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OFICLOSE ARTESAOSNA
HISTORIADA MADEIRA

o facto de a Madeira estar desabitada facilitou a surgem na ilha sob a condição servil; mas desempe-
fixação dos primeiros povoadores europeus, mas atri- nharam um importante papel relacionado com o
bui-lhes redobradas responsabilidades para o lança- arranque da economia açucareira. Nesta população
mento dos alicerces da nova sociedade. Deste modo madeirense surgem diferenças de condição social que
aos obreiros e cabouqueiros iniciais seguiram-se determinaram os diversos estatutos ou categorias
diversas levas de gente para o rápido arranque de sociais privilegiados, povo e minorias.
ocupação. A partir do núcleo inicial de povoadores, Ao grupo de mando, de ócio e façanhas bélicas
disseminados pelas diversas frentes de arroteamento no norte de África, associa-se uma numerosa plêiade
da ilha, ganha forma uma nova sociedade com uma de subordinados (rendeiros, assalariados, mesteres e
dinâmica semelhante à do reino. A sua estruturação escravos), que contribuía para o progresso agrícola e
partirá do estatuto preferencial dos primeiros habi- mercantil da ilha. Aliás, a sua importância na socie-
tantes e evoluirá com a afirmação da estrutura insti- dade madeirense reforçava-se com o progresso eco-
tucional e económica. O grupo europeu peninsular nómico da ilha. Todavia só em 1484 os mesteres fa-
tinha uma importância primordial na formação da zem ouvir a sua voz na vereação por meio de criaçãQ
nova sociedade, sendo pouco representativa a presen- da Casa dos Vinte e Quatro; dois anos mais tarde
ça de outros grupos étnicos; destes apenas se salien- assumiram uma participação activa na procissão do
tam os africanos (mouros, negros e guanches) que Corpo de Deus. O lugar que os mesteres nela ocu-

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pavam poderá significar uma hierarquização dos ofí- aprendizes, sendo a garantia da qualidade do serviço
cios, que se fazia de acordo com o estabelecido em a prestar. Por outro lado a tendência para a fixação
1453 para Lisboa. A relação dos mordomos dos ofí- dos mesmos em arruamentos determinados resulta da
cios, feita no ano de 1486 pela vereação, indica a necessidade de um maior con-trole.
estrutura sócio-profissional; pedreiros, sapateiros, A cada ofício, de acordo com o número de ofici-
alfaiates, barbeiros, vinhateiros, tecelões, besteiros, ais e a sua importância na sociedade, liga-se a sua
hortelães, almueiros, pescadores, mercadores, almo- estruturação em corporações, a sua presença na vida
creves, ourives, tabeliães e tanoeiros. Para os anos política local e a posição atribuída na posição do
imediatos surgem dados referentes à fiança e aos Corpo de Deus. Note-se que a cada grupo de ofícios
juízes dos ofícios (ferradores, ferreiros, barbeiros e correspondia um santo patrono, cujo dia era de redo-
moleiros) que testemunham a dimensão adquirida brada festa para os associados.
pela estrutura oficinal, mercê da exigência da socie-
dade para serem asseguradas as necessidades básicas, AS INDÚSTRIAS E ARTESANATO
pois o isolamento e as dificuldades de contacto com A valorização económica da ilha só foi possível
a Europa impossibilitava o abastecimento dos arte- com a definição de uma ajustada estrutura sócio-
factos de uso corrente aí produzidos. A importância e profissional capaz de satisfazer as necessidades fun-
a fixação dos mesteres em determinadas áreas do damentais da sociedade e gerir mais riqueza para ali-
burgo veio dar origem a ruas com o nome dos diver- mentar o comércio externo. Diversas actividades de
sos ofícios aí sedeados como a dos ferreiros, a dos carácter artesanal completam o processo económico
tanoeiros, a dos caixeiros, etc. madeirense, atribuindo uma evidente mais-valia à
Aos ofícios juntavam-se os trabalhadores braçais ilha e aqueles que nele participam. Muitas destas
ou assoldadados, que se dedicavam a diversas tarefas faziam-se por necessidades dos próprios, mas outras
no campo e no burgo. O seu serviço era onerado com houve que tinham por objectivo o mercado externo.
