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A

AUTONOMIA
E O
DEVE E O HAVER DAS FINANÇAS DA MADEIRA

ALBERTO VIEIRA
Durante largos anos a Madeira foi despojada de quase
totalidade dos seus rendimentos enviando milhares de
contos, e não recebendo o mais insignificante melhoramento.
Aquele povo bondoso e trabalhador foi objecto da mais torpe
exploração . Assim, privado de escolas, sem estradas, sem
águas de irrigação, sem a menor comodidade, tem arrastado
uma vida miserável de trabalho e sacrifício. Sem orientação,
sem plano, sem a menor provisão a economia da Madeira foi
abandonada aos acasos da sorte (...) e não há solo mais
produtivo nem produtos mais preciosos, nem terra mais linda,
nem clima mais benigno; tudo quanto dependia da natureza
ali está na sua expressão mais sublime; todo o mal que ali
existe é só obra de homens.

[Visconde da Ribeira Brava, in O Liberal, 5 de Junho de 1913]

O discurso histórico é a ossatura fundamental que alicerça a autonomia político-administrativa.


Tudo isto porque a história local faz apelo à valorização do passado histórico regional e
permite reforçar a unidade definida pelo espaço geográfico. Uma região sem História
dificilmente poderá fazer valer as suas legítimas aspirações autonómicas. Tão pouco uma
classe política, alheada ou desconhecedora do passado histórico terá possibilidades de fazer
passar e vingar o seu discurso político. Na verdade, a História faz parte da essência do discurso
político autonómico sendo com ela onde mais se espelha a identidade local. Conhecer e
valorizar a História regional é uma atitude necessária ao nascimento e fortalecimento da
autonomia. O apelo à História faz-se, não só pela busca das condições ancestrais que
conduziram à materialização do processo autonómico, mas também pelos combates que o
mesmo propiciou. Para os actuais desafios do processo autonómico o conhecimento das
diversas conjunturas de combate, as opções e justificações que geram são imprescindíveis. Por
outro lado a História deve ser entendida também como a homenagem aos que nos precederam
neste combate ao mesmo tempo que se encontram motivos e alento para novos embates.

A História da Autonomia, tal como hoje a entendemos, é recente mas rica em motivos e
situações que fortalecem o actual combate político. Todavia, o sentimento de auto-governo
parece ser ancestral e nascido à chegada dos primeiros povoadores. A barreira geográfica, as
dificuldades e forma tardia da resposta das autoridades centrais contribuíram para alicerçar o
sentimento autonómico. É certo que ele só ganhou a verdadeira dimensão política com a
revolução liberal, mas será injusto ignorar o combate dos que o precederam nas centúrias
anteriores. A partir de então a leitura do discurso histórico da autonomia, expresso em jornais
e panfletos, confunde-se muitas vezes com a questão financeira, do relacionamento entre a
metrópole e a região, da gestão e aplicação da riqueza.

A autonomia e o debate político-institucional estão em relação directa com os problemas


financeiros. As primeiras vozes na luta pela autonomia política insular partiram da constatação
da realidade financeira pautada pela sangria da riqueza arrecadada. O subdesenvolvimento
regional, em contraste com as cada vez maiores receitas conduzidas à metrópole, está na
origem do debate e fervor autonomista. A ideia de sangria financeira é patente no debate que
teve lugar nas páginas dos jornais e repercutiu-se na voz dos deputados da Madeira à
Assembleia Nacional. Em 1887 dizia-se no Diário de Noticias que: “Os governos, e não nos
referimos só ao actual, não ligam à Madeira a consideração que ela merece, não obstante ser
uma das províncias portuguesas que mais contribui para as despesas do Estado.” Entretanto
Quirino de Jesus, aquele que foi a eminência parda de Salazar, considerava que o problema da
autonomia era em primeiro lugar de “carácter financeiro e económico, antes de poder
apresentar-se com força pelos fins superiores de ordem social e política.” E, não será por acaso
que uma das questões mais usuais na voz dos detractores das autonomias insulares seja o dedo
acusador aquilo que consideram uma inversão de marcha do processo. Afirma-se de forma
despicienda que as despesas foram alimentadas pelas receitas do continente português,
ignorando-se a receita aquilo que a região deu, dispõe e continuará a gerar.

Ao debate da actual conjuntura deverá juntar-se, sob pena de falsear a verdade do


relacionamento financeiro da região com a metrópole, a perspectiva histórica. O passado
histórico reafirma que ao longo dos últimos cinco séculos os madeirenses deram todo o
esforço de trabalho e riqueza para a valorização do espaço nacional. Isto demonstra que o
arquipélago foi compulsivamente solidário. Uma visão histórica do deve e haver das contas e
relacionamento financeiro entre a Madeira e o reino evidencia que o passado foi pautado por
uma forte participação financeira da ilha nas finanças do Estado. Foram os nossos avós que
financiaram as exorbitâncias da Coroa, as viagens a Índia e as elevadas despesas de
manutenção e defesa das praças africanas. A grande aventura das descobertas dos séculos XV
e XVI seria possível sem a existência de espaços, como a Madeira, geradores de elevados
excedentes? E perante esta posição solidária da Madeira do passado legítimo seria de esperar
por idêntica atitude da mãe-pátria no presente para a recuperação do subdesenvolvimento a
que nos sujeitaram. Em certa medida poderemos afirmar que hoje, somos nós que recorremos
ao velho continente a reivindicar a cobrança dos "empréstimos", mas no passado a coroa
recorria as receitas madeirenses para colmatar o incessante deficit das finanças publicas.
Partindo desta candente conjuntura decidimo-nos estudar em termos historiográficos, as
relações financeiras entre a Madeira e o continente no sentido de evidenciar se o tipo de
relações que geriu este sector foi de tipo colonial. Como cidadão poderei estar entre os muitos
defensores do desenvolvimento regional e da autonomia, actuando de forma reivindicativa na
recuperação do atraso resultante do ancestral isolamento de desprezo e a reivindicar o retorno
daquilo que fomos espoliados. Já como investigador e historiador este exercício reivindicativo
passa para segundo plano perdendo em favor da definição de uma teoria capaz de expressar as
formas de concretização de um estatuto económico colonial e esclarecer de que modo isso
condicionou o processo histórico da ilha.

Os dados que o presente estudo disponibilizará à opinião pública podem e devem contribuir
para uma reavaliação das opiniões vigentes sobre as relações financeiras do Estado para com a
região. A ideia de uma ilha espoliadora dos meios financeiros do estado, que ganhou forte
expressão em alguns sectores da sociedade e da política, deverá ser agora confrontada com a
realidade nua e crua dos dados estatísticos até 1974. A conjuntura dos últimos anos da
autonomia aguarda igual compilação para que as evidências possam rapidamente desfazer as
falsas ilusões que dominam o debate político ao nível financeiro.

