando o episódio ser disponibilizado na Internet e o baixamos tão logo ele saia. Ficamos até tarde da noite ou cedo do dia produzindo a legenda, dependendo do grau de dificuldade, que é bem variável. O processo da nossa é equipe é um pouco diferente das demais. É feita a tradução, logo depois a revisão, então sincroniza-se e por fim uma revisão final.”

Duilio divide o grupo em três níveis: administração, feita por ele e Ludwig; "staff", que fazem o trabalho para o site, buscando e traduzindo notícias para o site e produzindo as legendas; e “apoio”, pessoas que contribuem com atividades específicas, como galeria de imagens, design do site, quadrinhos, e não são envolvidos em todas as etapas do processo como o staff. Existe, portanto, um alto nível de organização e de hierarquia dentro do grupo, o que imagino ser necessário para que o trabalho, principalmente a legendagem, seja realizada. A grande questão para mim era em relação ao que se ganha por este processo todo. O site LostBrasil, alvo do processo mencionado antes, foi acusado por fãs do seriado Lost de lucrar financeiramente com o fornecimento de legendas, já que o site possuia links para propagandas e vendas de DVD do seriado. O portal 9thWonders, no entanto, não possui nada disso. Quando indaguei sobre o

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"interesse" dos membros da equipe em manter o portal e fazer as legendas, Duilio foi bem enfático (grifos meus):

“O trabalho é feito para nós mesmo. Só fazemos o que gostamos, produzimos coisas que gostaríamos de ler/ver/ter e só armazenamos no site o que nos agrada. Reconhecimento é o melhor pagamento que pode se ter. O site surgiu exatamente do nosso desejo de fã de ter um lugar, um ponto de encontro, onde pudéssemos encontrar material da série e conversar com os demais fãs. Na época não existia, então criamos o nosso. E hoje vemos como "nossa casa", nossa pasta que guardamos os arquivos referentes à série, com uma pequena diferença: compartilhamos isso com todos. Gasta-se tempo, sim; energia, também; mas é recompensador. Dinheiro não se gasta, não tenho gastos com o site. E os que tenho são mínimos, mais barato que um McLanche Feliz - nada que me mate.”

O reconhecimento vem, principalmente na forma de elogios as legendas. Segundo as estatísticas do site Legendas.TV, algumas legendas feitas pela equipe 9thWonders são baixadas por mais de 40 mil pessoas. Muitas colocam seus agradecimentos no espaço para comentários do site Legendas.TV:

Para a equipe, os comentários são “a melhor parte”. Neles, o reconhecimento é expresso por milhares de desconhecidos, que, graças a equipe, podem

compreender um seriado que, de outra forma, não lhes seria

acessível. Como se vê em um dos comentários, “se soubesse inglês também ajudaria". No entanto, não brota só desse de

reconhecimento trabalho madrugadas

"heróico" de

legendagem.

Segundo Duilio, a equipe foi procurada por várias agências profissionais de legendagem e tradução, e várias pessoas acabaram saindo da equipe por terem sido contratadas por essas agências. Uma recompensa provavelmente inesperada

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para esses membros, eu imagino. A qualidade das legendas muitas vezes é superior ao que é normalmente feito pelas agências que trabalham diretamente com as distribuidoras de filmes - segundo a Revista Galileu (28/2/2007), isso deve-se ao fato de que a maioria das legendas profissionais é feita por brasileiros que moram em Miami, que, além de sofrerem a influência do espanhol, não se mantém a par das novas gírias e expressões usadas no Brasil que enriquecem a tradução. Novamente, no caso desses “legenders” é possível pensar nesse

fornecimento de dádivas para os demais fãs do seriado como um "desinteresse" interessante, cujo objetivo é agregar capital simbólico que pode até acabar sendo convertido em outros tipos de capitais. As equipes de tradução não disponibilizam os programas, somente as legendas. Somente isso já constitui crime, segundo a ADEPI. Todo esse reconhecimento e elogios dos demais fãs tem sua contraparte nas denúncias e ameaças feitas pelos que se sentem lesados nos direitos autorais. Pretendo levantar mais alguns aspectos dessa discussão na parte final do trabalho, onde discuto o documentário “Good Copy, Bad Copy."