a redízima; este tributo, prejudicial ao exercício des- Neste caso é de salientar a obra de vimes e o borda-
sas actividades, punha em causa a segurança da terra, do. Ambas as actividades foram uma importante
pois, segundo se dizia em 1466,tal situação conduzia forma de gerar riqueza e um complemento impor-
ao aumento dos escravos; a mesma preocupação evi- tante ao trabalho rural.
dencia-se em 1489, apontando-se a saída de homens O nível de desenvolvimento destas actividades
para as campanhas africanas como um perigo para a até à década de quarenta do século XIX era muito
segurança da ilha, devido o elevado número de escra- incipiente. A exposição realizada em 1849 pelo go-
vos que nela havia. Verifica-se,portanto, que o grupo vernador civil José Silvestre Ribeiro documenta este
servil surgiu com uma importância relevante na estádio e pode ser considerado o principal impulso
sociedade madeirense na segunda metade do século para o necessário avanço. O retrato desta situação
XV; o seu 'peso gerou preocupação e tomou neces- surge em 1847 para toda a ilha e cidade. Assim as
sária a regulamentação dos seus movimentos e do seu actividades artesanais ocupam] 4% da população da
espaço de convívio; daí a exigência dos nele incluí- ilha e no Funchal é de 21%, o que demonstra que a
dos usarem um sinal, de se recolherem à casa do se- cidade paulatinamente se foi especializando nos
nhor, ao mesmo tempo que se ordenou a expulsão serviços e actividades transformadoras, perdendo
dos forros, com excepção dos canários. Os escravos parte da sua ruralidade. Este grupo é dominado pelos
negros surgem como assalariados, vendedores de carpinteiros, sapateiros e tanoeiros. Em 1862, passa-
fruta dos seus senhores, enquanto os guanches eram dos quinze anos, temos o retrato completo destas
pastores e mestres de engenho. actividades na cidade e freguesias rurais, feito por
O desenvolvimento das pequenas indústrias e dos Francisco de Paula Campos e Oliveira. Os artistas e
grupos oficinais foi evidente no decurso do século operários representam então cerca de 38% da popu-
XVI e paulatinamente as diversas corporações ofici- lação. Se a este grupo retirarmos os lavradores, tere-
nais foram ganhando importância social, económica mos a sua concentração na cidade e se a isto adicio-
e política. A sua presença na vereação passa a ser narmos os referentes em Câmara de Lobos seremos
assídua, para defender os interesses da classe e inter- levados a concluir que a maior concentração oficina]
vir na regulamentação da sua actividade. Note-se que tem lugar aqui, com 19% destes ofícios. Nos conce-
a vereação tinha uma intervenção constante na regu- lhos rurais a maior evidência vai para Ponta de Sol,
lamentação dos ofícios e também na qualidade do Calheta e Machico. A incidência vai para os ofícios
serviço prestado e tabela de preços das diversas tare- ligados ao sector transformador, dominam os sapa-
fas e produtos daí resultantes. Cada ofício tinha um teiros, carpinteiros e marceneiros, enquanto nos
juiz que se encarregava de examinar os demais serviços surgem os barqueiros e boieiros.
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Em 1862 temos 1029 bordadeiras cujas toalhas mica conduziu à criação do Grémio dos Industriais
bordadas renderam. nas exportações cerca de sete de Bordado da Ilha da Madeira (1935) com o objec-
contos. Estes valores continuam a subir sendo em tivo de orientar a indústria e promover o seu comér-
1906 trinta mil as bordadeiras e dois mil profissio- cio. De acordo com um relatório deste Grémio de
nais nas oito casas que contribuíam com 1952 o bordado ocupava mais de cinquenta mil famí-
242.342$180 réis. Já em 1912 temos 34.500 bor- lias, o que significa mais de metade das famílias, no-
dadeiras. meadamente do meio rural.