A economia colonial foi motivo de estudo mais acentuado a partir de Adam Smith, mas foi
com Marx que ganhou maior evidência. Aliás, para a escola marxista a valorização da teia de
relações entre a metrópole e as colónias foi e continua a ser um dos motivos mais destacados
de interesse. Este tipo de relações tem expressão na pilhagem da riqueza colonial em favor do
desenvolvimento da metrópole. A isto junta-se a dependência mercantil e a política financeira
com o estabelecimento da moeda fraca nas colónias e forte na metrópole. Qualquer das
situações não se afasta do percurso económico madeirense nos últimos cinco séculos. A
definição de uma economia colonial assenta na sangria quase total das despesas e num
reduzido ou quase nulo investimento que não seja vocacionado para apoiar a extracção da
riqueza.

A ideia de colonialismo adquiriu vários significados ao longo do processo histórico, ficando


todavia a expressar uma relação de dependência e exploração de uma determinada região ou
colónia com o centro/metrópole. Ora isso não implica a clássica visão de um espaço já
ocupado que é alvo de uma usurpação de fora. É neste quadro que devemos encarar a
situação da Madeira. Por outro lado é um facto indesmentível que a Madeira enquadra-se no
processo de expansão colonial portuguesa, sendo o primeiro passo desta estratégia e como
tal irá manter-se por muito tempo. A sua separação em termos políticos e administrativos
será apenas resultado da revolução liberal. E deste modo aquilo que a até então era colónia,
adquire num lapso de tempo o título de ilha adjacentes, sem que se tenha alterado o
relacionamento típico. E assim é que para muitos a sua sobrevivência está patente na figura
do Ministro de República, que como os anteriores representantes do poder central ocupa o
Palácio / Fortaleza de S. Lourenço.

O debate político cola-se por vezes à História na busca das razões que fundamentem tal
relacionamento institucional. E neste caso mantém actualidade o relacionamento da ilha
com o continente europeu, uma relação colonial que só poder dos liberais viu acabar em
completa ruptura com o passado. Na verdade, até então a Madeira merecia um tratamento
idêntico ao demais espaço colonial. Aliás, estava sob a mesma alçada do conselho
Ultramarino (1643-1833). Note-se que nas páginas do Patriota Funchalense, o bastião da
liberdade de opinião, reclamava-se contra o tratamento de colónia feito pelos “mandões de
Lisboa”. Deste modo desde 1832 a ilha deixou de ser uma colónia, passando a província
administrativa, igual às demais do continente. A Reforma de Mouzinho da Silveira é o corte
radical com o passado pelo menos em termos jurídicos, o que não implica que no plano real
esse tipo de relacionamento se tenha mantido até 1974.

Na verdade, o estatuto de colónia não resulta do facto de um espaço estar habituado à


chegada do europeu, pois se isso fosse condição Cabo Verde nunca teria mantido esse
estatuto, pois como quase todas as ilhas Atlânticas estava deserta à chegada dos
Portugueses, excepção apenas para as Canárias. A sua definição resulta fundamentalmente
do relacionamento que se estabelece entre a metrópole e a região. Ao nível político o
estatuto colonial caracteriza-se por uma profunda distância em relação aos centros de poder.
São os governadores e capitães generais que se comportam de forma altiva do interior da
fortaleza do poder. As ordens despóticas, a subserviência dos ilhéus, que reclamam em
Lisboa através dos seus procuradores e políticos à mesa da coroa e do orçamento umas
magras migalhas da riqueza que remetem anualmente. É o sentimento de orfandade perante
uma autoridade paternalista e despótica. O regionalismo como constatação dos
desequilíbrios regionais e do esbanjamento dos seus recursos por um poder estranho e
distante, é revelador deste estatuto. Desta forma podemos afirmar que o despontar do
movimento autonomista resulta desta constatação do colonialismo que define as relações
institucionais.

Já ao nível económico e financeiro esta relação se revela na entrega de toda a riqueza. As


culturas são impostas para servir os caprichos da metrópole e todo o lucro situa-se no sector
da circulação fora da ilha. Sucedeu assim com a cana de açúcar que se transformou na
galinha dos ovos de ouro para a Coroa portuguesa entre finais do século XV e princípios do
seguinte. Aliás, toda a riqueza desta exploração económica, impostos incluídos, é orientada
para fora do espaço que a cria. Tão pouco sucede um investimento na valorização do seu
interesse. O pouco que retornava surge sob a forma de caridade da própria Coroa, sob a
forma de oferta. O Rei D. Manuel foi de todos o mais caridoso para com os madeirenses
mas também o que mais feriu das riquezas da ilha. Distribuiu benesses e obras de arte aos
madeirenses. Mas a dívida da dádiva madeirense era maior e ao que parece ainda está por
saldar.

A História da Autonomia confunde-se com a do devir histórico da ilha e, até à sua afirmação
em 1976, ganhou plena expressão nos momentos de crise e de forte agitação política. Os
momentos ímpares do debate político, propiciado pela revolução liberal, encontram-se com o
movimento republicano e revolta da Madeira. A partir daqui poderemos definir quatro
momentos que corporizaram a sua plena afirmação:
1. autonomia adormecida(1420-1820)
2. autonomia reivindicada(1820-
1926)
3. autonomia adiada(1926-74)
4. autonomia vivida(1974 - )
Não obstante a existência de alguns estudos esparsos ainda está por fazer a História da
Autonomia. É um objectivo que deve estar no horizonte das nossas preocupações. Mas este
não será o momento para preencher tal lacuna, uma vez que aquilo que agora nos ocupa é a
abordagem das questões financeiras, de acordo com o processo evolutivo do movimento
autonómico, de forma a perceber-se como estas influenciaram o debate político. A compilação
dos dados estatísticos referentes à receita e despesa deverá ser enquadrado no debate político
onde a questão financeira esteve sempre presente.

A DOCUMENTAÇÃO E OS NÚMEROS. A tarefa de reconstituir o movimento das


finanças da região não é fácil. As informações estatísticas só permitem seriações a partir do
século XIX e mesmo nesta centúria os dados são muitas vezes escassos. Para os séculos
anteriores os dados são avulsos e não o permitem. Faltam os livros dos contadores da
Provedoria da Fazenda, os registos completos da alfândega. No caso da despesa é de
significativa importância a existência dos orçamentos do Estado a partir de 1836. A quase total
disponibilidade destes livros, pois falta-nos apenas encontrar os dos anos de 1839-40,1849-50,
permite uma leitura correcta da despesa do Estado a partir de 1836. Já no que se refere à
receita para estas duas centúrias os dados são muito lacunares. O carácter avulso das
estatísticas oficiais revela o pouco cuidado na arrecadação nos impostos, pois parece que o
desleixo em muitas ocasiões era total. A ideia foi já testemunhada em 1871 por Ferreira Lobo,
mas tão pouco algo de novo se fez nos anos seguintes e para um investigador que se dedica ao
estudo da História financeira e orçamental o panorama é idêntico.

