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DA ARTE SACRA À ARTE ESOTÉRICA Uma das mais duras críticas feitas ao Cristianismo, não só pelas outras congregações

, como no seu interior, tem sido o uso de imagens. Há-as para todos os tipos de situações, como por exemplo Nª Srª da Boa-viagem, São João Bosco, padroeiro dos ilusionistas; santos de poderes imensos, como Stª Rita de Cássia, padroeira dos impossíveis, Stº António de Lisboa, o santo casamenteiro, etc. A expressão artística que representam é tão importante que se chegou ao ponto de as imagens de santos, anjos e paraísos tornarem-se alvo de disputa entre os próprios templos e demais recintos de oração, associando-se-lhes o respectivo grau milagreiro, principalmente nas crenças populares. Desta forma, podemos dizer que as romarias não têm como móbil apenas a oração, mas objectivam a vontade estar perto de uma apresentação específica do santo da devoção que, sempre, é uma forma bela, ainda que por vezes no auge do sofrimento, como o são as inúmeras representações de João Baptista ou do Senhor dos Passos. Isto significa que o Belo no religioso nem sempre está associado a uma representação de felicidade. Ele faz despertar as mais diversas sensações e estados de alma, dos quais o sofrimento não é excluído. Este facto remete-nos para uma questão de difícil resposta, a saber: Porque se curva o crente perante a uma representação de um santo quando em sofrimento? Parece-nos que a representação de sofrimento impõe-se com mais veemência que a de alegria, isto é, remete para a necessidade de gratidão, o que é sempre encarado como uma parcela do processo catártico. Por outro lado, o crente identifica-se com o “desencontro” social do santo, a incompreensão por parte do mundo e o martírio na medida em que eles também são os seus, da sua vivência de problematicidade. A imagem do santo torna-se portanto o espelho do crente. Ela impõe uma necessidade de partilha. Tal implica que, de uma forma mais incisiva, aquele que ora crê ficar possuído de poderes, isto é, tira de si o que é nocivo, e adquire características que são inerentes ao santo ou ao local sagrado. Por outras palavras, a visita do fiel garante-lhe prosperidade, saúde e vida longa, ausência de necessidades, protecção. Ao trazer um exemplar para casa, o crente garante uma presença na memória, torna o momento da visita inolvidável e intemporal e, mais importante, transporta o poder do santo ou do local sagrado. A multiplicidade do imagístico, figuração e estatuária, tem influído na fé numa relação sequencialmente pouco clara uma vez que desconhecemos qual delas se impõe, se a fé à arte, se a arte à fé. Sabemos que Santa Maria é uma só, mas o modo como está representada é decisivo para a fé do crente. Cada representação manifesta um atributo, o mesmo é dizer, uma força específica, um poder que é sempre sobre-humano. Mas não ficamos por aqui. Na imensa escala que é atribuída a toda a vastíssima imagística, na tão exuberante quão luxuriante envolvência, ainda que se não acredite nos poderes que lhes são atribuídos, ainda que nem se seja crente, a arte sacra atrai e conduz a grandes reflexões, a grandes momentos de silêncio interior. Por exemplo, um católico sabe que visitar a capela Cistina é mais importante que visitar a mais bela das sés do seu país, assim como é importantíssimo para um islâmico visitar Meca. Isto porque qualquer crente que se preze, e que tenha posses económicas para o fazer, conhece, ou deve conhecer, as imagens e os locais mais representativos da sua congregação. Por seu lado, o não crente vê nessas obras grande manifestação artística representativa de

os segundos que a nossa estrutura afectiva. Por outro lado. a fé está circunscrita às dimensões linguísticas e imagísticas. mais poderosa. a qual assenta na articulação desta dualidade palavra/representação de que não podemos sair. os elementos da Natureza. mais eficaz. já não os Reis Magos. No fundo. Porquê? Porque o novo simbolismo responsabiliza o crente no merecimento de uma vida no além. mas uma força libertadora. o nosso estar no mundo. insistem outros. Mas será que é mesmo assim? Talvez por novas exigências da fé. é tão difícil crer sem palavra e sem imagem como por intermédio de ambas. Mas há também a outra face. o mundo cristão está a remeter as antigas figuras para o campo da sua natural historicidade. ao encontrá-la. se tivermos em consideração os actos de fé. a nova protecção. forma de abstracção. defendem também. Do nosso ponto de vista. As imagens das igrejas falam cada vez mais a linguagem do artista que as concebeu e já não tanto da fé. mais incisiva. cores e respectivos modos de os dizer. isso é transpor a fé para a Ciência. porém. A História da Arte tem que forçosamente passar por aqui. cuja figura é metade . não um garante de poder. na área da fé. o nome e a imagem trazem a certeza de uma existência que nos transcende e que está tão acima de nós que. Por exemplo. Por outras palavras. bem como a nossa fé precisam de um suporte que lhes confira estabilidade e confiança. e já é muito. seria ultrapassada. de outro modo. a fé tem que se auto-reflectir.momentos históricos importantes. Exemplo: crer em Jesus porque se acredita no que ele disse é uma coisa. assimilando as imagens de outras formas de religião. A estátua é mero caminho. Consequentemente. Do Oriente vêm. Ora. o simbolismo de palavras poderosas. Quando alguém diz que a Ciência justifica a fé e prova as suas verdades. O que está em causa é a própria fé. Por outras palavras. essa plataforma é estruturante da crença. A fé livre limita-se a acontecer. Os elementos linguísticos e imagísticos são. Há quem pense que uma das grandes dificuldades em sedimentar a fé num só Deus. Polémicas à parte. entre uma infinidade de outros materiais que trazem consigo as novas forças. reside na imposição da ausência de nome e imagem. é absolutizá-las. Orar a Jesus ou a Deus junto de uma representação figurativa não é mais ou menos intenso na fé do que fazê-lo sem qualquer representação. parece-nos que impor a palavra/imagem. Mau seria que a fé parasse na imagem e na linguagem. tudo isso é extremamente frágil uma vez que. que não é uma qualidade de mais ou menos. sem ambas. perdida na trama do inato e do adquirido. por um enfraquecimento dos poderes do santo ou tão simplesmente por cada crente se sentir implicado nas forças divinas. o indivíduo está a exteriorizar uma força interior que pode não ser idêntica à do outro. de tal forma que crer torna-se um acto dependente de parâmetros inerentes à geometria de traços e linhas. reflexos distorcidos. fazer do seu discurso uma transcendência é outra. Ganesha (figura muito importante do Hinduísmo). há quem tenha dificuldade em acreditar em Deus. portadoras de novos (no sentido de novidade) poderes. os seus ícones inspirados na abóbada celeste com a sua diversidade de cores. Os primeiros dizem que estão a dizer o indizível e a representar o irrepresentável. de uma mundivivência interior. é uma forma de sacralizar tubos de ensaio e tabelas. Por outras palavras. A palavra e a imagem carregam consigo a pobreza da sua mesma finitude num universo de fé sempre insatisfeito. sempre insuficientes porque a fé é mais exigente. a fé não encontra uma certeza material porque. o certo é que se está a assistir ao deslocar da fé através das antigas ou modernas imagens (estas mais não são que um apontamento superficial representativo de uma forma de fé no seu aspecto mais cultural. mas os budas. ao manifestar a sua crença. numa frágil alusão à tradição). único e uno. não tínhamos acesso a ela.