Na ilha o bordado é uma actividade que ocupa Outra actividade importante no domínio do arte-
mão de obra em toda a ilha. Isto acontece desde o sanato foi a obra de vimes. Desde o século XVI que
século XIX. Deste modo se na década de sessenta as sabemos do fabrico de cestos de verga para os traba-
bordadeiras estavam restritas ao Funchal e Câmara lhos agrícolas e serviço de casa. O cultivo do vimeiro
de Lobos já na década de noventa a actividade esta- adquire importância na segunda metade do século
va em toda a ilha da Madeira e havia chegado ao XIX. A cultura teve um incremento na freguesia da
Porto Santo. Note-se que, em 1862, das 1029 borda- Camacha e rapidamente se espalhou no Funchal
deiras existentes em toda a ilha a maioria situava-se alargando-se às freguesias do norte, nomeadamente a
no Funchal e Câmara de Lobos, respectivamente com de Boaventura. Deste modo a cultura e obra de vimes
844 e 152. De acordo com a evolução do mercado, estão presentes e persistem em ambas as localidades.
cresce o número de bordadeiras. Assim em 1906 A par destas indústrias que assumiram um papel
eram 30.000 as bordadeiras subindo para 45.000 em de relevo na economia da ilha é necessário conside-
1924, atingindo-se em 1950 as sessenta mil borda- rar os diversos ofícios e actividades artesanais que
deiras. O facto desta actividade ser maioritariamente contribuem para a pujança dos diversos sectores e
executada em casa das bordadeiras permitia conciliar melhoria do conforto humano. A maior parte dos
o acto de bordar com a actividade agrícola e caseira. artefactos e produtos daqui resultantes tinham como
E ao mesmo tempo atribuía um precário suplemento destinatário o mercado local, todavia alguns encon-
em dinheiro para a economia caseira. Em 1952 o bor- tram mercado na exportação. Foi o caso dos embuti-
dado distribuía 47.252 contos por cerca de 60.000 dos, das flores de penas, chapéus de palha. Estes últi-
bordadeiras. Na década de trinta a conjuntura econó- mos tinham em 1874 uma importante oficina na rua
da Alfandega,
propriedade
de Lacerda &
Irmão. O em-
butidor traba-
lha em parale-
lo com os ofí-
cios anterio-
res, sendo-lhe
atribuída a
missão de dar
às pequenas
peças de mo-
bília o aspecto
apelativo.
Através de um
jogo de cor de
diferentes ma-
deiras era e é
possível traçar
retratos, flo-
res, constru-
ções geomé-
tricas que deco-
ram tampos de
mesas, cofres,
. . .
Caixas e CaIXl-
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nhas. As referências mais antigas a este ofício repor- açúcar se faziam móveis, como foi o caso de armá-
tam-se ao século XVII, mas foi na segunda metade rios e contadores, que ficaram designados como de
do século XIX que esta arte ga-nhou fama na ilha e caixas de açúcar. A concentração destes ofícios era
fora dela. A fama do embutido e a sua procura levou maioritariamente na cidade, assim em 1863 traba-
à criação de oficinas especiali-zadas. A primeira foi lhavam na cidade 92 dos cento e vinte marceneiros
criada em 1770 na fortaleza do Pico, mas sem dúvi- de toda a ilha, enquanto nos carpinteiros o Funchal
da quem deu maior alento aos embutidos foi a esco- apresentava 112 do total de 196.
la de desenho industrial em 1889, que teve a oficial- De entre as diversas actividades artesanais que
ização da oficina em 1916. contribuem para o conforto das populações devemos
Ao nível das actividades subsidiárias merecem a salientar as que se prendem com o vestuário, incluin-
nossa atenção as que se prendem com os sectores do a tecelagem e tinturaria, o curtume e o fabrico de
dominantes no processo económico. Assim no caso botas, de produtos de cozinha e higiene, como os
do vinho é necessário ter em conta a actividade dos utensílios de barro e folha, o sabão, e alimentares,
tanoeiros, de que ficou memória numa rua da cidade. onde se incluíam as massas e as bebidas alcoólicas.