Nos últimos dois anos, o pouco tempo disponível, foi utilizado para proceder à recolha
incidindo-a nos séculos XIX e XX, momentos em que as exigências da Estatística facilitam a
nossa tarefa. Os dados agora disponibilizados são o primeiro resultado desta árdua tarefa e
contemplam apenas uma ínfima parte dos anos em estudo. O quadro que se segue é revelador
do actual estádio de desenvolvimento dos nossos trabalhos e, diga-se, tudo o que depois se
afirma tem por base isto. Mais uma vez recorda-se que o texto que aqui se apresenta não é um
trabalho acabado mas sim a primeira etapa de um projecto que esperamos a seu tempo
concluir. A tentativa de reconstituir até à exaustão será a cruz que acompanhará o nosso actual
e próximo percurso na investigação histórica.

ANOS COM DADOS. 1450-1974


XV(1450-) XVI XVII XVIII XIX XX(-1974) TOTAL
ANOS 50 100 100 100 100 74 524
RECEITA 1 2% 16 16% 4 4% 8 8% 31 31% 62 84% 122 23%
DESPESA 0 0 7 7% 2 4% 7 7% 71 71% 74 100% 161 31%

receita
100%
despesa

50%

0%
XV XVI XVII XVIII XIX XX TOTAL

AUTONOMIA ADORMECIDA (1420-1820). As finanças do reino foram


demarcadas por um permanente deficit pelo que a coroa teve necessidade de se socorrer a
diversas meios para saldar a diferença. Desde o século XIV que a forma mais usual de o
solucionar era o recurso a pedidos e empréstimos. Era com estas formas de financiamento que
a coroa cobria o deficit e cobria as despesas bélicas, a boda dos príncipes. Ficou celebre o
empréstimo de sessenta milhões lançado em 1478 para as despesas da guerra com Castela.
Destes, um milhão e duzentos mil reais foram lançados sobre os madeirenses, isto é, 2% do
valor (valor altamente significativo se tivermos em conta a capitação media e o facto de a
ocupação da ilha ter-se iniciado a pouco mais de cinquenta anos), mas os madeirenses
mostraram-se renitentes ao pagamento do imposto, argumentando a difícil situação em termos
do abastecimento de cereais e o facto de terem já feito um empréstimo a coroa de 400 arrobas.
O desfecho final da questão saldou-se numa redução do referido empréstimo para metade.
Assim os madeirenses manifestavam o repudio face às exorbitantes despesas do reino e faziam
valer os seus interesses e as franquias que corporizaram o inicial processo de ocupação.

Este episódio revela o vigor demonstrado pelos madeirenses na defesa dos seus interesses tem
e pode ser reafirmado no papel do senado da câmara do Funchal. Na verdade, a Madeira era
desde 1433 um espaço fora do controle da coroa, dependendo do Mestrado da Ordem de
Cristo e tendo o Infante D. Henrique como senhor. O infante D. Henrique, como senhor da ilha
recebia um tributo de 1.500.000 reais, isto é 40,54% do total dos réditos da sua casa senhorial.
João de Barros refere que o mestrado da Ordem de Cristo auferia da ilha anualmente mais de
sessenta mil arrobas de açúcar. Todavia, esta riqueza estava na mira da coroa pelo que D.
Manuel, que também foi senhor da ilha, deu a machadada final no processo de auto governo
dos madeirenses ao proceder em 1497 à “nacionalização” da Madeira. A carta régia que faz a
ilha realenga, revertendo toda a riqueza para a coroa, é clara quanto ao peso económico nas
finanças do reino: "he huma das principaes e proveitozas couzas que noz, e real coroa de nosso
reynos temos para ajudar, e soportamento de estado real, e encargos de nossos reynos". Esta
ideia da ilha perdurou por muito tempo de modo que em 1836 ainda continuava a afirmar-se
“que é uma das mais preciosas jóias da coroa de Vossa Majestade”.

A partir de finais do século XV toda a riqueza gerada na ilha deixou de pertencer ao senhorio e
passou para o usufruto da coroa, indo a tempo de financiar as grandes viagens oceânicas e a
despesa excessiva da Casa Real. Também, a partir daqui é evidente que a Madeira perdeu a
capacidade reivindicativa perante a coroa. O centralismo régio está patente na submissão e
pronto acatamento pela vereação de todos os regimentos e decretos régios. O arquipélago foi
uma fonte importante de receita para travar o endividamento do reino e manter a opulência da
casa senhorial e real. Nos séculos XV e XVI o principal sorvedouro de dinheiro dos novos
espaços recém descobertos e ocupados era a Casa Real, a carreira da Índia e as praças
marroquinas. Apenas entre 1445 e 1481 os gastos da coroa em dotes e casamentos suplantaram
as 812.500 dobras, enquanto que nas guerras com Castela se despenderam 336.000 e na defesa
das praças marroquinas o valor atingiu as 378.000 dobras. Entretanto, no período de 1522 a
1551, as despesas com a perda das naus da carreira da Índia, por naufrágio ou corso, atingiram
352.150 dobras. Este elevado encargo só poderia ser coberto com as receitas arrecadadas nas
ilhas e novos espaços coloniais. E aqui quando ilha é quase sempre sinónimo da Madeira.

É evidente que durante o século XV e primeiro quartel do seguinte a principal fonte de receita
do mundo português estava no açúcar madeirense. As receitas advinham dos direitos lançados,
como o quarto e o quinto, e do comércio do açúcar apurado. No entanto os dados financeiros
disponíveis não evidenciam de forma clara esta situação. Perderam-se os livros de contas, mas
os poucos disponíveis não nos atraiçoam quanto ao volume de negócios em favor da coroa.
Primeiro, o senhorio e depois orei oneraram o produto com diversas tributações que
conduziram a que amealhassem elevadas quantias que usavam em benefício próprio, no
pagamento de tenças, esmolas, empréstimos e dívidas. O açúcar da coroa em 1494 foi de
80.451 arrobas de açúcar que despendeu da seguinte forma:
Redízima do capitão 12%
Duque, como senhor da ilha 7%
Tenças, mercês e presentes 4%
Desembargos 66%

Para o período de 1501 e 1537 o dispêndio de 29.696 arrobas de açúcar do almoxarifado dos
quartos teve o seguinte destino:

Reposte 37%
Padrões 14%
Esmolas 34%
Diversos 15%

No primeiro registo das receitas do reino e possessões, datado de 1506, a Madeira surgia
com o valor mais elevado das comparticipações dos novos espaços insulares. Esta situação
manteve-se até 1518 mas em 1588 era já evidente a valorização do mercado açoriano.