A cultura do remix
“Good Copy, Bad Copy” 18 (2007) é um documentário feito por três cineastas dinamarqueses, Henrik Moltke, Andreas Johnsen e Ralf Christensen, e distribuído pela Internet. Os cineastas utilizam vários exemplos de produção cultural ao redor do planeta para discutir a questão dos direitos autorais e da pirataria na contemporaneidade. O compartilhamento de arquivos é uma das questões fundamentais do filme, já que na maioria das polêmicas mencionadas relaciona o compartilhamento às questões de quebra de copyright. Basicamente todas as produções mostradas baseiam-se no compartilhamento e na disponibilidade de arquivos na Internet. No entanto, fica também preemente a questão da colaboratividade. Seja na idéia do remix como a troca de elementos da cultura de um lugar para o outro, ou a afirmação de que é a coletividade que pressiona por novas formas de copyright e de possibilidades de uso de produções culturais, a troca é colocada como a grande riqueza possibilitada pelas novas tecnologias.

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www.goodcopybadcopy.net

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“Good Copy, Bad Copy” inicia com o questionamento do “sampling”, técnica em que um músico se utiliza de um pedaço de uma música já existente na sua própria criação. Todos os ângulos da questão são mostrados: dos donos dos direitos sobre as músicas usadas em sampling, dos advogados que trabalham na questão, e dos músicos que se utilizam dessa técnica. São apresentados alguns trabalhos que se utilizam do sampling como principal técnica, como “The Grey Album”, um trabalho do produtor Danger Mouse em que ele usou bases instrumentais de músicas do “White Album” dos Beatles e os vocais do “Black Album” do rapper Jay-Z. O trabalho nunca foi legalmente lançado, mas espalhou-se pela Internet e foi considerado um dos melhores discos de 2005. No entanto, jamais seria possível de existir "legalmente", pois os direitos sobre as músicas dos Beatles não seriam liberados para tal propósito. Outros músicos que utilizam o sampling afirmam que pagariam pelo uso dos pedaços de música, mas provavelmente isso os colocaria num processo legal e burocrático tão grande que também impossibilitaria seu trabalho. Tudo isso é sentido como se, na cultura "remix" proporcionada pela Internet, houvessem leis que estivessem bloqueando o fluxo natural da arte e da cultura. Essa é a questão fundamental do filme, que retorna a cada exemplo, e que revela uma grande “onda" de produções artísticas baseada em compartilhamento e colaboratividade que necessita de uma nova política de direitos autorais, sob pena de parar ou dificultar imensamente o surgimento dessas novas criações. Existe um posicionamento claramente expresso no filme contra as grandes indústrias do entretenimento e a favor da flexibilização dos direitos autorais. Assim, os vilões são representados pela MPAA (ela, novamente), e pela IFPI (International Federation of the Phonographic Industry). Representantes de ambas as instituições afirmam que o crescimento artístico depende de uma regulação forte para se desenvolver, e que se os artistas não tem garantia de retribuição financeira pelas suas produções, eles são desestimulados a criar. A pirataria é definida pelos representantes dessas instituições, como a apropriação de propriedade intelectual sem compensação. Afirmam que a pirataria de rua, como os camelôs vendendo CDs e DVDs, não é o que lhes preocupa, e sim a pirataria através da Internet. São perdidos 6 bilhões de dólares por ano por causa dela e é algo que sabem impossível de controlar e que pretendem, assim, tornar o mais difícil e tedioso possível para quem se utiliza.

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É mostrado o exemplo do site The Pirate Bay 19 , um indexador de Torrents. Criado e mantido por dois jovens suecos, e definido pelos próprios como “desobediência civil organizada para forçar uma mudança nas leis do copyright”, o site foi alvo de uma operação da polícia sueca, que o tirou do ar. Isso gerou uma ampla onda de protestos que, em última análise, se colocavam contra o "imperialismo cultural" americano e sua pretensão a controlar a distribuição de arquivos no mundo todo. O resultado foi a criação de um “Partido Pirata” na Suécia, que prega que todos os cidadãos do mundo inteiro tem o direito de ter a sua disposição todas as criações culturais existentes, ao toque do mouse. A justificati´va é de que isso é um empoderamento gigantesco do cidadão comum, já que, qualquer pessoa, com um computador e criatividade, é capaz de produzir e distribuir criações que podem ter um impacto político e cultural em todo o planeta. O filme apresenta um dos “gurus” dessa onda, Lawrence Lessig, fundador da “Creative Commons” e escritor do livro “Cultura Livre” 20 . Segundo Lessig, o copyright é importante, mas do jeito que existe atualmente, nada mais é do que um inibidor de criatividade. A Creative Commons apresenta novas formas de licenciamento de produção artística que podem ser escolhidas pelo próprio artista, de modo que as produções sejam adaptadas às novas possibilidades tecnológicas e que o artista não deixe de receber por isso. O cinema nigeriano é apresentado como uma nova possibilidade de produção que se beneficia das particularidades e mesmo restrições locais para criar uma ampla “indústria” de entretenimento. São feitos 1200 filmes por ano na Nigéria (praticamente o dobro dos Estados Unidos) sem que o país tenha uma lei de copyright. São filmes feitos em vídeo digital e para distribuição direta em DVD, que se aproveitam de um nicho de mercado não explorado pelos filmes americanos – que se poderia denominar como de “filmes populares”, realizados sem grandes pretensões técnicas ou artísticas e com temáticas que tratam de situações familiares, histórias “humanas”, sem sexo e violência. Estes filmes não são pirateados pelos vendedores - somente os estrangeiros o são. A economia local nigeriana forçou os produtores a criarem sua própria forma de fazer cinema, independente das pressões ou os padrões de fora. Isso significa, em última instância, que a própria sociedade é o grande
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http://www.piratebay.org http://bardo.castelodotempo.com/files/public/culturalivre.pdf