Note-se que, durante muito tempo, a exportação do Juntam-se ainda outras actividades como o fabrico de
vinho era feita a granel havendo necessidade do cal e telha para a construção de habitações, ou de
vasilhame de madeira. Normalmente, a madeira de acessórios, com de chapéus de feltro e palha e flores
carvalho era importada dos Estados Unidos, de Char- de penas. .
leston, por exemplo, e aqui na ilha procedia-se ao A presença de barro na ilha é evidenciada pela
fabrico das pipas em oficinas anexas às lojas de vi- topo nímia mas mesmo assim parece que nunca foi
nhos ou independentes. Em 1862 eram 52 as oficinas suficiente para as necessidades da ilha, uma vez que
à sua procura para o fabrico de utensílios domésticos,
telha dita romana, havia que juntar nos séculos XV e
XVI a sua procura para o fabrico de açúcar, quer para
formas, quer na fase de purificação. Lembre-se que
no fabrico do açúcar as formas só serviam uma vez,
necessitando quase sempre de ser partidas para reti-
rar-lhe o pão de açúcar. Isto obrigava à existência na
retaguarda de olarias e do barro necessário para o seu
fabrico.
Nas indústrias subsidiárias da construção temos
os fornos de telha, onde se coziam as telhas de barro
e os de cal onde se preparava a cal. Enquanto nos pri-
meiros temos cinco fomos no Funchal e três no Porto
Santo, no segundo são apenas 10 moinhos no Porto
Santo, não obstante ter existido outros no Funchal,
Santa Cruz, Câmara de Lobos e S. Vicente. A
Madeira apresentava em 1845 quatro fomos, passan-
do para cinco em 1863. Os da vertente sullaboravam
a pedra calcária vinda do Porto Santo, tomando-a
mais vantajosa pela falta de lenhas. Apenas em S. Vi-
cente, desde o século XVI, dispensava-se a pedra cal-
cária portossantense, pela existência de um filão e cal
na zona dos Lameiros que foi explorada em época
recente mas que hoje, a exemplo do Porto Santo
deixou de ter importância.
Foi na ilha do Porto Santo e nomeadamente no
de tanoaria em laboração, com mais de duzentos ilhéu de Baixo que a exploração da cal se transfor-
operários, situadas maioritariamente na cidade. mou numa importante fonte de riqueza. No século
Paralelamente o trabalho da madeira tinha outros ofí- XV o senhorio da ilha interessado em manter sem
cios como era o caso dos carpinteiros e marceneiros. sobressaltos a industria açucareira proibiu a sua
A oficina de marcenaria trabalhava com as madeiras exploração, obrigando os madei-renses a importá-la
da ilha ou importadas, sendo de notar a ideia vigente do continente. Todavia no século XVI a quebra do
a partir do século XVII com a madeira das caixas de açúcar e a necessidade desta para a construção de for-
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tificações levou ao incremento
da indústria da cal no Porto
Santo, que se manteve activa até
à década de setenta do século
XX. Note-se que em 1928 em
todo o arquipélago funcionavam
10 fábricas de cal.
De entre os produtos básicos
de higiene destaca-se o sabão. A
sua produção e comercialização
eram um privilégio do infante D.
Henrique que a cedeu aos seus
capitães no espaço das capita-
nias. Esta situação persistiu até
1766 altura, em que todas as sa-
boarias passaram para a adminis-
tração da Fazenda Real, acaban-
do por ser extinto o monopólio
em 1857. A cidade recorda ainda
hoje esta situação através da Rua do Sabão, que foi mente uma actividade de tipo caseiro. A matéria-
buscar o nome ao depósito do mesmo. A partir do prima fundamental, linho, lã de ovinos e materiais de
momento do fim do monopólio surgiram diversas tinturaria, era de produção local, o que fazia com que
fábricas na ilha sendo de salientar em 1860 as de muitas das peças de lã, linho e estopa fossem mais
Constantino Cabral de Noronha e José Joaquim de baratas que os tecidos de garridas cores vendidos
Freitas, que produziam respectivamente 16524 kg e pelos adelos, cuja presença está documentada desde
12.395 kg. Para o fabrico do sabão necessitava-se de o século XVII. A ilha também importava linho de
barrilha, que existia em abundância nas ilhas diversos destinos, nomeadamente da Inglaterra,
Desertas. Anualmente as duas fábricas consumiam Alemanha e da América do Norte. Todavia, a maior
quase 200 toneladas e precisavam 132 carradas e quantidade de linho consumido era de produção
lenha de pinho, urze e castanho. Esta última situação local. E desde os inícios do povoamento que a cultura
foi responsável pelo atraso da indústria dos sabões na deveria existir na ilha. As posturas do século XVI
ilha. referem a prática corrente de alagar o linho nas
O tabaco não vingou como cultura na ilha, mas ribeiras da cidade com muito dano das suas águas,
isto não impediu que com a liberalização do seu co- pelo que se recomenda o uso de poços separados. A
mércio e produção não surgissem fábricas na ilha no sua cultura espalhou-se por toda a ilha, ganhando
último quartel do século dezanove. A mais antiga é a uma posição de destaque nas freguesias do norte,
Fabrica de Tabacos Madeirense do visconde de como foi o caso de S. Jorge e Santana.