RECEITAS
1506
Colonias
54,9%

Madeira
5,3%

Açores
0,5%
Reino
39,3%

Até a década de trinta do século XVI os reditos fiscais resultantes da produção e comércio do
açúcar asseguravam parte importante das fontes de financiamento do reino e projectos
expansionistas. Este rendimento em finais do século XV e princípios da centúria seguinte era
superior a cem mil arrobas, atingindo em 1512 as 144.065 arrobas, o que corresponde a
45.380.475 reais. Este açúcar, depois de retirada a redizima, isto é, a décima parte que era
propriedade do capitão do donatário, era utilizado pela coroa de formas diversas, como meio
de pagamentos dos salários, esmolas aos conventos (Santa Maria de Guadalupe, Jesus de
Aveiro, Conceição de Braga) e misericórdias (Funchal, Lisboa, Ponta Delgada), benesses a
príncipes e infantes da Casa Real e despesa aduaneira da ilha, enquanto a parte sobrante era
vendida, directamente em Flandres pelos feitores do rei, ou por mercadores, por vezes, a troco
de pimenta. A sua aplicação na ilha era eventual, resumindo-se às despesas eventuais como a
construção da Sé e alfândega do Funchal, que receberam, respectivamente, 1.000 e 3.000
arrobas de açúcar. Neste grupo, mas com um carácter quase permanente, poder-se-á incluir o
pagamento dos inúmeros pedidos de socorro e abastecimento das praças marroquinas, o
provimento das armadas da Índia, por norma, em vinho. Sobre as assíduas despesas com o
socorro às praças africanas podemos citar, a título de exemplo, o concedido entre 1508 e 1514
a Safim. Neste período gastaram-se mil arrobas de açúcar e 83.815 reais, enquanto em 1531 o
provimento de vinhos as armadas da Índia orçou em 124.490 reais.

Em 1529 com o Tratado de Saragoça foi encontrada uma solução provisória que a curto prazo
parecia agradar a ambas as partes. D. João III viu-se forçado a pagar 350.000 ducados para
assegurar a posse das Molucas que afinal se encontravam dentro da área de influência de
Portugal. Mais uma vez é possível assinalar uma ligação à Madeira, pois terá sido, segundo
alguns, o madeirense António de Abreu o primeiro explorador. Por outro lado os madeirenses
contribuíram com avultada quantia de empréstimo para o pagamento do referido contrato.
Manuel de Noronha ficou com o encargo de arrecadar a contribuição madeirense. João
Rodrigues Castelhano é referenciado também como recebedor do referido empréstimo, tendo
desembolsado da sua fazenda 300.000 reais. A este juntaram-se Fernão Teixeira com 150.000
reais e Gonçalo Fernandes com 200.000 reais. O pagamento fez-se nos anos de 1530-31 à
custa dos dinheiros resultantes dos direitos da coroa sobre o açúcar.

Os dados fiscais de 1531 permitem uma ideia da evolução da receita e despesa da ilha. Os
réditos sobre as rendas do açúcar foram de 6.990.573 reais de que se gastaram 10% nos
vencimentos do clero da capitania do Funchal e 7% no pagamento do empréstimo que João
Rodrigues Castelhano a Coroa para pagar o contrato das Molucas. Mais de cinquenta por cento
das receitas iam directamente para o reino a engrossar os cofres da Fazenda Real. A partir
desta informação, ainda que avulsa, conclui-se que os madeirenses foram activos protagonistas
da expansão lusíada dos séculos XV e XVI emprestando a própria vida e reditos, arrecadados
com a safra do açúcar, no financiamento deste projecto e das exorbitâncias e caprichos
quotidianos da Casa Real.

O primeiro monarca a definir as regras rudimentares do orçamento foi D. Manuel, pelo que o
primeiro e mais rudimentar orçamento que se conhece data de 1526. De acordo com os dados
disponíveis as receitas fiscais orçaram em 166.347.611 reais, sendo 12.000.000 (= 7,2%)
referentes apenas a Madeira, que conjuntamente com as demais possessões fora da Europa
totalizavam 37.630.000 (= 23%). A cidade de Lisboa, que apenas arrecadava 5% das receitas,
absorvia 17% das despesas, o que implicava o financiamento externo com o recurso aos
réditos arrecadados noutras províncias nomeadamente na Madeira, Açores e Costa da Guine.

EVOLUÇÃO RECEITAS. 1506-1588 (EM MILHARES DE


REAIS)
Madeira
60
Açores
C. Verde
40

20

0
1506 1518-19 1588
A Madeira, na primeira metade do século XVII, enfrentou dificuldades económicas que se
reflectiram nas fianças públicas. Deste modo a fonte de receitas transferiu-se para as demais
possessões e mesmo os Açores atingem valores mais elevados que a Madeira. A situação
vinha evoluído neste sentido desde o ano de 1588. O quadro financeiro do ano de 1607
revela a precária situação das finanças madeirenses conduzindo a que a despesa
representasse 94% da receita, o que correspondeu ao valor mais elevado. Mesmo assim a
despesa não suplanta 1,5% do total. Já em 1619 é evidente a recuperação económica da ilha
subindo o saldo para os cofres do reino a 5,9%.

MOVIMENTO FINANCEIRO DA MADEIRA. PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL


1607 e 1619

100,00%

80,00%
saldo
60,00%
despesa
40,00% receita

20,00%

0,00%
1607 1619

Um dado abonador desta nova situação está no facto de Francisco Rodrigues Vitória ter
contratado em 1602 a arrecadação da receita da ilha por 21.400$ réis, 1072 arrobas de
açúcar e 2 arrobas de cera. No quadro das ilhas a Madeira continuava a apresentar uma
posição destacada mas os Açores assumem a posição cimeira no quadro das ilhas. Por outro
lado nas terras ultramarinas afirmam-se em definitivo como a principal fonte de receita.
Aqui, a Índia assume uma posição cimeira. Assinala-se de novo que, em qualquer dos
casos, a despesa é muito diminuta, porque também a estrutura administrativa não era muito
pesada.
EVOLUÇÃO DAS RECEITAS NAS ILHAS. 1607-1681(em milhares de reis)
Madeira Açores C. Verde

40.000

30.000

20.000

10.000

0
1607 1619 1620 1681
Se atendermos apenas à participação madeirense na receita da coroa no decurso dos séculos
XVI e XVII somos confrontados com uma forte intervenção, tendo em conta a superfície, que
se articula de forma directa com as condições económicas da ilha. Assim, o açúcar foi o
principal gerador de um forte excedente de riqueza que diminuiu de forma espectacular com a
crise do século XVII.