mas que todo o mal seja definitivamente banido e tornado num bem. não meditar. nem a inactividade. O perdão está implícito na pluralidade de vidas. surdo. de pedir perdão à Divindade. E não temos que o condenar. Este. quando passeamos o nosso olhar pela arte sacra cristã deparamos com a dificuldade em encontrar traços que nos pareçam genuinamente cristãos. isto é. Aprende-se que a vida é múltipla. fá-lo se quiser. Por outro lado. o sofrimento deixa de ser um castigo herdado de outro. mas o esotérico exige uma limpeza mental e comportamental que diríamos quase sobrehumanas. Repare-se. tão plural quantas as vidas mais não é que a divina compreensão de Deus de que não podemos ser melhores… aqui e agora. herdeira do seu passado muito ou pouco remoto. Em estreita ligação com a Natureza. As novas formas de fé não dizem que o Diabo seja cego. metade elefante. o mal torna-se bem como a semente árvore. e isso já é outra problemática. pretende conduzir o crente à consciência da sua força interior. ao lado de um jardinzinho zen. na sua dupla dimensão histórica e espiritual. Margarida Azevedo . Com tudo isto. imposição de uma forma de fé a uma força e ordem vigentes por imperativo de um trabalho missionário. Um outro exemplo tem a ver com o tão famoso movimento Zen. Quanto à sua arte. culminando cada imagem numa representação das suas forças poderosas. pode ascender a níveis de grande iluminação. A mente toma um lugar preponderante. O oculto só o é na medida do não merecimento do crente. porque o animal é inferior ao homem. faz sentido colocar a questão de saber se há realmente uma arte cristã. Por isso. o que se está a passar é perfeitamente natural. ninguém é obrigado a desenvolver a sua força interior. mas persistência da força mental no bem. que são sempre um gesto do amor de Deus. mas força (sempre a força) para viver em conformidade com os Seus desígnios. um momento em que não se faz nada: não ler. isto é. É o que justifica que qualquer cristão muito convicto ore a Deus de lamparina acesa no regaço de uma deidade hindu. mudo e coxo. pela sua boa conduta. Provavelmente será mais correcto afirmar que há uma visão cristã da arte pagã. se o homem quiser. uma paragem total para readquirir força para continuar a enfrentar a vida. Esta filosofia defende que se deve ter. não estudar. o sagrado cede o lugar ao exotérico/esotérico. Ele sabe que o exotérico está ao nível de qualquer oração. Cada um é o efeito da sua própria causa. isto é. a falar verdade. Herdeiros de um Cristianismo das origens eminentemente plural. e na parede um crucifixo. se o homem quiser pode ter a força de um elefante. culmina em castigo. As figuras orientais inauguram uma vivência do exoterismo/esoterismo numa luta exorcizadora do destino e da fatalidade. O Cristianismo ainda não foi capaz de se assumir como um movimento de boa-nova genuinamente monoteísta. A raíz do sofrimento é a própria pessoa. e este é o rei da criação. no dia. Quanto ao bom. porque o ócio é pecado. consequentemente. a não ser cumprido. Ambos os casos são impensáveis numa vivência puramente cristã: nem a imagem de dupla apresentação. não trabalhar. não é por meio de uma imposição ou de um imperativo que. os cristãos estão a fazer jus às suas origens. Já não se trata. não o é por martírio. enquanto não aprendem quem é Jesus. a dificuldade é tão grande que. donde a figura representa a vitória sobre uma infinidade de vidas que culminaram em felicidade inefável. Esse perdão. Assim.homem.

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