Monte Bello, fundada em 1877. Esta produzia cigar- O século XVIII é considerado um momento de
ros, charutos, rapé e tabaco picado resultante da pro- crise desta cultura, havendo necessidade de impor-
dução da ilha e da importação de Cuba, Porto Rico e tação da América pelo que as autoridades municipais
Estados Unidos. Note-se que a fábrica laborava qua- tomaram medidas no sentido da promoção do seu
tro toneladas de tabaco da ilha e apenas quatrocentos cultivo. Deste modo foi possível com esta matéria
quilos importado. produzir toda a roupa branca que a ilha necessitava.
No meio rural surgiam algumas actividades Todavia a partir de meados do século XIX a ilha foi
caseiras específicas com objectivo de satisfazer as assolada por uma invasão de tecidos estrangeiros vis-
necessidades da casa. Neste caso, é de destacar o cul- tosos e a preços muito em conta que destronaram o
tivo do linho e a tecelagem, o fa-brico de azeite de linho da terra e acabaram com os tormentos da po-
loiro. O azeite de loiro, feito a partir da baga de lou- pulação. Note-se que o trabalho de preparação do
reiro, apresentava-se de grande utilidade como com- linho era muito custoso, sendo considerado como o
bustível para as candeias de barro, como lubrificante fadário do linho. Ao linho juntava-se a lã fruto da tos-
e na medicina caseira. Em 1862 estão documentados quia dos ovinos. É no decurso do século XVIII que se
47 lagares de azeite loiro com forte incidência nos assiste a uma aposta nesta matéria-prima através da
concelhos de Porto Moniz e Calheta. promoção do pastoreio e criação e ovelhas, de forma
O fabrico de panos para cobrir o corpo era igual- especial as meirinhas por serem as que produzem as
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melhores lãs. Os ovinos de raça irlandesa surgiram na que surgem, respectivamente, com 17 e 19. Em 1908
ilha em finais do século XVIII, permitindo um me- as oficinas de curtir couros eram 6 I passando para 38
lhor aproveitamento das lãs. Em 1862 a ilha dispu- em 1910, o que demonstra estarmos perante uma
nha de 44.186 cabeças de gado ovelhum, maioritari- redução da matéria-prima. Todavia, em 1928, Peres
amente distribuído no Funchal, que produziam 39 Trancoso testemunha uma valorização da actividade
toneladas de lã branca e cerca de 8 da preta. A estas com a plena laboração de 203 fábricas.
duas matérias-primas fundamentais junta-se ainda a A riqueza de couros repercutia-se no número de
seda de menor dimensão. A sua presença na ilha está oficinas de sapateiro. A sua presença está documen-
documentada desde o século XV, estando isenta de tada desde os primórdios do povoamento, com parti-
qualquer direito desde 1485. Na segunda metade do cular incidência no Funchal. De acordo com a regu-
século XVIII foi evidente a aposta na seda, com lamentação das posturas sabemos qual o calçado fa-
incentivos da coroa ao plantio de amoreiras. Uma vez bricado na ilha. Para Homem temos botas, sapatos,
disponível a matéria-prima eram necessários teares e botas de montar e botas mouriscas. Já no calçado
as mãos hábeis das tecedeiras para dispor-se dos feminino temos chapins, botinas e pantufas. Em 1862
panos com os quais os alfaiates e costureiros depois laboravam 346 sapateiros, sendo 156 no Funchal, que
iam faziam o corte do vestuário. De acordo com descem para mais de metade em1906 e voltam a su-
informação de 1862, o número de teares de linho e lã bir para 2 I5 passados dez anos.