RECEITA DA MADEIRA: PERCENTAGEM EM RELAÇÃO AO TOTAL


DO REINO
10

0
1506 1518 1526 1580-88 1607 1619
Perante este quadro somos forçados a afirmar que a partir do século XVI os dados estatísticos
revelam-nos que Portugal tinha a principal fonte de riqueza nas ilhas e possessões
ultramarinas. Apenas a conjuntura resultante da união dinástica na década de oitenta conduziu
a uma quebra acentuada da receita das colónias. Em qualquer das circunstâncias os novos
espaços gerados com os descobrimentos revelam-se em todos os momentos dos séculos XVI e
XVII como a mais valia e principal fonte de financiamento.

EVOLUÇÃO PERCENTUAL DA RECEITA DO REINO E POSSESSÕES


140
120
100
ilhas
80 reino
60 colonias

40
20
0
1506 1518 1588 1607 1619
A Madeira, como centro gerador da riqueza do reino e a forma colonial da administração, não
passou despercebida aos locais e visitantes. No século XVIII a promoção do comércio do
vinho veio a gerar de novo elevada riqueza e a ilha parecia querer regressar aos velhos tempos
da opulência açucareira. É dentro desta ambiência que James Cook refere em 1768 que a coroa
arrecadava na ilha 20.000 libras por ano, mas poderia dar o dobro se estivesse nas mãos de
outro povo. Outro súbdito inglês em 1827 apontava o destino desta receita: "o rei pagava todas
as despesas das legações no estrangeiro [isto antes de 1820] com o excedente dos seus
rendimentos da Madeira. Todos os anos era transferida para Londres com esse fim uma
quantia de 50 a 80.000 Libras." O contraste entre esta crescente riqueza que todos os anos
enchia os cofres do reino e as condições cada vez mais precários da população madeirense é
evidente. Paulo Dias de Almeida, enviado à ilha para proceder ao estudo da defesa e rede
viária, foi confrontado com esta triste realidade e não hesitou em exclamar: “Esta colónia, que
já em quatro séculos, e tanto avulta nos reais cofres (quem o diria ?)...”.

AUTONOMIA REIVINDICADA (1820-1926). O século XIX é um marco na


plena afirmação do debate político que para muitos madeirenses foi alicerçado nos
combates pela defesa do torrão natal. A 2 de Julho de 1821 publicou-se no Funchal o
primeiro jornal, o Patriota Funchalense, que foi a principal tribuna de debate. É aqui que
encontrámos as primeiras e mais evidentes expressões do estatuto colonial e do sentimento
de orfandade política. Assim, em 17 de Novembro o director do novel jornal, Nicolau
Caetano Pitta constata que –“ficámos elevados à categoria de província no nome, mas que
de facto somos tratados como colónia”, para se concluir em 1 de Dezembro que “a sorte da
infeliz Madeira he a de enteados”. Esta relação é melhor evidenciada em outra opinião do
ano seguinte: “A escravidão consiste em viver algum sujeito absolutamente à vontade de
outrem; uma provincia, que deve sujeitar seus interesses aos da metrópole, que a seu termo
a não interessa, deixa de ser provincia, é de facto colónia e vive escrava.”

As mudanças políticas tão pouco solucionaram as ancestrais questões pelo que em 1847 o
então governador José Silvestre Ribeiro ao debater-se com uma grave crise económica vê-
se impotente para a solucionar, pois “he mister ponderar que este governo civil he um
governo subalterno a quem falta aquela latitude de resolução que compete ao governo da
nação.” O combate político de finais do século XIX e princípios do seguinte avivou os ideais
autonómicos e conduziu a uma mudança com a atribuição da autonomia administrativa por
carta de lei de 12 de Junho de 1901. Mas esta evolução do quadro político não fez esmorecer o
debate político. A 1 de Novembro de 1921 escrevia-se no Diário de Notícias que “a nossa
completa e absoluta autonomia devendo a bandeira ser a única ligação com a mãe pátria” e em
20 de Setembro de 1924 voltava-se a afirmar no mesmo diário que “é preciso que os
madeirenses unidos pelo mesmo pensamento, façam ver de um modo irrecusável aos
governos de Lisboa, que são mais alguma coisa de que matéria colectável.(...)O povo da
Madeira é um povo livre, (...)não é escravo, nem burro de carga”.

A revolução liberal condicionou a transformação das finanças públicas. Aboliram-se os


encargos senhoriais e em contrapartida criaram-se novos impostos. De acordo com o texto
constitucional de 1822 foi estabelecido um novo sistema orçamental em que o orçamento de
estado era aprovado pelo Parlamento. Em 1839 esclarece-se a forma como se preparava o
orçamento nas diversas repartições ministeriais existentes no Funchal. Em Julho o Tesouro
Público recomendava ao Administrador Geral do Distrito deveria organizar o mapa da despesa
de acordo com as instruções e enviá-lo até 15 de Outubro. A primeira reforma da lei
orçamental ocorreu em 1849, seguindo-se outras em1928 e 1960. A partir de 1831 os
orçamentos gerais do estado (OGE) revelam se o esforço financeiro do estado na região apenas
se resumiu às despesas correntes ou se foi pautado por uma política de investimento. A
informação completa sobre a arrecadação dos diversos impostos está disponível nos boletins
estatísticos a partir de 1876. Os dados reunidos abarcam todo o período até 1974, havendo
apenas um hiato entre 1951-55. Durante este largo período de cerca de um século o sistema
tributário foi alvo de várias reformas que deram continuidade ao processo iniciado com
Mouzinho da Silveira. As mais importantes aconteceram em 1870 e 1881. A República, em
1910, foi o início de um segundo momento de mudança do sistema tributário, assente na
constituição de 1911 e nas reformas de 1922. O processo ganhou novo folgo com o golpe de
estado de 1926, sendo o principal obreiro das mudanças Salazar, quando Ministro das
Finanças. O regime do Estado Novo apostou na década de sessenta na reforma do sistema que
só foi voltou a ser alterada passados vinte anos.