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competidor da indústria musical, cinematográfica, editorial. Cada cidadão é um competidor em potencial, porque tem as ferramentas para tal. O lado do “mal” coloca seus argumentos – dinheiro perdido, empregos perdidos, danos à música como um todo. O advogado da IFPI afirma que só quando houverem penalidades graves para as pessoas que se utilizam da pirataria, tratando-a como o crime que realmente é, vai ser possível impedir o processo. No entanto, o contra-argumento é de que o consumidor não se importa de pagar os artistas, mas não gosta de dar dinheiro às grandes corporações. Ou seja – é realmente necessário repensar a maneira de se vender música, de modo que aqueles que realmente a produzem sejam recompensados. Um exemplo de uma nova maneira de vender e sobreviver de música é o movimento tecnobrega de Belém do Pará. O estilo é baseado em remixes eletrônicos de bases de músicas famosas, às quais são acrescentadas novos vocais ou mesmo novas batidas. As músicas são produzidas em estúdios caseiros e repassadas para os vendedores de rua, que copiam os CDs e os vendem, e são os únicos a ganhar dinheiro com CD. Os “artistas" – DJs, produtores - ganham dinheiro nas festas que realizam nos finais de semana, capazes de congregar uma média de 5 mil pessoas. Algumas “aparelhagens" (como são chamados os diferentes grupos de tecnobrega) gravam suas apresentações, vendendo os CDs no final da festa. Apesar de serem usadas músicas de outros artistas, nada é licenciado e ninguém ganha com o pagamento de direitos autorais. A música não “pertence” a ninguém, e as remixagens são usadas, na verdade, como um meio do divulgação do artista e não como sua obra final. Assim como o cinema nigeriano, trata-se de uma nova forma de produção cultural, surgida numa região pobre do mundo, e que impõe desafios à forma como as leis de copyright existem atualmente. O “guru” Lessig afirma são novas formas de criação e interação que estão em processo, o surgimento de uma cultura do “remix”, onde as criações de todos se tornam acessíveis para todos, gerando um ambiente de troca global. A troca se torna, assim, o principal fundamento dessa pretensão a uma cultura livre global. Levando em consideração as ferramentas utilizadas pelos personagens do documentário, e pelos outros casos tratados anteriormente, como aXXo e a equipe 9th Wonders, é possível perceber que tratam-se de novas formas de troca (muito distantes do que Malinowski ou mesmo Mauss poderiam jamais imaginar, quando trataram do assunto em seus trabalhos), muitas vezes 17

anonimizadas ou distantes da possibilidade de contrapartida. Os “interesses” e “desinteresses” que regem essas trocam também são novos – e, se estão em grande parte ligados ao prestígio e reconhecimento dentro de universos particulares de relações, também estão sintonizados com propostas maiores, de caráter global, que, de certa forma, pregam o empoderamento da sociedade civil e do cidadão comum num mundo cada vez mais “dominado” pelas grandes corporações. Reconheço que os exemplos tratados aqui, de forma superficial até, são apenas algumas variantes desses novos fenômenos que congregam

compartilhamento e colaboratividade. São fenômenos que mostram uma mudança grande nas maneiras de ser e estar no mundo, para uma grande quantidade de pessoas, e penso que a Antropologia tem uma grande tarefa pela frente para conseguir dar conta de interpretar isso tudo.

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Referências
Optei por relacionar todos os sites de que trato no corpo do trabalho, de modo a facilitar a busca pelas referências.

Bourdieu, Pierre. Razões Práticas. Campinas: Papirus, 1996.

Hine, Christine. Virtual Ethnography. London: Sage, 2000.