na Madeira era de 559 e o de tecedeiras de 359, Hoje o espectro dos ofícios mudou. Muitos dos
havendo uma incidência na Calheta, Santana e atrás referidos desapareceram ou estão em vias de
Funchal. Em 1908 o número de teares havia subido extinção. Por outro lado a reestruturação do sector
para 559, mas paulatinamente foram desaparecendo produtivo no post segunda guerra mundial conduziu
como também a disponibilidade do linho e lã de ove- a uma forma diferente de organização e valorização
lha. De acordo com uma taxa estabelecida em 1862 dos ofícios. As oficinas desapareceram dando lugar
às tecedeiras do Porto Moniz, ficámos a saber que o às industrias alimentadas por empresas sectoriais
concelho produzia 3300 metros de pano de linho, 550 onde os ofícios se estruturam de forma diferente. Os
de lã preta e 110 de lã branca. É de salientar que os proprietários deixam de ser operários especializados
alfaiates têm uma forte incidência na cidade do e a ideia de aprendiz é cada vez mais uma situação
Funchal, o que poderá significar que no meio rural o caduca..
corte do vestuário era caseiro.
Os curtumes em ligação com o calçado mantive- BIBLIOGRAFIA
ram-se sempre com grande evidência na vida das
ACTIVIDADES E OFÍCIOS ARTESANAIS
populações, estando dependente da disponibilização
de gado, ovino, caprino e, fundamentalmente, bovino Rui de Abreu de Lima, Artesanato Tradicional
e do consumo de carne. Esta indústria existe desde os Português, Lisboa, 1998.
IDEM, O Bordado Tradicional Português, Lisboa,
primórdios da ocupação da ilha. As intervenções do 1994.
município contra a poluição das ribeiras por esta Vitorino José dos Santos, Indústrias Madeirenses,
actividade, nomeadamente no Funchal, eram cons- bordados, Artefactos de Verga e embutidos, Boletim do
tantes. Os pelames e alcaçarias, por necessidade de Trabalho Industrial, 5, 1907.
água abundante, situavam-se quase sempre no leito IDEM, Relatório dos Serviços da Secção dos Serviços
das ribeiras. Na Tabua e Serra de Água surgem algu- Técnicos de Industria no Funchal, Boletim Trabalho
mas construções. Consideradas popularmente como Industrial, 1907-1917.
construções mouriscas, que nos parecem ter a ver A. Marques da Silva, Indústrias Caseiras da Madeira.
com esta actividade. Tenha-se em conta que esta área O bordado, in Mensário das Casas do Povo, n°.119, 1956.
IDEM, Indústrias Caseiras da Madeira. Cerâmica,
teve um papel importante nos curtumes.
No decurso do século XVII o estado desta indús- Mensário das Casas do Povo, n°.140, 1958.
Alberto Artur Sarmento, As Pequenas Indústrias da
tria deveria ser decadente face à disponibilidade de Madeira, Funchal, 1941.
couros e solas brasileiros de superior qualidade. Face José Ezequiel Velosa, O Fabrico de Chapéus Panamá
a esta crise o município de Machico apostou em 1780 na ilha do Porto Santo, DAHM, 1949,254-255.
na reanimação da indústria. Na segunda metade do IDEM, As Palmeiras de Igreja. Uma Indústria
século XIX o incremento da pecuária deverá ter con- Caseira que tende a Desaparecer no Caniço, DAHM,
tribuído para o reforço da actividade. Em 1863 temos 1949,212-213.
notícia de 61 oficinas em que trabalhavam 532 sur- T. Mizon, O Fabrico do borracho, Xarabanda, 10,
radores e curtidores. É evidente nesta actividade uma 1996,16-18.
acentuada concentração na Calheta e Ponta de Sol, Agostinho Vasconcelos, A giesta e as obras de Verga,

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