Os impostos computados na receita global da ilha para o período de 1876 a 1974


compreendem os seguintes impostos: contribuição bancária, sumptuária, de renda de casa,
décima de juros, imposto de rendimento, do real da água, de selo, rendimento aduaneiro,
contribuição predial e industrial, décima de juros e direitos de mercê (...). De uma forma global
o movimento das receitas evidencia que a carga fiscal foi onerada no período do Estado Novo
no momento de consolidação na década de trinta. É também neste período que a participação
madeirense na receita nacional é reforçada. A mais elevada percentagem, isto é 17%, acontece
na década de trinta, o período de maior dificuldade para a Madeira. A situação perdurou nas
décadas seguintes, sendo apenas contrariado na década de quarenta com a guerra. Algo
semelhante só voltou a acontecer na primeira década do século XX, sendo nos demais
períodos os valores inferiores, mas nunca desceram além da barreira do 1%. Quanto à despesa
do Estado na região a situação não é idêntica. Assim, o valor mais elevado da intervenção é
reduzido sendo superior a 1% apenas em três décadas, quando, ao invés a receita atingiu
sempre foi valores muito superiores. Note-se que em qualquer dos casos onde a despesa
suplantava 1% temos também os valores mais elevados para a receita.

Os dados em apreço evidenciam que o “despesismo” madeirense era uma ilusão


prontamente evidenciada pelos números. Por outro lado se esquecermos a década de 60,
definida por algum investimento público, como foi o caso do aeroporto, podemos afirmar
que a República iniciou um período de forte sangria financeira. A República jacobina foi
marcadamente centralista. O movimento autonomista das primeiras décadas do século XX,
apoiado nos sectores políticos mais conservadores da sociedade madeirense, fez desta
orfandade e sangria financeira o cavalo de batalha para a luta autonómica. E foram
redobradas as razões para tal uma vez que o esforço de investimento financeiro do estado na
região não suplantava 0,2%, quando o contributo financeiro da ilha para o todo nacional
chegava aos 12,5%. Note-se que no caso das províncias ultramarinas o panorama da
despesa é distinto, atingindo-se em 1914-15 os 16%. O contraste é evidente e por isso
mobilizador de alguns sectores políticos da sociedade madeirense.

EVOLUÇÃO DA RECEITA E DESPESA. 1871-1974


1871-80 1881-90 1891-00 1901-10 1911-20 1921-30 1931-40 1941-50 1951-60 1961-70 1971-74

imposto 3,8 % 1,9 1,7 12,5 3,1 2,0 17,0 2,1 9,33 13,4 1,3

despesa 0,5% 0,7 0,2 0,1 0,1 0,2 0,2 0,1 0,3 3,2 0,4

15 Receita despesa
14
13
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
0
1971- 1961- 1951- 1941- 1931- 1921- 1911- 1901- 1891- 1881- 1871- 1861- 1851- 1841- 1831-
74 70 60 50 40 30 20 10 00 90 80 70 60 50 40

A análise do gráfico atrás evidencia a situação desfavorável do empenho do Estado em


aplicar as verbas arrecadas em benefício do progresso da ilha. A única excepção surge na
década de sessenta mas isto resulta do facto de ainda não possuirmos dados para a receita
dos anos de 1950 a 1959. Na década seguinte deverá notar-se a falta de dados para os anos
de 1968 e 1969 e uma vez encontrados estes valores certamente se constatará que a
“primavera marcelista” não inverteu o curso salazarista..

Salazar, primeiro Ministro das Finanças e depois Presidente do Conselho, foi o exemplo
mais evidente de uma intervenção “forreta” do Estado para a região. Em 1935 manifestou-
se contra as vozes que apontavam a ilha como filha enjeitada do Estado e dirigia o dedo
acusador aos seus apaniguados que defendiam a autonomia administrativa e financeira
dizendo que “A autonomia não é a autonomia de gastar mas a de administrar um património
ou uma receita, tirando de um ou da outra o maior rendimento”. Estas palavras iam directas
a alguns sectores políticos madeirenses que anos antes haviam sido envolvidos no fervor do
combate autonómico e que agora estavam do seu lado. De entre estes destaca-se Manuel
Pestana Reis, o autor do manifesto autonomista dos anos vinte. Mesmo assim, ao contrário
do que fazia crer o então Ministro das Finanças, as despesas resultantes das revoltas de
1931 e 1936 não se fizeram sentir de forma evidente na despesa do Estado no arquipélago
houve mesmo uma redução em relação à década anterior. Deste modo não se justificava o
adicional às contribuições industriais e prediais estabelecido para o ano económico de 1937
com o fim de colmatar a despesa de manutenção da ordem pública, face à revolta do leite.
Só temos os dados completos para o ano de 1931 que, quando confrontados com os demais
anos, não espelham qualquer alteração à média.

1931 1936 1937


Receita 1,87 - -
Despesa 0,1 0,1 0,1

Apenas em três anos(1942, 1963 e 1967) se inverte a situação, sendo o saldo negativo.
Todavia este só assume significado em 1942 altura em que a diferença é de seis mil contos.
Se nos detivermos na análise dos dados dos orçamentos do estado, enquanto Salazar foi
Ministro das Finanças(1928-30, 1932-33, 1933-34, 1934-36, 1936-40) seremos levados a
afirmar que o mesmo não via com bons olhos a aplicação da despesa na ilha, esta não
ultrapassou mais de 29% da receita. Por outro lado este valor é insignificante no total dos
orçamentos, ficando quase sempre abaixo de um por cento. A única excepção à regra é o
ano económico de 1929-30 em que os encargos do Estado chegam a 1,8%. Os dados
apresentados dão a entender que Marcelo Caetano(1968-74) melhorou a situação mas
atingindo-se 32%, mas é necessário chamar a atenção para as faltas da receita para os anos
de 1968 e 1969.

Percentagem da despesa da Madeira no OGE


%
1925-26 0,01
1926-27 0,02
1927-28 0,1
1928-29 0,08
1929-30 1,8
1930-31 0,1 2
1931-32 0,1
1932-33 0,1
1933-34 0,2 1,5
1934-35 0,1
1936 0,1
1937 0,1 1
1938
1938 0,1
1939 0,1 1933-34
0,5
1940 0,1
1929-30

0 1925-26

Se Salazar não deverá merecer o apreço dos madeirenses o mesmo já não deverá ser dito de
outros ministros do Estado Novo. Estão nestes caso os tão conhecidos ministros do Interior
António Manuel Gonçalves Rapazote (1968-73) e César Henrique Moreira Baptista (1973-
1974), uma vez que o ministério do Interior durante a sua chefia surge com a percentagem
mais elevada da despesa em favor da Madeira dos orçamentos do século XX. Mas sem
dúvida aqueles governantes da história recente merecedores do nosso apreço são os Duques
de Saldanha (1851-56) e Terceira (1859-60), António Maria Fontes Pereira de Melo (1871-
77 e 1878-79) e o Marquês de Ávila (1877-78) em cujos governos se atingiram valores
mais elevados com os Ministérios da Guerra e Justiça.