Lessig, Lawrence. Cultura Livre – como a mídia usa a tecnologia e a lei para barrar a criação cultural e controlar a criatividade. Creative Commons. (Disponível em
bardo.castelodotempo.com/files/public/culturalivre.pdf)

Mauss, Marcel. “Ensaio sobre a dádiva". In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.

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Anexo 1
Entrevista 1 – Ripper aXXo

http://torrentfreak.com/interview-axxo-the-most-popular-dvd-ripper-on-bittorrent/

TorrentFreak: When did you start ripping / uploading DVDrips? aXXo: When I was about 15 or 16 I got into backing up my old DVD’s. History from there. TorrentFreak: What motivates you to share these movies? aXXo: Why not? If I see a great film I believe everyone has the right to be entertained by it. TorrentFreak: Don’t you think that ripping and uploading these (copyrighted) movies is wrong? aXXo: No not really. It was just for me and some mates at first. TorrentFreak: Are you alone in this, Or do you get help from others? aXXo: No help, It’s all me. TorrentFreak: You seem to prefer 700MB rips, and not higher quality ones, why is this? aXXo: Very little (if any) Loss of quality, and will fit on a Single Music CD. TorrentFreak: On which torrent sites do you release this movies, and why not just on one? aXXo: There are quite a few I release to. Many people prefer one site over the rest, and I want to spread these as much as possible. TorrentFreak: What do you think of sites that (mis)use your name, like axxotorrents.com? aXXo: This is a touchy subject. I have nothing against any of them, it was a complete misunderstanding and the issue has been cleared up. They are reliable, And I have checked every torrent on there thus far to be real. TorrentFreak: How can people tell if the torrent is not a scam, or a fake torrent? aXXo: If it’s a RAR archive, It’s not mine. My rips will contain 2 or 3 files. One info and one .avi files. On occasion a .txt file but that will stop. TorrentFreak: Where do you get the movies, and do you use scene releases as well? aXXo: … TorrentFreak: Do you think that distributing these (copyrighted) movies is morally wrong? That is, do you consider sharing shows to be the same as stealing? aXXo: Thank god in this country we don’t believe in copyright infringement. It’s just sharing entertainment, nothing more.

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TorrentFreak: Okay, perhaps this one is easier to answer. What is your favorite BitTorrent site? aXXo: I don’t have one. Darksiderg.com is where my original releases are, But I release to many. Superfundo, Demonoid, MiniNova, The Pirate Bay. TorrentFreak: Anything you want to add to this? aXXo: Upload what you’ve downloaded, and then some. TorrentFreak: Thanks! aXXo: You’re welcome.

Entrevista 2 – ripper aXXo
http://www.mistershare.org/home/modules/news/article.php?storyid=105&keywords=a XXo TorrentFreak: O que o motiva a compartilhar estes filmes? aXXo: Nem todo mundo pode gastar $8.50, ou qualquer outro valor que seja, para ver filmes. TorrentFreak: Você acha que ripar e fazer upload destes filmes (com direitos autorais) é errado? aXXo: A indústria do cinema perde apenas 1% dos seus lucros anuais, em um mercado multi-BILIONARIO. Eu penso que as pessoas que não podem gastar em filmes merecem ter entretenimento igual a das pessoas mais privilegiadas. TorrentFreak: Você está sozinho nisto, ou você tem ajuda de outras pessoas? aXXo: Eu tenho ajuda, eu nunca conseguiria fazer isso sozinho, é claro. TorrentFreak: O que você acha dos sites que usam o seu nome, como o axxotorrents.com? aXXo: Podem ir pro inferno, nós estamos aqui para a comunidade, e nunca pediremos nada em troca. TorrentFreak: Como as pessoas podem identificar se um torrent não é uma isca, ou um torrent falso? aXXo: Torrents aXXo nunca são um arquivo RAR, e os torrents conterão sempre 3 arquivos. TorrentFreak: Onde você consegue os filmes, e você usa releases de outras fontes também? aXXo: …

TorrentFreak: Certo, talvez essa pergunta seja mais fácil de responder. Qual o seu site de

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torrents favorito? aXXo: eu gosto do TorrentBox

TorrentFreak: Alguma coisa que você queira acrescentar? aXXo: Só uma nota rápida: eu tenho ouvido casos de pessoas sendo rastreadas pelo download de torrents aXXo falsificados, então por favor sejam cuidadosos! Se você não está certo se ele é legítimo, NAO FAÇA O DOWNLOAD. TorrentFreak: Obrigado! aXXo: De nada.

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