DESPESA 1831-1974
TO TA L M AD E IR A

1 E + 10

1 E + 09

1 E + 08

1 0 0 00 0 0 0

1 0 0 00 0 0

1 0 0 00 0

1 0 0 00

18 51 -60 18 91 -00 19 31 -40 19 71 -74


18 31 -40 18 71 -80 19 11 -20 19 51 -60

O gráfico da despesa orçamentada revela que o estado não foi pródigo nas transferências
financeiras para a Região e revelou uma posição marcadamente colonial, sonegando à ilha a
aplicação local da riqueza gerada, uma vez que a quase totalidade das verbas foram utilizadas
como despesas correntes. As despesas de investimento surgem de forma precária com os
Ministérios do Reino (1843-53), Obras Públicas (1853-1911, 1947-74), Fomento (1912-18),
Comércio e Comunicações (1918-1974). Este investimento está orientado para a área das
comunicações (66,70%), sendo menor no domínio nas áreas da educação e agricultura. O
resultado disto está no elevado analfabetismo e na permanente sangria do mundo rural com a
emigração.

Os valores referentes ao século XIX demonstram que o investimento do Estado na região foi
fraco, pois quase todo o dinheiro era canalizado para rubrica de despesas correntes. A situação
inverte-se no século XX, mas deve ser apenas resultado da evolução do sistema administrativo
resultante da autonomia administrativa a partir de 1901. Deste modo, a Junta Geral ficou com
o encargo de importantes ónus financeiros que compreendia a despesa corrente de
funcionamento de parte significativa das estruturas do Estado na região, faltando-lhe para
desenvolver infra-estruturas. Neste pesado fardo incluíam-se os encargos com os salários dos
funcionários e professores, pois só em 1971 estes passaram para a alçada do Estado. A
reforma de 1928 fez aumentar o pesado encargo das despesas correntes da Junta, uma vez que
esta passou a superintender os serviços dos ministérios do Comércio e Comunicações,
Agricultura e Instrução, do Governo Civil, policia cívica, saúde publica, assistência e
previdência, que estiveram dependentes dos ministérios do Interior e Finanças.

INVESTIMENTOS E DESPESAS CORRENTES. OGE 1831-1974


Século XIX Século XX
% %
Aeroportos 396.140.000$ 46,91
Estradas 150.266.000$ 17,79
Portos 222.646.500$ 26,36
Escolas 5.964$ 1,87 306.720$ 0,03
Hidro-agrícola e eléctrica 10.908$ 3,43 75.074.700$ 8,89
Outras obras 300.388$ 94,68
TOTAL: investimentos 317.260$ 5,29 844.433.920$ 71,58
DESPESAS Correntes 5.677.825$ 94.70 335.195.058$ 28,41
TOTAL 5.995.085$ 1.179.628.978$

100%

80% Despesas correntes


Investimentos
60%

40%

20%

0%
XIX XX

A relação entre a receita e a despesa revela, em qualquer das duas últimas centúrias, uma
situação desfavorável para a Madeira fazendo jus ao subdesenvolvimento a que a região foi
votada pelo Estado. O esforço contributivo da região no período do Estado Novo não foi
devidamente recompensado com o investimento. Mesmo assim é neste período que tivemos
a maior incidência e preocupação do Estado no investimento reprodutivo, com alguns
empreendimentos vultuosos, como o porto, o aeroporto e os aproveitamentos
hidroeléctricos e hidro-agrícolas.
SALDO RECEITA DESPESA

100

80

60

40

20

0
1881-90 1901-10 1921-30 1941-50 1961-70
1871-80 1891-00 1911-20 1931-40 1951-60 1971-74
O saldo da relação entre a receita e a despesa é também abonador do facto de que a Madeira
foi nos últimos cinco séculos um destacado contribuinte dos cofres nacionais. A situação
assumiu maior evidencia nos dois séculos iniciais, mas manteve-se por todo o período. Os
dados estatísticos disponíveis evidenciam-se que a relação é mais evidente nos dois últimos
séculos porque é também nestes que o desenvolvimento da Estatística permitiu uma mais fácil
recolha das séries. Todavia para as duas primeiras centúrias os dados isolados confirmam isto
com maior evidência. Aqui os dados referentes ao século XVI não o expressam porque se
reportam apenas à década de oitenta, o momento de crise da economia madeirense. Também
não podemos fiar-nos nos dados até agora disponíveis para o século XVIII, que evidenciam a
mais reduzida despesa do estado na Madeira, cifrando-se em 8% da receita. Apenas merecem
fiabilidade os dados dos séculos XIX e XX (até 1974), em que o esforço financeiro do estado
na região foi respectivamente 55% e 44% da receita arrecada localmente. No conjunto o total
dos dados até ao momento disponíveis referem que o esforço financeiro do estado foi inferior a
metade da receita arrecada.

100%
90%
80%
70%
60%
50%
40%

TOTAL
XVIII
XVII
XVI

XIX

30%
XX

20%
10%
0% RECEITA DESPESA SALDO

A excepção a esta situação ancestral de verdadeira sangria financeira do arquipélago é


quase inexpressiva e resume-se apenas a alguns anos para o período entre 1888-1967. Os
valores são pouco significativos e só assumem visibilidade nos anos económicos de 1922-
23, 1924-25 e 1967. Note-se que apenas nos anos económicos de 1922-23, 1963 e 1967 é
evidente uma quebra acentuada das receitas, o que poderá reflectir-se nesta relação. Mesmo
assim os valores não alteram o curso normal da situação favorável aos cofres do Estado.
Acresce ainda que estes dados não resultam da nossa recolha, mas sim dos publicados no
Elucidário Madeirense.

ANOS COM SALDO NEGATIVO


1888-89 272.898$19,5 280.852$51,1 -7.954$31,6
1889-90 183.221$63,6 300.511$77 -117.290$13,5
1890-91 210.903$86,4 279.432$96,1 -68.529$09,7
1891-92 229.584$80,1 259.452$60,1 -29.867$80
1922-23 1.557.071$95 11.636.895$16 -10.079.823$21
1923-24 4.681.632.$71 114.399$ 4.567.233$71
1924-25 4.403.903$85 25.267.656$ -20.863.752$15
1929-30 32.521.853$13 33.451.914$47 -930.061$34
1963 37.895.019$ 42.389.800$ -4.494.781$00
1967 115.901.000$00 380.300.000$ -264.399.000$00

A título de curiosidade podemos apresentar a relação dos valores referentes aos primeiros anos
da década de setenta que antecederam a revolução de Abril, onde se evidencia mais uma vez o
ancestral abandono a que foi votada a Madeira, pois apenas 27% dos dinheiros arrecadados na
ilha tiveram aplicação local. Isto demonstra mais uma vez que em qualquer das circunstâncias
as relações da coroa e estado para com o arquipélago, pelo menos ao nível financeiro, foram
de tipo colonial. Estas ganham forma quando a despesa é inferior a metade da receita, o que foi
o caso da Madeira como acabámos de ver. A ideia sai reforçada quando analisamos a forma
como o Estado aplicava os dinheiros através das diversas repartições e ministérios, uma vez
que iam maioritariamente para cobrir as despesas com o pessoal, muito dele destacado na ilha.

RECEITA, DESPESA E SALDO 1971-74

RECEITA
SALDO
1.885.343.885$
1.370.520.778$

DESPESA 514.822...

Um exemplo mais a provar o tratamento de tipo colonial nas aplicações financeiras do


estado na região está na forma como se procedia ao lançamento de infra-estruturas
imprescindíveis para o desenvolvimento da ilha. Estão neste caso as obras do porto do
Funchal e no sentido da valorização dos aproveitamentos hidro-agrícolas e eléctricos. Para
o primeiro foi criada em 1913 a Junta Autónoma das Obras do Porto Funchal com o
objectivo e coordenar as referidas obras e conseguir os meios financeiros necessários. Um
das fontes de receita estava no direito de arrecadação do imposto sobre o tabaco. As obras
entre 1931 e 1933 custaram 5.353.000 escudos, enquanto as receitas do imposto entre 1923
e 1932 foi de 25.123.841 escudos, isto é, os gastos foram de apenas de 21%. Por outro lado
as obras contribuíram para um incremento do movimento do porto com repercussão directa
nas receitas da alfândega que a partir de 1927 quadruplicaram. A promoção do sistema de
regadio e de electrificação foi o encargo da Comissão de Aproveitamentos Hidráulicos
criada em 1944. O investimento desta comissão entre 1944 e 1968 foi de 340.152 contos
em que a comparticipação do Estado foi de apenas 29%, sendo 45% de auto-financiamento.
Uma das formas para avaliar a posição desfavorecida como a Madeira era tratada é
compararmos com aquilo que sucedeu nos Açores e províncias de Angola e Moçambique.
O balanço da situação, pelo menos para os anos de 1904 a 1914, revela de forma evidente
que a Madeira foi o espaço nacional mais prejudicado no primeiros anos do século XX, o
que demonstra que o rei D. Carlos e os primeiros governos republicanos abandonaram a
ilha e tão pouco foram reconhecedores do acolhimento madeirense. Note-se, ainda, que o
déficit do orçamento ultramarino era coberto pela metrópole com financiamentos pagos
pelo estado, o que levou Armindo Ribeiro (1849) a afirmar que as relações ao nível
orçamental não eram de tipo colonial.
Saldos. das ilhas e colónias 1904-1914
Saldo em escudos % em relação à receita
Madeira 5.730.907$ 64%
Açores 2.922.747$ 30%
Angola - 8.627.817$77 128%
Moçambique -542.098$07 101%

Angola
100%
Açores 80%

60%
Madeira
40%

20%

0%

CONCLUSÃO. O problema financeiro pesou de forma clara no debate político sobre a


autonomia. E, para a maioria dos intervenientes é evidente o contraste entre uma ilha que
alimentava permanentemente os cofres de Lisboa e o abandono a que estava votada. Em
1883, Manuel José Vieira, era contumaz: “fazemos parte do reino de Portugal única e
exclusivamente para quinhoar-nos nos encargos que se renovam ou baptizam com nomes
diferentes, mas que sempre se acrescentam” enquanto são “exíguas verbas que anualmente
nos concedem por esmola.”. Para a maioria de todos os nós a conclusão é clara. As
evidências estão aí e revelam que é chegado o momento de a Madeira cobrar os juros da
contribuição, fazendo com que a marcha dos meios financeiros se inverta. A concretização
não é uma esmola, tão pouco um ónus ao erário nacional, mas tão só o resultado do
equilíbrio harmonioso entre o deve e o haver que faz esbater as assimetrias que a conjuntura
económica, por vezes nos coloca.

Até ao presente o saldo das contas da região revela que, não obstante o esforço de
investimento do Estado Novo, ainda há muito a exigir daquilo que foi pesado tributo dos
madeirenses para a aventura ultramarina e progresso do país. Por fim temos que reconhecer
que, não obstante a informação trabalhada ser exígua e só contemplar metade dos anos da
despesa e 36% da receita, os dados apontam para um saldo de quase quatro milhões de
contos, que de acordo com a média dos valores disponíveis poderá alcançar na realidade os
22 milhões. Por outro lado se estes valores, maioritariamente dos séculos XIX e XX,
evidenciam o que acabamos de referir, que dizer quando for possível apurar os dados para
os séculos XV, XVI e XVIII, épocas de grande fulgor económico da ilha. Aqui certamente
que a redobrada riqueza se fazia sentir de forma clara na receita, fazendo crescer o bolo
financeiro português.
CORRECÇÃO DA RECEITA E DESPESA
ANOS COM TOTAL TOTAL
DADOS 1450-1974 APURADO ESTIMADO
RECEITA 122 23% 9.426.917.425$ 40.489.383.038$
DESPESA 161 31% 5.541.453.620$ 59% 18.035.538.489$ 45%
SALDO 3.885.265.805$ 41% 22.453.844.549$ 55%

SALDO
DESPESA
100% RECEITA

80%

60%

40%

20%

0%
anos apurado estimo

A conversão dos valores atrás assinalados em escudos de 1999 evidencia a actual dimensão
do problema. Os dados apurados são mais uma vez reveladores de que o estado apenas
deixou na ilha um quarto do total da verba arrecadada, isto é, cerca de 15 milhões de
contos. Todavia o valor estimado e corrigido aponta para uma situação distinta, atingindo-
se 10,5 biliões de contos, situação reveladora de que o Estado sugador da riqueza da ilha
nunca foi uma ilusão.

TOTAL EM ESCUDOS DE 1999


Total em escudos % Valor estimado %
apurado
Receita 20.297.496.297 --- 10.513.888.059.628$ --
Despesa 5.544.724.452 27% 18.046.183.930$ 00,18 %
Saldo 14.752.771.845$ 73% 10.495.841.875.698$ 99,82%
100%
80% Saldo

60% Despesa

40%
Receita
20%

0%
valor apurado

Saldo
Despesa
100% Receita

80%
60%
40%
20%
0%
Valor estimado
Obs. O presente texto é apenas uma primeira
abordagem e divulgação, com os dados disponíveis
no momento, do projecto de investigação histórica
subordinado ao tema genérico “O Deve e Haver nas
Finanças da Madeira”, em curso no âmbito da
actividade do Centro de Estudos de História do
Atlântico.

© ALBERTO VIEIRA

Nenhuma parte deste texto pode ser publicada


sem expressa autorização do autor.

mais informação na Internet:


http://www.ceha-madeira.net/deve/deve.html

Funchal. 24 de Março de 2000